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Ponto de Vista | Apagão da Educação
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Ponto de Vista | Apagão da Educação

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Neste “Ponto de Vista”, vamos falar sobre o risco de o Brasil enfrentar um "apagão" de professores nos próximos anos e os impactos que isso pode trazer para a educação. A queda no número de jovens interessados pela carreira docente, o envelhecimento dos profissionais, as aposentadorias e os desafios enfrentados no dia a dia têm tornado a profissão cada vez menos atrativa. O que explica esse cenário? Como a baixa remuneração, a sobrecarga de trabalho, o adoecimento mental e a perda de direitos influenciam essa realidade? E o que pode ser feito para valorizar a profissão e evitar a falta de professores nas salas de aula?

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O chamado apagão da educação já é uma preocupação entre especialistas e acende um alerta para o futuro do ensino no Brasil. Isso porque o país pode enfrentar nos próximos anos uma falta significativa de professores nas sala de aulas. Uma pesquisa do Instituto Semesp, Sindicato das Entidades Mantenedoras dos Estabelecimentos de ensino superior, projeta que até 2040 poderá ter um déficit de até 235.000 docentes na educação básica. Enquanto os muitos profissionais deixam a carreira ou se aposentam, cada vez menos jovens demonstram interesse em seguir na licenciatura. Mas o que está por trás disso? Quais são os impactos da desvalorização da profissão? da sobrecarga de trabalho, do adoecimento mental e da violência nas escolas. e também o que precisa ser feito para evitar que esse cenário comprometa a formação das próximas gerações. E para conversar sobre esse assunto, nós recebemos aqui o professor Evaldo Pioli, livre docente da Faculdade de Educação da Unicamp e também pesquisador das áreas de políticas educacionais, trabalho docente, saúde e subjetividade. Professor, seja muito bem-vindo ao ponto de vista e muito obrigado. Muito obrigado. Obrigado pela pelo convite. Fico honrado, né? participar desse programa aqui da TV Câmara. Professor, então, pra gente começar, quando a gente fala em apagão da educação, do que exatamente estamos falando? E esse problema ele já começou ou é apenas uma previsão pro futuro? Não, isso é um problema que tá posto, né? Esse problema da falta de professores, da falta de eh de atratividade da profissão, digamos assim, né? Ele já tá já tá posto, né? Mas por que que isso acontece? Porque isso tem a ver com aquilo que você fala no seu na sua apresentação, né? Tem a ver, tem relação direta com a valorização da profissão, né? E eh essa valorização ela depende de ela tem ela tá calcada em três elementos fundamentais, né? Primeiro, a questão salarial, os planos de carreira, né? segundo, as condições de trabalho e terceiro, a boa formação inicial e continuada de professores. Eh, eh, então, se você juntar esses três elementos, eh, sobretudo os dois primeiros que eu citei, eles são elementos eh centrais aí na definição da escolha da profissão por parte dos jovens, né? Uhum. Porque eh você tem eh condições salariais hoje muito abaixo do daquilo que deveria ser. Nós temos uma lei do piso que ela sequer é cumprida em muitos estados. Você tem aí mais ou menos 14 estados que não cumpre a lei do piso salarial. Muitos municípios não cumpre a lei do piso salarial, por exemplo, que garante aí um piso aí de a próximo de R$ 5.500 por 40 horas de trabalho, né? Eh, e ele sequer cumpre além de de de 1/3 dessas horas para preparo de aulas e etc. Então isso isso nós temos um quadro eh a a as formas precárias de contratação. Então você vê que, por exemplo, mais ou menos hoje nos estados você tem quase 36% dos professores no estatística geral da do senso de educação, da educação, 36% dos professores sem contratos precários, né? Você pega estados, por exemplo, como o Acre, né? O A tem 80% dos professores com contratação precária, né, contrato temporário, néum? Eh, no estado, o estado como nosso aqui de São Paulo, um cerca de 49,9% dos professores precários nessa condição de categoria O, ou seja, não tem os mesmos direitos de um professor efetivo. Uhum. não goza das mesmas licenças