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Olá, começa agora o programa Questão de Ordem. O CENS 2022 do IBGE registrou 14.000, 1,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o que representa 7,3% da população com 2 anos ou mais de idade. Há estudos que identificam uma correlação entre a prevalência da deficiência com menor acesso a serviços básicos, educação, saúde e qualidade de vida em geral. A maioria das pessoas com deficiência no Brasil se identifica como parda, 6,4 milhões, branca 6,1 milhões. Em seguida, as pessoas pretas 1,8 milhão. Indígenas 78.000 e amarelas com 55.000. Em Campinas são 80.000 pessoas com deficiência, das quais 15.000 autistas. Então, quais são as dificuldades das pessoas com deficiência? Seja ela física, auditiva, visual ou intelectual? É na educação, na saúde, no mercado de trabalho e o que é realizado aqui na cidade de Campinas. Bom, são muitos questionamentos e para respondê-los eu recebo aqui no estúdio a Daniele Guimarães. Ela que é diretora do Departamento de Política, Acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência. e de forma online a Juliana Soares, que é advogada nas áreas de direito de saúde, PCD, trabalhista empresarial, é mãe atípica, membra da comissão PCD da OAB Campinas, presidente das comissões PCD e Direito de Saúde da OAB Valinhos. Lembrando que o debate vai acontecer, farei as interrupções apenas quando o necessário. Daniele, eu começo com a senhora. Quando nós falamos em inclusão da pessoa com deficiência, provavelmente a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é acessibilidade física, mas inclusão é um conceito muito mais amplo, né? O que que significa na prática construir uma cidade verdadeiramente inclusiva? Seja bem-vinda mais uma vez ao programa Questão de Ordem. Obrigado, Gabriel. Obrigado, Juliana, por estar aqui conosco. Obrigado por essa oportunidade de debater, de falar sobre esse tema, o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência, que tem 44 anos, viu, Gabriel? Foi foi com iniciou-se com os movimentos da pessoa com deficiência, porém só em 2005 que ela foi promulgado como lei, né? E só 10 anos depois dessa da lei da da do dia nacional, nós temos a lei brasileira de inclusão, a lei brasileira de da pessoa com deficiência, né? Então aí a gente pensa o que é inclusão? é um, você tá certíssimo, é um conceito muito mais amplo do que somente as barreiras físicas, porque não é só não é só vencer essas barreiras de chegar a teu lugar, é pertencer a este lugar. E para pertencer a este lugar, ele tem que se conectar com as pessoas. E aí vai muito da atitude daquela pessoa naquele ambiente, vai muito da atitude da sociedade. Infelizmente a nossa sociedade ainda tem um olhar ah de préonceito, eh, quanto a este quanto a pessoa com deficiência. Então, quando ele vê, principalmente quando ele consegue ver aquela deficiência, muitas vezes ele enxerga a deficiência antes da pessoa. Então, aquela deficiência salta muito aos olhos da sociedade e faz com que ele questione se aquela pessoa tem capacidade, se aquela pessoa tem habilidades ou pode realizar certas ações por conta daquilo que ele vê primeiro. E o que a gente quer é que todos enxerguem primeiro a pessoa, porque quando você enxerga a pessoa, você consegue entender, consegue se aproximar dela e derrubar as barreiras para que essa conexão aconteça. Essa o principal ponto de inclusão, realmente uma inclusão, não apenas uma inclusão na parte arquitetônica de uma cidade. É isso, né? uma acessibilidade atitudinal que já já nós vamos falar também aqui no programa Questão de Ordem. Juliana Soares, do ponto de vista jurídico, o Brasil possui uma série de leis e mecanismos de proteção às pessoas com deficiência. Problema hoje tá mais na ausência de direitos ou na dificuldade de fazer com que eles eh sejam efetivamente cumpridos. Seja bem-vindo ao programa Questão de Ordem. Olá, pessoal. É uma honra, né, esse convite. Quero agradecer ao Gabriel, quero eh parabenizar o programa pela pauta, né? Quero estou falando hoje em nome da comissão de PCD da OAB de Campinas, que é presidida pela Dra. Vivian, eh, mas também sou presidente daqui da de Valinhos, né, da OB de Valinhos. Então, nós temos a nossa região aí são eh os números você mesmo apontou, né, Gabriel? Nós temos muitos números nesse sentido. E quando a gente diz respeito à legislação, o nosso país é um dos países que tem mais legislação com relação à pessoa com deficiência. Então, no meu no meu ponto de vista, o que uma da uma dos principais eh eh problemas que nós nos deparamos hoje é que eles não há a aplicabilidade disso. Então, não há aplicabilidade. Um ora pela ausência de fiscalização, ora pela ausência de empatia, muitas vezes, eh, e em gestos simples. Então isso inclusive é uma das preocupações eh como como membro da OAB, né? A gente sempre faz palestras de conscientização, eh traz traz essas informações pra sociedade no geral, exatamente para demonstrar que, eh, se há uma legislação, ela tem que ser cumprida. Então, é é uma coisa simples. Você tá num num shopping e aí para o carro lá na vaga zebrada. E muitas vezes você vê que às vezes o o próprio funcionário do shopping tá falando: "Não, pode parar aí, não tem problema". Tem tem problema sim, porque se ela ela tem uma função. Então assim, eh a gente sempre busca fazer essa essa multa moral no sentido não de você sair brigando, mas de você fazer uma conscientização. São coisas que às vezes as barreiras para um é uma coisa tão simples, mas para outra é o que vai impossibilitá-lo de exercer o que ele ia fazer ali, né? Então, de entrar num carro, de sair de um carro, às vezes precisa também quer comprar alguma coisa, não consegue. Então, assim, é o respeito a as regras, que é uma coisa que a gente aprende desde criança, mas que, infelizmente, a gente vê que o eh hoje em dia isso ainda não é aplicado, mas temos muita muita legislação e a própria legislação ela traz uma coisa que ela sempre traz muito falando sobre igualdade, né? Né, Dani? a gente fala muito sobre igualdade, a legislação igualdade, mas na verdade, na minha humilde opinião, nós nós teríos que substituir um pouquinho a palavra igualdade por equidade, tá? Porque assim, eh, depende do tamanho, eu costumo brincar nas palestras que eu falo, depende do tamanho do caixote para saber se eu vou conseguir ou não olhar do outro lado do muro, né? Então assim, eh, o muro tá lá altíssimo. Aí uma pessoa que tem a a deficiência, ela não vai conseguir olhar por cima do muro se o caixote dela for do mesmo tamanho que uma pessoa que está em pé, por exemplo, uma que faz um uso de cadeira de rodas. São coisas simples. E isso não adianta você falar que a o muro não tá lá, não tá igual, tá? Mas a equidade faz com que essas ambas as pessoas tenham acesso ao outro