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Ponto de Vista | Jornada 4 Dias x 36h: empregos + saúde? UNICAMP analisa PEC
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Ponto de Vista | Jornada 4 Dias x 36h: empregos + saúde? UNICAMP analisa PEC

105 views Publicado 30/03/2026 HD · 35:01
Resumo editorial

O programa Ponto de Vista debate a PEC 8 de 2025 que propõe o fim da escala 6 por 1 com a redução da jornada para quatro dias por semana e limite de 36 horas semanais, sem redução salarial. A entrevistada é uma economista da Unicamp que participou da elaboração do Dossiê 6 por 1, estudo que aponta a possibilidade de geração de mais de 4 milhões de novos empregos com a medida, aumento da produtividade e ganhos em saúde mental dos trabalhadores. A pesquisadora apresenta dados de 2024 mostrando que 40,3 milhões de brasileiros trabalham mais de 40 horas por semana, com 20 milhões deles celetistas que seriam diretamente impactados pela redução, cerca de 20 por cento da força de trabalho do país. A conversa aborda os argumentos contrários, incluindo possíveis impactos no PIB e nos custos das empresas, e contrapõe com exemplos internacionais de redução de jornada que mantiveram a produtividade. O programa coloca o tema no centro do debate público campineiro, com reflexos diretos sobre o cotidiano de milhares de trabalhadores do comércio, da saúde, da educação e dos serviços em geral.

Descrição do vídeo

🕐 Ponto de Vista debate PEC 8/2025: Fim 6x1 por 4 dias/semana 36h (salário preservado). Unicamp: mais de 4 milhões empregos, produtividade cresce, saúde mental melhora. Críticos: risco PIB/custos empresas. Clara Saliba (economista Unicamp/dossiê 6x1) prova Brasil pronto trabalhar menos! 📊 Realidade brasileira: 40,3 milhões trabalham acima de 40h/semana (20 milhões CLT = 20 por cento força trabalho) Afastamentos saúde mental: 400 mil em 2024 (+63 por cento vs 2023) Mulheres: +10h/semana trabalho doméstico/cuidados (jornada dupla) Jovens 14 a 29 anos: 72 por cento acima de 40h; prejudica educação superior 💼 Dossiê Unicamp rebate: PIB preservado: Horas "sobrando" viram vagas/produtos (serviços não param fins semana) Cálculo: Total horas ÷ trabalhadores; gera 4+ milhões empregos Produtividade: Tech/organização permite mais output em menos tempo Histórico: 48→44h (1988), salário mínimo up (2001/2012) sem desemprego 👥 Impactos sociais: Mulheres/negras: Combate desigualdade (dupla jornada/precariedade racial) Jovens: +tempo estudo (Enem matrículas caem por trabalho excessivo) Saúde pública: Reduz exaustão/absenteísmo; PIB foca qualidade vida 🍽️ Alimentação fora (bares/restaurantes): Transição: +contratações + produtividade; folgas = +clientes Custo operacional: abaixo de 1 por cento (similar salário mínimo) Teste real: Supermercados adotam 5x2 sem perda 🛠️ Informalidade (38 a 40 por cento mão obra): Efeito farol: Formal melhora → informal eleva condições Remuneração/hora evita bicos; atrai para formal 📈 Transição prática: Políticas: Incentivos PMEs contratações; negociação Câmara Duração: Curta (evite 10 anos); qualidade vida urgente Sindicatos: Protagonismo histórico (Constituição 88); reforma 2017 enfraqueceu mas pauta revive 💡 Clara Saliba defende: Economia = sociedade; saúde mental impulsiona produtividade Respostas simples falham; estudos comprovam crescimento sustentável Democracia decide: 36h ou 40h via representantes/consulta Assista análise Unicamp jornada 4 dias! Comente: apoia PEC? Vive 6x1? Curta/compartilhe debate essencial! Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas

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[música] O Brasil trabalha muito e descansa pouco. A redução da jornada semanal deverá ser votada no Congresso ainda neste semestre. A Câmara dos Deputados discute o fim da escala 6x1, modelo em que o trabalhador atua 6 dias e descansa apenas um. A proposta está em debate por meio da PEC 8/2025, que prevê jornada de 4 dias por semana e um limite de 36 horas, sem nenhuma redução salarial. Um estudo elaborado por pesquisadores da Unicamp, que é a Universidade Estadual de Campinas, aponta que o Brasil pode gerar até R.hõ500.000 novos empregos com a medida e ainda aumentar a produtividade. Porém, críticos alertam para possíveis impactos no PIB e também nos custos das empresas. Afinal, o Brasil está pronto para trabalhar menos? A redução da jornada gera empregos ou