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Ela saiu do Ceará e veio para Campinas em busca de uma vida melhor. Mas chegando aqui foi vítima de tráfico humano. Enfrentou perdas, falta de moradia e violência. No Histórias de Vida de Hoje, vamos conhecer a trajetória da Carmen Souza, que mesmo em meio a tantas dificuldades, encontrou força para se reerguer e conseguiu até mesmo ajudar outras mulheres. Carmo, seja muito bem-vindo à Histórias de Vida e também obrigada por nos atender. Obrigada a você, né, por se lembrar da minha história, né? Para começar, Carmen, eu queria que você contasse um pouquinho eh do início de você lá no Ceará, quando que você decidiu vir para Campinas. Eh, foi em meio a que situação lá? A situação tava muito difícil. Eu tinha acabado de perder meus filhos pro pai por o fato de eu não ter uma moradia e no emprego fixo, né? Ele tinha botado na justiça e tinha tomado meus filhos já tinha um ano. Aí tava bem difícil de emprego também, não tava conseguindo emprego lá e tava bem puxado para mim também a perca dos meus filhos que eu tinha perdido todos de uma vez, né? E aí foi quando eu resolvi, ir, a gente encontrou uma mulher que tava trazendo gente pro Ceará, para São Paulo. Aí veio eu e algumas amigas, né? Aí chegando aqui não era nada do que ela falou, era tráfego, a gente tinha sido vítima do tráfico de pessoas, né? Aí a mulher prendeu a gente, deixou a gente trancado e bancada e foi todo mundo embora. E na outra casa tinha outras mulheres. Uhum. Aí as mulheres nenhuma conversou com a gente, no dia a gente puxava assunto, elas afastavam, saía fora. Aí quando foi no outro dia, eu doidei lá e quebrei tudo que se ela não aparecesse para pelo menos dar uma satisfação, eu ia arrebentar a casa toda, né? E a outra que tava responsável por nós, né? Ficou doida lá, não podia abrir a casa, não tinha autorização. Aí ligou para ela, aí ela veio. Uhum. Aí quando ela veio, aí ela falou, né? falando, senhora, a senhora não disse a nós que nós ia ficar trancada. Aí ela disse: "Então vocês, isso mesmo, vocês vão trabalhar para mim." Uhum. Vocês vão ser prostituta, vão pagar trabalhar primeiro para vocês comprar, pagar a passagem e pelo prejuízo que você acabou de dar dentro da casa. E nesse contexto, quando que vocês conseguiram fugir daquele local? Aí a gente ficou bolando, tentando fugir. Aí a gente tentou fugir junto, não deu certo. Aí a gente tentou de uma em uma. Não deu certo também. Aí depois uma conseguiu fugir e aí o acordo era, quem conseguisse fugir lá fora pedir ajuda. Ela não pediu ajuda, ela foi embora e sumiu. Aí já tinha 15 dias que ela tava tinha sumido, né? Aí ela impressionava nós, dizia que a mulher ia ser encontrada morta e nós a qualquer momento, ela armava qualquer coisa, nós moría lá dentro e elas fazia, inventava qualquer justificativa e pronto. Aí ela pressionava nós toda hora. Aí a gente ficou, ficou, ficou. Aí até que um dia deu certo, deu e outra fugir dentro do caminão de gelo. Aí a gente pediu ajuda. Aí a moça que ajudou nós, a casa que a gente entrou, ela chamou uma onde lá que chama Cepron. Uhum. tinha lá dentro, eu não sei se ainda existe. Aí veio uma moça lá fazar com a gente, aí a gente contou a história toda, ela disse: "Então eu posso levar vocês no SOS mulher que lá eles entendem disso. A gente nosso trabalho é com criança e adolescente, mas a gente pode ajudar sim levando vocês lá no SOS". Aí levou eu e minha amiga, né? Aí chegou lá no SOS, a mulher levou a gente, recebeu nós muito bem. Aí primeiro, aí primeiro ela recebeu a gente, levou a gente para um canto lá que a gente ia ficar. Aí a gente dormiu no outro dia, ela levou nós na delegacia da Polícia Federal para registrar boletinho de ocorrência, tudo. Aí já tava, já tinha 40 dias que nós estava dentro da casa. A gente fez boletim de ocorrência, tudo certinho. Aí ficou pro juiz decidir o que que aconteceu com nós, né? Ela disse: "Então, dependendo do que o juiz falar, aí a gente vai ver". Mas não se preocupe que é rápido, não demora. Uhum. Aí com três dias o juiz decidiu que nós ia ser devolvida pro estado, né? El dis pagar a polícia federal, ia pagar a passagem, ia levar nós. Ah, você ia voltar pro