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do sal que tempera a nossa comida aos metais nos smartphones. A mineração faz parte do nosso dia a dia e tem um papel importante na economia brasileira. Mas essa atividade também traz desafios, principalmente quando falamos da segurança das barragens de rejeitos, dos impactos. provocados por grandes desastres ambientais, como o de Mariana em 2015 e também o de Brumadinho em 2019. E para ampliar esse debate, a editora da Unicamp lançou o livro Conflitos, Riscos e Impactos associados a barragens, que reúne pesquisadores diferentes áreas do conhecimento. E é sobre essa obra e os desafios que envolvem a mineração que vamos conversar agora com o geólogo e professor do Instituto de Geociências da Unicamp, Jeferson Picanso. Professor, seja muito bem-vindo e muito obrigada também por aceitar nosso convite. Obrigado pelo convite. É um prazer estar aqui. Para começar, é, muita gente já ouviu falar em barragens pelos noticiários, pelas tragédias, mas eu queria que você falasse exatamente o que são e como funciona essas barragens de mineração. Uhum. É, é uma, é uma dúvida muito comum e muito pertinente, né? Porque eh as barragens de rejeito não são em nada parecidas com as barragens que a gente vê nos filmes, etc., aquela barragem de concreto, né, que é uma coisa que é uma estrutura que é feita para durar e durar bastante tempo, né? Eh, a barragem de rejeito não, ela é uma barragem que é feita para durar pouco, para custar muito pouco e eh ela tem uma vida útil muito muito pequena, né? Então, é uma estrutura própria da mineração, é onde a mineração joga o rejeito, né? você já joga o que ela não aproveita mais do processo de mineração e eh ela faz esse tem esse papel de fazer essa acumulação do que não não serve mais, né? E é colocado ali, certo? E eu citei no início o livro, antes da gente falar um pouquinho mais sobre ele, eu queria falasse um pouco sobre qual a importância da mineração no contexto do Brasil pra sociedade, de que forma também eh isso tá presente no nosso dia a dia. Bom, como você falou no início, né, tudo que a gente tá aqui eh eh eh vendo e trabalhando e mexendo, etc., tem alguma coisa da mineração, né? as sociedades não podem viver sem, né, algum tipo de insumo mineral. E hoje em dia, quando se pensou que não, a gente vai eh viver com menos mineral, a transição energética tá nos mostrando ao contrário. A gente tem que viver com mais minerais ainda. Então a gente tá incorporando mais e mais tipos de metais paraa nossa civilização. Antigamente a gente vivia com dois ou três metais, hoje a gente vive com mais de 100, né? Então assim, eh eh isso eh eh isso muda muda bastante, né, a a maneira como a gente vê as coisas, mas assim, a gente não consegue pensar em nada desde do tijolo, desde da do do cimento, eh muitas vezes o o papel o papel branco, porque o papel não tem o papel reciclado não tem essa cor, né? Sim. Então essa cor aqui é um é um é um mineral, né, chamado calulinita, que é aplicado em cima do papel, por exemplo. Mais um exemplo de, olha só, de mineração. Então, muito mais coisa do que a gente imagina envolve mineração e minerais. Uhum. Uhum. E você falou dos rejeitos. Eh, quais os riscos dessa atividade? Então, o que nós nós eh observamos, né, porque essas barragens, na verdade, eh elas dão problema porque elas são feitas de uma maneira muito eh eh assim com muito pouco preparo eh rapidamente e para jogar lixo, né? Então você não vai botar os teus melhores técnicos, teus melhores nada. Então, eh eh as barras de rejeito, ela começa com um pequeno dick, né, um depósito de pedras ou alguma outra coisa assim e depois você vai colocando o próprio rejeito ali como como barragem, né? Uhum. Agora, eh é sempre tem problema com barragem, tá? Eh, agora nesse instante deve est tendo problema com barragem em algum