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[música] [música] Trabalhar o tempo todo, estar sempre disponível e sentir culpa ao descansar fazem parte da rotina de muitos brasileiros, mas ao mesmo tempo crescem os casos de estresse, ansiedade e esgotamento relacionados ao trabalho. Mas afinal, é possível conciliar autodempenho e qualidade de vida? Como encontrar esse equilíbrio e quando o desejo de produzir deixa de ser saudável e passa a comprometer a saúde? Para falar sobre esse tema, recebemos hoje, no ponto de vista a escritora, mentora e especialista em organização e produtividade, Juliana Santana. Juliana, seja muito bem-vinda ao Ponto de Vista. Obrigada. É uma alegria estar aqui participando do programa. Para começar, eh, o termo, né, hiperprodutividade tem sido cada vez mais utilizado. O que ele significa e como a gente pode diferenciar a produtividade saudável e um comportamento que pode levar ao esgotamento mental? A descrição inicial já era de hiperprodutividade. Tá trabalhando o tempo todo, aquela sensação de que eu tenho que estar produzindo e se eu parar parece que eu tô errada. Tô fora do jogo. O que que tá acontecendo? eu não pertenço ao mundo, né? Então, hiperprodutividade, essa sensação é quase um vício de ter que estar fazendo algo que leve algum resultado. Por exemplo, parar para ler, só se for pra faculdade, se for pro trabalho, parar para ler por puro prazer pode gerar culpa. Poxa, não tô participando, tô ficando para trás. Então, a hiperprodutividade é esse excesso, é essa cobrança que a gente gera na gente mesmo. Sim. E hoje em dia, né, muitas pessoas têm a sensação de que tá sempre muito ocupado, sempre fazendo muita coisa, mas no fim das contas acaba percebendo que não produz o suficiente, acaba sempre e faltando algo. E na sua visão, por que que isso acaba acontecendo? O início até da ideia produtividade deve ser por o que eu considero ser produtiva, porque eh de repente, né, produtividade para Camila é diferente de produtividade paraa Juliana. E aí a gente vai levar em consideração também o contexto. Eu tô só trabalhando, eu tenho filhos, eu tenho, eu tô casado. O que que tá acontecendo comigo hoje? E o que para mim é ser produtiva hoje? Para chegar a essa clareza? a gente tem que parar um pouquinho e aí analisar o que de fato eu quero. Será que o que eu tô vivendo todo todos os dias está me aproximando desse resultado? Porque na maioria das vezes parece que as pessoas não têm muita clareza do que elas querem, do para que elas estão fazendo o que estão fazendo. E aí nunca eu vou chegar a uma sensação de eu sou produtiva, porque eu não sei o que eu produzi. Lembra lá atrás na era industrial que tudo que eu tinha que fazer era martelar? E eu não sabia nem que produto final que saí, eu só fazia aquilo todo dia. Tem muita gente assim ainda que faz partes de processo, mas não entende o resultado que isso tá gerando, nem para ela e às vezes nem pra empresa. Quando eu tenho muita clareza do para que eu tô fazendo o que eu tô fazendo hoje, eu entendo o resultado que eu tô buscando, aí eu consigo medir o que é produtividade para mim. Então, o primeiro passo é ter essa pausa. Já é e contra o que é produtivo. Eu tenho que parar um pouquinho e pensar, tá? Eu tô acordando hoje para eu voltar pra cama hoje, final do dia, o que que vai me considerar produtiva? O que que eu tenho que fazer para que o dia seja produtivo? E aí, com essa clareza eu consigo definir um objetivo pro dia, pra semana, às vezes até pro mês. Nesse caso, eu consigo até parar sem culpa, porque eu sei o que eu já produzi, eu sei o que eu tinha que atingir e geralmente a gente faz isso com muito mais energia em menos tempo. E aí a gente percebe que as 24 horas como mágica se multiplicam, começa a sobrar um tempo. Mas é porque eu entendi o que é