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Histórias de Vida | Maria Ferreira
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Histórias de Vida | Maria Ferreira

381 views Publicado 21/08/2026 HD · 17:55
Resumo editorial

Maria Ferreira narra sua trajetória de acolhimento a crianças e adolescentes em situação de rua na região central de Campinas, iniciativa que começou após pedido de um padre da catedral. Através de ações de solidariedade com oferta de alimentação, abrigo e atividades, fundou a Casa Maria de Nazaré, espaço de oportunidades para crianças em vulnerabilidade. A entrevista destaca como o amor e o olhar compassivo foram fundamentais para transformar vidas e criar novos caminhos para meninos que se tornaram sua família.

Citados nesta edição

Descrição do vídeo

Décadas atrás, a Rua 13 de Maio, no centro de Campinas, era território de crianças e adolescentes que viviam nas ruas, roubando bolsas e correntes para comer ou sustentar o uso de drogas. Foi ali que Maria Ferreira, a pedido de um padre da Catedral de Campinas, passou a se aproximar desses meninos, entre eles Edmilson, líder de um grupo de 14 crianças que depois se tornaria filho dela. O trabalho, iniciado com cadernos e lápis de cor, deu origem à Casa Maria de Nazaré, criada para acolher crianças em situação de vulnerabilidade.

