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Algumas histórias são marcadas por recomeços e no programa de hoje vamos conhecer a trajetória do Tiago Nogueira, advogado que enfrentou a dependência química, mas reconstruiu a vida e hoje ajuda quem ainda busca uma saída. Tiago, seja muito bem-vindo ao História de Vida e obrigada por nos receber. Muito obrigado, agradeço o convite, Deus seja louvado. Para começar, Tiago, eu queria que você falasse um pouquinho da sua infância, como que era o Tiago ainda criança, como foi a sua vivência nesse período? Então, a minha infância, eu tive uma infância boa, né? Eu sou filho de Maria Isabel Nogueira, Tereza Diniz Nogueira e o da Diniz Valério, porque eu citei essas três mãe, tio e vó essas três mulheres foram muito presentes na minha vida meus tios também mas em especial eu cito elas então não tenho nada a reclamar da minha infância me colocaram na escola num parque infantil me mostraram o caminho do bem, me mostraram valores eu era criança uma atleta, sete anos de idade comecei a jogar bola participei de campeonatos paulistas até 12 anos de idade, tive uma infância muito boa. E na sua adolescência, que foi quando entrou na sua vida o álcool e as drogas, como que foi esse período também? Quando eu tinha 12 anos, a minha mãe, eu ia treinar numa segunda-feira, e a minha mãe falou assim, menino, preciso falar com você. Eu estranhei, né? Ela fala assim, menino? A mãe, ela sempre chama filho, né? E minha mãe falou assim, ela me deu uma notícia muito triste. Minha mãe me falou que ela tinha o vírus do HIV, que ela iria fazer a passagem. E se eu poderia cuidar da minha avó e da minha irmã. Isso mexeu comigo profundamente, porque na década de 90 não era como hoje, que tem coquetéis, uma medicina avançada, e naquela época não era isso. Além do preconceito era maior. Isso mexeu com a minha cabeça. E a partir desse momento, eu fui conhecendo pessoas e essas pessoas me apresentaram as drogas e aos poucos eu fui conhecendo. Primeiro eu conheci a maconha, depois eu conheci o álcool, depois eu conheci a cocaína e o final de tudo, que é a destruição total, foi quando eu conheci o crack. O crack é o fundo do poço, né? No começo, ele dá aquele prazer, dá aquela sensação, né? Que é até difícil explicar, mas aquela dopamina, um excesso de dopamina, uma energia. Mas depois ele aprisiona e a pessoa se torna um escravo, né? Fica refém dele. E quando foi que você se deu conta que você já estava entregue à droga? Quando eu tinha 22 anos, eu comecei a ver que eu estava me entregando. Não estava entregue, não, me entregando. Por quê? Eu trabalhava com meu tio, meu tio Jorge, na área de sucata, sucata de zinco. Então, eu acordava e ia trabalhar. Eu ia para o serviço pensando em droga e eu não via a hora de voltar para me ter um contrato com a droga. E eu fiquei anos enganando meus tios. Fumando crack praticamente todos os dias. Uma média de três anos, dos 22 aos 25. E ali, essa fase ali, eu vi que o crack já estava dominando a minha vida. Não tinha dominado 100%, mas já estava tendo o controle sobre a minha vida. E quando foi que realmente assumiu totalmente o controle? Que você se viu ali na rua mesmo, fazendo parte da Crackolândia? Em 2008, eu tomei uma atitude, que foi uma das piores atitudes da minha vida. Eu falei, eu não vou mais incomodar a minha família. Eu vou aceitar, a linguagem popular fala, que eu sou um noia. E eu vou sair de casa. E aí eu me entreguei, fui para a Cracolândia, cheguei lá, na Rua dos Gusmões, eu tomei um susto. Aquela multidão, aquele mar de gente. um monte de pessoa fumando caca ao mesmo tempo e no começo eu fiquei com medo não vou mentir, não conhecia ninguém, não conhecia nada só que aquilo, o ser humano ele é adaptável e com o tempo eu fui me adaptando aos costumes do local porque ali, na minha época antigamente, era uma empresa muito bem organizada como assim Tiago, uma empresa muito bem organizada tinha os caras que cuidavam da cachaça é o cachaceiro Os caras que faziam o cachimbo, os cachimbeiros. Os caras que vendiam os pedacinhos de craque de um real, dois reais, três reais, cinco reais, que eram considerados os biriqueiros. Então, assim, com um real, dois reais, você conseguia usar a biógrafa. Então, era fazendo a reciclagem, era