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Ponto de Vista | Humor Autodestrutivo: Escape ou Gatilho?
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Ponto de Vista | Humor Autodestrutivo: Escape ou Gatilho?

64 views Publicado semana passada HD · 35:50
Resumo editorial

Aborda o humor autodepreciativo entre jovens e como memes e piadas sobre fracasso podem expressar sofrimento, mas também reforçar sentimentos negativos. Conversa com a psicóloga Evelyn Freires sobre riscos digitais das redes sociais e a importância do suporte parental. Ressalta a necessidade de consumir tecnologia de forma ativa e consciente para o bem-estar emocional.

Citados nesta edição

Descrição do vídeo

A psicóloga Evelin Freire, pesquisadora de riscos digitais na adolescência, explica por que memes sobre fracasso, ansiedade e exaustão viraram linguagem comum entre jovens nas redes sociais. Ela detalha como o humor autodepreciativo pode funcionar como estratégia de enfrentamento para uns e, para outros, reforçar sofrimento, já que o algoritmo tende a entregar mais do mesmo tipo de conteúdo a quem já consome. A entrevista também aborda o papel do pertencimento digital, herdado de comunidades como as do Orkut e hoje presentes no Instagram e no Discord.

Transcrição completa do vídeo

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fica tudo aqui. [música] Olá, está [música] começando mais um ponto de vista. No programa de hoje vamos falar sobre o humor autodepreciativo, que tem se tornado cada [música] vez mais presente nas redes sociais e também no dia a dia dos jovens. Piadas e memes sobre fracasso, [música] ansiedade, cansaço, inseguranças e até sobre temas mais [música] delicados podem ser uma forma de expressar aquilo que é difícil colocar em palavras e ao mesmo [música] tempo, podem gerar identificação e a sensação de que outras pessoas também passam pelas mesmas situações. [música] Mas rir da própria dor ajuda a lidar com ela ou pode acabar reforçando sentimentos [música] negativos quando esse humor deixa de ser apenas uma brincadeira e pode se tornar um sinal de sofrimento. É sobre isso que vamos falar hoje no ponto de vista [música] com a psicóloga e pesquisadora de riscos digitais na adolescência, Evelyn Freires. Evelyn, seja [música] muito bem-vinda ao ponto de vista. Obrigada, Camila. Obrigada pela oportunidade e pelo espaço de fala. Para começar, é quando a gente fala em humor autodepreciativo, eh, do que exatamente estamos falando, eh, o que diferencia também esse tipo de humor de uma simples piada do dia a dia? Sim, o ambiente digital ele causa vários riscos porque ele se torna uma extensão do ambiente físico e ele acaba reforçando certos comportamentos com uma dimensão muito maior. Então, enquanto o humor natural do dia a dia é eu rindo aqui de alguma coisa, dentro da internet a gente tem o caráter que fica sempre disponível, né? Então, a gente fala alguma coisa na internet e não sai do ar. E também temos a extensão desse fenômeno. Então, a partir do momento que o humor ele para, ele sai de um espaço de fala físico e vai pro ambiente digital, a gente tem que tomar cuidado com o que é postado, com o que é colocado na rede. Então, a partir disso, a gente tem um humor autodepreciativo como um fenômeno que não é legal pro indivíduo. Uhum. E transformar uma situação difícil em piada, pode fazer com que a pessoa se sinta melhor mesmo? Uhum. Dentro da psicologia, a gente tem estratégias de enfrentamento. Então, a subjetividade humana, ela é diferente da parte da medicina, que a gente faz um raio X, faz um exame e a gente consegue constatar. Então, ah, o braço tá quebrado. E dentro da psicologia a gente tem diversas formas de enfrentamento e cada um vai encontrar a sua. Mas enquanto para uma pessoa em específico, esse tipo de humor pode ser uma forma positiva de ver que, ah, não é tão anormal o que eu sinto. Paraa outra pode ser uma forma de aumentar o sofrimento, porque a rede social ela tem um algoritmo e o algoritmo traz esse caráter de quanto mais eu consumo alguma coisa, mais ele vai me entregar. Então ele vai estender ainda mais esse tipo de conteúdo para essa pessoa, o que pode ser prejudicial para visqu dela. Sim. E na sua opinião, por que esse tipo de humor encontrou nas redes sociais um espaço tão eh tão grande para crescer, né? Eu acho que o ser humano ele sempre teve uma necessidade muito grande de pertencimento. Quando a gente vai estudar na história, né? A gente conseguiu chegar até aqui enquanto espécie porque vivemos juntos, vivemos em companhia um do outro. A partir do momento que a gente vê na rede social um espaço