Transcrição completa do vídeo

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[música] [música] Décadas atrás, era comum encontrar crianças e adolescentes morando [música] nas ruas na região central de Campinas. Muitas passavam os dias em busca de comida ou abrigo, mas encontravam portas fechadas e preconceito. No Histórias [música] de Vida de Hoje, vamos conhecer a trajetória da dona Maria Ferreira, que diante desse [música] cenário resolveu agir. E foi entre essas crianças que ela encontrou dois meninos que futuramente se tornariam os filhos dela. Dona Maria, seja bem-vinda à história de vida e também obrigada por nos atender. Eu que agradeço a vocês. Para começar, [música] eu queria que a senhora falasse um pouquinho sobre esse cenário que eu falei inicialmente, que décadas atrás tinham muitas crianças nas ruas de Campinas. Como que era isso? E tinha mesmo, fervia de criança de rua, mas nós começamos a pedido de um padre da catedral, porque eles entravam na catedral e levava já o araminho para roubar lá no cofre e puxava o dinheiro para cim. Quando o padre aparecia lá na porta e tocando eles de lá, eles xingava de palavrão o padre. O padre ficava com vergonha, entrava para dentro e largava eles lá roubando. Aí ele veio até nós, porque nós tínhamos um grupo de oração na catedral. Ele veio até o grupo e pediu, gente, não fica só orando. Abaixe os braços para trabalhar também. Tire essas crianças daqui de dentro. Nós falamos: "Nós vamos tentar, padre, nós vamos tentar". E era um grupo grande, né? Nós dividimos com reuniões e essas coisas todas. Uns queria e dar sopa à noite, outros queriam, a gente queria coisa mais pé no chão. O grupo dividiu, né? Então ficou para lá para dar sopa, nós fomos para atrás dessas crianças. Mas [música] era terrível, era muita criança na rua. Na 13 de maio fervia de criança. [música] As mulheres não tinham sossego para andar na 13 de maio. Que eles roubavam, roubavam bolsa, roubavam coisa do pescoço. Isso tudo eles roubavam para vender, para usar droga e e para sei lá, para comer. Uhum. Mas eles roubavam também para comer. A americana mesmo foi vítima deles, né? Era sempre vítima. Então todo lugar que eles entravam, eles eram uns escurraçados, né? Então, viviam sempre fugindo. E quando nós começamos a andar atrás deles, foi difícil também, porque eles, o, o meu, esse meu filho mais velho, Edmilson, ele era chefe da gang. [risadas] Ele tinha 14 crianças que andava com ele. Olha. E quando ele me via e junto com a outras companheiras que estava comigo, ele gritava pros meninos: "Corre porque é é é juizado, juizado e menor". E olha, você só vi as perninhas deles no meio no meio da da 13 de maio, lá no meio daqueles povão da 13, a gente ia atrás ainda. Mas toda vez era isso, era difícil a gente conversar com eles de explicar para eles o que a gente queria, ajudar. Uhum. E um dia foi assim, que que vocês fizeram ali para chamar a atenção deles? Cans foi cansando. Então elas elas as outras que andavam comigo pararam. Falou: "Maria, eu vou parar porque não vai dar certo isso aí não". E eu não sei, me tocou muito as crianças [música] de rua, porque na minha cidade não tem, não tinha, não tem até hoje, porque eu fui lá pouco tempo, não tem ainda e tá grande quase [música] igual Campinas. Eu falei: "Eu vou, eu vou, eu vou continuar". E continuei. Eu levava uma uma sacolinha com caderno, lápis, levava eh canetinhas de cores, né, para eles [música] trabalharem, para eles fazerem alguma coisa, por eles para fazer alguma coisa. Mas era difícil. Você sabe como é que eu consegui esses meninos? Uhum. Eu falei, eu vou lá na porta, porque antes eles andavam de ônibus. Hum. Eles andavam de ônibus, eles passavam por baixo da roleta e descia aqui na cidade. Eu falei: "Eu vou lá na porta do terminal". Olha, eu fui sozinha para lá. Uhum. Quando eu vi os ônibus chegando, eu falei, só vi criança descendo. E vi aquele bando junto com Edmilson. Ah, pulei no meio deles. Deu um pulo no meio deles. Falei assim: "Opa, é criança que nem vocês que eu tô procurando para fazer um time de futebol". Ah, minha filha. Daí parou todo mundo. Aí chamou atenção. Ah, chamou atenção. Foi assim que eu peguei eles. E daí eles começaram a perguntar para mim: "Mas a senhora tem campo?" Eu falei: "Tenho." "A senhora tem chuteira?" "Tenho." "A senhora vai dar uniforme?" "Vou?" Não podia nem com um gato pro rabo. Não tinha era nada. E quem tinha era a que que era diretora, né? Que se tornou diretora da casa, Maria de Nazaré. A Marta. Marta falou: [música] "Maria". Eu cheguei em casa, falei: "Mas tá 15 crianças e eu sozinha na porta da catedral". Eu falei: "E eles vem amanhã, Maria?" Vem. Eles disse que vem, vão vir. Mas eu prometi tudo isso para ele. Campo de futebol, chuteira, uniforme. Ela falou: "Maria, deixa comigo, eu vou providenciar tudo isso". É. E providenciou mesmo. Ela falou: "Amanhã vou levar lanche e vou levar suco para eles". E o marido dela era o presidente da Ponte Preta. Então ela levou eles para na Ponte Preta. Até jogaram uma bolinha lá com os jogadores que estavam lá. Uhum. É assim que começou o nosso trabalho. Daí começou, as outras voltaram também, foram ajudando, que a gente trabalhava, não tinha casa, não tinha nada, não tinha uma assistente