ela pode pressionar a economia? Para discutir o tema, conversamos agora com a economista Clara Saliba, que participou da elaboração do chamado dossiê 6x1. Clara, muito bem-vinda, muito obrigada por aceitar o nosso convite. Olá, muito obrigada, Tália. É um prazer tá aqui e poder discutir esse assunto com vocês. Bom, Clara, pra gente começar aqui o nosso debate, o Brasil ele está pronto realmente para trabalhar menos. O dossiê afirma que sim. O que que sustenta essa afirmação de vocês? Bom, não só o Brasil hoje tá pronto para trabalhar menos, como os brasileiros estão prontos, estão muito necessitados de reduções na jornada de trabalho. Hoje, esses dados que eu trago aqui são de 2024, a gente tem 40,3 milhões de pessoas que trabalham mais de 40 horas por semana. Quando a gente olha para as pessoas que são CLT, que seriam as que seriam mais imediatamente impactadas por essa redução na jornada, esse número é de 20 milhões, o que dá mais ou menos 20% da nossa força de trabalho. Significa que hoje 1/5 da nossa população trabalha em jornadas com mais de 40 horas. E o que a gente vê a partir dos dados, não só do das pesquisas oficiais, como do próprio Ministério do Trabalho, é que essa jornada tem sido um agravante de problemas de saúde pra população brasileira. Por exemplo, Tália, em 2024 a gente teve mais de 400.000 1 afastamentos por saúde mental registrados no CAJED, que é justamente aonde o Ministério do Trabalho guarda essas informações. Esse número não só foi um recorde, como foi 63% maior do que o do ano anterior de 2023. Então, o que os dados têm nos mostrado a partir da realidade dos trabalhadores brasileiros é que o Brasil está sim pronto para trabalhar menos e sobretudo os brasileiros estão prontos para essa mudança. Ou seja, o brasileiro ele trabalha muito mais do que se imagina de acordo com esse retrato, né, que esse dos traz pra gente, Clara. Exatamente. As jornadas de trabalho no Brasil hoje possuem em média 40 horas, né? é o dado que a gente mais vê circular, que sai bastante na mídia, de que a jornada de trabalho é de 40 horas. Existem alguns problemas com esse dado, com essa ideia de que todo o trabalho que os brasileiros e brasileiras realizam se esgota nas 40 horas semanais. Em primeiro lugar, a gente precisa entender que a jornada de trabalho, ela compreende só uma parte daquilo que a gente considera nós economistas como trabalho de verdade, né? Essa conta, por exemplo, de horas contratuais não leva em consideração o número de horas dispendido no deslocamento para para o trabalho e de volta do trabalho, que nos centros urbanos é cada vez maior, chega a 2, 3 horas, às vezes por trajeto. Além de que esse número também não conta outras atividades de trabalho que são realizadas de forma não remunerada pelos trabalhadores e trabalhadoras. E aqui eu me refiro especialmente às mulheres quando eu falo do que a gente chama de trabalho doméstico e de cuidados, né? Hoje, dados oficiais da PINAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE nos mostram que as mulheres passam em média 10 horas a mais por semana cuidando das suas próprias casas do que os homens. Então, quando a gente pensa na jornada de trabalho, no por brasileiros e brasileiras estão tão cansados e apresentando tantos sintomas de saúde mental, a gente precisa levar em consideração que existe a jornada de trabalho, existe o deslocamento em cima dessa jornada e existem as horas de cuidado e trabalho doméstico. Então, a gente pensa nas 40 horas e fala: "Poxa, mas é 1/3 do dia, né? sempre aquela conta, 1/3 trabalha, 1/3 dorme, 1/3 de lazer, mas não é aí que essa conta fecha. Para além dessas 8 horas, muitas outras horas estão ocultas na no dia a dia do trabalhador. E essa conta ela é diferente para cada realidade, né, Clara? Agora, o que os economistas aí dizem, né, os que são críticos a essa medida é do impacto pra redução do PIB, por exemplo, né, custos também maiores para as empresas, o estudo de vocês rebate inclusive essas informações. Por quê? Então, quando se diz que a redução da jornada de trabalho vai reduzir o PIB, existem uma série de simplificações que estão por trás dessa afirmativa. E eu vou tentar aqui, eh, sem exatamente um papel e uma caneta, explicar esse raciocínio que é um pouco matemático. Então, assim, eu vou devagar, vocês vêm comigo, a gente vai entender de onde sai essa ideia do PIB. O PIB é o produto, a