dos não, por exemplo, a pega a a licença maternidade, por exemplo, é menor, né? Ela, ou seja, são direitos rebaixados. Isso é um problema que tá acontecendo também nos municípios. Hoje nos municípios você tem aí mais ou menos esse montante 26% dos professores, segundo o nosso nosso observatório do trabalho do central da Unicamp. eh 26% 27% dos municípios com contratação precária, ou seja, são números expressivos, né, que demonstram aí a ausência de um de planos de carreira. Você vê que nós terminamos um um plano nacional da educação 2014224 que se estendeu até 2025. não cumprimos essa meta de de eh termos no nos sistemas educacionais planos de carreira sólido, né, para para contratação de de professores. Então isso isso é um isso é um dado importante. Outra outro dado importante, a meu ver, são as condições de trabalho, né? As condições de trabalho elas estão muito rebaixadas também, né? vai desde a a questão eh das da infraestrutura, das escolas, salas superlotadas, né? eh o o o processo de trabalho. Hoje você vê que eh esses modelos avaliativos eh de que responsabilizam cada vez mais os professores, né, para cumprir metas de metas de desempenho, avaliações eh autoritárias, né, vão criando um ambiente na escola bastante complicado, né, competitivo. Eh, eh, além de além disso, você tem hoje também eh aquilo que nós eh nós estamos acompanhando isso bastante também lá no nosso no nosso grupo de pesquisa, no laboratório, esse modelo as de educação plataformizado. Uhum. Né? Que intensifica o trabalho dos professores, desqualifica os professores, né? Ah, o modelo gerencial que retira a autonomia dos professores, né? para decidir sobre o que fazer, né? Então, tudo isso tá muito visível, né? E tá eh tá sendo expondo muito uma categoria e tá eh fazendo com que também aqueles que estão queiram abandonar. Uhum. Né? E a gente pode dizer também que a profissão perdeu um pouco prestígio para com a sociedade. Isso também faz com que os jovens não se sintam mais atraídos pela carreira. Sim. É, esses são fatores que vão afetando diretamente o prestígio da profissão, né? É claro, óbvio. Eh, então, a a a profissão ela vai sendo eh eh vista como um lugar ruim de se trabalhar, né, difícil, onde as relações são difíceis, né? Eh, então, eh, quando você desqualifica o trabalho, por exemplo, a gente costuma discutir, por exemplo, o que que é o trabalho docente? É um trabalho intelectual por natureza, né? Um, o trabalho do professor não é ele não tá fazendo garrafinha ou numa linha de produção, né? Isso não é isso. O trabalho do professor, ele depende, ele ele é feito todo dia na escola, né? Ele exige um preparo do professor, né, para enfrentar situações postas no seu cotidiano, no dia a dia, onde ele possa intervir com o saber tácitos que ele tem, com o saber da sua formação, né, intervir em situações eh que necessitam a a sua intervenção. Eh, e muitas vezes a a o formato, esse formato burocratizado de ensino, né, dirigido a metas, o ensino plataformizado, retira essa autonomia. Vou te dar um exemplo. Ah, um professor que quer discutir o problema hoje posto no Oriente Médio, né, por exemplo, a questão Israel e Palestina, né? Então, eh, quando você tem um modelo plataformizado que exige, coloca para você uma sequência de conteúdos e exige que você trabalhe aquele conteúdo, no tempo determinado, você retira a autonomia do professor, ainda que os alunos tragam isso como algo de interesse deles, de discutir numa sala de aula. Você tá me entendendo? Então, quer dizer, ah, em escolas privadas, os professores podem estar sofrendo até seceamentos, não, você tá impedido de falar sobre determinados temas. Eh, e também tá, então, eh, eu acredito que essa relação com desprestígio, com essa desqualificação, eh, e, eh, esteja vinculada também essa exposição dos professores. Aqui em Campinas nós tivemos alguns casos, por exemplo, vejo o caso de São Paulo, né, onde a PM foi numa escola de educação infantil que por causa de uma denúncia de um pai denunciar, né, que denunciou a a Polícia Militar, né, foi a Polícia Militar, a Polícia Militar foi armada numa escola Uhum. para questionar eh o a a figura, né, da da Ian Ian num material didático da própria prefeitura. Uhum. Aqui em Campinas nós acompanhamos um caso de