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[música] Em todo o país, 99 cursos de medicina não alcançaram a pontuação satisfatória na primeira edição do ENamed, que é o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica. Segundo dados divulgados pelos Ministérios da Educação e também da Saúde, as graduações são oferecidas por instituições federais e também privadas. Nesse exame, 60% dos estudantes concluintes no curso de medicina não conseguiram a proficiência mínima na prova. Isso representa 1/3 dos cursos de medicina regulados pelo MEC, que participaram do exame criado pelo governo Lula em abril do ano passado. Esse resultado do ENamédia acende vários alertas que vão muito além. da nota em si. Hoje aqui no Ponto de Vista vamos falar sobre os possíveis impactos na formação médica e também para instituições e estudantes, além ainda do sistema de saúde brasileiro. O nosso convidado de hoje é o médico Marco Aurélio Bussaini. Ele que é diretor de defesa profissional adjunto da CMCC, que é a Sociedade de Medicina e Cirurgia aqui de Campinas. Doutor, seja muito bem-vindo. Olá, muito obrigada pela sua presença aqui. Olá, Táa. É um prazer falar com você, com todos os espectadores. Bom, doutor, pra gente começar a entender essa questão, o que que esses números revelam hoje pra gente sobre a formação médica aqui no Brasil? Ah, interessante é que este exame é feito. O Ministério da Educação está preocupado em avaliar as escolas de medicina. Então ele é feito não especificamente para avaliar médicos, mas para entender o que que as escolas estão conseguindo levar a esses estudantes, esse pessoal que está terminando o seu curso, e saber se eles já estão com o conhecimento necessário para entrarem no mercado de trabalho e se colocarem em frente à população, atendendo de fato as pessoas que vão das quais eles vão ser responsáveis a partir daquele momento, né? né? E o que que esses números nos revelam? Eles mostram a qualidade das escolas, OK? O Enamed busca avaliar escolas, enquanto o conhecido revalida, que é um exame feito para avaliar profissionais formados em outros países que querem exercer a medicina aqui no Brasil. Eh, o Revalida, ele tem um objetivo diferente. Ele busca avaliar o profissional, se esse profissional tem competências necessárias para atender uma pessoa, para fazer um exame físico completo, para ter diagnósticos e saber pedir os exames e depois para dar a conduta, orientação correta pro paciente. Já o Enamed, ele está querendo saber se as escolas estão conseguindo transferir, colocar perante os alunos daquela escola os conceitos básicos, teóricos necessários para que um profissional possa depois com a sua o seu internato, que é aquela fase do estudo médico, aonde o aluno ele vai ter contato direto com o paciente. Então, geralmente durante a formação médica existe uma parte geralmente inicial que é mais teórica. Muitas, muitas escolas já buscam direcionar nessa fase os alunos para contatos com o paciente, mas existe o final do curso médico, aonde os alunos eles ficam em contato direto com os pacientes nos ambulatórios, nos hospitais, nos postos de saúde. Então, a formação médica ela é muito complexa. E no no Enamed, o objetivo é saber se aquele estudante recebeu conteúdo teórico e com isso avaliar se as escolas estão conseguindo cumprir a sua função. Agora, doutor, infelizmente, resultados negativos, né? 1/3 pelo menos desses alunos não conseguiram aí as notas mínimas, né? Como é que isso pode afetar inclusive o mercado de trabalho nos próximos anos? Isso pode trazer também algum problema até paraa segurança dos pacientes desses futuros médicos? Sim, sim. Taila, veja só, vamos voltar um pouquinho na história. Há 20 anos atrás, o Brasil tinha aproximadamente 145 escolas de medicina, né? Hoje estamos com 478 escolas e ainda há cerca de 200 escolas. pedindo a aprovação para terem a o seu curso de medicina. Então, se tudo isso acontecer, daqui a pouco nós estamos com perto de 600 escolas. E se nós olharmos um pouco no passado, nós tínhamos aí há 20 anos atrás cerca de um médico, 1.5 médicos para cada 1000 habitantes no Brasil. Hoje nós já estamos com 2.9 médicos. por habitante. Bom, mas isso é bom ou é ruim? Eh, o que se espera é que os países atinjam um patamar entre três e quatro médicos por cada 1000 habitantes. A Organização Mundial de Saúde também tem alguns indicadores, mas ela é mais ampla, ela tem uma visão mais abarcante, ela coloca profissionais de saúde para cada 1000 habitantes, porque o importante é que a gente tenha o time completo, o