lado do muro. E aí eu e aí eu vou além, Ju. No desenho universal, esse muro nem existe, porque aí ele torna realmente igual para todos. Em vez da gente eh colocar mecanismos de de derrubar as barreiras, aquela principal que seria o muro, ela já não existe para as pessoas, porque aí todos estão assistindo, todos estão vendo. Só que é um sonho que parece muito longe. Então, a gente começa com a equidade, a gente até chegar no desenho universal, talvez ainda leve décadas para isso acontecer, para que todos tenham acesso da mesma maneira, com todos os mecanismos, ferramentas que permitam a participação de todos. Ô Juliana, e se me permite, quando você tava falando, né, eu lembro de uma imagem que retrata exatamente isso, né? A diferença de igualdade para equidade. Então, eh, neste exemplo, pelo que eu me lembre, você tinha um muro, vamos supor aqui, de 1,80 m. Aí você tem uma pessoa que tem 1,81 m, então, portanto, ela consegue olhar acima do muro. Aí tem uma pessoa menor de 1,70 m e tem uma menorzinha de 1,60 m. Aí você tem quatro caixotes de acordo com a ou três caixotes de acordo com a igualdade. Cada um ganha um caixote e tá tudo resolvido. Só que a pessoa que já tem 1,81, ela não precisa do cachote. Então a pessoa que tem 1,70 ficaria com um caixote e ela enxergaria. E a pessoa que tem 1,60 m ficaria com dois caixotes e ela também chegaria. Então a equidade é isso, né? Quem tem 1,81 não precisa deste caixote e as outras pessoas sim. Seria isso, essa questão de equidade, de entender o que está acontecendo para você poder lutar, paraa sociedade ter mais conscientização e para que as pessoas com deficiência tenham seus direitos assegurados. Exato. Exato. Exatamente isso. E assim, é esse mesmo exemplo que a gente dá na essa figurinha que a gente coloca nas palestras que é um exemplo clássico, né? Mas assim, e não é só isso, como como eu coloquei, além de advogada, da área, né, me especializei inclusive na área, na nas duas áreas direito de saúde e da pessoa com deficiência, eh eu sou mãe do Lucas que tem síndrome de Dal. Então, hoje eu vivencio isso na pele, todas as dificuldades que uma qualquer deficiência traz. Eh, então eu hoje eu tento utilizar da da da o meu conhecimento como mãe e como advogada para ajudar outras famílias para ter acesso. Porque quando a gente fala de acesso, de novo, nós vamos na igualdade, tá previsto na Constituição Federal, todo mundo tem acesso à educação, à saúde, né, ao trabalho, moradia, blá blá blá, tá tudo bonito lá, mas na prática a gente vê que não é isso que funciona. Então, eh, quando a nossa luta é muito árdua, mas eh eu não, eu costumo falar que desistir não é uma palavra que eu nem conheço. Então, então assim, a gente vai seguir vai seguir ajudando as famílias nesse sentido. Ainda como a própria Daniele destacou, ainda é um universo muito distante, tá? é um mundo perfeito. Mas eu acho que assim, cada vez mais, gente, eu tenho percebido eh o que eu tenho plantado sementinhas. Eu não sei se Daniel, é a impressão que você tem, mas eu vou, a gente vai plantando sementinhas com pessoas que nunca tiveram contato, com nenhuma pessoa com deficiência, tá? Por quê? Porque eu começo a conversar, por exemplo, as pessoas da da da minha idade, né, dos que entraram zenta, a gente falou, vamos pensar lá na época na escola tinha, alguns tinham, outros não, a maioria não. E aí eu paro, falo para elas para assim, vocês já pararam para pensar por que não tinha, não é direito de de estudar, todo mundo tem direito, né? Eh, mas o problema era como era a acessibilidade do local, se era cheio de escadas, a pessoa não conseguia se locomover, o professor tava preparado, não. A criança conseguiria se deslocar até, tinha um um transporte para ela se deslocar até a escola adequado? Não. Então, muitas vezes, eh, a, eh, a criança na época a gente não falava de autismo, né? Mas obviamente ele sempre existiu, ele só tem um nome da um diagnóstico, mas a as estereotipias, o o comportamento, isso já vem de sempre, né? Então assim, na escola não tinha. Então, o que que eu tenho tento trazer isso paraa sociedade hoje para ficar verificar uma forma de assim eh que não mostra em que pese não tem lá atrás? Por que não ter essa abertura no nosso na nossa vida para chegar perto de uma pessoa quer deficiência e perguntar para ela como foi o dia dela. Ô Juliana, eu já vou entrar nessa questão eh da educação que ela é fundamental. Você citou a questão do autismo. Então, ô Daniele, pessoas com transtorno do espectro autista entraram nesta estatística do senso. Qual que é a importância de se reconhecer como uma deficiência e de ter um número, para pelo menos ter uma ideia, nem que for aproximada aí do número de pessoas com o transtorno do espectro autista no nosso país. Mas claro, no contexto aqui da cidade de Campinas também. os números começaram a crescer muito da do do da criança, do adolescente, do adulto, inclusive que tem o o diagnóstico tardio. E precisa se olhar para essa pessoa que tem o espectro autista de uma forma diferente, no sentido de que a principal dificuldade dela é a socialização. Então, se você for pensar nas nossas salas de aula com 30 alunos, mesmo 20 alunos ou mais, essa sala precisa estar com apoio. Ele ele tem que ter liberdade de sair para que ele possa participar como os outros, mas ele tem que ter o momento dele de não ficar ali, porque às vezes isso pode trazer para ele uma crise. Eu tenho, eu tenho um sobrinho autista e que ele precisa desse apoio, ele precisa da, das, das provas adaptadas. Então, existem toda uma série de coisas que precisam ser feitas para que essa pessoa e essa pessoa nem sempre ela tem alguma dificuldade ah cognitiva, não no ou uma deficiência intelectual. Ela é uma pessoa que produz muito, ela é uma pessoa que tem hiperfocos em em algumas habilidades e ela pode ser uma pessoa completamente h produtiva na sociedade, né? Eh, o produtivo normal, se ela tiver as ferramentas certas. E ainda nós temos muita dificuldade na educação para essas, porque o sair do discurso ir para ação é muito complicado. Essa professora de uma escola comum, ela ela tem na na mão dela 30 alunos. E aí, será que ela consegue parar todas as vezes que aquela criança precisa de um apoio? E será que o estado consegue ter um apoio para todas as crianças para não perder esse sentido de que ela tem direito à educação? Mas como que como que isso acontece? Então, é necessário um olhar mais próximo para saber. E eu penso, algum, algumas pessoas acham que não, mas eu penso que diagnóstico precoce é uma resposta positiva, porque quanto mais cedo essa criança, esse adolescente for expostos, exposto a terapias, a cuidados eh voltados paraa deficiência dele, mais cedo ele pode demonstrar que ele ele vai se sair bem, ele vai ter apoios, vai ser