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Ponto de Vista | Normalização da violência e indiferença na sociedade moderna
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Ponto de Vista | Normalização da violência e indiferença na sociedade moderna

33 views Publicado 27/04/2026 HD · 46:10
Resumo editorial

O programa Ponto de Vista coloca em debate um tema sensível que ganhou força com o alerta feito pelo Papa Leão XIV na celebração da Páscoa, a normalização da violência e a indiferença diante do sofrimento alheio na sociedade contemporânea. A socióloga convidada analisa como a exposição constante a notícias de guerras, agressões, feminicídios e tragédias via redes sociais e celulares cria mecanismos de defesa psicológicos que anestesiam a sensibilidade coletiva. A conversa percorre as razões pelas quais determinadas violências chocam mais e outras passam a fazer parte do cotidiano de Campinas e do Brasil, com diferenciações importantes entre violência simbólica, violência estrutural e violência física. O debate aborda como recuperar a capacidade de indignação sem cair na exaustão emocional, o papel das instituições religiosas no chamamento à empatia, o impacto do excesso de informação e como construir narrativas que sensibilizem em vez de paralisar a sociedade campineira diante de injustiças cotidianas.

Descrição do vídeo

No programa Ponto de Vista da TV Câmara Campinas, a socióloga Camilla Massaro discute o alerta do Papa Leão X na Páscoa: sociedade acostumada à violência (guerras, agressões, feminicídios), tornando-se insensível ao sofrimento alheio. Exposição constante via redes sociais anestesia sensibilidade, criando mecanismos de defesa como autopreservação. Massaro conecta à banalidade do mal (Hannah Arendt): atos atrozes justificados como "ordens" (ex: violência policial, doméstica), invertendo culpa. Era digital amplifica: bolhas, fake news, memes de conflitos (Irã-EUA, 3ª Guerra) banalizam mortes. Impactos Violência contra mulher: Feminicídio como ápice de ciclo (psicológica, simbólica, física); 90% por parceiros. Escolas: Bullying agravado por grupos online tóxicos (misoginia, ódio); ECA limita exposição infantil. Pandemia COVID: 6.000 mortes/dia na Itália banalizadas como números; trauma coletivo persiste. Microviolências: Piadas preconceituosas (raça, gênero, idade), bullying — originam agressões graves. Soluções Educação: Igualdade desde infância; nomear violências para conscientizar. Mídia: Informar eticamente, sem sensacionalismo; combater fake news. Intervenção: Denunciar (ECA, direitos); empatia coletiva contra individualismo. Riscos: Rompimento social, adoecimento mental (depressão, ansiedade), perpetuação de ciclos. Massaro enfatiza pacto social para resolver conflitos sem violência. Assista ao debate completo com Camilla Massaro! Deixe like 👍, comente: "Você se sente indiferente à violência?" e compartilhe. Inscreva-se para mais análises sociais, violência cotidiana e sociedade contemporânea. Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas 🎵 TikTok: https://www.tiktok.com/@tvcamaracampinas 📘 Facebook: https://www.facebook.com/tvcamaracampinas 🎙️ Spotify: https://creators.spotify.com/pod/show/tvcamaracampinas

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Você já percebeu como a violência passou a fazer parte da nossa rotina? A gente acorda, abre o celular ou liga a TV e encontra notícias de guerras, agressões, violência contra a mulher e muitas vezes a gente segue ali o dia como se fosse algo comum. Mas até que ponto isso é mesmo normal? Será que estamos nos tornando indiferentes a dor do outro? Durante a celebração da Páscoa, o Papa Leão X fez um alerta. Estamos nos acostumando com a violência e nos tornando insensíveis diante do sofrimento humano. Para discutir esse tema, recebemos hoje aqui no ponto de vista a socióloga Camila Massaro. Seja muito bem-vinda, Camila. Muito obrigada, viu, por aceitar o nosso convite. Muito obrigada. Eu agradeço o convite. Bom, Camila, já pra gente iniciar o nosso papo, você acha que essa sensação de que a gente tá se tornando mais indiferente à dor do outro, ela é de fato real ou é uma impressão causada pelo excesso de informação que a gente tem hoje? Eh, ela tem elementos bastante conectados com a realidade, né? Então, esse alerta que o Papa faz, ele é bastante significativo no momento em que a gente vem vivendo guerras, né, aí a há muitos anos, né, e e novos episódios que vão acontecendo eh a cada dia. E como você disse, toda vez que a gente abre o jornal, que a gente abre as redes sociais, a gente vê eh uma notícia nova, seja de violência no âmbito mais macro, como esse das guerras, eh sejam violências no no nosso cotidiano mesmo, né? Então, a gente tem vivido, né, uma experiência eh mais próxima, né, dessas notícias, pelo menos, o que faz com que a gente reaja de formas distintas, né, essa exposição tão grande que a gente tem diariamente, né, as notícias aí de conflitos, tragédias, guerras, isso acaba anestesiando a nossa sensibilidade de alguma forma. Eh, isso eh faz com que a gente acabe criando mecanismos para lidar com essas situações, eh, e continuar vivendo, né? Então, claro que elas nos sensibilizam e acho que quanto maior o eh o episódio, né, ou mais eh mais difícil de compreender esse episódio é, dependendo do tipo da violência, nós vamos ficando eh mais sensibilizados e outras que vão fazendo parte do nosso cotidiano, infelizmente a gente vai lidando, naturalizando esse processo, né, que não é natural, mas a gente acaba incorporando ele e deixa às