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SAÚDE É VIDA - OUVIDORES DE VOZES
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SAÚDE É VIDA - OUVIDORES DE VOZES

857 views Publicado 28/10/2020 HD · 17:30

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Música Olá, estou na área para a gente fazer aquele bate-papo gostoso sobre saúde. Olha, o assunto de hoje é sobre ouvidores de vozes. Você sabe o que é isso? Já ouviu falar? Calma, que aqui comigo está o Leonardo, psicólogo. Tudo bem, Leonardo? Seja bem-vindo! Tudo jóia! Obrigado! Obrigado pelo convite e oportunidade de estar esclarecendo sobre os ouvidores de vozes. Eu que te agradeço de estar aqui com a gente, né, para tirar as nossas dúvidas. Então, vamos começar? Leonardo, o que são os ouvidores de vozes? Os ouvidores de vozes é um movimento que começa na década de 80 na Holanda Com um psiquiatra chamado Marius Holmes Marius Holmes, ele tinha um grupo de pacientes com diagnóstico de esquizofrenia E uma vez ele chega um pouco atrasado no grupo E percebe que os pacientes estavam conversando sobre as vozes que ele ouvia E aí ele fica muito chateado, por que eles não falavam sobre essas vozes com ele? E aí ele perguntou para eles, e eles responderam, olha, é porque senão você vai aumentar as doses dos medicamentos. Ele perguntou, mas vocês conseguem lidar com essas vozes? Ele falou, nós aprendemos a lidar com ela. E por conta disso, ele começou a fazer uma pesquisa, e começou a criar grupos de ouvidores de vozes para poder ensinar as pessoas, ou para que as pessoas possam ter um espaço de partilha sobre essa experiência de ouvir vozes. Isso se espalhou pelo mundo e aí virou o Intervoice, que é um movimento que procura mudar essa ideia de como lidar com as vozes. É, porque se a gente for pensar, a gente já associa alguma esquizofrenia, alguma doença mental, mas não é bem por aí. Exatamente. A ideia é mostrar que a experiência de ouvir vozes não está diretamente relacionada a uma doença, a esquizofrenia. Ela é uma experiência humana que está presente aí na história da humanidade. A gente teve várias pessoas que foram muito importantes para a humanidade, que eram ouvidores de vozes. Albert Einstein, Jung, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, eram pessoas que ouviam vozes vozes e que sua vida contribuiu para a história da humanidade. A questão é o significado que essa voz tem em cada tempo. Em alguns momentos, as pessoas que ouviam vozes eram tidas como videntes, como oráculos, e eram consultadas por reis. Em outros momentos, queimados na fogueira. E hoje a nossa sociedade, até então a nossa sociedade, tem a pessoa que ouve vozes como alguém que é esquisito e que precisa ser curado dessa experiência. eu costumo relacionar isso como ser canhoto. Durante o meu tempo, ser canhoto era tido como um defeito, como algo que precisava ser curado. Tinha até terapia para canhoto, que era amarrar a mão esquerda para impedir que ele escrevesse com a mão esquerda. E depois, até que alguém teve uma sacada. Que diferença faz se ele escreve com a direita ou com a esquerda? A pessoa é diferente, sim, a maneira de funcionar, o cérebro é diferente. Mas não quer dizer que é doentio ou que precisa ser corrigido. A questão é como conviver com essa diferença. Mas a gente percebe, pelo que você falou, esses estudos começaram recentemente, na década de 1980. Então, ainda a sociedade ainda está despertando o olhar para essa questão dos ouvidores de vozes. Existe um perfil, então, dessas pessoas, do paciente que ouve vozes? Assim, o grande desafio tem sido justamente isso As pessoas ainda terem esse preconceito da pessoa que ouve em voz E aí nós temos pessoas que ouvem vozes nas diferentes faixas da nossa sociedade Nos diferentes grupos sociais Algumas pessoas nem buscam ajuda por ouvir vozes Elas são muito bem resolvidas com as suas