produtividade hoje ou para essa semana. Então eu tenho que ter muita clareza do que eu quero. A partir daí é que eu vou paraa agenda e aí eu consigo programar o que vai ser um dia produtivo, uma semana produtiva, porque eu vou conseguir medir esse resultado final. Uhum. E como parar? Eh, tem como estabelecer um limite entre o trabalho e a vida pessoal? Porque hoje em dia o mundo tá sempre conectado o tempo todo, né? Eh, tem o advento do home office, a gente responde mensagens de trabalho em casa, e-mail de trabalho em casa. Tem como parar, estabelecer esse limite? Sim, tem como. E eu digo mais, é necessário porque senão é muito fácil. A gente tá sempre ocupada, apagando o incêndio, fazendo um favor, resolvendo uma questão que é de outra pessoa. E como mãe, eu tenho dois filhos hoje com 14 e 15 anos. Isso tudo começou, eles tinham dois e três aninhos e eu fazia home office antes de 2020. Pensa uma mãe trabalhando em casa, tentando escrever, por exemplo, cuidando de duas crianças e da casa. O dia não tem fim. Eu não sei quando é dia, quando é noite. Se eu não priorizar e decidir que horas eu começo a fazer essa atividade e termino, às vezes eu não vou nem dormir. Para mães, principalmente é muito fácil a gente entrar nesse looping, não saber nem o que almoçou ou se almoçou, que horas foi isso, porque sempre dentro do mesmo ambiente, sem contato com alguém de fora, sem saber o que é mais o intervalo do almoço, é muito fácil a gente se perder. Então, de novo, eu tenho que entender o que vai ser produtividade para mim hoje, essa semana ou esse mês, olhar paraa minha agenda e começar a mensurar quanto tempo, quantos minutos ou quantas horas em cada atividade, porque se eu não estabelecer, o mundo se encarrega de preencher a minha agenda. E aí quando eu vi, o tempo passou e poxa, vem aquela sensação, eu não fiz nada. E é uma grande mentira, porque a gente fez muita coisa, só que a gente não tá conseguindo administrar. Tem que começar por quem vai viver a agenda. Essa pessoa tem que saber, porque as 24 horas não são negociáveis. Do jeito que a gente entende, né, tempo na nossa cultura são 24 horas para todo mundo. Se eu durmo oito, se eu trabalho oito, sobra oito para tomar banho, me deslocar, comer, fazer atividade física. Quer dizer, não vai sobrar. Eu tenho que pegar e administrar, tá nas nossas mãos. Sim. É bem possível. Fácil. Aí eu não sei responder, mas que é possível. É. Uhum. E você falou um pouco sobre essa coisa de ser mãe, né? Eh, administrar o tempo sendo mãe, tendo outras tarefas a mais ali no dia a dia, né? Eh, sendo mulher, principalmente, cuidar da casa, filhos, eh, da família. Eh, pode ser mais complicado gerenciar esse tempo. É, é mais complexo. E aí, eh, interessante também parar um pouquinho e pensar assim, né, ter a sua definição de o que para Camila é ser uma boa mãe, o que que enquadra nessa lista, o que que cabe nela e o que não cabe nela. Porque pra maternidade mesmo, nossa, o mundo é especialista em dizer o que a mãe tá fazendo de certo e o que a mãe tá fazendo de errado. E pra gente não enlouquecer, eu tenho que definir o que que é ser uma boa mãe segundo eu mesma. O que que eu vou colocar aqui que vai me liberar e vai liberar espaço na minha agenda para eu trabalhar sem culpa? de que eu deixei meu filho na creche, que eu deixei meu filho na escola, de que eu quero dormir. Às vezes, muitas vezes, a gente tem o meio da tarde para dormir, que a gente passa a noite com filho. E aí quando isso tá claro, eu consigo dormir no meio da tarde sem culpa, porque eu sei o que eu vou ter que trabalhar depois e o que eu o que eu vou produzir depois. Eu percebo de maneira geral que falta muito esse trabalho de olhar para dentro e entender o que é o certo para mim e aí sim ganhar essa autoconfiança para conseguir diferenciar, né, o que é