enfermeiro, fisioterapeuta, o psicólogo. Então são várias outras profissões que devem integrar esse time para atender e dar uma boa qualidade de atendimento para a população. No Brasil o número está quase chegando lá, né? Mas nós temos um outro problema que é a má distribuição desse contingente de médicos. Temos cidades como, por exemplo, Brasília que tem de sete a oito médicos para cada 1000 habitantes. E temos outras cidades que estão ali por volta de um médico para cada 1000 habitantes. Então, ah, o que as sociedades de medicina, que a classe médica está preocupada, é que tanto haja profissionais bem formados, quanto haja estímulo para que esses profissionais vão até os lugares que mais necessitam. E isso é uma política de saúde que eh deve buscar colocar os recursos necessários mesmo nos lugares mais longincos. Porque a grande dificuldade do médico que está em alguns locais é que ele não tem os recursos mínimos para os quais ele foi treinado. E isso é um ponto importante pra gente observar também. Agora, e o resultado do ENamed, que que esse resultado está dizendo? Isso. O Ministério da Educação está dizendo mais ou menos assim para as escolas: "Prestem atenção, porque vocês não estão conseguindo atingir o mínimo necessário para a formação de um profissional". Isto é muito importante, é um alerta antes que esse médico, antes que esse estudante de medicina chegue a se tornar médico e comece a trabalhar, mostrando que está havendo necessidade de uma revisão de currículum, de uma revisão dos métodos, de uma revisão de conteúdo para essas faculdades. Se tornou relativamente fácil, com a flexibilização das leis, abrir escolas de medicina. Mas agora nós queremos saber a qualidade delas. Então isso é que é muito importante. Um profissional que não recebe a conceituação teórica mínima, ele com certeza não vai poder dar a qualidade de atendimento que uma pessoa precisa. Então tem diagnósticos que são mais fáceis, mas existem diagnósticos que a pessoa precisa ter uma um um cuidado, uma atenção maior, um conhecimento maior para buscar e esclarecer aquele caso. E aí isso é um problema que vai acontecer logo mais na frente quando esses profissionais entrarem para o mercado de trabalho. Doutor, e falando das universidades, no caso, aquelas que não conseguiram, né, a pontuação mínima nesse exame, na sua opinião, quais medidas o MEC, por exemplo, poderia aplicar nesses cursos? Que que pode ser feito para reformular e melhorar esse aprendizado? Sim, o MEC já está tomando essas medidas. a, o próprio exame, né, já é um uma forma do MEX procurar equalizar, mostrar pro mercado, mostrar para as próprias faculdades que elas estão precisando melhorar, OK? E a própria classe médica também está preocupada com isto. Vamos voltar um pouquinho porque eu gosto de contar a história para que todos possamos entender o que que está acontecendo hoje, como é que as coisas chegaram a este ponto e o que a gente espera que aconteça daqui paraa frente. Até há alguns anos atrás, até há 10, 15 anos atrás, havia quase que uma vaga de residência médica para cada aluno que se formava numa faculdade de medicina. Nós sabemos que a medicina, a ciência médica, ela tem pego uma carona muito grande com o avanço da tecnologia e cada dia novas técnicas, novos medicamentos, novos procedimentos surgem. exames se multiplicam aos montes e é muito difícil para os profissionais ficarem correndo atrás dessa informação. Então o que que acontece? As faculdades continuamente estão revisando o seu conteúdo, o seu currículo, se atualizando, contando sempre com profissionais de ponta que também estão sempre muito a eh atualizados com relação às novidades que surgem. E quando o aluno termina a faculdade, ele conseguiu aquele entendimento básico para dali ele ele progredir para uma formação mais prática, mais objetiva, mais especializada. Então, cada aluno que se formava na medicina tinha uma oportunidade de fazer uma residência médica, aonde ele ia conquistar aquela segurança, aquela clareza para conduzir até os casos mais graves, né? Mas hoje não está acontecendo isso. Hoje, a, a medida que as vagas da faculdade de medicina se multiplicaram, as vagas de residência médica não acompanharam esse ritmo. Então o médico sai com a sua formação, mas para ele ter segurança, para ele se sentir apto para encarar os casos mais difíceis, ele precisa passar por um estágio prático na presença de profissionais já de bastante experiência para ele ter aquela mão, aquela forma adequada de conduzir o paciente e conduzir os seus diagnósticos. Então, a