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Olá, muito obrigada pela sua audiência. Bem-vindos ao ponto de vista de hoje e hoje com um tema muito especial, a invisibilidade das pessoas com deficiência no Brasil. O país tem hoje 18 milhões de pessoas nesta condição, segundo IBGE. Mas mesmo com avanços nas leis e também no debate sobre a inclusão, esse grupo enfrenta ainda desafios no acesso à educação e também ao mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, o Brasil vive um momento importante no esporte, com destaque para participação histórica na Paraolimpíada de Inverno de 2026, com a maior delegação já enviada ao evento. Isso levanta uma reflexão. Estamos de fato avançando quando o assunto é inclusão ou ainda há um longo caminho pela frente? Para conversar sobre esse tema, recebemos aqui hoje o Mauro Melone. Ele que é professor da PUC Campinas, atuou também recentemente como coordenador do serviço de fisioterapia do Comitê Paraolímpico Brasileiro. Hoje então falando aqui conosco. Professor Mauro, muito obrigada, viu, por aceitar o nosso convite. Seja muito bem-vindo. Olá, Taudo bem? Meus cumprimentos. Eu que agradeço pelo convite. É um enorme prazer estar aqui representando a Faculdade de Fisioterapia da PUC de Campinas e para falar um pouco da desse tema tão relevante para nós, para nossa sociedade. Bom, professor, e pra gente começar, né, esse debate, quando a gente fala em visibilidade das pessoas com deficiência aqui no país hoje, na sua opinião, do que que a gente tá tratando na prática? Olha, eh, eu entendo que de forma geral a gente tem muito a avançar, sem dúvida nenhuma. Acho que os números mostram isso, né? Se a gente olhar para os para os números de analfabetismo, por exemplo, das pessoas com deficiência, são bastante esses números são bastante alarmantes, mas eu entendo que a gente tem progredido em alguns alguns aspectos bastante importantes, eh, como, por exemplo, e essa política de inclusão em termos de porcentagem de deficientes em diferentes empresas. É claro que nem todas as empresas entenderam ainda essa importância, mas a gente tem avançado, os números têm mostrado isso, né? Eh, e dentro do esporte também esses números bastante relevantes estão mostrando isso. Mas é claro, nós temos ainda muitas coisas para caminharmos em muitos sentidos. A gente precisa tornar o assunto mais público, vir à tona a população de forma geral conhecer, né, e entender o que o que um deficiente pode fazer no esporte, em diferentes empresas, enfim. Então, eu acho que nós temos muitas políticas que devem avançar, sem dúvida nenhuma. Bom, e a gente tem as leis de inclusão, né, professor, mas mesmo com isso, por que que essa invisibilidade, na sua opinião, ela persiste? Porque a gente tem avanços no esporte, né, como você disse, mas em outras áreas ainda não. Na sua opinião, por ainda isso acontece? Eu acho que a gente precisa de eh honestamente e primeiro, um primeiro ponto importante, a gente precisa de publicidade, eh a gente precisa tornar público o assunto. H, por exemplo, para a a transmissão de competições que envolvem atletas com deficiência, ainda a audiência é muito menor, né? E hoje nós temos, por exemplo, competições ah que são transmitidas ao vivo por TVs importantes aí e de pessoas com deficiência, como por exemplo Campeonato Mundial de Atletismo lá em Nova Adélia, onde o Brasil foi campeão. Ah, a foi transmitida ao vivo, assim como outras competições envolvendo atletas sem deficiência. E a maior parte das pessoas ao meu redor não sabiam que eh isso seria isso seria transmitido ao vivo. Então, a população em geral não tem o conhecimento. E e quando a gente traz para esse aspecto social, eu tenho certeza que isso é um reflexo. As empresas também ainda não foram devidamente instruídas sobre a importância de de se atingir uma determinada meta, né? a as escolas, por exemplo, de se prepararem para receber deficientes, os pais devidamente orientados com relação às possibilidades que tem com os filhos, seja utilizando o esporte como meio de inclusão, ou seja, pela obrigatoriedade de levá-los a uma escola. Eh, então eu acho que o assunto ele precisa ainda se tornar público, né? Eu acho que esse é o primeiro ponto, fazer com que a a população conheça de fato esse assunto e tudo aquilo que os deficientes podem fazer na sociedade nos mais diferentes ramos, né? E a partir dali, obviamente, essas políticas que tornam acessível a a condição do do deficiente, seja pro esporte ou seja para um trabalho, enfim, elas devem vir caminhando paralela a essa a esse tornar público aí, enfim, dessa dessa questão. Quando