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Uma notícia difícil costuma dividir a vida entre o antes e o depois. No Histórias de Vida de Hoje, vamos conhecer a trajetória da Bianca Cagliari, atleta de pismo, que aos 18 anos recebeu diagnóstico de esclerose múltipla e precisou mudar os planos para o futuro, mas ela encontrou no paradestramento uma nova forma de continuar fazendo o que ama. Bianca, seja bem-vinda ao História de Vida e também obrigada por aceitar o nosso convite. Obrigada, eu que agradeço. Eu queria que você começasse contando e como que surgiu sua paixão por esse esporte, pelo ipismo. Na realidade, eu nasci gostando de bicho, sempre quis ter cachorro, daí logo pequenininha conheci os saltos, cavalos e com 7 anos já tava montando, tava fazendo escolinha. E a vida foi seguindo literalmente em cima de um cavalo. Então, para mim não tinha eh vida sem cavalo. E graças a Deus eles estavam ali o tempo todo. Que bacana. E o que que o esporte representa para você também? Eh, quando você começou a praticar? Então, eu comecei pequenininha, em torno de uns 7 anos eu já fazia escolinha de equitação e continuei e para mim foi um jeito de ter algo, ter algo que fizesse valer a pena, né? Eh, sempre quis ser veterinária, tudo, mas quando a doença veio, a minha preocupação era, eu vou continuar montando e eu continuei, graças a Deus, os médicos sempre me apoiaram e o esporte para mim hoje é o ou é o meu trabalho, é a minha vida. E o que era para ser só um lazer hoje mudou tudo e fez tudo ter sentido para mim. Uhum. E como foi para você? Você falou que eh recebeu essa notícia da do diagnóstico, né, de esclerose múltipla. Como que foi receber essa informação aos 18 anos? Então, eu tava no Paraná, montava lá e comecei, voltei para Campinas para buscar o cachorro. Minha égua já tava lá e eu comecei a passar mal e eu não entendi o porquê. Minha família foi muito rápida, a gente conseguiu fechar o diagnóstico em dois, tr meses, mas eh eu não assimilava, eu era meninona de tudo, então para mim era uma coisa: "Ah, tá, isso passa". E eu fui entendendo as sequelas aos 25, 26 anos. Então eu demorei para assimilar a notícia e para mim eu meio que ignorei a notícia por um bom tempo. Fazia todos os tratamentos, fazia tudo certinho, bonitinho, mas para mim era indiferente. E hoje eu consigo sentir as sequelas de uma forma diferente, porque é uma doença que ela vai mostrando ao longo dos anos, né? Uhum. Mas na época eu tava tão preocupada em montar, tinha alguns cavalos que eu tinha que montar, que eu tinha que saltar, que eu tava tão preocupada com isso que eu simplesmente não liguei. Uhum. E você falou que é uma doença que ela vai avançando conforme o tempo, né? E queria que você explicasse um pouquinho para quem tá em casa também como que funciona, quais os sintomas que você sente no corpo. É, a esclerose ela não tem um sintoma pré-definido, então cada um tem o seu, as suas sequelas, né? depende de que parte do cérebro ou da medula, ela criou o ponto inflamatório. E quando você é jovem, eu com 18 anos feliz da vida, não tava sentindo nada, você tem uma uma você consegue remodelar os neurônios, então você consegue eh se manter bem. Eu comecei a sentir mais as sequelas dos meus surtos, das minhas manchas a partir dos 26 anos, 25, 26, foi quando eu comecei a ficar realmente muito cansada, porque no meu caso eu tenho uma estafa muito forte. Hoje tá uma medicação para isso. Eh, eu tenho uma dificuldade na visão do lado esquerdo também acarretou alguns probleminhas eh cardiológicos, tenho dor crônica, diferença de força nos membros. Então, o corpo de cada um responde de uma forma e a gente fica muito dependente também. Esfriou, tô melhor, esquentou, eu canso