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Olá, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda ao ponto de vista de hoje, que propõe uma reflexão necessária. O Brasil está falhando com seus povos originários, mesmo sendo os primeiros habitantes deste território. Os indígenas ainda enfrentam desafios históricos ligados à demarcação de terras, violência, acesso à saúde, educação e também reconhecimento da própria identidade. Dados recentes mostram um aumento nos conflitos em terras indígenas, também invasões e até assassinatos. Ao mesmo tempo, lideranças e pesquisadores alertam para o risco constante de apagamento cultural e institucional, mas também existem avanços. As políticas afirmativas e ampliação do acesso às universidades têm fortalecido a presença indígena em espaços de debate, pesquisa e também produção de conhecimento. E para conversar hoje sobre esse tema, recebemos a professora do Departamento de Antropologia da Unicamp, também pesquisadora e especialista em povos indígenas, Marina Pereira. Professora, muito bem-vinda ao ponto de vista. Muito obrigada também por aceitar o nosso convite. Obrigada, Taila pelo convite, pela proposta do tema que é muito importante de ser trazido para esse espaço. Bom, professora, pra gente iniciar já o nosso bate-papo, quando a gente fala em apagamento indígena, do que que a gente tá falando na prática, tá? Eh, a gente tá falando de mais de 500 anos de história, eh, da presença não indígena nesse território, né? Então, a presença indígena já data de milhares de anos na no território onde hoje que hoje a gente chama de Brasil, mas nesses últimos 500 anos de história, eles têm sido reconhecidos cada vez mais como uma pequena parcela da população que tem pouca importância e pouco valorizada e que é muitas vezes entendida como atrasada e pouco desenvolvida. Aí muita gente diz que é um atraso pro progresso e na verdade eh o que a gente deixa de reconhecer todo toda uma história de relação desses povos com esse território e que não é só uma relação individual e que tem a ver com a vida deles, mas é uma relação que tem profundos conhecimentos, conhecimentos muito significativos e e fundamentais paraa existência do território e e de vida que a gente conhece. conhece como ela conhece ela hoje, né? Então, eh, quando a gente fala de apagamento, a gente, na verdade, tá tratando dessa dificuldade de enxergar os conhecimentos e a presença indígena como, eh, parte da nossa história e uma parte fundamental paraa existência do nosso território como ele é hoje. E você diz que a gente tem aquela ideia popular de que os indígenas representam uma parte pequena da população, mas nós temos dados do censo de 2022 que apontam aí um aumento dessa população. Que que que isso significa? Na verdade, houve subnotificação antes ou de fato a gente teve um aumento dessa população reconhecida aqui no Brasil? Na verdade, é uma combinação das duas coisas, né? O censo vem aprimorando cada vez mais as técnicas de coleta dos dados. Então, ele tem conseguido acessar regiões que antes não conseguia acessar em territórios muito distantes, muito afastados. Então essa coleta melhorou muito esse acesso a territórios mais distantes, ao mesmo tempo melhorou os modos de as perguntas que o censo faz pra população indígena em território urbano e também tem havido um aumento populacional dos povos indígenas, né? estão crescendo tanto em termos demográficos, então um aumento de natalidade, uma redução da mortalidade por causa das condições de saúde, do acesso ao Sistema Único de Saúde, eh a redução das das epidemias, enfim, tudo mais que que acometeram esses povos nos últimos séculos. E também um aumento da da das pessoas que se identificam como indígenas, né? Eh, até até não tanto tempo atrás assim, as pessoas tinham muito medo de se identificar como indígenas, porque isso traz uma marca, isso traz um preconceito muito grande que ainda existe, mas com a visibilidade, com a força que os povos indígenas têm ganhado em termos de de divulgação nacional, de espaço de fala, né, de do de participação