funcional. Exatamente. Mas esses problemas que existem é mais por uma questão de gestão ou uma questão financeira? Eu diria que os dois. Eu diria que os dois, porque assim os os números estão crescendo bastante, né? E aí são poucas eh são poucos locais, vamos dizer, que podem atender essa criança integralmente, né? A, vamos dizer, as entidades, as organizações da sociedade civil. E aí, mas nós precisamos colocar todas as crianças porque elas têm direito, entendeu? E pensando na deficiência do autismo e eh especificamente, essa criança vai demorar ou esse adolescente vai demorar muito para sair dessa entidade. Talvez nunca, porque ela sempre vai precisar de apoio. Então não é uma tema, mas uma saída lá longa. Uhum. Porque ela precisa do apoio de profissionais o tempo inteiro. Dependendo do grau de apoio dela, que pode ser um, dois ou três, ela ela ela precisa de apoio até para suas necessidades ah mais básicas para comer, para ir no banheiro. Então isso demanda muito, demanda muito do estado, demanda muito da família, tá? Aí nasce uma mãe que tem que ficar 24 horas por dia com aquele filho. Ela não tem escolha. Ela não tem escolha porque se ela não ficar ali, mais ninguém fica. Hoje se fala de 80 90% dos maridos ou dos dos pais que deixam as mães quando tem uma criança com deficiência. Então essa mãe, ela tem um cotidiano exaustivo, porque ela cuida da casa, ela tem que prover de algum modo. Geralmente ela tem que ter uma bolsa, uma bolsa, um BPC para ela, LOAS. E aí, como que ela vai fazer? E tem que estar ali 24 horas para o filho, para a filha, porque ninguém mais vai fazer. Juliana, juridicamente, quais são as obrigações de uma escola diante de um aluno com deficiência? Onde termina a responsabilidade da instituição e começa a responsabilidade do poder público? Isso. Vamos lá. Na verdade, assim, a legislação tanto tanto para uma escola pública como uma escola privada, ela é a mesma, no sentido de que ela tem que ter, e isso eu gosto muito de de explicar, Gabriel, é porque assim, todo mundo fala assim: "Ah, professor de apoio, tal". E aí fala assim: "Ah, mas a professora, como até a Daniele colocou, com 30 alunos não vai conseguir eh dar atenção necessária para aquela pessoa, aquela criança que tem uma deficiência?" É óbvio que não, porque na verdade nós temos três personagens aí dentro da sala de aula. Um é o professor regente, que é esse professor que é o titular da sala. Ela ela é professora de todos os alunos. Concorda? OK. OK. Só que alguma parte dos alunos vai precisar de uma atenção maior. Então, a obrigação da escola aqui é ter um professor especializado em educação inclusiva, porque a legislação fala em profissional especializado, tá? E isso é o professor, ela a escola tem que ter. Por quê? Porque precisa fazer o o plano de ensino individualizado, que é o PE, tem que fazer as adaptações eh razoáveis que tá previsto e não necessariamente elas podem ser iguais, porque numa sala onde tem três crianças com síndrome de D, quem falou que as três crianças vão precisar da adaptação da mesma maneira? Cada indivíduo é um indivíduo. Sendo ele típico ou atípico, ele é um indivíduo. Até porque dentro de uma sala de aula, a professora já se depara não só com com as condições de quem tem um diagnóstico, um laudo, mas também ela se depara com as condições sociais. Então aqui o terceiro personagem que eu falo é isso, é o professor, o professor especializado e o cuidador, que é o que vai fazer essa eh auxiliar nas necessidades especiais de cada criança. Então, a obrigação da escola, seja ela pública, seja ela privada, é ter esses três personagens, a disponibilizar esses três personagens para que a criança tenha um suporte básico. Isso, gente, é o básico. Quando a gente trata, e aí vai um outro personagem que eu vou falar aqui para vocês, quando a gente trata de uma criança que tem um comportamento muito eh agressivo, que ela faz e tem autolesão ou lesiona outros, ou seja, o suporte, né, de o nível de suporte dela, uma criança com altíssimo, com nível de suporte eh mais elevado nesse tipo da questão comportamental, porque nem todos têm, tá? tem muitos que não t ela precisa de um acompanhante terapêutico também, que isso não é função da escola, isso é função da saúde. Então aí é por isso que eu falo, eu judicializo aqui sempre ações nesse sentido e essa é a minha briga com o judiciário, porque são personagens totalmente diferentes. esse esse acompanhante terapêutico, ele vai fazer a regulação dessa criança para que ela consiga estar naquele ambiente, para que ela consiga ser incluída na sociedade e tem tenha relação com os pares, seja o o os amigos da sala, os professores, eh quem ajuda na administração da escola. ela precisa daquilo porque para ela é muito aversivo aquele ambiente. Então ela precisa se autorregular e um só um quem é quem é da psicologia vai conseguir fazer isso. Não adianta querer imputar isso para um profissional da área pedagógica, não é o papel dele. A gente tem que entender quais são os papéis, né? E é essa minha minha briga constante aqui, Gabriel. Não sei se eu expliquei, se deu para entender. Não, perfeitamente, porque daí acaba sobrecarregando a educação. Professor se sente sobrecarregado. Quantas vezes já entrevistei aqui que ele fala: "Olha, eu preciso ser psicólogo, eu preciso ser professor, eu preciso administrar junto aqui com a escola, com o pai. E aí o a matéria, disciplina acaba ficando em segundo, terceiro plano, né?" Exato. E depois tem as vulnerabilidades sociais também dessa família atípica ou de outras famílias. E ele e ele tem a responsabilidade dentro da sala de aula, responsabilidade é dele, da, entendeu? Então ele tem que responder por isso. É, eh, são coisas bem complexas. Ô, Daniele, quando uma família ela recebe um diagnóstico de uma criança com deficiência, muitas vezes surge uma verdadeira corrida por informação na área da saúde, da educação, de terapias, de benefícios, de direitos. Existe uma rede capaz de orientar essa família aqui em Campinas? Existe uma rede que pode auxiliá-la, mas eu eu vou falar antes disso. Primeiro, essa família geralmente vive o luto do filho ideal, tá? Tá. Para ela aceitar essa deficiência não é uma coisa mágica, não é? Veja, foram ve mes gestação. Ela, ela, mãe, ele, pai, idealizaram o bebê. Uhum. E aquele bebê não vai ser aquilo que eles idealizaram. Isso não quer dizer que esse bebê não vai fazer muitos sonhos, não vai fazer aquele casal ou aquela mãe viver muitos sonhos, mas sonhos diferentes, tá? Então, primeiro ele ele vive um momento de luto, OK? Tá? E a partir daí, dependendo da principalmente da equipe de saúde que atende essa mãe no parto ou no pós parto e como ele entrega a notícia, faz toda a diferença. Faz toda a diferença. Eh, você pode receber uma notícia de que você ganhou um problema