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Ponto de Vista | Veto da União Europeia: Há algo de errado com a carne do Brasil?
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Ponto de Vista | Veto da União Europeia: Há algo de errado com a carne do Brasil?

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Neste “Ponto de Vista” falamos sobre o veto da União Europeia a carne produzida no Brasil, entenderemos o que levou essa decisão, qual a diferença da regularização estrangeira para a do Brasil e se a carne está própria para consumo no Brasil.

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A recente decisão da União Europeia de suspender a importação de alguns produtos de origem animal do Brasil reacendeu um debate importante sobre segurança alimentar, uso de medicamentos na produção animal e exigências sanitárias internacionais. Mas afinal essa medida significa que há algum problema com a carne brasileira? O veto está relacionado à qualidade dos alimentos ou as regras e controles exigidos pelos europeus. Para entender essas questões e também os impactos da decisão para produtores e consumidores, recebemos hoje aqui no ponto de vista o médico veterinário e professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, Sérgio Flanzer. Professor, muito bem-vindo ao ponto de vista. Muito obrigada também por aceitar o nosso convite. Muito obrigado, Taa pelo convite. Fica uma muito muito prazer estar aqui com vocês hoje para falar desse assunto, professor. Pra gente começar a entender melhor essa questão, né? Esse veto significa que há algo de errado com a carne brasileira? De maneira alguma. Eh, acho que o consumidor, principalmente, né, o maior interessado nesse assunto, eh, nesse momento, pode ficar tranquilo. A carne brasileira, ela é produzida num sistema bastante seguro, um sistema de inspeção, tanto nas nas propriedades rurais quanto no frigorífico e o que permite a carne ser exportada para mais uma centena de países, né? No ponto de vista da União Europeia, especificamente, é um caso muito específico que o governo já vem tratando disso e acreditamos que isso vai se resolver eh muito rapidamente. O que que levou a União Europeia a tomar então essa decisão, professor? Perfeito. A União Europeia ela trabalha com um sistema eh bastante protecionista de precaução em em relação aos alimentos que são fornecidos para pra população, né? Então, tem algumas substâncias, nesse caso específico, são antimicrobianos, como se fosse um antibiótico, né, que são utilizados, eh, que para eles eles consideram que quando utilizados de uma maneira eh muito corriqueira na produção animal, isso poderia levar ao desenvolvimento de bactérias que eh que se tornariam resistente a esse grupo de antibióticos. Isso poderia chegar até a população. Ah, mas isso ainda não tá totalmente esclarecido se são todas as substâncias utilizadas ou apenas um grupo, mas como eles são eh eh eles eles atuam mais pelo princípio da precaução, eles preferem, quando não se tem certeza, eles preferem evitar do que deixar isso utilizado. Então, como eh eles já passaram a proibir isso no território nacional, né, como a Comunidade Europeia como um todo, já há um bom tempo, eles deram um prazo para que os países se adequassem, né? Então, os países que não se adequaram até o momento, eles resolveram tirar de uma lista positiva de países que podem exportar, né? Então, é é por isso que eles eh eh trabalham de uma maneira diferente de outros países, né? Então, eh essas substâncias que nós vamos discutir aqui hoje, elas são utilizadas em quase todos os outros países. O grupo da União Europeia é um grupo bastante eh protecionista em relação a isso e decidiu por, de certa maneira proteger a sua população quando se tem a dúvida, mas não quer dizer que os os produtos utilizados sejam realmente um problema. E o que que a Europa ela tá questionando então exatamente, né, em relação a essas substâncias, já que o uso, por exemplo, aqui é regulamentado, né, e não há problema em outros países, professor. Isso, exatamente. Então, precisa ficar claro que ele é regulamentado no Brasil, em vários outros países, né, eh, vamos colocar assim, de primeiro mundo em relação à produção e que também se preocupam muito com a população, como no Brasil isso também acontece. Eh, o ponto para eles