a gente fala do esporte, isso envolve também diretamente, né, professor, trabalho e renda também, né, a questão da qualificação, da inclusão no mercado de trabalho. Nesse aspecto hoje, o que mais precisa avançar, né, na sua opinião? Olha, eh, a inclusão de forma geral é um é um termo bastante amplo e e inclusão serve para esporte, serve para trabalho, serve paraa educação, com certeza. Eh, a gente percebe que assim, o o os dados de analfabetismo dentro da população de deficientes eles são bastante alarmantes, né? são bastante preocupantes. A gente tem em torno de quatro vezes mais a analfabetismo entre eh os deficientes de forma geral do que na população semeficiência. Então isso mostra que nós não temos acesso primeiro à escolaridade, né, para para os deficientes. Então, para que a gente evolua nesse sentido, mais uma vez, eu preciso tornar público o acesso. Eu preciso tornar público obrigações, inclusive com relação aos deficientes, né, com relação à família, por exemplo, de crianças deficientes, para levá-los à aquilo que a gente precisa evoluir. E eu preciso também tornar público meios de acesso. Então, por exemplo, celulares com aplicativo, aplicativos de leitura para deficientes visuais. a gente sabe que a gente tá muito distante do do da dessa política, né, dos dos deficientes terem acesso a esse tipo de condição. Então, paraa leitura, por exemplo, existem aplicativos hoje que fazem a leitura de um de um livro, né, eh contando a história, enfim, é falada e eles têm acesso. Eh, então essa dificuldade ela não pode ser eh impeditiva. E claro, para isso, se se nós temos mais analfabetos entre os deficientes, proporcionalmente a gente entende que a renda também deve ser mais baixa e eles não vão ter condição, obviamente, de comprar um celular que tenha acesso a esse tipo de condição. E então eu acho que esse olhar, mais uma vez, ele é muito muito amplo, né? Eh, tornar público de fato esse tema faz muito sentido, né? Para você ter uma ideia, o nosso vice-presidente hoje do Comitê Paralímpico Brasileiro, né, eh ele nasceu sem as duas mãos, né, e foi campeão paralímpico, campeão mundial, recordista mundial, enfim, ele foi descoberto totalmente por acaso, porque ele tava num ônibus eh viajando lá na cidade de Maceió, que é a cidade natal dele, né? E e aí um professor de educação física que trabalhava com esporte adaptado, eh, simplesmente o viu e perguntou se ele praticava algum esporte. né? E ele não praticava, ele foi fazer um teste e se deu muito bem. Então foi um acaso. Ele estava no lugar certo, na hora certa, o professor também. Mas percebe, a gente ainda depende desse acaso para todos os ramos da sociedade com quando o assunto é deficiência, né? Então eu acho que a gente precisa realmente avançar nesses dois sentidos, tornar público a população se conscientizar da relevância desse tema, né? e paralelo a isso as políticas públicas ah tornarem o acesso a tudo isso, à escola, né, com uso inclusive de aplicativos adaptados ao deficiente, seja ela qual for a deficiência, o esporte, a a as empresas, né, abrirem as portas e estarem preparadas para cumprir as metas estabelecidas em termos de porcentagem. Então, eu acho que eh esses dois aspectos caminham muito juntos, né? E e veja, a gente só vai atingir esse segundo aspecto se tudo se tornar público. Enquanto o assunto ele for muito pouco conhecido, eh a gente não vai entender a relevância e a gente não vai se preocupar em pôr em prática todas essas ações do segundo plano que eu comentei, não é? Como eu disse, eu tenho pessoas ao meu redor que sabem o que eu faço e que não sabem eh que a competição estava sendo transmitida ao vivo, uma competição que eu tava, né? Então eu sempre aviso as pessoas que eu que eu conheço para que elas pelo menos participem, acompanhem, enfim, né, o meu trabalho e o trabalho das pessoas com deficiência com as quais eu estou junto. E o paradoxo disso, né, professora, é que é uma fatia grande da população. Estamos falando de 18 milhões de pessoas, segundo o levantamento mais recente que a gente tem do IBGE hoje. Ou seja, tem um público grande, mas o que falta é essa publicidade e é esse acesso, né, a a a locais de destaque, quando a gente fala do esporte, da educação, das profissões também, né? Perfeito, perfeito. Exatamente. É uma população extremamente volumosa, né? Hoje o o o espectro eh do que se considera deficiência, ele é bastante grande. Nós temos eh eh aliás a gente tem alguns tipos de deficiência que eram muito subdiagnosticados, né, até recentemente e hoje a gente começou a olhar para isso, diagnosticar determinados tipos de