e que essa criança jamais vai falar ou que essa criança jamais vai andar ou ah, ele, eu acho que ele nunca vai poder ir paraa escola. Ou talvez ele vá numa escola e ele não produza muito. Veja, no seu primeiro dia de mãe você receber essa notícia ou então, mamãe, eu percebi que ele tem um problema, mas como eu não sei o que que é, é melhor você já levar no médico. Só que assim, mamãe, vai, é uma coisa bem grave. Eu não vejo ele participando disso. Eu não vejo ele esse primeiro bac. Isso, isso é uma coisa que eu recebo muito das mães atípicas, é como elas receberam a notícia. A área da saúde não tá preparada para dar essa notícia. Poucos profissionais, poucos profissionais que se preocupam em como chegar para essa mãe e dizer para ela que o filho dela tem uma diferença, tem uma deficiência, mas que quanto mais cedo ela colocar ele ele num em cuidados especiais, em terapias, em assistência, melhor vai ser para ele. Mas que ele não é um problema, ele é apenas diferente. Veja como é diferente você entregar duas vezes essa notícia do que você dizer que esse menino não, esse menino, essa menina não vai vencer desafios na vida. Exatamente. Isso. Eu tive agora, você conhece o Dr. Gelis de Sumaré que tem a a amei que tem uma doença rara, conhece? Uhum. Ele dois irmãos dele morreram por essa doença rara. Então ele só movimenta do do pescoço para cima e alguns movimentos com a com a mão. Quando ele disse pro pai dele, né, imagina depois da terceira gravidez, ele foi ele foi ultrapassando o o a a a os irmãos que haviam morrido. Com 5 anos ele tava bem, já tava eh tentando ir pra escola. Aí ele fala, acho que aos 7 anos pro pai dele: "Pai, eu quero ser advogado". O pai dele olha para ele e fala: "Se enxerga, o pai dele é nordestino. Se enxerga, meu filho, porque você tem uma doença que você tá predestinado à morte". Nossa, entendeu? Então assim, é muito difícil essa essa família tomar como um desafio. Mas Dr. Jerry hoje tem 31 anos, vai casar, é doutor em direito e está lutando pelo direito da pessoa com deficiência na área da saúde. Que história, entendeu? Então é assim, porém não é todo pai, não é toda mãe que tem uma uma força de dizer: "Olha, eu vou fazer com que você ultrapasse essas barreiras, seja o que quiser ser, seja o que quiser ser. É muito difícil você encarar." Entende? Isso aconteceu comigo na gestação. Juliana, conta então sua história pra gente, porque numa resposta anterior você disse que é a mãe do Lucas. Então nos conteva falando aqui, eu vi você concordando bastante com ela. Então nos conte como é que foi este período desde contato com a área da saúde e as dificuldades, o quanto que a sua relação com o Lucas também te ajuda profissionalmente para você poder enxergar aí o que muitas famílias passam. Exatamente. Ô Gabriel, na verdade eu eu sempre soube que eu seria duas coisas na vida, advogada e mãe. Eu sempre soube disso. Então, eh quando eu fiquei grávida, eh aquilo era uma alegria na família, né? E aí eu fui fazer o a translucência no C, que é com terceiro mês de gestação. E a médica que nem era minha médica, ela ela era médica só fazer o o exame, ela foi extremamente desagradável. Ela disse que se eu não eh perguntou o que que eu estava fazendo lá. Eu falei que eu se eu sabia, eu falei que ela sabia. E ela me disse: "Olha, de cinco síndromes, achei três. Por conta da sua idade, ele não tem o nariz. Por conta da sua idade, ele não tem não sei o quê. E se você não quisesse ter filho com deficiência, tivesse filho antes?" Ela me nocouteou sem pôr a mão em mim, né? Então assim, ela foi de uma de uma grosseria. Tanto que momentos depois, sabe? Eh, eu fiquei 4 meses em depressão. Então, esse luto que a Dani tá falando, que as pessoas, as minhas clientes aqui, a maioria elas recebem a a informação no parto, né? E eu nem sei te dizer se o que que é melhor, se é na gravidez ou no parto, porque as dois são duas formas são extremamente difíceis de lidar. Mas a no meu caso, eu fiquei quatro meses em depressão e o que me fez sair em depressão foi que todo mundo da minha família ficou muito em depressão me vendo daquele jeito. Eu me sentia muito culpada pelo que as frases que a médica colocou e aí a minha mãe que é bem de idade e tal, ela falou assim para mim: "Ai, filho, eu tô com medo, você não vai dar conta". Eu falei: "Oi, não vou". O que que você falou? Falei: "Não, imagina, missão dada é missão cumprida. Estou aqui, né?" Então, tanto que tanto é que o Lucas ele me ajuda eh sempre nesse sentido, porque como eu disse na minha no falei um pouco antes, a gente não via eh não tinha tanto acesso à criança com deficiência na nossa infância. Então, o que que eu que eu fiz? Eu falei: "Não, se o Lucas veio nesse com com a con síndrome de Dal, é para eu mostrar pra sociedade o que um síndrome de Dal." E aí com um ano de idade eu fiz o Instagram dele. Aí, nossa, sofri várias retalhações. "Você tá louca expor seu filho desse jeito?" Fi, gente, eu não tenho medo de expor meu filho, eu tenho medo da falta de informação. Então, hoje com as redes sociais dele, a a Dani conhece, encontramos outro dia com ela, ele tava junto, eh, com as redes dele, é possível ver que ele vai à escola, ele vai à natação, ele vai ao cinema, ele é modelo com 8 anos de idade. Mas tudo isso, Gabriel, foi foi permitido ao Lucas pelo tratamento precoce. A intervenção precoce, ela é essencial, tá? Eh, essa intervenção ela tem que começar o quanto antes e porque tem uma a neuroplasticidade ela vai até os 6 7 anos, né, nessa primeira infância, que é onde a gente tem que sempre eh colocar o máximo de estímulos que tem para uma criança, qualquer criança. Mas o que acontece com uma criança atípica é que os pais e isso acontece, não é por maldade, é pela pela vida corrida, acaba deixando na TV, acaba deixando no e não dá tantos recursos como a gente faz com os atípicos. Por eu costumo brincar assim, falei, o meu filho faz terapia desde 15 dias de vida para poder brincar com o seu. Então o mínimo que ele que ele merece é respeito e carinho, né? Então a gente treina, tem que treinar os filhos porque eles precisam entender a brincadeira que vai ser um pouco mais difícil, mas ela não, mas não é impossível, tá? Então assim, eh, ele vai ent em vários eventos comigo, ele se comporta super bem. Por que tudo isso? Porque quando qual é o maior medo de uma família tipo? A gente fala sempre das mamães, mas tem muito papai que ainda é presente, né? Então assim, mas quando a gente fala, qual é o medo da mãe atípica? Morrer. Porque a gente não pode morrer, né? A gente tem que tá sempre em alerta, lutando por algo para que o nosso filho tenha, porque nada vem se você não brigar. Eu costumo dizer paraas minhas pras minhas clientes, eu falo: "Gente, eu não quero que vocês ganhem no grito, eu quero que vocês ganhem na