Ceará? É, ia voltar pro Ceará, todo mundo ia voltar. Nós, eu e minha amiga, né? Ia voltar pro Ceará, tudo por conta deles, por conta da Polícia Federal. Uhum. Aí na hora de vir embora, eu fiquei pensando, a gente enfrentou tudo isso, passou por tudo isso, lá não tem emprego, não compensa nós voltar. Uhum. Aí eu disse, Cleid, não compensa a gente voltar para trás. Vamos, já que a gente vai ter ajuda, que a moça falou que nós só ia embora se nós quisesse. Nós não era obrigada, tinha um tempo para nós ficar lá até nós se apulumar, ver para onde ia, né? Eu disse: "Então, por lá, nós não tem esse apoio que a gente tá tendo aqui. Uhum. Então vamos ficar por aqui mesmo, porque pelo menos aqui a gente vai conseguir um emprego bom, emprego legal. Aí você ficou em Campinas e aí a partir disso você foi trabalhar com o que aqui em Campinas?" Aí primeiro elas arrumaram faxina para mim. Lá mesmo onde eu fiquei no abrigo, né? Elas arrumaram faxina para mim. Aí uma peru ia me deixar todo dia na onde eu ia fazer faxina, ia buscar todo dia. Aí depois eu aluguei um canto para mim e fui morar sozinho. Depois que aluguei um canto, eu fui lá, fiz o registro onde eu tava tudo. Aí eles iam vir me visitar toda semana. Uhum. Aí eu fui vim embora, fui me embora pro meu canto. Eu aluguei um cantinho e fui morar no meu canto, um quartinho alugado. Fui morar no quartinho. Uhum. E a senhora também fez um curso de cabeleireira e abriu um salão? Sim. E aí eu fiz um curso de cabeleireira, que eu sabia mexer com o cabelo, mas eu não tinha curso tinha curso de nada. Eu só sabia fazer que aprendi com as amigas, né? Fazer unha, fazer cabelo, depilação, mas curso eu não tinha. Aí o SOS Mulher dava curso de graça. Aí eu fiz vários cursos pelo SOS Mulher, inclusive de cabreleiro, que durou um ano e pouco, né? Aí eu fiz curso que é bem demorado porque envolve química tudo, aí não pode ser um curso rápido. Aí eu fiz curso, aí no final eu fiz o curso, me especializei em escovista, né? Porque eu sabia muito, já mexia com cabelo afro lá, né? Aí ela, a moça foi, falou que eu dava para mim, tinha que fazer uma especialização. Aí eu falei: "É, vou fazer o cabelo afro", né? Que é o que dá mais para mexer e o que dá dinheiro. Na minha cabeça, o que mais dá dinheiro em Fortaleza é cabelo afro. Ela disse: "Então você se especializa em cabelo afo. Se você tem conhecimento, tem entendimento, você faz o curso de especialização no cabelo afro". Aí eu fiz. Aí abri um salãozinho. Aí abri um salão. Não, primeiro eu fiquei trabalhando de porta em porta. Uhum. Aí e depois eu consegui montar um salão. Entendi. Aí montei um salão. Na época era só uma cadeira. Aí eu botei a cadeira de manicure, a marca de depilação, de cabreleiro, tudo. Aí eu comecei trabalhando sozinha. Aí no final não dei mais conta sozinho, tive que arrumar manicure. Depois eu tive que arrumar outro cabeleiro, uma pessoa para fazer depilação, que eu não dava mais conta. Uhum. Já tinha bastante cliente movimento, né? Aí tinha que arrumar mais gente para trabalhar. Aí arrumei depois o movimento drobou. Aí eu aluguei um outro salão maior e fui comprando as cadeiras de uma em uma. Aí consegui comprar 10 cadeira. Aí quando eu perdi tudo, eu já tinha 10 cadeiras de cabeleireiro, cinco de manicure e uma estética pronta. Uhum. E você falou que perdeu tudo. E como que isso aconteceu? Você precisou voltar pro Ceará porque um um filho seu faleceu. Aí eu tive que ir pro Ceará, né? Ver ver ver o que aconteceu, resolver essas coisas assim de morte, né? Tudo. Aí eu demorei para voltar. Aí eu tava junta com o cara, né? Aí quando eu voltei, esse cara tinha vendido tudo. Porque na minha cabeça, quando chegou a notícia que tinha morrido, na minha cabeça, eu não tive pensamento de deixar alguém tomando de conta do salão. Na minha cabeça, só fechando e deixando as coisas guardad, tava resolvido o problema. Porque essa casa eu tinha, já tinha um tempo que eu morava nela e quem tinha alugado era eu, era contrato, tudo, né? Aí daí ele já tava morando, mas eu tinha mais de ano. Imaginei que tava segura, que era uma pessoa honesta direita pelo fato de fazer mais de ano que ele tava comigo, porque ele parecia ser uma pessoa excelente. Uhum. Não