se dá em relação à resistência antimicrobiana, seria a o desenvolvimento de superbactérias. A gente tem muito medo, né, quando vai pro hospital, na época da pandemia, as pessoas estavam muito assustadas, pessoas que, né, vieram a falecer aí por o problema de uma infecção secundária que às vezes aparece. E essas bactérias elas podem se tornar resistente a alguns antimicrobianos, alguns antibióticos que nós usamos rotineiramente eh na área farmacológica. Nesse caso, ah, o que eles alegam é que se esses antibióticos passam a ser utilizados de maneira rotineira na produção animal, podem ser criadas bactérias resistente aos antibióticos lá na fazenda. Então, o que precisa ficar claro é que não é um problema do resíduo, do possível resíduo desses antimicrobianos na carne e ou leite ou ovos e a sua consequente chegada até o consumidor. Seria uma questão de criação, desenvolvimento de bactérias resistente a esses antibióticos. Então, quando essas bactérias, né, se existissem, se existirem essas bactérias resistentes, se elas chegarem até o consumidor, até a população, seria mais difícil a gente conseguir tratar com os antibióticos, antibióticos que nós temos hoje. Então, eles preferem falar assim, não, vamos evitar que isso se forme eh, então eles passaram já, já faz aproximadamente 20 anos que eles vêm trabalhando nessa redução. Eh, são dois pontos, Taila. A primeira é que eles proíbem a utilização de qualquer antimicrobiano, antibiótico, eh, que seja utilizado na medicina humana. Então, você tem uma amoxicilina, por exemplo, que a gente toma quando tá com dor de garganta, a gente vai no médico, ele receita. Então, para eles, esses antibióticos que se utiliza na medicina humana não deve ser utilizado nem mesmo pro tratamento de enfermidades dos animais que estão doentes na fazenda. Agora, outros grupos podem ser utilizados na produção animal, desde que pro tratamento de de doenças, mas não pro crescimento animal. A gente considera esse grupo de substâncias como promotores de crescimento. Então, o que eles querem, né, na sua pergunta, o que eles querem? Eles querem uma garantia dos países que a carne que vai ser exportada pro bloco europeu, eh, que os animais que forneceram essa carne não tenham recebido em nenhum momento da vida nenhum tipo de antibiótico promotor de crescimento, né, ou antimicrobianos, promotores de crescimento, eh, e nem antibióticos que sejam utilizados na medicina humana. E e nesse momento o Brasil, né, não conseguiu até o momento garantir isso. Alguns países conseguem garantir, o Brasil tá trabalhando para isso. É, essa produção, ela é possível aqui nacionalmente sem utilizar essas substâncias, professor? Ela é possível, né? Então, vamos imaginar assim, no existe como na Europa, eles produzem animais, seja suínos, bovinos, aves, eles são produzidos sem essas substâncias. A a dificuldade que eu colocaria no momento é em relação ao custo de produção. Então o que precisa ficar claro também pro consumidor é que os produtores quando eles decidem usar uma substância não é simplesmente porque é legal utilizar, né? O legal do ponto de vista de bacana de utilizar, eles utilizam porque tem uma função específica na produção animal e nesse caso aumenta a produtividade, por isso que chama promotor de crescimento. Essas substâncias quando aplicadas na dosagem correta, pelo tempo correto, elas fazem com que o organismo, que o corpo do animal seja mais eficiente em transformar aquilo que ele consome, o alimento dele em carne, leite e ovos, né? Então, quando você aumenta a produtividade, o custo de produção reduz. O produtor, logicamente, tem uma vantagem econômica em relação a isso, mas o consumidor também. Então, de alguma maneira, essa redução de custo na propriedade leva uma redação, uma uma redução de custo pro produto final. A questão é, se pararmos de usar ou qualquer outro país reduz a utilização dessas substâncias, a principal mudança eh que vai acontecer de um momento para outro é a possível elevação do custo desses alimentos. Então, a gente tem que estar preparado, né, quando decide eh levantar uma bandeira. não somos completamente contrários à utilização. Bem, precisamos ficar atentos que talvez isso leve a um incremento de custo. Mas o país, sim, nós temos sistemas de produção que são isentos de substâncias, né? Nós temos