onde a gente pode pertencer e ser colega um do outro, ver que a minha dor ela não é algo assim diferente de todo mundo, ela é algo legítimo que mais pessoas sentem. E a desde a época do Orcut a gente tinha os grupos, né? E hoje dentro do Instagram, das demais redes sociais, a gente tem também esses grupos. O Discord cresceu muito também por esse fenômeno do pertencimento. Então a gente tem essa necessidade de pertencer, de se engajar. E a rede social ela foi esse espaço paraa nossa geração, porque até então a gente tinha mais lugares, né? Mais espaços de criação de comunidade, a gente tinha mais espaços físicos, mas hoje a gente tá com o ambiente digital crescendo cada vez mais. Sim. Então nas redes sociais também gera uma identificação, como por exemplo, eh, alguém compartilha ali um meme, né? Aí alguém vai lá e comenta: "Ah, eu também sou exatamente dessa forma, também me sinto assim". Sim. Aqueles comentários literalmente eu. Então, todo mundo posta, vê um vídeo, fala: "Nossa, aqueles POV, né? Pov é um vídeo que a gente bate o olho e já aconteceu com a gente e se identifica". Então, fala: "Nossa, literalmente eu". A partir daí a gente cria uma identificação com aquela pessoa que postou. O problema das redes sociais é que nem sempre aquilo é real, né? Então, a gente não sabe até que ponto um discurso de ódio ou um discurso autodepreciativo tá sendo puxado por uma intenção ruim ou só uma forma de estratégia de cing mesmo, estratégia de lidar com aquele sofrimento. Porque o ser humano é assim, cada um vai ter uma forma de enfrentamento e cada um vai ter o seu mecanismo. Sim. E quando essa sensação de que, ah, eu não sou o único a passar por isso, pode ser positiva, mas também pode ser negativa em alguns momentos. Como perceber isso? Eu acho que o principal, eu gosto muito das pesquisas com adolescentes, porque eles são muito vulneráveis do ponto de vista neurobiológico mesmo. Então, a gente tem um cérebro com uma diferença de maturação cerebral. A gente tem o córtex préfrontal funcionando ainda numa parte de formação e a amídala e as demais áreas já ali bombando. Então, o adolescente ele é muito mais impulsivo, o que faz com que ele se torne muito mais vulnerável. Foi por isso que teve aquele julgamento tão grande da meta recentemente. E assim a gente vê que punições estão sendo colocadas, né, para que as bigtecs, as grandes empresas, elas tenham um papel responsável sobre isso. Então o adolescente ele se torna muito mais vulnerável por esse caráter do desenvolvimento mesmo, da fase do desenvolvimento humano. E eu acho que na nas outras gerações, né, essência na geração Z, a gente observa essa necessidade de pertencer, porque a gente vem de uma característica de muito trabalho. Então, hoje nem só dentro da nossa casa ou no ambiente físico mesmo, estamos aqui agora trabalhando, mas você pode continuar trabalhando dentro da sua casa e gera uma cobrança, né? Quando você abre o seu celular, você vê um meme, você fala: "Nossa, que interessante, me identifiquei com isso". E assim a gente vai conseguindo ter um espaço de pertencimento diferente que a gente não tem porque a gente trabalha demais, a nossa vida mudou muito, né? Então esse contato com as redes sociais também é diferente paraas gerações. Você comentou a geração Z, que já nasceu praticamente conectada, né? E a geração Y, a anterior, a Millennial, precisou se acostumar eh com a tecnologia, precisou implementar isso no dia a dia. Sim. Então a gente não observa que nós somos da geração Y nativos digitais, né? A geração Z, a Jane já nasceu com o celular na mão, então ela já tá ali desde pequenininha no tablet, no YouTube, acostumado com esse tipo de conteúdo mais rápido. E a televisão dentro de todas as telas, ela se torna uma tela muito boa, porque a gente tem que treinar os mecanismos de tolerância. Então eu lembro da TV Globinho, no caso, a gente esperava o horário para passar aquele programa e ali a gente sabia que vários outros colegas também estavam assistindo e chegando na escola a gente ia conversar. E esse era o nosso pertencimento através da tela. Hoje o pertencimento através da tela, ele gera até aquele fomo que é o fear of missing out, né? medo de ficar de fora de alguma coisa, porque todo momento tem alguma coisa na tela acontecendo, alguma coisa que as pessoas vão querer comentar e que se a gente não tá ali constantemente conectado, a gente tá de fora. Então, para cada geração tem um papel, até pros idosos também. Ah, é como que você sente assim, você pesquisa mais sobre eh riscos na adolescência, mas os idosos também passam um pouco por isso? Os idosos eles passam muito