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A partir [música] [música] trás de Eloa Meirelles, a drag que creen [música] mais antiga e lendária de Campinas, existe Orlando de Oliveira. Há 37 anos, ele dá vida à personagem nos palcos. Mais fora deles, ele encontrou na enfermagem uma segunda profissão e durante a pandemia, ele atuou na linha de frente da COVID. No Histórias de Vida de hoje, ele vai contar um pouquinho pra gente sobre essas duas vivências. Orlando, seja muito bem-vindo ao Histórias de Vida. Muito obrigado. Obrigado pela entrevista e pela presença. Para começar, eu queria que você contasse um pouquinho pra gente é como que nasceu a Eloa. Qual foi a primeira vez que você se montou de Elo Meireles? Então, eu eu para começar eu tenho já 57 anos de idade, [música] né, que passa esse ano, como você falou, 37 anos de drag, sou o ator que dá vida e essa personagem. E tudo começou com uma brincadeira. No meu, eu tive um relacionamento, meu primeiro ano de relacionamento, a gente fez uma festinha para comemorar. E nessa festinha eu me montei, peguei coisa tudo muito improvisado. Me montei, o pessoal, os amigos que estavam na festa gostaram. E na mesma época, na Double Face, uma boate já muito antiga que já não existe mais, eh tava acontecendo um concurso, aí todo mundo, a participa, participa, participa. Aí eu na brincadeira, brincadeira mesmo, fui participei, fiquei em terceiro lugar, não ganhei e eu continuei. As meninas que ficaram segundo, primeiro não continuaram, eu continuei assim foi na brincadeira começou. E como que você escolheu [música] o nome e da sua drag em Luá Meireles? De onde surgiu isso? Um amigo meu que estava nesse dia, ele era fã da Regina, nossa, eu não vou lembrar o nome, uma das uma atriz antiga, da antiga Tupi, era uma uma e uma novela, ela tinha o nome de Eloa. Aí na hora ele falou: "Ah, Eloa, Eloá". Aí ficou Eloá e na época era chique ter um sobrenome. Uhum. A gente pensando, pensando, pensando e chegamos no Meireles. Aí ficou Eloa Meireles. Sim. E você faz e a Eloa esse personagem há 37 anos? [música] Você imaginou naquele momento que de uma brincadeira duraria tanto tempo? Pois é. Não, nunca imaginei. Porque para mim era uma brincadeira mesmo. Desde de a da primeira vez que eu me montei até participar do concurso, para mim era uma uma maneira de brincar, de [música] me soltar, né? né? Vestido de mulher, era aquela coisa de brincadeira mesmo. Nunca imaginei que pudesse virar uma profissão. Tanto que na época eu trabalhava no mapping. As pessoas antigas vão lembrar do mapping. Eu trabalhava no mapping, mas aí começou a ficar tão profissão, profissão. Eu comecei a ganhar dinheiro com shows que eu acabei saindo do mapa e ficando só com com show do Fail Eloa. [música] Sim. E isso foi no final dos anos 80 ali, anos 90, né? Como que era eh o cenário eh aqui em [música] Campinas? Isso foi exatamente 89 que eu comecei e eh tinha bem pouco pessoas que faziam shows aqui e eram dominados mais por travestis que elas eram elas faziam uma linha vedete, não existia o termo drag ainda, era transformistas e travestis, [música] era dominado por elas. E tinha muitas boates também. Como que era os shows naquela época? Eram shows grandes? Não, na quando eu comecei tinha só duas boates, a Double Face, que era nova na época, e a Bubies, né? uma outra parte bem pequenininha ali no centro, só tinha as duas e eram shows pequenininhos. A gente era ainda bem gueto mesmo, né? A gente estava, se eu não me engano, no final da ditadura ou tinha terminado há pouco tempo, uma coisa assim. Então era uma coisa bem escondida, bem gueto mesmo. E só tinha essas duas boatas e os shows eram bem pequenininhos, bem uma coisa improvisada, mas era uma delícia que tava começando, né? A gente estava plantando ali as primeiras sementinhas. Uhum. E naquela época você tinha alguma referência eh até mesmo para se montar ou era mais no improviso? Mais no improviso, porque eu eu copiava a minha referência eram as travestis da época, né? Só que eu não era travestia, né? Não sou travesti. E eu copiando elas, eu acabava que ficava um homem vestido de mulher, não ficava exatamente feminino, entendeu? Como hoje eu consigo ser por ah, porque pelos anos a gente vai aprendendo a como fazer a a atuação, né? Mas