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O que é a vida de uma outra pessoa? Para salvar a vida de uma outra pessoa, ele colocou a própria integridade física em risco. No História de Vida de hoje, vamos conhecer a trajetória do canoísta Pedro Coelho, que enfrentou a forte correnteza do rio Atibaia para salvar um homem que estava se afogando. Pedro, seja muito bem-vindo ao História de Vida e também muito obrigada por nos atender e nos receber. Eu que agradeço pelo convite, Camila. É um prazer falar um pouquinho com vocês aqui. Para começar, antes da gente tocar no assunto sobre aquela noite, eu queria que você contasse um pouquinho da sua trajetória com a canoagem, com as águas, o rio. Eu, muito cedo, eu... Na verdade, a minha história com as águas começa bem menino mesmo. Eu morava em Santos e naquela ocasião ali, gente, eu já participava antes dos 10 anos. Não tenho muitas memórias disso, mas eu sei que eu já participava da escola de atletismo da Prefeitura de Santos. E até me lembro de ter conseguido algum destaque ali naquela ocasião Mas a gente mudou pra Brotas, eu tinha 10 pra 11 anos de idade E não demorou muito, meu irmão começou a se envolver com esportes de aventura E daqui a pouco ele tava me levando junto Com 12 pra 13 anos eu já tava na água Com 14 pra 15 eu já trabalhava com uma modalidade de esporte de aventura chamada boia cross E depois eu fui me aperfeiçoando, na prática mesmo Praticando, praticando, praticando, é algo que eu amo fazer E nunca parei E já são 25 anos de experiência, é isso? É, é por aí. E agora falando um pouquinho mais especificamente sobre aquela noite do acidente, que o homem estava se afogando aqui no Rio Atibaia, como que você recebeu a notícia do que estava acontecendo? Eu recebi assim, uma pessoa me ligou e na ocasião eu não consegui atendê-la, mas na hora que eu olhei no celular, assim, que havia uma notificação, uma ligação perdida, já com uma mensagem, urgente. Daí tocou uma vez assim Eu já atendi rapidinho E ela me falou, tem uma pessoa se afogando no rio A gente pensa em ser prático na hora Parece que você está vendo ele Não, não estou, mas quem está vendo? Tem um cara, então passa o contato dele Daí já me passou o contato dessa pessoa A gente começou a se falar, não lembro se ela também passou o meu pra ele Ele me ligou, eu liguei pra ele E a gente começou a se falar Ele me falou mais ou menos onde estava o cara Da onde que ele estava vendo o rapaz E eu vim com o meu carro direto pra esse ponto Achando que pela margem do rio Eles devem estar com medo De encarar que estava realmente muito forte Pela margem do rio, pela experiência que eu tenho Talvez eu consiga resgatá-lo Mas não era o caso, ele estava na outra margem de lá Teria que dar umas braçadas boas Porque não conseguia Não dava para chegar do lado de lá mesmo A corrente estava muito forte Então na hora o meu instinto foi pegar uma embarcação Na associação de rema aqui Nós temos uma empresa que opera Passeios de caiaque No final de semana E naquele dia em específico eu havia deixado um caiaque ali Parece que foi uma coisa meio divina Eu acredito nisso Por uma questão assim Eu sei dizer porquê Eu havia deixado um caiaque à espera Vai que alguém precisa hoje E o rio crescendo, crescendo, crescendo A gente pegou ele no limite do quanto ele ficou cheio Inclusive eu acho Se subiu mais que aquilo foi muito pouco E daí eu peguei o caiaque Mas não dava pra vir de lá pra cá Porque no meio do caminho tem a ponte onde passam os carros ali, que vem sentido Nova Souza, ou sentido Joaquim Egídio. O rio tava batendo na estrutura da ponte. Ele não tava passando por baixo da ponte, a nâmina d'água. Ela tava batendo na estrutura da ponte. Então, se eu viesse navegando, eu ia. E me ocasionou isso na hora, porque tava escuro e não dava pra ver. Mas eu pensei, não tá passando. Ainda bem que eu