hoje algumas poucas marcas no mercado, assim como existe para vegetais, né, que é linha de produtos orgânicos, né? Existe carne orgânica, existe ovo orgânico, eh não que eles não sejam todos orgânicos, mas que tem o selo de certificação que eh proíbem a utilização de certas substâncias. que normalmente são utilizadas quando aprovadas pela legislação. Então, é possível produzir. Só que se a gente vai no supermercado e compara o preço de um alimento orgânico com um alimento convencional, é claro, né, que a o o a diferença de preço ela é marcante. Então, assim, é possível fazer, é, e as empresas elas vão se organizar para isso. Se o país decidir, queremos manter o bloco europeu como um cliente, queremos. Eu acho que isso tá tá sacramentado que sim, né? O governo brasileiro, a indústria, ela quer continuar enviando carne e seus produtos pra União Europeia. Então vamos ter que trabalhar em como fazer isso especificamente para esse mercado, porque no meu entendimento, no meu ponto de vista, eh essa produção com as substâncias promotores de crescimento vai continuar no país. Agora o senhor comentou que tem no mercado já a opção das carnes orgânicas, né, sem essas substâncias. Aí é um ponto delicado. Existe alguma diferença na na qualidade, né, para quem vai consumir essa carne? É algum é diferente, realmente é mais segura do que a que é feita com essa substância? Como é que é essa diferença pro consumidor? Perfeito. Vou dizer para você que do ponto de vista de qualidade sensorial não existe diferença alguma, né? principalmente quando a gente fala de carne, são vários eh atributos, indicadores do sistema de produção, da indústria, de embalagem que influenciam a qualidade da carne. Essa é uma linha grande de trabalho que nós temos no laboratório. Eh, então a gente trabalha bastante para melhorar cada dia mais essa qualidade sensorial, para que a carne seja mais macia, mais saborosa, mais suculenta. Eh, então, ser uma produção orgânica ou convencional, não existe uma uma definição direta se a carne vai ter uma melhor qualidade ou não. do ponto de vista sanitário, também bastante dúvida, porque eh o nosso governo é o Ministério da Saúde, o Ministério da Agricultura, eles ah analisam eh sempre qualquer tipo de substância que vai ser utilizada na produção, primeiro tem passa por uma avaliação se essa substância é segura quando utilizada da maneira correta. Então, são vários estudos por muito tempo. Eh, e se estão aprovados é porque eles garantem que é seguro. Mas eu vou colocar para vocês que garantem hoje, daqui 40, 50 anos não sabemos. Pode ser que vai continuar com a mesma resposta. São eram seguros e continuam sendo seguros. Ou daqui 40, 50 anos vão falar assim, ó, é realmente eles não eram seguros. Mas isso é só uma questão de de aguardar um pouco mais. Lógico, a gente pode estar suscetivo. Eh, então assim, não temos como garantir, Taila, se ele é se causaria o convencional causaria algum problema ou não, porque você imagina que 95 ou 98% da população consome produtos convencionais. Você, eu, todos que estamos assistindo aqui, eh, consomem produtos convencionais e tem até então uma vida saudável, né? Então, os nossos os nossos pais, né, que estão uma geração já aí, talvez na casa de de 60, 70 anos por aí, eh vieram consumindo esses produtos convencionais e estão bem até hoje. Eh, os nossos avós talvez consumiam no início, na juventude, mais alimentos orgânicos, mas depois na fase adulta também os alimentos convencionais e também estão bem quando tem uma alimentação balanceada. Então, eh, na minha visão, sim, a produção convencional ela é tão saudável quanto a produção de alimentos orgânicos, porque o governo, né, ele garante a segurança dos produtos utilizados. Agora, existe o risco de algum resíduo, né, desses medicamentos que são os antimicrobianos chegarem, né, ao leite, a carne, que são consumidos pela população e se chegam, eh, quais são as consequências, né, Claro, não, isso é um ponto, talvez é o que mais eh ficou de alerta pro consumidor, né, que não tá muito envolvido na produção, que é realmente a hora que viu essa notícia sobre o veto, eh, pensou que teria resíduo dessas substâncias na carne ou no leite que estaria sendo consumido. Então podem ficar tranquilo porque nem mesmo a União Europeia ela está preocupada com o resíduo, ela