lugar. Uhum. Né? Eh, eh, acidentes com barragem de barragem romper acontece frequentemente, né? de mineração. Muito eh eh o que aconteceu, né, no no no Brasil, no mundo, é que eh nos últimos anos aumentou muito, né, a procura por mais metais, diferentes tipos de metais, etc. E a e a gente viu o surgimento de uma mineração que já era gigantesca para uma mineração mais gigantesca ainda. O tamanho das das máquinas que tem lá para extrair são coisas. O pneu é maior que que a gente aqui, né? Então assim, a o volume de material começou a ficar maior. Então a as barragens que a gente tinha não eram suficientes. Uhum. E o pessoal foi fazendo o quê? Foi subindo a barragem, subindo a barragem, subindo a barragem, subindo a barragem, né? E essa barragem é quase como um castelinho de areia. Chega um momento que ele vai romper, vai ter algum problema, né? Isso foi alertado, foi avisado. Já teve vários eh vários eh eh desastres anteriores que mostraram que aquele aquele tipo de de obra tava com problema, né? Mas assim, é que a gente teve esse período agora nos últimos 20 anos de um um aumento muito grande da mineração e um aumento muito grande de volume de material e a gente tinha que jogar ele em algum lugar, jogar, né, como lixo e a gente jogou na barra de rejeito. Entendi. E esse aumento, professor, ele também tem relação com o avanço da tecnologia, como eu falei, eh, sobre os smartphones que tem minerais, tem relação? Eh, tem, porque a gente tem máquinas cada vez mais eh maiores, mais potentes, né, que conseguem escavar mais, conseguem escavar com com maior velocidade, né? Eh, você tem processos de beneficiamento de minério, que o minério você não não pega o minério e já sai usando, né? você tem que tirar ele dali, tirar ele do meio da dos outros minerais que tem na rocha, né, para você dar uma uma utilidade para ele. Eh, então você eh tem tem tudo isso que você tem que tem que ir fazendo, né, para que para para ter lá o o mineral. Mas eh enfim, a gente eh acaba tendo que eh eh o processo fica mais sofisticado e maior. Resumidamente é isso, né? Entendi. E falando especificamente sobre o livro, né? Ele surgiu a partir de um grupo de pesquisa criado na Unicamp. É, como que nasceu essa iniciativa e também qual o principal objetivo desse projeto? Uhum. Tá. Eh, bom, contar uma historinha, mas bem rápido. Uhum. Eh, eu faço parte de um grupo eh que faz eh atendimento emergencial em desastres, né? Chama-se Senacid, né? E é um grupo lá da Universidade Federal do Paraná. Eh, de onde eu venho, sou formado, tudo mais. E, eh, por esse grupo a gente sempre tá tá eh vai nos locais onde tem algum tipo de desastre. que nós tivemos, por exemplo, agora em Juiz de Fora, né? A gente vai nesses lugares para saber, para prestar algum tipo de apoio técnico, né? Então, ã, eh, lá em Brumadinho, o pessoal não não entendia mais como é que tava o o eh o a distribuição dos rejeitos, né? Então, o que a gente acabou fazendo lá? a gente fez um mapa eh com a intensidade de energia do rejeito. Então, onde o o rejeito tinha mais energia, onde tinha menos energia, ou seja, onde ele destruiu mais coisas, onde destruiu menos coisas, né? E e isso, esse mapinha base serviu, felizmente, né? Serviu pros pros bombeiros lá. Eles planejaram as buscas deles. Esse tempo até eu vi um um um eh alguém do do eh da Defesa Civil Nacional, né, falando desse mapa, eu vou, olha, participamos disso. Bacana. E através desse grupo, você esteve em Brumadinha assim que aconteceu a tragédia, como que era o cenário lá na ocasião? Então, eh eh a gente chegou lá, já era o quarto dia, né? Já era um momento assim meio que de transição, porque depois desse dia você já não tem mais, é, é muito difícil você encontrar alguém vivo, né? Até então você encontrava pessoas vivas ainda, né? Mas do quarto dia para frente já era muito difícil, né? Já era bem