pedindo no farol, carregando algum, fazendo algum carreto. Então, não era difícil. O centro de São Paulo sempre tem alguma coisa para fazer. Então você acaba ficando naquele loop e você acaba conhecendo as maneiras de você usar a droga todos os dias. E aí eu entrei no loop, eu entrei no padrão Cracolândia e fiquei lá enraizado naquele lugar pesado de 2008 a 2012 lá dentro. E como que era a sua rotina nesse local? Você falou que fazia pequenos serviços para conseguir o dinheiro ali para usar a droga. O que você fazia para sobreviver também nesse cenário? Então, São Paulo é uma cidade que existe vários lugares de alimentação. Na gíria, na linguagem, nós chamamos de boca de rango. Então, como que seria essa boca de rango? Tem um local que de manhã eu tomava café. Lá eu tomava meu banho e tocava de roupa. No outro local eu almoçava. Nesses locais, se encontrava outros adictos, Falaram, ó, vamos ali no Braz Descarregar um container Ah, vamos fazer um serviço ali Num bom retiro Ó, na luz tem alguma coisa pra fazer Ah, vamos ali fazer uma reciclagem Então, nesses pontos de locais De alimentação ali Eram os locais também que Pessoas como eu, que não gostava De participar do clima, coisa errada Mas meio que se reunia e ia Para os locais fazerem isso Então era fazer uma reciclagem Descarregar um container ou muitas vezes também no farol pedir, era mais esse modus operandi para conseguir o dinheiro para fazer o uso da substância e o que foi que te deu um start preciso mudar de vida preciso seguir um outro caminho foi um sonho o que mudou a minha história foi um sonho foi uma virada cultural que estava ocorrendo em 2012 e ali eu estava com pessoas e tava com dinheiro até, tava com droga e aí essas pessoas elas me deixaram e foram seguir o caminho delas e eu peguei e fui pra um hotel e nesse hotel eu fiquei lá usando fiquei fumando crack fiquei bebendo e eu tive um sonho com a minha avó no sonho a minha avó falou assim pra mim buscar um refrigerante e aí quando eu fui pagar o refrigerante o dono do estabelecimento no sonho, ele não quis receber. Falei, não, Thiago, pode levar esse refrigerante, você é um menino bom, um menino educado. Falei, não, não, senhor, o que é seu é seu, o que é meu é meu, só por hoje, pode levar, esse refrigerante é seu. E me deu o refrigerante. E aí eu cheguei em casa e tomei o refrigerante com a minha avó no sonho. Quando eu acordei, eu me olhei no espelho e tomei um choque de realidade. Falei, meu Deus, como que eu estou? Onde a minha avó está? Ela não deve estar feliz, ela deve estar triste. Ela não me criou para isso. Minha avó não me ensinou essas coisas Minha família não me ensinou E aí eu tomei um choque de arrelé Meu Deus, o que eu estou fazendo da minha vida E aí eu fui na Cristolândia Dia 8 de maio de 2012 Bati na porta e pedi ajuda E como que foi esse início do tratamento? Qual foi a maior dificuldade também que você enfrentou? Aceitação Aceitação pra mim foi muito difícil Esse papo de Jesus de falar de amor, de perdão misericórdia no começo para mim era muito difícil falavam para mim que Deus era bom mas eu tinha raiva de Deus porque como Deus é bom levou minha mãe de HIV, meu irmão de HIV meu tio na rua morreu de fudipotermia minha avó morreu de câncer e vir falar para mim que Deus era bom eu era muito revoltado, meu coração era muito duro eu era uma pessoa amarga rancorosa Eu gostava de briga, de confusão Eu era áspero Não era pessoa nem falante Que nem eu estou falando com você Eu era mais na minha, observador Mais calculista, sagaz Eu era essa pessoa E quando Começou Esse papo de Jesus Que Jesus ia mudar minha vida Que Jesus ia mudar minha história Ah, esse começo Foi muito difícil Eu não aceitava de jeito nenhum Eu fiquei Maio e no início de junho Eu fiquei resistente Eu não aceitava No começo eu não aceitei E o que foi que fez você mudar ali no tratamento? O que foi que você despertou Pra entender esse amor de Deus Como você diz Foi chamar Deus numa conversa Na linguagem assim, num papo reto Do jeito que eu tô conversando com você, eu falei com Deus Falei, você existe Ué, conversa desses caras aí Filosofia barata Pra entrar na minha cabeça e ficar manipulando Eu quero saber se realmente você existe Comecei a sentir algo Comecei a sentir um calor Comecei a chorar Eu