uma professora, né? Não, não vou citar o nome, mas o caso de uma professora que trabalhou o projeto pedagógico da escola, né? Trabalhando a lei de que exige que você trabalhe com conteúdos eh antiracista na escola, né? A matriz africana da nossa história, trabalhando com material didático do PNLD, né? fez uma atividade com as crianças, né? Construiu umas umas bonequinhas e a mãe falou que era um voodu e chamou, denunciou a professora. Então você tem esses casos também dessa dificuldade, né, desse avanço também do conservadorismo que expõe bastante o trabalho dos professores, né? eh essa imagem, essa exposição dos professores vai degradando essa imagem, a imagem dele, a representação social desse profissional tão importante, né? Sim. Eh, e se esse cenário não for revertido, professor, na sua opinião, quais disciplinas ou quais etapas da educação tendem a sofrer primeiro com a falta de profissionais? a educação básica, qual a será mais atingida com relação à falta de professores? Olha, eu acho que de modo geral, eu não vou citar aqui um um um um um uma uma um nível ou modalidade, né? Ou um nível ou uma etapa da educação básica. Acho que todas as etapas estão com esse problema, né, da desistência docente, né, porque você tem uma rotatividade muito grande na profissão, né, estudos internacionais aí da própria eh do próprio Banco Mundial mostra eh que esse essa rotatividade ela eh dos professores é muito grande. por exemplo, um professor iniciante, há uma preocupação internacional com, por conta dessas condições, com a entrada do professor iniciante, né, no na carreira, ele fica mais ou menos ali 5 anos, né? Então tem tem um pesquisas que apontam evidências, né, que mostram, né, que a a desistência ocorre nos primeiros 5 anos da profissão por conta do do da defrontação com essa realidade do trabalho, ou seja, com esse choque de realidade que um professor iniciante eh sofre, né? Então, a gente a gente tem acompanhado isso daí. falta de professor apagão não há. Porque nós temos aí, se você pegar qualquer dado do INEP, do ensino superior, por exemplo, você vai ver que a licenciatura, as licenciaturas são os cursos mais procurados. Uhum. Né? Eh, eh, você forma milhares de pedagogos, milhares de professores, né? Agora, eh, por que que a gente não dá conta, né? Porque essa formação eh também essa formação ela tem ela tem fragilidades, né, para lidar com essas situações postas também, né? Então, e o nós temos eh quando um professor entra e se defronta com isso, ele com essa com essa realidade, ele acaba desistindo da profissão. Então, nós eh nós temos um um problema que não é exatamente a falta de professor ou de gente interessada a entrar na docência, mas um um problema que tá na nesse nessas nessa na falta de uma política de valorização da profissão. Então, a raiz do problema seria o abandono da profissão. Abandono da profissão, porque gera essa rotatividade maior. Uhum. Né? E o mercado educacional já percebeu isso, né? Então, lá atrás, por exemplo, lá, eh, onde se formam a maioria dos professores? No setor privado, né? O setor privado hoje ele ele ele é o que forma mais professores, cerca de 77% dos do quadro do magistérios, né? Hoje foi formado no das matrículas no em licenciaturas no setor privado, né? Então, há há uma um aligeiramento dessa formação para atender essa demanda também. Então, eh, é aquilo que a gente sempre diz, precariza o trabalho, precariza-se a formação também, vai aligerando a formação. Então, para atender a demanda, você vai fazendo isso. Uhum. E e então a a representação das da das universidades públicas é pequena nesse universo que eu tô falando para você, né? Então eu não acredito que haja um um apagão, né, de falta de gente interessada em você. que que você tem são condições de trabalho, né, postas que dificultam a permanência desses profissionais na profissão. Entendi. E essa dificuldade de permanência pode tá ligada também a essa sobrecarga de trabalho, que como você falou, não é só esse tempo em sala de aula de trabalho dos professores, é também o pósala de aula, correção de provas, o antes também preparação de aulas. É, existe hoje, é tão importante isso, né? Você pensar eh os países bons em educação lá no, né, sempre quando sai o dado do PISA, né, você