mais. Então, uma coisa que não é aparente, mas a gente sabe o que tá passando e é muito engraçado que algumas pessoas à nossa volta já começam a perceber. Uhum. Mas é um é uma doença que ela é muito particular de cada paciente, né? E ela é um ponto inflamatória quando o seu sistema imune ataca a bainha de melina dos neurônios e ela cria uma inflamação no cérebro meio que eh desativando esses neurônios. Daí você tem que criar novos caminhos nervosos. Uhum. E você falou que meio que no início ignorou aquele diagnóstico. Eh, o que mais te preocupou então naquele momento foi a possibilidade de não continuar competindo. Não montar, não era nem competir. A primeira coisa que eu perguntei pro meu médico falei: "Posso continuar montando?" Ele falou: "Pode." Eu falei: "Ótimo." Então, como eu não sentia nada, eu era muito novinha, eu não tava nem aí. Eu só queria saber de montar. E para mim foi a melhor válvula de escape possível, porque eu pensava em ficar bem, falava: "Ah, minha perna não tá funcionando, ela tem que voltar a funcionar porque eu preciso montar". Esse era o meu plano. O que não tá funcionando, eu vou consertar para poder montar. Então é, não é que eu eu ignorei, eu eu falava: "Não, eu tenho que resolver, mas eu não dava importância, né? Para mim era indiferente." Entendi. E foi em 2023 que entrou na sua vida o paradestramento. Como que foi isso? Isso, exatamente. Eh, eu ainda saltava, só que eu me coloquei em risco algumas vezes de uma maneira desnecessária, porque eu já tava com meus 26 anos, mais ou menos 27. Então, para mim era um tanto, ah, não, vou continuar saltando, tanto que o meu cavalo que vocês vão conhecer hoje, eu saltava com ele. E falei: "Não, vou um dia fiquei muito mal, quase caí, quase me machuquei feio". E uma conhecida minha falou: "Bianca, tenho paradestramento, você quer ir fazer uma avaliação? Quer ver como funciona?" Falei: "Ah, tô fazendo nada, vou". E dali para trás eu abracei o paradestramento e se tornou mais fácil treinar, porque eu fazia uma força absurda. Eu saí assim quase que roxa do cavalo para conseguir fazer o que precisava e hoje é mais saudável. Uhum. Então, em nenhum momento você parou de competir, você sempre continua competindo, montando, só mudou ali a modalidade. É, exatamente o competir, eu fiquei um bom tempo sem competir, porque como eu tinha muita dificuldade, eu falava, eh, eu era difícil, eu não vou negar, saltar para mim se tornou uma coisa muito difícil. E eu saltava na época em casa, que eu falo, né, na onde os cavalos ficavam tudo. Então era uma coisa mais branda, mas eu não tinha parado, eu tinha parado de ir para provas e fazia muita falta porque eu amo uma prova, eu gosto de competir. E a hora que o paradestramento veio e me deu essa oportunidade de poder competir em pé de igualdade, falei: "Opa, gostei". Uhum. E agora sempre que tem prova eu vou. Ai, que bacana. E como que foi para você também poder voltar a competir de uma forma mais fácil? É. poder, eu brinco, né? É mais fácil que eu falo, é poder sair do cavalo sem tá com a boca roxa, se anote, fica com sensação de desmaio, que não é um pouco saudável, mas competi em pé de igualdade. E para mim foi muito difícil aceitar esse pé de igualdade também, porque para mim eu saltava grande, eu me divertia, falava: "Não, até hoje às vezes eu falo: "Não, eu consigo". Daí, eu paro e penso falo: "Não, vamos evitar problemas". Então, eh, para mim o paradestramento veio como uma forma de aceitação também das minhas limitações hoje, que eu fico meio revoltada ainda, eu não nego, a gente fica, mas daí eu monto, eu saio bem, eu saio respirando sem dor, sem tá travada, eu falo: "OK, eu tenho que continuar assim, eu não posso abusar, né? Eu não