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Você aí em casa, já ouviu aquela frase que diz: "O cinema brasileiro faz sempre os mesmos filmes"? Esse é um senso comum que circula há anos entre o público e até entre críticos. Mas será que isso é verdade? Ou será que a gente a gente conhece pouco ainda sobre como esses filmes são pensados e também escritos? No programa de hoje, vamos falar sobre os bastidores da criação no cinema nacional com foco nos roteiros. E quem conversa com a gente hoje é a especialista em roteiros de ficção audiovisual Natasha Romanzote. Ela que pesquisou justamente a evolução dos roteiros brasileiros ao longo das décadas. A Natasha é graduada em comunicação social pela Universidade Federal do Paraná, especialista em roteiro de ficção audiovisual pelo Senac de São Paulo e também mestre em multimeios pela Unicamp. Ela concluiu também o doutorado pela Unicamp, onde pesquisou a história e a cultura do roteiro no cinema brasileiro. Natasha, bem-vinda. Muito obrigada por aceitar o nosso convite. Obrigada. Eu que agradeço, tá? Ela é um prazer estar aqui. Bom, Natasha, pra gente iniciar, de onde você acha que vem essa ideia, né, de que o cinema brasileiro faz sempre os mesmos filmes? Isso é verdade mesmo? Bom, eh, vou começar dizendo que não, não é verdade. A gente não produz sempre os mesmos filmes, mas acredito que existe sim eh uma sensação do do público brasileiro de que os mesmos filmes, eh, de que filme brasileiro tem sempre a mesma cara, é sempre sobre uma a mesma temática. E acredito que esse senso comum, ele vem aí de dois fatores diferentes. O primeiro é que, embora muitos filmes sejam produzidos no Brasil, poucos são de fato assistidos. A gente pode falar disso melhor, né? Mas acredito que eh a média de filmes assistidos é muito baixa em comparação a de filmes produzidos. Então, quando você tem uma amostra bem reduzida de filmes, você pensa que, né, só existem filmes sobre essa temática, porque você tá pensando naquele filme mais conhecido, dois, três filmes que fizeram sucesso, que tinham temática similar, sendo que a produção é muito mais variada do que isso. E o segundo fator é, existe de fato eh eh temáticas que são mais abordadas no cinema brasileiro, mas não é porque só existem filmes feitos sobre esse assunto. Eh, um fator é o mercado, né? Então, quando um filme é feito sobre um assunto que agrada, outros filmes são feitos com a mesma temática. E um de um outro lado, mesmo quando o filme é diferente, tem gênero diferente, tem uma narrativa com temática diferente, tem uma um estilo cinematográfico diferente, né, uma uma direção de fotografia diferente, uma missan diferente, ou seja, filmes completamente diferentes entre si. Eles ainda podem ter uma carinha de filme brasileiro devido a algumas características que são aí comuns eh no que diz respeito à criação de roteiros no nosso cinema, né? Então, a gente tem aí algumas características que acabam sendo marcantes na cinematografia brasileira, que podem dar a impressão de que esses filmes têm algo em comum, mesmo quando eles não tratam da mesma temática ou são eh formalmente muito diferentes entre si. E aí, quais são esses pontos em comum? Você disse que nem sempre é temática, né, mas quais a gente pode ressaltar que dão essa impressão ao público de que os filmes são muito parecidos. Tá, vamos lá. Eh, sim, a temática e, por exemplo, acho que é muito comum que as pessoas falem que, ah, só tem filme de favela ou e recentemente com sucesso de dois filmes em específico sobre a ditadura. Ah, o Brasil só faço filme sobre a ditadura. O que eu acho que eh eh essa temática influencia nessa percepção de que filme brasileiro é tudo igual, é porque é muito comum que filmes brasileiros tratem de assuntos tipicamente brasileiros. Eh, a gente, a nossa cinematografia exibe um desejo de mostrar eh traços culturais, cenários tipicamente brasileiros. Isso é de interesse tanto da arte audiovisual quanto do mercado, né? O mercado ele quer fazer um produto brasileiro para atingir o público brasileiro. E o cinema nada mais é também do que um produto mercadológico, né? os filmes, no caso. Então, eh, filmes sobre favela são de fato comuns, porque a favela é um cenário tipicamente brasileiro. A favela, como ela existe aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, ela só existe aqui. Ela é um fenômeno cultural