pega aqueles países bons e educação, eles têm um regime de contratação de professores muito diferente do nosso. Uhum. Seja em condições salariais ou em condições relacionadas à jornada. por exemplo, eh, em geral, os países muito bons em educação, o professor trabalha, por exemplo, 20 horas em sala de aula e 20 horas preparando a sala as aulas. Ele tem uma jornada de 40 aulas, mas ele tem uma jornada robusta para para preparação de aulas. Aqui não, né? Você tem uma lei, veja, nós temos uma lei do piso que remunera um, né? Eh, 2/3, né? para 2/3 de 40 horas em uma sala de aula, né? Então é uma jornada muito diferente e às vezes a jornada do professor é extremamente extenuante, né? Porque ele não dá aula só num sistema, né? Como nós temos aqui. É comum você quando você pesquisa professor aqui na nossa região de Campinas, né? Você tem o professor que dá aula aqui, dá aula em Sumaré, dá aula em Campinas e ele dá aula em dois ou três sistemas, ou dá aula no setor privado ou dá aula no combina o estado com com o vínculo com a prefeitura, né? Então, geralmente esse professor também tem uma jornada extenuante, né? E nós estamos falando também de um trabalho altamente feminizado, né? que, ou seja, em cada cinco professores, quatro são mulheres na educação básica. Então, se nós estamos falando de uma precarização, de uma desvalorização, nós estamos falando do trabalho da feminino, né, de um nicho feminino de trabalho importante que combina a maternidade, a ter três, quatro jornadas e levar tarefas para casa é uma coisa muito recorrente. Então, quando você entrevista professores, faz o grupo focal ou conversa com os professores, esse esse pós, né, essa esse esse trabalho fora da escola, levar tarefas para casa, corrigir prova para entregar a nota, cumprir os prazos que a secretaria manda. Eh, é eh é é muito comum, né? Isso é muito comum. Todos fazem isso, né? há uma há uma dificuldade muito grande e e isso gera um desgaste também muito grande nesses profissionais, né? A dificuldade eh de lidar com a situação, as coisas de casa, separar o a esfera privada do do, né, do seu trabalho. Sim. E por conta de todo essa sobrecarga, né, eh, desvalorização também, como que, eh, na sua opinião tá a saúde mental do professor, do docente? Então, e o que o que a gente tem estudado é que esses esses modelos de de avaliação, esse modelo gerencial que tá posto, esse esse esse modelo eh hiperburocratizado com plataformas, controle gerencial do trabalho e etc., ele tem promovido uma intensificação do trabalho. A, os modelos avaliativos que estão sendo empregados, né? Por exemplo, veja aqui no estado de São Paulo, a política do governo estabeleceu uma tal de avaliação 360 nos professores. Quem cria um ambiente combinado à instabilidade profissional, laboral, de vínculo precário com com o estado, gera uma instabilidade e uma insegurança muito grande, um ambiente hostil na escola de relações onde as relações vão se deteriorando. esse coletivo de trabalho que é muito importante nas escolas pro trabalho pedagógico na escola, ele vai se esgarçando, né? Então, há um uma esse uma um certo exacerbação do do indivíduo, né? O indivíduo se torna mais visíveis nesse nesse modelo gerencial. Por que que eu digo isso? Porque a a relação com o o adoecimento ele é multicasual, né? Então ele ele é causado sobretudo pela deterioração dessas relações no ambiente. Por exemplo, a cobrança da por parte da gestão da escola sobre um professor para ele produzir o resultado, né, no no dentro daquela meta esperada, esse nesse modelo avaliativo, vai gerando um estresse muito muito grande, uma estabilidade muito grande. E o coletivo ele é full grau paraa saúde mental, né? Se você não tem o reconhecimento do outro sobre seu trabalho, se você não tem essa força coletiva que te ancora, né, você fica como prego na areia e aí isso te leva mais, com certeza. É, é um fermento, né, para exaustão, eh, para exaustão emocional, ocupacional, né, pro barnout, né, o barnout ele é o ele é o C 11, né? Então ele é marcado para por esse justamente decorrência desse desse dessa exaustão física, emocional que o professor sofre, né? Eh, com o tempo o professor pode ir coesificando essa relação também com com outro na escola, né? Eh, eh, e se distanciando, né? Vai