vezes até de pensar ou de ficar sensibilizado com isso. Essa questão de tentar não pensar, né, na dor, nas tragédias, na dor do outro, principalmente, é também um mecanismo ali de auto autopreservação, de defesa também, Camila, são nossos mecanismos sociais e psíquicos, né? Porque se a gente for parar para ficar sensibilizado com todas essas notícias, a gente coloca a nossa vida em suspenso, né? E tem muita dificuldade de seguir, o que também é ruim, né? Porque quanto menos eh atentos nós estamos, mais difícil também de pensar em formas de combater essas situações, né, e de pensar de maneira coletiva sobre o que significam esses episódios e o que a gente pode fazer enquanto sociedade para mudar eh esse cenário. Existe um conceito filosófico, inclusive chamado a banalidade do mal, que é quando o mal se torna ali algo comum. Esse conceito, ele ajuda a explicar o que a gente tá vivendo hoje? Eh, esse conceito ele vem, né, da Hanna Arent, quando ela vai analisar episódios que aconteceram durante a Segunda Guerra, principalmente eh episódios que aconteceram eh a partir dos nazistas, né, em que pessoas eh cometiam a as atrocidades durante a guerra, mas depois durante esses julgamentos que aconteceram com o fim da guerra se colocavam numa posição de eh não é culpa minha porque eu era mandado a fazer, né, era o comandante do exército que mandava. Então, eu não tenho responsabilidade sobre isso. E é uma discussão que a gente faz até hoje, por exemplo, no caso da violência do Estado contra as pessoas, no caso da violência policial, que muitas vezes os policiais alegam isso, né? foi um comando, foi eh legítima defesa. Eh, e essa banalidade, ela vai se dar no sentido de que as pessoas, mesmo aquelas que acabam cometendo por algum motivo a violência, acabam tendo justificativas pensando que aquilo não é uma forma de violência, né? Então, no caso do conceito, vem dessa perspectiva eh da violência do Estado mesmo contra as pessoas, mas eh se não enxergar a violência também é muito comum no caso de violência doméstica, de violência contra as mulheres, em que os agressores em grande parte das vezes, não entendem essas ações como violência, né? assim como eh uma defesa, algo que ele porventura achou que a mulher fez e que não deveria ter feito. Então inverte eh a culpabilidade, né, daquela situação. Isso tudo tem muito a ver também hoje com a era digital que a gente vive com as redes sociais. Elas têm também um papel nessa normalização da violência. Ah, com certeza, né? porque a gente tem muito mais acesso à informação e todo tipo de informação pelas diversas redes sociais e também nós temos as bolhas das redes, né? Então aquilo que a gente clica começa a aparecer muito mais vezes, né? notícias e situações ligadas àquele primeiro assunto que a gente abriu ou que a gente ficou mais tempo assistindo. Eh, e com isso também a gente pode muitas vezes ter uma impressão de que aquelas ações estão acontecendo um número muito maior do que elas significam em termos sociais, né? Então, por exemplo, pessoas que vivem em grandes cidades e cidades com índices altos de violência, tendem a achar que todo lugar é perigoso, porque a realidade que elas vivem dá essa impressão, né? Mas nem todos os lugares das grandes cidades são mesmo violentos, né? Então, a gente tem eh uma mudança, né, do modo como as notícias e essas informações aparecem pro público eh com as redes. Diferente, por exemplo, de momento em que só na TV ou no rádio nós éramos informados porque tinha um horário específico, vou sentar para assistir ao jornal, né, vou ouvir o programa de rádio ou mesmo o jornal impresso em que a pessoa precisava esperar até o dia seguinte para saber as notícias do dia anterior, né? Isso com as redes se prolifera de uma maneira infinitamente mais veloz, né, e sem nenhum controle sobre o tipo de informação, o modo como essa informação é passada também, né? Ou seja, a gente é bombardeado por isso o dia todo, né? Desde a hora que acorda até a hora que vai dormir, abril, né? As notícias estão ali aparecendo e também hoje com um acesso muito fácil para as crianças, para adolescentes, né, Camila? Isso também tem a ver, você acredita, com o aumento da violência nas escolas, por exemplo, a gente tem visto aí eh um aumento de casos de agressão, principalmente contra meninas nas escolas, né? O bullying que se torna ali uma agressão, uma violência mais séria tem a ver também com esse contexto. Acho que esse acesso mais fácil a grupos que podem se unir de alguma maneira para compartilhar sobre as suas frustrações e pensarem o que fazer em relação a isso, né? Então, eh, esses espaços das redes sociais que não estão visíveis na superfície e que muitas vezes as famílias não acessam, né, mesmo porque, eh, as crianças e os adolescentes eles têm uma facilidade muito grande em acessar grupos e redes que às vezes os adultos nem sabem que existem, né, e nem conhecem. eh faz com que eh esse eh as redes sejam um espaço em que esses jovens possam manifestar, né, a a sua frustração e aí travestida de ódio e diversas outras formas, de uma maneira que nos acende um alerta também enquanto educadores, né, enquanto familiares, enquanto educadores, eh, de quais são as relações que eles estão tendo e quais são as informações que eles estão tendo acesso, né? De novo, se a gente pensa nos meios de comunicação tradicionais, principalmente na televisão, a gente tem classificações indicativas etárias regulamentadas, né, por lei, eh, de qual programa pode ser transmitido, em qual horário, e para que idade ele é acessível. No caso