por algumas vulnerabilidades até de cair em fake news, até de cair em golpes. Então eu vi recentemente uma senhora que caiu num golpe de um papa. Ah, ele me pediu dinheiro, o papa me pediu dinheiro, então eu vou ser abençoada, vou est ajudando o Papa. E acabou transferindo esse dinheiro. Então é um risco muito grande, né? Eles não são nativos de tais, eles não nasceram com essa tela na mão, diferente das outras gerações. Então, a própria inteligência artificial, ela tá confundindo um pouco esse espaço do que é real e o do que não é real. E até que ponto a gente pode definir então essa realidade, né? O que é ser real? Exato. E você falou eh no começo a gente falou dos memes, né? Essa conexão constante cria também uma nova linguagem, eh os memes, giras, referências, eh, que só quem tá naquele, aquela comunidade entende. Esse humor autodepreciativo também funciona como uma espécie de linguagem, como a gente comentou, de pertencimento. Sim. A adolescência ela sempre teve essas linguagens próprias. Então, independente nos anos 80, nos anos 70, a adolescência ela sempre teve algumas peculiaridades. Então, ela sempre quis se diferenciar dos adultos. A gente tem algumas estratégias que foram tomadas durante as décadas, mas hoje a gente tem a possibilidade da mídia social. Então eles têm uma linguagem, o Farmar Aura, o Six7. Então tem algumas linguagens que vão diferenciar das demais gerações, mas sempre foi dessa forma. O problema é que hoje a gente tem uma escala muito maior, o que torna isso muito mais problemático. Então, até as legislações aplicadas ao Discord, elas entram muito nisso, porque o Discord é uma rede social que você consegue ter várias pessoas numa comunidade, a partir do momento que uma pessoa abre o vídeo, elas opinam, né, fala assim: "Olha, faz isso, faz aquilo". E o adolescente naquela necessidade de pertencer, o pertencer não é apenas num grupo físico, pode ser num grupo virtual. A sensação ela é a mesma, né, pro nosso cérebro ele gera o impacto. Estou pertencendo a algum lugar, por mais que não seja um pertencimento físico, eu estou pertencendo a algum espaço e isso se torna favorável para ele e também recompensador para esse indivíduo. Sim. E você comentou sobre o Discord, né? Infelizmente teve um um caso recente de uma menina que tirou a vida, né, numa brincadeira ali na plataforma. Eh, a gente tá falando sobre humor autodepreciativo. Isso acaba, pode iniciar como uma forma de rir mesmo, mas pode acabar eh com um fim trágico. Sim, porque esses grupos geralmente eles começam com essa iniciativa, né? Dificilmente vão começar direto com uma cara assim alar de alarme. Então vamos tirar, sabe? Não, não começa dessa forma, começa sempre de uma forma de humor para trazer as pessoas para perto, porque senão não traz, não é atrativo. Se a gente coloca logo de cara o alarme, não é atrativo. Então, sempre vai através do humor. E por isso que o suporte parental é tão importante. Eu acho que de tudo que eu pesquiso até hoje, o que mais impacta e que mais protege o adolescente é sempre o suporte parental. Porque esse humor depreciativo, a partir do momento que ele para de ser um um espaço assim só de rir, ele pode ser uma ponte, né? Então eu começo a ver que o outro tem uma dor parecida com a minha e eu falo: "Nossa, que interessante". Então é até que natural sentir isso. Essa é uma estratégia de coping pra gente lidar com com isso. Mas a se a gente passar pro momento de como que a gente pode incentivar mais pessoas a apostarem sobre isso, até se machucarem, né, ter comportamentos autolesivos, isso já não é legal, isso já precisa de atenção. E os pais eles são os primeiros que podem ter um caráter protetivo e preventivo para esses adolescentes, prestando atenção o que que o filho tá vendo na tela, o que que tá acontecendo ali. Uhum. Eh, e quando a gente também fala sobre eh as formas de humor, né, na internet, a gente acaba comentando muito sobre cansaço, eh fracasso, inadequação, muitas vezes e existe também uma questão social por trás disso. A gente vive uma época que de muita cobrança, né, de produtividade, hiperprodutividade. Como que essa pressão também aparece no comportamento dos jovens? Sim, a gente tem alguns materiais, a Sociedade do cansaço, aquele livro muito interessante que vendeu muito, e também temos a teoria do Andrew Fenberg, que ele fala que a tecnologia ela não é neutra, então ela tem um papel muito importante no desenvolvimento da própria sociedade. Então, algumas transformações no nosso comportamento na vida cotidiana, elas vêm por conta da rede social, por conta das mídias, por conta do uso da tecnologia. Então, se