soma de tudo que é produzido na economia, certo? Desde bens a serviços, tudo que acrescenta valor vira o resultado do PIB. A produtividade vai ser o PIB dividido pelo número de pessoas e horas trabalhando. Então, quanto mais gente trabalhando, quanto mais horas trabalhando, maior eu fico com o meu PIB, eu tenho uma relação de produtividade que vem. Aí acontece que os estudos que falam que o PIB vai cair consideram que uma vez que eu reduzo a jornada de trabalho, essas horas que vão não vão ser trabalhadas por uma pessoa vão deixar de existir. Ou seja, e aí é uma conta um pouco óbvia. Se eu tenho uma farmácia que tá que tem trabalhadores na 6x1, eu mudo essa escala para 4x3. A conta que reduz o PIB considera que se eu mudei a escala para 4x3, três dias da semana a farmácia vai ficar fechada. Então as horas que estes trabalhadores estariam trabalhando vão deixar de existir. Essa conta não é muito realista, porque o que vai acontecer não é que essas horas vão sumir, é que essas horas vão ser absorvidas ou pelo aumento da produtividade ou pela pelo geração de empregos. Então, quando eu falo que o PIB vai cair, eu tô supondo que as horas vão diminuir, lembrando que o meu PIB vai ser a quantidade de horas de trabalho que eu tenho vezes a minha produtividade. Só que essa conta não leva em consideração que essas horas muito dificilmente vão cair. É difícil você imaginar uma realidade em que por conta de uma mudança de legislação, as farmácias parem de abrir aos fins de semana, por exemplo, ou os comércios, os restaurantes comecem a funcionar só quatro dias da semana. O que vai acontecer muito provavelmente é que essas horas vão se traduzir em, por exemplo, mais uma pessoa sendo contratada, mesmo que seja talvez em meio período, para suprir essa necessidade. Dessa forma, o a a realidade é que o PIB não necessariamente vai cair por conta da mudança da jornada. O PIB tem a ver não só com o número de horas que a gente trabalha, mas com o que a gente produz nessas horas. Eh, o nosso estudo, ele então inverte essa lógica e questiona o que eu teria que fazer para manter o PIB igual. Eu teria que gerar mais empregos e eu teria que aumentar a produtividade. Isso significa que o PIB vai ficar igual? Não. Isso significa que essa conta pode ser feita de várias formas, entende? O resultado final vai depender justamente dos das políticas que vão acompanhar essa essa transição na mudança da jornada de trabalho, se haverá ou não uma transição paulatina, se haverá ou não um incentivo à criação de emprego. É uma resposta muito mais complexa do que simplesmente falar que reduzir a jornada igual a reduzir o número de horas trabalhadas. Mas, evidentemente, como é de pra na economia, respostas um pouco mais complexas perdem espaço para respostas simples que parecem resolver problemas tão grandes quanto esse dilema da jornada, né? E esse dossiê de vocês, claro, ele prevê inclusive a geração de mais de 4 milhões de novos empregos com essa mudança de jornada. Então, é dessa forma que essa conta ela é feita. Exatamente. Essa conta passa pela pelo seguinte algoritmo. Vou colocar assim. Eh, a gente pega o total de horas trabalhadas na economia no ano de referência. Então, eu fui lá nas bases de dados oficiais que perguntam para cada trabalhador quanto você trabalhou essa semana. Aí nós somamos tudo e chegamos à conclusão que são eh x bilhões de horas por ano de trabalho. Hoje essas horas são divididas para um número X de trabalhadores, certo? Se eu reduzo a escala, quantas horas cada trabalhador vai poder trabalhar? Menos horas. Portanto, eu vou ter um excedente de horas. Essas horas talvez vão para empregos, talvez vão ser absorvidas mesmo no sentido de ai não necessariamente reduzir a jornada para 4x3 significa que eu vou ter que contratar três pessoas em vez de ter uma pessoa só. Eu não vou ter uma conta tão direta, eu vou também aumentar a produtividade do meu trabalhador. Hoje no setor de serviços brasileiros isso é um grande problema. a gente tem uma produtividade eh um pouco baixa que pode sim ser eh elevada. Então, o raciocínio é que uma parte dessas horas vai virar empregos, outra parte dessas horas vai virar aumento de produtividade, mas isso não necessariamente significa queda no PIB, entende? Eh, essa conta é feita da da que chega no número da queda do PIB, escolhendo uma das variáveis para ficar fixa, para não mexer. E o que