primeira coisa que a gente se preocupa é que o médico está se formando na faculdade, mas aquela especialização ele não está tendo, né? Hoje é a minoria dos médicos que estão conseguindo fazer uma residência médica. E isso é uma preocupação. Para você ter uma ideia, Tla, algumas especialidades elas exigem que aquele profissional que tem o título de especialista daquela especialidade, ele revalide o seu exame, mostrando que ele continua atualizado a cada 5 anos, né? Porque o conhecimento realmente se multiplica muito. Imagina aquele profissional que nem o título de especialização conseguiu. E a especialização não é só para aquele super especialista. Existem residências médicas de saúde da família, de clínica médica, que são temas bastante básicos, bastante gerais, mas que dão a oportunidade daquele médico recémformado ou que está querendo aprofundar a su o seu conhecimento, treinar junto com outros profissionais, aprender e entender como conduzir os casos realmente complexos para que possa ter um desempenho à altura de que a população precisa. Então, nós temos aí algumas dificuldades, né? Nós já estamos vendo que algumas faculdades não estão conseguindo alcançar o nível de transmissão de conhecimento paraos alunos. E nós estamos vendo um segundo problema, que são aqueles médicos que precisariam ter um aprofundamento do seu conhecimento, não estão tendo a oportunidade de fazer isto e reflete em tudo. reflete na qualidade do atendimento, na qualidade do diagnóstico, na qualidade até da forma como o médico orienta o seu paciente, de como ele deve usar aquela receita, aquele medicamento ou como ele deve proceder, porque não é só o conhecimento teórico que o médico precisa, ele deve também ser um didata no momento que ele tem que explicar a conduta pro paciente, conscientizá-lo e conseguir fazer com que o próprio paciente entenda, aceite e pratique aquilo que está sendo orientado. Doutor, e quando a gente tem então essas falhas na formação, tanto teórica quanto também na questão da residência que o senhor pontuou, né, quais são as principais dificuldades que esse profissional recémformado, né, vai enfrentar no dia a dia na hora ali de atender os pacientes? Dá para citar algumas dificuldades que podem aparecer com essa falta ali da prática da residência e também os problemas de ensino teórico? Isso a população já sente na pele, né? A gente não precisa explicar, porque a gente percebe que muitas vezes a a mãe leva uma criança, é atendida num numa unidade de urgência, nem sempre quem está ali é um especialista. e ela pega a primeira orientação, mas aí no dia seguinte ela procura uma unidade de saúde que tem o especialista pro filho dela ou ela procura um profissional de maior confiança e ela fala: "Doutor, olha, aconteceu isso, me passaram isso daqui, tá certo esse medicamento, tá certo essa receita, né?" Então, muitas pessoas já percebem no na na própria postura do médico que nem sempre ele tem a habilidade para aquela situação. Que o que mais a gente observa, muitas doenças que poderiam sarar rápido, elas se arrastam. Isso significa que a pessoa gasta mais com medicamentos. Às vezes tem que trocar o medicamento. Sequelas podem se instalar na na pessoa e ela ficar com um problema que dura muito tempo, sem contar os problemas econômicos, pessoas que perdem dias de trabalho por conta de que estão ali às vezes com uma dificuldade em ter o seu tratamento e tudo isso repercute na saúde geral da população, tá? Doutor, e até falando dessa questão da dificuldade prática, né, essa insegurança que muitas vezes os pacientes já sentem no atendimento. A gente tem até alguns dados do próprio ANAMED que mostram que os alunos erraram em questões que são consideradas bem simples, né, envolvendo doenças como dengue, dor de cabeça, que é uma queixa bem comum, né, e também doença de parxon. O que que explica essa dificuldade com essas áreas, né, quando a gente fala desses médicos que estão quase concluindo a graduação, está faltando um aprofundamento nos conhecimentos teóricos, no entendimento. E o médico ele tem que ter aquela postura de quando chega um caso, uma dor de cabeça. Bom, todo mundo tem dor de cabeça, a dor de cabeça é uma coisa muito frequente, mas a gente tem as perguntas certas, a gente tem os indicadores que dizem pra gente se aquilo é uma coisa comum ou se ou pode se tratar de alguma coisa mais complexa. às vezes a própria idade do paciente, uma pessoa mais idosa que chega com uma dor de cabeça, eu tenho que pensar que ela pode estar tendo um problema cerebral, um tumor