tá preocupada é com a criação de bactérias resistentes, né? Então isso pode ficar tranquilo. Eh, qualquer substância que é utilizada antes dela ser eh liberada para uso, eh ela ela passa pela essa avaliação que eu comentei mais cedo de se é necessário existir um período de carência. Então, na produção animal, se uma determinada substância, vamos imaginar então um antibiótico que é utilizado pro tratamento de uma infecção que o animal venha ter durante a sua vida. E esse animal ele é ela uma vaca produtora de leite. Então se esse animal, né, se essa vaca recebeu essa substância, eh o leite vai ter que ser descartado por 4, 5, 7 até 14 dias, dependendo da forma de aplicação ah dessa injeção. Se for uma injeção sistêmica, um pouco mais de tempo. Então todo esse leite ele vai ser descartado para garantir que não tenha resíduo. No caso da carne é a mesma coisa. Então assim, cada substância, né, no na sua bula, vem dito quanto tempo antes essa substância tem que parar de ser administrada para que não deixe nenhum tipo de resíduo na carne. Então, a gente pode ficar também eh tranquilo quanto a isso, porque o sistema de produção garante que não tem resíduos. E mais do que isso, o Brasil possui, né, o que nós chamamos de plano nacional de controle de resíduos e contaminantes. Então, o governo faz coletas de diferentes alimentos, dentre eles a carne, o leite, ovos, de uma maneira rotineira nas indústrias ou às vezes até no varejo, eh, para fazer detecção de possíveis resíduos aí de qualquer substâncias, não só os os antimicrobianos e os antibióticos, são vários. E com isso eles fazem um relatório todos os anos dizendo, ó, fizemos amostragem, encontramos ou não encontramos resíduos. Se encontraram resíduos, qual foi o valor? Porque uma coisa é ter resíduo, a outra coisa é ter um resíduo acima do limite permitido. Então o governo trabalha muito forte para garantir a segurança desses alimentos paraa população. Então quanto a resíduos, podemos ficar tranquilos também que não chega resíduo na carne. Então além dessa fiscalização no próprio governo, né, como é que é feito também o controle de qualidade pelas empresas? Porque tem que ser respeitado esse intervalo, então, entre o uso, né, da do medicamento e a venda pro consumo. É isso. Claro. Exato. No caso de, vamos separar aqui um pouquinho, então, as a no caso da carne especificamente, eh, que é maisonde o onde eu atuo, eh separamos aí bovinos, carne bovina de suínos e aves, né? a carne de porco e a carne de frango. No caso da carne de porco e de frango, eh o sistema de produção é um sistema que a gente chama de sistema integrado de produção, aonde a indústria ela é o centro, eh, e ela contrata produtores associados, que são as granjas, eh, eles fornecem normalmente, né, os pintainhos ou os leitões, né, saem de uma outra granja e vão para lá. E eles são produzidos com toda a assistência dessa indústria. Então, a indústria sabe qual granja utiliza ou não, qual substância e se o período de carência foi respeitado, porque eles controlam toda a parte de genética, de sanidade, de manejo, de alimentação. Então, é muito mais fácil controlar isso já na origem. Eh, no caso de bovinos é mais difícil porque nós temos aí muitos produtores independentes que enviam seus animais até o frigorífico. Aí vem o papel que você colocou, né, do controle de qualidade do frigorífico em garantir, como é que ele faz para garantir que esse animal que tá chegando não recebeu determinada substância. Então, normalmente o que se faz, principalmente em frigoríficos grandes exportadores, eh trabalhar com propriedades certificadas ou que tem um gerenciamento na propriedade em que tudo que é utilizado, todos os medicamentos, vacinas que são utilizados nos animais sejam registrados. E o Brasil obriga cada caminhão de bovinos que sai de uma propriedade vai até o frigorífico. Cada boi tem um RG, a gente chama de guia de trânsito animal. E e nessa guia todas as informações do que esse animal recebeu de tratamento vão estar constad ali. Então se ele receber alguma coisa, o frigorífico vai saber como trabalhar com esse animal se é necessário trabalhar com uma forma diferente. Então tem uma primeira parte que é um controle de rastreabilidade e é exatamente nesse ponto que a União Europeia vem cobrando do Brasil, que para exportar para