opinião, o que é fato e eu o que eu tô considerando certo. E essa clareza que traz a paz mental e emocional que a gente quer e precisa sentir. Uhum. E quando a pessoa pode entender que essa rotina acelerada, ela pode começar a comprometer a saúde, dá para perceber isso? Sim. Aí eu também sou especialista nisso. Essa ideia toda começou porque antes de ser mãe eu trabalhava e eu amava trabalho. Aliás, só sofre de burnout quem ama seu trabalho. Que a gente para que que eu vou parar se eu adoro o que eu tô fazendo? E eu continuei. Eu tive o primeiro filho e na minha leiga cabeça de mãe assim: "Vou continuar com a agenda normal e o filho se encaixa aqui." No ano seguinte nasceu meu segundo filho e aí eu percebi, poxa, não dá para ser mãe do jeito que eu gostaria de ser seguindo essa rotina profissional que eu vivia. Aí veio o primeiro colapso e é aquilo, né? Eu sei que tá errado, eu sei que não tá bom, mas como eu não sei o que é e eu não quero parar, amanhã eu penso nisso e depois eu penso nisso. E assim eu fui adiando uma decisão que quando eu percebi eu já tava sofrendo de anemia e uma série de outras eh de outros sintomas assim que me levaram a uma cirurgia. Foi radical a minha decisão porque o médico falou: "Você tem 30 dias para fazer a cirurgia". E aí eu entendi, eu sei que não tá bom, mas eu não sei o que fazer. Eu sou obrigada a parar agora porque sem saúde eu não sou mãe, eu não sou profissional, não vou conseguir viver. E aí eu tive que eu tive esse tratamento de choque para entender o que eu vou fazer a partir de agora, que é quando a gente tem que parar e começar, será que eu preciso trabalhar todas essas horas? Será que tem que ser todos os dias? Para quê? o que que eu quero no final, né? E o que eu vou estipular de final paraa minha vida? Porque a gente precisa dessa meta. Ela tem que existir, ela tem que estar muito clara para eu entender para que eu tô acordando hoje. E definida a meta, entender que rotina eu vou viver até lá, que seja boa, que seja saudável, porque não tem garantias de que eu vou chegar lá. Pode acabar hoje, pode acabar amanhã. E aí eu tô incluindo na minha rotina as pessoas que eu digo que eu amo, os cuidados com a saúde que eu digo que eu tenho que ter, porque ficar adiando a saúde eu já entendi. E aí tem um outro episódio que eu falo aqui no livro também, quando eu passei por tudo isso, a minha irmã também na mesma época passava por várias mudanças, né? E a gente começou a pensar juntas até nessa carga que nós mulheres costumamos carregar, né? Da onde vem isso? Isso é histórico. A gente tem herdado quando a gente pediu demissão. Nossa, eu tenho que compartilhar assim. Eu sentia vergonha de dizer que eu não estava trabalhando. Ficou aquilo, quem sou eu? Se eu não tô trabalhando, eu existo. E vivi construir tudo isso com ela, né? A frase, "Vai dar tudo certo, criamos juntas". Porque isso foi 2013. E aí 2023 a minha irmã sofreu um acidente e acabou falecendo na hora. Então eu gosto de pensar assim, eu precisei passar por dois estados assim de choque para entender que a ideia tá certa. Eu tenho que ter uma meta, eu tenho que criar essa rotina, mas ela tem que ser boa hoje. Eu não posso depender do futuro para ser feliz agora. O que que eu tô fazendo agora que independentemente do que vai acontecer, eu tô perto de quem eu amo. Eu tô cuidando de mim. Eu consigo descansar e eu consigo curtir essa jornada que eu mesma criei. Uhum. E você falou uma coisa interessante, que você sentia vergonha de falar que não estava trabalhando. Por que que a gente sente isso? Essa vergonha de descansar, de dar uma pausa. É histórico aquilo de tá sempre martelando e fazer igual. Quem mais produzia valia mais. Então, meu valor era medido por produção, daí a hiperprodutividade. Se eu não tô produzindo, né, entendendo o resultado que estão