vozes e, inclusive, tem medo de falar para as outras pessoas. Mas tem um estranhamento, né, Leonardo? Porque, por exemplo, o paciente que ouve voz, não tem esse conhecimento que você tem, acaba tendo um estranhamento com ele mesmo, né? É igual você falou, às vezes pode acabar até ficando um pouco recluso por conta disso. É, por se achar diferente, né, ele começa a se esconder. E aí ele acha que ele não vai poder namorar, que ele não vai poder ter um bom emprego, ele não vai poder se realizar enquanto pessoa. E aí justamente esse preconceito, que tem com ele mesmo, mas que a sociedade também tem com ele, vai fazer com que ele cada vez sofra mais. E aí a gente perde grandes talentos, grandes personalidades que são importantes e que acabam sendo reclusas por conta desse preconceito. E aí nasceu esse grupo para ajudar essas pessoas. é além da psiquiatria, entra mais no campo da psicologia, é isso? Ele é um movimento que procura provocar dentro da psiquiatria algumas reflexões para que a própria psiquiatria possa se repensar. O Maris Holmes era um psiquiatra e ele começou a questionar alguns conceitos da psiquiatria. Para formar um grupo de ouvidores de vozes, necessariamente não precisa ter um psiquiatra ou nem um psicólogo. A ideia é que tenham pessoas que ouçam vozes e que estejam dispostas a partilhar sobre a sua experiência sem julgamento. Seria uma troca de informações ali, né? A pessoa que ouve com a outra também e um especialista junto? E aí, poder pegar uma experiência que deu certo com um, poder ser utilizado com o outro. E existem várias formas diferentes, como existem diferentes tipos de pessoas, de lidar com isso. E o grupo é um espaço protegido, para as pessoas poderem falar sobre isso sem ter julgamento. E uma das grandes vantagens do grupo é ser um espaço onde ela possa falar. Porque na maior parte das vezes, como você colocou, a pessoa acaba ficando reclusa, tímida, com medo de falar sobre isso com os outros. Medo do preconceito também, porque nem todo mundo entende ou não sabe lidar. Exato. A partir do momento que ela conta, que ela ouve voz, as pessoas começam a tratar ela de uma forma diferente. Então, para evitar isso, ela acaba não falando mais E aí ela começa a sofrer a ponta, às vezes, de explodir Como todo mundo explode quando guarda um segredo Quando guarda uma experiência que o impacta fortemente Não poder partilhar isso com alguém é muito difícil E no grupo é esse espaço de partilha muito potente Eu costumo dizer que o grupo tem duas funções Ser um espaço de partilha e auto-apoio, de troca de experiências Mas também ser um espaço de articulação para que a gente possa falar sobre isso na sociedade. Num espaço como esse, nós já tivemos uma audiência na Câmara também, onde a gente pôde falar sobre ouvidores de voz, a gente participa de alguns movimentos, de poder problematizar para poder desconstruir esse preconceito. É isso que eu ia te perguntar, é quebrar o estigma, você dar um passo adiante nessa discussão e trazer todo esse assunto para a população. Porque acho que quanto mais conhecimento, é até melhor, né, Leonardo, para a gente conseguir lidar com toda essa questão, né? Exatamente. E esse conhecimento em todas as áreas, inclusive as áreas médicas, na família. Existe uma pesquisa que foi realizada na Inglaterra, e eu acho que não seria diferente aqui no Brasil, que se você chegar para qualquer médico e falar que ouve vozes, a chance de você sair com um antipsicótico Mesmo que ouvir vozes não seja um problema para você, é de 60%. Então, até então é tratado com remédio, remédios fortes, então, pelo que você está me falando. Isso, isso. Então, quando a gente chama atenção para isso, não, para aí, vamos ver se isso é problema, se a pessoa está sofrendo por conta disso, e se o sofrimento é pelo fato dela ouvir vozes, ou se o sofrimento é por conta do preconceito, Ou