das redes sociais, isso se perde, né? Apesar de existirem filtros em que as famílias podem eh colocar para que as crianças, principalmente, né, e os adolescentes não acessem determinados conteúdos, a gente sabe que eles conseguem burlar isso de uma maneira muito fácil, sem que a gente perceba, né, o que abre eh um espaço muito grande para que eles tenham contato com esse tipo de de pensamento, né, que coloca a violência como uma possibilidade de relação social aceitável. né? Então isso acaba indo pro ambiente escolar, eh acaba indo, né, muitas vezes pro ambiente familiar também, né, pro na rua com os amigos, enfim. Então esse é um alerta muito importante pra gente poder pensar. E quando a gente fala de adolescentes, principalmente, eles estão numa fase ali, né, Camila, de construção da identidade. Hoje as redes sociais elas moldam também essa identidade dos jovens e é um ambiente em que a gente vê muita misogenia, muito ódio contra a mulher. Isso também muda aquela referência ali do que é certo, do que é errado, do bem e do mal. Uhum. Dessas pessoas é a gente, né, tem uma sociedade estruturada numa disparidade de gênero, né? Então assim, não são as redes sociais que fazem isso, obviamente, né? a nossa sociedade que se organiza dessa forma, trazendo desde ali, né, do chá revelação, se é rosa ou azul, é de que roupa que a criança vai usar, de que brinquedo ela vai brincar, do que que ela vai eh gostar, o que que ela vai ser eh impulsionada a se interessar em termos de brincadeiras, em termos de profissão. É, e isso vai fazendo, né, com que as crianças, conforme elas vão sendo educadas, caso elas não sejam educadas a partir de uma perspectiva da igualdade, do respeito, né, entre todas as pessoas, é de compreender como também natural essa diferença, né? Homens e mulheres são diferentes e ninguém vai negar isso, né? Mas isso não significa que sejam desiguais, que homens sejam melhores que mulheres, né? nesse sentido, eh, e quando a gente, eh, tem ali junto, né, o apoio não só das redes sociais, né, mas assim, eh, de filmes, de programas televisivos, de seriados, de jogos, né, na nessa área aí dos games também que reproduzem eh essas esses valores, esses preconceitos que são sociais, a gente potencializa nas crianças e nos adolescentes essas visões, né? Eh, e aí a gente tem um problema, né, porque eles vão reproduzir essas visões em espaços que às vezes não estão supervisionados pelos adultos. Eh, e às vezes a gente esquece o que e que a gente não deveria esquecer, que as crianças e os adolescentes eles são pessoas ainda com a sua identidade em construção e por isso eles precisam do apoio dos adultos e não só da família, mas da sociedade toda, eh, nesse direcionamento, né, do que pode, do que não pode, do que é certo, do que é errado, até para que eles eh compreendam, né, de uma maneira aprofundada as consequências dessas ações, né? Então, quando a gente fala do Estatuto da Criança e do Adolescente, né? E hoje agora do ECA que regulamenta também essas exposições no meio virtual, que é um avanço, né, bastante relevante. Eh, a gente tá falando um pouco sobre isso, né, de de entender essas pessoas como sujeitos de direitos, o que antes de 1990 não eram vistos, né? As crianças eram vistas como propriedade das famílias, dos adultos. hoje não, eh, mas apesar de, né, e justamente por serem sujeitos de direitos, eles precisam desse apoio, desse suporte eh dos adultos e da sociedade, né? Bom, e no caso da violência contra a mulher, Camila, a gente liga a TV dia e tem alguma notícia de feminicídio, de agressão contra a mulher. Essa banalização desse tipo de notícia, que é um retrato da realidade, também contribui para que muitos comportamentos sejam ali aceitos, né, minimizados, até se tornem banais mesmo pra sociedade. Sim, com certeza, né? A gente não pode esquecer que o feminicídio ele é o último ato do ciclo de violência contra a mulher, né? Eh, mas existem muito mais mulheres que sofrem outros tipos de violência do que aquelas que são mortas, né, no final das contas. Então é muito triste, né, a gente pensar que a o lugar que a gente deveria se sentir mais seguro, que é o nosso lar, é o lugar no qual a maior parte da violência contra a mulher acontece, principalmente o feminicídio, né, que é causado, em grande parte das vezes, por alguém do relacionamento dessa mulher, alguém que em algum momento ela confiou como marido, ex-marido, namorado, ex-namorado, né? Eh, e a gente vai tendo essa banalização e essa naturalização da violência contra a mulher a partir do momento em que a gente entende homens e mulheres como desiguais, né, como eu falei. Então, eh, muitas vezes, eh, esses atos eles são justificados, né, por aqueles que cometem ou por aqueles que não compreendem a gravidade dessa situação, como dizendo, mas se a mulher tivesse se comportado, se ela tivesse obedecido, né? Então, jogando a responsabilidade de novo para aquela pessoa que tá sendo vítima de um conjunto de violências, né? É muito difícil uma mulher que foi assassinada num crime de feminicídio não ter passado por um ciclo de violência psicológica, simbólica, né, física, né, eh, culminando nesse eh, nessa perda da vida, né, e normalmente, de forma muito cruel, a maior parte das vezes, né, são crimes considerados como crimes de ódio pelas suas características, pelo modo como eles acontecem, muitas vezes envolvendo os filhos filhos, né, na frente das crianças. Então, esses homens eh que não aceitam, né, que homens e mulheres são iguais e acabam eh cometendo esses crimes. E a gente vem percebendo, né, que