me cobrando, eu me culpo, então eu não tenho valor. E aí a gente atrelou o nosso resultado profissional à nossa identidade. E o que é essencial entender que são ideias completamente separadas. Eu existo mesmo não trabalhando. Só que isso vem com treino, porque a gente se cobra, né? O resultado, o que se mostra como sucesso, eh, sei, uma medalha, uma promoção, a renda, mas será que é esse o sucesso que eu tô buscando para mim? Porque o que que eu tô para o que eu tô deixando de lado? O que eu tô recusando para chegar a essa meta? Porque chegar lá doente não vai adiantar. Chegar lá hoje meus filhos com 13 e com 14, 15, não. Eu assim tenho muito orgulho de dizer que eu vivia a infância junto com eles, porque não volta. Agora é legal tá com a mãe de vez em quando, né? querem os amigos, querem sair. Então eu pude participar do que eu considerava essencial, valioso. É trabalhoso, é um treino, mas é a nossa vida que tá passando. Então o que que eu tô fazendo com o meu tempo, com o que eu acho valioso? Ele aparece ali todo dia. É muito fácil dizer: "Ah, eu amo a minha família e eu abro a minha agenda". Ela aparecia sábado e domingo e aí eu tava tão cansada que eu não queria nem brincar com eles, não tinha força para isso. Aí olha a incoerência e aí devagarzinho vai minando a gente que leva as doenças que a gente tá vendo. Sim. E o que é ser produtivo, né? Porque a gente tem a falsa ideia de que é fazer o máximo de coisas possíveis dentro desse tempo que você falou que a gente tem de 24 horas. Mas essa é a melhor forma, como você citou, a melhor forma é gerenciar ali o seu tempo de melhor forma para você. Uhum. Então, cada uma de nós tem que definir qual é o meu máximo hoje, em que área. De repente é fazer três entrevistas hoje, tá de bom tamanho, tô lançando um livro agora, eu vou curtir os filhos que estão em São Paulo, eu vou passear, eu vou descansar um pouco. E isso é tão importante quanto a entrevista, quanto o lançamento do livro. O que que eu tô priorizando, né? Que peso eu tô dando para cada um? O que vai ser o máximo de hoje? Pode não ser o de amanhã. Mas se eu não colocar a minha intenção, se eu não tiver a clareza do que eu tô fazendo com o meu tempo, de onde eu tô investindo, eu vou me cobrar e eu vou gerar essa carga desnecessária. De novo, é a clareza. Muitas vezes eu não posso negociar. Tenho que trabalhar 8 horas por dia. OK. Mas das 8 horas que eu vou entregar hoje, o que que eu vou entregar pra empresa? Que ela vai sentir falta de mim, que ela vai entender: "Poxa, foi a Ju que fez, fez super bem feito." Aí eu consigo dizer: "Camila, te agradeço. Posso te pedir um minuto? Assim que eu terminar essa atividade, eu já falo contigo? Eu não vou dizendo sim para todo mundo, eu vou priorizando o meu tempo. Geralmente eu termino o trabalho muito antes das 8 horas que eu tenho e eu tô disponível aí sim para ajudar as outras pessoas. Essa sensação de produtividade não tem preço. Eu fiz o que era importante para mim ainda sobre o tempo e eu ajudei as outras pessoas. E é o que costuma acontecer quando a gente entende essa matemática não muito racional, de tempo com felicidade, com sucesso, mas que é possível sim. E falando dessa produtividade tóxica, né, a gente tem hoje em dia também as redes sociais, muitas pessoas mostrando ali suas rotinas, acorda 4 horas da manhã, vai treinar, parece que o dia delas tem muito mais de 24 horas. Isso também faz mal paraas pessoas que estão ali acompanhando isso e acham que não é possível. Uhum. Com certeza. E aí, eh, de novo, né, o que horário é o certo para mim? Com quantas pessoas eu trabalhei que acordavam às 4 porque queriam correr, meditar e ler, mas, poxa, elas trabalhavam até 10 da noite. Aí eu pergunto, é justo? Porque talvez a que tá acordando às 4 da manhã e publica vai dormir às 9. Ela não trabalhou até às 9, ela trabalhou até às 5, foi para casa, jantou e 9 ela já tava dormindo. A gente nunca vê ali quais são os bastidores, o que que tá acontecendo por trás e nem se é real, né? Então é legal buscar referências, ter padrão, ter um padrão que vai me ajudar a construir uma rotina melhor, mas não criar essa comparação que vai me destruir e minar. Poxa, que legal. A Ju acorda às 4. Eu acordo às 5 sem despertador, mas eu durmo às 9 mesmo. 