em grandes eventos, é uma temática que tem ganhado eh muito mais espaço na mídia, então as pessoas têm se sentido mais confiantes. antes de se autoidentificar como indígenas e reivindicar essa identidade, esse pertencimento e esse lugar de fala. E houve até também uma mudança no censo, né, professora? Antes antes essa população, ela era colocada no senso como parda ou como cabôclos também. Isso também foi alterado e isso de alguma forma atrasou também políticas públicas que foram destinadas para essa população? Isso é o censo começou a identificar a população indígena de fato, assim, a gente tem começa a ter dados relevantes, digamos assim, e e que fazem diferença em termos no estudo demográfico nos últimos dois censos, né? Então, o censo de 2010 e o censo de 2022 são os únicos censos em que a gente consegue ter informações qualificadas sobre a população indígena no Brasil. Eh, e a e essa informação sobre ser indígena ou não ser indígena deixou de ser só uma indicação do do do quesito raça cor, porque nos outros sensos era isso, né? Você tem o quesito raçac, que é branco, pardo, preto, amarelo ou indígena. Então, ficava só nessa categoria. Hoje em dia não. Desde 2010, além dessas dessa pergunta que continua sendo feita nesse formato, existe uma para as pessoas que respondem indígena, existe uma pergunta extra de você se considera indígena? E se sim, essa essa pergunta vai desenrolando e vai abrindo. Então, hoje em dia o censo coleta informações sobre etnia, sobre língua, sobre local de moradia, sobre diversos outros aspectos que conseguem qualificar melhor essa informação de quem é essa população indígena, em que condições ela vive, enfim, como é que ela que ela tá localizada. Você acredita que existe ainda hoje uma ideia equivocada de que os indígenas pertencem ao passado do Brasil e não ao presente, representando muito mais a nossa cultura no presente? Com certeza. Assim, infelizmente, eh, essa é uma imagem que ainda continua sendo muito reproduzida na nos livros escolares, né, na as os professores formados ainda são muito pouco preparados para lidar com essa temática. Eh, apesar da lei 11.645 1645 de 2008, que obrigou, né, que tornou obrigatório para todas as as escolas incluírem no ensino fundamental informações sobre histórias e culturas dos povos indígenas, né? Foi uma lei que complementou a lei que tratava das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras. Então, tem uma lei específica para tratar das histórias indígenas que já é de 2008, então ela já tem um tempo e ainda assim é uma lei muito pouco implementada nas escolas. E por que que eu tô falando sobre isso, né? Porque eh é fundamentalmente nas escolas em que essa imagem sobre quem são os indígenas continua sendo reproduzida. Então, os livros escolares muitas vezes quando trazem a temática indígena, trazem só falando sobre o período da colonização e ainda que falem sobre a escravidão, sobre, né, a violência que eles sofreram, mas é ali é ali que acaba essa informação. Não se não se volta a falar sobre a participação política dos indígenas na constituinte, não se volta a falar sobre o movimento indígena, não volta a falar sobre a importância das terras indígenas para conservação ambiental, enfim, tem uma série de outros temas que são super relevantes atuais, né, contemporâneos que que não são tratados nas escolas. Então, os nossos alunos, né, as nossas crianças continuam sendo formadas com essa com essa percepção. E na grande mídia isso também não nem sempre é eh essa essa essa discussão nem sempre é trazida de uma forma tão adequada. Então, muitas vezes ainda se prefere retratar os povos indígenas como sendo aqueles que moram na floresta, né? Então você você pega exemplos muito característicos. Então você vai pegar os ianomami, que são povo de contato recente, ou o pessoal do Xingu, que já não é um contato tão recente, mas que tem características eh de pintura e de moradia muito estereotipada de uma certa, e no caso deles é é como eles vivem de fato, né? Não é um estereótipo, mas isso é usado como símbolo do que é ser