dava nenhum indício, não. Não tinha indício, nem nada que eu pudesse desconfiar dele. Aí eu deixei tudo dentro da casa, que tinha um quarto separado vazio, né? Deixei tudo guardado e achei que eu ia ia voltar, ia ter tudo. Quando eu voltei, eu não tinha nada. Eu não tinha nenhum pano para me deitar em cima. Aí quando surgiu a ocupação, eu fui pra ocupação. Uhum. Que aí eu, aí lá na ocupação eu disse: "Aqui não dá para fazer cabelo, não dá para mexer com cabelo. Porque quem vai mexer com cabelo, uma ocupação que tá todo mundo começando. Aí eu comecei a vender comida. Aí eu comecei a vender comida, poção, tudo pessoal da alimentando. Sim. Aí comecei, aí a gente passou um tempo nessa comunessa ocupação, chegamos a passar quase um ano nela. Aí a gente foi despejado, né? A gente foi despejado, foi pra rua, aí ficou todo mundo na rua. Aí eu tinha um dinheirinho guardado, fui em Fortaleza ainda, mas não contei nada para ninguém, não falei nada que eu tava passando, que eu tinha passado para ninguém ficar preocupado, né? Aí, aparentemente parecia tá tudo bem. Aí fui lá, só aproveitei a oportunidade, fui lá e voltei, né? Uhum. Aí e e aqui depois que você foi despejada dessa comunidade, né, acabou ficando na rua, que surgiu a comunidade e menino chorão. Não, a gente foi pro Marisa, a gente ocupou o Marisa, a gente tinha ocupado Marisa, fomos pra ocupação do Marisa. Aí de lá também a gente foi desapropriada, a gente passou pouco tempo, já foi desapropriado. Aí do Maris a gente fez o menino chorão. Uhum. Aí a gente veio para lá, eu vim, aí avisei as mulheres, né, que onde eu tava, você que encontrou o terreno, falou: "Pode ser aqui". Aí fiz o meu barraco e chamei as mulheres. Eu disse: "Então, gente, lá a gente tem terra para todo mundo". Aí as meninas, ah, mas eu tô aqui, tal, não sei o quê. Eu digo, "Então o juiz falou que todo mundo vai sair, não vai ficar ninguém nessas casas." E tinha 49 pessoas nas casinhas do Marisa, né? Era essas casinha, ocupação tinha 49 pessoas família, né? Aí a gente veio, passou uns dias, todo mundo veio, aí fomos todo mundo fazendo os barracos. E veio só as mulheres que não tinha marido. A gente foi fazendo os barracos tudo junto do outro porque para uma proteger a outra. Aí a gente também não tinha noção de nada. Só que a gente falou: "Gente, aqui não vai ter líder. Se tiver de ter líder vai ser uma de nós. Não vamos querer homem aqui, porque a gente tem sido muito humilhada na autocupação. Os caras era bem, sabe? Arrogante, sabe? Uhum. Aí, aí as meninas dis, tá certo. Aí a gente ficou lá, passou um tempo que a comunidade foi crescendo, foi vindo mais mulheres, a gente foi botando no terreno. Uhum. E aí a gente não entendia nada, não entendia nada de ocupação. Aí quem deu mesmo uma dica para nós de ocupação, como a gente fazer, tinha que organizar, foi o Chorão. O cantor Chorão. A comunidade tem esse nome por conta dele, conta dele. Aí quando ele apareceu, aí ele foi e falou que o que que a gente tinha que fazer, tinha que organizar, tinha que ter uma organização, tudo, tinha que tirar um leíd, era obrigatório ter uma liderança e tal. Aí a gente foi fazendo tudo que ele foi indicando para nós. Aí ele ficou indo só conversar com a gente. Aí a primeira vez que ele foi, ele conversou com nós, aí já entendeu tudo o que que era. Ele ficou de ir toda vida para conversar com a gente, pra gente entender, né, para dar conhecimento, orientar nós como que era ocupação. Aí a gente foi decidido que era ocupação, era a comunidade feminista menino chorão. Menino chorão. e você falou que não tinham muito conhecimento sobre essa luta. Quando que vocês entenderam que vocês faziam ali era feminismo de ajudar outras mulheres, tudo que vocês faziam ali dentro da comunidade foi quando ele apareceu. Uhum. Que ele explicou para nós que isso era um movimento. Até aí nós não não tinha noção de nada que nós estava fazendo. E como vocês se ajudavam também? Você comentou comigo que eh vocês protegiam outras mulheres de violência doméstica. Sim. É quando as mulheres, quando começou a aparecer os homens, as mulheres começaram a se casar, começou a vir uns problemas. Aí a gente começou a decidir que quando tivesse