quanto mais esses assuntos são divulgados na sua eh forma mais crua mesmo, com imagens, né, com relatos, eh parece que nos dias seguintes vão acontecendo mais, né, ou a gente acaba ficando sabendo de mais notificações, né, dando a impressão de que eles aumentam, né, então também é um fenômeno que é bastante preocupante pra gente poder pensar, né? né? A gente tem uma pesquisa que saiu recentemente do número de consultas no nas plataformas como Google e outras de eh como matar uma mulher sem deixar marcas, né? Como agredir uma mulher eh como matar uma mulher que te diz eh que não quer ser sua namorada, né? Então, eh quando a gente vê esse tipo de busca, eh, acende também, né, um um sinal vermelho aí pra sociedade como um todo, né? A a impressão é que a divulgação desse tipo de notícia até incentiva esse comportamento ao invés de causar ali um choque, uma repulsa, né? Sim. Parece que ela incentiva, né? Acho que no mesmo caminho de quando acontecem casos de pessoas que acabam tirando suas próprias vidas, né? que as recomendações sempre são para que as cartas não sejam divulgadas, para que o modo como aquela pessoa eh fez isso também não seja divulgada, para não acabar incentivando pessoas que já estão pensando nisso a realizarem os atos, né? no caso dos feminicídios, eh, também dá essa impressão, né, que quando acontece e gera uma grande repercussão, outras pessoas acabam se sentindo de alguma forma incentivadas a fazer aquilo que elas já queriam, né, e aí se sentem mais encorajadas, né, ou, enfim, infelizmente, né, pensam que esse caminho da da violência e no caso do feminicídio, né, do assassinato de uma pessoa, eh, pode resolver algum tipo de problema, né? E aí, qual seria a saída para isso? Se é que tem uma resposta fácil, simples, né, Camila? Porque por um lado isso é um retrato da sociedade, né? E há essa divulgação muitas vezes para combater a violência contra a mulher. Por outro lado, tem aquela pessoa que já se incentiva, né, com as informações, como você disse. Então, qual que seria a saída para isso? como é que a a mídia, né, não só a mídia tradicional, mas também a digital, ela pode se comportar diante dessa mudança da sociedade? Sim, acho que existem várias possibilidades, não existe uma resposta fácil mesmo, você tem toda a razão. Eh, mas eh entendendo, né, que eh toda a sociedade também é responsável pela educação de si própria, né? Então, eh, combatendo essas formas preconceituosas com as quais as relações sociais são vistas, né, no na forma da violência como um todo. Eh, a mídia pode contribuir muito eh explicando o que são violências, né? Porque tem muitas pessoas que não entendem os seus atos como violência. E pior, existem muitas pessoas que passam por violência, que não reconhecem que passaram por violência e que que entendem que aqueles atos são normais dentro de um casamento, por exemplo, né? Ou se a gente for falar da violência de classe social, né? Pessoas que são humilhadas de diversas formas pela sua posição social, pelo trabalho que fazem dentro do trabalho, às vezes não reconhecem esses atos como violência. Então, a informação é o primeiro passo pra gente ter consciência sobre o que a gente tá vivendo e o que a gente tá vendo, né? Eh, e nesse ponto acho que a mídia tem um papel importante, né? Não só eh de querer, mas é um dever, né, social da mídia também fazer isso. Então, campanhas mostrando quais são os tipos de violência, quais são as consequências. Eh, dentro das escolas já existem muitos trabalhos, né, muitos projetos com as crianças, com os adolescentes, eh buscando reconfigurar essa forma como a gente entende o outro dentro da sociedade. Eh, uma mudança no modo como também as famílias precisam educar as crianças, né, para violência, não só para violência de gênero, mas para todas as formas, né, de violência. eh e um a reconfiguração de um pacto social mesmo que compreenda que a violência não deve ser a mediação para os nossos conflitos, né, que a gente já conseguiu avançar muito socialmente e ter temos outras formas, né, de resolvermos os nossos problemas do que através da violência. Bom, a gente vai falar muito mais já sobre isso daqui a pouco aqui no ponto de vista. A gente faz uma pausa rápida aqui e já retorna a falar sobre a indiferença à dor e ao mal na sociedade. De volta com o ponto de vista de hoje. hoje com a socióloga Camila Massaro falando conosco sobre a indiferença, a banalização ao mal na sociedade e a violência. Camila, retomando então aqui o nosso bate-papo, nós falávamos sobre essa normalização, principalmente ao que a gente vê na mídia todos os dias. Quais são os riscos de uma sociedade que se acostuma tanto, né, que banaliza tanto a violência, que que isso pode trazer pra gente como consequência a longo prazo? Acho que uma das principais consequências é o esgarçamento e o rompimento desses vínculos sociais, né, e comunitários, da gente não se reconhecer como membros de uma mesma sociedade, né, de não olhar o outro a partir dessa perspectiva, né, da sociedade, da comunidade, eh aprofundando esse individualismo que a nossa sociedade, né, tanto nos coloca, né, e acho que eh quanto mais indiferente nós estamos a dor do outro, Eh, mais longe estamos de nos entendermos como irmãos, né, como membros de um mesmo grupo, como membros de um mesmo de uma de uma mesma sociedade. E os e a gente com isso traz esse os riscos, né, de não termos projetos coletivos, eh de não pensarmos em formas de solucionar esses problemas que eh sejam positivas para todo mundo, né? E cada um vai pensando cada vez mais em