indígeno. Então, eh, esse tipo de questão vai entrando um pouco na nossa na nossa percepção sobre o que é ser indígena. Isso é super interessante essa pergunta, porque ontem a minha filha tava me perguntando, mãe, tem uma roupa certa do que de do que é indígena, de como representar o indígena? Falei: "Mas por que isso?" "Ah, porque a gente vai fazer um teatro na escola." E a professora falou que a pessoa que vai representar uma pessoa indígena precisava pegar a roupa mais parecida com uma roupa indígena. E aí a minha conversa com ela é: "Bom, e se eu pegar uma calça jeans e uma camiseta? É, pode ser indígena?" Ela falou: "Ah, pode se eu pegar uma saia e um chinelo?" Pode, pode. Se eu pegar, na verdade é isso. A gente continua com uma ideia de que existe um jeito de ser indígena, que é um jeito que tá muito vinculado a essa ideia de que os indígenas moram na floresta, de que os indígenas moram em aldeia, de que os indígenas tão presos num num espaçotempo que não é o nosso espaçotempo. E aí digo o nosso, eh, pensando nós moradores de cidades grandes do Sudeste, principalmente, né, quando a gente pensa na realidade urbana do Norte, do Nordeste, isso talvez não seja não seja tanto assim, mas aqui no Sudeste essa é uma visão muito muito forte e que os nossos estudantes indígenas que tem aqui na Unicamp falam isso o tempo inteiro. Eles vivem isso muito na pele, das pessoas dizendo: "Mas por que você tá aqui? Mas aprender química não é coisa de indígena. Mas por que que você quer fazer engenharia? Isso não é coisa de indígena. Então continuamos muito presos e, né, pensando que a gente tá, eu falando de dentro de uma das maiores universidades da América Latina, essa visão continua presente lá entre os docentes, entre os alunos, enfim, é uma um lugar de produção de ciência de ponta, mas que também não conseguiu tirar nem ali essa imagem do que é ser indígena. E aí, até por tudo isso que você tá trazendo aqui pra gente, da sua experiência também como docente, né, você acha que a gente tenta ainda, a maior parte da sociedade validar quem é indígena ou não, só com base nessa questão do estereótipo? Com certeza. Eh, isso é muito forte e isso existem, né, essa é uma questão delicada dentro do movimento indígena também, né? Então, os próprios os próprios alunos indígenas, e eu tô falando dos alunos porque é com quem eu tenho tido mais contato agora, mas no movimento indígena as diversas associações tem esse debate entre eles, né, de de que precisa haver esse reconhecimento de que não é uma questão de estereótipo e de que muitas vezes os indígenas que têm menos cara de indígena, digamos assim, né, que que se enquadram menos nesse estereótipo, são assim, né, estão nessa configuração hoje em dia porque estiveram na linha de frente de defesa do território desde sempre. Então, muitas vezes quem é colocado como menos indígena nessa categoria são os indígenas do Nordeste, né? Muita, até pouco tempo atrás as pessoas ainda diziam que nem tinha indígena no Nordeste. Hoje em dia a gente tem um movimento muito grande eh de afirmação étnica desses povos lá. E o que eles dizem é isso, não. A gente só perdeu a nossa terra, perdeu a nossa língua e a gente não tem mais essas características que outros povos que estão na Amazônia t, porque a gente tava aqui defendendo o território. Nós somos os primeiros, nós temos 500 anos de contato, eh, e continuamos existindo ainda. Sim. Então, é uma questão sim, né? E, e, e que cada vez mais a gente precisa tirar da nossa tirar da frente dos nossos olhos, né, digamos assim, para para quando a gente pensa sobre a temática indígena, né? E como é que a gente consegue avançar nessa questão, já que falta até preparo, como você disse, muitas vezes, da própria educação básica, dos docentes, né? Como avançar nessa questão com as novas gerações. É, então isso é super importante. Eh, aí a a existência dessa lei, né, da lei 11645, é um passo muito importante nesse sentido, porque, enfim, você cria uma lei, só que o problema é que é uma lei que não tem uma contrapartida. Então, se as escolas não cumprem essa lei, não