só sabia chorar Eu não sabia falar E chorava, chorava, chorava, chorava Chorava, chorava E pedia ajuda de Deus ali, chorava, chorava E aí numa quinta-feira Eu lembro bem o pastor Jair lembro até a mensagem a mensagem que Jesus estava no barco no meio da tempestade e que Jesus não abandona ninguém na tempestade e se tinha alguém ali que queria aceitar Jesus como salvador que mesmo na tempestade Jesus ia mudar a vida e história e aí começou a passar um filme na minha cabeça a tempestade, tantas pessoas queridas que eu perdi ao longo do tempo aí depois no uso abusivo Perdi a minha tia Hilda Não fui no enterro do meu tio Jorge Todas essas mágoas dentro de mim E eu levantei a mão Eu levantei a mão Falei que eu queria que fosse Jesus Que eu ia dar o meu coração pra ele E que a partir daquele momento Ele entrasse dentro de mim E me desse uma nova chance Que eu não estava aguentando mais Eu estava cansado do sofrimento E quando que entrou o direito na sua vida? Quando é que você decidiu entrar na universidade, se formar, se tornar advogado? Eu já estava há três anos de Cristolândia. O tratamento lá são dois anos. Dois anos. E um ano você fica como radical, missionário voluntário. Ou seja, telefone só pela segunda-feira, não pode ter relacionamento, homem e mulher de namoro. Focado mesmo no estudo Da teologia Estudo da Bíblia Se eu não dizer assim Linhagem Batista Que é uma igreja Batista Só que que eu comecei a perceber Não só eu Como outros rapazes que estavam lá Que nós estávamos ficando velhos E precisava de uma profissão Vamos dizer assim Glória a Deus e Aleluia não paga a conta Vamos ser honestos E aí eu conversei com a missionária Soraya Falei, manhinha, nós estamos ficando velhos Nós queremos estudar Aí era eu, Tiago, direito Fabiano, psicologia O Jones, educação física E o Wagner, engenharia civil E eu era meio que o líder Dessa conversa E ela falou, como nós vamos fazer? Não tem dinheiro para pagar a faculdade? Nós vivemos de doações Falei, eu tenho uma ideia Ela, qual ideia? Se nós fizermos uma parceria com a universidade, a nossa mente, ele é material para os alunos, professores de psicologia, eles precisam de fazer estágio. Então a universidade entra com a bolsa de estudo e nós entramos com a nossa mente. Nossa vivência. Nossa vivência, nosso dia a dia. E não é que a parceria deu certo, deu certo a proposta com a Universidade Anhanguera Belenzinho, o reitor nos concedeu a bolsa. E dali pra frente, eu, meus amigos, iniciamos o estudo. E você conta que sempre tirou boas notas, sempre foi muito estudioso. E também sobre o seu TCC, que você gostaria de comentar também. O tema do seu TCC, qual foi? O tema do meu TCC, vou até mostrar ele aqui. O tema do meu TCC foi Defesa da dignidade da pessoa humana para a população em situação de rua. Um olhar do direito O que eu procurei demonstrar Aqui no meu trabalho acadêmico Aquilo Que eu não tinha na rua Eu não tinha dignidade Eu era um ser humano invisível Eu era um objeto Muitas vezes E eu procurei mostrar Que a dignidade Da pessoa humana Que é o marco central Da constituição brasileira De 88, que é considerada A constituição cidadã, que a dignidade da pessoa humana, dependente da pessoa, mas voltada para a população em situação de rua, tem que ser respeitada. Através de como? Através de políticas públicas que venham contemplar essa população que é a marginalizada, que fica à margem da sociedade. Muitas vezes não somos sem vergonhas, não somos vagabundos, somos pessoas como outras pessoas, porém somos pessoas que contraem uma doença, que é a adicção, que é uma doença que é eletrônica, progressiva e fatal, e ela se revela através das nossas atitudes e do vício compulsivo e desregulado. E eu procurei mostrar no TCC que existe sim saída para essa classe social através do direito sendo respeitada as políticas públicas. E você conseguiu se formar, atualmente também já tem a sua carteira da OB, conseguiu conquistar isso também. E você conta que o seu sonho é ser defensor público. Por que tem esse sonho? O meu sonho é ser defensor público porque acontece. O Brasil é um país que as pessoas, infelizmente, trabalham para sobreviver. Muitas vezes não conseguem mal sobreviver, pagar uma conta, uma alimentação. E a área do direito, as coisas não são baratas, são