8 horas a gente vai desligando tudo. Vamos sair para jantar. Eu brinco. Não, não janto. Eu já tô dormindo. Porque para mim eu sei que faz bem, mas de repente o teu horário é trabalhar até mais tarde e não te culpar por dormir até mais tarde. Já que tu trabalhou até mais tarde, precisa acordar às 4 às 7. Eu tenho a manhã livre. Quantas pessoas que começam a trabalhar ao meio-dia ou 1 da tarde e se cobram porque não acordaram cedo. Mas se você não precisa, para que que você vai acordar? É entender o que tá fazendo bem para você naquele momento, naquele contexto. Sim. E ainda falando das redes sociais, né? né? Hoje em dia que a gente tá sempre conectado, as pessoas acabam eh usando esse tempo que deveria estar descansando para ficar ali rolando feed por horas, vendo as redes sociais, mas muita gente considera que isso não é uma forma de descanso, porque você não tá descansando a sua mente. É correto a gente afirmar que usar esse tempo de descanso para ficar ali nas redes sociais não é descansar? Hum, [limpando a garganta] é correto de ser isso sim, porque a não ser que como maratonar a série ou até sair para uma corrida, qual é o seu tempo limite? Porque a gente vai ter um tempo prazeroso, a partir daquele ponto, tudo vai se tornar cansativo. Quantas pessoas que maratonam ao fim de semana inteiro e começa a segundo exaustas, porque a sensação de o que que eu fiz de bom, de legal, por mim não veio, porque a gente vai ter esse tempo limite, cada um vai saber o seu. Eu gosto de ver rede social como um canal de comunicação totalmente neutro. Ele existe. Eu vou definir se vai me fazer bem ou se vai me fazer mal. Então, por quanto tempo eu consigo realmente curtir, ver o que a Camila tá fazendo, o que tá acontecendo de legal. E deu, acabou, agora eu vou fazer a minha vida. Eu tenho que perceber isso. Eh, a produtividade em si é 100% dependente de quem tá vivendo. Eu vou definir o que é produtividade para mim, o que é sucesso para mim, né? O que é ser feliz para mim. E a rede social, gosto de pensar, ela tá ali para me ajudar, mas a responsabilidade é minha em fazer desse canal aliado e não alguém que tá me eh segurando ou causando esse essa preocupação desnecessário. Uhum. E ainda falando desse contexto, muitas pessoas costumam para eh manter esse nível de produtividade, elas costumam sacrificar o sono, eh dormem menos. Isso também é prejudicial? Sim. Eh, com certeza, né? Fala-se muito das 8 horas por noite, é tido como um padrão. Sabe-se que algumas pessoas menos, algumas mais, inclusive. Então, de novo, saber o que que me faz bem, quanto tempo de sono me faz bem e priorizar, porque em longo prazo é a minha saúde que tá em jogo. E sem saúde eu produzo mes pensar em produtividade. A qualidade do meu trabalho cai, tirar férias doente não dá, sair para passear doente não dá. Então a saúde tem que vir em primeiro lugar. Sim. E aí falando eh em saúde, adoecimento, eh hoje em dia a gente comenta muito sobre o burnout, que é eh que acontece por conta desse trabalho em excesso. Uhum. Eh hoje em dia isso tem aumentado também, as pessoas recebem mais diagnóstico dessa doença. Isso tem muito relação com essa hiperprodutividade? Sim, total. E tem muita relação com o quanto eu amo o que eu faço, porque daí eu quero fazer mais. E aí, às vezes, eu até eh o meu trabalho não é em casa. Eu saio, trabalho, mas eu chego em casa