ainda, se o sofrimento não está encoberto por trás das vozes. Porque se ouvir vozes é algo que é natural da pessoa, ela traz também algo dela. E se a pessoa às vezes tem um trauma, se a pessoa às vezes tem uma dor muito forte do passado, essa dor pode aparecer com as vozes. Certa vez, num grupo de ouvidores de vozes, uma pessoa pegou e comentou que ouviu uma voz que falava para se matar. Então é algo que tem que ser levado muito a sério também, né? Sim, sim. Eu acho que até a questão do aumento do número de suicídios é uma coisa que precisa ser pensada. E aí a questão não é calar essa voz, é entender o que está por trás dela. Nesse caso, uma coisa que foi interessante, que o pessoal do grupo perguntou para ela, mas que voz que é essa? Ela nunca tinha percebido se essa voz era uma voz masculina, se era uma voz feminina, se era uma voz adulta. Porque o preconceito era tanto que ela simplesmente negava essa voz. Quando ela começou a participar do grupo e começou a prestar atenção nessa voz, ela notou uma coisa muito interessante, que essa voz era a voz dela quando tinha cinco anos. E aí alguém do grupo perguntou, o que aconteceu contigo quando você tinha cinco anos? e ela contou de um trauma muito importante, né, e que nessa vez, nesse momento do trauma, ela sentiu uma vontade enorme de morrer, e aí essa voz que vinha... E ela carregou isso para a fase adulta, né? Exato, veio para a fase adulta representando essa dor que não foi curada, e aí a questão não é calar essa voz, é cuidar dessa pessoa, é cuidar dessa história, né, e o movimento dos ouvidores, ele traz isso, que o problema não é a voz, né, É importante a gente prestar atenção na pessoa que está por trás da voz. E é possível que esse trabalho, que eu acho que é um trabalho mais de escuta, pelo que você está me falando também, de dar um norte para a pessoa que ouve voz, consegue trazer também uma qualidade de vida para essas pessoas? Sim, sim, porque à medida que a pessoa consegue lidar com essas vozes, ela consegue também construir estratégias de controle, para poder cumprir a sua rotina diária, para poder lidar com esse preconceito que os outros têm de uma forma diferente e conseguir se realizar enquanto pessoa, de ocupar os seus espaços. Uma experiência também muito interessante, nós tivemos uma pessoa que é de outro município e por conta disso entrou em contato com a gente através do Facebook e aí nós começamos a conversar. Ela tinha saído de uma internação muito grande, de um período muito longo, e ela tinha essa questão com as vozes. E aí, por entender um pouquinho sobre essas coisas, ela começou a conversar com as vozes dela e isso começou a fazer muito bem. De vez em quando, ela começou a falar também, olha só que interessante. Tinha papo com essas vozes, porque no fundo, no fundo, esse bater papo era um diálogo que ela estava tendo com ela mesma. só que um dia ela entrou num ônibus o motorista pediu pra ela parar, parou o ônibus, pediu pra ela descer, porque ela era louca e era perigosa ela ficou muito brava, e ela não ficou brava porque ela era louca, ela ficou brava pelo preconceito era ela passar ali e aí ela fica muito brava chama a polícia pra ela, porque além de ouvir vozes, ainda tá brava a polícia em uma ambulância ela vai internada e fica lá um mês nessa internação E aí ela nota que tinha um enfermeiro Ou um técnico de enfermagem Que vivia andando com o celular lá dentro E aí ela falou assim Poxa, ele pode ficar falando no celular E eu não posso ficar falando com as minhas vozes Aí ela teve uma sacada Olha, eu vou fingir que eu não estou ouvindo vozes Para sair daqui E quando eu sair daqui Eu sei o que eu vou fazer Ela conseguiu sair da internação Comprou um foninho de ouvido Conectou no celular dela E começou a andar para a cidade Como se estivesse conversando com alguém real, então. Isso deu muito certo com ela e