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[Música] Olá, pessoal. Mais um Saúde à Vida começando para você aqui na programação da TV Câmara Campinas. Hoje nós vamos falar sobre o Maio Furtacor, que é uma campanha que visa sensibilizar a população para causa da saúde mental materna. Mas antes eu tenho um recado para você que tá em casa, que para participar do Saúde é Vida e sugerir um tema aqui para o programa é bem fácil. É só você entrar em contato pelo nosso WhatsApp. O DDD é o 19, o número é o 97829377. Vai aparecer aí na sua tela também um Qcode para você acessar pelo celular. A OMS, que é a Organização Mundial da Saúde, aponta que uma a cada cinco mulheres terão pelo menos um episódio de transtorno mental na gravidez ou no primeiro ano de vida do bebê. Isso significa que mais de 20% delas podem estar nesse momento com a sua saúde mental. comprometida, prejudicada. As tarefas a gente sabe que são muitas. Acordar as crianças, fazer o café da manhã, levar pra escola, preparar o almoço. Mas a grande questão é: e quem cuida? De quem cuida? Para falar sobre esse tema, a convidada do programa de hoje é a psicóloga Celina Riguete, especialista em neurociências, educação e desenvolvimento infantil e também terapia comportamental. Celina, muito obrigada pela sua participação aqui no Saúde à Vida. Obrigada a vocês, Celina. Vamos começar aqui, né, nosso bate-papo explicando primeiro o que que é a saúde mental materna, porque muita gente só escuta falar de saúde mental, mas não sabe que existe também a saúde mental voltada aí paraas mães. Eu gostaria que você explicasse então pra gente, tá bom? Saúde mental todo mundo sabe mais ou menos o que é, né? Saúde psicológica, é aquilo que a gente vive, aquilo que a gente sente, aquilo que a gente pensa, o quão bem emocionalmente a gente tá. né? A maternidade ela tem algumas demandas que são muito específicas. O trabalho de cuidado, a tensão 100% do tempo, né? O a privação de sono que você tem quando você dá luz, hã, o próprio o próprio trabalho mesmo de cuidado em si, né? ele já é bastante demandante, bastante exaustivo. Criar, educar um ser humano, mantê-lo vivo, é um trabalho bastante complexo e desafiador. Então, a gente usa o termo saúde mental materna para falar especificamente da saúde mental da mulher mãe, né, que é abalada, impactada por diversos fatores que são diferentes do de uma mulher, não mãe, de um homem, enfim. Então, por exemplo, a gente sabe que uma a cada quatro mulheres têm depressão pós-parto, né? Então, esse é um fator de saúde mental que é impactado efetivamente pela maternidade em si, né? Não especificamente pela maternidade em si do tipo é ser mãe, que é o problema, não é isso, né? Mas é a falta de política pública, é a falta de rede de apoio, é a falta de corresponsabilização dos genitores, né? E a falta de tribo, exatamente, falta de aldeia que a gente não tem mais. Exatamente, né? Não é o, eu acho bem legal a gente explicar isso, que não é o fato da da pessoa ser mãe, né? É o fato do que isso implica, né? As responsabilidades que isso traz e é e exatamente essa falta, né, dessa rede aí de apoio, desse dessa compreensão desse momento, né, Celina? É, é. E isso eu falo sempre assim, porque as pessoas confundem muito, né? falando, mas nossa, mas você não gosta de ser mãe, né? Ah, então a mulher escolheu ser mãe, mas não quer ser mãe? Enfim, não tem nada a ver com a maternidade em si, não tem nada a ver com o filho, não tem nada a ver com a mulher, né? É o sistema em que a gente vive que realmente não cuida das mães. Então, a gente não tem políticas públicas efetivas. Então eu sempre dou um exemplo, a mulher associação de pediatria recomenda que você amamente até os se meses exclusivamente e a mulher tem 4 meses de licença maternidade, então a conta já começa a não fechar desde o princípio. É isso mesmo. Então eh não é maternidade em si, mas é um sistema, um sistema individualista que não tem política pública efetiva. A gente não tem mais rede, a gente não tem mais pessoas maternando junto com a gente. Então, as mulheres elas estão sozinhas entre quatro paredes cuidando de uma criança, muitas vezes sozinhas mesmo o tempo todo. E isso impacta, né, o maternar. Então, não é o maternar, não é o ser mãe, é o maternar numa sociedade como a nossa. Eu gosto de deixar isso sempre bem claro, porque as pessoas confundem demais e aí já começo a achar que você que não gosta de ser mãe, tem mulheres que não gostam de ser mãe, né? Realmente tem, mas não é por isso, não é essa a questão, né? Não é isso que faz com que a gente precise efetivamente de apoio e até a parte de ficar, você pode gostar, pode não gostar, você precisa de apoio independentemente, né? Eu gosto de ser mãe, por exemplo, eu sempre falo, adoro ser mãe, eu gosto. É um uma mudança na sua vida super positiva na minha opinião, né? Mas a minha opinião é a minha vivência não é a vivência de todo mundo. Então a gente precisa olhar para essas camadas da população, né? paraa população mais vulnerável, paraas maternidade negra, por exemplo, que sofre muito mais violência obstétrica, que sofre muito mais com problemas financeiros paraa maternidade atípica, né, que é uma maternidade com uma camada extra de desafios e de questões a serem resolvidas, né, e enfrentadas. Eh, então a gente precisa olhar com esse recorte, né, e todas nós precisamos. Então, não é maternidade, não é ser mãe, mas é o fato da gente maternar com essas condições, ã, quase desumanas, né? Exatamente. Até aí quero complementar a sua fala no sentido de que a gente também não pode romantizar tudo e muito, né? Porque existe a parte boa, bonita, mas também existe a parte difícil, complicada, de sofrimento. Então, acho que é importante falar sobre isso também, né? E aceitar que vai ser duro, vai ser difícil. E isso não significa que a mulher não ame ou ame menos o filho, né? Exato. Exatamente. Eh, eu sempre falo, né, mas por que que você tá falando da parte negativa, né, da parte que é complexa, que é desafiante, porque a maternidade ela já é muito romantizada, né? Então, essa parte que você falou assim de da parte boa, do quanto é gostoso uma criança, de você ver um ser humaninho crescendo, de você ter aquele amor, né, ter aquele abraço e e se fazer o seu dia por um lado muito mais complexo, mas por