bateca, né, no meio do bateboca, a gente tava por ali observando. Se rolasse violência, a gente tava ali para proteger elas, para ajudar. Aí comecemos nessa luta aí em volta dos barracos, quando começava os cara tava bêbo, começava a discutir, falar alto, a gente já ficava esperta, já tava atenta ali para qualquer tipo de violência nós estava em cima. Uhum. E você falou que tinha um movimento do apito também. Como que era isso? A lei do apito, a gente decretou a lei do apito assim, quem eh qualquer tipo de violência, que como a gente não tinha microfone nem e internet nem nada, né? Aí a gente só tinha o apito. Apito faz muito barulho, né? A gente decretou que a gente que queria não ia ser mais brincadeira de criança. O apito ia ser um instrumento de luta para defender umas outras e para chamar as outras mulheres. Aí o que que acontecia? Aonde estava tendo violência, uma mulher, a vizinha do lado, corria pra frente da casa apitando e as outras corria também apitando para ajudar aquela mulher que tava sofrendo violência. Uhum. E recentemente, né, depois desse dessa toda sua batalha, eh, você também tá enfrentando um câncer. Como que é isso? Câncer de mama foi que me abalou muito, baqueou bastante e enfraqueceu um pouco a luta, porque as mulheres todas dependiam de mim, né? Elas dependem de mim para muitas coisas, porque a gente tem um um um apoio assim, a gente tem parceria com várias empresas, né, de para mandar as mulheres trabalhar. E aí tudo isso, né, todos os contatos é comigo, né? E muitas vezes eu tô numa situação que eu não posso ligar para ninguém. Quando eu tô com muita dor, tem dia que eu nem levanto, sabe? Tem dia que eu tô bem mal. Então, foi bem difícil e fez muita, atrapalhou bastante. Uhum. Atrapalhou muito essa doença. Atrapalhou tanto que eu tô na casa da minha filha hoje, porque eu não posso ficar sozinha. Uhum. Mas foi bem, tá bem difícil para mim. Tá fácil. Uhum. Dificuldade tá sendo grande. Não, não esperava essa doença porque eu me sentia muito saudável. De repente apareceu essa doença e tá sendo difícil, bem difícil, muito difícil. E a diferença, a mudança foi muito grande lá pra comunidade, praticamente tá parada. Você faz falta. É. E Carmen, pra gente ir finalizando, eh, se você pudesse encontrar aquela Carmen com 34 anos, que saiu do Ceará, que enfrentou tantas coisas aqui, mas conseguiu superar também, que que você diria para ela não desistir? continu eh faria tudo de novo. Tudo que eu fiz, eu não me arrependo, porque eu sei que eu fiz o bem. Se eu morrer, se eu partir, porque eu tô pronta. A qualquer momento, se eu morrer, eu tô bem. Eu falo para todo mundo que eu tô bem, que eu tô preparada para partir a qualquer momento. E tudo que eu fiz, eu faria de novo, porque eu não fiz nada de ruim. Então, não envergonhei a minha família, não envergonhei meus filhos e eu fazia tudo de novo porque foi uma satisfação imensa. Aquela carne do passado, eu aconselharia ela ser uma carne de hoje, porque eu enfrentei tudo isso, mas eu não me arrependo de nada. Tudo que eu fiz, eu sei que eu fiz o bem, que eu fiz praticamente, eu fiz a minha obrigação, a minha parte como mulher, eu cumpri minha missão aqui na terra. Uhum. Carmen, muito obrigada pela participação aqui na história de vida, por compartilhar com a gente essa história sua que representa tanta força. Obrigado vocês por se lembrar de mim, né? Eu espero também que quem tem assistido se inspire um pouquinho com a sua trajetória. É, é. Espero que alguém mais faça o que eu fiz, né? Porque a união faz a força lá. A gente venceu. A gente venceu todos os obstáculos que veio na nossa frente. A gente venceu. Falo pras mulheres que hoje a gente é mais que vencedora, que a gente venceu muita coisa, venceu os cara que vinha atrapalhar nós. Depois a gente se enfrentou as empresas que queria a terra também, porque quando a gente entrou lá, a terra tava abandonada. Depois que a gente tava lá tenta, apareceu milon. Uhum. E a gente enfrentou tudo e venceu. Estamos hoje só esperando o título de posse. Então, somos mais que vencedoras. Exatamente. Muito obrigada mais uma vez e você aí de casa. Espero que tenha gostado do Histórias de Vida. Até o próximo programa.