complicado. Eh, eh, assim, tinha era um, como eu escrevi num num texto lá que a gente fez, né? Eh, era um clima de guerra, né? até foi um dos gerentes lá que tava operando lá o trabalho com as pessoas, falou: "Olha, isso aqui é um clima de guerra, né?" Então tinha tinha eh bombeiro, soldado do exército, tinham eh todos os órgãos ambientais e de fiscalização do Brasil e de Minas Gerais estavam lá, né? Então era assim, helicóptero voando para cima e para baixo, né? Era um climão assim bem bem pesado assim, sabe? pra gente pra gente lidar. Chegava lá assim, falei: "Nossa, que que realidade que é essa, né? Que Uhum. Sim. E o Brasil teve outras tragédias ligadas a barragens de rejeitos, mas a de Brumadinho a gente pode considerar que foi a mais grave. Então tem tem vários várias gradações aí, né? Eh, a a a barragem de Mariana, né? Eh, barragem da Samarco, né? eh, ela ela é uma barragem maior, né, mais moderna, com tecnologia mais moderna e eh quando ela rompeu, ela eh eh ela jogou uma quantidade absurda de de rejeito no sistema fluvial. Então, eh, foram 60 milhões de toneladas, das quais 30 milhões foram foram embora, né? Então, aquilo gerou uma uma eh uma não é bem uma avalanche, mas um fluxo, né, de uma de material e um material que te densidade, o dobro do areia comum, né, dobro ou triplo. E esse material veio rasgando os rios, né, até um determinado momento e que ele eh ele foi detido por uma barragem. Tem uma barragem hidrelétrica no rio Doce que boa parte do material ficou ali. O que foi até o Espírito Santo foi a foi a a lama, a lama mais fina conseguiu passar e foi embora, né? Então, Mariana, ele é o maior em termos de volume de material. Entendi, né? Eh, a gente teve um outro no Canadá que foi um ano antes de Mariana, que também foi muito grande em termos de volume de material. Mariana foi 60 milhões lá em eh no Canadá é Monte Poley, né? foram 14 milhões. Brumadinho já foi menor em termos de volume de material, era uma barragem mais antiga. Eh, ela tava até já indo para para ser descomissionada, né, para ser desmanchada enquanto barragem e tudo, mas ali e o que o que vazou foram aproximadamente 11 a 12 milhões de m cbicos, foi bem menos. Uhum. Agora impactou muito porque eh enquanto em Mariana a gente teve eh eh se não me engano foram 19, né? 19 eh fatalidades, Brumadinho, o o o rejeito, né, na forma de um fluxo, de um de um eh de uma avalanche, etc., ele passou pela pela eh pelo canteiro de obras mesmo na empresa, né? E aí matou os próprios funcionários. Aí foram 272 mortes. Não é o maior número de mortes num acidente com barragens, né? É bom que se diga. Mas assim, não é todo dia, né? É como você, a gente sempre fala assim: "Olha, eh, é como cair um um avião, um boing." Uhum. Né? É muito impactante. É verdade. E voltando a falar do livro, a obra ela reúne especialistas de diferentes áreas do conhecimento. Por que que é importante estudar as barragens, seus impactos, né? Sobre uma perspectiva multidisciplinar, tá? Então, eu fui para lá por esse grupo, né? Eh, quando a gente volta desse tipo de missão, né, a gente volta meio meio traumatizado, né? Não é uma coisa fácil. você, eu não vi nada muito muito eh eh eh eh complicado assim, mas você vê, né, um lugar de perdas de vida, né, perdas em geral, né, então você vê impactado e aí eu vim com essa com essa história de poxa vida, por que isso, né? Ao mesmo tempo, eh, como como geólogo, como cientista, né, falei: "Poxa, mas que que a gente pode fazer, né?" Eh, e eu tinha escrito uns textos para pro jornal da da Unicamp lá relatando o que tava acontecendo, né? E aí o o eh o reitor, ele me eh ele me chamou lá para uma conversa, né? Aí no meio da conversa eu sugeria que tal a gente juntasse aqui a, né, as competências que a gente tem aqui para tentar pensar isso, né? Uhum. E daí ele gostou da ideia, chamou já o o o próreitor