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Por volta dos 9 anos, ela conheceu a capoeira, que começou como uma atividade na infância, com o tempo se transformou em profissão e propósito. No História de Vida de Hoje, vamos conhecer a trajetória da Susana Campos Cordeiro, ou como é conhecida a mestra Pica-Papau, que dedica a vida a ensinar capoeira a crianças em situação de vulnerabilidade. Mestra, muito obrigada por nos atender e seja bem-vinda ao História de Vida. Eu que agradeço. Para começar, queria que você contasse um pouquinho da sua infância, como que era naquela época, quando que a capoeira entrou na sua vida. Bom, a capoeira, como você mesmo disse, ela entrou eh eu tinha mais ou menos uns 9, 10 anos. Eu frequentava um colégio no centro da cidade, depois eu ia para casa e eu ficava o tempo inteiro na rua. E minha tia trabalhava numa OSC. E aí ela conversou com a minha mãe e falou: "Vamos colocar ela num projeto ao invés de ficar na rua o dia inteiro, a gente coloca ela para fazer alguma coisa". Foi aí que eu conheci o Externato São João através da minha tia, que ela era cozinheira de lá. E a minha mãe se inscreveu e desde então eu comecei a fazer as atividades. Lá existia diversas atividades, como artesanato, culinária, pinturas, né? E depois de um tempo surgiu a capoeira, veio uma referência e veio desenvolver um trabalho com a capoeira. E aí, como curiosa, falei, vou experimentar essa arte, né? O que é isso? Porque até então eu não sabia o que era a capoeira. Eu nunca tinha ouvido falar, eu nunca tinha visto e experimentei e gostei e tô aqui até hoje. E que que representava para você naquela época, capoeira? Você era bem novinha, né? começou ali para poder ter uma atividade para além do colégio, mas que que passou a representar para você no decorrer do tempo, essa referência, ela precisou ir embora desse projeto e outra pessoa assumiu o espaço dele, que aí foi uma referência feminina, né, aonde entra a mestra Lara. E ela começou a dar continuidade a esse trabalho com a capoeira e com danças populares. O que que representava para você naquela época capoeira? Você começou bem novinha, como você mesmo comentou, como uma atividade ali extracurricular, mas o que passou a representar essa atividade ao longo do tempo? Conforme eu fui fazendo, né, treinando essa essa cultura, eu fui pegando gosto pela atividade. E por volta dos meus 16 anos, eu comecei a entender que eu gostaria também de multiplicar aquilo que eu estava aprendendo. Então a nossa referência começou nos potencializar para que a gente fosse em outros espaços desenvolver o mesmo trabalho que ela continuou nas nascas. Uhum. E você falou que na nessa que você fazia parte tinha outras atividades, mas o que que chamou atenção especificamente na capoeira? Por ser movimento corporal, atividade física, né? A gente tinha poucas atividades eh voltada a ao movimento do corpo. Então, a capoeira, o que me chamou atenção a primeiramente foi isso, a movimentação, o canto, os instrumentos, os movimentos, os golpes acrobáticos. Então, acabou me encantando. Uhum. E a gente sabe que a capoeira ela ainda até hoje, né, é um espaço muito masculino. Como que era para você menina ainda naquela época, nesse ambiente? Bom, realmente não foi fácil e até hoje também não é fácil. O mundo da capoeira ele é muito masculino ainda. A gente sabe que que a gente tá quebrando essas barreiras, né? Então, foi muito difícil na época, porque a gente não tinha referências femininas e nem mestras na época. Então, em Campinas a gente não tinha, a gente tinha algumas professoras, mas eram muito poucas. No mundo da capoeira era mais homens. Uhum. Você teve uma mestra também naquela época, ainda não era mestra, como você comentou comigo, era uma professora. Mas como que era ter essa representatividade, uma figura feminina mesmo em meio a esse ambiente masculino? foi muito importante, porque a gente sempre falava que acabava sendo uma mãe, né? Eh, a minha mãe, ela foi um pouco ausente por questões de trabalho, né? Então, eu passei a minha a um pouco da minha infância e a minha adolescência muito com essa referência, então a gente acaba se apegando muito. Então, é muito importante, foi muito importante para mim. Uhum. E você consegue eh identificar diferenças de quando você começou a praticar o esporte? na sua personalidade, no seu jeito de encarar as dificuldades do mundo, quem sabe? Sim, a capoeira me ajudou muito, né? E eu sempre oriento os meus alunos que eles perguntam como é que foi a minha adolescência. E eu sempre falo que ela foi essencial para mim, porque ela me ajudou a passar momentos difíceis, né? E na minha época eu perdi muitos amigos, perdi o tráfico, né? perdi por muitas coisas ruins. A gente sabe as dificuldades que a vida nos coloca e e a capoeira me ajudou muito. E quando que você começou a dar aula se tornou professora, mestra de capoeira? Comecei a dar aula. Eu tinha mais ou menos 16 para 17 anos. Foi um desafio muito grande. Eu comecei a dar aula numa escolinha, praticamente uma creche lá no Jardim Santa Cândida. para crianças a partir de 3 anos. Quando eu comecei, eu falei assim: "Gente, que loucura, né?" E eu falei, a minha referência também acho que era mais louca por me colocar, mas eu entendo hoje que ela estava me preparando e ela percebeu que eu estava, né, e preparada para aquele momento. Então, com ajuda dos mais velhos, né, porque na