existe exatamente um uma punição ou qualquer coisa do tipo. Então, muitas vezes as escolas se vem desobrigadas do cumprimento dessa lei e continuam tratando da temática indígena só no dia 19 de abril, que ainda é tratado como dia do índio e os indígenas são representados de forma estereotipada, que é aquela coisa do cocar na criança pinta o rosto, né? é fazer a peninha de papel e e fazer dois risquinhos e sair fazendo, cantando, enfim, é uma visão completamente estereotipada e inexistente, né, do que nunca nunca nem existiu, não é nem que era a representação de algum indígena do passado, nem isso não é. Eh, então as escolas precisam se atualizar e e é o jeito de fazer isso hoje em dia, na verdade são vários. A gente tem muitos produtores de conteúdo, pensando nas redes sociais indígenas, tratando de temas super relevantes, falando diretamente paraos professores, produzindo conteúdo, produzindo material didático. A gente tem muitas associações, a gente tem diversas experiências de escolas indígenas Brasil afora que que tem material muito interessante. A gente tem muitos indígenas formados que estão dispostos a a fazer formação de professores, né, a falar nas escolas, enfim. Então, e óbvio, acho que é um papel importante da universidade aí é porque isso não cabe só aos indígenas, né? Um pouco na relação com o racismo, né? O racismo é uma invenção dos brancos, então os brancos precisam lidar com isso. A mesma questão com os indígenas, né? Quem criou essa essa categoria indígena foram os brancos, os europeus quando chegaram, né? Que ainda chamaram todos de índios colocando todo mundo numa mesma caixinha. Então, a gente também é responsável por desfazer essa essa imagem. essa ideia. Então, a universidade tem um papel muito importante na formação de professores, na formação eh na formação continuada desses professores, inclusive dos nossos professores universitários, né? Então, precisamos, a gente ainda não conseguiu lidar com isso de uma forma adequada, eu considero, mas precisamos fazer processos formativos para que esses professores também saibam lidar com os estudantes indígenas que entram na universidade e para que isso cada vez mais se torne natural, essa presença, inclusive eh, não só na universidade, mas nas cidades, nas escolas, enfim, para que isso se torne um tema corriqueiro. Bom, e também tem ganhado força a discussão sobre o marco temporal, né, aqui no país, porque que ele é tão criticado por lideranças indígenas e pesquisadores também. Bom, o marco temporal é a ideia de que eh a Constituição brasileira de 1988 garantiu aos povos indígenas o direito às terras tradicionalmente ocupadas. É esse o termo usado na Constituição, né? Terras tradicionalmente ocupadas. o que o marco temporal e e a Constituição em nenhum momento colocou um tá escrito em nenhum lugar da Constituição uma data de o que que significa tradicionalmente ocupada, porque essa percepção tem a ver com as culturas, as histórias, as línguas e tudo isso tá garantido. A manutenção de tudo isso tá garantido pela Constituição. O que o marco temporal tenta fazer é dizer que tradicionalmente ocupada significam as terras que estavam efetivamente ocupadas na data da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988. E qual que é o grande problema disso? Bom, se a gente tava vivendo em 1988, já há quatro séculos, pelo menos, né, mais de 400 anos, esse processo de expropriação do território, de violência, de expulsão, de proibição dos povos indígenas de falar suas línguas, a gente tinha acabado de passar por um período de ditadura que foi extremamente violento com os povos indígenas, né? A gente fala muitas vezes que na na ditadura no Brasil morreu pouca gente na comparação com outras ditaduras, mas só de indígenas foram mais de 2.000 mortos, né? Então a gente teve a comissão da verdade tratando desse tema. Então a gente tá tava tá falando em 1988 de um de um momento de muita violência, né? particularmente ali uma violência que se expandia por séculos, mas que tinha particularmente sido muito marcante ali. E por causa de tudo isso, a maior