de pesquisa, a gente já marcou uma reunião. Na reunião tinham 150 pessoas, né, todos cientistas lá e gente que trabalha com algum tipo de de algum tipo de coisa que queria contribuir, desde os meus colegas matemáticos, né, que estão aqui no livro, né, eh, até o pessoal que trabalha com luto, né, com psicologia, né, com a questão do luto, etc., né? Então foi porque o impacto foi muito grande, né, de Madinho. Então aí eh eh a partir daí a gente teve teve a ideia de montar esse grupo que depois teve um nome, né, o CIAB, né, eh grupo de pesquisa e ação em eh ação, extensão e pesquisas eh relacionadas à barragem, né? E e aí nós começamos a a nos reunir e a tentar pensar, né, como é que seria esse esse processo. E aí tem outra uma outra questão, né, que é a história do cientista, né, que a gente é acostumado pensar em caixinhas. Como é que eu vou pegar e falar com o o meu colega, muitas vezes meu amigo que tá na caixinha do lado, como é que eh eu falo uma língua, ele fala outra, como é que a gente vai se entender, né? Então, eh, na verdade não tem uma resposta definitiva nem única sobre isso, mas o fato é que a gente tentou, né? Tentou e uma das das dos resultados, né? É, por exemplo, esse livro bacana. E falando, eh, quando acontece, né, um rompimento de uma barragem, quais são os principais impactos? A gente já falou que tirou muitas vidas, infelizmente, em Brumadinho. Quais são os principais impactos, meio ambiente, economia, saúde, mas principalmente para as comunidades atingidas? Uhum. Então são eh os impactos são muito diferentes, dependendo da energia envolvida no problema, né? Eh, a maior parte dos impactos eh envolve, por exemplo, tipo, a maioria envolve eh lançamento de alguma de alguma coisa num curso d'água, inclusive antigamente. Por que que tem barragem também? Isso é interessante. Por que que tem barragem de mineração? Porque antigamente as mineradoras lançavam isso no rio, né? Então o o eh tinha um abrumadinho todo dia no rio no no rio Paropeba. Né? a partir dos anos 60, né, que se começou a a se a se construir essas barragens para deter esse material e parar de ter o o você jogar direto no rio. Uhum. A gente conversando com algumas pessoas eh mais antigas lá ao longo do rio Paropbo falando: "Não, antigamente era muito pior, o rio era o rio era era assim todo o tempo. Agora ficou um tempo sem agora veio de novo, né? Então, hã, a a o impacto é é esse, né, de você sujar a água, de você mexer a água, você contaminar a água, né, que é muito sério. Mas assim, por exemplo, essas meg, né, Mariana Brumadinho, você tem um um uma periferia assim, um um perímetro de cerca de de quilômetros, dependendo do do do Mariana foram uns 30, eh, Brumadinho foram 8 km, nas quais a gente veio com força, o Mat veio com força e veio destruindo tudo, né? Foi onde as pessoas morreram, né? Eh, a partir daí ele eh entra no rio, daí ele se dissolve no meio do rio, aí ele vai caminhando na na velocidade do rio, né? E a e algumas coisas vão rápido, a o material argiloso mais fino vai muito rápido. Em Mariana, ele demorou 17 dias para sair eh dali da da da região lá do do do rio e chegar até o Espírito Santo. Uhum. 600 km ele andou, né? Então essa anda rápido, a areia anda mais devagar, algumas coisas nem andam, né? Então, eh, isso tudo provoca impactos e tem o impacto, eh, humano, né, que, eh, tem uma uma aluna minha, né, que até recentemente ela ela eh terminou o doutorado dela sobre sobre Brumadinho mesmo, que na época ela trabalhou lá, ela falou: "Olha, eh, eu, e eu eh além do do tsunami da lama, eu vi também um tsunami de tristeza". Uhum. porque as pessoas ficaram impedidas de ter acesso ao rio. Isso desencadeou muitos tipos de sofrimento, tanto econômico, né, quanto, eh, assim o o existencial, né? Então, a gente tem relatos de famílias que começavam a ter eh moravam a 1 km do rio, né, e