lá e precisa existir um sistema de certificação desde a fazenda, do frigorífico até chegar na Europa. Então além disso, o frigorífico faz análise de rotina de resíduos. Então tem o plano do governo, né, nacional, o plano de de controle de resíduos, mas a indústria também faz análises rotineiras, principalmente para alguns mercados mais específicos que exigem um pouco mais de garantia em relação a esses possíveis resíduos. Então, a a a indústria, o produtor e o governo estão trabalhando alinhados para garantir que não tenha nada de resíduo. Agora o senhor comentou das carnes orgânicas que já existem no mercado, que são mais caras, que são as que não utilizam, né, essas medicações para esse super crescimento e são mais caras. Esse já é um desafio óbvio, né? Mas além disso, por que que outras indústrias, né, têm tanta dificuldade para se adaptar a essa produção sem a utilização desses medicamentos, que é justamente o que a União Europeia exige nesse momento, professor, qual que é o desafio, né, para essa produção sem utilizar esse medicamento? É, o desafio ele é sempre, a gente tem que sempre pensar do ponto de vista de de concorrência, de mercado e de oportunidades, né? Então, uma questão muito mais econômica do que querer ou não usar, né? Então, vou imaginar que nós temos uma uma nós dois temos a mesma propriedade, faz, né, a mesma propriedade, não, temos duas propriedades que fazem exatamente a mesma coisa. Eh, utilizamos essas substâncias que são utilizadas hoje como promotores de crescimento e por algum motivo você, né, tá um pouco mais preocupada com a sua saúde, talvez ou com algum mercado e você decide assim: "Poxa, eu vou parar de utilizar esse esses produtos aqui na minha propriedade e o Sérgio vai continuar fazendo o que sempre fez". O que vai acontecer no primeiro momento, muito provável, é que o seu custo de produção vai ser elevado. E aí nós dois vamos chegar no mesmo frigorífico, falar assim, ó, eu tenho aqui 100 bovinos e o sistema convencional e a Tila tem 100 bovinos do sistema convencional. Bem, o do Sérgio custou R$ 10, o da Tila custou 12 para produzir. Você vai querer ter o seu lucro? Eu vou querer ter o meu lucro. O Fregor vai falar assim: "Ô, Tila puxa, eh, eu vou comprar só o do Sérgio, porque o mercado consumidor que eu atendo só consegue pagar pelo produto se eu conseguir comprar por 10. Se eu comprar por 12, eu vou ter que vender R$ 2 mais caro pelo quilo. E eu não tenho para quem vender, porque assim, ou vai ser no mercado interno, que aí a gente sabe que tem uma questão de distribuição de renda e tudo mais, que seria um pouco mais complicado, ou para exportar, ou eles podem falar assim: "Ô, Sérgio, eu vou comprar só da TA porque hoje o mercado que tá pagando mais e que eu consigo, né, valorizar mais o produto é o do sistema orgânico, vamos colocar assim. Então, eu vou comprar o da Tyler, aí eu vou falar assim: "Opa, pera aí, eu vou ficar de fora disso?" Não, a partir do ano que vem eu também vou migrar para esse sistema para atender. Agora, o que pode acontecer no próximo ano, Taila? Esse mercado que o frigorífico vendia fechou e agora assim você mudou todo o seu sistema, você tá com um sistema de produção um pouco mais caro, eh, e eu mantive o meu, então eu vou ter mais disponibilidade, mais opções de venda do que você. Então, é sempre uma questão econômica. Então, o importante é dizer que dá para fazer, num primeiro momento, ficaria mais caro, sim. Eh, mas as indústrias, principalmente as indústrias eh ligadas à parte sanitária, desenvolvimento de substâncias, elas estão atentas a isso e elas estão trabalhando com alternativas, ah, vou usar a palavra aqui, não medicamentosas, então, como óleos essenciais, alguma, algum promotor de crescimento natural, orgânico, um prebiótico, um probiótico, né, que a gente alimentação também eh tem alguma diferença, professor? alimentação do animal. Sim, sim, tem. Você é assim, os animais, no caso dos bovines, especificamente, eh, eles são ou todos os animais, né? Eu gosto de dizer que eles transformam, cuidado com a palavra, eles transformam lixo em um alimento de alto valor, né? Então, no caso dos bovinos, eles transformam grama, o pasto, né, a pastagem em carne e leite. Eh, os suínos e as aves, né, transformam muitas vezes a soja, que é a casca da soja, não é necessariamente