deficiência e isso deve fazer com com o passar do tempo que esses números aumentem cada vez mais. Então realmente eh é é uma parcela muito grande da população, né? Eh, e boa parte, tá aqui precisa ser dito também, eh, esses números aumentam em boa parte em não nos grandes centros, né? Se você pegar, por exemplo, a região aqui de Campinas, a nossa cidade mesmo, nós temos aí, se não me engano, em torno de 6, 7% 6% da população deficiente e essa porcentagem é muito maior no Brasil. Óbvio que isso é impulsionado por regiões que não fazem parte de regiões metropolitanas, né? Então, realmente a gente precisa entender que de forma geral existe um número muito alarmante, muito relevante, né, em termos de de população com deficiência e também entendemos onde é que essas pessoas estão, né? Então, os grandes centros têm um número menor e aqueles aqueles locais mais distantes, uma população em termos de porcentagem ainda maior. Então é um desafio para implementar tudo isso que a gente comentou, né, em termos de política, enfim, de acesso a todos esses dispositivos que podem contribuir de fato paraa acessibilidade. E como é que o esporte ele pode ser hoje um agente transformador dessa realidade, professor? na sua opinião, é a sua área, né, a área do esporte, como é que ele pode ajudar a transformar hoje essa realidade? Perfeito. Olha, me permita contar aqui uma uma breve história aí do do Paradesporto, né, de como surgiu o esporte adaptado, né, eh, lá em Stoke Mandeville, na Inglaterra, eh existia lá um centro de reabilitação, onde um líder da área de medicina, que era o Ludvig, cuidava lá daquele centro de reabilitação. Eh, e ele entendeu que o esporte poderia ser utilizado como uma ferramenta na própria reabilitação, né? Então ele propôs ali um festival dentro do próprio hospital onde eh pessoas com trauma rackmedular, todos eles na época eh eram reformados do do militares do exército, Marinha ou Força Aérea, enfim, né? geralmente sofreram um tramarque medular em condições de guerra, estavam internados naquele hospital para reabilitação. né? E aí ele teve essa essa grande ideia, né, de utilizar um ali um festival esportivo dentro do do hospital de reabilitação, do centro, né, para para que ela aquelas pessoas de alguma forma interagissem, convivessem e utilizassem essa disputa como um meio interessante de proporcionar atividade, né, enfim, eh, recrutamento muscular, progressão física, né, no real sentido. É, e aquilo aconteceu no mesmo dia da abertura dos Jogos e Olímpicos de Londres lá na época em 1948, né? E isso chamou a atenção do mundo, né? Eh, para realmente o esporte como um meio naquele momento, um meio de esporte adaptado, né? Um meio de inclusão, né? E de reabilitação também. Eh, e de lá para cá as coisas foram evoluindo. Em 1960 nós tivemos ali os primeiros jogos considerados paralímpicos, né, ainda numa condição semiprofissional, mas hoje a gente tem aí, lógico, o esporte adaptado em algumas regiões. Aqui em Campinas nós temos associações importantes vinculadas inclusive à universidades e também temos o altíssimo rendimento, como é o caso do que é fomentado lá pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, né, com com apoio de verbas públicas. eh, enfim, esses atletas que chegam no altíssimo rendimento hoje, né, com salários, bolsa e patrocínio equiparados aos atletas convencionais, inclusive, né, esses atletas passam a ser a solução financeira da família muitas vezes, né? Então, e eles passaram por diferentes eh eh por por diferentes momentos ao longo da sua vida, né? A descoberta da deficiência, eh aquela situação do tipo: "Meu filho não vai conseguir trabalhar, nós vamos ter que sustentar uma boca a mais, entre aspas". eh, mas que não vai poder trabalhar, quando na verdade eles passaram por etapas diferentes, de alguma forma foram descobertos, né? Eh, desenvolveram seu potencial esportivo, obviamente, né? E e conseguiram hoje, muitas vezes serem ali o talvez o principal principal fonte de renda das suas famílias, né? já conheço vários que têm essa condição. Então, quando de fato passam por todas essas etapas e conseguem atingir o altíssimo rendimento, especificamente falando disso, né? Eh, hoje esses esses essas pessoas conseguem ser ali referência, né, paraa família, referência inclusive financeira, tá? E isso é uma realidade não só do Brasil, mas de muitos outros países. Você contou uma história, né, citando inclusive que o atleta ele tava ali no local certo, na hora certa, conheceu a pessoa certa, quer dizer, teve um golpe de sorte, mas de forma geral, dá para dizer que o esporte ele é mais acessível hoje