lembrei, porque senão a vítima seria eu. Meu Deus. Aí eu vim com o caiaque no carro, enfiei o caiaque no meu carro. Isso, tô falando, durou alguns minutos. Foi bem rápido. Enfiei meu caiaque no carro, parei aqui, justamente nesse ponto do coreto, o carro ali em cima, e entrei na água por aqui. E aí era só procurar o cara, tentar achar ele. Então faz o seguinte, José, só vai conversando com a gente, tá? Tá bom. Vou bater no papo com ele aqui. Quantos anos você tem? Quantos anos você tem? 46. Ô José, você é daqui de Sousas? Sou de Sousas. Então aguenta aí que você vai continuar aqui, tá bom? Tá bom, obrigado. Tem uma galera aqui para te segurar aí, pode ficar tranquilo. Ó, tenta não gritar para não se desgastar, entendeu? Você precisa guardar energia agora aí. O resgate está vindo já, hein? Até que eu escutei eles balançando as árvores. O Max, que foi quem encontrou ele, estava na margem de cá também com uma lanterna, assim. Então isso já me ajudou. Daí eu sabia onde que ele estava. Não deu para ver muito bem, porque de fato, mesmo a lanterna, era muita árvore na frente, não dava pra ver ele, mas eu consegui chegar até ele, assim, ele tava segurando na árvore com os dois braços, eu peguei embaixo dos braços dele, assim, e puxei ele pra cima do caiaque, de costas pra mim, aqui, do jeito que ele caiu aqui no meu colo, eu já coloquei o colete nele, tinha levado um colete, coloquei o colete nele, e aí, tem toda uma história longa pra contar ainda. Sim. E no caso, você chegou aqui bem rápido, você falou que tudo aconteceu em minutos. O rio estava bem cheio, com baixa luminosidade também. Em algum momento você parou para pensar no perigo que seria entrar no rio para salvar uma pessoa? Na hora que eu entrei, não. Antes de entrar, não. Mas na hora que eu entrei no rio, deu medo, sim. Ainda bem que deu medo, né? Nós que somos desse ramo, a gente fala que é o medo que nos protege. Deu medo, sim. Deu medo porque estava realmente muito escuro, muita água. Medo primeiro de não conseguir salvar Medo de animal Porque ele estava muito perto da margem Na hora eu pensei, vou ter que ficar nessa galhada Pode ter cobra, na hora que puxa a cobra pode cair Pensei nisso, não sei porquê Mas isso foi uma coisa que me veio à cabeça Tinha muita vegetação também passando Você falou que árvores inteiras passavam pelo rio É, quem é de Sousa aqui sabe Quando ele enche, a gente olha pro rio Você vê a árvore inteira passando no rio Naquele dia não foi diferente Eu me lembro em algumas ocasiões que eu estava segurando já com ele no colo e segurando na árvore, de repente vinha uma onda mais forte de água, assim, é porque a árvore que caiu, alguma coisa aconteceu porque o volume não oscila com tanta rapidez assim então de repente vinha uma onda mais forte e aí dava umas estabilizadas, então isso acontecia bastante, eu olhava pro rio assim, tava bem do meu lado, eu via a todo momento o galho se passando, assim, isso é Sim, e no momento que você colocou ele já na canoa junto com você ficou ali se segurando, ele balançava bastante Você me contou como que foi também esse momento É, aí foi Depois que eu tirei ele da água Aí eu falei, bom, aqui agora É mantê-lo aqui em cima do caiaque E manter ele em cima do caiaque não foi uma tarefa Tão fácil, porque Ele tava totalmente Ele não conseguia ficar Se estabilizar sentado, né Ele tava já muito enfraquecido Então o corpo dele caiu o tempo todo pros lados Aí ele se apoiou Eu dobrei essa perna Flexionei essa perna aqui Ele se apoiou nessa Tanto que eu tinha muita câimbra aqui na hora Ele se apoiou nessa perna aqui Sentado no caiaque Eu com o remo aqui, segurando na árvore E ele apoiado aqui nessa perna Com o corpo apoiado assim E aí o tempo todo, Camila, ele falando Achando que ia morrer, o tempo todo Vou morrer, vou morrer, vou morrer E eu conversando com ele Tem uma parte da história que eu