nosso. O sertão nordestino é um cenário comum, muito comum e recorrente no cinema brasileiro, por ser também um uma por ter características sociais, culturais muito típicas da nossa região. É quando a gente trata de ambientes, grandes centros urbanos, né, filmes que se passam em São Paulo, outros centros urbanos, eles também acabam muitas vezes abordando problemas sociais, culturais recorrentes da nossa cultura. E isso sim é muito presente em filmes brasileiros, mesmo quando você não percebe neles uma intenção de discutir Brasil, né? Então, no caso da ditadura, a ditadura foi um fenômeno, né, sóolítico que aconteceu no nosso país. Então, é uma temática brasileira, mas mesmo se você não tem o desejo de falar sobre um problema social, uma questão política, você acaba usando personagens tipicamente brasileiros. Então, as nossas comédias retratam tipos brasileiros, o caipira, né, muito comum desde a época do Mazarope, as chanchadas e mesmo eh filmes brasileiros mais contemporâneos, né, as comédias que já tem ali um Star System, produzidas por Globo Filmes e produtoras similares. Você poderia até pensar, né? Esses filmes, eles não são necessariamente eh brasileiros no sentido de que essa história poderia se passar em qualquer lugar do mundo, mas se você for ver ali as questões, clichês, os personagens, as piadas, elas estão muito circunscritas em situações tipicamente brasileiras, em cenários tipicamente brasileiros muito incrustrados na nossa cultura, diferente de filmes, por exemplo, Hollywoodanos, que obedecem aí uma lógica mercadológica diferente, reproduzem fórmulas narrativas eh pretensamente universais aí que que tem menos essa carinha assim. você pode até reconhecer um filme hollywoodano por características que são próprias dessa desse tipo de narrativa, mas quando você vê um filme brasileiro, ele tem essa cara brasileira eh que vem da temática dos personagens e dos ambientes, que não necessariamente tem que ser favela, ditadura. E tem também questões formais, né? Então, uma coisa que também é muito comum no cinema brasileiro e não tão comum, por exemplo, em filmes holidianos, são os finais abertos, né? Então, a gente tem filmes enquanto ali um filme Rolle Diano, um filme de superherói, né, uma comédia romântica, tem ali claramente um começo, um meio, um fim, um desfecho claro que geralmente é um final feliz, mas que não necessariamente é um final feliz, mas tem ali um desfecho, uma consequência, que é o que é chamado normalmente de jornada do herói dentro do cinema, né? É, pode ser a jornada do herói tem ali, acontece alguma coisa, um conflito, né? E aí tudo caminha para um desfecho em que algo acontece e e a gente sente ali que houve uma moral, um final para aquela história. É muito comum no cinema brasileiro que os filmes eh tenham finais totalmente abertos, optem por não criar nenhum desfecho mesmo pra história. Então você tá seguindo ali um evento e ele acaba, né, e você não sabe o que aconteceu com o personagem depois daquilo. Você não sente que teve um ponto final. muitas coisas eh poderão continuar acontecendo depois que subiu a palavra fim, né? É, e às vezes também mesmo que tenha um desfecho, você pode sentir que ele não é tão claro, né? a gente opta muito por deixar as coisas em aberto, aberto à interpretação mesmo do espectador. Para quem não tá tão acostumado, o espectador médio que às vezes não vê muitos times com essa estrutura narrativa, pode parecer que, ah, que chato, não tem final, não entendi nada, né? São frases também comuns eh sobre filmes brasileiros. E aí é comum também ouvir nesse contexto que ah, o roteiro do filme é muito fraco, né? Quando as pessoas falam isso, o que que você acha que elas querem dizer? Na verdade, essa falta então de um hábito de filmes com outra jornada, diferente das produções de Hollywood? É mais ou menos isso na sua opinião? Olha, pode ser. Acredito que sim. Tem uma influência. A gente consome muito produto audiovisual eh norte-americano, estadunidense, né? Então a gente fica habituado ali com arco narrativo, com uma determinada apresentação de personagem, de conflito, com ter um desfecho. E isso cria sim uma expectativa no espectador, que daí ela é quebrada e ele pode achar que a história é ruim por isso, que o roteiro é ruim por isso. Mas esse é um mito muito antigo e até predominante na nossa indústria, no nosso mercado eh audiovisual, de