para as pessoas com deficiência que outros espaços, né, que a escola, que a universidade ou tem muito ainda para avançar também nesse sentido? Eu diria que você disse duas verdades, tá? Eh, realmente a gente evoluiu muito. Então, hoje nós temos aqui em Campinas, por exemplo, equipes do que que de que trabalham com diferentes esportes. Nós temos a Associação Paralímpica de Campinas, né, que tem um vínculo importante lá com a PUC. Eh, nós temos hoje clubes também que treinam lá na região da Unicamp, por exemplo, eh, que trabalham com o Hug, Brincadeira de Rodas, né, e, e espalhados pelo Brasil, né, existe a Associação Brasileira de Clubes Paralímpicos, né, eh, houve um processo de cada vez mais descentralização do comitê paralímpico, montando diferentes centros de referência. Eh, então nós evoluímos muito, não tenho dúvida disso, tá bom? até talvez seguindo o exemplo de outros países que são ali para nós exemplos importantíssimos desde da reabilitação, OK? Eh, evoluímos demais, ah, mas a gente ainda tem muito a evoluir, eu não tenho dúvida, tá? a gente tem exemplos de outros países em áreas específicas que poderiam nos servir e muito para que nós tornássemos cada vez mais acessível essa condição do atleta ou do deficiente, não só ao esporte, mas também ao mercado de trabalho, a escola, educação e tudo mais. E aí, quais países que são hoje essa referência, professor, quando a gente fala nessa acessibilidade? Perfeito. Olha, a gente tem referência pensando no esporte, eh, basicamente pensando no resultado principalmente, né? Acho que a gente precisa considerar a China como uma enorme referência, né? A China hoje vem constantemente vencendo os jogos paralímpicos, sendo hoje a maior potência, de fato, eh, das competições paralímpicas no mundo, dos jogos paralímpicos, né? Eh, e a China a ela teve um legado deixado pelos jogos de Pequim 2008, né? onde estruturas foram construídas, eh, mas também eh essa questão de fazer a população conhecer, de buscar ali o deficiente, trazê-lo paraa prática do esporte adaptado primeiro, né, para começar a praticar determinados esportes, identificar ah, de fato pessoas que sejam talento específico para cada esporte. Então, houve uma política governamental da China ali a partir de de Pequim 2008. É claro que eles são favorecidos pela quantidade de deficientes. Então, se no Brasil você falou em torno de 18 milhões de pessoas, a China aí tem quase 90 milhões de pessoas deficientes, né? Então nós estamos falando de uma população de deficientes que é muito maior e isso obviamente é proporcional à quantidade de descoberta de talentos no caso do esporte que você tem, né? Eh, é óbvio, mas eles usaram uma política eh governamental importante, né, de acesso ao deficiente a diferentes áreas, inclusive ao esporte. Isso fomenta a descoberta. E a gente tem outras outras outros grandes exemplos também de países em que a organização, desde o surgimento da deficiência permite a descoberta de talentos, né? Na Suíça, por exemplo, existe um centro de reabilitação para traumack medular. É um país pequeno, né, territorialmente falando, mas que canaliza muito e a partir do trauma hack medular essas pessoas para os grandes centros de referência. E ali você, veja só, você condensa, né, num espaço, na cidade lá de Notwel, por exemplo, na Suíça, ah, num pequeno espaço de reabilitação que é muito desenvolvido, tudo, quase tudo que você tem no país. Então, ali mesmo você usa a ideia do Ludvig, que foi o que criou para desesporto. É, eles têm, pr você ter uma ideia, dentro dessa desse hospital, dess desse centro de referência em reabilitação, eles têm, por exemplo, mecânicos que produzem cadeiras de roda e eles têm os festivais internos que hoje se tornaram mais conhecidos no mundo para provas de cadeira de rodas. Então, praticamente todos aqueles que sofrem um trauma hack medular em algum momento passam por um festival interno, né, e tem alguma chance, obviamente, de serem descobertos como um grande talento. Então, quando você pega, por exemplo, um militar que está acostumado a atividade física e que sofre um trauma rackmedular, eh, ele pode ter um grande desempenho e aí você descobre um talento desse ali já naquela condição em que ele está na reabilitação. Isso pode acontecer, né? né? Como eu disse, a gente ainda no Brasil e em outros países, a gente ainda depende um pouco da da sorte mesmo, né? Temos outros exemplos. Eh, mas nesses países essa sorte fica em segundo plano, porque quando você canaliza esses esforços na tentativa de sistematicamente observar as condições nesse determinado grupo, você tem mais chance de