a gente tá propondo é escolher outra e pensar por outra ótica. Ou seja, segundo o dossiê, Clara, é possível trabalhar mais, né, produzir mais, aliás, trabalhando menos horas, né? Essa redução de carga não não necessariamente significa que as pessoas vão produzir menos, né? Essa a lógica do estudo. Exatamente. É possível produzir mais, trabalhando menos, desde que mais pessoas estejam trabalhando a partir então da criação de empregos. Bom, e o dossiê afirma também eh sobre os jovens, né, que estão ocupados. O número interessante, 72% dos jovens que trabalham, isso entre 14 e 29 anos, trabalham 40 horas ou mais por semana. Isso compromete também o acesso à educação. Pensando nisso, essa redução Clara é uma forma também de uma política educacional melhor pro nosso país. Certamente a redução da jornada de trabalho pode contribuir paraa melhoria dos índices educacionais do nosso país, especialmente no que diz respeito ao ensino superior. Por que isso? Hoje, uma grande dificuldade paraa maioria dos jovens em acessar e se manter na universidade pública é ter tempo suficiente para conciliar isso com jornadas de trabalho. A gente teve eh nos últimos 20 anos uma ampliação muito grande do acesso à universidade, né? Existem muito mais vagas hoje para as pessoas acessarem a universidade. Isso é ótimo. Isso é uma política excelente de democratização da educação. Mas isso não foi acompanhado por uma adaptação à realidade de jovens que precisam trabalhar para se manter na universidade. O resultado que a gente tem visto hoje é uma queda na próprio interesse desses jovens em acessar o ensino superior. a gente vê, por exemplo, o número de matrículas no Enem tem caído, né? A a quantidade de jovens acessando o ensino superior fica cada vez menor, porque é difícil conciliar uma realidade de trabalho que, como eu falei no começo, envolve o trabalho remunerado, mas envolve o deslocamento, mas envolve para muitos desses jovens cuidar, senão de filhos, de pais, de parentes, das suas próprias casas. Eh, então reduzir a jornada também pode ser um incentivo para que esses jovens voltem a acessar o ensino superior, o que do ponto de vista da produtividade da economia é muito benéfico, porque eleva também o índice de educação da nossa força de trabalho. Hoje, a maioria das pessoas que está alocada na escala 6x1, esse dado, se não me engano, é do estudo recente do IPEIA, não tem ensino superior completo. são pessoas que fizeram até o ensino médio e foram trabalhar nessas jornadas de trabalho que se tornam assim um obstáculo para que essas pessoas consigam eh acessar a educação justamente por falta de tempo. Bom, e quando a gente fala da escala 6 por1, ela aprofunda algumas diferenças hoje quando a gente pensa nas mulheres, como você citou, que tem uma jornada dupla, né, em casa também, os negros também, porque existe uma diferença aí no mercado de trabalho quando a gente pensa em salário, deslocamento e também a carga horária, né? Exatamente. O mercado de trabalho brasileiro, como o mercado de trabalho de vários outros países, mas num país tão desigual quanto o nosso, essa realidade precisa sempre ser lembrada. é um mercado desigual. Nosso país é um país marcado por desigualdades. Essas desigualdades não somem quando os trabalhadores vão em busca de emprego, né? Então, em um país em que a gente tem muitos problemas de discriminação racial, de violência de gênero, essas coisas também se refletem no mercado de trabalho e se refletem principalmente no caso do gênero a partir da questão da dupla jornada. Então, como você bem falou, as mulheres hoje exercem jornadas duplas e triplas de trabalho que dizem respeito ao trabalho remunerado que elas fazem e também ao trabalho que elas precisam fazer paraa manutenção da vida. A gente chama isso de reprodução social. A ideia de que pra sociedade continuar existindo amanhã, alguém tem que alimentar essa sociedade hoje, tem que vestir, tem que levar essas crianças pra escola, tem que cuidar desses idosos. Esse trabalho é principalmente feminino e para as mulheres que se inserem na jornada 6x1 se torna uma conta quase impossível, né, de conciliar, por exemplo, o cuidado com uma criança em idade pré-escolar e um trabalho numa jornada tão extenuante. Por outro lado, quando a gente pensa nas variáveis raciais, o que acontece é mais uma questão de precariedade do trabalho por motivos históricos. que