parte dos povos indígenas da maior parte do Brasil não estava nos seus territórios originais porque tinham sido expulsos desse território, porque tinham fugido desse território, porque não era seguro estar nesse território. Então essa é a grande questão. Como é que eu posso considerar a data da promulgação da Constituição como uma data da cabeça de alguém dizendo: "Não, tudo que tá ocupado, que as pessoas estão ali naquele território é território tradicional. O resto não." Eh, parece muito muito é é uma, uma imagem completamente fictícia, né? você tirou uma data da cartola simplesmente. Então, a gente tem que lidar com essa questão da presença indígena e do território tradicionalmente ocupado, pensando em todo o histórico de violência e de fato ocupação do território brasileiro, né? Então, existem evidências arqueológicas, existem existem evidências antropológicas, existem evidências históricas da ocupação de diversos territórios, na verdade do território inteiro que a gente conhece como Brasil, né? Campinas, inclusive. Eh, e, e tudo bem, né? a gente não vai desapropriar a cidade de Campinas para virar uma terra indígena, mas também não dá para considerar que outros territórios que ainda não se tornaram cidades, por exemplo, não possam ser retomados por essa população que tinha sido expulsa dali naquele momento. Essa questão da data estipulada, você acredita que é o maior gargalo hoje para essa demarcação das terras indígenas ou existem outras questões também que dificultam, né, até identificar esses territórios? Bom, a o marco temporal é uma briga jurídica, né, que, enfim, passou no Congresso, mas continua em discussão, continua em debate. É uma questão, mas a grande questão que tá por trás de tudo isso é a especulação eh territorial, né, uma briga pela ocupação do solo. Então, a gente tem ainda eh a maior parte do território do Brasil é ocupado por do território rural do Brasil é ocupado por grandes fazendas. monocultoras, em sua grande maioria, que produzem commodities, né? Eles eles costumam dizer que eles produzem alimentos, mas na verdade eles produzem commodities, que tudo bem, é um é um grão, mas é um grão que não é produzido exatamente para alimentação humana, ele é produzido para venda, para alimentação de gado, enfim, nem é consumido no Brasil. Mas aí são você tem essas grandes produções que querem só expandir o seu espaço de produção. Então os territórios indígenas são vistos como grandes entraves para essa expansão. Então essa é a principal disputa que tá em jogo quando a gente pensa em território indígena, é a expansão do agronegócio de plantação, de pasto versus a a manutenção dos territórios da forma como os povos indígenas querem, porque também não também não significa manter os territórios entocados. A gente também tem um pouco essa ideia um um pouco torta de que território indígena tem que ser intocado, né? A gente fala da floresta intocada e na verdade nada disso é intocado, né? A floresta amazônica só existe como ela existe por causa da ocupação humana ao longo de séculos naquele território, né? Se não tivesse ocupação humana a milênios na na floresta amazônica, não haveria uma floresta. Ela seria um deserto, provavelmente. Então, os territórios indígenas são são territórios extremamente manejados pela ação humana, mas um manejo que não enxerga a terra e as coisas que ali estão como recursos, mas como parte da vida. Enfim. Então essa é a grande disputa que tá em jogo quando a gente pensa nos territórios. Eh, a Constituição também previa que em 5 anos todos os territórios já deviam ter sido demarcados da depois da promulgação. Então, né, isso não nunca foi cumprido. Eh, e é uma briga muito grande porque nenhum nenhum governo, né, ninguém nenhum ninguém dá conta de resolver essa questão, porque envolve poderes muito grandes econômicos e financeiros e políticos. é um conflito de interesses que tem a mediação do Estado nem sempre eficaz, né? Até falando dessa atuação do Estado também, a gente tem números que mostram que a violência contra os indígenas ela continua crescendo. Isso também