a proteína da soja, em uma proteína de alto valor. Então, lógico que dependendo do tipo de alimentação que esse animal recebe, a necessidade desses promotores de crescimentos pode ser maior ou menor. Então, se você trabalhar com alimento balanceado, eh, com uma disponibilidade grande, talvez esses promotores de crescimento não sejam necessários. Só que, de novo, para você escolher essa base da alimentação, vai tornar o sistema de produção um pouco mais caro. Então, é tudo alinhado, né? Então, depende da alimentação e quais promotores de crescimento estão sendo utilizados nesse sistema. Então, você pode trabalhar dessas duas formas. Bõ, esse veto da União Europeia, a carne brasileira, se começar a valer, deve ser em setembro, né? Então o Brasil tem pouco tempo aí para se preparar. Como o país ele pode conseguir vencer esse veto hoje, criar uma produção aí específica que atenda, né, as exigências do mercado europeu? É, são algumas eh quando esse assunto surgiu, né, conversamos com alguns colegas e na cabeça a gente consegue começa a pensar em algumas estratégias. Quais seriam as estratégias que o governo, né, como país, vai tomar em relação a isso, né? Eh, a primeira coisa que seria assim, você resolve de hoje para amanhã de maneira muito fácil, é simplesmente proibir em território nacional ao a comercialização e venda dessas substâncias. Então, a partir do momento que você proíbe, você não precisa mais nem certificar nada, porque se a substância não está mais no país, você garante que ninguém vai utilizar. Eh, só que isso não vai acontecer, né? Porque você imagina que hoje é apenas a União Europeia que está solicitando esse tipo de de produto certificado sem essas substâncias. Eh, a gente pode imaginar que a Europa é um um país que compra muita carne do Brasil. Quando a gente fala em volume é bastante, mas percentualmente não é tanto, né? Então a Europa compra aí talvez 4, 5%, não chega nem a isso, da carne que o Brasil exporta, né, de de todas as espécies. Então é um mercado que no passado foi muito importante pro Brasil, hoje não é mais tão importante em em volume de produção eh percentualmente, né? Mas é uma vitrine pro país. Então assim, se a União Europeia vai deixar de comprar do Brasil, um outro país pode falar assim: "Puxa, mas vocês não estão conseguindo atender a Europa, então eu vou ficar eh vou ficar com receio de comprar de vocês". Então, atender a Europa, no ano passado foi muito discutido que o Brasil conseguiu abrir o mercado pro Japão, que foi muito importante. Eh, isso se torna importante pro país, né? Então, assim, a primeira opção seria essa, que é vetar a utilização da substância no Brasil. Isso entendo eu, que não deve acontecer num curto, médio período de tempo. E o que saiu uma notícia agora recente é que o governo já criou um plano, né, nacional de certificações para carnes produzidas sem essas substâncias. Então, o que deve ser lançado agora nas próximas semanas é como que o Brasil vai conseguir garantir. Então, você vai precisar, você é uma uma fazenda, né? Vamos voltar ao seu caso que você produz os seus animais lá na fazenda, eh, sem a utilização dessas substâncias. Eh, não vai valer só você falar que você não utiliza. Você, além do seu sistema de produção ser um pouquinho mais caro, tá? Você vai ter um outro custo agora. Você vai ter que contratar uma empresa certificadora que vai até a sua propriedade, vai fazer uma relação de todas as substâncias que você utiliza para ver se essas proibidas pela Europa não estão listadas. Você vai garantir isso, você vai ter que contratar essa empresa, você vai ter mais esse gasto. Eh, essa empresa vai emitir o certificado que não tem essa substância, vai mandar até o frigorífico. Você vai mandar esses animais até o frigorífico. Esse o frigorífico vai ter que produzir em separado. Isso já acontece hoje para exportar pra União Europeia. Existe até às vezes um abate em separado, uma segregação em câmara fria. Isso a indústria já faz. Faz. Agora a indústria vai ter que pagar uma certificadora também para fazer um certificado que esse lote, esse grupo de animais foi produzido na fazenda da Taila sem essa substância. Então veja que tudo isso é para garantir que o produto vai chegar lá no destino, eh, sem a substância. Então, é inisso que o governo trabalhou desde que