e como eu gosto tanto do que eu tô fazendo, eu continuo trabalhando em casa, entender qual é o meu limite, qual vai ser o meu equilíbrio saudável. E se eu não criar uma outra fonte de prazer além do trabalho, eu vou sempre trabalhar. Então, o que mais? Seria com a minha família, seria com os meus amigos? Seria uma atividade física? Como que eu posso distribuir o meu tempo e a minha energia para ter esse equilíbrio? Mas se eu não sei qual outra fonte de prazer além do trabalho, que que eu vou fazer? Trabalhar. Uhum. E aí eu gero o que a gente tá vendo hoje. Sim. E além das ações individuais, qual o papel das empresas também nesse processo? Eh, hoje em dia a gente também tá comentando muito sobre as novas normas da NR1 que tratam sobre eh assuntos psicossociais, psicomentais. Eh, qual a importância também debater esses assuntos no âmbito das empresas? É essencial. também tenho eh participado e e dado palestras e até workshop assim de como distribuir suas horas, o que tá acontecendo, porque a gente não aprendeu acho que nem na escola a fazer a nossa agenda, né? Nossos pais também não sabiam como distribuir as horas deles. Então tá na hora de falar, você tem esse tempo aqui dentro, esse tempo para entregar esse trabalho. O que que a gente pode fazer para otimizar, para melhorar? para distribuir melhor e colocar também a responsabilidade do uso do tempo para cada um. E aí, geralmente, de novo, eu consigo fazer o que eu tenho que fazer em menos tempo, me sobra mais tempo e energia para ajudar a equipe, para ajudar a empresa. E quando isso acontece, eu faço com menos cobrança, eu faço com muito mais leveza e todos tendem a ganhar. Uhum. E você citou um pouco sobre o seu livro, né? Vai dar tudo certo. Nele. Você aborda isso, como fazer essa mudança? Sim, com certeza. Primeiro aconteceu na mudança de carreira para fazer a transição e depois, né, com o luto da minha irmã, é aquilo de olhar pra situação do jeito mais racional possível e analisar assim numa empresa, por exemplo, eu sou contratada para quê? O que que eu entrego que só eu posso fazer aqui dentro? E aí eu consigo visualizar esse contexto de fora e começar a criar, tá? Dentro do que eu tenho que fazer, o que é possível, o que é necessário, o que eu quero, o que eu não quero. Eu eu distribui o vai dar tudo certo no V de visualizar. Então é enxergar o contexto de fora. Aconteceu tudo isso comigo. De tudo que aconteceu, o que que eu posso fazer? O que que eu tenho controle e o que eu não tenho como mudar e controlar. Só aí eu já ganho pais. Depois de visualizar tudo, eu defino de tudo que é possível o que vai ganhar a minha atenção hoje, de preferência uma única atividade ou um único projeto de cada vez. E aí a gente consegue criar o trabalho que é a letra T, usando o tempo que a gente tem para construção desse projeto ou desse relatório. É impressionante como vai sobrar tempo. E a letra C do compartilhar é de uma vez por semana na equipe, na empresa, prestar contas. colocar assim: "Olha, a minha meta para essa semana era fazer isso. Deu super certo, porque eu fiz isso, isso, isso desse jeito." É compartilhar com aquele grupo que entende a sua situação, que pode ajudar a já programar a semana seguinte. Ou eu posso chegar, olha, eu queria ter feito isso, eu não fiz nem metade. Não deu nada certo essa semana. Então vamos analisar de tudo que você fez, onde que foi o ralo de tempo e de energia, aonde que você otimizou para na semana seguinte a gente fazer diferente. Então eu compartilhar com quem valoriza o que você valoriza, acredita no que você acredita e tem metas semelhantes. Aí esse grupo se une e se ajuda muito, que são os grupos de corrida, os grupos das 5 da manhã, porque eles têm um paraquê juntos, né? Então funciona assim. Certo? Então, uma das formas de resgatar esses momentos de