técnica". Então venha conversar comigo, a gente vai discutir o caso e aí sim vocês vão lá e vão falar: "Olha, mas tá aqui, tá previsto aqui, assim, assim, assim". vai comento de causa. Então assim, eh, e eu tudo isso, essa luta árdua que a gente tem, é para que eles tenham funcionalidade. Porque um um hoje em dia no no eu falo isso a nível nacional, nós não temos as residências assistidas, que seria o maior sonho aí para uma para uma família eh que necessite de um suporte maior, porque tem crianças e jovens, como até a a Dani mencionou, que não tem não, que sempre vai precisar de um cuidador. mesmo fazendo as terapias, eles não vão ter retrocesso, tá? Mas eles vão estabilizar, eles vão ter qualidade de vida, né? Vão ter os avanços que que vai chegar num limite que não vai ter mais avanço, mas vai não vai permitir que tenha retrocesso também. Só que de qualquer maneira alguns conseguirão ter uma funcionalidade. E eu digo funcionalidade é assim eh fazer higiene pessoal, né? escovação de dente, tomar banho, trocar de roupa. Eu não tô nem falando de parte intelectual ainda, tá? Eu tô falando nessa. E aí, por que que eu falo tudo isso? Que quando chega um para mim e fala assim: "Ju, eu preciso ver a questão da curatela, mas é que eu tô vendo agora que tem a tomada de decisão apoiada." Eu falo: "Ótimo, vamos analisar cada caso." Por que que a gente precisa de de pessoas funcionais? primeiro, para que a gente desafogue essa questão da das residências assistidas que nem existem, mas que se existirem mesmo assim não vai dar para todo mundo, para que as pessoas principalmente tenham qualidade de vida, possam seguir na sua rotina, né, funcional, reconheçam dinheiro, eh eh consigam tomar decisões, a próprio nome diz, né, tomar decisão apoiada, consigam tomar decisões sem que tenha ter um alguém decidido por pela pessoa. Isso, gente, já vai ser um avanço, né? vai ser um avanço importante e é previsto todo na legislação. Você sabe, Juliana, quando você tava falando, né, a a minha irmã, ela teve um filho com síndrome de Down, portanto minha sobrinha tem e eu vi muito desse relato seu e também da Daniele, desde a área da saúde até essa busca por informações, por uma educação inclusiva. Se vai colocar num colégio particular, se vai colocar numa escola inclusiva. Então, aí que a gente fura aquela bolha que a gente vivia até então, que a gente não sabia dessa realidade e começa a buscar, né, que direito que tem, como é que eu vou fazer. Ô, Daniele, essa falta de informação, ela é uma barreira, né? Como é que você percebe isso e o que fazer para essa informação chegar pra sociedade para muitas vezes a pessoa que não tem esse contato, essa familiaridade, mas ela sabe sobre um assunto, esse é um desafio também. Gabriel, lembra que a Lei Brasileira de Inclusão só tem quantos anos? 11 anos. Você lembra quando foi o ECA, quando o ECA surgiu que demorou muito tempo para que a gente pudesse se familiarizar com ECA? Então hoje eu penso que a gente deveria discutir a LBI nas escolas, no nos espaços públicos, na assim como foi o ECA, ter programas falando sobre a lei brasileira de inclusão para que se tornasse algo tão comum que hoje a gente vê uma criança sozinha no local, a gente sabe que a gente tem que tomar uma atitude. a gente se uma vê uma criança com alguns sinais de violência, a gente sabe que tem que denunciar anonimamente, a mesma coisa deveria ser feita quantos aos aos artigos da LBI para que a gente soubesse que ao entrar no ônibus ele ele tem que ter a forma certa de entrar naquele ônibus. ele usa uma uma cadeira de rodas, que ele tem direito a um assento prioritário, que ele tem direito a uma fila prioritária, que ele tem direito a um atendimento especial para que ela, a mãe ou essa pessoa com deficiência, ela tenha ela tem empoderamento de dizer: "Não, eu estou aqui porque eu tenho um direito. Eu vou passar na sua frente porque eu sou eu tenho deficiência e por isso eu tenho direito de estar na sua frente." Então, entendeu? Tudo isso tem que ter um certo empoderamento desta família para que ela possa lutar e dizer: "A vaga é minha nessa escola aí, a vaga é do meu filho". E ele vai estudar dessa dessa forma, com apoio, com com professor especializado. Eu vejo a diferença da mãe que conhece os direitos dela. Uma das grandes dificuldades da gente é numa escola pública, por exemplo. que a mãe já chega e fala assim: "Olha, eu tô aqui porque me indicaram, mas eu eu sei que o meu filho, já por ter esse diagnóstico, já por ter esse laudo ou já por ter sinais, porque hoje a lei diz que nem precisa ter o diagnóstico, não é verdade, Ju? Nem precisa ter o diagnóstico fechado. Se ele tiver sinais, ele já tem, ele já é um público prioritário, tá? Entendeu? Mas se essa mãe não souber ainda esses esses caminhos e aí ele ela pode procurar, por exemplo, um centro de referência da pessoa com deficiência que tem nas cidades, que tem aqui em Campinas, ela pode procurar a OAB que tem a comissão, ela pode procurar a Defensoria Pública que atende as pessoas em maior vulnerabilidade. Existem caminhos. Ela precisa procurar e estar dispostas a a a entrar nisso, senão ela não vai conseguir, senão a luta dela vai se tornar cada vez mais ah difícil. Ô, Juliana, quais são os direitos que as famílias mais desconhecem? Bom, olha aqui que eu vejo que assim são muito focados na parte da educação e saúde, mas mesmo assim eles não conhecem os meios para fazê-lo. Então é isso que a que a que a Daniele tá falando de procurar a informação e os órgãos competentes. Então assim, cada cidade é de um jeito, mas a maioria que você tem que ir vai na prefeitura. O máximo que vai acontecer é alguém te informar onde você tem que ir ou não, né? Ou vai na OAB. vai na Defensoria Pública. Mas assim, o que eu vejo aqui, por exemplo, eh, que não as isenções de carro que, né, os isenções de impostos para compra de aquisição de carro, eh, que eu já que o pessoal pergunta bastante agora a isenção com relação às despesas escolares para quem paga escola, né, para ter a restituição e também a isenção daqui para frente. Isso é uma coisa que tá muito, tá muito em alta. A questão do BPC é uma dúvida constante. Então, cada caso é um caso, não é todo mundo que vai ter direito, mas se a gente fizer uma uma análise de toda a documentação, principalmente documentação médica, então a gente tem que ir se pautando. Quando a Daniele fala de buscar as informações, é porque assim, uma vez que você fizer essa documentação comprovando que você tem um, você que eu digo, não só criança, tá? qualquer pessoa que você tenha um diagnóstico, que você tenha uma deficiência decorrente daqu daquele diagnóstico, eh, para você fazer um cadastro sobre isso, usar um colar. Nós temos três tipos de colares, né? tem eh para ser utilizado. As pessoas de repente