dizem respeito desde o que aconteceu no nosso país, quando da abolição da escravidão até hoje, a força de trabalho das pessoas negras é colocada no mercado de trabalho de maneira um pouco de lado. O que eu quero dizer com isso? as pessoas negras têm menos acesso a trabalhos de maior qualidade, porque historicamente elas foram colocadas nesse papel e isso acaba se reproduzindo no cotidiano, de forma que quando a gente olha pros trabalhos mais precários são justamente essas pessoas, as pessoas negras que estão colocadas ali. E aí quando a gente pensa no cruzamento dessas identidades, por exemplo, na realidade de mulheres negras, não é à toa que os indicadores de mercado de trabalho são os piores para essa população. E isso, é claro, se se reflete em todas as condições do mercado de trabalho, inclusive na jornada 6x1. Bom, então quando a gente pensa em redução de jornada, Clara, eh, você trouxe, claro, a sua opinião como economista, um pouco do recorte social também, mas quando a gente traz esse debate, a gente tá falando de economia ou também de saúde pública na sua opinião? Eu não sei o quanto a gente consegue separar uma coisa da outra, para ser muito sincera, quando se fala da qualidade de vida dos trabalhadores, em um primeiro momento, isso parece uma questão essencialmente de saúde pública, porque eu tô falando de saúde mental, mas eu também tô falando de qualidade de vida, de acesso, a gente falou de cuidado, de transporte público, mas veja bem, trabalhadores sem saúde também são trabalhadores menos produtivos, também são trabalhadores com maiores índices de absenteísmo, ou seja, de faltas no trabalho. Também são trabalhadores com maior afastamento por conta de saúde mental, como eu falei mais cedo. Então, quando a gente tem trabalhadores e trabalhadores exaustos, isso prejudica a capacidade da economia de funcionar de forma eh de forma produtiva, o que volta à saúde pública para dentro da economia. Isso se você quiser ter uma visão de que eh essas duas coisas andam em separado, mas se você entende que a economia nada mais é do que o estudo de como a nossa sociedade se organiza para produzir, a saúde também tá dentro disso, né? No fim das contas, o objetivo principal de que o PIB cresça, que é uma coisa que a gente comemora tanto quando acontece, é para melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas, né? É isso que quer dizer um país que se desenvolve, né? O que que é um país desenvolvido? É um país que tem um PIB mais alto. O que que isso significa? Que existe mais coisa sendo produzida, mais riqueza circulando e maior qualidade de vida pra população por isso. Bom, e dossiê que foi feito pela Unicamp também fala do papel dos sindicatos nesse debate da redução de jornada. É uma pauta histórica dos sindicatos, né? Redução de jornada para várias categorias. Mas porque nesse debate específico que já deu tanta polêmica, né, Clara? Você acredita que os sindicatos não tiveram protagonismo dessa vez? Eu acredito que uma parte da situação dos sindicatos hoje nessa discussão tem a ver ainda com reflexos do que foi a reforma trabalhista de 2017, tá? Eu acho que isso é um primeiro ponto que a gente precisa entender. Existe um enfraquecimento do movimento sindical que vem como resultado dessa reforma trabalhista. Por outro lado, eu questionaria se os sindicatos não foram realmente tão presentes nessa discussão. Eu acho que existe uma parcela de trabalhadores cada vez maior que não está nesses sindicatos por estar em ocupações mais precarizadas. A gente tem o exemplo do Rique Azevedo, que é quem, né, apareceu no debate público quando isso quando dá a escala, que justamente diz respeito a um trabalhador que não tá ali na no na realidade sindical. Eu não vejo isso como uma necessariamente perda de protagonismo do sindicato, porque a partir do momento que esse debate volta à esfera pública, os sindicatos também entram e começam a discutir esse assunto, né? trazem acúmulos que já vinham sendo eh debatidos internamente há muito tempo. A gente não pode esquecer, por exemplo, de como o movimento sindical foi importante paraa redução das 48 horas para as 44 e na Constituição Federal de 1988, né? Bom, aí falando da aplicação prática de uma possível redução de jornada, né, Clara, para setor de alimentação, por exemplo, né, fora do lar, aí a gente inclui bares, restaurantes, a escala 6 por1, ela é muito