a minha referência era travestis, eu acabava ficando um homem de maquiado, que inclusive elas me falavam isso. E através disso foi surgindo com o tempo as drags, que anos depois começou o movimento drag. Então, digamos que eu fui o primeir a primeira drag de Campinas. Por quê? Porque eh eu tinha a referência dela, fazia maquiagem de travestis, de meninas, de mulheres em mim que era um homem. Então, preg. Uhum. Então agora a gente vai dar uma uma pausa para você se montar, [música] pra gente voltar aqui com você como Eloa, pra gente poder conversar também com ela, tá bom? Muito obrigado. [música] [música] [música] [música] [música] Então, agora depois de toda uma montagem, já está aqui ao meu lado o Orlando como Eloa Meirelles. Então, vou dar as boas-vindas de novo. Seja bem-vindo à história de vida, Eloá. Muito obrigada. Agora eu tô aqui bem basiquinha com a roupa que eu vou na feira todo domingo. Aham. Bem simples, bem sincor. Eu acho que uma coisa simples pega mais. [risadas] Perfeito. Então, retomando o assunto, Eló, a gente tava falando sobre eh os anos 80, os anos 90, é, que você fazia muitos shows, eh, andava muito o Brasil, né, com essas apresentações. Eh, quando que você foi pra Europa? Foi e [música] pra Espanha inicialmente, qual foi o primeiro local que você ficou por lá? Tá, os anos 90 foi o grande boom da drag queen no Brasil. Começou no começo dos anos 90 e foi pra televisão. Meu primeiro programa de TV foi Bolinha, aí fiz Bolinha, fiz Santos duas vezes e o último foi o Raul Gil. Então foi o grande boom que a gente trabalhou muito mesmo foi os anos 90. Aí viajava o Brasil inteiro, onde a a festa boa tinha que ter uma dry queen. Uhum. Até que em 2002, 2002, isso, surgiu a oportunidade de ir pra Europa. Eu queria ganhar um dinheirinho, queria guardar um dinheirinho, né? E para guardar dinheiro, a Europa ainda, pelo menos na época, né, era a melhor opção para você guardar um dinheiro rápido. Aí recebi o convite de ir pra Europa trabalhar lá e fui para Portugal. Mas Portugal, apesar de trabalhar bastante, não tava sendo legal para mim. Aí pulei pra Espanha, que é do lado, em Sevilha. Aí em Sevilha montei meu acampamento, entrei para uma agência de de espetáculos. Aí dali eu viajava a Europa inteira. Uhum. Aí e fiquei 5 anos lá, consegui juntar o dinheiro para comprar imóvel e voltei pro Brasil. E como que foi viver essa experiência? O que que você tirou de aprendizado durante esse tempo que você ficou por lá também? Então, para você trabalhar na Europa, eu tô falando daquela época, né, que já já fazem 19, 18 anos que eu voltei de lá. Para trabalhar você tinha que ser artista, você tinha que fazer uma variedade grande de shows, desde números engraçados, caricatas de humor até top, todo tipo, é pirofagia, que eu trabalho com fogo também. Então, quanto mais coisa você fizer, mais você trabalha. E lá na época tinha muito campo, é, de segunda a segunda tinha onde fazer show. Então, se você tem uma variedade de artes, espetáculos, você trabalha mais, porque tem [música] campo, entendeu? Mas foi o que eu fiz. Trahei muito. Trabalhei bastante, bastante. Teve época de eu trabalhar 16 dias seguidos. Eu trabalhei numa feira lá, feira, né? Feira de Sevilha. Uhum. E eu trabalhei toda a feira, então era 16 dias sem parar e montando todos os dias, só que como eu te falei, fazendo espetáculos diferentes, porque se todo dia eu entrasse com esse mesmo vestimento, fazendo a mesma música, não sei, não teria graça, né? Então o que eu fazia, por isso que eu trabalhei muito, é cada dia fazer uma coisa diferente. Entend como que era a montagem desses espetáculos também? Como que você se inspirava? Como que você fazia isso? [música] Então, eh, televisão. Aham. Madona, as divas da época, vendo muita informação em revista, jornal na época, né, que hoje a gente tem internet que é muito mais fácil. Foi através de tudo isso e das das mais antigas também de São Paulo, Rio de Janeiro, das eh das transformistas antigas, eu pegava ideias e ia montando os meus espetáculos em casa mesmo, eh pesquisando em casa, ensaiando em casa, correndo atrás de música, que na época era muito difícil conseguir música, porque hoje a gente vai pra internet, já consegue a música. Na época a gente dependia de DJs, então eu tive