outro muito mais feliz. Então, essa parte a gente já fala muito, então a gente precisa falar do outro lado. Por quê? Por que que a gente precisa falar tanto? Porque as mulheres estão adoecendo e morrendo, né, por falta de um olhar mais carinhoso, mais atento pro que é você efetivamente lidar com o trabalho de cuidado, de manter um ser humano vivo, feliz, responsável, ativo, com todas as tarefas que isso demanda na rotina, né? escovar dente, fazer comida, eh levar paraa escola, buscar na escola, buscar na creche, encontrar pessoas para estar com a criança quando você precisa trabalhar. Então são tantas questões, tantas camadas de problemas que a parte da romantização a gente já fala, né? A gente já sabe bem, né? As propagandas de margarina tão aí para para mostrar as novelas, né? os filmes. É, exatamente, Celine, eu queria que você falasse um pouquinho, então, qual que é a importância da gente abordar esse assunto. É justamente isso, né? A gente tem um nível de adoecimento materno muito alto. Então, a gente tem depressão perinatal, a gente tem o burnout materno que tá crescendo, né? A gente tem uma última pesquisa que acho que foi feita pela Bitum Mem que mostra que 90% das mães estão em sobrecarga. 90%. Então é muita coisa, quase todas, né? Então praticamente, até porque muitas vezes é subnotificado, às vezes é uma uma maternidade que realmente tem muita rede de apoio, muita estrutura financeira, ã muita estrutura emocional, pode pagar uma terapia, por exemplo, né? E aí talvez esses esses 10% estejam meio subnotificados e ou estão englobados nessa nessa parte de uma maternidade um pouco mais leve, um pouco mais fácil, um pouco mais tranquila, né? Mas a gente precisa falar sobre isso porque as mulheres estão adoecendo. As mulheres estão adoecendo e morrendo, né? Hoje eu dei uma palestra lá no no distrito Suleste pros profissionais de saúde e e contei esse que ninguém as as pessoas não sabiam, né? esse caso da das mulheres da daquela mãe que, por exemplo, se matou o próprio filho e se suicidou em seguida uma senhora, né, com um filho atípico que não tava dando conta de fazer tudo sozinho, todas as responsabilidades, todas as demandas, né, toda a sobrecarga mental, né, de criar, educar uma criança, ser responsável por ela, uma criança ou um adolescente ou um adulto. E a gente tem muitos casos disso, são casos mais dramáticos, né? assim de morte mesmo, de morrer de exaustão ou de morrer de por causa de suicídio. Mas a gente também tem o adoecimento mesmo, né? O adoecimento, a depressão, a ansiedade, o burnout e a própria, assim, ainda que a gente não fale em adoecimento, que são níveis muito altos e muito alarmantes, né? Então, a gente precisa assim falar sobre isso, mas ainda que a gente não tivesse o adoecimento, a gente tem o o cansaço, né? de você não ter um tempo de descanso, de você não ter pausa, não ter férias, é sem falar, o trabalho de cuidado é um trabalho sem pausa, sem férias, sem remuneração e sem validação social, né? A gente é levada à maternidade, a gente, por isso que a gente chama de maternidade compulsória, né? Porque a gente não tem uma consciência específica do que é ser mãe e a gente vai sendo mãe. A gente, eu digo como sociedade, tá? a sociedade vai sendo mãe sem muito saber o que que é aquilo, o que que vai significar na vida da pessoa, que que impacto aquilo vai ter na vida da criança, de si própria, da família, né? Então a gente precisa estar atenta a essas questões a despeito de se ou de de se havia ou não adoecimento, mas além de tudo tem o adoecimento que tem níveis extremamente preocupantes e tem também as mortes, né? o primeiro ano de vida, por exemplo, do bebê, que a gente tem um nível de suicídio muito alto, então a gente precisa estar muito, muito atenta a essa demanda. E o que eu sempre falo assim, eh, primeiro lugar, pode ser que você não seja mãe, né? Mas você é filho de alguém, filho de uma mãe, né? Então você precisa, todo todos nós somos, então a gente precisa olhar para isso com cuidado. E assim, hoje a gente sabe, né? Hoje não há controvérs na ciência, por exemplo, que que o a saúde mental materna impacta o desenvolvimento do bebê, da criança, do adolescente, né? Então a gente precisa olhar paraa infância, não tem como a gente olhar só paraa infância e não olhar para quem tá cuidando dessa criança. Então é um tema urgente e no sentido humano, né, da gente precisar lidar com essas acolher e cuidar dessas mulheres e até no sentido econômico, né? Porque a gente sabe que a gente tem diversas pesquisas falando sobre isso, que é melhor você cuidar bem efetivamente da criança do que depois colher as consequências de uma criação complexa, desafiadora demais. E a gente sabe que as pessoas estão criando dessa maneira, né? sozinhas, com pouco dinheiro, inseguras, sem saber o que fazer, como que se, como que educa, como que cria, comparando, né, com com a internet, com outras mães do Instagram. Então, a gente tem camadas e camadas assim de problemas ainda sem chegar na parte do adoecimento, mesmo não chegando na parte do adoecimento. Com certeza. Celina, até queria que a gente abordasse agora um pouquinho como que a maternidade ela pode afetar a saúde mental. Por exemplo, a gente falar da dessa questão da privação do sono, da pressão social, porque a mãe o corpo vai mudar e os hormônios estão ali agindo, né? Também tem a questão das mudanças no relacionamento com o parceiro, que isso também eh sofre aí um um uma alteração, né? o o a mulher e o homem, enfim, ficam bem mais assim distantes, né, por conta da do do dos filhos e tal. E também a questão da autoestima, que isso eu acho que a mulher também é bastante impactada nesse sentido, né? Sim, sim. A gente é impactada desde o princípio, né? Então, desde da gravidez, aquela revolução hormonal já tão drástica, né? Depois no parto, depois com a amamentação, a privação de sono. Eh, eu sempre uso um exemplo que assim, quem nunca foi numa balada, num bar, numa boate, por exemplo, não ficou até 5 da manhã e teve que trabalhar no dia seguinte, né? Eh, cuidar de um recém-nascido é você viver nessa balada sem descansar no dia seguinte, né? Então você acorda 5, 10, 15 vezes por noite, então você não consegue dormir às vezes nemhum hora seguida, né? Então isso impacta a privação de sono. A gente sabe que impacta a