na nas deficiências eh invisíveis principalmente, é interessante utilizar para que seja respeitado o seu direito. É o FGTS, embora seja taxativa a lei que fala lá suporte três, a gente consegue se comprovar que é para uso para pessoa com deficiência em prol de algum tratamento ou em prol de alguma eu já consegui até de construção de uma de um cômodo para que a criança pudesse terapias lá. Então assim, as pessoas precisam ir atrás disso. Eh, eu advogo muito, por exemplo, ponta planos de saúde, eles não gostam muito de mim, não sei porquê, mas assim, né? Fazer o quê? Eh, eu gosto deles, mas assim, eh, gente, brincadeiras à parte, mas as pessoas não sabem uma uma coisa que acontece muito, Gabriel, a pessoa tá fazendo o tratamento com uma liminar por plano de saúde e aí o pai ou a mãe, né, a quem tá vinculado o plano, perde o plano, perde o emprego. E aí eles acham: "Meu Deus, e agora eu vou perder a liminar?" Não, nós temos ações que a gente entra com ação para manutenção daquilo. Isso está previsto na legislação. Já tem eh temas, né, no STJ sobre isso. Aposentado que tenha comorbidades e que ou deficiência também pode manter plano de saúde. Eh, que mais que tem? Deixa eu lembrar coisas mais. Tem, gente, tem tanta coisa que as pessoas não sabem. Então, por isso que é sempre bom procurar esses grupos. Essas palestras, uma orientação que eu sempre dou, a maioria das palestras, tanto que eh vinculadas à prefeitura, vinculadas à OAB, elas são praticamente gratuitas ou com uma taxinha tão simbólica, né? Mas o público precisa ir até esses eh esses eventos paraa gente poder debater mais os assuntos. E uma coisa que é de extrema importância, Gabriel, é a gente fala muito de direitos, né? Quais são os direitos? Quais? Mas qual que é a obrigação da pessoa que precisa desse direito? Sinalizar o preencher o senso. Como que a gente vai fazer políticas públicas se ela não preenche o senso? Fica difícil saber a quantidade. Juliana, esse número ele é muito menor porque estudando aqui pro questão de ordem, eu vi chamando a atenção que no censo de 2012 o número era muito maior do que foi registrado hoje. Então isso que você tá falando do senso, a gente pode dizer então que tem muita subnotificação, tem muito mais pessoa com deficiência do que apenas o que foi dito. Com toda certeza. Com toda a certeza. E eu vou te falar mais porque assim, a maioria, tá, eu acho que praticamente 80% das pessoas que que vem nos eventos da OAB e vem questionar as questões eh envolvidas a a questão pública, a primeira pergunta que eu faço é essa: "Mas você fez? Preencheu o censo na na sua cidade?" Não. Falei: "Então, mas como é que você vai cobrar se você nem preencheu?" Ah, mas gente, não tem mais, tem que preencher pra gente poder brigar em cima de um número um pouco mais concreto. Eu vou te dizer mais uma coisa, Gabriel, que eu tenho me deparado bastante. Além da questão do PCD, aqui eu faço eu, eu trabalho muito com a questão do direito eh do trabalho, então a pessoa com deficiência no direito do trabalho também e na no jovem aprendiz com deficiência, que é uma coisa que também as mães não sabem, mas assim tem curso para jovem aprendiz com deficiência. E aí quando a gente vai se deparando com essa parte na voltada pro direito do trabalho, eu vejo que as famílias que vêm conversar, vem para fazer a judicialização da liminar do tratamento do filho, muitas vezes eh não, principalmente no caso de autistas, vem já mais tarde, tardiamente não, né? Acho que nem é a palavra correta, porque vem quando a escola sinaliza, não é no nascimento como uma uma questão eh eh de uma criança que tem uma um ou num membro ou neurológico, né? Então, a questão do autismo, embora tenha crianças que a gente consiga já verificar com 1 ano e 8 meses, mas tem crianças que não, principalmente as meninas, então a gente vem um pouco mais tarde. E aí eu vejo que a mãe primeiro tem essa fase de falar: "Não, acho que não é, acho que não é, acho que não é". Aí a gente trabalha tudo isso. Ah, mas parece aí o a sogra fala: "Ah, não, mas meu filho também fazia isso aí." É, então porque pode ser que seu filho também tenha. E aí quando a criança começa a ficar, isso é muito legal, quando a criança começa a ficar bem, sabe? Ela consegue se regular, ela consegue ficar mais tempo nos ambientes, o que que acontece? O pai acaba acaba me acionando para ver se a gente para fazer o mesmo processo com ele por conta do trabalho, porque ele vê que aquelas questões que ele achava que era uma questão comum é algo que tá sendo uma barreira para ele no ambiente de trabalho. Então, e aí ele vai procurar e ele vê que ele também tem o diagnóstico, mas ele não fez esse senso. Se a criança não tá, ele muito menos, entendeu? Então assim, há casos nisso, ou há casos de diagnóstico de autismo, há casos que é diagnóstico de TDAH, mas o que é importante que a o tratamento da criança acabou fazendo com que aquela família tenha melhor qualidade de vida em vários aspectos, em várias frentes, e que aquilo foi respingar inclusive no ambiente de trabalho do pai, que aí sim a gente vai tentar fazer algumas adaptações junto ao RH para que ele tenha um ambiente melhor, né, dentro de uma das possibilidades, né, inclusive físicas às vezes. E isso acho que a gente são coisas que você tá pensando num direito, mas a hora que você vai ver você ele ramifica. Tem muita coisa. Eu ia falar, Ju, que recentemente saiu uma portaria ah da da alimentação escolar, porque, por exemplo, o autista, ele ele tem seletividade alimentar e ele só come às vezes determinados alimentos. Uhum. E existia uma tese antes de que a criança comendo na escola, ela só poderia comer aquela comida, a família não poderia mandar e com a portaria do ministério saiu e já está aqui em Campinas, tá? E e as nossas nutricionistas já estão tomando conta disso, porém às vezes a diretora da escola não sabe disso. E aí ela quer proibir a criança que só come a bolacha ou só come algum outro uma fruta ou ou só bebe alguma coisa de recentemente eu fui acionada por causa disso e aí eu acionei a nutricionista que é no SEASA que é responsável pela alimentação escolar. Falei: "Olha, eh, eu estava com você quando você me falou dessa portaria, ela falou: "Dani, estou indo amanhã na escola para ver o que tá acontecendo". Porque assim, para mim é é uma coisa completamente louca pensar que uma criança tá passando fome e que a mãe está explicando pra diretora que olha, ele só come isso, ele não come mais nada. e ela diz que não, que é um problema da da família, que não sei o quê, que não existe essa seletividade alimentar de determinados alimentos, de um alimento às vezes. E aí ela vai aumentando com a com a ajuda na nutricionista, ela vai aumentando o repertório dela, mas isso não quer dizer que vai ser um repertório de alimentos