caras. então assim, eu me tornando um defensor público eu vou poder ajudar com a minha garra, com o meu amor, com o meu carinho pessoas que necessitam de um auxílio jurídico e não tem condição de pagar e eu quero ser aquela pessoa que eu quero ajudar independente da situação mas aquilo que vir na minha mão para eu me fazer eu irei fazer com excelência esse é meu sonho Eu faço duas pós, uma pós em direitos humanos, uma outra pós em direito das pessoas vulneráveis, porque eu entendo que o direito é uma ferramenta, falando assim de mim, que ela pode mudar sim o meu patamar social, creio, quero isso, não sou hipócrita em dizer, mas também de transformação social, que através da minha vida, da minha história e da aplicação do direito na prática, na aplicabilidade, eu possa ser usado para transformar vidas. E você também faz rap Uma curiosidade, queria que você contasse Como que o rap entrou na sua vida O rap entrou na minha vida na Cristolândia Eu escrevi uma letra que fala o sangue bom Porque lá em São Paulo tem a gente E aí sangue bom, como tá sangue bom Tá formando sangue bom Mas o sangue bom é o sangue de Jesus Este é o verdadeiro sangue bom Que ele foi derramado na cruz Um inocente que foi lá e pagou o nosso pecado E aí eu fiz essa letra E essa letra meio que ela viralizou Trazendo essa linguagem de hoje Dentro da Cristolândia E a partir daí eu comecei a escrever outras letras E aí Antigamente era Tiago de Cristo Hoje eu mudei o nome Porque meu apelido é Tiago do Rap Então eu falei, vou colocar o meu Como Tiago do Rap Então é algo que eu gosto também Gosto do Rap, gosto do Graffiti Gosto do Hip Hop E eu me identifico com essa vertente E Tiago pra gente já ir finalizando se você pudesse conversar com aquele Tiago, criança ou adolescente que acabou se envolvendo com coisas erradas, o que você diria pra ele hoje, tendo a mente que você tem hoje, passado por todas as mudanças e dificuldades que você enfrentou também? Eu falaria pra ele pra ele ser obediente falar, Tiago, seja obediente obedeça os mais velhos escute conselhos não Não seja dominado pelo seu eu, não deixe o seu eu se dominar. Seja uma pessoa simples, porque muitas vezes eu não fui uma pessoa simples. Eu sonhava com algo que muitas vezes eu não ia alcançar, mas eu procurava. E hoje, se eu pudesse falar para ele, eu falaria, cara, não usa droga não, não bebe, não entra nesse mundo que é uma furada. Você só vai se afundar, você nunca vai se levantar. E a partir de todas as suas conquistas, o que você espera daqui para frente? Continuar escrevendo a sua história? O que você almeja? Hoje eu almejo, do fundo do meu coração, que eu tenho minha companheira, tenho minha família, meus sobrinhos. Eu almejo cada dia ser um cidadão melhor, ser amoroso, carinhoso. Eu tenho um sonho, antes de fazer a passagem, de ter condições financeiras, De dar uma casa para a minha irmã, porque eu tenho a minha irmã, tenho os meus sobrinhos, para mim ficar em paz. Ficar em paz, porque o meu medo é fazer a passagem e ver minha irmã no sofrimento, ou ver a minha companheira no sofrimento. E poder também ajudar pessoas, ajudar vidas, com a palavra amiga, na área do direito, ali desenvolvendo. Eu faço um trabalho silencioso Eu pego parte do meu salário Eu abençoo vidas com livros Livros de N.A. de Narcóticos Anônimos Todo mês eu sorteio livros Inclusive hoje eu sorteei mais um Eu gosto disso Eu gosto de abençoar vidas E eu quero Quando chegar meu momento de fazer a passagem Fazer minha passagem limpo Sem substância na minha vida E termino falando que um dia limpo É um dia bem sucedido Só por hoje Tiago, muito obrigada por compartilhar conosco Sua trajetória, sua história, tão importante De tantas dificuldades que você conseguiu Superar e conquistar Sua faculdade, seu trabalho atualmente Muito obrigado, prazer é todo meu Deus abençoe sua vida e sua família Muito obrigada você também que nos acompanhou Até aqui em mais um Histórias de Vida Espero que a trajetória do Tiago ajude a inspirar Outras pessoas que se encontram, quem sabe no fundo do poço Ou pra famílias com dependentes químicos Que se inspirem um pouquinho na sua trajetória também Amém, muito obrigado Deus abençoe Esse foi o programa, espero que vocês tenham gostado e até a próxima! Obrigado por assistir.