si, só naquilo que te afeta, né? sem que se preocupar com outro. Você falou do individualismo, né? Até que ponto essa falta de empatia com a dor do outro, ela é de fato uma indiferença ou ela é um mecanismo de defesa diante de tanta violência? Sim, acho que ela funciona nesses dois aspectos, né? nessa nessa casca que a gente precisa ou que a gente vai criando ao longo da vida, eh quando estamos expostos a situações de violência, né, muito muito grandes. Eh, a gente tem também, eh, acho que um uma outra derivação desse da forma como esse sofrimento é compreendido em termos individuais, que é um aumento, né, do número de casos de depressão, de ansiedade, né, desses diagnósticos, eh, que envolvem a saúde mental como um todo, né? Então, é uma sociedade que que tá doente, né? Tá adoecida nesse sentido. Eh, e o individualismo ele acaba gerando, né, essa falta de empatia também. Quando eu me preocupo só comigo, eh, eu deixo de olhar para aquilo que afeta o outro e não percebo que em algum momento aquilo pode me afetar também, né? Porque sempre que eu olho com distanciamento para essas situações, eh, e não me importo com elas, porque eu nunca passei por elas, eu, eu deixo de perceber que em algum momento isso pode me afetar. Ninguém tá livre, né, eh, de sofrer violência, né? Acho que pessoas estão, eh, menos suscetíveis, dependendo dos espaços sociais que elas ocupam, mas existem violências que perpassam todos esses espaços, né? Então, se a gente for pensar, a violência de gênero é uma delas, a violência contra a criança e contra os adolescentes também é uma delas, né? Eh, a violência urbana, né? Assaltos, furtos, esse tipo de violência também que é tão eh comum, né, na nossa sociedade também atinge, né, pode atingir desde a pessoa que tá no ponto do ônibus com o celular até a pessoa, né, que que tem a sua joia roubada. Então, eh, quanto mais indiferente ficamos, né, menos também preparados para lidar com isso. Quando acontece com a gente, a gente fica. Você citou a questão da depressão e da ansiedade, né, Camila? Uma sociedade cada vez mais ansiosa, mais deprimida. E aí, o que é que vem primeiro? Aquela pergunta, né? Se é o ovo ou a galinha, porque a sociedade ela está mais violenta, porque estamos com pessoas mais deprimidas, mais ansiosas ou é o contrário? esse cenário de violência que traz esse quadro de saúde mental hoje paraa sociedade. Ah, eu entendo que não seja o aumento da violência, né? Assim, eu acho que a gente também eh alguns estudos acabam mostrando que esse índice de violência nem não necessariamente tá aumentando em índices exponenciais, né? O que a gente tem é uma divulgação maior dessas ações, né, desses casos por conta das mídias sociais, como a gente falou, né, no primeiro bloco, que dá impressão muitas vezes que esses casos estão acontecendo o tempo todo. Eh, também os mecanismos de defesa, né, dos direitos humanos. Então, com números que você pode ligar para fazer denúncia e como essas denúncias estão apuradas, isso acaba eh trazendo mais notificações desses casos de violência, né? Eh, dando a impressão que eles estão aumentando, porque agora eles não estão tão subnotificados quanto estavam, embora alguns tipos de violência ainda são muito subnotificadas, né? Mas o quadro de ansiedade, de depressão, algo que me parece, ele tem muito mais a ver com o modo como a nossa sociedade se organiza mesmo, né, num tempo cada vez mais acelerado, eh, com o individualismo cada vez mais exacerbado, né? A violência, ela é um dos aspectos dessa sociedade, mas ele não é o único, né, que vai afetar a nossa saúde mental. Então, acho que os prazos, as relações, né, as as eh indecisões, as incertezas em relação ao trabalho, a vida, aos relacionamentos, isso também faz com que a gente vá adoecendo, né, individualmente. A gente falou aqui dessa violência macro, né, que a gente vê que tá longe, muitas vezes ela tá ali na sua cidade, no seu estado, mas tá lá na TV, tá na tela do celular, aconteceu com outra pessoa. Mas no nosso dia a dia, quais são as pequenas violências que a gente pratica muitas vezes e não percebe que podem se tornar algo mais grave? Uhum. Ah, eu acho que ela ela tá em diversos níveis, né, essas microviolências, desde as relações de poder dentro das famílias, por exemplo, né, em que as crianças, os adolescentes ou os idosos, eles não são respeitados pela sua própria condição, né? Ah, então você é criança, é o que mando. Ah, você já é idoso, então você não entende mais. Isso é uma forma de violência, né, que afeta diretamente as pessoas, as famílias. Eh, a violência na explicitação dos preconceitos. Então, quando a gente faz uma piada em relação a alguma característica de alguém, né, reforçando esses preconceitos dos marcadores sociais da diferença, raça, gênero, classe social, idade, né? Eh, isso também eh é uma forma de violência que afeta a subjetividade, né? E essa sim pode eh culminar num adoecimento psíquico, né, das pessoas que sofrem esse tipo de violência. Eh, muitos casos do daquilo que a gente vai chamar de bullying, né, principalmente, eh, eles são formas de violência, né? E eu acho que a gente tem que nomear como violência até para entender o que a gente faz com isso, principalmente quando a gente tá falando dessas ações nas escolas ou em outros espaços coletivos em que ignorar que aquilo aconteceu não é a melhor saída para resolver, né? a gente precisa trabalhar com os autores das violências, eh, explicando porque que aquilo é uma violência, né, na maior parte das vezes. Então, essas microviolências, elas estão muito mais próximas