comum, né, afinal existe ali o trabalho aos finais de semana, empresários alegam, inclusive, que esse modelo ele vai pressionar esses estabelecimentos. Para esses estabelecimentos, como é que seria essa transição na prática para uma redução de jornada? A prática da transição vai depender de como tramita a PEC hoje, né? Porque como a PEC tá desenhada, existe uma proposta de que essa transição seja imediata. Existe uma proposta de que essa transição aconteça ao longo de 10 anos. A forma como isso se dá vai depender bastante do que é colocado em jogo no debate hoje, mas é certo de que vai precisar haver uma série de políticas paralelas que auxiliem para que essa transição aconteça. De todo modo, é importante sinalizar nesse questionamento de aumento de custo que outras mudanças já aconteceram na legislação trabalhista nos últimos anos. E essas mudanças, apesar de terem realizado pressões no setor empresarial, não desaceleraram a economia e não ocasionaram uma perda, por exemplo, de empregos, né? Eu citei agora a pouco o caso da redução da jornada de 48 para 44, mas a gente teve também eh elevações substanciais do salário mínimo, por exemplo, em 2001 e em 2012, que não eh ocasionaram uma perda de empregos, como era anunciado à época. O estudo do IPEIA que eu citei mais cedo, vai calcular mais ou menos quanto de custo operacional gera essa redução da jornada de trabalho e ele chega a um número de menos de 1% do custo operacional em geral sendo eh afetado por essa mudança, que vale sinalizar é um número bem parecido com esse dos aumentos do salário mínimo. Então, é possível dizer que a gente já passou por situações semelhantes antes e a economia não quebrou por causa disso. Para setores de serviços como alimentação, é certo que mudanças vão precisar acontecer. provavelmente mais contratações precisarão acontecer para que essas empresas, para que esses bares, para que esses restaurantes continuem funcionando. Por outro lado, funcionários trabalhando menos dias também significa consumidores consumindo mais dias. Porque se um funcionário de bar não trabalha seis dias por semana, no dia de folga dele, talvez ele queira ir num restaurante, talvez ele queira ir num bar, num shopping. Tanta coisa que a gente vê esses trabalhadores eh reclamando hoje de que são privados dessa convivência, né? Então, se por um lado eu vou precisar contratar mais pessoas, por outro lado eu vou receber mais clientes. E assim a gente faz essa roda girar com cada vez mais intensidade e manter a economia aquecida mesmo num cenário de ajustes. Bom, quando a gente fala da redução de jornada, a gente pensa nos empregos com carteira assinada. Pros trabalhadores que estão na informalidade hoje, como é que a gente pode garantir que haja algum benefício também com essa redução? Não pensando apenas, né, que para quem tá aí no mercado formal trabalhando com carteira assinada. Infelizmente hoje a informalidade é um problema grande na economia brasileira. Na verdade, eu falo hoje, mas a informalidade é um problema estrutural da economia brasileira que eh dependendo de como você mede, chega de 38 a 40% da nossa mão de obra. Isso nos últimos 20 anos. Não é uma questão tão recente assim. Esses empregados que estão em relações informais, evidentemente não são cobertos pela CLT e é um primeiro momento pode parecer que eles não vão se beneficiar dessa mudança. Mas existe um comportamento interessante que a gente estuda na economia que chama efeito farol. Isso acontece também no salário mínimo. A partir do momento em que as condições do trabalho formal aqui modificam, isso se torna um farol ou um espelho pro trabalho informal. Porque veja, um trabalhador, ele não necessariamente vai deixar de aceitar um emprego porque é formal ou informal. Ele vai aceitar o emprego pensando nas condições de trabalho que vão ser oferecidas. Se eu tenho no lado formal da economia as condições de trabalho se modificando e a escala reduzindo, é muito possível que do outro lado para o setor informal também haja alguma mudança, porque senão a mão de obra acaba migrando de maneira mais intensiva para esses empregos. A gente já vê um pouco isso, eh, não entre setor formal e informal, mas com redes de supermercado, por exemplo, que agora estão anunciando escala 5x2. Eh, a legislação nem mudou ainda, mas as empresas já começam a perceber que essas políticas podem atrair mão de obra. Isso