social, nem nada ainda, não podia pagar ninguém. Comprar uma casa também não tava difícil. E saímos atrás de casa para alugar. Mas quando sabia era menino de rua, não queriam alugar, ninguém não. Não queriam de jeito nenhum. Então acabava por aí. Até que apareceu [música] uma casa vendendo ali atrás do mercadão. E a a Marta me disse: "Maria, [música] vamos lá ver essa casa. Vamos, vamos lá. Casa antiga e tudo, tinha que fazer uma reforma. Mas a gente não tinha, a gente começou a trabalhar para comprar a casa fazendo chá, fazendo bingo, fazendo jantar, que a gente contratava eh essas, como é que fala aqui? Bifet. Então eles iam e fazia a casa de Portugal sempre nos cedia o salão. Uhum. Então a gente fazia isso e foi o dinheiro. Foi com que nós fomos até a mulher não tinha todo o dinheiro ainda, mas ela aceitou o que a gente tinha e ficou para pagar o restante depois. E no início, como que era a rotina ali na Casa Nazaré? Os meninos iam até a casa, vocês davam café da manhã? Iss iam até a casa. A gente também dizia: "Não vai ficar sem escola". Uhum. Nessa casa que nós compramos lá tinha uns quartinhos no fundo ali. Nós fizemos uma salinha de aula e tinha uma amiga minha que ela era aposentada, professora e ela ia dar aula para eles. E esse Dmilson sempre deu trabalho porque sempre procurava encrenca dentro da sala, né? E mas foi assim, mas para tudo. Você sabe que quando levou essa esse esse esse turminha do do Edmilson Aham. Ele não queria mais que entrasse nenhum outro menino que fosse bando na casa. Olha só, só a turma dele. Só a turma dele. Até que a Marta chegou para mim e disse: "Maria, nós vamos ter que afastar esse menino, senão nosso trabalho não vai pra frente. Eu não vou ficar só com se com essas crianças. Eu tinha umas 60.000 de de criança, podia estar lá. Daí eu falei: "Ah, tudo bem, Marta". Mas ela afastou o menino por três meses. Uhum. E aonde eu não gostei muito, eu falei três meses, nós já estamos com um ano de serviço em cima dos meninos, vai tudo por água baixa, né? Vai perder esse trabalho. Mas eles começaram, eles descobriram onde eu morava. Uhum. Descobriram. Aí então ficava ali embaixo da janela aliando tia Maria. Uhum. Era tia Maria. Então eles assim, eu entendia, sabe? Entendia e olhava pela janela e falava pro [música] porteiro: "Deixa subir que eu vou dar". Porque ele tinha um outro que andava sempre com ele, então não desgarraram não. Andava dois juntos. Ah, sim. E eu falar: "Deixa eles subir que eu vou dar um lanche, depois eles vão embora". Uhum. Né? E assim foi acontecendo deles estar vindo, tomando lanche e ficando aí, deitava pro chão, olhando para televisão. E com esse vai e vem, eu acabei perguntando para eles: "Vocês querem morar aqui com a tia Maria?" Uhum. Se a senhora deixar? Eu falei, mas aqui tem três coisas que eu vou pedir para vocês séria. [música] Não vai ficar sem escola, não vai ficar sem uma igreja, uma religião e não vai ficar sem uma profissão. Uhum. Vocês vão ter que aprender isso, ir atrás disso. Eles daí uma assistente social na tempo do color, foi muito bom até que ele o que ele fez, né? Pois essa lei de banco, indústrias, tudo pegar crianças carentes para aprendizado. Hum. Contratar. É. Daí eles ela arrumou para eles dois, uma no Banco do Brasil, um e pro outro na Caixa Econômica, né? Onde eles foram trabalhar. Uhum. Começaram a trabalhar. Daí eu fiz cadernet de poupança para eles. Eu falei: "O dinheiro de vocês vai ser guardado, não precisa gastar. E o que vocês precisarem eu dou". E você falou bastante do Edmilson, né? nós conversamos com ele também [música] aqui no Histórias de Vida. Quem quiser assistir, vou deixar o link do programa disponível aqui. Eh, e voltando um pouquinho na história, eh, como que foi esse processo de adoção? Foi difícil naquela época? Foi. Eu ouvia todo dia esse telefone tocava, eu ia já atender. Era assistente social, [música] era o da polícia, era do lado do juizado menor, porque eu estava irregular, que eu não podia estar com as crianças aqui dentro. Um dia me fezei, me fezei e falei: "Pois eu quero ver quem vem tirar esses meninos daqui. Venha tirar a casa é minha." Daí briguei. [risadas] Menina já tava cheia de tanto ouvir isso. Todo mundo me enfermizando por causa das crianças. Tá aqui na rua pode na rua pode, né? Usar droga e roubar que nem eles roubavam. Isso pode, mas levar para casa não. Ora, me fez por causa disso. Uhum. Eu falei, daí eu peguei um assistente social e falei, que que eu devo fazer, hein? [música] Ela falou para mim, Maria, um advogado. E o meu filho mais novo, eles trabalhava no Banco do Brasil aqui na esquina, ele perto da catedral. Ele, eles chegaram em casa, eu falei [música] para eles: "Olha, vocês estão para ir embora outra vez pra rua porque tão tá me enfermizando já isso. Esse povo de de do juizado de menor, vocês não podem ficar aqui. E vocês querem?" Foi quando ele ele [música] ele falou para mim: "Mãe, lá no banco tem um advogado, eu posso falar com ele?" Uhum. Falei: "Pode, fala com ele". E ele falou, ele disse, o advogado respondeu para ele, não é minha área, mas eu vou arrumar meu colega para fazer isso para vocês e daí passou daí começou as audiência e tudo. O juiz já me chamou na última audiência e disse: "Tá aqui os papelada, tá as papelada