achei bem forte Eu achei de fato Tudo pode ser que os caras morram E daí eu falei pra ele Você acredita em Deus? Vou morar Vamos orar e começamos a orar E falei pra ele, olha Eu prometo que eu vou tirar você daqui com vida E você conta que vocês rezaram o Pai Nosso ali naquele momento Rezamos, rezamos Ontem ele acreditava, ele falou que acreditava Nós rezamos junto Alguns Pais Nossos E conversamos bastante com Deus, conversava com Ele Era mais uma Isso é um protocolo já de resgate, né Você perguntar aí da idade da pessoa Que ano nasceu, enfim Coisas que ele pode ter fácil na memória pra ele acessar, né? E aí mantém ele consciente, porque tava com medo dele perder a consciência. Em alguns momentos parecia que ele entrava em delírio, sabe? Acho que os bombeiros seriam até as melhores pessoas pra falar sobre isso, porque até quando ele tava entrando no carro do SAMU ali, dos bombeiros do resgate, ele falou umas coisas que me desconexam, sabe? Eu me lembro. Mas ele oscilava bastante. Ele voltava, eu, por exemplo, eu descobri que ele era corintiano, eu descobri que ele tinha 46 anos, que ele nunca foi casado. a gente conversou bastante conversando ali pra poder manter ele consciente até a chegada do resgate quanto tempo durou todo esse processo de você ali segurando ele tentando se manter ali no rio contra a correnteza até a chegada do resgate eu me lembro que eu cheguei em casa e o pessoal de casa estava dormindo foi assim Camila, eu não conseguia avisar ninguém lá em casa então o pessoal achava era pra eu ter chegado em casa antes das nove e eu cheguei a meia noite e eu falei, nossa vai estar todo mundo muito preocupado lá, deu sorte porque tava todo mundo dormindo mas assim, eu não entrei com o celular eu não vi exatamente que horas o que eu notei depois é que foi às oito e meia que eu recebi a ligação, eu vi lá o horário que eu recebi essa ligação, e foi mais de onze horas que a gente saiu da água, então assim eu colocaria pelo menos duas horas com ele, porque não demorou meia hora pra eu entrar na água, das oito e meia eu entrei, eu peguei ele às nove a gente saiu às onze teve esse processo, né, de os bombeiros vieram com o bote aqui, demorou não, foi o tempo que precisou, enfim então imagino eu umas duas horas os bombeiros colocaram o bote na água e aí o desafio depois disso, desculpa era tirar ele do meu caiaque e colocar, porque a corrente não para como é que você vai, ô Rio, para um pouquinho aí que agora eu preciso fazer essa manobra, não dá o bote precisava se estabilizar ficar do meu lado, e aí a saída aqui na hora, eu achei, foi se continuar segurando no galho, a hora que o bote passou aqui perto de mim, eu peguei, eu ainda perguntei antes, tem corda em volta desse bote? Eles falaram, tem. Olha, legal, não tinha lembrado desse detalhe. Tem, tem. Aí, a hora que ele passou aqui, eu, porque a gente só sabe que esses botes costumam ter uma corda em volta. Eu não tava vendo eles, eles estavam bem pra cima. Sim. Parado, remando contra a corrente, estudando como é que ia fazer. Falei, então pode vir, pode vir até mim, pode vir. A hora que eles pararam, passaram, eu abracei na corda do bote e trouxe o bote pra perto de mim. Então, eu virei um sanduíche Entre a árvore e o bote O meu caiaque virou um sanduíche Daí o bombeiro saiu de onde ele estava Com o bote já estabilizado aqui Só puxou o camarada pra dentro do bote Aí pra sair do rio Pra sair do rio a gente teve que descer mais um pouco E acessar um outro trecho Um outro espaço lá na direita Na margem direita Aí foi um senhor também Foi muito solícito Nos ajudou, pediu um cobertor pra ele Pra cobrir o Sr. José, ele deu A gente saiu pela chácara dele que dava acesso ao rio e depois quando vocês já estavam ali em terra firme já em segurança, que a vítima também foi resgatada, ele te agradeceu muito depois desse momento caiu a ficha ali do que