essa essa medida da Europa foi tomada para desenvolver esse plano. Então, esse plano já vai entrar em vigor. E a terceira eh opção que eu imagino que jamais faríamos é falar assim: "Cruzamos os braços, ficamos como está, Europa não quer, não tem problema, compra de outra Europa, porque ela já tem uma briga com os Estados Unidos, tem uma briga com a Austrália. Então, assim, eles começam daqui a pouco vão ficar sem opções, né? Então eles vão ter que ou baixar a guarda eh e começar a permitir, né, se os outros países aceitam ou ter mais comprovação do que não quer. Mas de novo, isso também eu acho que não vai acontecer, porque é muito importante pro país manter a Europa como mercado, não só por uma questão do impacto econômico, mas também da reputação, né, muito mais. Exatamente, porque como eu falei, né, em relação ao impacto econômico, logicamente iríamos sentir e algumas pessoas acabaram comentando comigo e me perguntando assim: "Poxa, que bom, então não vai mais vender carne para Europa, vai sobrar mais carne do Brasil?" Você vê que a dúvida nem era se ia ter a substância ou não. Era: "Vai, o preço vai ficar mais barato, vai cair o preço da carne no Brasil." E eu falei assim, espera um pouquinho, porque o que eles compram é pequeno, a a quantidade é pouca, então não vai impactar no no mercado brasileiro o custo e o Brasil rapidamente conseguiria colocar essa carne em outros países, né? Talvez não pagando tão bem, mas iria conseguir colocar e a gente teria a mesma quantidade de carne no país, né? Então não iria impactar. Mas de novo, a imagem do país seria e e ficou muito ruim. A gente precisa ser o 10 que quando saiu isso e fala assim: "O Brasil foi o único país retirado da lista positiva." Olha que que chato que isso fica, né? O país, o maior produtor, maior exportador de carne do mundo, ficando fora de uma lista. Eh, então o governo tá trabalhando pesado para resolver. Pro próprio consumidor brasileiro fica aquela puga atrás da orelha, né? Será que a nossa carne ela é segura? Carne que é exportada com certificação, ela é melhor que a gente que que a gente consome internamente? Mas isso não seria uma verdade, né? Não, de maneira alguma, né? Isso também é uma dúvida, né? E e se ah, o que se exporta é melhor, tem melhor qualidade do que fica no país, né? Isso isso não acontece, tá? Ela eh eu garanto para você que no caso da carne, que é onde nós trabalhamos muito, a carne produzida no Brasil, do ponto de vista de qualidade, eh, a que fica no país, qualidade sensorial, nesse caso agora, ela é melhor do que produzida em outros países ou até mesmo a que é exportada. O Brasil exporta muita carne dentro da categoria que nós chamamos de eh commodity, né? Então, commodity é aquele alimento que é aquele produto que é comercializado por um valor estabelecido pelo mercado internacional, né? Então você vende, você não vende picanha, você vende carne. Eh, então tudo fica, você pode concorrer em em diversos países vendendo carne, mas não a picanha determinados cortes. Então o Brasil vende muito carne que vai ser industrializada no destino. É uma carne que às vezes a gente considera como carne ingrediente. Vai ser para fazer hambúrguer, vai ser para fazer carne cozida, ah, vai ser para fazer algum processado de carne no exterior. Então, a carne de melhor qualidade, vamos colocar assim, filé minhon, picanha, ocata que o pessoal gosta agora na época da Copa, né, de fazenda churrasqueira. O Brasil produz muito e a maioria fica no Brasil, né? Cerca de 70% do que o o Brasil produz de todas as espécies fica no país. O país o maior exportador de aves, de carne de aves, maior exportador de carne bovina, mas só exporta 30% do que produz. 