perdendo o envolvimento com seu trabalho. Uhum. né? Eh, é irritabilidade, é desmotivado, né? E redução do seu do compromisso com o seu trabalho. Uhum. A redução da eficácia profissional. Então essa eh é comum você conversar com os professores e claramente eles estão ali com ansiedade, um pouco depressão, se sentindo desvalorizado. Essa exaustão emocional, né, afeta inclusive o sono da das pessoas, tão fundamental para que a pessoa se recomponha, né, vá ao trabalho. Então, e você tem hoje um número de afastamentos e eh do trabalho é muito grande por conta desse desse ambiente. Há também esse avanço e crescimento da violência dentro. A escola virou um lugar, né, de violência entre violência verbal, física, né? violência contra os professores. A imprensa tá cheia de de de, né, sempre aparece algum caso ou outro, né, de agressão a professores e etc, etc. Isso deixa a gente, né, quem quem se sente bem trabalhando. Então, a a a saúde mental, ela vai ficando abalada, né? Há há um desgaste muito grande, né? o o eh eh há uma questão que eu acho que é que é fundamental, eh que eu acho que a gente tem que entender um pouco é esse um processo de que leva o professor a um sofrimento psíquico, né? Esse sofrimento psíquico, eh, ele surge dessas condições, né? e também eh do aumento de exigências quando você não consegue eh dar conta, né, de e quando você eh não consegue exercer com inteligência aquilo que você tá para fazer, sabe? Então isso quando te retiram a sua autonomia, sua capacidade de criar, né, como eu falei, de usar os recursos que você tem e e o problema muitas vezes não é na qualificação, né? Nós temos alunos aqui nossos, exalunos nossos aqui da Faculdade de Educação que são muito bons, seriam ótimos, são ou são ótimos professores, mas quando a gente eh ele ele são bem formados, mas quando eles se defrontam com esse com esse real, eles sofre. Porque, por exemplo, eh, a obrigação de você usar esses recursos pedagógicos, impostos, esses modelos avaliativos fazem com você entre em conflito com aquilo, com aquilo que você tem de qualificação, com aquilo que você acha que é certo fazer numa sala de aula e você fica eh assim numa situação de de total instabilidade. Então fala assim: "Bom, isso eu sei o que é certo, mas isso que tá aqui não é não é certo, não é a maneira, não é a maneira que eu gostaria de fazer, né?" Eh, então vai, essas essas relações, a própria relação com os estudantes, com as necessidades que os estudantes trazem, né? Elas vão se elas vão caindo nessa nessas armadilhas do ensino burocratizado, sabe? Uhum. Isso é Isso é ruim, sim. E professor, eh, alguns especialistas, né, ele falam, falam algumas algumas formas de desvalorização dessa carreira docente. E uma delas que me chamou atenção foi a tecnologia. O senhor falou bastante dessa, eh, dessa plataformização do ensino. Hoje também a gente tem o Advento da inteligência artificial. Isso também eh os alunos com celulares nas sala de aula que foi proibido, mas a gente sabe que eles continuam utilizando. Eh, isso também contribui para essa desvalorização até mesmo do aluno para com o professor em sala de aula. Obviamente que sim, né? Isso tem efeito sim, né? Eh, primeiro que esse todo esse aparato tecnológico, né? Ele vai sim, né? Ele vai ele vai afetando diretamente esse essa imagem do professor, né? Como referência, né? Também para para orientar os estudos dos alunos, né? eh como como alguém capaz de resolver questões, né, eh que os alunos trazem, né, eh eh o o ter que usar os recursos tecnológicos, não podemos também demonizar a tecnologia, né? A tecnologia ela tá aí o nosso ao nosso serviço, né? a gente usa, né, um uma aula para passar um vídeo, para colocar uma apresentação, para fazer eh usar o recurso, preparar uma aula. Você pode usar, né? Mas isso nós temos que usar sem perder essa essa esse espaço de autonomia importante do do professor, né? E até pra gente poder dialogar, né? o professor poder dialogar com os alunos de como utilizar esses recursos também, né? Agora, forma como ele vem sendo, ele tá a serviço de quem, né? Quando você coloca, por exemplo, eh as plataformas de controle, plataformas de ensino, eu fiz um levantamento recente em vários estados, né? São grandes grupos privados ganhando