na cabeça, alguma coisa mais grave, né? Uma pessoa que tá com dor de cabeça e a gente pergunta: "Você costuma ter dor de cabeça?" Né? Ah, não, eu isso eu nunca tive. Você tem que olhar isso com mais cuidado. Ou aquela pessoa que fala: "Não, eu sempre tenho crises de sinusite e essa dor é parecida com as com as crises que você tem. Sim, é parecida, então você já fica mais tranquilo de poder entender o que está acontecendo com o paciente. Então, no na prática, um profissional que não tem toda a formação necessária para saber conduzir cada caso, saber identificar quais os riscos que um paciente mais jovem ou um paciente mais velho tem às vezes do mesmo sintoma, é muito importante. E quando o aluno sai da faculdade sem ter a formação mínima de entendimento das doenças mais frequentes, isso é um sinal de alerta. Você tinha falado sobre a qualidade, a segurança do atendimento. Sim, nós temos dado muito pouca importância. Eu digo isto como sociedade geral, né? Os médicos têm se preocupado, os hospitais, as clínicas têm buscado treinamentos, certificações na qualidade do seu atendimento, porque são muitos detalhes e às vezes pequenas minúcias que não são observadas, não são perguntadas, levam a um diagnóstico equivocado, a uma conduta equivocada. E às vezes isso pode chegar até a morte. porque um diagnóstico não foi feito na hora certa. E a gente tá falando aqui dessa insegurança aos pacientes, mas olhando pelo lado do estudante ali do futuro profissional de medicina, né, doutor, como é que esse cenário, esses resultados negativos também podem impactar, né, aquele estudante que tá na procura já por uma residência ou que tá recém formado e quer atuar no mercado, porque não é um cenário muito animador, né? É verdade. Nós temos observado que os estudantes quando eles saem da faculdade eles têm algumas oportunidades de trabalho. Então, uma coisa muito frequente é encontrar plantões de urgência. E nós temos notado que alguns alunos, alguns médicos recém-formados têm fugido disso porque eles sabem que eles não têm aquela segurança de enfrentar um uma situação onde pode chegar muitas coisas diferentes e ele não estar preparado para elas. Nós temos observado que existem profissionais que estão fugindo de consultório, não querem montar um consultório. Por quê? No consultório, o profissional tem a sua responsabilidade, ele vai fazer o seu nome, ele vai eh conquistar a sua clientela. Já um profissional que passa a viver só de atividades em plantões, a responsabilidade não ficou direta dele, porque a hora que ele sai, a responsabilidade continua sendo do hospital, da entidade que está atendendo. Então, a gente percebe até nas escolhas que esses profissionais jovens estão fazendo que a insegurança pode determina as escolhas que eles fazem. E ainda bem que fazem assim, porque aqueles que têm consciência das suas limitações, esses são os que buscam o conhecimento, fazem cursos complementares. Além das residências médicas, existem cursos de especialização, existem treinamentos intensivos que ajudam os profissionais a terem mais habilidade, a saberem como pensar e conduzir os casos de urgência. E esses e esses recém-formados que buscam essa formação complementar, daqui a pouco eles estão se sentindo seguros, fazendo tudo certo, né? Então não é um um um grande problema o profissional perceber que ele não tem segurança para algumas coisas. Isso até é interessante porque ele percebe isso, busca a qualificação e resolve o problema. Até uma postura muito mais responsável, né, do profissional. Agora para as faculdades, né, principalmente aquelas que tiveram as notas mais baixas nesse exame, a partir desses dados, que mudanças essas faculdades poderiam fazer para que esse aluno já saísse mais preparado, né, para lidar com o mercado de trabalho e com essas situações práticas? Na sua opinião, o que que dá para melhorar nesse ensino teórico para que ele tenha mais essa experiência paraa prática? Sim. Então, veja só, no final agora de 2025, a sociedade eh a SMC, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, ela promoveu um encontro de todas as faculdades de medicina aqui da nossa região. Foram cinco faculdades. cada os diretores dessas faculdades estiveram lá, foi feita uma ampla discussão, cada um mostrou o seu ponto principal, aquilo que está focando mais nos estudantes. E esses encontros entre faculdades de medicina, entre entre diretores, entre os profissionais ajuda muito no sentido de que eles possam ter consciência do que que eles também estão bem e o que que precisam melhorar. Mas, eh, normalmente