saúde de uma forma inestimável, né? Não só a saúde psicológica, como a saúde física também. Então todas essas variáveis, né, que estão ali desde o princípio, desde a variável hormonal, a variável de mudança de vida, a privação de sono, ã, a falta de a própria mudança de identidade, né? Você de repente você é é muito louco assim, né? Você vai, você sai, você sai uma pessoa só, vai pro hospital e volta com duas, né, com uma no colo. Então, uma mudança muito radical de, de estilo de vida, de de rotina, de cotidiano, a própria perda da identidade, né? Hoje eu não sei mais. A mulher, normalmente, uma em cada duas mulheres perde o emprego após ser mãe. Quem não perde, por exemplo, um profissional liberal, no meu caso, que sou psicóloga, não pode trabalhar, porque como é que você trabalha? Em privação de sono, amamentando de uma em uma hora, né? Então são a mulher, ela é toda impactada pela maternidade. Isso falando da parte complicada, né? Como eu falei, não é questão de não gostar ou questão de é como você tocou bem bem colocou bem um fator, uma coisa bem importante, né? Não é não gostar, não é não querer, né? Tem muita maternidade que é planejada, que é muito desejada, né? Que é muito até razoavelmente tranquila, mas não é a maioria da população. A maioria da população tá sofrendo com saúde mental, a maioria da população tá sofrendo com saúde física, né? A maioria da população tá sofrendo com a boa parte da população tá sofrendo com abandono paterno. A gente tem 11 milhões de mãe sola no Brasil. A gente tem 5 milhões de crianças sem o o nome do pai na certidão, né? Eh, a gente tem uma cada quatro sofrendo de depressão pós-parto, a gente tem 90% delas sobrecarregadas. Então a gente precisa olhar isso isso com muito cuidado. E a autoestima, a questão do parceiro, né? você perguntou, hã, é muito comum que a mulher, porque a gente passa a cuidar de um ser humano que depende 100% de você o tempo todo, 7 dias por semana, 24 horas por dia, né? Então você tá em privação de sono, tendo uma revolução hormonal no corpo, mudando completamente sua vida, sua rotina, sua identidade. E aí muitos homens querem atenção, né? Não compartilham as responsabilidades, não compartilham as tarefas, o cuidado, o trabalho. É porque a única coisa que o homem não pode fazer é parir, gestar e amamentar, né? O resto tudo é possível. Mas muitas vezes a gente ainda vive numa cultura em que o homem é é a gente fala que ter paternidade opcional, né? Eles escolhem se eles vão depois de ter filho, se eles vão ser pai. E muitos escolhem não ser, né? Muitos escolhem participar, não compartilhar as tarefas de cuidado e as tarefas de casa. Ã, largam toda ou boa parte da responsabilidade pra mulher. E aí que acontece? A mulher para de admirar esse cara, né? Falando de uma de uma relaçãoormativa entre homem e mulher, ela para de admirar, ela tá exausta, ela tá privada de sono, ela tá com os hormônios ali completamente enlouquecidos. E como é que ela vai, né, ter vontade de dar atenção para essa pessoa que tá ali só exigindo, né, e fazendo pouco ou nada, como é muitas vezes o caso. Então não tem como não impactar. né? O relacionamento, o que os homens precisam entender é que o filho é deles também, né? Então, que eles também têm que trocar fralda, que eles também têm que alimentar, que eles também têm que cuidar, que eles também têm que dar colo e afeto, principalmente, muito mais do que prover financeiramente, né? Que é considerado socialmente um papel mais do homem. A gente já tá em 2025, né? Então, não é para pra gente ainda acreditar que o homem tem que prover financeiramente. O homem tem que tá ali, tem que ser pai, tem que ser responsável, né? Então isso não tem como não impactar o relacionamento. A mulher pede admiração e muitas vezes o cara também, porque ai, mas ela tá muito largada, mas ela tá muito mal arrumada. É claro que tá. Ela tá exausta, ela tá em privação de sono, ela tá com os hormônios ali, a flor da pele, é lógico que ela vai est em outro momento, né? Que a prioridade agora é o bebê. E até a gente tem mudanças cerebrais também, né? Hoje a gente sabe que a gente tem mudanças cerebrais que fazem com que a gente fique mais hipervigilante e mais hiperconcentrada na criança por uma questão de sobrevivência. Então a gente não tá, as mulheres não tão pensando, né, em cuidar do relacionamento, como normalmente é imposto a elas, né, cuidar do relacionamento geralmente é uma uma carga da mulher também. E aí nesse momento elas não estão podendo fazer isso, né? A autoestima. Eh, eu acho que mais do que da questão da autoestima é você se se vê de repente num papel que você não sabe exercer, que nunca ninguém te ensinou, que não tem ninguém ou tem muito pouca gente te apoiando. Tem uma pressão social de você ser uma mãe perfeita, incrível e tá sempre bonita, com a casa arrumada e cuidando maravilhosamente da criança, com paciência 100% garantida. E então ela tá num num papel que não tem como dar conta. Essa conta não fecha nunca. E tem o problema do trabalho, tem o problema da privação de sono, tem o problema da pressão social, dos julgamentos, das críticas, dos famosos pitáculos. Então, acho que mais que autoestima é mesmo essa questão de mudança de de papel social, né, de identidade, de papel social, de visibilidade. Quando você tá grávida, ã, é como se você ainda desistisse. Depois que você tem o bebê, você é meio que largada assim, as as mães em si, as mulheres em si no Brasil são meio que largadas e se vira aí com essa criança. Elas não foram preparadas para isso. Ninguém foi, ninguém foi preparado para cuidar de uma criança entre quatro paredes. A gente sempre maternou em grupo na nossa história do do mundo, né? A gente sempre maternou em tribo, com todo mundo cuidando, com todo mundo exercendo tarefas e papéis. E agora a gente, as mulheres maternam sozinhas, no máximo com um companheiro ali que às vezes dá mais trabalho do que o próprio bebê. né? Ou com a a avó, a tia, tem sempre no máximo você, a mãe e mais umas duas pessoas, sempre no máximo, né? Então não tem mais a tia, prima, avó, vizinho, poucas exceções. Eu acho que tudo tem exceção, né? Mas a, tô falando de maioria, tô falando de estatística, boa parte dessas mulheres são, dessas crianças são abandonadas, né, pelo pai e pelo genitor. E boa parte não