descobrir talentos, né? Mas o Brasil tem descoberto também talentos, né, professor? inclusive com uma participação histórica na última Paralimpíada, com resultados aí muito positivos, né? E o senhor inclusive participou do comitê, né, da da Paralimpíada. Então, conta um pouco pra gente dessa experiência e como isso pode ajudar também na visibilidade das pessoas com deficiência. Perfeitamente. É, nós batemos recordes em termos de participação, né? Tivemos a a medalha também foi conquistada pelo Brasil. É, é óbvio que geograficamente nós temos uma dificuldade no Brasil, não temos neve, então são uns heróis, né? trabalham muitos deles de forma totalmente adaptadas, né? E nos esportes de verão, eu tive a oportunidade de participar de três paralimpíadas, né? Então, participei do Rio 2016, Tóquio 21 e Paris 2024. Seis campeonatos mundiais também de de atletismo e três jogos para Pan-Americanos. E o que eu tenho percebido é que o Brasil, bom, hoje é na na nas últimas todas as últimas edições dos jogos para Pan-Americanos, o Brasil é a a maior potência, tem sido primeiro no quadro geral de medalhas. E progressivamente ele vem se tornando também eh vem vem estando em posições melhores quando o assunto é são os jogos paralímpicos. Então, eh nós fomos oitavo no Rio, sétimo em Tóquio e fomos quinto lugar agora em Paris, né? né? Então o Brasil vem progredindo nesse sentido e nós atribuímos a isso a melhoria dessas condições, né? Eu disse, contei um um história de descoberta ao acaso, mas hoje a gente começa a colher frutos de descobertas que não são tão ao acaso assim, né? Então o comitê paralímpico, por exemplo, hoje espalha centros de referência pelo Brasil, né? Eh, ele se ele tem lá em São Paulo, por exemplo, para você ter uma ideia, uma escolinha para crianças com deficiência conhecerem o esporte, né? E ali com professores, já naquele momento a ideia é a inclusão de fato, né? Mas que começam a observar desempenho, né? características específicas e já começo a direcionar para competições eh de paralimpíadas escolares, que é uma coisa que não existia antes, né? Essa questão é um assunto sensacional, né? Então, a gente tem a Secretaria da Pessoa com Deficiência, por exemplo, que junto com o comitê ah paralímpico promove paralimpíadas escolares, né? né? Então a criança pode se inscrever lá na secretaria, pode competir pela escola que ela estuda, pelo estado de São Paulo ou pelo estado do Amazonas, de Alagoas, enfim. E o comitê paralímpico costuma costear, custear aí toda, toda essa competição, a ida da criança, a estadia, enfim. Então, tudo isso vai impulsionando, né? E e a gente começa a gradualmente a migrada descoberta por acaso para aquela produzida, né? Ou seja, tem muita coisa boa acontecendo, né, professor? Mas na sua opinião, talvez isso tudo não tem ainda tanta visibilidade quanto o esporte tradicional, né, digamos assim. Exatamente. Não tenha dúvida. O esporte tradicional ele tem um ainda um grande apelo junto à população, né? É só a gente comparar mesmo nos atletas convencionais, tem um esporte com grande apelo, que é o futebol, e outros com muito menos, né? Então, a gente entende que isso acontece, enfim. Eh, mas o parador ele precisa ser impulsionado, né? a gente entende que há essa essa necessidade e a gente tem condição para isso. E eu acho que à medida em que a gente tornar mais público, né, as pessoas despertam mais interesse e elas também começam a observar que um vizinho, um primo, enfim, pode participar de uma escolinha, pode usar num primeiro momento ah o paradporto, né, ou enfim, como um meio de inclusão, mas que isso pode se tornar uma profissão, inclusive, né, se ele for se ele tiver talento, né? É claro que existe um muro alto entre a exclusão e o a inclusão, perdão, e o alto rendimento, né? E é fato isso, né? O próprio Comitê Paralímpico, lá no seu site, ele fala que dentre as suas missões existe a inclusão. Claro, é óbvio que é uma missão importantíssima para o comitê e também o autor rendimento. Então, quando a gente fala da escolinha, a gente fala da inclusão da criança, aprendendo para desporto, tendo convívio social, né? Mas é claro que isso está cada vez mais tornando público para essas pessoas a possibilidade de se tornarem um atleta de alto rendimento e se tiverem grandes condições para isso tornar-seão. Não tenho dúvida, tá? Agora, o alto rendimento é o alto rendimento. Aí realmente nesse ponto, né, ele passou pela inclusão, mas depois disso ele passou por vários funis em que realmente ele foi demonstrando-se muito capaz e e chegou a uma um grande resultado que aí aquela mistura de talento e também