muito dinheiro com essas plataformas, né? São empresas contratadas, empresas privadas. Aqui não vou citar o nome dessas empresas, mas qualquer um, qualquer um, qualquer pessoa que quiser dar um, dar um Google aí nas plataformas e saber da onde é, essa empresa de capital aberto, ganhando muito dinheiro com isso. Então, eh, quem tá por trás, o interesse é de quem? Uhum. Né? e a maneira como ela vai sendo implementada de uma forma pouco dialogada com os professores, com aqueles que fazem o o a a coisa acontecer na sala de aula com os estudantes, eh eles se impõem como uma ferramenta eh deveria ser uma ferramenta, na verdade se ele ele vem de uma maneira imposta e atendendo esse interesse desses grandes grupos, né? Eu convido a todos, quem quiser, só pegar qualquer plataforma aí, gugar, você vai ver que elas estão lá na Faria Lima, são empresas de capital aberto por trás dessas tecnologias. Será que a gente precisa de tudo isso? Será que nós vamos resolver o problema, né, com e e também há há o mito, né, de que eh aos eh essa há há quem diga, né, que as as tecnologias vão aos poucos substituindo, né, o professor, né, né, mas isso é isso é um mito, né? Então, a tecnologia não pode substituir o professor, não tem como, né? Não tem como, não pode, né? Não deveria e não pode, né? Não pode. Ela ela ela vem desqualificando, né, o professor, essa é uma questão. Vem desqualificando, afetando essa imagem, né, do professor. Isso sim, né? Retirando esse eh esse feeling que o professor tem que ter na sala de aula para encaminhar as coisas, né, né, nos alunos. Sim. E o senhor já falou amplamente sobre isso, mas eh quando o professor ele perde o sentido ali, o gosto pelo trabalho que ele tá fazendo, eh quais podem ser os reflexos para os alunos, paraa qualidade do ensino também é isso, claro, isso afeta diretamente a síntese, né, da nossa é uma síntese, né, da nossa conversa. Assim, eu acho que o fim, o fim de tudo é isso, né? É atingir, né? Eh, a a atingir justamente o o processo de ensino aprendizagem na sala de aula, né? E mas eu acho que isso cumpre uma finalidade, né? Qual é a finalidade? Eh, eh, como a gente já colocou aqui, né? eh eh querer que o professor siga o estrito estritamente aquilo que tá determinado, né? aquilo que tá determinado pelo currículo imposto na forma como se quer que ele ensine. Então, não quer que esse aprendizado seja ativo, não quer que esse aprendizado seja problematizador, crítico, que o conteúdo da ciência faça o aluno pensar, faça o aluno analisar as coisas, o seu contexto, a o local onde vive, que problematize sobre sua vida, que tenha uma percepção crítica sobre a sociedade. Será que não é isso, né? Então, eh, há há um um é um há uma uma mudança eh uma mudança que que vem vem promovendo isso, retirando cada vez mais o saber do professor, desqualificando o professor. Você tá atingindo diretamente o processo de ensino aprendizagem. E qual quem a a quem favorece esse tipo de ensino precarizado? a quem favorece esse ensino embotado, né? Quais são os interesses que estão? Logicamente que eh isso tá vinculado aos grandes interesses das classes dominantes que não querem que os filhos e filhas da classe trabalhadora tenham esse esse olhar crítico sobre o mundo e sobre a realidade. Sim. Então, podemos dizer que esse possível apagão também pode aumentar essa desigualdade entre escolas particulares e escolas públicas. Eh, certamente, né? Certamente. Vamos pegar, por exemplo, eh, você levantou um gancho aí importante, né? Por exemplo, eu tenho uma pesquisa agora que nós acabamos de concluir sobre o novo ensino médio, né? A educação profissional, o o itinerário de formação profissional nas escolas do estado de São Paulo aqui e do Piauí. nós fizemos um estudo sobre os currículos do ensino médio, isso fica muito claro, né? Essa essa oferta desigual do ensino médio regular entre o que a gente chama de dualismo, né? Dualidade, a escola dos mais ricos e a escola dos pobres, né? E e quando você olha o currículo, o que que acontece com o currículo? Você tem, por exemplo, um currículo hoje que eh chama de currículo flexível, né? A parte da BNCC e a parte dos itinerários formativos. os itinerários formativos na área de ciências, suas tecnologias, linguagens, suas tecnologias