que o os roteiros dos filmes brasileiros são fracos, são ruins. E acho que isso numa análise mais detalhada não se prova a verdade, né? Por quase 10 anos eu venho estudando, analisando roteiros. Eles são muito bem escritos, eles têm estrutura, eles estão num formato que é o esperado numa indústria cinematográfica. Então, não é um roteiro que tem uma qualidade inferior a um roteiro de um filme rol de ano em comparação, mas sim, a gente tem ah problemas no mercado nacional que é a falta de uma de uma indústria forte, né? Então, a gente não tem aqui uma indústria cinematográfica bem estabelecida, filmes sendo produzidos, exibidos, assistidos, que dão lucro, né? Isso é muito importante pro desenvolvimento dos profissionais que estão atuando nesse mercado, né? É muito comum que os roteiristas não sejam eh profissionais dedicados à arte de roteirizar. Eles são geralmente profissionais que atuam em várias frentes. Eles não escrevem só para cinema, eles também geralmente escrevem para outros meios, para outros produtos audiovisuais. Eles são professores, eles têm outras profissões que às vezes não tem nada a ver com o roteiro ou com escrita. Então essa falta de profissionalização por falta de mercado, às vezes produz sim eh problemas de roteiro, mas acho que é mais mito do que verdade. Eu acho que se deve mais à não familiaridade do público com eh formatos narrativos. eh estruturas narrativas que são mais comuns no cinema brasileiro, embora tenham cinco questões pontuais que são bastante debatidas mesmo no meio cinematográfico, né? Então, diálogo, diálogo é uma coisa difícil, né? Então, escrever diálogo é uma uma arte eh difícil de se dominar para aquilo ficar natural e ao mesmo tempo você não pode gastar muito tempo com isso num filme. Então, a qualidade dos diálogos pode ser que seja um problema. A gente não tem aqui eh pessoas especializadas em funções específicas do roteiro no mercado brasileiro. Então isso pode gerar aí algumas questões, mas no geral os roteiros brasileiros têm muita qualidade, sim. Pois, a gente tá em um país que as novelas ainda são muito fortes, né, Nata, embora a gente tenha visto também uma mudança aí do público em relação ao consumo, né, desse conteúdo na TV com rede social, internet e tudo mais, mas dá para dizer que o cinema brasileiro ele tem ainda ou teve uma influência muito forte também das novelas que são Paixão Nacional ainda? Sim, com certeza. Esse é um dado difícil de corroborar com pesquisa acadêmica, porque a gente não tem acesso a roteiro de de telenovela, geralmente, né? É um é um produto que tá ali protegido por direitos autorais das emissoras. Mas quando a gente estuda roteiro de cinema, a gente percebe sim várias influências desse eh dessa paixão nacional que é a telenovela. O público brasileiro, ele ele é muito habituado a assistir telenovela. Então, tem várias conexões que a gente pode fazer. Um, eh, os roteiristas que trabalham em cinema, muitas vezes também trabalham em rádio, em TV e escrevem rádiovelas, telenovelas. É isso ao longo da história, né? Hoje em dia a gente não tem mais rádio de novela, mas esse seria o o paralelo ao longo da nossa história. São profissionais que atuaram escrevendo novelas além de escrever filmes. Então, obviamente que o mesmo profissional tá ali escrevendo esses dois produtos, ele acaba usando técnicas similares às vezes. E também quando a gente pensa em conquistar o público, a gente pode usar também recursos narrativos que vem desses produtos que a gente não é só uma questão de, ah, o brasileiro gosta, eu vou escrever porque brasileiro gosta, mas quem escreve também consumiu esses produtos, então é uma influência que se retroalimenta, né? Ã, por exemplo, características de telenovelas que são muito comuns em filmes brasileiros são tramas paralelas, né? Então, geralmente filmes mais com narrativas dramático clássicas, mais hollywoodianas, não tem esse excesso de tramas, de coisas acontecendo ao mesmo tempo que é muito comum em filme brasileiro e que é muito comum em telenovela, que tem vários núcleos narrativos com pequenas histórias se entrelaçando. Uma quantidade grande de personagens que vem também eh, né, tá conectado com com essa questão da trama. Eu falei do diálogo, filme brasileiro é muito falado e acho que isso também faz as pessoas às vezes acharem que o roteiro é fraco, porque no mercado audiovisual