a dedicação, né, o desejo de se tornar um atleta de alto rendimento, né, professor? Exatamente. A gente precisa também deixar muito claro, né? Eh, porque a gente tá falando de um assunto que é a inclusão, mas que pro cara chegar a ser campeão paralímpico, ele passou por vários processos seletivos em que a exclusão também aconteceu. Paralelo a isso, né? Quantas pessoas ali não foram selecionadas por uma seleção, depois acabaram não conseguindo índices para ir para uma competição internacional, competiram uma semifinal, não chegaram a uma final e depois competiram uma final, mas não foram pode, não foram medalhistas, onde o apenas foi o medalha de ouro, né? Então a vida é assim, né? né? Então, quando a gente fala em inclusão, a gente fala que existe existem dificuldades e que eh enfim, o deficiente passa por isso também quando o assunto é o alto rendimento. Por isso, é óbvio que ele ele também quando o assunto é alto rendimento passa por tudo isso, a dedicação, o talento, enfim, né? Então acho, entendo que essas duas missões caminham paralelas, a inclusão e o alto rendimento depende de tudo isso que a gente conversou, sem dúvida nenhuma. E aí, por outro lado também, né, professor, o esporte com esses avanços, ele pode aumentar a inclusão dessas pessoas com deficiência no mercado de trabalho, porque envolve uma série de coisas, né, além da participação do atleta em si, toda a estrutura ali que existe, que pode ser mais inclusiva também nesse sentido. Sem dúvida, sem dúvida. Inclusive, existem eh programas dentro das instituições, no próprio comitê paralímpico, né, eh que lida com a questão é o atleta cidadão lá. Então, eh, eles pensam muito no pós-carreira, na formação, então as parcerias de com universidades. Então, hoje nós temos muitos atletas que cursam a faculdade de fisioterapia, por exemplo, né? Eh, eu tenho um um grande amigo fisioterapeuta que foi lá parte da minha equipe lá do do comitê paralímpico, que foi atleta do futebol de cegos, né? Então, cada vez mais, né? Eh, essa questão do atleta cidadão vem à tona e paralelo a essa questão da inclusão e depois da do tornar-se alto rendimento, a gente tem que pensar no pós-carreira, né? Porque da mesma forma a carreira do atleta paralímpico, ela pode ser curta, né? Então, de fato, mostrar ele que ah a a carreira vai terminar um dia, que ele precisa pensar no pós-carreira, numa outra profissão, etc., é muito importante. E essas parcerias com universidades, né? e e e essa conscientização também é muito importante pra abertura do mercado de trabalho no pós-carreira também. Bom, e a gente falava antes também da questão da visibilidade, né, professor, que muitas vezes essas coisas boas que acontecem não t mesma visibilidade que outras modalidades aqui no país, né? Mas por outro lado, os resultados positivos recentes que a gente tem tido, isso pode ajudar a sociedade a enxergar a deficiência com um outro olhar, de uma outra forma? Eu acredito que sim. Eu acho que ah a gente tem hoje grandes jornais dando relevo quando um brasileiro vira o campeão paralímpico. Isso é uma grande vitória, né? Como eu disse, a transmissão ao vivo de grandes competições no Paradorto antigamente não acontecia, hoje acontece. Eh, então tudo isso é ferramenta para que a população tenha contato com tudo isso, né? E veja, poxa, olha que legal, a a aquele aquele rapaz ali tem a mesma deficiência que um sobrinho meu, né? Então, de repente, as pessoas vendo ali ah podem comentar: "Olha, tá vendo? Olha, ele faz isso, ele faz aquilo". Lá na faculdade de fisioterapia da PUC mesmo, né? Uma das nossas missões, desde que eu entrei, tenho conversado muito com os colegas, com a direção da faculdade, que recebeu muito bem a ideia, inclusive, é a gente tentar fazer essa ponte, né? A gente tem crianças ali passando por processo de reabilitação com sequelas de paralisia cerebral, né, inclusive espasticidades, enfim. Ah, e a ideia é começar a mostrar para os pais e paraa criança, né, que existe uma possibilidade de inclusão por meio do paradesporto, mostrar como ele faz, qual o caminho que ele busca nas escolas, enfim, e aproximarmos cada vez mais das associações paralímpicas aqui da nossa região para que junto conosco eles comecem a observar possibilidades de classificações funcionais para essas crianças, né? A gente sabe que dentro do paresporte existem eh diferentes níveis de deficiência, então eles são classificados funcionalmente para que compitam em classes similares, né, e não com discrepâncias, obviamente. Então essa aproximação aqui na nossa região com essas associações, né, nos são os nossos próximos passos