nunca mais ela precisou, ela não relata até hoje da necessidade de internação. Mas, Leonardo, é um desafio também, não só para o cidadão comum, vamos falar assim, mas também para a medicina, porque você falou que ela foi internada, Então é um desafio também para os médicos saber lidar com esse paciente. Exatamente, de ouvir para além do biológico, de ouvir para além do sintoma, de entender a pessoa que está ali e a história, a vivência dessa pessoa, o sentimento. E eu acho que isso traz à tona essa necessidade que já vem sendo construída da construção de um cuidado dentro da saúde mais humanizado. E assim, você vê uma progressão nesse movimento, Leonardo? Por exemplo, você falou que o movimento começou na década de 1980. Aqui a gente já tem se discutido e ajudado muita gente. Você vê uma progressão assim, até que a sociedade entenda de fato e consiga ajudar as pessoas? pessoas eu vejo vejo assim cada vez mais pessoas se interessando por esse assunto né Eu acho que nos últimos seis anos né houve um aumento muito grande dos grupos de ouvidores de voz de pessoas pensando sobre isso né então assim se começou na Holanda na década de 80 na década de 90 um grupo da Universidade Federal do Rio de Janeiro começou pesquisa sobre isso né e criou um grupo piloto de ouvidores de vozes por conta dessa pesquisa. O primeiro grupo de ouvidores de vozes no Brasil, né, livre e que segue os preceitos do Intervoice, foi criado aqui em Campinas, né, em 2020. Então isso é até uma boa notícia para nossa cidade, né, que a gente já está à frente do debate, né? Exatamente. E aí hoje nós temos mais de 100 grupos espalhados pelo Brasil, né, então assim, existe um movimento crescendo, nós já estamos no quarto congresso nacional que nós fizemos de ouvidores de vozes, onde a gente traz especialistas do Brasil inteiro, pesquisadores do Brasil inteiro e gente de fora também para discutir sobre isso, então assim, eu vejo uma crescente muito grande e Campinas foi vanguarda nisso, o primeiro grupo, hoje nós temos dois grupos de ouvidores de vozes, esses grupos presenciais por conta da pandemia estão suspensos, mas nós temos um grupo virtual, que as pessoas podem participar também. E quem quiser participar, como é que faz? Nós temos uma página no Face, que é Ouvidores de Vozes Brasil. Essa página, nós colocamos sempre o link no Google Meet, que é por onde a gente faz essa reunião. E a pessoa pode entrar, é todo sábado, às duas horas da tarde. É uma hora e meia de reunião, é aberta. Então, nós temos ali profissionais, nós temos familiares, Nós temos ouvidores, muitos ouvidores de voz que participam e trocam suas experiências e se apoiam. Então, vou deixar marcadinho para você aqui agora, ouvidores de voz Brasil, se você tem interesse, quer saber mais sobre esse assunto, se você ouve voz ou é um especialista também na área, pode participar que o grupo está aberto e esperando por você, não é isso mesmo, Leonardo? Exato. Quanto mais pessoas participando, mais rico é e o grupo está aberto para todo mundo, inclusive quem tiver curiosidade sobre o assunto. Leonardo, eu quero te agradecer e obrigado por tirar as nossas dúvidas sobre um assunto tão importante que precisa ser debatido sempre. Eu que agradeço por esse espaço, acho que é um espaço inovador, que traz as novidades e pode informar a população para poder ter mais qualidade de vida e saúde. E eu tenho certeza que o grupo dos ouvidores de vozes vai estar trazendo também para a população, para essas pessoas que ouvem vozes, essa oportunidade, essa alternativa de cuidado. Certinho, eu te convido para voltar sempre que quiser aqui no nosso programa, combinado? Legal, combinado. E obrigado a você também que esteve comigo e com o Leonardo até agora. Até nosso próximo encontro e como ele disse, saúde! Tchau! Legenda Adriana Zanotto
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