tem família. Hoje cada uma mora num país, né? tem a maternidade estrangeira também, que é muito complexa, muito desafiadora. Você tá em outro país e tendo que lidar com todas as questões da maternidade em si e mais a falta de rede de apoio e de próprio conhecimento ali, né, de pertencimento ao país. Tem maternidade atípica que tem, como eu falei, tem uma camada extra de desafios. Então são diversas questões que não tem como impactar percebe a saúde da mulher, não tem como. É inevitável dessa forma não tem como. Deveria ter, né? Para isso que a gente luta, para mais políticas públicas, paraa população se tornar mais consciente de que o trabalho de cuidado tem que ser compartilhado, não responsabilidade de uma única pessoa, né? a gente luta para que os os homens também percebam o seu papel no trabalho de cuidado, no vínculo afetivo, no colo, no apego. Então, mas do jeito que é, não tem como não impactar a saúde, né? Exatamente. Até queria fazer um parênteses, né, naquele momento que você falou da do das relações, né, muitas eu acompanho algumas mães, né, sou amiga de algumas mães e elas relatam: "Nossa, depois que eu tive meu filho, eh, minhas amizades mudaram, ou seja, os amigos sumiram por ainda quando ela está grávida, como você disse, ela existe. Depois que ela teve a criança, parece que o pessoal se afasta." É isso mesmo, Celina? É, é por diversas questões. Primeiro lugar, a você realmente não tem como dar atenção para mais coisas se você tá sendo praticamente a única ou a principal responsável por um ser humano, que depende 100% de você, 100% do tempo, né? Então não tem como você dar atenção a muitas outras coisas. Mas também tem uma questão que é cultural, né, que essa questão essa coisa de da gente maternar sozinha mesmo, de desse hábito, né, de uma sociedade individualista, capitalista, que tá sempre pensando na produtividade, deixar as as mães maternárias sozinhas. E essa questão cultural também, né, de de que a mãe dá conta, de que a mãe pode tudo. Eu lembrei agora de uma de um quadrinho do Calvin. Lembra do Calvin Haroldo? Sim, que ele ele tá com Aroldo assim num acho que uma floresta alguma coisa e aí ele fala: "Ah, eu preciso consertar não sei o não lembro qual o problema que ele tem lá com com o Arudo, né?" E aí ele fala assim: "Vou perguntar pra minha mãe". Aí o Arudo fala: "Mas só a mãe vai saber?" Claro, mãe tem que saber tudo. Mãe precisa resolver todos os problemas, né? É um quadrinho bonitinho, mas é isso, né? uma hiperresponsabilização de algo que é é desumano quem conseguir fazer sozinha, né? Então, e é preciso mudar essa essa perspectiva, esse esse paradigma, né? E aí que que acontece? As amigas, a sociedade acha que você consegue dar conta que você matar ela sozinha. A não ser que já foi mãe sabe qual a dificuldade, né? Mas quem não foi, não é? ou foi há muito tempo em outro outro momento do planeta, né, outro momento da história, vai ter dificuldade em ter empatia e perceber, né, que essa mulher precisa de apoio, precisa de ajuda, precisa de alguém até para tomar um banho, tomar um café quente, para lavar o cabelo, né? Lavar o cabelo, beber água, lavar o cabelo, que vira tudo luxo, né? nessa nesse tipo de sociedade, quando você logo que tem um bebê vira luxo, você tomar banho, você beber água na hora que você quer, né? Dormir esquece, mas assim, nem beber água, nem tomar o cabelo, nem lavar o cabelo, tomar banho, né? Então as pessoas não perce, não tm essa percepção, né? Pelo contrário, elas acreditam que toda mãe é guerreira e é capaz de tudo, se dá conta de absolutamente tudo e não é, né? E tem uma um terceiro motivo também. que é os os programas mudam. Então, aquela amiga que ia com você eh num barzinho ou no na yoga, né, que ia tomar café todo dia, não tem mais como fazer isso do jeito que a gente materna, né? Não é pelo, como eu digo, eu gosto sempre de reforçar, não é pelo filho, não é pela mãe, mas a forma como a maternidade é exercida nesse nesse mundo, né? E aí as amigas acabam se afastando, porque claro, elas convidam você para ir no barzinho, você não pode. Elas convidam você para ir para voltar pra aula de yoga. Não tem como você voltar para aula de yoga naquele momento. Elas convidam para você tomar um café, não tem como você deixar a criança e a criança não tem as vacinas ainda, você não pode, enfim. Então são tantas questões que que é mesmo muito difícil assim. Então, quem quem se mantém amigo de mãe é amigo mesmo. Eh, Celina, agora a gente vai fazer um rápido intervalo porque no próximo bloco nós vamos falar sobre a importância de ações como Maio, Furtacor. Nós vamos para um rápido intervalinho e já voltamos. [Música] [Música] [Música] Estamos de volta como Saúde à Vida e hoje falando sobre o Maio Furtacor, que é o mês que sensibiliza a população Para a causa da saúde mental materna, aqui com a gente está a psicóloga Celina Riguete. Celina, no primeiro bloco a gente comentou aí de forma geral, né, sobre essa questão da saúde mental das mães. E agora neste bloco, eu gostaria que a gente abordasse um pouquinho eh sobre a importância desse movimento, né, sobre a importância dessa campanha, dessa iniciativa. Não tem como negar a importância desse movimento, né? O tanto que a gente realmente precisa. E é urgente olhar para essas mulheres, para essas mães, porque olhando para essas mães, a gente também tá olhando para essas crianças e as crianças são parte da sociedade e as mães também são parte da sociedade, né? Exerta a gente saber que elas ficam excluídas ali por muito tempo depois da maternidade. Então o movimento ele surgiu, é o quinto ano agora do movimento Maior Fort. Ele surgiu com duas mães que também estavam mesmo em lugares de privilégio, também estavam vivendo todos os desafios da maternidade e lá em Curitiba, né? E ele cresceu demais nesses 5 anos. Então a gente tá em todo o Brasil. A gente já é lei, projeto de lei Maio Fort, que que institui o mês de maio como cuidado de saúde mental materna, conscientização sobre a saúde mental materna em mais de 150 cidades. Acho que a gente tá com cinco estados já também com a lei aprovada e e a gente tá também em vários outros lugares do Brasil, do do mundo, né? A gente tá na Alemanha, na Itália, na França, em Portugal, na Suécia, na Dinamarca, no Panamá, em Cabo Verde, eh, Estados Unidos, o