para nos permitir identificar esses talentos dentro da faculdade de fisioterapia. Então, a gente tá tentando seguir os passos daquilo que fizeram lá na na Inglaterra lá em Stoke Mandeville, né? O que eles fazem também na Suíça, como eu comentei, nós somos um centro de reabilitação, a faculdade de fisioterapia da PUC de Campinas. Nós recebemos deficientes e aqueles que a gente começa a perceber que tem ali uma possibilidade de de desenvolvimento dentro do esporte, né, a gente começa a aproximar dessas associações para tentar fazer essa essa ponte, né? Então eu acho que eh tornar visível os resultados dos grandes atletas pode fazer com que a nossa população tenha a sua atenção chamada para isso. E a gente enquanto instituição também, né, tem esses deveres de talvez quando a criança não sabe ou a mãe os pais não sabem, enfim, a gente também contar um pouco dessa história e mostrar que é possível. E aí, pensando em políticas públicas, né, você falou da da união da PUC com associações, com entidades, enfim, mas hoje as políticas públicas também elas precisam avançar em qual sentido, né, professor? Falando mais da mudança cultural ou de investimentos mesmo em políticas que sejam mais inclusivas. Perfeito. Olha, eu entendo que antes de responder do que a gente precisa fazer, eu acho que eu vou dar bastante relevo àilo que nós já fizemos também, né? Então eu acho que nós caminhamos muito em termos de investimento no alto rendimento, OK? Como eu disse, eu acho que um atleta medalhista hoje ele ganha, né, medalhista internacional, né, um campeão paralímpico, medalhista paralímpico, enfim, ele tem uma boa, uma bolsa bastante satisfatória, né? ele tem acesso aí também à questão de patrocínios. Enfim, houve um grande investimento eh de parceria do governo estadual com o governo federal lá em 2000 e eh bom, na verdade foi inaugurado mais ou menos em 2016 o Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, mas a construção é já de anos antes, né? Foi um grande legado dos jogos Rio 2016. O centro treinamento paralím brasileiro em São Paulo é enorme, né? Então acho que a gente avançou muito em termos de investimento. Hoje nós temos um dos maiores centros paralímpicos do mundo, tá? Para treinamento desses atletas com quase 20 modalidades aí, com estrutura, com hotelaria, né? Essa questão do fomento via bolsa, via acesso ao pós-carreira. Eh, então a gente evoluiu muito, tá? Mas eu entendo que evoluirmos mais é proporcional à descoberta de talentos. E como eu disse, numa população com quase 18 milhões ou 18 milhões de deficientes, onde proporcionalmente a maioria não está nos grandes centros, eu usei aqui a o exemplo de Campinas, né? A a porcentagem da nossa, a gente tem muito deficiente em Campinas, mas a porcentagem é um pouco menor, né? Então, a gente precisa avançar em termos de políticas públicas, eh, inclusive geograficamente, a gente precisa atingir não só os grandes centros, a gente precisa também nos grandes centros atingir as escolas, as comunidades, né, as unidades básicas de saúde, para que eles entendam o que que é o paradesporto, ah, para que a gente deixe de ter condições de subdiagnóstico, diagnosticar bem aquilo que a gente precisa, encaminhar também, né? Eh, então eu acho que hoje descentralizar um pouco esse investimento, e quando eu falo investimento não é só financeiro, mas é educacional, né? Eh, enfim, é em preparação dos profissionais, dos professores que precisam ter acesso, entender quem é eh classificado como um deficiente ou não, para onde ele encaminha, né? Eh, enfim. Então eu acho que essa política educacional pode contribuir bastante, não só em termos de investimento, que já caminhamos muito, investimento financeiro, mas também nesse sentido. É, até falando da questão do ensino superior para essas pessoas com deficiência, você comentou dos atletas que têm uma bolsa ali muitas vezes boa, que dá para investir numa educação superior, mas não é a realidade da maioria das pessoas com deficiência, né, professor? Então, nesse sentido também, o que que poderia avançar para aumentar essa inclusão desde o ensino básico até o superior? Falta hoje acesso, falta a estrutura das instituições para receberem essas pessoas, que que precisa mudar e de forma mais urgente? Perfeito. Eu acho que tudo isso tá faltando de fato, né? Não adianta a gente tornar isso tão público, melhorar o acesso sem a devida preparação. Quando a gente fala em acessibilidade, hoje ainda a gente tem escolas com escadas, né? eh, e que a gente precisa pensar que um cadeirante, obviamente, vai ter que ter aula na nas salas de baixo, né? E nem sempre