vocês tinham passado? não, não caiu pra mim não era adrenalina alta, não caiu não não sei ainda se caiu também que susto hein, senhor meu Deus que susto Deus abençoe Que eu cheguei em casa, que eu liguei o chuveiro, eu confesso pra você que eu comecei a chorar. Porque em algum momento ali eu pensei que alguma coisa ruim pudesse acontecer mesmo. Embora eu estivesse confiante, mas a gente fica com medo, não tem jeito. então eu me lembro desse momento que eu liguei o chuveiro e sozinho ali no banheiro eu chorei bastante, chorei bastante e passou e depois você tentou encontrar também com a vítima que estava no Rio porque pra você é importante ter esse contato com ele também, poder conversar depois de tudo que vocês passaram juntos é, eu queria assim, dar um abraço dele, eu queria vê-lo pra mim é importante, seria eu ainda não consegui, ainda não tive esse privilégio seria importante sim eu tirar uma foto com ele, eu lembrar que aquela vida que está ali agora, sabe? Talvez eu tenha, assim, dessa parte eu tenha uma participação grande porque ele está ali. É uma coisa meio forte pra mim, sabe? Vê-lo agora, podia ser que naquele dia alguém chorasse vendo a hora dele, né? Era bem, na verdade, assim, Camila, a gente sabe que isso ia acontecer se a gente não tivesse chegado. Ele estava bem debilitado mesmo, tinha tomado muita água e o afogamento ali onde ele estava. Se ele vai pra água de novo, se ele se solta ou Então, você mesmo não ia conseguir segurar por muito tempo, porque ele estava tomando água. Ele foi um cajeiro de ficar vivo até aquele momento, eu acho. Porque ele também segurou por muito tempo, né? É, ele nadou daqui até lá embaixo. Então, você imagina, esse trecho sem colete, inevitavelmente ele tomou muita água, tenho certeza. Mesmo nós que já estamos aí há algum tempo no rio, também, sem colete, teria bebido água. Porque é um, você vai descer, as ondas estão altas, né? Sim, e o que ficou de experiência para você também depois de tudo isso? Você contou para a gente que tem quase 25 anos de experiência com esportes de aventura Isso mudou para você alguma coisa em relação a isso? Não, não Eu faria de novo, sem pensar também de novo É um instinto, eu acho Eu tenho uma história que uma vez eu tive a oportunidade de pular atrás de alguém também Mas eu não encontrei essa pessoa, essa pessoa veio a óbito Talvez ter esse fato com o Sr. José tenha sido uma reparação direta que eu fiz com essa família E você também recebeu uma homenagem do presidente da Câmara Municipal Como que foi para você receber esse reconhecimento? Foi muito legal, significa muito para mim Parece uma bobagem, mas imagina, meus filhos, eu tenho um de 15 que já demonstrou admiração pelo fato E ele já sabe, ele falou, não dá para esperar outra coisa de você E eu tenho um filho de sete E uma de cinco Então eles quando tiverem maiores Eles vão ver esse documento, vão lembrar É algo que ficou registrado E eu conheci O vereador Rocine Também foi muito legal Não o conheci, achei ele um cara super simples Super do bem Foi muito bom, foi um momento único Que bacana E também pra gente ir encerrando Você não teve a oportunidade de conversar Com a pessoa que você salvou Mas se você tivesse essa oportunidade, o que você diria para ele? Que pergunta difícil, Camila. Eu, na verdade, só ia dar um abraço nele, eu acho. E dizer que eu torço para que ele fique bem em todos os aspectos. Perfeito. Muito obrigada pela participação que você deu conosco, Pedro. Por contar um pouquinho da sua trajetória e também desse momento de resgate que foi tão importante, que salvou uma vida. Valeu. Eu que agradeço o convite. Valeu. Muito obrigado. Muito obrigada mais uma vez. Espero que essa história inspire outras pessoas a terem essa atitude altruísta também, quem sabe. Legal. Esse foi o História de Vida, espero que vocês tenham gostado e até o próximo programa.