excelente. Então eu não posso proibir e isso já está regulamentado. Isso é um é recente, tá? Isso é inclusive as fonos também acabam eh ajudando as nutricionistas quando a criança tem uma equipe terapêutica, né? Entendeu? Mas assim, mas dentro do diagnóstico dela, do laudo, se o médico escrever: "Olha, essa criança tem uma seletividade rígida, ela só ela só comem isso. A escola não pode proibir que este alimento entre, né? Então a mãe tem que tem que mandar esse alimento, né? Se não tem na escola, a mãe tem esse direito de mandar esse alimento. Então eu eu vivi isso recentemente, eu queria contar que imediatamente foi tomado as providências, tudo, mas aquela diretora talvez não sabia o quanto isso era importante para a criança autista, para a criança com teia e o quanto esse já é um direito dela, dela poder estar ali a mãe dando uma orientação de dizendo: "Não, ele só come esse alimento, eu tô trazendo". Sim. Ô Juliana, isso mostra e ratifica que é um trabalho intersetorial que precisa acontecer da sociedade civil, então da pessoa como mãe, da área da saúde numa figura de uma fonou de uma nutricionista, da área da educação, seja uma diretora, seja uma professora. Então assim, são muitas áreas que precisam estar interligadas e que muitas vezes não estão. Não estão, Gabriel, é é a cadeirinha, né? A gente costuma brincar que eu eu falo eu falo da rodinha e tem gente que fala que são as quatro quatro eh perninhas da cadeira. Então são os pilares disso, né? Nós temos a família, o médico, a equipe terapêutica e a escola. E esses quatro eles têm que falar a mesma língua. O que eu oriento sempre, mas viu Gabriel, quando eu falo de orientação, veja, eu oriento normalmente as pessoas que judicializaram, né? Então, ou quando vão nas palestras ouvir. Por isso que eu falo, vai ouvir, né? Né, Dani? Porque daí a gente sempre fala a mesma coisa. Eh, beleza, Ju. Eu sempre falo que que que vai determinar a você ter um direito um pouco mais abrangente é um um bom laudo médico e uma avaliação terapêutica para que tenha um pilar nesse sentido. E aí desse pilar vai ter se precisa de das adaptações ou não, se a criança tem seletividade alimentar ou não, o que que ela pode comer, que horas que ela pode comer, eh o que, né, eh, as intervenções dos terapeutas junto à escola. para ter uma troca. Então eu oriento as famílias a pegar toda essa documentação, fazer uma pastinha e entregar isso, protocolar isso na na escola lá do médico, lá do terapêutico. Para quê? Para que a escola conheça aquela criança, porque as as crianças, eu eu falo isso pelo meu, eles são avatares diferentes, né? Então, em casa ele é um avatar, na escola ele é outro avatar e na clínica ele é outro. Então, e cada um precisa conhecer. Então é uma orientação básica, mas aonde a gente tem essa barreira em conseguir essa documentação. Porque não não às vezes para fechar um diagnóstico eh de autismo, por exemplo, tem família que demora 2, 3 anos na fila. Já falei, eu já ouvi família que já levou mais de 10 anos para conseguir, entendeu? E aí e aí você pergunta, tá? Você tá me dizendo que ela vai ter acesso a terapias? Tá tudo bem, mas e aos benefícios e aos direitos que em qualquer lugar hoje eu eu tenho que apresentar meu laudo em vários locais para que eu tenha acesso. Só que eu sei fazer isso, mas é aquela criança e aquela família que agora que tá, como é que vai ser? Claro, entendeu? Não, olha, meu filho, ele tá ele tá em processo, mas ele tem ele tem o autismo, ele tem, né? Não, ele quer o papel. Ele quer o papel. Ele quer o sid. Ele quer o sid. Não é ou não é, Juliana? É. E isso acontece, por exemplo, eu tive casos aqui, gente, que aconteceu com criança com diabetes. A criança tinha, se não me falha a memória, eu acho que era cinco para 6 anos, alguma coisa assim. Como que a criança ia fazer a autoaplicação? Eu saber que horas que ela tinha que comer o alimento correto? e foi conversado, foi conversado com escola, foi orientado através de toda essa documentação que eu falo, que eu peço, né, laudo médico, terapêutico, enfim, a gente montou um um processinho aí, um administrativo, entregou na escola, protocolou com todas as diretrizes da nutricionista, tal, que a escola falou que não ia fazer. Aí a gente teve que judicializar para quê? para que ela tivesse um acompanhante lá da área da saúde. E aí a criança teve o acompanhante da área da saúde dentro, né, que são secretarias diferentes, mas eles tiveram que tirar recurso de um ou de outro, colocar, porque não adiantava um acompanhante eh de apoio, um cuidador, porque ela precisava ter os requisitos básicos da questão da saúde da criança, tá? Então isso também é um direito da criança ter. Se ela precisar, ela precisa ter e ponto. Mas tudo isso é através de muita luta, muito documento e é isso. Programa bom é programa com muitas informações e passa rápido, viu? Já uma hora já de questão de ordem, já recebi aqui o sinal. Então, pra gente poder encerrar, que já que a gente falou bastante sobre esse direito é das crianças, né, de educação, falar um pouco sobre saúde, a Juliana tocou no mercado de trabalho, que eram assuntos que por conta do tempo eu ia abordar mais, mas que ah, não conseguiu, porque eu sei que realmente, né, é muito extenso, tem muita coisa. Acho que cada setor acho que daria um programa, né, Juliana? O mercado de trabalho dá um, pra área de saúde daria outro, pra educação é outro. o que mostra que realmente é é um um caminho que a gente precisa percorrer e o quanto antes, né? Isso é é a curto prazo. Pra gente poder encerrar então no meu último assunto, de acordo com o censo, aqui na cidade de Campinas, a maioria dos deficientes tem mais de 60 anos, são 33.000 pessoas. As políticas públicas também estão voltadas a essas pessoas, Daniele? Eu diria mais, Gabriel, que seria mais como um apoio. Por exemplo, alguns na área de esporte tem o centro de convivência do idoso, tem o centro dia do idoso pela assistência social, então são mais como apoio do que efetivamente estar cuidando 24 horas por dia, entendeu? Então existem políticas de apoio. A gente ainda tem que dar alguns passos à frente pra gente poder dizer, realmente nós temos políticas que cobrem essa população com efetividade e tempo integral. Eles podem sim procurar assistência, saúde, mas ainda falta alguns passos pra gente dar para esse cuidado efetivo. Juliana, essa pessoa teve dificuldade na área da educação? não teve dificuldade na área da saúde, passou pelo mercado de trabalho e agora é um idoso. Como é que é esse idoso, uma pessoa com deficiência aqui na nossa região? É, como a Daniele falou, eu acho que ainda é muito embrionário falar que tenha uma uma assistência nesse sentido. Eu falo muito por conta das barreiras até físicas, porque assim, a pessoa além dela ser uma pessoa com