começava a ter problema de pele, queda de cabelo. E se não era uma pessoa era a família inteira. Uhum. Né? Então começou a ter esse tipo de de problema, né, as pessoas com eh começaram a desenvolver pânico e uma série de coisas, né? E todo o processo que foi feito, né, os arranjos que for eh eh políticos que foram feitos lá para para mitigar minimamente, né, não foram não foram muito legais não. E e isso acabava prolongando o sofrimento das pessoas. Uhum. Né? ainda é um lugar de muito sofrimento. E na verdade, eh, a gente até tá tá tá tá eh com outro livro que a gente tá pensando e a o morte do livro é assim, quando que um desastre acaba? Uhum. Na verdade, um desastre não acaba. Acaba quando a nossa memória do desastre acaba, quando a última pessoa que sofreu aquele desastre morre, né? Então, eh, é assim, você tá nesse, nesse lugar assim onde você tem, eh, toda essa dor, todo esse luto, né, todo esse sofrimento, essa parte de de você ter doenças, né, de você perder a tua a tua plantação, perder teus Tinha gente que falava assim: "Olha, eu tinha umas tinha um limoeiro, laranjeira". Eles morreram todos. Uhum. Ah, eu tinha aqui um porco, não sei o quê. De uma hora para outra morreram todos. Ah, mas o o a água mesmo nem chegou aqui, chegou um pouquinho da água, chegou até numa enchente, que depois teve isso, né? Você teve o a a o material no rio aí e isso no ano seguinte teve uma teve uma enchente muito grande e a água pegou e redistribuiu o material. Uhum. Né? E com isso e acabou provocando a morte de de de animais, da fauna e tudo mais, né? Então, a gente tá vendo que que a o trabalho dessa minha aluna da Maira tá tá mostrando que tem uma recuperação. O rio tá se recuperando, mas tá se recuperando muito lentamente. Uhum. Né? Ainda é um processo muito lento que que a gente vai ter. Provavelmente a gente não não veja assim no curso de uma de uma vida humana. Sim. Isso também gera um impacto econômico, né? Porque como você falou, muitas famílias ali poderiam ser produtores rurais, por exemplo, já vi alguns relatos de pessoas que eram produtores rurais e hoje em dia não conseguem mais manter essa produção. Sim. É, as pessoas não podiam usar água do rio. A água vinha de caminhão pipa. Às vezes o chegava lá o caminhão pô no caminhão pipa não chegava num dia. Daí o pessoal, olha, por que que não veio ontem, não sei o quê. Daí o o o cara que do caminhão pipa, né, eh, falava assim: "Eh, se quer que eu não traga mais?" E era assim: Uhum. A empresa tratava as pessoas atingidas que não tiveram nenhuma culpa pelo que aconteceu desta forma, né? Não é não é não é a torre, né? Que todo esse adoecimento foi sendo causado. Uhum. Né? E e além do eh é uma faixa enorme, né, do do rio lá, que onde você tem várias divindidades que dificilmente vão voltar a ser 100% que era, né? Uhum. E você falou, é quando que a tragédia termina, né? De Brumadinho, por exemplo, não terminou. Existem três corpos que até hoje não foram encontrados, por exemplo. Sim, sim. Eh, tem essa questão dos dos corpos, né? porque a gente eh tem essa essa essa tradição, né, de ter o corpo, senão a gente, né, não consegue fazer o luto adequadamente, né, mas eh muitas vezes até nem é possível, né? Sim. Isso aí se se perde, o corpo humano se sóc s cela e você não tem como como achar, né? Uhum. E e na verdade você tem uma uma toda uma região lá que tá cheio de fazenda desocupada, de eh de plantação crescendo o mato, né? E de uma população que ou fugiu dali, né? Ou tá ali, mas tá tá tá sofrendo, né? Uhum. Certo? E depois dessas tragédias, né, que a gente citou Mariana Brumadinho, eh houve alguma mudança na na legislação brasileira eh sobre segurança de barragens? O que mudou e quais são os desafios também? Então houve uma mudança na legislação pós-mariana já. Hum. né? Então nós temos um um sistema, né? PR PR PR para PR para PR