de nós, mas estão muito mais naturalizadas, elas são mais difíceis de perceber, eh, principalmente para quem as comete, né, mas muitas vezes também para quem sofre e que vai e se dizer eh não vítima de violência, não, mas eu nunca sofri, né? eh, nunca aconteceu comigo. E quando você vai ver essas microrelações no trabalho, né, na escola, no no no grupo de amigos, em outros espaços, a gente vê que elas acontecem sim, né? E são elas que dão origem à violência que sai dessa esfera, né, da violência cometida ali entre colegas, entre familiares e já vão paraa esfera criminal, se tornam ali agressões, assassinatos, entre outros. eh essas violências, né, mais eh complexas nesse sentido, né, quando a gente passa do da dessa microviolência que seja verbal, por exemplo, que também é grave, né, mas pensando em comparação a uma agressão física, uma, né, enfim, tentativa de assassinato, uma violação nesse sentido, eh, a gente tem um âmbito que extrapolem muito, né, essa micropercepção e a gente já tá mais acostumado a identificar esses tipos de violência. né? Mas mesmo assim, às vezes a gente ainda não sabe muito como agir, né? Então, por exemplo, quando a gente eh se depara com um caso de violência contra a mulher, num casal brigando, vizinho, a gente escuta, eh, a gente sabe que a gente tem não só o direito, mas o dever de intervir, né? Então, chamar a polícia, tentar intervir para proteger aquela pessoa. É quando a gente vê, por exemplo, um caso de violência contra a criança, né, um responsável gritando, batendo, né, mesmo que seja um empurrão, alguma coisa assim, isso é uma forma de violência que não pode acontecer, né, mas dificilmente a gente age, né, porque a gente fica sempre nessa dúvida eh da esfera pessoal, né, e do da esfera social, né, mas enquanto cidadãos, nós temos o dever de intervir, porque a gente não pode ser conivente com nenhuma forma de violência, né? O problema é que nem sempre a sociedade tá preparada eh para lidar com isso. Então, às vezes você faz uma denúncia de uma briga de vizinhos, de um casal, e de repente os vizinhos se voltam contra você, dizendo: "Ah, você se meteu". Então você evita, né, que isso aconteça, o que pode, eh contribuir de alguma maneira para que aquela violência se agrave, né, em um outro momento e a gente não faça nada e de repente acabe num caso de feminicídio ou num caso, né, de tentativa de feminicídio, né? Então isso é é uma questão que é bastante complexa, porque envolve a nossa subjetividade, envolve a uma lição social também, né, que é amplamente arraigada de que eh a esfera privada ninguém deve intervir, né? Eh, então a gente também não sabe o que fazer. eh essa naturalização de que os pais sabem o que tão fazendo, então se eles estão repreendendo a criança com violência é porque aquela criança de alguma maneira precisa daquilo que está completamente equivocado, né? Mereceu ou é aquela a velha ideia geracional, né? De eu apanhei, não aconteceu nada, eu tô aqui, né? E muitas vezes com muitas consequências disso, sem perceber, né? Inclusive psíquicas, né? Enfim. Então e essa naturalização mesmo, né? dessas formas de violência que acabam fazendo como com que a gente não enxergue eh que hoje a gente tem outras formas de lidar com isso e a gente tem outros deveres também em relação a isso. Ou seja, Camila, muitas vezes a gente não tá indiferente a dor do outro, mas a sociedade tem medo muitas vezes, né, de tentar ali de alguma forma ajudar o outro e também sofrer alguma violência. Sim, aquela e essas, né, essas pessoas que acabam tendo esse receio no caso de o que que eu faço, né, quando eu me deparo com uma violência, eh, tem muito mais a ver com esse medo de depois se implicar diretamente na situação, né? E se eu tiver que ir lá eh me manifestar, depor, o que que eu faço, né? Então, quanto mais eh dentro da nossa bolha individualista estamos, menos abertos nós estamos para esse tipo de ação, né? Porque se eu me deparo com uma vizinha sofrendo violência e ajudo a fazer a denúncia, por que que eu vou ter medo de depor, né? Não deveria ter, eu deveria agir, né? Eh, de acordo com essa perspectiva na garantia dos direitos dessa mulher. Mas a gente sabe que muitas vezes não é isso. E sim, nós temos, né, eh, em muitas vezes eh essa indiferença também eh, derivada dessa falta de empatia ou desses mecanismos de naturalização que faz com que a gente nem se importe mesmo, né, ou não perceba ou não ligue ou veja um caso de violência e segue a vida, né, eh, continua fazendo o que tava fazendo. Isso, principalmente quando a gente pensa nos casos mais macro, né, assim, eh, da guerra, por exemplo, né, cada vez que liga a televisão, ai um bombardeio matou 300 pessoas e agora o futebol, né, e aí a vida segue, né, como se aquilo fizesse parte, né, e e tudo bem, né, não fosse um problema grave. E essa questão muitas vezes de ser algo distante. Ah, a guerra tá ali longe, tá do outro lado do mundo, 300 pessoas, como como você citou, é um número, né? Então essa forma também, muitas vezes, voltando a falar do papel da mídia, de informar, né, a violência também pode ajudar a banalizar. E aí, qual que é essa responsabilidade da mídia de informar o que tá acontecendo sem banalizar de uma forma que não cause tanta indiferença? Sim. É, o papel da mídia é exatamente esse, né? a trazer a informação, eh, a veracidade da das informações, né, sem um posicionamento. A gente sabe que na na sociedade nada é neutro, né? Eh, a sociologia já nos ensina isso, mas de informar a população trazendo todos os lados do problema, ouvindo todas as