a escola pode ser que tenha. Eh, então, eh, a gente precisa também dar acesso, por exemplo, aos aplicativos, como eu disse, né, para um deficiente visual que não vai conseguir ler. Eh, os professores têm que estar preparados, né? Eu já tive desafios por eu tive um desafio interessante. Como professor, eu dava aula para um aluno, né, que tava na faculdade de fisioterapia e era deficiente visual. Então, às vezes a gente usa recursos de gestos, né, para explicar um determinado movimento articular, enfim, né? E trabalhando com o colega fisioterapeuta, eu desenvolvi essa capacidade eh de de tentar me expressar verbalmente sem precisar de gesto. Então, acho que a gente precisa, obviamente, preparar os profissionais para receber essas pessoas, mas a gente também precisa da política de incentivo, né? os pais eles precisam levar as crianças, né? E para isso também passa pelo combate a droga, uso de drogas. a gente sabe que por condições X, Y, Z, às vezes os pais não se preocupam devidamente com as crianças, eh, e muitas vezes criança deficiente. Então aí a gente tá falando realmente de um espectro muito amplo, né, em que a política social também deve impulsionar eh o conhecimento com relação ao acesso do deficiente e preparar as escolas, as instituições, dar favorecimento às empresas de fato que atingem melhores números de deficientes em seu quadro, né, maiores números, enfim. Então, a lei hoje fala, se não me engano, em 5%, né, eh, das empresas com deficiente. O Comitê Paralímpico Brasileiro tem uma meta bem audaciosa de 30%. Olha que interessante, né? Bem acima, né? Bem acima do que se preconiza a lei, né? Então, eh, e claro, né? Quando a gente contrata um funcionário, a gente contrata pensando em que o funcionário vai resolver o meu problema, né? Então, eu preciso aumentar o número de deficientes dentro da minha empresa, mas eu também preciso de políticas que capacitem esses deficientes para que ele da mesma forma resolva o meu problema com enquanto empresa, né? Essa é a grande questão. Isso é de fato inclusão, a verdadeira inclusão, né? Essa questão da igualdade e o desenvolvimento, né, das pessoas. Então a gente precisa de todas essas políticas de base. É o que eu sempre falo, a nossa escola de base tem ela tem que ser muito acessível, ela tem que ter qualidade para que as pessoas se desenvolvam de forma igualitária, independente da deficiência. Bom, professor, pra gente encerrar, qual mensagem final você deixaria então sobre a questão da inclusão aqui no Brasil, né, que de fato precisa aí avançar para que isso saia da teoria, saia do papel muitas vezes e se torne uma realidade para todos. É, eu eu entendo que ah a a mídia pode nos ajudar a tornar isso tudo muito público, né? Eu agradeço muito, inclusive, pela oportunidade de falarmos aqui a a respeito desse tema. Eh, eu acho que a mídia pode contribuir para tornarmos isso tudo muito público. Eu acho que as instituições, associações já têm contribuído e podem cada vez mais as a a as faculdades, os grandes centros educacionais e a preocupação governamental no sentido de tornar tudo isso mais acessível e conhecido pela população, principalmente, deve impulsionar tudo isso. Então agora como sociedade a gente sabe que isso é uma responsabilidade não só de executivo, mas de todos nós, né? A sociedade é composta por todos nós. Então aproveito aqui o espaço para dizer que todos nós temos um pouco dessa responsabilidade de contribuirmos com os nossos governantes, de analisarmos aquilo que acontece na nossa sociedade, identificarmos uma ou outra situação. A internet nos conta tanta história e nos mostra determinados caminhos, né? Então, se eu conheço um deficiente, eu posso procurar na internet, por exemplo, para entender qual seria o melhor caminho. A inteligência artificial ajuda nesse sentido. Então, acho que é uma responsabilidade de todos nós que eventualmente conhecemos um deficiente, né? instruí-los, instruir a família e e óbvio, contar com essas políticas públicas no sentido de tornar cada vez mais conhecido esse assunto e dar condições para que efetivamente a gente possa eh avançar nesse sentido. Professor Mauro Melone com a gente da PUC Campinas. Professor, muito obrigada, viu, por aceitar o nosso convite, pelo seu ponto de vista aqui pra gente. Eu que agradeço. Foi um enorme prazer esse participar desse bate-papo com vocês. Estarei sempre à disposição. Muito obrigado. Muito obrigada. E já agradeço também a você que nos acompanha aqui pela TV Câmara. Muito obrigada pela sua audiência, pela sua companhia aqui no ponto de vista de hoje. Te espero na próxima semana. Até lá.