você evita resolver problemas narrativos com a fala. É preferível mostrar do que falar, porque você tá ali trabalhando com a imagem. Sim. Mas filmes brasileiros costumam ter bastante diálogo, costumam ter bastante ação acontecendo através da fala, né? né? Então, ao invés de ser uma bomba, um filme de superherói, um evento assim, tem bastante coisa acontecendo através dos diálogos dos personagens. Tem muita ação sendo revelada através da fala, o que é uma característica forte da telenovela, que é bastante recorrente também em em roteiros de filmes brasileiros. E o próprio final eh é aberto, enquanto a novela opta por ter sempre um desfecho e geralmente ali um final feliz, muitas vezes fica fios soltos também por causa dessa desse monte de trama. Isso acontece bastante também no no cinema brasileiro e um pouco vem da telenovela, mas isso é muito mais marcado no cinema do que na novela. E aí eu já tenho, né, uma hipótese de que é devido a outros motivos, né? Então, como são filmes que querem tratar de Brasil, de sociedade brasileira, de cultura brasileira, de coisas tipicamente brasileiras, é difícil você dar um desfecho para isso sem parecer que você tá colocando ali uma solução para o próprio país, né? São finais que propõem muito mais uma reflexão, né? Exatamente. Então, você tá tratando de questões muito amplas da sociedade e parece que você propor um desfecho ali vai ser simplista demais demais. você vai preferir eh deixar aquilo aberto a interpretação para que cada um tente imaginar o que que seria o melhor desfecho para isso. Bom, e falando da questão do roteiro, você tem a sua tese, sua pesquisa sobre isso, né, Natasha? Você fala na tese de três formas de entender o roteiro aí dos filmes nacionais. Você pode explicar isso pra gente de forma mais simples pros legos? Bom, vamos lá. Eh, existe eh você olhar pro roteiro como uma história mesmo, uma narrativa, que acho que é o que é o que o público médio faz, né? Ah, o roteiro desse filme. Quando as pessoas falam isso, geralmente elas querem dizer que a história do filme, o enredo do filme é X Y Z, né? Então essa é a parte narrativa. Mas o roteiro ele também é um documento, né? Então, eh, para você ir lá, eh, gravar as cenas, editar, montar e exibir, você partiu de um documento, de um, geralmente um papel, né, um documento escrito, em que você fez ali anotações sobre as cenas, sobre as locações, sobre os personagens. E quando você olha pro roteiro como documento, ele é muito mais do que a história, né? Ele é de fato um documento eh histórico com valor social. político, estético. Então ali você já vê eh questões, aspectos técnicos da filmagem. Você consegue estimar quanto um filme vai custar a partir do roteiro. Você vai ter noção do que o escritor, o roteirista, o diretor, os atores vão fazer quanto a técnica do filme, né? Como é que vai ser essa fotografia, essa estética, esse estilo, essa misancene. Você tira e você também tem marcas do tempo em que ele foi escrito, né? Então, cada época do cinema brasileiro trabalhava com algumas variações de formato nesse documento que também nos dizem sobre quando ele foi produzido. Então, é um documento muito complexo. E também tem uma outra forma de olhar pro roteiro que é como discurso, como prática, né? Então, a gente tem ali um profissionais por trás, né? Roteiristas. Então, o roteiro também é a arte de de roteirizar, é uma função, é uma profissão e é um discurso que você tá projetando ali, né, todo eh os filmes eles não existem como entidades separadas, né, eles são feitos por pessoas. Então, essas pessoas elas têm algo a dizer e tem tanto quanto como arte. Então, eh, esse é o meu estilo, eu vou colocar isso no meu roteiro. O roteiro para mim tem que ser assim. E tem o lado também mercadológico, o lado de eu quero vender esse roteiro, então eu vou fazer roteiros dessa forma. Tem muitos discursos eh envolvendo essa prática. Então, quando a gente estuda um um roteiro, a gente tá estudando tudo isso e é por isso que a gente pode ter eh visões bastante complexas do cinema brasileiro que vão muito além, né, desses filmes mais assistidos e da temática que eles eh retratam. Mãe, você analisou filmes aí de várias épocas, né? Épocas diferentes. Que que mudou na forma de escrever esses roteiros ao longo do tempo? Tem alguma característica que atravessa ainda todas essas décadas quando a gente fala