pessoas, né, envolvidas ou aí no caso das guerras buscando entender ou ou trazer paraa população todas essas informações. Mas muitas vezes a gente vê que não é isso que acontece, né? Principalmente no caso de guerras ou outras situações que envolvem disputa de poder ou disputas políticas. a gente percebe que é sempre, né, eh, a balança vai pendendo pros lados que mais interessam também naquele momento, né? Então isso acaba afetando, né, até o posicionamento que a gente vai ter em relação a esses grandes eventos violentos, né, porque a gente se posiciona através de informações que nem sempre são completas, né, eh, e acabamos de de alguma maneira eh justificando essa violência. Ah, mas foi um bombardeio, mas também, né, aquele país, não sei o quê, não sei o quê. E acaba esquecendo que foram 300 pessoas civis que morreram, né, e que não tinham nada a ver com o problema que os governos estão enfrentando. Então, isso também é uma forma de banalizar, né, quando a gente passa a pensar que a vida de alguém vale menos pelo país que ela mora ou pelo que ela defende, né? Se a gente vive numa democracia, a gente precisaria, claro, que dentro dos limites democráticos, né, desde que o nosso posicionamento não fira nenhum direito humano, eh, que todas as pessoas pudessem ter, né, as suas preferências sem serem assassinadas por isso, né? E quando a gente banaliza os dados das grandes guerras, eh, ou mesmo uma outra naturalização, no caso da guerra, eu tô pensando aqui, eh, ela vai, eh, trazendo novas notícias, né? Então, agora a gente tem uma guerra, né, lá no Irã e a gente esqueceu da guerra da Ucrânia que não acabou, né? Então, parece que as notícias vão ficando velhas e a gente deixa de se importar com o que tá acontecendo, mas ainda tá acontecendo, né? Então isso é também bastante perigoso, né? E o brasileiro ele tem uma forma de lidar com a dor de forma geral, né, Camila? Claro que não é todo mundo, mas o que a gente percebe mais nas redes sociais é isso, fazendo piada, né? Fazendo meme, brincando ali, inclusive com esse conflito entre Irã e Estados Unidos. A gente tem visto muito isso nas redes sociais, os memes, né, em relação à possibilidade de uma terceira guerra mundial, as redes fervendo com isso, né, inclusive os próprios países, né, envolvidos na guerra, Irã e Estados Unidos também fazendo ali aqueles vídeos, né, com inteligência artificial, trazendo uma chacota ali com outro governante. Quer dizer, isso tudo também, né, essa piada sendo feita enquanto pessoas são mortas, também ajuda a aumentar essa indiferença ou também é o mecanismo de defesa? Não, vou fazer piada aqui para ficar mais leve, né? Uma situação que não tem como ficar leve, né? É, eu acho que traz as duas, né? Esses dois sentimentos mesmo, né? Uma leveza no sentido, né? De dizer: "Gente, isso tudo é tão absurdo, né? Que parece uma piada, mas uma piada de muito mau gosto, na verdade, né? Eh, e por outro lado, o mecanismo de tirar o foco do que tá acontecendo também, né? das pessoas se preocuparem menos e se posicionarem menos em relação a essas questões, eh, deixando de lado como, ah, não é no meu país, né, então vou seguir aqui a minha vida. E eu acho que esse é um grande desafio em relação às redes sociais hoje em dia, né? Se a gente for pensar socialmente, que é o poder de criar qualquer tipo de conteúdo, mesmo que ele não tenha lastro nenhum com a realidade, né? Que seja uma notícia ou um meme ou um vídeo criado por inteligência artificial ou uma fake news intencionalmente produzida, né? Mas que pode impactar diretamente o modo como essas notícias são recebidas pelo público, né? E daí como que o público se posiciona em relação a elas, né? Então assim, é muito difícil depois que uma notícia como essa ou um vídeo criado por inteligência artificial é amplamente divulgado, é muito difícil da gente conseguir ter o mesmo alcance para desmentir, né? Porque ele se prolifera numa velocidade, né, muito rápida. Eh, e às vezes as pessoas têm dificuldade de parar para pensar eh no quão absurdo aquela notícia é ou no quão absurdo aquele vídeo, né, se coloca. Eh, e mesmo que depois outros veículos falam: "Olha, é mentira, não aconteceu, isso é uma produção, né? Não é um vídeo real." As pessoas não acreditam muitas vezes, né? Fica aquela dúvida, mas em quem que eu vou acreditar? Em quem me mandou aquele ou em quem tá dizendo que ele não é real, né? Isso principalmente para as pessoas que têm menos domínio das tecnologias, né, e que são facilmente eh enganadas por essas produções, né? Então, acho que esse é um desafio que a gente tem que lidar socialmente, né? A sociologia que trabalha na área também da comunicação, da sociologia contemporânea, pensando nesses novos formatos, né? eh, a sociologia digital e outros, né, a outras áreas do conhecimento e principalmente a área da comunicação, né, que precisa pensar em parâmetros éticos, né, em como lidar com isso. esse desafio, tanto de combater fake news, quanto de enxergar as pessoas ali vítimas, né, as mortes como números, é um pouco do que a gente viu também na COVID, Camila, que a gente tinha aquela divulgação diária, né, de atualização de mortos nos municípios, nos estados, né, e aí isso também foi banalizando uma situação ali que era algo inédito. Eh, isso foi eh um fato, né, na nossa história que ainda precisa, né, de muito de ser muito olhado, né, um muito compreendido, né, eh trazido à tona todas as as decisões que foram tomadas em relação a isso. Mas eu me lembro muito e já faz seis anos, né, que a gente viveu esse esse momento, é, de quando começaram