para PR para PR eh para tem uma lei que regulamenta, né, as barragens, tudo mais. Eh, o o modelo que a gente tinha lá em Brumadinho, esse modelo amontante que a gente fala, né, que você ia ia empilhando, né, o material um sobre o outro, é proibido, né, então não se deve mais construir dessa forma. as próprias empresas elas investiram muito, né, em tecnologia, né, para para ter sensores melhores e tudo mais para fazer essa essa prevenção, né? Então, a gente tem eh tem muito essa essa essa questão eh se mudou, por exemplo, em vez de você armazenar o minério eh na com água, você fez pilhas secas, né, minério, o que até muitas vezes provoca uma outra coisa que a poeira. Uhum. Né? Que a poeira também é uma coisa muito muito séria, né? Que ela vai distribuindo, né? para mas assim, foram feitas diversas medidas assim para para você tentar eh eh resolver esse problema, né? Hã, mas é um processo porque uma barragem imensa lá, você não vai mudar ela em pouco tempo. Então elas estão tão mudando, tão mudando, tão mudando, tão mudando. Mas h eh a o o custo, né? Eu costumo dizer que o o custo dessa do desastre eh para as empresas eh envolvidas, né, que tiveram diversos problemas, né, que foram relatados e que já foram eh uma das empresas foi já foi condenada lá na Inglaterra, né, tudo mais, eh o custo foi foi baixo porque naquele mesmo ano, né, a empresa lá de de Brumadinho teve lucro. Até quando eu falo isso até fico, né? Ela teve lucro. Uhum. Né? Eh, e por mais que você jogue jogue dinheiro, e às vezes eles jogam dinheiro, mas jogam dinheiro assim aleatório, né? E quanto que vale uma vida, né? Uhum. Exato. Quanto que vale aquele território todo, né? que de que tanto tanto trabalho, né, tá sendo pra gente ocupar. Faz, sei lá, mais de 10.000 anos, vamos dizer assim, que que pessoas ocupam esses essas áreas aqui no Brasil, né, contando os os povos tradicionais, tudo mais depois, né, e tudo isso ficou invabilizado por conta de, né, de de uma ação que poderia ser evitada, né? Exato. Eh, hoje em dia existe algum órgão fiscalizador para ficar monitorando as suas empresas? Sim, sim. Então, existe a eh Agência Nacional de Mineração, a ANM, né, que ela ela é ela que é responsável por fiscalizar as barragens de mineração, só que ela tem um uma quantidade de de fiscais muito pequena em relação ao que ela precisa fazer. Isso assim não é um problema brasileiro, problema do mundo. Esse tempo tava conversando com eh alguns técnicos chilenos, eles falando mesmo problema, você tem muita barragem. A quantidade de de tecnologia e de dados técnicos que você tem que processar muito grande, a gente não tem gente suficiente, né? Eh, mas eh existe sim, só que eh por enquanto no nosso nível assim de de eh de ação, ela não dá conta, né? A legislação ambiental é um caso à parte porque eh na verdade a gente piorou muito, né? Questão eh da legislação ambiental, ela ficou muito mais permissiva. Uhum. E com isso ela eh abriu o caminho para que você consiga eh fazer com que eh o o meio ambiente volte a ser atacado, né? Tem alguma alguma alguns empreendimentos que você só faz um eh uma declaração de de boca própria, né? Dizendo que você não não polui, né? O que é uma coisa bem bem complicada, né? De ser feita. Então, a nossa legislação que era tão boa, ela tá regredindo, né? Infelizmente, sim. E tem esse histórico de tragédias, né? Você falou que não é um problema só do Brasil, é um problema praticamente do mundo. Eh, o que que isso revela sobre as eh sobre a forma como o país, como o mundo eh trata essa atividade ao longo dos anos? Bom, eh, tem uma consultoria, eu não sei se é norte-americana ou canadense agora, mas que ela ela eh coloca assim que h eh quando você tem uma queda no preço de uma commodity, eh 2 anos depois você vai começar a ter problema com barragem, porque a barragem é o mais barato que tem, é o