a gente consegue ter um uso consciente da tecnologia pensando assim: "Nossa, esse é um espaço para eu conversar com os meus amigos, para eu conhecer pessoas e me conectar, a gente consegue ter um uso saudável, mas a partir do momento que vira um espaço de necessidade, de aprovação, aí aquele engajamento ele para de ser algo só para fazer amizade, né? Ter conexão com o grupo e passa a ser algo adoecido mesmo, uma forma de mostrar um adoecimento psíquico." Uhum. E a gente comentou sobre a identificação a partir do humor, mas também tem essa comparação que eh pode ser prejudicial, né? comparação do corpo, muitas vezes e comparação com estilo de vida e pras meninas é pior ainda. Então, na adolescência a gente percebe dentro das escolas mesmos as meninas elas se comparando, o estilo de roupa, o estilo de cabelo. Então, os grupos eles sempre agiram dessa forma, mas hoje a gente tem esse adicional de todo mundo poder julgar a característica do outro. Então, uma foto é postada, um vídeo é postado, fala: "Pelo amor de Deus, que roupa horrível". ou que cabelo horrível, que dente horrível. E a pessoa começa a se sentir mal com aquilo, porque não não era para ser dessa forma, né? Era para ser um espaço onde a gente pudesse ter liberdade de expressão, mas sem ferir o outro, a ponto de que essas comparações que sempre fizeram parte da da existência humana não fosse tão tão forte a ponto de ferir uma outra pessoa e de fazer ela odiar uma característica que é dela, né? Então, algo que é tão peculiar, que a gente acha bonito e diferente dentro da mídia social, ele pode ser muito alarmante assim e desagradável. E quando você fala sobre o estilo de vida, é muito interessante e é um tópico que eu tenho estudado durante esse ano por conta das bets. Então, a gente tem as comparações por estilo de vida e mensagens autodepreciativas. Então, estou aqui no caos da minha vida e não sei se você já viu um meme de um cachorrinho com uma xícara de café. Tá tudo bem. fundo pegando fogo e a gente pensa assim: "Nossa, tem mais gente então passando pelo que eu tô passando." Em contrapartida, a gente vê pessoas com um grande número de seguidores, com uma grande ostentação e aí outras imagens sendo republicadas, né? Com mensagens depreciativas em comparação a isso. Então, até que ponto o consumo das redes sociais, das mídias, ele pode ser tão desenfreado, né? Acho que o feed infinito, aquele aquela possibilidade da gente não conseguir limitar tanto que vai aparecer na nossa tela e depender exclusivamente de um algoritmo que sabe o que a gente quer consumir a todo momento, isso não é legal e acaba reforçando ainda mais um comportamento autodepreciativo, porque se você consome tristeza, vai aparecer mais tristeza e dor para você. Se você consome um conteúdo às vezes de bem-estar, de corrida, você acorda, abre seu fedo já correu. Então é sempre esse conteúdo que pode ser algo bom, mas pode também ser algo ruim. Pode ser uma ponte para você entender o que você tá sentindo, mas também pode ser uma ponte para você apenas validar uma dor e continuar ali lidando com aquilo sozinho e fazendo aquela dor aumentar. Uhum. E essa comparação que a gente comentou, né, física e social, acaba entrando muito nisso que a gente tá comentando sobre o humor, porque conforme você tá ali na internet, vai aparecendo para você memes sobre isso, falando de você mesmo de uma forma autodestrutiva. Por exemplo, você falou do corpo, do ah meu dente, meu cabelo, acaba aparecendo coisas que para você eh pode te ferir, mas tá ali como uma piada. Uhum. Então eu percebo hoje dentro da internet um espaço sem cara, né? Então as pessoas não estão com medo mais do que vão falar. E o conteúdo rápido, ele tem uma velocidade de expansão muito maior. E o meme ele é dessa forma, é um conteúdo muito rápido. E por ele ser rápido, mais pessoas vão visualizar o vídeo até o final. E se mais pessoas visualizam o vídeo ou olham a foto por mais tempo tentando ler e entender o que tá ali, ele é entregue por mais pessoas. Então, a qualidade do conteúdo dentro da rede social, ela não impacta se se a qualidade do conteúdo é boa ou ruim, ele vai ser mais ou menos entregue. O que impacta é a métrica de visualização, a quantidade de tempo que as pessoas ficaram naquela tela. Mas nem não necessariamente o fato da pessoa ter ficado até o final do vídeo significa que o vídeo é bom, que vai fazer bem pra psiquê dela, pra saúde mental. E a saúde mental, ela é algo mais subjetivo. Cada um vai ter o seu mecanismo de enfrentamento. E é difícil a gente ter uma estratégia que coloque todo mundo dentro de um pacote, né, e fala: "Isso