do cinema nacional? Acredito que sim. Então, estruturalmente falando, acredito que essa predileção por finais abertos é marcante. É, nem todo filme brasileiro, claro, é tem final aberto, alguns tm desfechos, desfechos muito claros, mas é uma predileção e tá, acho, bastante conectada com esse esse desejo de tratar de questões brasileiras, de cenários brasileiros, de tratar da nossa cultura e de não simplificar resoluções para esses temas. Então, isso com certeza atravessa décadas. A gente tem também eh eh uma questão de diretores que são nomes muito fortes, né? Então é difícil ter roteiristas escrevendo exclusivamente para cinema e é muito comum que os diretores escrevam seus próprios filmes no cinema brasileiro. Isso não é comum em Hollywood, em em outros mercados pode ser menos comum. No Brasil é muito comum que o roteirista também seja diretor do seu filme. Então essa fusão entre essas duas instâncias do roteiro e da direção, ela deixa marcas claras nos filmes brasileiros. Eles são muitas vezes fortemente autorais porque eles estão centrados nessa figura e na ideia que ela tem pro filme, diferente de um filme Hollywoodano e outros filmes que temos características autorais nesse sentido, porque não tem essa concentração eh de profissionais na mesma função. Isso também atravessa décadas do cinema brasileiro até os dias de hoje. Bom, dá para dizer que o Brasil ele não tem uma tradição forte para formar roteiristas que trabalhem de forma exclusiva pro cinema. Isso é uma fraqueza ou pode ser uma qualidade, né? Quando a gente compara com Hollywood, como você disse, né, que tem ali uma função clara para cada um por outro lado. Se a gente não tem um profissional exclusivo para isso, a gente não tem um resultado mais criativo, né, envolvendo vários artistas também, é ótima colocação. Acredito que eh é uma faca de dois gumes, então ele pode ser uma fraqueza, pode ser um ponto forte, né? Então é é exatamente como você colocou. Em alguns momentos pode ser uma fraqueza, porque eh são orçamentos limitados, são pessoas desempenham a mesma função, então você perde ali em termas profissionais envolvidos, qualificados, direcionados para isso. Mas eh isso estimula sim a criatividade, o improviso, eh a uma solução criativa que traz inovação, né? Então, a gente tá falando de uma variedade de filmes com soluções criativas, com uma cara muito diversificada. E a chance desses filmes ganharem destaque é boa, né? Porque justamente nós não estamos sempre produzindo os mesmos filmes, pelo contrário, a gente tá sempre abrindo o leque, criando eh histórias diversificadas, usando formatos diversificados e usando soluções diversificadas. Então isso promove sim uma diversificação dos filmes e e mais coisas interessantes podem surgir disso, uma vez que você não tá ali sempre reproduzindo a mesma fórmula. Mas é importante frisar que tudo vai sempre retornar pro fato de que filmes brasileiros são pouco assistidos. Então, esse filme, esse cinema brasileiro que eu tô falando para você aqui agora, é um cinema brasileiro pouquíssimo visto. Então, a gente tem aí centenas de filmes brasileiros sendo produzidos todo ano e pouquíssimos sendo assistidos. Como exemplo, no no ano passado, em 2025, mais de 200 filmes brasileiros foram lançados, mas mais da metade deles, cerca de 55%, teve menos de 1000 espectadores. Então nós estamos falando de um país gigante, continental, com milhões de habitantes e filmes que foram vistos por menos de 1000 pessoas, que é quase ninguém. E por que que isso acontece ainda, Natasha? falta de publicidade, de orçamento de publicidade para esses filmes, falta de acesso por parte da população. Eu acredito que é um problema sim de distribuição e exibição, que é um problema de orçamento, eh porque o cinema é uma arte muito muito cara e a gente tem incentivo para produção. Então, às vezes tem filmes sendo feitos muito baratos, porque hoje você pode fazer com o seu celular, tem filmes que nem são tão baratos assim, mas que eh receberam algum incentivo pra produção, incentivo governamental de editais ou de financiadores, outros. Mas na hora de ter eh aporte financeiro para fazer propaganda desses filmes, para fazer eles chegarem em circuitos exibidores, para fazer com que eles se mantenham em exibição, para que eles sejam distribuídos igualmente em salas, igual filmes que que tem uma distribuição muito