matemáticas, suas tecnologias, ciências sociais aplicadas e o itinerário de formação. A combinação desses itinerários, né, vem sendo feita nos sistemas e retirando da, apesar do avanço da para 3.000 horas de carga horária, né, inserindo componentes curriculares que vão tirando, por exemplo, aulas de filosofia, de sociologia da escola, por exemplo, é comum, né, nós batemos na porta da escola, você bater lá, tem uma professora de sociologia que vai atender, vai conversar com você. Eu falo: "Você tá dando aula de sociologia?" Não, não tô dando aula de liderança, de educação financeira e de conteúdos dirigidos, eh, conteúdos, eh, vinculados a um, a uma uma ideologia de pro profissionalização, né? Ah, tem que ser empreendedor, né? Então isso é é é o eh o objetivo da política é um pouco esse, quer dizer, é esse, né, de formar os filhos e filhos daquela trabalhadora inculcar essas ideologias, a ideologia do empreendedorismo, da educação financeira, do projeto de vida individual, pensar como empresa. Uhum. Né? Então não se quer que o professor de sociologia ensine os conteúdos próprio da sociologia que faz ele pensar o conteúdo da filosofia ou o professor de história. Todas as matérias do currículo comum perderam perderam aulas nesse processo. Então há sim uma divisão. Eu pergunto, as escolas de elite da das classes mais abastadas, onde o ensino médio, a mensalidade do ensino médio custa aí quase da casa de R$ 8.000, tá dando esses conteúdos? Será? A minha pergunta é essa, né? Então nós nós temos uma clara uma isso também desqualifica os professores. Eu não fui preparado para dar aula de liderança de tipo empresarial. o projeto, eu sou formado em filosofia, né? Então, quando a gente entrevista os professores, a gente observa esse conflito, esse sentimento, eh, de tristeza com tem que pegar as aulas porque senão ele fica sem emprego, né? Então, ele pega aula de liderança e vai dar aula de liderança, né? Aí eu pergunto, você tá dando essa aula de liderança? É, tô, né, professor? Tal, né? tem que tem que dar para uma uma estratégia de sobrevivência. E tá acontecendo um outro fenômeno, viu, que é esse eh, aí vou caminhando já pro terceiro eixo da questão da formação, essas licenciaturas R2, que o artigo 62 da LDB, essas licenciatura rápida, não sei se já viram no jornal isso, né? Tem lá, ó, faça licenciatura em se meses, né? você formado em outra área, faça licenciatura e tal, né? Tem lá essa R2. Então, que para pegar aula os próprios professores hoje, esses que estão numa situação precária, eles estão fazendo essas R2 para ter um cardápio de oferta. Quando a diretora da escola falar: "Ó, tenho aula, quando tive no processo de atribuição, né, você pegar a aula do que der". Uhum. Então eu tenho lá, eu tenho, sou formado em educação física, mas eu fiz uma biologia aqui, quem sabe se não tiver aula de bieducação física, eu pego biologia, eu dou aula de ciência no fundamental, entendeu? Ou professor de matemática que pega aula de física, que faz a, enfim, isso é comum. Então, nós estamos assistindo que é comum você pegar o professor do estado hoje aqui em São Paulo ou de outros estados, ah, você tem, ah, eu tenho, eu sou formado em história, sociologia e e qualquer outra e matéria, geografia, né, na área de humanidades, né, o o a pessoa que faz uma pedagogia para dar aula no fundo de um. Então, esse esse R2 eh eh são casos eh que a gente tá verificando lá no observatório, né? Então, em grupo focal, a gente olha esse conjunto de professores que tem gente que chega a ter cinco formações. Uhum. Professor, pra gente encerrar, para quem sabe trazer uma esperança ainda aqui para essa conversa, é possível reverter esse cenário? Quais políticas públicas podem ser adotadas para isso? Também eu fiz aqui uma listinha, né, de coisas assim que eu acho que são importantes, né, para pra gente tentar entender numa situação de de fato tentar tentar reverter o o quadro, né, para reter, né, o que faz um professor ficar, né, em cima de evidências mesmo das nossas pesquisas, né, o que faz o professor ficar na carreira, né, ficar o logo. tempo permanecer. Vamos lá. Então, para permanecer fatores de retenção, né? Quais são? O concurso público, a estabilidade estatutária, isso é fundamental. os planos de carreira, né, com