próprio crescimento exponencial do movimento em tão pouco tempo, né? 5 anos é muito pouco tempo. Bebezinho, mostra o tamanho da importância e o tanto que as mulheres estão realmente precisando desse lugar de acolhimento, de escuta, de afeto, de cuidado. É por isso que a gente usa essa essa frase, né? Quem cuida de quem cuida? Porque a gente cuida de todo mundo. As mulheres estão habituadas e foram treinadas, adestradas, né, desde criança, a cuidar de todos, menos muitas vezes de si própria, né? Então, a gente cuida já desde criança, a gente ganha bonequinha, cozinha, vassourinha e então a gente vai ser na adestrada já para fazer o trabalho de cuidado e o trabalho doméstico, né? Desde muito cedo. Quem cuida da gente? As mulheres, elas cuidam das crianças, elas cuidam muitas vezes do relacionamento sozinhas, elas cuidam muitas vezes de um pai, uma mãe idosa, uma avó, uma tia e ela quem cuida dela. Então, quem cuida de quem cuida é uma frase que a gente tem que estampar na nos outdoors de todo o país. Exato. Porque ninguém pensa, ninguém se dá conta, ninguém tem consciência realmente do quanto essa mulher também precisa de atenção, de cuidado, de colo, de carinho, de afeto, de descanso que a gente não tem, né? Ou a gente tá trabalhando, a gente vai trabalha remuneradamente, quem tem um turno só, depois vai vai paraa casa cuida da criança do do trabalho doméstico e da casa. Então a gente tem no mínimo três turnos, né? o trabalho carreira, o trabalho doméstico e o trabalho de cuidado, que é preciso que esses dois últimos sejam vistos como trabalho, porque são trabalhos, pode ser maravilhoso, doméstico não, né? Ninguém gosta, mas a ser mãe pode ser muito maravilhoso, muito transformador. Muitas vezes é mesmo e ter uma criança do lado pode ser incrível, mas também tem o lado complexo que a gente precisa olhar, né? o lado mais difícil, os desafios que é se maternar num num num país como o nosso, né? Então a gente precisa olhar para isso. E o movimento cresceu exponencialmente porque justamente mostra a importância, né? É um bom sinal que ele cresceu exponencialmente, não é? Porque não teria crescido tanto se ele não fosse tão urgente. Que bom que ele cresceu, mas o motivo pelo qual ele cresceu é um sintoma social. A gente tá maternando em solidão, a gente tá adoecendo, a gente tá morrendo de tanta sobrecarga, de tanta demanda, de tanta pressão social, de tanto julgamento, de tanto pouco espaço público que a gente tem para levar a criança, para ir com a criança junto, né? Então, a gente tá, o movimento é isso, a gente tá lutando para que a gente mude, para que a gente possa, sabe? Porque o que que as mães elas querem e o que que elas precisam e as crianças também? Estar com os filhos delas sem tanto estress, sem tanto problema, com estrutura emocional, com estrutura financeira, com apoio, com rede, com aldeia, precisam poder ter tempo para desenvolver sua carreira ou para voltar ao trabalho. Uma cada duas mulheres perde o emprego. Como é que fica, né? Como é que essa mãe que 11 milhões delas foram abandonadas e perderam o emprego, como é que elas sustentam uma criança, né? Então, o movimento tá lutando por isso. Então, a gente faz eventos durante todo o mês de maio. Hã, a gente fez uma palestra, a gente faz palestras em universidades, a gente tem feito palestras e workshops no centros de saúde com os profissionais da saúde. Então, a gente vai fazendo essa movimentação toda e a gente vai também tentando entrar na questão das políticas públicas, colocar de de aprovar o projeto, o o PL e de fazer o que um que após aprovado ele seja cumprido, porque tem muitas cidades em que ele foi aprovado, mas não tá sendo efetivamente cumprido. Então, é esse o movimento, é isso. E a gente tem mais de 200, cada cidade tem a sua coordenação, né? Aqui eu coordeno junto com a Talita Mesquita e a Fernanda Pastor e cidades grandes tem mais de uma normalmente, então a gente tá aí com um movimento muito grande já e crescendo cada vez mais. Is Celina é movimento democrático, apartário, sem fins lucrativos, antiracista, antimachista, democrático. E estamos aí, estamos lutando para que essa realidade seja minimamente transformada. Eh, Celina, como que a gente pode ajudar essas mulheres, né? Quais os sinais de alerta que a mulher tá entrando assim nesse sofrimento, tá com a saúde mental já prejudicada? Eu acho legal a gente falar até para quem for assistir, né, tiver assistindo, eh, como pode ajudar talvez uma mãe que conheça ou a própria mãe até, né, eh, a ajudar essa pessoa a se restabelecer, a voltar a ter autoestima. Quais são esses sinais, né, que a mulher vai dando? Olha, se você pensar que 90% das mães estão sobrecarregadas, você não precisa nem de sinal. você já sabe que a mãe tem filho, então nessa sociedade vai estar sobrecarregada, na forma como a gente vive, a probabilidade dela est sobrecarregada é muito sobrecarregada é muito alta. Então muitas vezes vou dar alguns exemplos, tá, de coisas que as pessoas podem fazer que são muito simples. Muitas vezes as pessoas vão visitar o bebê logo depois que ele nasce. O bebê ele tá, a não ser que a mulher tem insista muito para que você vá visitar, ele tá com a imunidade ali ainda vulnerável. Aquela mulher tá cansada, com sono, morta, exausta, sem dormir dias, semanas ou meses ou anos, né? E as mulheres, as pessoas vão querer ir lá e visitar o bebê, vai visitar a mãe, né? Leva uma comida pronta, porque a gente, as, as mães normalmente não têm nem tempo para comer, não tem como fazer uma comida com bebê no colo. Então, vai visitar a mãe ou não vai visitar, mas manda uma comida, pede um uma comida pelo telefone, manda uma comida para lá, ajuda nas questões das tarefas domésticas. A gente não quer que ninguém fique com o bebê. A gente quer que a gente possa, a gente possa ficar com eles, a gente possa estar do lado deles cuidando, dando calor e o afeto e fazendo o vínculo e o apego que eles precisam. Então isso começa por aí, né? A gente já tem essa esse trabalho, essa essa visão equivocada de vamos visitar o bebê, vamos visitar o bebê, quando na verdade muitas vezes a mãe não tem nem condição de atender aquela aquelas pessoas, aquela família, aquele tio, aquele primo, tem condições emocionais. né? Então isso já é uma grande ajuda, você ajudar a mãe em vez de ficar