significa que todos os trabalhadores informais vão ser beneficiados? Não. Isso significa que existe uma possibilidade de que as condições de trabalho informal melhorem. Mas para lidar com a informalidade, a gente também precisa de outras medidas e de outras políticas de mais longo prazo, de políticas mais estruturais, né? Esse não é um problema tão simples e nem recente do mercado de trabalho brasileiro. Agora, por um outro lado, com o trabalhador formal, trabalhando menos horas ali, isso não pode aumentar também a informalidade para que esse trabalhador ali complemente a renda de alguma forma? enquanto a legislação prevê uma redução com manutenção do salário, não. É por isso que é importante eh considerar também esse ponto na legislação. Eh, existem propostas, por exemplo, de que o trabalho passe a ser remunerado por hora, que é uma prática comum, por exemplo, nos Estados Unidos, em alguns outros países. Quando a gente remunera por hora, aí a gente abre um pouco mais o precedente para que as pessoas comecem a pegar jornadas paralelas, porque a redução nas horas vai acarretar em uma redução no eh no salário. Mas quando a gente pensa na redução sem alteração do salário, é também uma política um pouco para garantir que essas horas possam ser revertidas em outras situações e não que a gente troque seis por meia dúzia, né? Isso inclusive para novos postos de emprego que serão gerados após uma possível redução. Clara, exatamente. Quando a gente pensa eh no, por exemplo, no salário mínimo, eh não é possível que novos empregos, que sejam em escala 4x3 eventualmente ou que sejam 40 horas, tudo vai depender do que vai ser negociado na Câmara, eh contratem abaixo desse valor. Então o valor que vai ser eh que vai ser cobrado, não, né? que vai ser oferecido para os postos de trabalho, ele vai est condizente com o que já é oferecido pros postos anteriores. É a lei da concorrência, né? Eh, eu não posso ter trabalhos parecidos, de mesma jornada e mesma qualificação com salários tão diferentes. A gente tem uma tendência aí que haja uma concentração eh em mais ou menos condições executativas. É isso que acontece, por exemplo, com salário mínimo, né? a gente sempre vai, a gente olha a distribuição salarial, a gente tem uma concentração grande no salário mínimo, justamente por causa da da qualidade de oferta dos empregos. Bom, e a última redução que a gente teve de jornada, né, Clara, foi em 88, uma mudança na Constituição de 48 para 44 horas. O que aconteceu naquela época pode ajudar a entender esse debate atual também? Com certeza. Quando a gente pensa no que foi o movimento da Constituição de 88, ele representa, por exemplo, um protagonismo grande dos trabalhadores, que também tá acontecendo hoje quando a gente pensa na eh no que foi, no que tem sido esse movimento que acontece hoje por meios digitais, pedindo a redução da jornada de trabalho. Igualmente, naquele momento, a economia brasileira passou por transformações estruturais que aumentaram a produtividade, que trouxeram mais competitividade. A gente fala nesse momento da adoção de modelos, que a gente chama de tayoristas, de eh organização do trabalho. E a redução da jornada de trabalho veio justamente para eh se adequar a novos modelos que estavam surgindo e preservar a autonomia e garantir eh as reivindicações dos trabalhadores. Eh, é curioso, né, pensar que em 88 a gente teve uma mudança e de lá para cá tanta coisa aconteceu e a produtividade e a forma como a gente trabalha mudou tanto, né? Eu tenho certeza que se a gente pensar no que era a mesma experiência de ir numa rede de fast food em 1988 e o que é ir numa rede de fast food pedir comida hoje e olha que eu tô falando de um trabalho que tradicionalmente é visto como um pouco produtivo, a gente tem mudanças muito significativas, né? O mundo do trabalho evoluiu tanto de lá para cá, a gente tem tão mais tecnologia sendo aplicada, os meios de comunicação avançaram tanto, hoje a gente tem praticamente em todos os serviços algum tipo de digitalização que aumenta a produtividade que parece não fazer sentido não acompanhar isso de outra redução na jornada, né? Bom, historicamente, você até citou também anteriormente, a gente teve resistência ao 13º salário, salário mínimo, essas novidades na época, né? A reação agora, você acredita que ela é semelhante ou o cenário é diferente hoje? Eu entendo a reação como