a ser veiculadas as notícias, né, de uma forma de doença respiratória, não sei aonde, que uma pessoa tava internada, mas era tão distante e como isso foi aparecendo, né, como isso foi se aproximando, aproximando. E aí a gente via notícias e devastadoras de 4, 5.000 pessoas mortas num único dia na Itália, eu me lembro bem, pessoas idosas majoritariamente. Eh, e ainda era longe, né? E de repente essas notícias começaram a ser no nosso país, né? E de repente começaram a ser na nossa cidade, de repente a gente começou a conhecer pessoas que tinham algum parente que tinham passado por isso. E quanto mais próximo vai chegando, né, mais a gente foi se dando conta, né, de que a gente não tava brincando, de que aquilo era um problema que era muito grave, que fazia muitos anos que que o mundo não passava por uma situação dessa, né? Eh, e mesmo assim a gente ainda, né, tinha uma guerra, né, de de narrativas e de definições sobre isso, negando muitas vezes que isso fosse um fato real, né, negando que todos esses óbitos eh tivessem acontecido derivados, né, da da falta de de cuidado, né, da falta das pessoas que, enfim, né, foram se recusando a tomar vacina, eh, também da de uma dificuldade social em relação ao isolamento e da quarentena, né? Porque eh muit muitos eh muitas áreas, né, da sociedade puderam parar ou eh transferir pro trabalho remoto, mas a maior parte da população não trabalha com carteira assenada, né? Trabalha ali naquele momento informal, né? Então assim, as pessoas ou elas trabalhavam ou elas não tinham como sobreviver. Eh, muitas empresas, né, também não podiam parar. empresas que são consideradas serviços essenciais. Então, eh também a eh foi colocado em cheque, né, o modelo de funcionamento da nossa sociedade, ele impediu que as pessoas pudessem se proteger, porque muitas delas não tiveram escolha sobre se isolar, né? Eh, pessoas que vivem em condições precárias de habitação, né? se isolar era pior, porque numa casa que moram oito pessoas em três cômodos, ficar aglomerado ali também era um problema, né? Então, eh, a pandemia mostrou que nós estamos completamente despreparados enquanto sociedade, né, para lidar de uma forma coletiva com qualquer problema eh desse tamanho, né? Então, até hoje a gente eh sofre as consequências disso, né? Eu me lembro como professora, eh, a gente ficou remoto, né, trabalhando com aulas ao vivo, né, no horário da aula com os alunos, mais transmitida remota. E tinha dia que assim, a minha aula era 7 da noite, quando dava 5 horas eu dizia assim: "Eu preciso parar de chorar porque eu tô inchada e eu preciso ir pra aula, né? E como é que você dá aula sabendo que naquele dia 6.000 pessoas morreram no seu país, fora, né? Eh, e como lidar com jovens, né, que que tavam na escola e entraram na universidade. Eh, e as notícias que vinham aparecendo e todo mundo querendo entender, né, eh, o que que tava acontecendo. E é difícil a gente falar o que tá acontecendo no momento em que tá acontecendo, né? Uma análise sociológica, historiográfica, ela precisa ser refletida, né, com o tempo. Não dá para sair falando o que que você acha, né, porque senão não passa de uma opinião, né? E pra gente encerrar, Camila, você acha que a gente saiu mais indiferente disso tudo ou saímos melhores? E se não saímos melhores, como é que a gente consegue ter mais empatia e superar então essa indiferença global, né, que a gente vê aí é de forma geral a dor do outro? É, eu acho que a gente não consegue generalizar, né? Acho que tem camadas, né, de de da consequências da dessa saída da pandemia, né? Eu acho que em termos individuais, eh, nós saí, muitas pessoas saíram mais preparadas para entender que a vida é coletiva e que a gente precisa se preocupar uns com os outros, né? Eh, em termos eh sociais ainda é difícil pensar como a gente saiu, né? Porque parece que em muitos lugares, em muitas esferas da sociedade, não se fala mais sobre isso, como se a gente já tivesse superado, né? E eu tenho a impressão de que é um trauma coletivo que que a gente precisa conversar e e entender melhor, né, as consequências disso. Eh, em termos globais, eh, acho que a gente aprendeu muito pouco. Claro que em termos sanitários e de saúde, nós tivemos muitos avanços, né? Eh, e e ter que pensar como é que a gente age de uma maneira diferente, caso isso, Deus me livre, possa acontecer novamente. Mas a gente tá sujeito, né, enquanto sociedade global, que todo mundo se locomove para todos os espaços, mas acho que são são essas camadas, né? Acho que aqueles que sofreram de uma maneira mais direta em termos individuais tem uma sensibilidade até hoje, né, eh, mais apurada no sentido de isso é muito grave e a gente precisa se preocupar com isso, enquanto a gente tem grupos de pessoas no mundo todo que praticamente dizem que isso não aconteceu, né? Então, que se recusam a dizer que isso foi grave, que se recusam a dizer, né, que a gente precisa defender políticas públicas de saúde, né, políticas que coloquem as pessoas em segurança nesse sentido. Então, acho que a gente ainda tá no caminho de entender as consequências pandêmicas. Camila, muito obrigada, viu, por trazer pra gente o seu ponto de vista sobre essa questão, pelas informações e também, claro, por aceitar o nosso convite. Eu que agradeço o convite. Obrigada. Muito obrigada. E já agradeço também a você que nos acompanha aqui na TV Câmara. Muito obrigada pela sua companhia em mais um ponto de vista. Continue com a gente e eu te espero na semana que vem. Até lá. เฮ
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