muitos DJs amigos que faziam músicas para mim. Hum, entendi. E quando você retornou pro Brasil e você veio decidido que não iria mais e eh ser a Eloa Meirelles. Isso. Como estava muito cansada na época, né, que 5 anos de Europa trabalhando direto, eu tava muito cansada. Então eu decidi vir voltar pro Brasil. Quando eu consegui o que eu queria financeiramente, decidi voltar e decidi também que ia parar. Só que no Brasil a gente tem um pouco o síndrome da do viralata, né? A gente valoriza muito o que é de fora. E isso aconteceu comigo quando eu voltei da Europa, eu era eloar Meireles da Europa. Então meu cachê valorizou, eram muitos convites. Aí eu continuei, fui continuando, continuando, não consegui parar. E aí foi quando eu fiz o curso de enfermagem, comecei na minha outra paixão, que é a enfermagem, né? [música] A Eloa continuou, mas não com o intuito de ganhar dinheiro e ganhar vida. Eu comecei a fazer a trabalhar na enfermagem e hoje é isso. Hoje eu faço Eloa, ganho dinheiro ainda, é claro, mas eu faço o Eloa mais na intenção de me divertir porque eu gosto da arte e meu trabalho onde eu ganhei meu sustento mesmo é técnico de farmácia. [música] E por que enfermagem você sempre quis? Sempre quis. Eu tenho essa coisa de cuidar das [música] pessoas e meus amigos sabem, eu gosto de cuidar, entendeu? Aí a partir disso, eu eu pensei na na enfermagem, fui atrás, fiz, já entrei quase que direto para uma UTI no hospital e eu amo que eu faço. Já fazem 17 anos que eu tô na enfermagem. E como eu falei no início, você atuou na linha de frente ali da COVID naquela época que foi tão intensa, é tão marcante também pro Brasil, como que foi e vivenciar esse período? [música] Foi muito difícil, psicologicamente foi muito pesado porque a gente via famílias, né? Eu acompanhei no na UTI uma mãe com os dois filhos ao lado e infelizmente faleceram. Então foi uma época, um prazo aí muito carregado pra gente, porque a gente via isso, é muito sofrimento e as famílias não podiam ver lá seus entes queridos, né? Tinham que direto pro inteiro. Era horrível, foi horrível, foi horrível, mas alguém precisava fazer. Uhum. Então eu me senti assim, eh, necessário e é gostoso a gente se sentir assim, me sentir ajudando e fiz o máximo que eu pude, assim, o melhor que eu pude em toda [música] essa coisa horrível que aconteceu, que foi a pandemia. E daquela época para cá, você falou que teve esse boom, né, nos anos 80, nos 90, das drags. Daquela época para cá, o que que você enxerga que mudou nesse cenário? É, infelizmente, eh, desvalorizou bastante a arte, eh, por culpa de muitas artistas, o público mudou bastante também. Infelizmente as as drogas tomaram conta das boates. Eh, então, desvalorizou bastante também, porque muitos meninos começaram a se vestir de mulher, que é diferente de fazer arte drag. Elas se vestiam de mulher, eh, se diziam drags e se vendiam como drags para trazer show. Uhum. Só que na verdade elas queriam entrar na boate de graça, queriam ver o nome no flyer, então e acabavam e fazendo um show de má qualidade. E aí começou que a coisa ficou a mesma coisa, a a arte começou a ficar muito igual. Aí foi desvalorizando, desvalorizando, muitas casas começaram a não chamar mais, não chamar mais. E hoje nós estamos na situação de que, por exemplo, em Campinas, que é uma metrópole, né, nós temos só um bar que tem show de drag e mesmo assim esporadicamente, entendeu? Uhum. Então desvalorizou bastante e caiu bastante porque é é compreensível também porque nos anos 90 era meio que novidade, sim, né? Então a coisa quando novidade todo mundo consome, aí quando vai virando assim a a não vai mudando muito, acaba que hoje em dia as drags estão eh indo pro teatro, que isso é muito bom. Inclusive agora há pouco tempo eu fiz um projeto da Jaqueline Ramírez, que é uma produtora aqui de Campinas, nós fizemos o Castro Mendes, foi muito legal. Então eu vejo ainda uma respiração para arte drag, mas agora caminhando para para teatro. Pro teatro. Teatro. Uhum. [música] E você citou a arte drag. Acho que é importante a gente citar também para quem tá em casa o que é essa arte, qual o objetivo dela também. A arte drag é você precisa ser ator ou atriz, né? Porque você precisa interpretar esse personagem. Você você viu que sem isso