revela uma falha do Estado nesse sentido? Com certeza. Assim, o Estado e e o Estado pensando de uma forma muito ampla mesmo. O estado nunca deu conta de lidar com com os povos indígenas, né? Então, a gente teve primeiro uma atuação, né, durante a colônia e império, uma atuação que era no sentido de matar e escravizar. Depois teve um processo, né, no começo dos no começo da República, no sentido de integração do indígena, de transformação dos indígenas em mão de obra, que era essa a perspectiva do do serviço de proteção ao índio. E aí em 1970 cria-se a FUNAI, que vinha com essa com esse resquício do SPI, né, de de transformação dos povos indígenas em mão de obra. Então a ideia é, vamos proteger o território, mas vamos ensinar o português, vamos botar na escola, levar pro internato para que eles possam passar a trabalhar eh na no desenvolvimento do país com essa ideia muito torta de do que é também o desenvolvimento. E mais recentemente não mudou tanto assim, né? Então a gente tem, óbvio que a constituição foi um marco muito importante e muito em função da atuação dos movimentos indígenas, né? Então, não foi exatamente uma dádiva do Estado aos povos indígenas, mas foi por pressão deles próprios e aí conseguiram aliados naquele momento. Então, conseguiram algumas garantias importantes, mas o estado continua não dando conta de proteger nem os territórios, eh, nem as pessoas. Então, mesmo com a criação de de leis mais recentes, como as leis de cotas, por exemplo, tá? Você cria cotas e espaços para esses estudantes, né, para essas pessoas estarem nas universidades, por exemplo, mas você não cria condições práticas para que essas pessoas vivam nessas nessas cidades, né, estejam nesses espaços. O estado continua não conseguindo atuar exatamente na no rompimento dessa dessa relação de preconceito com os indígenas, né? Então, estar na cidade, os os as muitas gestões municipais são extremamente hostis aos povos indígenas dos territórios próximos. Então, eh, a gente vivencia isso muito, né? Meu meu trabalho de pesquisa é muito grande no Mato Grosso, no Xingu. As os prefeitos dali da região têm uma uma relação muito tensa com o território, com os indígenas. Então, o Estado em seus diversos níveis não tem dado conta de de responder a essa questão de uma forma adequada, mas tem que enfrentar isso cada vez mais, porque os indígenas têm ocupado esses espaços, felizmente, né? Então eles próprios eh têm ido lá bater na porta dos diversos governos, né, da da dos do poder legislativo e tudo mais para fazer essas cobranças e fazer e apresentar suas próprias demandas, falar por eles próprios, né, com suas com sua diversidade interna também, porque parte da dificuldade que o estado, e aí pensando em governo federal tem eh é lidar com uma população tão diversa. Então mesmo políticas que são voltadas para povos indígenas, são pensam os povos indígenas como um uma unidade. E isso não dá conta, porque são mais de 200, são mais de 300 povos, são mais de 200 línguas, são regiões muito variadas, são modos de viver e ver o mundo muito variados. Então, eh, é, é uma, é um desafio que é difícil de vencer pensando, né, no funcionamento de uma política pública, digamos assim, e nessa diversidade cultural que existe, né? Agora você falou da questão das cotas, a Unicamp ela foi pioneira criando um vestibular indígena, né? Você acredita que isso de fato já mudou a realidade na universidade? Inclusive você que é docente pode trazer também pra gente essa experiência de como tem sido a ocupação desse espaço aqui na Unicamp? Eh, a Unicamp é uma das universidades que tem o maior corpo corpo decente de indígenas no Brasil. A gente não tem dados muito atualizados sobre essa presença nas diversas universidades, mas só a Unicamp já tem mais de 500 estudantes indígenas matriculados atualmente, super diversos também. Então eles são eles fazem parte de em algo em torno de 50 etnias diferentes. Eh, e isso mudou completamente a cara da universidade, né, essa presença, eh, e, e, e não só da universidade, da cidade, do entorno. Então, essas pessoas estão