aqui. O registro deles já está anulado. Uhum. Você vai nesse [música] cartório, me deu até o cartório, e vai registrar esses dois meninos como seus filhos, olha só. E os seus pais como a voz dele. E foi assim. E também nesse processo a senhora sofreu, sofreu muito preconceito das pessoas, né, por ter abrigado os meninos. Das pessoas. Nossa, que era uma loucura. Vou começar de um rapaz que eu namorava que ele chegou e falou: "Você tá ficando louca. Onde já se viu pegar esses dois meninos de rost?" Dois, dois, como é que eles falavam? Era, eh, não era bandido, era trombadinha, trombadinha. Esses dois trombadinhos, [música] você não tá vendo que levar esses meninos para dentro de casa, eles vão roubar, eles vão levar droga para dentro de casa. Não dá certo isso. Ai, meu Deus do céu. No outra, no outro dia ele vinha sempre a hora que os meninos tava pro para fora, sabe? E de novo a mesma conversa. Até que um dia eu me esquentei [música] e falei para ele, ele que não falei para ele não, ele que disse para mim. ou eu ou os meninos. E eu falei: "Então, tchau para você". Aí foi embora e [música] nunca sabe que eu nunca mais ouvi também [risadas] mais. Mas apareceu um outro que tinha um escritório aqui embaixo no prédio e veio também o senhor e aquele conversinha boa, né? Tomar café, não sei o quê. Até que me esquentei. Daí eu que me esquentei e falei para ele: "Nem me fala em casamento, eu não vou me casar porque se meu marido botar a mão desses menino, eu vou virar [música] uma onça." Uhum. Daí também sumiu [risadas] e fiquei solteira. Bora sozinha, graças a Deus. Casou os dois, fiz o casamento deles e tudo, tudo certo. E você falou que eles já estão criados, né? cada um com a sua profissão. A gente falou muito do Edmilson aqui que nós conversamos com ele também e hoje em dia ele tem um trabalho muito voltado para esses jovens também vulnerabilidade social. Como que é pra senhora ver isso também? Você sabe que eu queria que eles fosse professor, que ele fizesse a faculdade para ser professor, porque ele gosta muito de criança. Uhum. Ó, que ele andava com essa turma de criança e ele gostava muito de criança. Eu falei na na escola tem bastante criança, mas não, ele [risadas] ele não quis não seguiu a a faculdade, não. Ele parou e desistiu de tudo. Mas pegou essas casas, né, com essas crianças assim, que também precisam de ajuda, né? É. É. E que as crianças diz que adoram ele. Uhum. Diz que obedece ele porque eles fazem bagunça lá. E o primeiro a chamado é o Edmilson. Às vezes ele tá de folga, chamam ele lá. Ah, quando chega diz que tudo para. Uhum. Acaba a bagunça. Eles respeitam porque eles falam, né? Também fui de rua, eu sei como é que é. Uhum. Então ele ele [limpando a garganta] diz que conversa bastante com as crianças. Uhum. E olhando para [música] trás assim na sua história, é aquelas crianças eh vulneráveis, morando na rua, eh faltava para elas abrigo, comida, mas também faltava amor da senhora olhando para trás. E é só isso que faltava. muito amor que que as pessoas onde eles entravam eles eram escurraçados na rua. Eu cheguei a enfrentar um senhor que tava batendo num dos meninos. Uhum. Em frente americana. Eu pulei na frente, falei: "Solta já esse menino". E o homem olhou para mim e falei: "Solta já esse menino". Daí ele soltou, empurrou o menino, menino caiu lá no chão lá. Daí [risadas] ele catou um pau que tava lá perto dela, levantou com o pau na mão. Eu falei: "E larga esse pau, senão quem vai apanhar com o pau agora é você". Mas eu enfrentei muitas vezes essa situação deles estão brigando, de tá batendo, agredindo eles na rua. E também eh você como mãe, o que é ser mãe para você, né? Hoje em dia você falou que tem seus netos, seus filhos criados. Você sente orgulho desse? Sinto, sinto orgulho e agradeço a Deus todos os dias por isso, pelos meus filhos, pelo por esse lar, por tudo. Eu agradeço a Deus, porque eu sozinha não sou nada, não. Não sou nada, não posso nada, não sei de nada. Parece que Deus marrou assim uma vendazinha no meu olho e falou: "Ó, essa aqui [música] você vai cuidar deles, né?" E eu cuidei com amor e carinho, né? Eu f eu tenho muita fé em Deus. E peço sempre força para ele, sabedoria, que tem que ter sabedoria para lidar com essas crianças, né? E Deus me ajudou sempre. Dona Maria, muito obrigada mais uma vez. [música] Eh, o legado da senhora mostra que quando alguém decide agir, pode mudar vidas. Pode mudar, pode mudar. Até eu achei interessante porque a primeira entrevista que eu fiz, tá correndo o mundo. Eu falei, eu não pensei que acontecesse isso, pensei que que ia ficar aqui em Campinas só, né? E mas não correu muito. Eu falei não, eu não achei que foi uma coisa tão grande assim grandiosa ou importante que eu fiz. Qualquer um pode fazer. Uhum. Né? Mas falta uma coragem, né? Falta esse olhar, né? Esse olhar de amor, de carinho, de o que eles sentem, o que eles precisam, realmente. É, é isso. Exatamente. Muito obrigada mais uma vez. [música] Agradeço pela participação aqui. Eu espero que a história também ajude você a mudar esse olhar para pessoas em situação de vulnerabilidade, porque uma ação pode mudar vidas, como [música] a gente falou. [música] [música] [música] Ah.
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