uma faculdade ela tem uma pessoa que é responsável por manter o currículo médico ah sempre atualizado. Cada faculdade tem a sua política de cobrança, de de profundidade de exigências. OK? Mas assim, o que a gente nota que tem feito a maior diferença é que uma faculdade ela precisa ter um local onde o seu estudante possa entrar em contato com os pacientes e possa ter uma experiência prática. as faculdades faz ou tem o seu hospital próprio ou tem convênios com hospitais particulares, com com unidades do SUS, postos de saúde, hospitais públicos e fazem isso, esses esses alunos fazem estágios regularmente, né? Isto é muito importante. Então, eh, quando uma faculdade percebe que ela está a quem do que é necessário, além de reforçar o conteúdo teórico n para os alunos, o que a gente geralmente percebe é que são faculdades que têm uma carga, uma oportunidade menor de prática para os alunos. Então, isso é fundamental. O ideal é que não existisse nenhuma faculdade médica que não tivesse próximo um convênio, um vínculo, eh, aonde os seus alunos possam estar lá sempre estagiando, aprendendo, porque é na prática que a gente testa tudo que a gente aprendeu na teoria. E então essa é a principal eh parte que as escolas precisam se concentrar, ter oportunidades dos estudantes colocarem em prática aquilo que tem aprendido na teoria. Agora, doutora, além do ENamédica, a gente tá comentando que é uma novidade também, né? Existe um projeto que está em discussão no Senado para implantar uma espécie de OAB da medicina, né? um teste ali para aquele médico que tá se formando, para que ele só possa exercer a profissão se passar nesse teste. Na sua opinião, isso pode melhorar também esse cenário de profissionais mais prontos, né, para exercer a profissão na prática? Com certeza. as entidades médicas, não só a sociedade de medicina e cirurgia de Campinas, mas as sociedades médicas em geral, vem este exame com bons olhos, porque quando se multiplicam os profissionais, é preciso que haja uma avaliação para saber se aquele profissional atingiu a competência mínima para ah praticar uma profissão que exige tanto e que requer tanto conhecimento do profissional, né? Então vamos começar. Eu já tinha mencionado as sociedades de especialidades, todas elas exigem uma prova, exigem uma comprovação de que aquele profissional teve uma formação prática, rigorosa. OK? Eh, algumas especialidades só aceitam médicos que tenham tido uma residência. Algumas outras especialidades aceitam que o profissional comprove que ele fez 5 anos pelo menos de prática em alguma instituição naquela área específica e depois ele tem que fazer uma prova mostrando a capacitação teórica dele. OK? E o Revalida já é um ensaio muito interessante, porque o Revalida, talvez nem todos tenham consciência de como é o detalhamento desse exame. São duas fases. Primeiro, é feita uma prova teórica, OK? E o o médico que está ali, que teve a sua formação no exterior, faz esta prova. Os que são aprovados na prova teórica são submetidos a uma prova prática, onde existe todo um contexto eh onde é feita a avaliação da da forma como ele aborda o paciente, se ele sabe fazer um bom interrogatório, se ele tem um raciocínio lógico, se ele consegue escrever isso, pedir os exames de forma correta e se ele consegue dar uma boa orientação àquele paciente. paciente naquela situação e o o revalida, as provas práticas, elas são filmadas e é uma banca que depois assiste cada uma dessas dessas situações, cada médico que está tentando fazer a sua validação, ele passa por cinco postos com situações diferentes e depois uma banca vai assistir esses vídeos e vai dar a nota. Então, é uma coisa feita com muita seriedade. Para os profissionais médicos formados aqui no Brasil, nós imaginamos que haja alguma coisa semelhante, onde se busca não entender se ele tem uma carga de conhecimento teórica, mas se ele está realmente habilitado a atender as pessoas, aos pacientes com toda essa sequência de capacidades que ele precisa para ser um bom profissional. Então fica uma coisa muito bem eh embasada, muito sólida e isso é uma garantia que a população vai estar sendo assistida por profissionais competentes, porque não não tem nada pior para um profissional médico que escutar que algum colega seu cometeu um erro, teve um erro médico, que teve alguma situação eh que o paciente ficou prejudicado, porque isso dói para todos nós, né? né? Nós estamos buscando a excelência no atendimento, na orientação, na educação e nós buscamos que toda a população também tenha o mesmo