aqui vai ser bom para todo mundo". Igual as iniciativas, né, de proibir tirar o celular de vez. Só que quando a gente faz isso com um adulto ou um adolescente, a gente tira também a possibilidade dele se conectar com outras pessoas e dele pertencer, que o que é necessário também, né? Sim. Porque faz parte, né, da nossa sociedade, tá integrada já, não tem o que fazer. Exato. E essa exposição constante é para uma pessoa que tá bem psicologicamente, pode fazer com que ela passe a enxergar a vida de uma outra forma, até mesmo a partir dessa comparação com outras vidas que a partir da visão dela está melhor do que a dela. Sim, porque a gente começa a observar coisas que a gente não imaginava que existia. Então, dentro do TikTok é uma rede de conteúdo um pouco maior do que o Instagram, né? Os vídeos eles são mais longos e esse caráter mais longo do vídeo você consegue ver mais coisas, mais detalhes, mais peculiaridades. E quando você vê mais detalhes você começa a involuntariamente fazer comparação. E é involuntário isso, mesmo se a gente não quiser, a gente faz comparações. Então, nossa, que vestido bonito. Acho que esse foi o fenômeno também do TikTok Shop crescer tanto, porque cria basicamente até um um vazio existencial. Eu preciso agora dessa garrafa para eu tomar água, porque se eu tiver essa garrafa, eu vou conseguir fazer parte desse determinado grupo. Então a necessidade de pertencer, ela é muito bem explorada pelas mídias digitais hoje. E esse espaço ele tava vazio, né? E se a gente tira a tela do adolescente ou do adulto, se a gente ficar sem celular, o que a gente vai fazer, né? Quais são as ferramentas que a gente vai colocar para ocupar esse espaço? Uhum. como que a gente vai exercitar o nosso pertencimento ali. Mas é até desleal essa comparação, né? Porque, por exemplo, uma pessoa comum vai est ali no dia a dia trabalhando, cumprindo sua carga horária de CLT, enquanto a blogueira, igual você falou, provavelmente tá ali anunciando Bet e não precisa trabalhar. A a questão das apostas, ela é muito grave, muito séria, porque mexe muito com a cabeça, sempre vem acompanhada de uma ostentação, né? E essa ostentação vem junto, por vezes numa mensagem autodepreciativa, porque as pessoas falam: "Nossa, cria eu". E aí começa a ser um para de ser algo de olhar e falar legal e começa a ser algo a falar assim: "Nossa, a minha vida é terrível". E vão criando-se subcomunidades, né, de pessoas que vão tendo esse caráter, esse intuíto também de criar mensagens autodepreciativas e reforçar esse comportamento. Sim. Então isso pode realmente trazer um adoecimento mental, psíquico, pode na verdade impulsionar também. Então às vezes se a pessoa já tem alguma vulnerabilidade, a gente percebe o cérebro adolescente com as vulnerabilidades, né, do próprio desenvolvimento, mas também a mulher, tem épocas que a gente tá oscilando de humor e pega a gente num dia mal, aquilo acaba com o nosso dia. Fala assim: "Nossa, que que tá acontecendo? Como que eu vou me posicionar nesse mundo?" e você começa a olhar várias outras mulheres, outras mensagens. E aquelas mensagens autodepreciativas, elas não são às vezes agradáveis. Entra como uma estratégia de enfrentamento, mas nem sempre uma estratégia boa. Uhum. É. E quando falamos desse assunto, muitas vezes a pessoa coloca como: "Ah, é só parar de ver, é só parar de mexer, mas não é bem assim que funciona, né? Igual a gente falou, faz parte do nosso dia a dia, a gente precisa dessa tecnologia e se a gente não tá dentro dela, a gente vai fazer o quê?" Uhum. Então são o os espaços de preenchimento, o que que a gente vai colocar? Tirou o celular da rotina. Então eu tenho uma estratégia muito boa que eu pesquise desde a graduação sobre os excessivos de telas porque eu percebi que eu tinha grande dificuldade. Então eu vou acordar e não quero pegar meu celular. Então eu deixo um livro do lado do meu travesseiro para eu não abrir o celular. Desliguei o alarme, abro o livro, leio uma página ali para começar o dia. Aqueles livros diários, sabe? uma mensagem, leio, fecho e começo o dia, porque senão a gente começa, não, eu quero deixar o meu celular longe, mas colocar esse espaço como vazio não vai funcionar, então a gente precisa preencher ele. E tem várias outras formas de pertencer, né? Tem outras estratégias. Temos os clubes de livro que funciona muito bem no Instagram, no TikTok, no próprio YouTube. Então são formas muito legais de exercitar o pertencimento e de fazer algo que vai ser bom para um grupo de pessoas. Sim, eu acho as pessoas estão buscando um pouco mais isso, né? Eu vejo muito, principalmente nos