circulando por ali, né, pelo distrito de Barão Geraldo. essas pessoas frequentam o comércio, essas pessoas e ocupam a cidade e isso muda um pouco a percepção da cidade em relação a quem são os indígenas, né? Que a princípio é uma coisa muito distante que tá lá na mata e agora não, tá circulando ali, tá conversando, tá convivendo, estuda com os filhos deles nas escolas. Então essa população tá tá muito por ali. E paraa universidade isso tem sido um desafio, porque os professores precisam muitas vezes repensar suas metodologias, suas formas de abordagem dos conteúdos, eh o que nem sempre é feito. Então os estudantes relatam muito racismo, relatam muito preconceito, relatam professores que continuam eh retratando os povos indígenas de um jeito estereotipado. E e então a gente tá vivendo esse momento de tensão ainda, porque também é uma política muito nova, né? Então a a a Unicamp, o primeiro vestibular foi em 2018, a primeira turma entrou em 2019, não tem nem 10 anos, né? Não tem nem 10 anos e é uma política que tá sendo construída com conforme a gente vê o tempo passar, né? Então, a gente tem melhorado a cada dia as as políticas de de ingresso e permanência, de oferta de disciplinas e de suporte para esses alunos, para pensar o que que precisa pensar em termos de permanência de infraestrutura, em termos de permanência de acolhimento, em termos de permanência de didática. Tudo isso tem sido pensado e e aprimorado ao longo desse tempo, mas ainda é muito novo. Então, estamos aí vendo vendo essa mudança acontecer. Na verdade, redes sociais também são um espaço em que a gente não vê tanto, tantos indígenas com destaque ou influenciadores. Você até comentou no início que existem, né? Mas a gente não vê tanto e na internet com destaque grande. Falta também esse espaço de identificação pros indígenas nas redes sociais. Isso também tá avançando ainda? É curioso isso porque é o algoritmo, né, fazendo o papel dele, porque dentro do movimento indígena tem pessoas que são muito fortes na atuação nas redes sociais. Então tem tem muito e e não só influenciadores nesse formato de produção de conteúdo, mas, por exemplo, artistas indígenas que são super importantes, que que fazem parte desse debate, dessa cena cultural, que também é uma cena que tem a ver com a reivindicação de direitos e tudo mais. Então, essas pessoas têm ganhado muito destaque e não só no Brasil, também no exterior. Às vezes essas pessoas são mais vistas no exterior do que dentro do Brasil, o que também é significativo assim, né? Acho que mostra um pouco esse caminho do nosso algoritmo de que porque, né, a gente já entendeu que quanto mais você procura um certo tema, mais o algoritmo vai te entregar. Sim, se a temática indígena não é um um ponto central pra gente, isso não vai ser entregue pra gente. Mas para mim, por exemplo, que que tô nesse meio, isso isso aparece muito, isso circula muito e tem muita coisa muito boa sendo feita, né? Óbvio que é isso. A gente precisaria eh de mais espaço na grande mídia de uma certa forma. E aí falando de um jeito muito genérico sobre o que é a grande mídia hoje em dia, que também, né, a televisão perdeu espaço e tudo mais, então precisa ainda ter um certo fomento para essas pessoas conseguirem alcançar, furar um pouco as suas bolhas, digamos assim, para quem eles estão falando. Então, sim, acaba ficando ainda algo muito segmentado, né, nichado por conta disso, né? Sim. Agora, voltando a falar da demarcação das terras indígenas, você disse que não são intocáveis, né? Existe ali também o manejo. Preservar esses espaços também é uma forma de combater a crise climática, de ter também uma maior preservação ambiental. Como que isso pode ajudar também pensando na questão do meio ambiente? Tá? Não, isso é ótimo. Isso é uma pergunta super importante. Eh, a gente já tem dados muito recentes do MAP Biomas, do próprio IBGE, que mostram que os territórios indígenas são os territórios mais, não só os indígenas, mas os territórios indígenas e quilombolas são os territórios onde menos acontece eh destruição de mata, onde tem menos eh