melhor e você não vai chegar nem perto de filmes da Marvel, etc., né? Então, esses times brasileiros, eles sofrem para chegar nos cinemas, eles sofrem para ficar nos cinemas, alguns ficam em cartaz uma semana, o que não é nada, e depois eles eles vão ficando sem vida, né? Então, eh, o orçamento para você divulgar esses filmes, distribuir e exibir, deveria ser muito maior se a gente quiser que esses filmes sejam realmente vistos. filmes eh que recentemente tiveram muito sucesso e chegaram a ser indicados ao Oscar e estiveram em festivais, como Ainda Estou aqui, eh, o Agente Secreto, filmes premiados, são filmes que tiveram um orçamento publicitário considerável e mais do que isso, que tiveram pessoas trabalhando por trás que fizeram esses filmes terem uma campanha excelente. A gente fala mesmo de campanha pro Oscar, né? Então, a Fernanda Torres, o Wagner estiveram em programas de TV americanos. Eh, saber como fazer essa propaganda, saber tanto em território nacional quanto internacional e ter o orçamento para isso é fundamental para que esses filmes sejam mais vistos, porque aqui a gente não tem a cultura e o costume de ver filme brasileiro para começar, né? Então, se esse filme nem chega no cinema ou se chega fica uma semana, as pessoas elas vão ver outros filmes, provavelmente. E claro, eh tem talvez também um um problema aí de o cinema ter se tornado mais caro, né? Então, hoje em dia o ingresso de cinema também acaba sendo menos acessível do que era alguns anos atrás, mas esse é um problema que sempre existiu. E hoje também a gente tem os streamings como Netflix, então tem filmes brasileiros que são lançados eh exclusivamente em streaming ou diretamente no streaming ou simultaneamente em streaming e daí já tem um público muito maior que tem acesso a eles. Então não é só um problema, né, do espectador médio pagar para ver. Eu acho que é falta de costume desse espectador médio, falta de contato com esses filmes e sim falta de incentivo para comercialização e exibição desses filmes. Bom, falando dos exemplos que você citou, né, Natasha, ainda estou aqui em 2025, nesse ano Agente Secreto, filmes aí com grande repercussão, com grande público também nos cinemas e que são dois filmes que falam sobre ditadura, mas com narrativas bem diferentes, estilos bem diferentes, os dois com grande sucesso. Por sua opinião, além claro, da questão de publicidade, como você já disse, né, e isso também mostra que há ainda muita força nos roteiros nacionais? Eu acho que, como eu falei, eh isso mostra pontos fortes e fracos ao mesmo tempo. O ponto forte, esses filmes são filmes fora da curva, como eu falei, porque a maioria do dos filmes brasileiros foi vista por pouquíssima gente. Então, ai, olha, o Cinema Nacional tá com tudo. Mais ou menos, porque centenas de filmes foram produzidos e daí menos de 10 são vistos por mais de, então, vamos supor, eh, voltando naquele exemplo, né, de do ano de 2025, mais de 200 filmes foram lançados, mas somente sete ficaram com mais de 70% dos ingressos vendidos. Então, se você foi ver filme brasileiro em 2025, as chances são de que você foi ver um desses sete e os outros cento e tantos ninguém viu, né? Ninguém viu não, mas pouquíssimas pessoas viram. Então, eh, será que esses dois filmes mostram a força do cinema nacional? Sim. E não. Sim, porque eles mostram que a gente sabe fazer filmes e filmes bons. Esses filmes são filmes que têm qualidade técnica, são de diretores renomados. tem equipe técnica maravilhosa, atores maravilhosos, diretores produtores, gente maravilhosa trabalhando neles e também tiveram esse respaldo eh publicitário, sim, e orçamentário para chegar onde chegaram. Então, eles são um exemplo da força do cinema nacional. Mas quantos mais desses filmes podem estar entre esses 200, né? Então, a gente tem eh também um problema aí quando a gente pensa eh que só esses esses dois ali ganharam os holofotes, né? Mas eh eu acho que o que explica o sucesso deles é essa qualidade e que ela é a mesma qualidade de outros filmes brasileiros. Então, a gente tem mais joias ali a serem exploradas e outros fatores também além do do da qualidade e da publicidade, acho que a atualidade deles também, né? Então você fica na cabeça, a Brasil só faz filme de ditadura por causa desses dois, mas não é porque eles estão nesse contexto muito atual desse tema que tá sendo discutido pela