deficiência, ela por conta da idade, muitas vezes ela tem a questão da mobilidade reduzida, né? E eu costumo brincar com os engenheiros que eu conheço. Eu falei: "Vocês quando ficarem mais velhos, vocês vão conseguir morar na casa que vocês construíram porque não tem os banheiros, enfim". Então são coisas que a gente tem que olhar. Agora eu acho que assim eh falar que tem um uma assistência eh eh são pequenos pontos eh pequenos pontos que a gente vê o o algum algum lugar um pouco mais acessível com rampas, mas mais mas espaços bem públicos, né? Mas isso a gente teria que terem em lojas, a gente teria que ter eh em restaurantes, teria que ter em todos os lugares, porque assim, não é porque a pessoa é idosa ou com deficiência que ela só vai na prefeitura ou só vai no posto de saúde, ela precisa, de repente ter uma parte cultural aí que tenha também ter essa visão. Mas assim, a gente não vai desistir, né, Dani? Então assim, eu acho que vamos lutar para que isso aconteça, mas de repente já com uma visão de que o que for construído daqui paraa frente já venha construído como de uma forma mais acessível. E isso eu não digo só eh em áreas em áreas públicas, eu digo em todos os locais. Esse Dia Nacional da Pessoa com deficiência, uma lei de 2005, eh aumentou a visibilidade, a conscientização das pessoas. É um marco importante, um marco importantíssimo. Importantíssimo, porque as pessoas se viram, lembra que esse público era um público escondido, que se escondia facilmente? E aí ele começou a ver que ele ele pode estar presente porque uma lei porque está ali cobrindo ele. Então ele e ele vê na televisão, ele começa a ver e na nas mídias tudo. Então ele começa a se enxergar ali. Quando você começa a se enxergar você começa a a se se pertencer a lugares, entendeu? Então, por isso que é importante quando eu vejo teatros inclusivos, quando eu teatros, peças de teatro ou exposições, agora no no Instituto CPFL tá tendo uma exposição sensorial, muralhas da China. Então, todas essas coisas nos mostra que o mundo gradativamente está dizendo: "Olha, você é importante para nós neste mundo". Então, e é importante que as pessoas ocupem esses lugares para mostrar, olha, eu gostei, estou aqui para dar visibilidade ao seu trabalho e mostrar que existem espaços inclusivos. Dia 29 agora, lá no Passo Municipal, nós vamos ter o primeiro encontro campineiro da comunidade surda. Então, vocês já estão convidados para estarem lá. Vai ser um evento totalmente voltado paraa comunidade surda de uma forma assim que desde o apresentador vai falar em Libras e vai ser traduzido para o português. Vai ser ao contrário. Os os recepcionistas vão ser pessoas surdas. Então pra gente mostrar como são as barreiras e como é possível fazer. Ótimo. Inclusive essa reportagem da muralha da China que foi estado pela Daniele, a TV Câmara Campinas cobriu. Nós mostramos no jornal Câmara Notícia. Então é só entrar lá no YouTube da TV Câmera Campinas, dentro do jornal Câmara Notícia. Se você digitar lá, você encontra essa reportagem da Moralia da China do Instituto CPFL, que realmente é muito bacana. Tem a questão do áudio, do visual, então dá para você curtir e aproveitar também a cultura. Daniele Guimarães, diretora do Departamento de Política, Acessibilidade e inclusão da pessoa com Deficiência. Muito obrigado novamente pela disponibilidade do seu tempo, as informações que foram trazidas aqui de grande valia pro nosso telespectador. Já faço um novo convite pra senhora retornar aqui aos nossos estúdios e fica aberto as suas considerações finais. Eu quero deixar meu agradecimento à TV Câmara no nome do Gabriel, a Juliana que é sempre bom estar conversando com você. Juliana, muito bom mesmo. Obrigada por você ter estado aqui conosco e dizer que a gente tá à disposição. A nossa diretoria fica lá na Avenida Anchieta 343, onde a pessoa pode ter um atendimento de encaminhamentos para quando ela precisar de algum direito, de algum encaminhamento que tenha um direito violado ou orientação. Tem uma dupla psicossocial lá, uma psicóloga, uma assistente social no Centro de Referência da Pessoa com Deficiência. Tem a central de Libras, tem intérpretes para eventos. Então lá na Ancheta 343 eles, a família ou a pessoa com deficiência podem nos procurar e aí vocês vão ver os nossos próximos eventos que estarão. Muito obrigado. É o segundo evento. É a segunda vez, hein, Gabriel. Daqui a pouco a gente vai fazer aí uns cinco, seis em em sequência, hein, Gabriel? Que seja sempre com um cenário melhor do que o que nós temos hoje. É, obrigada. Soares, advogada nas áreas do direito da saúde, PCD, trabalhista empresarial, membra da comissão PCD da OAB Campinas, presidente das comissões PCD Direito da Saúde da OAB Valinhos, mãe do Lucas, muito obrigado também pela disponibilidade do seu tempo ter aceito o convite para participar de forma online aqui do nosso questão de ordem. Importantíssimas informações que você passou aqui para quem está nos acompanhando dos direitos, da luta, de se posicionar para você poder conseguir conquistar esses direitos. Já faço um novo convite também pra senhora retornar, seja de forma online, mas também visitando aqui os nossos estúdios e fica aberto as suas considerações finais. Eu agradeço sempre, é muito bom sempre a gente poder expor um pouco da da nossa luta e também dos direitos, porque você vê que tem tanta coisa, né? Então eu fico já aceito o convite, quando vocês quiserem, estou super à disposição. Obrigada, Dani aí também pela parceria de sempre, né? E eu quero colocar aqui as redes sociais da tanto da comissão da OAB de Campinas, PCD e como da comissão de PCD também de vale da OAB de Valinhos para quem tiver alguma dúvida, a gente puder ajudar em alguma coisa. Eh, e também já fazer um convite para vocês. Eh, eu tô terminando de montar aqui o nosso seminário, é o terceiro seminário de PCD e saúde da OAB Valinhos, que ele vai ser realizado no dia 28 de novembro e logo logo as inscrições estarão abertas. Então vai ter bastante gente falando sobre direito da pessoa com deficiência, vai ter profissionais da saúde e também da área do direito e da educação. E toda toda a sociedade é bem-vinda. E as inscrições estarão na nossa nas nossas redes no Instagram da da comissão do PCD e saúde. Então fica em alerta aí que logo logo a gente vai começar. Obrigada, Gabriel. Obrigada a todos. Agradecimento a OAB por est sempre com a gente, tá? nossa grande parceira de Campinas de Valinhos sempre. Muito obrigada. Ótimo. Ótimo. Isso é importantíssimo. E eu agradeço você aí de casa pela sua companhia, pela sua audiência. Espero que a gente tenha contribuído aí pra gente ter uma sociedade com mais equidade, né, e garantia aí dos direitos da pessoa com deficiência. Questão de ordem fica por aqui. Até sábado que vem. Ciao. Ciao.