jovens, clubes de livro, eh, hobbies em comum, é, atividade física, as pessoas estão buscando outras formas de pertencimento. Sim. outras alternativas, porque senão a gente fica muito preso à tela mesmo. Logo que surgiu foi um grande boom, né? tinha, a gente tinha o workut com os documentários lá, que a gente conseguia fazer um comentário para alguém, fazer a fazendinha, que cada um podia ajudar um pouco. E isso só foi crescendo e foi dado, acho que muito cedo pros adolescentes, pras crianças e eles ficaram impactados demais com isso. Então, até mensagens sexuais, algum conteúdo de adaptização, isso não é correto pra faixa etária, né, que eles estão vivendo. até pro próprio adulto, a pornografia ela tem alguns impactos. Então, como que a gente pode definir limites, né, dentro de algo que tá tão presente na nossa vida? O que eu tenho entendido até agora, a na prática, a rede social, ela tem aqueles botões quando a gente olha os três pontinhos de quero ver esse conteúdo ou esse conteúdo não me interessa. Então, sempre viu alguma coisa que você percebe que te gera um incômodo, te gera algo que não é legal, aperta isso, coloca para não ver esse tipo de conteúdo, porque isso pode gerar para você um adoecimento, reforçando esse comportamento, reforçando esse tipo de pensamento, que uma coisa é a gente pensar às vezes, né, nossa, gostaria de andar de jatinho. Outra é constantemente você abrir a sua tela e ter gente andando de jatinho. Aí vai parecer que todo mundo tem jetinho menos a pessoa que tá ali olhando. Parece que é outra realidade, né? Exato. E muitas pessoas também se sentem e cada vez mais ansiosas e não sabem o porquê. Pode estar muito ligada também a esse consumo constante. Com certeza. A gente tem o significado de fomo, né? de fora. Então, às vezes a gente consome só para não ficar sem assunto, só para não ficar de fora. Você viu a música nova que lançou, você viu a série nova, você viu o programa novo e a gente não dá conta nem de acompanhar essa super produção. Então, a produção do próprio cinema mesmo, dos filmes, demorava mais para produzir um filme e a gente conseguia esperar. Agora não, a gente tem as séries totalmente ali disponível. A gente já senta, já quer assistir tudo até acabar. Tem o comportamento de beiding watching, né? O excesso de série. A gente olhar a série, não vou assistir só três episódios, vou assistir seis, vou assistir nove, tudo de uma vez, porque eu quero que acabe logo. Assim eu vou ter assunto para conversar com os meus colegas, assim eu vou pertencer a um determinado grupo, porque isso difere também. As pessoas que assistem algum tipo determinado de série ou que escutam um determinado tipo de música, eles formam subgrupos, né, com mensagens legais e com potencial de mensagens também autodepreciativas. Sim. E na questão das crianças, dos adolescentes, né, você já falou um pouco, mas eu queria aprofundar um pouquinho mais sobre isso. Como que os pais podem lidar com isso? Eh, uma solução é retirar totalmente o celular, limitar o tempo. O que pode ser feito? Se a gente retira totalmente o celular, a gente tira desse adolescente ou da criança a possibilidade dele aprender a lidar. Então, a criança e o adolescente, ele vai passar por por processos e também momentos de frustração, igual o adulto. E se ele não se frustra, ele começa a ficar intolerante com essa frustração. Então, a gente tem hora, temos combinados. Você pode utilizar o celular das 10 até às 11, no período da manhã e no período da tarde você pode utilizar por mais uma hora. Existe uma regra ali, mas um contrato de confiança, sempre monitorando o tipo de conteúdo, o tipo de conversas que tão acontecendo, porque a autonomia ela é diferente da capacidade de saber tomar uma decisão e lidar com as próprias consequências. Então a gente viu diversos casos, né, recentemente também pelo Discord e outras mídias digitais, o adolescentes que mandaram fotos nuas, nudes assim, que tem uma proporção muito grande, vira uma forma de ameaça. E essa forma de ameaça às vezes, o adolescente não se sentiu à vontade para contar para uns pais, ficou com vergonha e aí ele acaba tirando a própria vida ou tendo comportamentos autolesivos, o que não é adequado. Então, os pais eles têm um papel muito importante de monitorar o que os o que as crianças e os adolescentes estão fazendo e monitorando, não só no olhando assim, estando do lado, mas monitorar, entendendo com quem tá conversando, quais mídias digitais tá acessando, tá utilizando rede social, será que é adequado deixar na mão do adolescente para ele escolher com quem ele vai conversar ou não na rede social, que ele