pensando e querendo pegar o bebê no colo, né? Eh, tem muitas coisas que a gente pode fazer como pessoa, como indivíduo, né? Então, uma é validar, acolher, não julgar, porque a gente tem muito julgamento, né? E até entendo que assim, quando eu não era mãe, eu também tinha os pensamentos, né, de é normal, é social, é estrutural. Então é difícil a gente sair disso a não ser que a gente ou vire mãe ou estude o tema ou os dois de preferência que aí muda muito mais, né? Então eu entendo, mas vamos tentar ter um pouco mais de empatia, julgar menos, cuidar mais, fazer coisas pelas pela pessoa. Então ela não consegue, uma mãe recémparida, por exemplo, né, não consegue ir até o mercado e eh ter um tempo de descanso, às vezes não consegue tomar banho, etc. Vamos fazer, vamos ajudar, faz o, faz o, a lista do mercado, vai lá e compra e leva para ela. Então, o nível individual tem muita coisa que a gente pode fazer, mas a gente realmente precisa de uma mudança estrutural do maternar. A gente precisa realmente de políticas, de leis que sejam cumpridas, efetivadas e que dêem espaço para essa mulher ser mãe e até pro pai ser pai também, né? A gente tem uma licença de maternidade muito pequena e a maternidade é menor ainda. Então a gente precisa que a gente precisa de leis que sejam que que viabilizem um maternar mais tranquilo, mais leve, com mais possibilidade de ficar junto. Imagina uma mãe, por exemplo, trabalha dois turnos, que são muitas, depois vai pro terceiro turno, que é o trabalho doméstico, pro quarto turno, que é o trabalho de cuidado. E aí, como é que fica essa criança? né? A gente sabe que a criança até os 3 anos de idade precisa muito estar com a mãe, estar com o seu principal cuidador, né? Pode ser a mãe, pode ser a avó, pode ser, enfim, mas normalmente é a mãe. Eh, e como é que ela vai fazer isso? Se ela tem que trabalhar fora em casa, que o trabalho doméstico é um trabalho infinito, né? Que não acaba nunca. Então você já acorda tirando brinquedo do chão, lavando louça, fazendo café da manhã, lavando a louça de novo, pondo roupa para lavar, ã, tirando a roupa da máquina, pondo a roupa para para estender, depois depois dobra, coloca no armário, aí varre o chão, aí limpa a comida que sujou do almoço, aí faz o almoço, aí lava a louça. Trabalho infinito, trabalho doméstico, né? Como é que você tem tempo para ficar com a sua criança se você tem que fazer tudo na casa? Então a gente precisa de leis, mas a sociedade também pode ajudar, sabe, individualmente, com seu com mais empatia, com menos julgamento, com mais acolhimento e com mais ajudas práticas, né? Que tem sempre tem alguma coisa que pode fazer por essa pessoa. E a gente precisa de de visibilidade, né? Para conquistar todos esses direitos, a gente precisa ter voz. A gente precisa de vocês, por exemplo, né, que estão dando esse espaço para poder falar, entender um pouco mais sobre isso. A gente precisa que a sociedade como um todo, ou pelo menos uma boa parte delas, entenda quais são as problemáticas que a gente precisa solucionar com muita urgência para que mais mulheres não adoeçam, não morram e para que as crianças possam ter o que elas precisam, que é o tempo de qualidade, o o quantidade de tempo também, uma mãe tranquila, segura, feliz, uma sociedade que compartilhe o cuidado, compartilhe o trabalho e a responsabilidade, até porque a gente sabe, né, Celina, como você como psicóloga sabe mais ainda que a saúde da mãe, né, a saúde mental da mãe vai impactar no desenvolvimento da criança, né, isso é muito preocupante. Direta e indiretamente, direta e indiretamente, né? Porque uma mãe com depressão, por exemplo, numa depressão pós-parto, vai ter mais dificuldade em alimentar essa criança efetivamente da da melhor maneira, né, em cuidar os cuidados básicos, né, em fazer os cuidados básicos de maneira mais efetiva. também vai ter mais dificuldade em estabelecer um vínculo intenso, forte, tranquilo, que é o que a criança precisa para se desenvolver bem e plena, tanto física quanto psicologicamente. Então, qualquer eh todo tudo isso que impacta a mulher impacta direta e indiretamente a criança e pro resto da vida. É porque a gente sabe, por exemplo, que a primeira infância tem uma importância pro resto da vida em em termos de desenvolvimento do cérebro, desenvolvimento do do vínculo do apego, que é pro resto da sua vida. Se a gente não cuidar da primeira infância, a gente não vai ter como viver num mundo mais saudável, né? um mundo menos problemático, menos adoecido, menos violento. A primeira a primeira infância, falando da primeira infância, seria tá apoiando a gente também. Primeira infância campineira também tá apoiando a gente. Então, a gente tá tentando desenvolver agora um trabalho em conjunto, porque cuidar da mãe é cuidar do filho, cuidar do filho é cuidar da mãe. Não tem como fazer essa essa diferenciação, né? Cuidar da mãe é cuidar do filho. Cuidar do filho é cuidar da mãe. Tava até comentando que a primeira infância então é a base de tudo, é o mais importante ali, né? Exatamente. Exatamente. A gente sabe hoje, não, não há nenhuma controvérsia na ciência, né, que o desenvolvimento do cérebro da criança na primeira infância, ele afeta toda sua adolescência, vida adulta e velice de de diversas maneiras, né? Não vou colocar aqui todos os impactos que tem, mas são muitos. Então, todo desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento relacional, né? a própria saúde física da criança é impactada pela ela ter tido ou não uma infância mais saudável, mas menos estressante, né? Então, a gente sabe, por exemplo, que excesso de do hormônio de estress, né, do cortisol, ele tá extremamente relacionado com diversas doenças, inclusive as doenças ditas físicas, né, como diabetes, tipo do, infarto, a doenças autoimunes. Então, a primeira infância, ela é realmente, sem mais dúvida nenhuma, a fase mais importante de um ser humano, onde o céreb tá se desenvolvendo, onde você tá aprendendo a viver nesse mundo. E os valores e os as adversidades que você vai viver vão impactar o resto da sua vida. a gente tem aquele estudo, não sei se você conhece, o estudo Aces, né, Adversed Childhood Experiences, que é um estudo bem grande e muito importante dentro da ciência, que ele estabeleceu 10 10 adversidades na infância. E quanto mais