semelhante, principalmente quando a gente pensa no na incerteza que algumas mudanças econômicas podem gerar. Que eu quero dizer com isso? é uma novidade. Novidades causam receio. É importante, e eu acredito que o papel de nós economistas, eh, afinal dedicamos a nossa vida a estudar essas mudanças está um pouco aí de tranquilizar as pessoas e apontar que, olha, isso já aconteceu antes e como eu falei, o Brasil não parou de crescer, né? Hoje é um absurdo pensar num trabalhador que não tenha 13º ou que não tenha 30 dias de férias, né? Se alguém propõe tirar essas coisas da legislação trabalhista, isso é visto como um absurdo, justamente porque no momento em que essas mudanças são propostas, isso gera uma reação eh um pouco assustada, mas a partir do quando a gente vai conduzindo estudos, quando a gente começa a refletir sobre o estado da produtividade, sobre como a economia se comporta, fica muito claro que é possível fazer essas coisas sem ter grandes prejuízos econômicos e sobretudo é possível fazer essas coisas aumentando o bem-estar da vida dos trabalhadores, né? Agora falando do que pode mudar na prática, a PEC que está em discussão no no Congresso, que é a 8 de25, prevê uma jornada de 4 dias e 36 horas semanais ao todo. Você acredita que esse é o melhor modelo para essa transição ou existe algum outro modelo mais viável para essa redução de jornada? Eu acho que o modelo que vai ser colocado paraa redução da jornada depende fundamentalmente do que a sociedade brasileira acordar no nosso processo democrático de de votação e de negociação nessa PEC na Câmara, né? Eu acredito muito na importância da representação política nesse sentido e de que as pessoas a partir dos seus representantes eh no executivo, no legislativo, nesse caso no no legislativo, eh consigam colocar sua opinião, que a consulta pública seja realizada, que as pessoas possam opinar diante da sua realidade. Nós economistas, a gente faz as contas e se adequa ao que a sociedade pensar que é melhor. Mas no limite quem define se a melhor escala é de 36 ou de 40 horas é justamente esse acordo social entre trabalhadores, empregadores, entre a sociedade como um todo. Bom, pra gente finalizar, se essa mudança, essa proposta ela for aprovada hoje, como você acredita que é a melhor forma paraa implantação dela, né, para ser implementada sem um uma mudança tão brusca pro mercado, sem impactos na economia que sejam negativos? Existiria uma forma de implementação ideal hoje? Eu não sei se eu consigo te responder uma forma ideal pronta e concebida, mas eu acho que existem alguns apontamentos que a gente pode fazer nessa direção. Por exemplo, a existência de políticas acessórias que vão ajudar nessa transição. Por exemplo, incentivos a pequenas e médias empresas que façam contratações em vez de eh paralisarem os serviços. é uma política acessória que pode ajudar uma transição. Analogamente ao que foi feito com a redução da jornada anteriormente e as mudanças no salário mínimo, eu também não acho que exista uma necessidade de uma transição tão longa. Eh, por exemplo, uma das PECs fala em 10 anos, né, em uma transição aí de uma década. Não acho que seja o caso de pensar em modelos tão longos. Afinal, as pessoas precisam de ter qualidade de vida hoje e não daqui tanto tempo, né? Mas existem mecanismos que podem ser adotados para que essa essa mudança, mesmo que seja repentina, não seja brusca. Eu quero dizer com isso, incentivos à contratação são eh medidas importantes. Atenção na regulamentação trabalhista é uma medida importante, campanhas eh e conversas com não só com os trabalhadores, mas com o empresariado, com a Confederação Nacional da Indústria, por exemplo, com todos esses agentes que manifestam suas preocupações hoje. são medidas de extrema importância para que essa mudança tão eh discutida na sociedade possa ser implementada de maneira justa e socialmente equilibrada, né? Clara Saliba conosco, ela que é economista da Unicamp, trazendo o ponto de vista dela a respeito dessa mudança. Muito obrigada, viu, Clara, pela sua participação aqui com a gente, pelas explicações também. Muito obrigada pelo convite. Muito obrigada. Tá bom? Eu me despeço também de você que nos acompanha pela TV Câmara. Semana que vem que vem voltamos com mais um ponto de vista e eu espero você. Até lá. [música] [música] [música]
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