sociedade brasileira nos anos recentes. E isso é muito comum eh em todas as artes e em todos os países, né? Então, o filme que ganhou de melhor filme do Oscar, com quem o agente secreto estava concorrendo uma batalha após a outra, também é um filme que trata de questões atuais da sociedade americana, como imigração, racismo, temas que estão em voga na sociedade de lá. Então, isso é comum, isso chama atenção, é uma escolha mercadológica também de tratar de temas atuais. Então, isso acontece eh com frequência em todas as artes, incluindo o cinema. Acho que esses três fatores explicam o sucesso desses filmes, mas se eu tivesse que dar um peso maior, provavelmente seria, né, eh, pro orçamento, pro pro orçamento no quesito, pra publicidade mesmo, pr pra força que esses filmes tiveram para serem exibidos mais amplamente, chegarem a mais pessoas e e que é fundamental, né, se você quer que as pessoas gostem, assistam e valorizem, você precisa que elas vejam antes de mais nada. Ou seja, dá para dizer que o mercado também tá tendo esse olhar pro cinema de mais investimento, né, e representando mais problemas reais do Brasil, como você juiz, questões, né? Não, eu acho que isso sempre aconteceu, né? Eu acho que os filmes brasileiros sempre retrataram questões da sociedade brasileira e é por isso também que eles ficam com essa cara de filme brasileiro, né? Que às vezes as pessoas ficam na impressão de que é é sempre o mesmo filme, não é? A gente tem filmes sobre assuntos variados, mais uma vez trazendo o exemplo dos filmes mais assistidos. Vou trazer aqui só os lançados em 2025, que ainda estou aqui é de 2024. Mas se a gente pegar os sete filmes mais mais vistos de 2025, que foram lançados em 2025, que foram os filmes que tiveram mais de 70% do público brasileiro, a gente vai ter um filme sobre ditadura, a gente vai ter Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa, que é um filme infantil. A gente vai ter Homem com H, que é um filme sobre a história do do Nei Mato Grosso. A gente vai ter eh Fé para o impossível, que é um drama eh que tem bastante religião, que fala sobre uma corrente de orações para uma pastora que que sofreu um ataque. A gente tem o último azul, que é uma distopia. Se passa num Brasil distópico, onde os idosos são exilados. A gente tem Vitória, que é um filme estrelado pela Fernanda Montenegro, que é uma idosa aqui da janela da do apartamento dela em Copacabana, eh fica registrando a ação de traficantes, policiais corruptos e passa essa informação pra polícia. A gente tem acho que Perring Fashion, se não me engano, tá nessa, tá nesse top set que é uma comédia com a Ingrid de Guimarães. Então, assim, filme infantil, drama, comédia, filme sobre ditadura, filme sobre tráfico. Então, assim, aí eu tô falando de filmes muito diferentes entre si, eh, que foram os mais vistos. Então, nem sequer eles são todos sobre a mesma temática, que seria a ditadura, mas todos eh são de situações tipicamente brasileiras, porque essa essa eh três desses que eu citei, que é o Vitória, o o Fé para o impossível e o o agente secretos, eh o agente secreto não, o homem com H são baseados em histórias verídicas que aconteceram no Brasil. Então aí o agente secreto é sobre a ditadura brasileira. Então você vai tendo, Chico Bento é um personagem super brasileiro de um gibi, um caipira. Então a gente tá falando ali de filmes que talvez sejam unidos por essa característica de mostrar a nossa cultura, os nossos cenários, mas que são super diferentes entre si. Ou seja, Natasha, pra gente encerrar, dizer que os filmes brasileiros são todos iguais, na verdade é um olhar bem limitado sobre toda essa produção. Com certeza. Seus filmes brasileiros são muito diferentes na forma, na narrativa, tem muito sucesso em em todos esses gêneros e acho que falta eles serem mais assistidos e falta aí um incentivo maior paraa exibição e comercialização desses filmes. Natasha, muito obrigada, viu, por falar conosco, trazer aqui o seu ponto de vista pra gente. Obrigada também por aceitar o nosso convite. Eu que agradeço, Taela. Foi um prazer estar aqui, dividir essa essa esse conhecimento sobre um assunto que eu gosto tanto com vocês. Muito obrigada e já agradeço também a você que nos acompanha aqui pela TV Câmara. Muito obrigada pela sua companhia em mais um ponto de vista. A gente se encontra na semana que vem. Até lá. เฮ