70% fica no país e com excelente qualidade. Bom, e se o Brasil conseguir implantar essa certificação, né, pra carne que é produzida sem os medicamentos, que seria saída para driblar então esse veto da União Europeia, né, professor? Aí, no caso, a carne certificada seria exportada e a outra ficaria no mercado interno. É isso. Exato. Exato. E e eu acredito que eh essa certificada, né, ela vai exigir não só do governo, da associação, né, das associações, eh, das indústrias exportadoras de carne, bovina, de suinos, de frango, um trabalho muito bem feito com seus clientes na Europa, né, com seus traders na Europa para ver como que esse valor vai ser repassado, porque mais uma vez, né, eh, eu expliquei aqui com exemplo mostrando que o produto vai ficar mais caro, a carne para esses países vai ficar mais mais caro. Então eles têm eles eles vão ter que entender como é que a gente vai conseguir colocar esse produto lá no mercado. Será que o Brasil vai continuar sendo ainda um concorrente em relação a preço? Porque hoje nós somos um país que realmente consegue atender com um preço de exportação muito bom. a carne no Brasil, eh, a gente brinca, né, que o o brinca não é triste, né, de certa maneira que o brasileiro não consegue ter acesso a quantidade de carne que gostaria, mas incrivelmente, tá, a carne brasileira é uma das mais baratas do mundo, n? Então, assim, é por isso que a gente consegue exportar tanto, produz tanto e exporta tanto. Só que com esse sistema, será que vai ser vantajoso pra Europa comprar do Brasil, se o produto vai ser mais caro? Será que vai ser vantajoso para você, produtora, Taila produtora, enviar a sua, continuar fazendo esse sistema orgânico para mandar paraa Europa? Então isso que vai ter que entender. Mas vai ser essa estratégia, essa estratégia que o governo eh decidiu tomar e no meu ponto de vista é a era a única eh estratégia real e factível de ser executada. Eh, então assim, eles acertaram, né? não teria outra, na realidade, não teria como errar nesse nesse ponto e e para atender esse mercado. Então, acho que é isso que vai continuar acontecendo. Bom, pro consumidor final, qual que é a mensagem que a gente pode deixar dessa discussão? Então, professor, a Karen não vai ficar mais cara, não vai perder qualidade, o pessoal pode ficar tranquilo em relação a isso, porque se essa certificação ela for de fato implantada, vai rolar essa dúvida, né? A carne que é exportada, ela é mais cara, por isso ela é melhor ou não necessariamente? Ou seja, o que que a gente pode deixar aí de mensagem final pro consumidor que nos assiste? Perfeito. Pode ficar super tranquilo que de novo, né, a mensagem lá do início da conversa, né, a carne brasileira ela é segura, ela não oferece qualquer tipo de risco sanitário pro pro consumidor. Eh, não vai ter variação de preço, de custo, nem para cima, nem para baixo, devido a esse mercado da União Europeia. Nós já explicamos as motivações para isso. Agora, o que eu não posso garantir é se vai subir ou não por outras razões. Então, existe a China comprando muita carne do Brasil. Eh, agora tem uma questão de cota também na China. Então assim, o pessoal tá falando que eh a tendência num curto prazo, a partir do mês que vem, a partir de agosto, é subir um pouco, eh reduzir um pouco o valor da carne no mercado interno, porque tá se atingindo a cota de exportação mais barata pra China, mas logo depois a China abre a cota pro próximo ano, então assim, vai voltar a vender muita carne pra China. Então o preço da carne no mercado interno, ele ele varia muito em relação da das possibilidades que o Brasil tem para exportar. Então, sempre quando o Brasil consegue aumentar um pouquinho, mesmo sendo uma porcentagem de exportação só de 30%, né, que nós comentamos, é esse mercado de exportação que muitas vezes baliza o preço da carne no mercado. Além disso, a disponibilidade de animais no país. Então, se a gente tem eh o que a gente chama de retenção de vacas na fazenda, né, pensando em carne bovina, eh acaba indo menos animais pro abate. Se tem menos oferta e a demanda tá aquecida, o preço sobe. Agora tem épocas do ciclo em que tem muito gado sendo jogado no frigorífico e aí o preço da rouba cai, por consequência o preço da carne no varejo cai também. Então o que deve acontecer é uma estabilização, né? Então assim, quem tá comprando vai continuar comprando, quem tem mais dificuldade vai continuar tendo um pouco mais de dificuldade. Professor Sérgio Flanzer com a gente. Ele que é professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Muito obrigada, viu, professor, por aceitar o nosso convite, por esclarecer também esse assunto, né, que gera tantas dúvidas. Obrigado, Taila. Até logo. Muito obrigada. Bom, e já agradeço também a você que nos acompanha aqui na TV Câmara em mais um ponto de vista. Muito obrigada pela sua companhia. Te espero no próximo programa. Até lá. เฮ M.
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