tá consumindo também ali, né? Será que ele tem o potencial cognitivo mesmo cerebral totalmente formado para tomar uma decisão desse porte? Porque é uma decisão muito séria, né? Às vezes um envolvimento amoroso, um envolvimento psicológico para adolescente que tem dificuldade de interagir dentro da escola, no mundo digital ele encontra um espaço, mas esse espaço nem sempre vai ter um acolhimento adequado para ele. Sim. E falando sobre nós adultos, como fazer essa autorregulação, como dar um tempo ali das telas quando percebe-se que está sendo prejudicial. Eu acho que o primeiro ponto é definir as estratégias que vão ocupar o lugar do celular. Então, para mim, de manhã, funcionou o livro na cabeceira do lado do travesseiro, abro ele, começo o meu dia, senão eu já começava na rede social. É involuntário, pega, desliga o alarme, olha o WhatsApp, olha o Instagram e quando vi ficou meia hora ali na cama. um ciclo. E como que a gente vai ocupar o nosso tempo tirando a rede social? Então, acho que é muito difícil exercitar logo de cara o tédio, mas a gente pode correr, a gente pode caminhar, fazer uma caminhada em volta de casa, no quarteirão. Então, ah, o momento que eu chego em casa, eu deito no sofá e fico direto no celular, eu posso deitar no sofá e olhar pra tela da televisão, ver algum programa com horário fixo, porque isso também vai criando uma rotina pra gente, algo que é bom. Essa liberação de dopamina a todo momento que a gente vai virando feed e esse caráter infinito, ele é muito prejudicial pro nosso funcionamento cerebral. A gente fica muito cansado, né? E mesmo antes de dormir, celular não é estratégia para dormir. Eu vejo muita gente falando isso assim: "Ah, eu só durmo no celular". Mas o seu cérebro fica tentando entender e absorver aquilo tudo, aquele conteúdo todo, que é um conteúdo muito rápido. E depois a gente acorda com aquela sensação meio zonzo, porque o cérebro ele passou a noite tentando digerir tudo aquilo. Parece que não descansou 100%. Não descansou. Então, da mesma forma que não é legal a gente comer e colocar muita comida no nosso estômago antes de dormir, não é legal colocar esse tanto de conteúdo para dentro antes de deitar a cabeça também para dormir. E você citou sobre exercitar o tédio. Eu tenho percebido isso também, que as pessoas não conseguem mais lidar com o tédio. Você vê uma fila de mercado, uma fila de banco, as pessoas esperando algo e elas não estão sempre com o olhar para o celular, estão sempre ali e rodando a tela. E é o homem Cborg, né? Tem alguns autores que falam que a gente tá metade homem e metade tecnologia, metade máquina, porque ela virou uma extensão mesmo. Dá um desespero, a gente olha assim, cadê o meu celular? E vira uma um desespero mesmo, algo realmente nato. Fala: "Meu Deus do céu, como que eu vou sair de casa sem o meu celular?" Então, a gente colocou tudo dentro desse aparelho e agora não tem como desvincular totalmente, mas a gente pode ter estratégias de lidar com isso de uma maneira mais saudável, porque é o que a gente tá vivendo nesse tempo. Sim. E a gente comentou sobre outras formas de conseguir eh ter esse contato com o outro, né, sem ser através das redes sociais. Eh, que outras formas as pessoas podem conseguir de eh ter esse contato, criar essa amizade por um outro caminho? Uhum. As mídias digitais elas abrem muitas portas. Então existem clubes que são formados, como a gente tinha conversado, né? O clube de leitura, o clube de corrida, eles são formados dentro das redes sociais. Então, pessoas que consomem um determinado tipo de conteúdo, elas podem através de aplicativos se encontrar, elas podem ter alternativas a partir mesmo da internet como mediadora. É da mesma forma como os memes, né, autodepreciativos que a gente estava conversando, ele é legal a partir do momento que ele vira uma ponte pra gente entender o nosso o nosso sentimento. Então, nossa, será que então tem muita gente achando que a vida tá um caos e sentindo que tá pegando fogo e falando que tá tudo bem. E isso é legal porque você começa a entender que o seu sofrimento ele não é só seu, ele faz parte também de um grupo de pessoas. E a partir do momento que você olha também para outras atividades, como atividade física de correr, você fala assim: "Nossa, tem mais pessoas que não são super atletas, que não t um corpo super estético, mas que estão começando, tão tentando fazer algo diferente, tão tentando se posicionar ali. E você vê também que o seu corpo, o seu jeito, ele cabe em algum outro espaço." Então, a gente pode encontrar diversos grupos através das redes sociais, como TikTok. que o TikTok, todas