que você menos dá atenção. é o lixo, né? Então você eh você precisa maximizar o teu lucro pros seus pros seus acionistas, né? Então, pro acionista continuar recebendo a mesma coisa, ele pega e eles enxugam. E onde é que eles enxugam? Enxugam nessas nessas coisas que não são tão importantes pra produção. Então, aí começam a cair as barragens. Então, tem uma tem uma relação não só no Brasil como no mundo desse tipo de de de fenômeno, né? Então, eh, a gente, eh, eh, vive, né, no, no, no eh no mundo eh essa situação que a gente eh é muito refém, né, dessa dessas eh de algumas práticas, né, de de de tratar de tratar o território, né, de não respeitar as populações que já estavam lá, né, e de eh não respeitar a legislação ambiental daquele país, né? Então, é muito é muito sério assim, eh a gente falou da mineração, da importância da mineração, né, tudo isso, mas eh na verdade a mineração ela ela precisa mudar, precisa mudar. E essa mudança é é uma mudança principalmente ética. Acho que tem que ser uma coisa pelo ponto de vista da ética, porque eh tecnicamente a gente tem condição de fazer coisas, dá pra gente fazer coisas, né? Eh, a gente tá evoluindo agora com tecnologia, com tecnologia digital e tudo mais, por exemplo, para alguns tipos de mineração serem feitas por robôs, por exemplo. Então, tem algumas minas que acho que no Chile, a maior mina do Chile, né, Tiquikamata, tem alguns trechos lá que começam a ser operados por robôs, que é uma coisa muito perigosa, né, você entrar lá numa galeria subterrânea, né? já já entrei em algumas assim, sempre com muita segurança, mas mesmo assim é é um lugar inseguro, né? Então a gente tem essa tem essa essa possibilidade, né, de você eh de você usar essa tecnologia, tudo, mas eh o que falta mesmo é essa questão ética, assim, eu vou eh fazer eu vou tirar esse esse esse minério que tem aqui na terra, vou dar um valor para ele. OK? esse valor ele precisa ser ser eh no mínimo dividido com as pessoas que preservaram ele até então, né? Com as pessoas que moravam ali, moram ali, né? E eh muitas vezes assim a gente tem que pensar muito no no método que você vai fazer, como é que você vai fazer, porque é muito complicado. El ela é invasiva, ela é destrutiva a mineração, né? Agora, a gente tem que eh procurar fazer isso com a melhor técnica e uma ética Uhum. lá em cima, né? Então a gente pode afirmar que existe uma forma de continuar com a mineração, eh, que é um um fator importante pra economia, mas de um jeito pensando mais na preservação do meio ambiente. Existe essa forma? Ela tem que pensar na preservação das pessoas e do meio ambiente, né? As duas coisas. Eh, dá para você fazer isso. Eu acho que é bem possível fazer isso, mas você vai ter que eh juntar, né, junto com a junto com a com a com as considerações sobre lucro, sobre tudo isso, né, sobre as considerações sobre as pessoas, né, o sobre, na verdade é torna-se ética porque é de valores, né? Uhum. a questão de você eh eh extrair tanto, tantas mil toneladas de minério e você ter tantas e pessoas expostas do outro lado, né? Como é que você equilibra isso, né? E e acho que é uma coisa importante que elas as empresas precisam eh de mineração, principalmente são as grandes empresas de mineração, né? essas transnacionais e tudo mais, elas precisam eh conversar mais, né, assumir mais o que elas fizeram. Não, você não vê um pedido formal de desculpas, né? Você vê somente que acontecer eu vou pagar, mas acontecer eu vou pagar não é uma desculpa. Uhum. Não tá envolvido ali um, olha, né? Aquela coisa que você não pode nem como repor aquilo, mas puxa gente, do mim também. né? Sim. E você que acompanha já há tanto tempo esse tema, essas tragédias também de perto, tem alguma lição que isso, na sua opinião, pode ter ensinado pro poder público, principalmente? Olha, o o poder público eh ele ele agiu, mas