lazer é também adotar um hobby. Pode ser um caminho. Sim. Maravilhoso. Uhum. Ou aprender uma atividade nova. O que que eu tô trazendo de desafio prazeroso para mim além do trabalho? Com certeza. E quantos que começam a correr e aí já são triatletas e viram Iron Man? porque tá fazendo bem, tá tá sendo uma distribuição saudável do tempo e da energia, né? Sim. E antes do Vai dar tudo certo, você já havia publicado outras obras também que tratam sobre a mesma temática. Você pode falar um pouquinho sobre elas também? Uhum. Quando eu comecei a quando eu saí da sala de aula, né, e da coordenação e comecei a ajudar, no início foram professores, a não viver aquela carga que eu vivia, eles começaram a me contratar, me indicar e eu comecei a perceber assim, tá? Então, o que que eu faço quando eu também não sou professora? Aí eu ajudo as pessoas a se organizar, foi daí que eu pensei. E aí o primeiro livro se chama O Poder da Organização. Porque eu falava uma frase, já ouviu a famosa? Eu não tenho tempo. Uhum. Ah, eu não tenho tempo. Eu acreditava, tudo que eu preciso é mais tempo. Quando eu tiver mais tempo, meus problemas estão todos resolvidos. Sim. A gente até torce podia ter mais de 24 horas para ter mais tempo de fazer as coisas. Exato. Aí eu fiquei doente, pedi demissão, tive todo o tempo do mundo, segunda-feira de tarde em casa e eu tá e o que que eu faço com o tempo que eu tenho? E foi horrível assim a sensação de incompetência. Eu não sei o que fazer com o tempo que eu tenho, porque eu sempre trabalhei para outros que diziam o que eu tinha que fazer com o meu tempo. E agora como é que eu decido? Aí era segunda, eu piscava, já era sexta e o meu Deus, eu não produzia nada. Eu comecei a ajudar as pessoas a criar objetivos além do profissional pessoal para fazer bom uso do seu tempo e se sentirem bem com a vida que estavam vivendo. Então esse foi o poder da organização. Um efeito colateral disso é que aí a gente quer o mundo. Eu vou escrever o livro, vou começar a correr, eu vou meditar. E aí veio o organização na prática, que é para quem tem 1000 ideias, 1000 projetos e aí quer viajar, quer aprender espanhol, francês e todas as ideias são maravilhosas, mas quando elas não acontecem elas também viram cobrança. Eu digo que eu quero, mas eu não faço. E aí tudo que era para ser muito legal, um sonho vira um pesadelo. Então, como organizar todos esses projetos e colocar em prática um de cada vez até que você faça de um jeito tão automático que você consegue fazer mais de um simultaneamente. Isso também vai vir com o treino. E aí eu aprendi que para conseguir fazer tudo isso, a gente tem que dizer não várias vezes por dia. E não é fácil dizer não. parece que eu tô sendo agressiva, que eu tô sendo má com a outra pessoa, que eu não quero ajudar. E nesse não, na prática, [risadas] eu criei várias frases Uhum. recusando convites sem usar a palavra não, de tão difícil que era para mim dizer não, até chegar uma hora que a gente aprende a dizer não, obrigada e não tem nem que justificar. Uhum. Vem com treino também. Então, veio tudo da organização. [risadas] Sim. E você já falou um pouco, eh, mas como que a pessoa pode fazer ali na prática para conseguir, eh, gerenciar essa agenda? Você falou que tem que ter muito autoconhecimento também. Uhum. Perfeito. O primeiro grande passo, assim, o mais importante, é entender que na nossa cultura, do jeito que a gente entende tempo, a gente dividiu o dia em 24 horas, a semana em 7 dias, um mês em 30 dias. E isso é cultural. Nem todos os lugares funcionam da mesma forma, né? Então eu vou pegar uma folha de papel ou uma tela e divid em sete colunas. Cada uma é um dia da semana. E aí eu vou começar a escrever que horas eu começo o meu dia fazendo o quê. É como se eu tirasse meu dia de dentro de mim e colocasse do lado de