as vezes que eu viajo, eu consigo encontrar coisas assim muito legais para fazer na barra de pesquisa. Então, coisas que acontecem em Brasília, coisas que acontecem em Campinas, assim, a gente vai procurando grupos, vendo grupos de corrida, grupos de de leitura, de atividade física pra gente fazer também. Sim. E esses grupos também pode ser uma forma da pessoa eh conseguir se expressar, expressar essas dores, gerar ali uma identificação para além desses memes que você vê só na internet, não consegue ter troca com a outra pessoa. Nesses grupos você consegue ter essa troca com uma conversa mais profunda sobre o tema que tá te afligindo. Sim, porque às vezes parece que as pessoas ficam muito corajosas, né, a partir da tela. Então ninguém tá me vendo, ninguém vai tocar em mim. Eu posso falar o que eu quiser, mas isso não é verdade, porque tem um outro ser humano ali lendo. A gente tem que ter uma responsabilidade com que a gente coloca. Da mesma forma que o tudo que é divulgado, né, seja por um grande influenciador ou pequenos influenciadores também, a gente tem que ter responsabilidade pro que a outra pessoa também vai entender, não só o que a gente fala. Então, o importante não é só como eu me comunico, né, mas o que o outro entende também da minha comunicação. Sim. E Evely, pra gente já encerrando, então, eh, no fim das contas, né, o humor autodestrutivo, autodepreciativo, ele é um escape ou um gatilho, como podemos definir? Ele me parece como uma ponte, uma ponte pra gente entender às vezes que o nosso sofrimento ele é algo natural, as pessoas também sofrem com isso, mas ele pode ser um escape em determinados momentos que eu não tenho outros espaços de diálogo. Então é muito bom a gente ter essa troca de sentar, de conversar sobre algum tipo de sofrimento, mas se eu não tenho esse escape, aquilo pode ser um espaço mesmo de aumentar, de ampliar o meu sofrimento. Porque se eu consumo esse determinado tipo de conteúdo, a rede social vai me mandar mais dele e eu vou ficar presa nesse looping de conteúdo autodepreciativo que vai me fazer mal em algum momento. E é um papel como adulto, né, nosso, de monitorar o que a gente tá vendo, ter também uma autonomia, não ficar passivo perante a tela. Então, não acho que esse conteúdo vai me fazer bem, eu coloco lá que não gostei, que não quero ver. Assim, a gente tem uma postura mais ativa, né? a gente devolve a agência, devolve a possibilidade de tomada de decisão pra gente, não fica só como um ser passivo ali consumindo o conteúdo. A gente fala: "Não, não gostei". Ou achei esse conteúdo legal, quero ver mais vídeos sobre isso, porque eu vejo que a tecnologia trouxe tanta coisa boa pra gente, eu não teria possibilidade de aprender tanto, de fazer vários cursos diferentes se a gente não tivesse essas telas. Então é é uma maravilha a partir do momento que a gente consegue se conectar, encontrar pessoas legais ali, grupos pra gente pertencer mesmo, porque no final a necessidade do ser humano é essa de pertencimento. Sim. Então, para quem tá nos assistindo, se identificou um pouco com a nossa conversa, qual a melhor forma de lidar com isso? É aprender a utilizar a tecnologia de uma forma positiva para você. Isso, aprender a utilizar a tecnologia de uma forma positiva e também tomando a agência disso, tomando um papel assim de a de tomada de de não ser passivo, mas como um ser ativo. Consegui lembrar a palavra, como um ser ativo mesmo. Dentro do nosso grupo de pesquisa da PUC, a gente pesquisa sobre uso excessivo de telas, uso de substâncias e algumas outras coisas, mas sempre nesse caráter, né? Comportamentos impulsivos. O que leva isso? E de todas as pesquisas com adolescentes, principalmente, a gente percebe que o suporte parental, ele tem um papel muito muito importante pros adolescentes, paraas crianças e pro adulto. Às vezes a gente percebeu o que a gente tá consumindo, mas também se temos um colega próximo e a gente vê que ele tá em sofrimento, a gente pode falar para essa pessoa, porque às vezes a gente tá consumindo demais um certo tipo de conteúdo, repetindo demais alguns discursos e a gente não percebe. Mas uma pessoa que tá próximo percebe e assim a gente tem a possibilidade de contribuir positivamente pra vida do outro também. Evelyn Freires, muito obrigada pela participação aqui no ponto de vista, por ajudar a gente a entender esse [música] tema que tá tão presente no dia a dia também. Muito obrigada, Camila. Obrigada você também pela audiência, por ter nos acompanhado até aqui e até o próximo ponto de vista. [música] [música] Yeah.
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