ele age muito lentamente. Eh, muitas vezes o poder público ele é eh cooptado, né, pelo pelo poder privado, né? Existe muito essa coisa da porta geratória, né, da pessoa tá na tá na empresa, de repente ela vai para um órgão ambiental, depois ela tá no órgão ambiental, vai para empresa, né? Então ele é muito, muitas vezes é muito coptado, né? Então teria que ter um cuidado com isso. Eh, você tem que ter uma, tem que ter uma legislação, mas ao mesmo tempo você tem que ter condição de você ter fiscais em número suficiente ou e ou você eh buscar tecnologia para fazer isso, né? Essa, nesse caso que eu te falei do do Chile, por exemplo, tá se pensando em aplicações de IA, né, para que você possa resolver rapidamente coisas que, né, muitos muitas muitas muitos cálculos que a gente ser humano sozinho não é capaz de fazer, por exemplo, né? Acho que investir em ciência, investir em tecnologia e investir também na numa conversa eh honesta, né, sincera, com as pessoas que habitam as regiões, né, que onde onde você tem tem minério, porque é uma meio que eh eh a conversa não não é sincera, sabe? Quando você fala ali, mas não é bem aquilo que você queria. O que você fala não é bem o que o que o que vai acontecer. né? Acho que seria muito muito importante, né? Você ter essa coisa mais mais direta mais reta. Sim. Professor, você tá com o livro aí em mãos pra gente ir encerrando. Eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre o livro, qual mensagem que ele traz, principalmente ele traz algumas soluções pra gente eh conseguir parar com essas tragédias? Bom, seria muita muita pretensão para um livro, mas a gente tem um pouquinho essa pretensão, né? Eh, então é o livro da editora da Unicamp, dessa série, eh, discutindo o Brasil e o Mundo, né? E aqui nós temos eh 14 capítulos de diversas eh eh de diversos grupos, né, de de cientistas que trabalham eh diferentes aspectos, né, dessa desse desse problema, desde questões eh envolvendo envolvendo a a questão eh da educação, da sociedade, né, tudo eh até outros outros capítulos que tratam mais da parte de de impacto ambiental, como é que se dá esse impacto ambiental, alguns capítulos que falam sobre eh modelos matemáticos que são usados, né, pra gente eh eh tentar reproduzir isso paraa gente tentar também eh eh ter meios da gente eh atuar, né, nessas coisas. Então, assim, foi uma foi um uma experiência bem bem bacana da gente eh trabalhar com áreas de conhecimento tão tão diversas, né, que eh tem aqui o o professor eh José Mário Martinez, né, o professor eh João Frederico Meer, né, o Johnny, que são matemáticos, né, a professora Cláudia Fifer, né, que é socióloga, né, então a gente tem um um uns diálogos assim eh que a gente se esforça muito, né, porque entender a língua do outro é é difícil, mas que a gente trouxe aqui alguns elementos do que a gente viu, viveu e discutiu, né, nesses últimos nesses últimos anos aí que a gente trabalhou bastante com esse tema, né? Eh, eu acho que sim, é um livro que eh ele ele é bem útil pra gente eh procurar entender eh o que que eh como é que tá sendo, né, a questão eh da mineração, como é que a mineração tá impactando os territórios, né, eh, como é que se dão esses impactos e a partir daí como é que a gente conseguiria eh ter um ter um um grande pacto, né, entre a sociedade entre as empresas, entre todo mundo, pra gente conseguir eh superar esse esse problema, né? Porque se a gente precisa do minério, a gente precisa também de eh né, precisa ter garantia da garantia da vida, garantia da, enfim, os diversos direitos que a gente que a gente tem, né? Direito à alegria e não à tristeza, né? Exatamente. Professor Jeferson Picanso, muito obrigada pela sua participação aqui, pelos esclarecimentos também. Eu que agradeço, muito, foi muito bom. Agradeço também a sua audiência e até o próximo ponto de vista.