dessas adversidades o adulto tem, maior a chance dele desenvolver diversas doenças, tanto psicológicas quanto ditas físicas, né? Então, a gente tem 10 perguntas, eles foram percebendo, né, foram estudando essa esses indivíduos e foram percebendo muito claramente. Eu não vou, obviamente, não vou poder falar da pesquisa aqui com muitos detalhes, mas não importa. o que importa é o resultado dela, o quão grande ela é, o quão significativa e impactante ela deveria tá tá sendo, né, na nossa sociedade. Então, quanto mais adversidades eh você viveu na infância, maiores chances de você adoecer. E as chances não é que aumentam, não é que elas aumentam 5%, né? varia de doença para doença. Então, diabetes, câncer, ã, infarto, eh depressão, ansiedade e o próprio suicídio, eles aumentam de forma drástica. Cada um tem sua porcentagem, mas sempre uma porcentagem bastante significativa, bastante impactante. Então, a primeira infância não há mais dúvida, não há mais dúvida nenhuma de que ela é um momento que precisa ser olhado, precisa ser cuidado, precisa ser visto como o momento, a a fase mais duradora. Eu gosto muito daquela frase que fala eh como é que é? A infância é o chão por onde a gente pisa a vida inteira. E é isso. Porque a gente até hoje, né, como adulto, assim, a gente tá vivendo tudo que a gente vive, né? Relacionamento, cotidiano, profissão. Se você for olhar ali para trás, tem um tem coisas da infância, né? Tem a forma como você se relacionou com o seu pai, com a sua mãe, com a sua tia, com a sua avó, como você foi olhado, cuidado ou não. Negligência, violência física, violência psicológica, violência sexual, tudo isso são adversidades que aumentam o potencial de adoecimento na vida adulta. Eh, e Celina, até gostaria de falar com você sobre o estigma que existe em torno desse assunto, porque ainda você acredita que as pessoas torcem um pouco o nariz assim quando começa a falar um pouco de saúde mental materna? Muito, muito. É assim, eh, mas tá, mas poxa, você não escolheu ter filho, não era o que você queria, mas ele tá saudável. Por que que você tá se queixando, né? Mas por que que você tá triste? Tá ali com uma depressão para perto a pessoa perguntando por que você tá triste, né? Então sim, as pessoas ainda, eu acho que as pessoas ainda torcem o nariz com saúde mental, sabe? Tem muita gente que ainda tem preconceito, que não entende a importância. Tem muito médico que não faz relação, né, da saúde física com a saúde mental. Então, pergunta de sintomas, mas não pergunta qual seu nível de estress, como estão seus relacionamentos. né? Como que você tá no dia a dia, você come, você dorme bem ou não, né? Então ainda tem muito preconceito e muita ignorância também em relação a isso, né? Só quem realmente tá no mundo acadêmico ou atualizado nos estudos, que sabe do quanto tudo isso impacta a saúde física e a saúde mental, né? Do quanto elas estão interrelacionadas, né? o quanto elas estão juntas ali. Não tem como você atender um paciente com alguma doença dita física e não saber que isso tem que essa doença física tem também impacto na saúde psicológica, tem também como causa muitas vezes a saúde psicológica, né, o nível de estresse que essa pessoa tá vivendo. o cortisol, adrenalina, a infância, se ela quantas adversidades na infância ela viveu. Nem um médico pergunta isso. Os médicos perguntam como é que você tá, se quais são seus sintomas, quanto tempo faz, o que que está impactando. Mas ninguém pergunta seu nível de estresse, ninguém pergunta como estão seus relacionamentos, ninguém não, né, gente? Assim, tudo, vocês sabem que tudo que eu tô falando é só mais estatístico do que uma generalização. Tem gente que sim faz isso, mas a maioria não, né? Inclusive a gente não aprende isso na faculdade de medicina muitas vezes, né? O quanto o emocional impacto físico, o quanto o emocional cientificamente, não eh só uma coisa assim de sensação, né? o quanto o emocional impacta a saúde psicológica, saúde física, quantas adversidades da infância impactam essa essa probabilidade de você adoecer ou não. Então, a gente precisa olhar para isso porque a gente não tem mais dúvida, não é uma controvérsia assim na ciência. Ah, acho que tem uns estudos que mostram que sim, outros que não. Todos mostram que sim, sabe? Então, não tem como negar mais. E até acho importante esse essa campanha, porque ela coloca a mulher não como como a heroína, né, a mulher maravilha, que que muitos, né, acham que que a gente deve ter, né, essa figura, né, de salvadora da pátria. Coloca bem o que é a realidade, né? As mulheres estão cansadas, elas precisam de ajuda, não é só tarefa delas, né, a questão da casa, da criança, da criação dos filhos, né? Uhum. É, a gente tem até um adesivinho do Maur que fala: "Guerreira é a chena, eu sou sobrecarregada". Né? Porque é isso, a gente não quer ser guerreira, a gente não quer dar conta de tudo, a gente quer corresponsabilização, a gente quer tempo de qualidade com a criança, a gente quer descanso, dormir, comer bem, né? Eh, ter lazer. Poucas mães têm lazer e todo ser humano precisa precisa ter um lazer, né? Quando muitas vezes os pais estão ali, mantém o futebol, o o encontro com os amigos no bar, mas não conseguem manter esse tipo de de lazer que é importantíssimo pra saúde mental, não tem? Então sim, a gente não quer ser guerreira, não quer ser forte. Ah, mas você é forte. Ninguém quer ouvir isso, mas a gente não quer ser forte, a gente quer ser feliz, né? A gente quer ter paz, ter descanso e poder ficar com a criança, né? Estar com ela, não só no sentido físico ali, mas de presença. Se a gente tá preocupada com a alimentação, com a escola, com o pagamento do do aluguel, você não consegue estar 100% presente com a criança, né? Então, ninguém quer ser guerreiro, ninguém quer ser forte, ninguém quer ser quer dar conta de tudo. A gente quer qualidade, descanso e tempo, tempo de qualidade com a criança. Eh, Celina, tem até um uma questão que eu tava lendo que que eh se chama ansiedade materna, né? Isso já é já virou até uma doença, né? É isso. É, a gente tem a depressão perinatal, a gente tem ansiedade e o que a gente menos fala, mas é mais tem crescido, é o burnout materno. Então, a gente conhece muito bem o burnout laboral, aquele que a gente está exausto no trabalho, que não