posso passar do limite, tem que entender ali os seus limites, né?" Exatamente. E para quem tá em casa e não conhece, como que funciona o paradestramento? explica um pouquinho pra gente. O paradestramento, ele é uma derivação do adestramento do clássico, que é um esporte que a gente não tem o salto, não tem algumas coisas que são mais que necessitam de uma mobilidade maior, de uma energia maior, porém você tem total controle sobre o cavalo. É muito legal porque a nossa cerca é pequenininha, tudo. E a gente tem cinco graus dentro disso. O grau um é o pessoal que tem deficiências motoras mais severas. Então, no caso, é o pessoal que fica mais ao passo, tem figuras todas ao passo e conforme vai subindo os graus, grau 2, 3, 4 e 5, vai aumentando o nível de mobilidade e capacidade física do atleta, do cavaleiro. Então, grau dois, a gente tem um pouco de trote, o três, no meu caso, bem mais trote do que passo, o quatro trote galope, e o cinco chega quase a ser uma uma reprise de uma média um, que é uma das categorias do adestramento regular, né? Então, eh, essa avaliação toda é feita por médicos, por fisioterapeutas, por pessoas que são treinadas para isso dentro da Federação Equestre Internacional e da Confederação Brasileira. E eles encaixam o atleta dentro da capacidade física, dentro dos graus. E a tem a pista normal de 20, é de 40 por 60. E tem a nossa pista 40 por 60, não, 20 por 60. E tem a nossa pista que é a menorzinha que é 20x 40, certo? E nessa modalidade tem alguma competição, alguma vitória que você já conquistou, que te marcou também? Para mim foi o primeiro brasileiro. O primeiro brasileiro que eu ganhei foi muito importante porque era uma coisa que eu achava que eu não ia conseguir de novo. Uhum. E quando eu recebi a faixinha lá, eu falei: "Putz, consegui e dá para chegar lá". E a primeira prova internacional, que na época que eu saltava, porque eu era bem mais nova, eu saltei algumas provas internacionais, eu sabia que ali era o o topo e o meu medo de não chegar lá de novo. Uhum. Então, a primeira prova internacional que eu ganhei e o primeiro brasileiro foram: "OK, eu tô voltando para onde eu nunca devia ter saído." E quem vê as medalhas não imagina a rotina de treino que você tem, né? Uma rotina de treino pesada. Pesada. Eu venho todos os dias, eh, treino aqui, monto alguns cavalos com o meu treinador, com o meu professor, todos adequados a minha situação. E assim, é um atleta mesmo. E a gente brinca que mais atleta do que a gente é o próprio cavalo, então eles têm que estar impecáveis sempre, alimentação, rotina. E é realmente o pessoal fala: "Ai, montar é só sentar no cavalo". Não tem toda uma técnica, musculatura correta, força, peso. Então é bem é bem legal assim, todos os dias estamos aqui. Que bacana. E conviver com a esclerose, como você falou, ela causa mesmo com tratamento, né, acaba causando ali uma dor física, eh, devido à mudança de tempo, muitas vezes. Eh, quando você tá assim noss dias mais difíceis, que que faz você continuar e não desistir do esporte? O que eu tenho uma teoria que assim, o que precisa ser feito precisa ser feito, independente se tá sol, se tá chuva, se dói, se não dói. E eles, né, eu brinco, o cavalo vocês vão ver hoje, o Cronos, é o meu pernudo. Então, ele não, a culpa não é dele se eu tô com dor ou não. Ele precisa caminhar, ele precisa trotar, ele precisa se exercitar. E a gente tá junto há muitos anos. Então ele olha para mim, o ponto de referência dele sou eu, então é por ele. Também tem os outros cavalos que eles olham para mim, eles precisam de mim e eu preciso deles. Então é uma troca. Quando tô muito cansada, com muita dor, tô muito travada, é óbvio que eu não vou montar, mas existem outros