nível de atendimento. É, até falando disso, né, doutor, desse acesso à saúde de qualidade paraa população, quando a gente fala desse cenário de profissionais que muitas vezes não fazem ali uma residência, né, uma especialização, que tem falhas no ensino teórico também e vão atuar muitas vezes no SUS como portas de entrada para exercer a profissão. a gente tem um atendimento com a menor qualidade, com mais risco também, justamente para aqueles pacientes que dependem hoje do SUS aqui no país. Sim, com certeza. Mas tem uma coisa que eu preciso dizer que é muito legal pra população. Eh, o SUS hoje está muito bem aparelhado com sistemas eletrônicos, o prontuário eletrônico. E isto ajuda muito o profissional, porque o próprio prontuário ele ajuda, direciona, tem lembretes para que não não fique esquecida alguma coisa. E existem algumas prefeituras que exigem que o seu profissional participe continuamente de treinamentos, eh semanalmente fazem reuniões para discutir os casos mais complexos. Então, eh, além disso, várias prefeituras têm oferecido residência de saúde da família. Isso tudo faz com que o SUS fique mais rico, mais adequado e mesmo que alguns profissionais cheguem sem aquela segurança no atendimento, com algum tempo ali de de atuação, eles também conseguem crescer na sua capacitação. Então, muitos municípios têm a buscado essa forma de atuar, que é um exemplo pro Brasil. E eu quero ah dar aqui os meus parabéns para esses que t feito, porque realmente isto faz com que o SUS se transforme num sistema de saúde que é exemplo para o mundo todo, porque não existe nenhum país que tenha um sistema de saúde tão grande e tão complexo quanto o Brasil. Temos falhas, com certeza, temos pontos a melhorar sempre, né? Eh, as necessidades se multiplicam, os tipos de tratamentos surgem a cada dia, então o SUS tá sempre correndo atrás disso. Mas sabemos que existem locais em que a deficiência é maior, mas tem locais que são muito, são excelências, são centros de excelência de atendimento. Doutor, falando um pouquinho mais desse cenário ainda mostrado pelo Enamédio, né, a gente tem especialidades em que os estudantes erraram mais as respostas e algumas muito prioritárias para atendimentos como pediatria, ginecologia, saúde mental, são os temas aí que concentram, né, o maior número de erros no Enaméd. Que que isso mostra, né, também sobre esse cenário? Quais podem ser as consequências pros futuros pacientes também desses alunos? OK. O, a nota do Enamed é um alerta, primeiro lugar para aqueles que querem fazer faculdade de medicina, aqueles que estão almejando entrar para essa profissão, porque já está dando uma orientação. Olha, procure mais para cá, menos para lá, porque já é um indicador muito interessante da qualidade da formação que aquela faculdade está dando. um profissional que e e agora eu quero dizer que isso tem a ver muito com a faculdade, mas às vezes tem a ver também com uma personalidade, uma pessoa que não se se identifica tanto com alguma coisa, com alguma especialidade, com algum tipo de conhecimento. Então se espera que o médico, que aquela pessoa que fez a faculdade de medicina, que terminou o curso eh básico ali 6 anos de faculdade, tenha o conhecimento mínimo das doenças mais frequentes para que possa, em qualquer situação que ele estiver, saber como conduzir aquele caso. OK? Então, eh, essas áreas que estão aí, pediatria, obstetrícia, são áreas que todo médico tropeça, tem que atender, tá todo dia ali, né, em contato. Então, são conhecimentos que são fundamentais. Não se admite um médico que não tenha esse conhecimento mínimo. OK? Lógico que depois que ele se forma com esse conhecimento mínimo, ele tem toda a base para se aprofundar, para ir mais além em alguma área que ele escolheu. E se ele não tem esta base, até como um especialista, mesmo que ele saiba muito como um especialista, vão chegar situações que se ele soubesse interpretar a medicina básica, ele poderia ver que aquilo não é um um detalhe que às vezes nem é o caso ali da especialidade dele, que a pessoa veio encaminhada errada, que o problema, né? Vamos dar, vamos dar um exemplo simples. Uma pessoa que está com bronquite com asma, né? Poxa vida, eu tenho alergia e sempre e sempre tive crises e e tô aqui com mais uma crise. Mas o médico que entende dessa parte, ele também tem que pensar que uma falha no coração, tá? Se o coração não está bombeando direito o sangue, alguns problemas ali, ele pode ter o que a gente chama de asma cardíaca. que é um quadro clínico que simula uma asma, mas a etiologia