aguenta mais, não consegue mais se conectar, né? Mas o burnout materno, ele é um um nível de estress crônico, prolongado, em que você e que tá estritamente relacionado com o trabalho da parentalidade. Então não é que você tá infeliz no trabalho remunerado na carreira, é a parentalidade mesmo, gerando esses níveis de estress extremamente alto e prolongado que faz com que você entre em burnout. E aí a gente chama do burnout materno ou burnout parental, né, que a maioria é mãe, mas também pode acontecer com o pai. Então a gente tem muitas doenças que são específicas da parentalidade, né, de quem cuida. Exatamente. Isso. Ansiedade é uma, depressão é outra. Burnout é o que mais tem, é o que eu acho que precisa também de um, de uma visibilidade. É pouco falado, né? muito pouco ainda, muito pouco falado. A gente tem muitas pesquisas no Chile, na França, algum algum pouco nos Estados Unidos, alguma coisa aqui no Brasil também, na Bélgica, mas ainda é um tema muito pouco conhecido pela população de forma geral, né, e muito pouco aceito e validado também. lá eu tô em burnout porque eu cuido de um ser humano, vão te julgar e te criticar absurdamente. Então não, a gente tem que ver qual é uma doença, é um é um é um efeito de um maternar, de um cuidar de um ser humano que envolve cuidar de um ser humano, porque cuidar de ser humano é uma demanda muito complexa, desafiadora, né, independentemente, porque um ser humaninho pequenininho que é indefeso vulnerável, precisa de comida, precisa de afeto, precisa de colo, precisa de estímulos adequados para se desenvolver. Então é por si só uma tarefa bastante demandante, desafiadora, mas no no no contexto em que a gente materna isso é muito agravado, né? como eu já falei, uma sociedade individualista que não compartilha o trabalho de cuidado do trabalho doméstico. Uma sociedade que a mãe é colocada como único, o principal responsável pelo trabalho, pro cuidado. Uma sociedade que não valida, não valoriza, pelo contrário, julga, critica, aponta o dedo para essa mulher, né? Então, assim, por exemplo, eh, a mulher, a gente tem aquela, gosto daquela tirinha, não vou lembrar de quem que é o desenho, mas que são assim dois dividido, né, em dois dois quadradinhos. Então, tem o pai ali, ã, pegando um sanduíche pra criança. Ah, paizão divertido. Aí do outro lado tem a mãe dando sanduíche. Nossa, que mãe relaxada, né? Aí tem o pai levando a criança para passear. Nossa, que pai responsável, que pai presente do lado da mãe. É mãe, mãe sendo mãe, né? Então é uma diferença muito grande, muito drástica de julgamento e de valorização. Então tudo isso impacta e tudo e a gente precisa olhar para tudo isso como profissional de saúde, mas como sociedade, como estado, como indivíduo. Exatamente. É, Celina, agora pra gente já encerrar aqui nosso bate-papo, então eu só gostaria que você reforçasse então como que essas mulheres podem buscar ajuda, é, de que maneira, né, que elas podem encontrar aí um apoio, seja também através do movimento. Uhum. Bom, a gente tem muito que caminhar ainda, mas a gente tem alguns recursos, né? Então, fazer uma terapia antes, durante, depois, maternidade. Muita gente não tem acesso à terapia, então a gente tem aí o SUS que tem muito a desejar, mas que tem profissionais muito competentes que pode encaminhar essa mulher que tá deprimida, que tá em burnout, para um psicólogo, para um psiquiatra, né, para que cuidem, cuidem dela. Hã, a gente tem os movimentos de mães, né? a gente tem muitos movimentos importantes em que mães se unem para compartilhar suas dores, suas dificuldades, o seu amor, né? Então, tem a rede amamenta em Campinas, por exemplo, eh tem muitas redes de maternidade atípica que essas mulheres elas precisam ser olhadas, vistas, cuidadas, entender que o problema não é elas, né? A gente tem um monte de problemas, nenhum deles é gerado na maioria das vezes, né? Claro que tem exceções, é gerado por essa mulher, nenhum das problemáticas, né? Então elas precisam estar juntas, entenderem que eh acontece isso com outras pessoas também, que não são só elas, que não é um problema individual, é um problema social, estrutural, cultural e de e de falta de estado, de de política pública. Quando ela entende isso, já minimiza a culpa dessa mulher que ela f: "Poxa, mas então não sou eu que não dou conta, né? Então, não sou eu que sou o problema, sou não sou eu que sou desorganizada, não sou eu que eh não consigo cuidar da alimentação perfeitamente do meu filho. É um problema estrutural. Você já diminui a culpa dessa mulher. Então, terapia com busca de atendimento dentro do Sistema Único de Saúde, é que tem psicólogo, tem psiquiatra, tem outros tipos de cuidado. E esses esses movimentos que unem as mulheres para que elas entendam que a culpa não é delas. para que elas possam compartilhar ideias, eh, grupos de WhatsApp, sabe? Até ajudam assim. Então, ai, qual que é a fralda que dá, que não tem, que não dá alergia na criança, desde coisas pequenas assim, que no cotidiano é feito de coisas pequenas, né? Então você precisa de ajudas específicas, de pequenas coisas do cotidiano e você precisa de ajudas e mais efetivas, né, de apoio de pro seu pra sua saúde mental, de política, de lei, de tudo isso, mas a gente tá caminhando para isso. Então o movimento o movimento maio Furtacor tem esse objetivo, mas a gente tem aí um monte de outros movimentos e e grupos de mães, de mulheres, né, que se ajudam entre si. Então que é importante você participar, a gente perde muitas vezes o contato com o mundo exterior na maternidade, tá certo? Então se você entrar em manter em contato com essas com essas mulheres, com essas pessoas, com esses profissionais de saúde, já ajuda bastante, tá certo? Entender que assim, depressão não é uma frescura, não é uma coisa do momento, uma coisa que precisa de tratamento, né? Assim como o burnout, é ansiedade. Tá certo? Então, Celine, eu gostaria de te agradecer muito pela sua disposição e por participar aqui do nosso programa. Muito obrigada. Obrigada. Obrigada você. O Saúde e a Vida fica por aqui. Obrigada também ao pessoal de casa pela companhia. Lembrando que você pode conferir todos os conteúdos no YouTube da TV Câmara Campinas e também não se esqueça de nos acompanhar nas redes sociais. A gente se vê no próximo programa. เฮ [Música]