trabalhos que a gente pode fazer da guia do chão, que também o cavalo se exercita, que também são fundamentais e que mantém eles ativos. Uhum. Então, pra minha o que faz valer a pena é a minha pequena gang. E agora, qual o próximo objetivo? Qual o seu próximo passo aí nas competições? Olha, eu tô sonhando muito com Los Angeles. Eu sei que é um sonho alto, eu sei que é uma é um passo grande, mas eu tenho aquela sensação que eu posso chegar lá. Uhum. Né? Eh, por enquanto eu tô, eu cheguei na long list, na short list, vim de horn na água agora, sou reserva. pro mundial que vai ter esse final, esse final de agosto. Então assim, eu cheguei um um passo mais perto e eu sei que se eu tô esse passo mais perto eu consigo chegar na equipe, no individual para Los Angeles. Claro. E eh você tem a sua condição, né? Eh a partir disso, você espera também inspirar outras pessoas, quem sabe a não desistir, a continuar ali no esporte? É uma coisa que assim eu sou fui, eu sempre fui muito eh teimosa. Então para mim eu sempre olhava e falava: "Não, tem que ser feito, tem que ser feito, tem que continuar". Eu nunca parei para pensar, ai sou uma inspiração. Vou ser bem honesta. Falava: "Gente, tem que ser feito, tem que ser feito. A gente vai embora com doença, sem doença, com gripe, sem gripe, é a vida". Eh, recentemente minha terapeuta e muitas pessoas à minha volta falam: "Não, Bianca, você tem que contar mais isso para para". Então, assim, não almejo sem inspiração para ninguém, porque eu acho que isso é demais. Mas se alguém quiser bater o olho e falar: "Se essa doida consegue, eu também consigo". Já valeu a pena. Se uma pessoa falar: "Se ela conseguiu, eu consigo". Tá ótimo. Então, olhando pra Bianca ali de 18 anos, que acabou de receber o diagnóstico, eh, como você definiria ali corajosa, inconsequente. Existe uma linha muito tênue entre a coragem e inconsequência. Na época eu era inconsequente. Hoje eu continuo tendo coragem, mas eu tenho noção que eu não posso mais abusar, né? Eu tenho que entender esses limites. É uma coisa que até uma das dos médicos que me atende, uma das médicas que me atende me puxa muito a orelha, é que eu não posso ficar passando do meu limite o tempo todo, porque isso gera um desgaste que não precisa. Então foi foi ao longo desses anos aprender essa linha tênue entre a inconsequência, coragem e o que eu não devo. Uhum. Então, tão tão me orientando assim, minha meu lado teimoso é um pouco grande, então tão me orientando a me tornar uma pessoa mais calma. Perfeito. E pra gente encerrar, Bianca, queria que você deixasse uma mensagem eh até mesmo de visibilidade eh pro esporte, eh até mesmo pra esclerose múltipla também. Sim. A gente tá no mês de conscientização da esclerose e mais do que um mês de conscientização dessa doença, que ela é uma doença chatinha, eh olhar para as doenças que não são visíveis, né? Porque quem olha para mim fala: "Ah, ela não tem nada". Mas é muito difícil que as pessoas entendam que a limitação existe. Então é realmente conscientizar sobre essas doenças e quem tem também se conscientizar. que não é uma coisa que vai passar. Uhum. Ela vai estar com você a vida inteira, mas não é por isso que a vida vai ser ruim. A vida ela é maravilhosa e a gente consegue aproveitar muito e dá para fazer do limão, uma torta de limão que é mais gostosa. Exatamente. Muito obrigada pela sua participação aqui, por compartilhar um pouquinho da sua história. Muito boa. Agradeço. Eu que agradeço. Foi um prazer. E você falou que não serve como inspiração, mas eu espero que esse depoimento aqui sirva de inspiração para quem tá assistindo. Pode ser. Pode ser. Espero que vocês tenham gostado do História de Vida e até o próximo programa. Ciao