onde tem mais preservação e menos perda de massa de floresta eh nos últimos anos. Então isso é super importante e não é só por uma questão, como eu tava falando, né? Não é só por uma questão de preservação, de não derrubada de floresta, mas por uma questão da forma como o manejo desses espaços é feito. A nossa ciência tão tão que se se vangloria tanto de ser tão avançado, ainda tem muito a aprender com os os modos como os povos tradicionais lidam com o território e com os seres que ali habitam, né? Então, eh, e esses seres incluem as flor, as árvores, as plantas, os animais, os espíritos, enfim, é uma um universo muito amplo, eh, que tá ali e que tá o tempo inteiro sendo manejado. Porque também não é como a gente muitas vezes vê essa coisa do, ah, é porque a a a mãe terra, fica uma coisa meio meio hipster sobre pensar a floresta. Vamos abraçar a árvore. E não é essa a ideia, né? Não é tratar a árvore como sentar ali, ficar adorando a árvore, mas é uma é uma relação de respeito. Então o o Aton Krená fala isso. Ah, nós chamamos o rio o rio doce deu, que significa avô. Ele é o nosso avô. E o que que significa chamar um rio de avô? Não significa que eles eles acham que alguém nasceu do Rio, não é essa questão. Significa criar uma relação de respeito. Quando você transforma aquilo em parente de alguma forma, aquele ser em seu parente, você vai tratar aquele ser com respeito. Então é essa a ideia. E é um respeito que é mútuo, é uma relação de dois lados. Então, é um pouco por aí que que tem que passar essa essa nossa compreensão sobre a forma como os povos tradicionais se relacionam com o território. Bom, pra gente encerrar, professora, que que falta hoje na sua opinião para que o Brasil ele trate os direitos dos povos indígenas e para que a gente trate também essa cultura, né, dos povos originários como algo central na nossa democracia e que seja de fato uma prioridade. Acho que falta visibilidade, eh, e, e, e tratar. E essa visibilidade precisa acontecer desde muito cedo. As nossas crianças precisam estar cada vez mais expostas a essa diversidade dos povos indígenas, porque eu é muito fascinante quando você descobre essa diversidade na prática. O que que significa, né? Porque quando a gente só fica falando sobre diversidade fica tudo muito abstrato, mas quando você vê na prática diferentes formas de lidar com o território, com a língua, com o corpo, com as crianças, com a brincadeira, com o rio, é muito rico isso. E e eu acho que só reconhecendo essa diversidade, a gente vai entender o valor dessa diversidade, né? Eu espero muito que a gente consiga fazer isso a tempo antes de dizimar essa diversidade, né? Mas enfim, continuo acreditando muito no Ailton Krenak de novo, quando ele diz que a preocupações somos, a preocupação somos nós, né? Eles já estão sobrevivendo há 500 anos, então eles seguirão sobrevivendo. A gente é que talvez não dê conta dessa dessas transformações muito rápidas pelas quais o mundo tá passando. Mas eu acho que é isso, assim, essa visibilidade eh e isso só vai acontecer com o investimento estatal. O estado precisa olhar para isso e precisa bancar isso e bancar isso de um jeito muito firme. Então isso isso precisa ser uma coisa de cima para baixo, né? Então tá, vamos criar um vestibular indígena na Unicamp. A universidade também precisa bancar junto aos seus docentes de que essa é a política que vai ser implementada e de que a gente vai precisar lidar com isso e não de que os estudantes indígenas é que precisam se adaptar à universidade. Então, eh são políticas que precisam acontecer de um jeito mais incisivo. Professora, muito obrigada, viu, pela sua presença aqui, por trazer o seu ponto de vista também sobre esse assunto tão importante. teria ainda muitos temas pra gente debater, mas agradeço aqui já a sua participação e por trazer luz também para esse assunto. Obrigada. Eu que agradeço. Muito obrigada e já agradeço também a você que nos acompanha aqui na TV Câmara em mais um ponto de vista. Muito obrigada pela sua companhia em mais uma edição e te espero no próximo programa. Até lá.