fora. E é muito legal assim, ó. Quanto maior a tela se eu usasse essa aqui, mais eu consigo fazer. Quanto menor a tela, menos eu consigo colocar. O nosso campo de visão tem ligação direta com a nossa produtividade. Vamos colocar assim. E aí eu tenho que analisar de fora assim, poxa, a Ju tá vivendo essa agenda aqui e desse jeito ela tá doente. Então, qual seria o jeito para que ela ficasse saudável? Porque eu só vou conseguir melhorar de fato que eu consigo mensurar. E o tempo para ser mensurado, ele tem que ser visível. Pode ser numa folha, pode ser numa tela, mas eu tenho que ver tudo que eu tô fazendo fora de mim. Aí eu consigo entender por que eu passo duas horas em rede social e aí começa a doer. Uhum. Por que que eu passo 3 horas tomando banho? Não sei. Será que eu preciso de tudo isso? Será que não tá me esgotando em vez de me trazer mais energia? Então, o primeiro passo é ver a sua agenda num campo físico, não só mental. E aí, com base nisso, entender se desse jeito eu não tô feliz, o que me deixaria feliz. Aí eu consigo fazer ajustes pequenos nessa agenda para ir criando a que seria a minha ideal. Uhum. E nessa agenda ideal é você coloca ali, vai colocar ali as suas tarefas, por exemplo, eh, não deu para fazer uma tarefa na segunda-feira, 3 da tarde. Como que a pessoa lida com essa frustração também, né? Porque tem uma cobrança. Uhum. Com o tempo a gente também começa a entender assim quais são os nossos melhores horários de funcionamento. Tem gente que funciona muito bem de manhã cedo, que é o meu caso. Tem gente que só funciona depois do meio-dia, tem gente que é final da tarde. Então, seja legal com você. No seu melhor horário, coloca aquela atividade que para você é a mais importante, que você tem certeza ou quase certeza de que você não vai adiar. ou para escrever o livro. Como eu acordo cedo, eu coloco no primeiro horário da manhã, que eu sei que tá todo mundo dormindo, meu celular não vai tocar e eu só vou fazer isso por 20 minutos. Ah, dá para escrever um livro em 20 minutos? Não, mas 20 minutos todo dia eu escrevi em 3 meses. Então é é pouquinho, com uma baixa frequência, né? Um baixo período de tempo e depois eu tô liberada para fazer o que a vida vai trazer para mim. Sim, Jena, pra gente já ir encerrando o programa, né, em um mundo que cobra tanto da gente, tanta produtividade o tempo todo, como que a gente consegue identificar aí nessa agenda que você falou, o que merece um espacinho na nossa vida, que a gente tem que priorizar o nosso tempo? Eu gosto de pensar assim, né? Cada uma aqui ganhou uma dose de tempo que a gente não sabe qual é. O que faria com que eu olhasse paraa minha vida assim com aquela sensação de orgulho, de alegria, de realização, porque fui eu que fiz. O que para você seria? Nossa, eu fui pra Grécia, eu tive filhos, eu que para você isso não pode ser adiado? Esse é o seu grande sonho. E se for aquele dá, mas se eu não fizer, tudo bem. Esse não é seu grande sonho ainda. Mas é o seu tempo, é a sua passagem por aqui, o que para você vai fazer com que tenha valido a pena. E aí a gente até para de ouvir o mundo, porque a vida é minha, o tempo é meu. O que que eu tô fazendo que vai me dar essa sensação? Perfeito. Juliana Santana, muito obrigada pela participação aqui conosco no ponto de vista. Se você quiser, pode fazer suas considerações finais. Ah, muito obrigada. Que eu gostaria que as pessoas experimentassem de fato o método. Não tem depois, não tem cuidado da saúde amanhã ou lá pra frente. Começa agora entendendo que é a sua vida, é você que tá sentindo e que você merece sim ser muito feliz hoje. Muito obrigada mais uma vez. Obrigada também a você pela audiência, por ter acompanhado até aqui mais um ponto de vista. Nos acompanhem também pelas redes sociais TV Câmara Campinas. Até mais. [música] [música]