a promoção horizontal, vertical, formativa, né, acumula tempo e acumula formação, né, essas uma remuneração adequada, né, melhores condições de trabalho, uma, eu faço a defesa e advogo em defesa da autonomia pedagógica do professor, né? Eu acho que a gente tem que defender isso. Isso é uma questão até que eu que eh eh faz o enfrentamento mais direto com esse processo de qualificação, de desqualificação, apoio institucional, né? Melhorar o clima nas escolas, né? Te retirar todos esses modelos avaliativos, autoritários que engendram esses processos, tem aumentado os quadros de assédio, né, nas escolas, né? A gente tem que acabar com isso. A formação continuada é importante, não aquela que leva o professor no seu final de semana fazer um curso de formação com seu dinheiro do próprio bolso, né? Mas o sistema de ensino tem que garantir a formação continuada, tempo para estudo, né? Políticas de promoção para saúde, fundamental, né? saúde, saúde mental, saúde do trabalhador e combater severamente, né, diretamente a violência nas escolas, né, essa violência de pai com a professora, aluno, professor, aluno, aluno, aluno com diretor, diretor com com, né, eh, e eu entendo que para além o governo agora lançou a política nacional de mais professores, né, para tentar atrair ele ele ele ele reconhece essas essa política. O governo federal reconhece a o problema da do da falta de professores, né? Eh, mas eh a gente precisa aprofundar as políticas, né? Que de fato enfrente, né, esses problemas e que valorizem e reconheçam o o o o problema, né? Então, precisamos valorizar efetivamente a carreira, ampliar os concursos públicos, né? É absurdo. Um estado de São Paulo ter 49, sabe? Mais rico, 49% dos professores do seu sistema contratado de forma precária. Isso cresce também nas prefeituras, tá? Eh, fortalecer os planos de carreira, melhorar os salários, né? me eh reduzir a intensificação, essa burocracia nas escolas, sabe? implementar políticas permanentes de saúde, enfim, reforçar a autonomia pedagógica, como eu já falei. E essas questões eh são importantes e elas remetem também uma necessidade não só do sistema, a responsabilidade dos sistemas públicos de promoverem essas políticas, mas também da organização sindical dos professores, né? pensar que nós estamos nós estamos diante não daquelas categorias profissionais dos anos 80 onde havia maior homogenidade, maior unidade de interesse. Hoje você tem uma categoria categoria docente fragmentada, né? Então, eh, e a e a representação sindical ainda ela precisa entender esses que nós estamos diante de uma categoria que tá bastante fragilizada e com e e que os o essas reformas neoliberais elas elas engendraram interesses difusos dentro da das categorias, né? Então, o cara que é contratado, o outro que é de uma categoria, o outro que é a a escola terceirizada, como nós temos aqui em Campinas, né, as as escolas parcerias com as organizações sociais, né? Eh, então você tem eh o professor com contrato temporário, o professor efetivo, são interesses difusos e o sindicato tem que entender isso, qual é o seu papel, né, diante dessa categoria e e pensar no na em em compreender esses problemas que os professores, os professores enfrentam no seu cotidiano, né, criar uma pauta efetiva de mobilização e organização desse dessa essa categoria, né? Não não pensar burocraticamente na negociações pelo alto, via institucional. Nós temos que entender aquilo que tá acontecendo com os professores, né? Então eu vejo que a gente tem uma tem saída sim, mas nós vamos isso também depende da nossa capacidade de luta e fazer enfrentamento essas políticas eh neoliberais que vem aprofundando esses processos de precarização, né? Então, eh, o caminho é esse, é muita luta também, não é só depender aqui do estado, porque os governos que estão aí, me parece, né, vão na direção contrária daquele que seria o interesse dos professores, né, essa da da direção da valorização, né, professor Evaldo Pioli, muito obrigada pela participação, por compartilhar com a gente essa reflexão tão importante. Obrigado. Obrigado, Igor. Obrigado. Eu agradeço também a sua audiência que acompanhou a gente até aqui e até o próximo ponto de vista. เฮ
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