não está num quadro alérgico, num alérgico ou respiratório, que está num quadro cardíaco. Então, se o profissional na sua especialidade não tem aquela formação básica mais ampla, até na sua especialidade ele pode estar passando batido alguma coisa e cometendo um erro. Doutor, a gente tá falando, claro, da base que ela é oferecida pelas universidades, né? Mas por um outro lado, é errado a gente julgar um estudante apenas pela universidade que ele cursou, se ela não tem uma avaliação tão boa, porque esse aprendizado também em certo grau, ele não depende muito ali do aluno, do compromisso de cada um, né, com a universidade, ou a gente pode responsabilizar mesmo na maior parte aí as universidades quando a gente fala da base ali do ensino. As duas coisas são verdadeiras, porque a gente vê excelentes profissionais vindo de faculdades que não tem um nome assim tão grande e a gente vê às vezes profissionais que pecam muito e estão formados por grandes grandes universidades. Então, as duas coisas acontecem. É lógico que a gente não gosta de dar chance pro azar. um uma pessoa que não tem assim aquela, né, pegada que que vai atrás numa faculdade ruim, vai ser um desastre. Doutor, pra gente fechar aqui o nosso bate-papo, um dos problemas que o senhor apontou também é a questão da residência, né? A gente tem um descompasso aí entre o número de médicos que estão se formando e as vagas pra residência. Como é que a gente pode vencer esse desafio na sua opinião? A residência, ela tem um funcionamento em que alguma entidade, né, eh, paga, contrata um profissional médico para, além de ele dar atenção a pacientes, ele também gastar uma parte do seu tempo para acompanhar médicos recémformados que estão se capacitando. Então, dentro da da contratação de um serviço, eu posso contratar um profissional médico bem formado, bem treinado, para fazer somente a parte assistencial, ou seja, atender os pacientes. Mas eu também posso contratá-lo. Olha, você vai fazer a parte assistencial, mas vai fazer uma parte do seu horário, ah, treinando os residentes. E muitas vezes a iniciativa privada ela não consegue contratar profissionais para fazer essas duas coisas, porque tudo depende do pagamento de convênios. Os convênios têm os honorários certos ali para cada coisa, que busca ser aquele honorário mais enxuto possível. Então, os médicos não querem gastar do seu tempo que ele poderia estar produzindo para ensinar. Então, é preciso que haja uma contratação de profissionais que tenham uma parte do seu tempo ou tempo total para se dedicar à educação dos profissionais que estão ali na residência, de ajudar a colocar ali junto, de acompanhar um procedimento. E isto vem de várias fontes. A principal delas são das da da das fontes governamentais, OK? hospitais grandes conseguem fazer convênios para pagar essa essas residências e ter programas de residência. Então, uma coisa que faz parte da política pública é ter leis que facilitem esses convênios, que que incentivem hospitais de porte, hospitais grandes que têm aí uma boa conduta, que possam também contratar profissionais com o seu tempo dedicado a ensinar. E então abre-se o o programa de residência e cada hospital vai ter lá 4, 8, 12 vagas, enfim, conforme houver a a possibilidade do dimensionamento. Mas as residências médicas passam por políticas do poder público. E é isso que nós precisamos, que o nosso governo olhe com carinho, porque só colocar médicos formados no mercado, sem dar a eles a oportunidade de adquirirem aquela experiência nos diagnósticos mais difíceis, aquela vivência prática com os pacientes, não tem como a gente ter bons profissionais. Uma questão importante para pra gente refletir, né, doutor? Agradeço muito já a sua participação aqui, Dr. Marco Aurélio, com a gente. Muito obrigada, viu, doutor, pelas pelas opiniões. Eu agradeço e desejo a todos que possam encontrar muitos bons profissionais, porque eles existem e a gente está continuamente em contato com profissionais recémformados. E a gente vê que alguns, mesmo quem não teve ainda a a oportunidade de fazer uma especialização, eles têm uma capacidade, uma dedicação, um um uma preocupação com o paciente que é admirável. Então não é porque é um recém-formado que não é um bom médico, né? Mas nós precisamos dar a todos a oportunidade de aprofundarem a sua vivência e a sua experiência. Muito obrigada, Dr. Marco Aurélio, com a gente. Agradeço também você que nos acompanha aqui na TV Câmara. Espero você também na próxima edição do Ponto de Vista. Até lá. [música] [música] [música] [música]