eu eu sou diferente, né? Uma outra coisa. Então não é só colocar roupa em peruca e se maquiar. Você tem que interpretar um personagem, né? Mas todo mundo pode ser pode ser drag, porque é uma arte drag, não tem nada a ver com gênero, eh, com sexualidade, nada. Você pode ser uma drag com homem si isso pode ser uma drag, entendeu? Porque é uma arte, né? Então você escolhe a sua personagem, eh você pode interpretar da forma transformista, ou seja, se transformar naquele personagem. Aí envolve ensaiar movimentos, colocar roupa que seja idêntico. Ou você pode ser uma drag queen que coloca tudo com exagero, com cores, para, por exemplo, eu posso fazer uma Beyonc drag queen, que é uma drag interpretando da sua maneira a Beyonc. Madonna, eu posso ser Madonna, drag queen. A drag interpretando a Madonna, drag. Entendeu a diferença? Sim. E é isso. E o que é a Eloa para você também? Como que a Eloa ajuda o Orlando também? A Eloa já me salvou muitas vezes, viu? Psicologicamente [música] falando, é com a Eloa que eu me solto. Uhum. É com a Eloá que eu danço, que eu grito, que que eu eu faço tudo que o Orlando não consegue fazer, porque foi criado de uma maneira eh onde se onde era preso, entendeu? Eu sou lá do Paraná, eu tenho 57 anos, então é uma outra época em que a gente lutava para se esconder. Serguei na época era até perigoso. Então a gente fazia de tudo para se esconder e para que as pessoas não eh vissem que nós éramos gays, entendeu? Já Eloa é o contrário, é soltar tudo isso. Uhum. Botar para fora, colocar para fora. Então Eloa me ajuda muito nisso. Eu me divirto muito mais de Eloa. Me divirto de Orlando também, é claro, mas eu consigo me soltar mais quando estou de Eloá, entendeu? Então, a Eloa já me salvou e eu eu ouço vários relatos por aí que a arte drag salva muitas pessoas. A arte drag também é uma transição. Muitas meninas trans eh trans, elas se descobrem trans através da arte drag. Elas começam fazendo arte drag, se vê naquela situação feminina, tudo mais e ali elas se descobrem tantas travessias. Nossa, que bacana falar sobre isso. Legal. E olhando para trás assim da sua trajetória, né? O que começou lá antes como uma brincadeira. [limpando a garganta] Eh, toma o Brasil, até a Europa. Que que você mais se orgulha dessa trajetória? É poder olhar pro espelho, porque eu acho muito importante isso e saber que a gente fez tudo que eu fiz tudo certo. Eu não precisei pisar em ninguém, não precisei fazer mal a ninguém. Fui pelo meu caminho fazendo sempre a coisa certa e olhar no espelho um dia, saber que eu consegui tudo que eu queria financeiramente, né? e conseguir também fazer esse percurso todo sem machucar, sem pisar em ninguém. Isso eu me orgulho muito. Uhum. E também eh na sua trajetória, né, você contou pra gente um pouco e você olhando eh pensando sobre isso atualmente em questão de visibilidade, preconceito, você percebe que teve alguma mudança? Melhorou o cenário? Sim, melhorou. Mas é claro que tem que melhorar muito, né? que a gente tem a informação da internet, que a gente hoje a gente fica sabendo de muito mais coisas que aconte a gente precisa lutar para que não aconteça mais. Porque que mal faço eu estar assim? Por que que te ofende isso? A gente tem que pensar sobre isso, entendeu? Por que eu estar, eu sendo um homem, estar vestido assim que te ofende? Será que o problema sou eu? Acho que não. Acho que o problema é a pessoa. Uhum. Né? Olá, muito obrigada pela participação aqui na História de Vida, por contar um pouquinho essa sua história, que desde lá dos anos 80, né, até hoje você construiu um legado muito importante aqui em Campinas e no mundo. Obrigado vocês. Eu quero dizer o seguinte, valorizem a arte drag, tá bom? É uma arte maravilhosa que a gente quer passar só essa boa eh energia para vocês, alegrar vocês um pouquinho. Valorizem a arte drag. Quem quiser me conhecer melhor a todas as redes sociais éa Meireles com dois ls, tá bom? H L Oa Meireles com dois L. Também me procure, me contrate, a gente faz de tudo. A gente anima até velório. [risadas] Muito obrigada mais uma vez você de casa. Espero que tenham gostado do programa e até o próximo Histórias de Vida. Obrigado, gente. [música] [música] [música] [música] celular, mas o seu fica tentando entender e absorver Yeah.