capoeira a gente tem as graduações, então eles estavam sempre ali me orientando junto com ela também. Então eu comecei a dar aula, foi nessa idade, eu tinha uns 16, 17 anos. Certo. Então você ainda era bem novinha. Quando que você percebeu eh que você queria adotar a capoeira como uma profissão mesmo, seguir eh espalhando, né, esse seu ensinamento? Foi nessa época que aí foi onde eu falei, eu quero ser uma multiplicadora dessa arte. E desde então eu continuei, fui passando pelas graduações da capoeira, né, e fui chegando. E no ano de 2022 eu me tornei a mestra. Uhum. E como que foi para você receber esse título de mestra, sendo considerada inclusive a primeira mestra de capoeira de Campinas? É muito gratificante, né? Porque a gente entende que paraa gente ser uma mestra, a gente foi um aluno lá atrás que não desistiu, mesmo perante tantas dificuldade, tantos preconceitos, né? Eh, foi foi uma experiência e é uma experiência muito importante. Foi muito importante para mim. E quando que nasceu o projeto Arte Monumental, que é esse espaço que estamos aqui hoje, eh, quando que nasceu esse projeto? Esse projeto ele nasceu no ano de 2017, nós temos 9 anos. Eh, junto com alguns parceiros, professores, a gente desenvolve um trabalho com a capoeira nesse espaço. E nós temos mais dois espaços onde onde temos aulas também com as crianças e adolescentes e adultos. Uhum. E as aulas totalmente gratuitas, né? Vocês atendem crianças em situação de vulnerabilidade social, como que funciona o projeto? Sim, o projeto funciona a os horários dele são à noite nas comunidades. Uma, um é no espaço no Ouro Preto aqui em Campinas e o outro espaço é no Sique, lá no Vida Nova. As aulas são no período da noite, de terça e quinta aos dois dias. Uhum. E a gente acolhe e desenvolve o trabalho com as crianças daquela comunidade ou de outros bairros que eles tenham a vontade de participar, certo? e eh passando seus ensinamentos, sendo uma mestra, você se reconhece também nas crianças que você tá ensinando? Eh, você pequenininha, Susana pequenininha, lá com 9 anos, quando conheceu a capoeira, você consegue se reconhecer também nos seus alunos? Sim, me reconheço muito. Eh, vejo aquelas crianças com tanta vontade, eh, com tantos desafios também tão cedo. É, eu acabo até me emocionando porque a gente vem desse lugar e hoje é podendo passar aquilo que eu aprendi, aquela oportunidade que eu tive e eu agarrei com tanta força e é muito gratificante eu poder trazer para esses jovens, para esses adolescentes que há possibilidades e que a gente não pode desistir mesmo perante as dificuldades que a gente consegue chegar. E que você considera que a capoeira te ensinou? Claro que além além das técnicas, ela te ensinou outras coisas também, eh, emocionalmente e que você leva pra vida? Sim, me ensinou principalmente o respeito, né? Eh, fortaleceu, vamos se dizer, né? Porque alguns valores ou todos os valores a gente procura trazer de casa. Então, ela acabou potencializando o meu respeito, né? Eh, o respeito do do tempo do outro, ã, o a amizade, o construir, o fazer junto, o entender que o outro não é perfeito e que não vai sair da do jeito que a gente quer, né? Então, me ensinou muitas coisas e até hoje continua me ensinando, né? Eu costumo dizer, os alunos falam: "Nossa, a senhora chegou até mestra, né?" Eu falo, "Eu cheguei, mas a minha trajetória ela continua. É um ciclo da minha vida, mas eu nunca vou parar de aprender." E a gente não conhece tudo da vida. Verdade, né? Uhum. E você começou a dar aula, né? Já tem bastante tempo que você passa seus ensinamentos. Eh, você já viu através do projeto é vida sendo transformadas de crianças que para as quais você dá aula? Sim. Inclusive, eu desenvolvi um trabalho numa instituição e há dois anos eu acabei saindo desse projeto e as crianças, alguns adolescentes me procuraram aqui e eles continuaram. E nós temos algumas crianças que hoje não é mais criança, né? já são adolescentes que tão conseguindo seguir o seu caminho. E isso é muito importante, porque a gente tem a capoeira como uma ferramenta de transformação, né? Em algum momento ela vai ela vai ser útil na vida daquele daquele adolescente ou daquele adulto, daquela criança. E você falou que tá em constante aprendizado, né? mesmo hoje em dia já como mestra, você continua aprendendo. Que legado você quer deixar eh como mestra Picau? É o legado que eu deixo, eu acho que a gratidão acima de tudo e a gente não pode esquecer da onde a gente veio. Eu reforço muito isso pelos para os meus alunos, a importância da gente não esquecer da nossa história, né? E e eu deixo o legado de de poder outros fazerem o que eu estou ensinando. Perfeito. E você falou de e não esquecer a história. Se você pudesse falar com você pequenininha, aquela menina que acabou de conhecer a capoeira com 9, 10 anos e que tá hoje passando os ensinamentos, ensinando outras crianças que assim como ela tiveram essa oportunidade. Que que você diria? É muito bom. e que eu diria que aproveite cada momento, cada aula, cada vivência, cada coisa que aparecer na vida da gente. Eu naquela época eu tive a oportunidade, a capoeira apareceu na minha vida e foi transformador, né? E eu só tenho agradecer. Então, o que eu digo, aproveitem, aproveitem as oportunidades que chegam a cada um. Uhum. E oportunidades são difíceis, né? Você mesmo comentou que perdeu amigos eh pro tráfego, eh, para outras coisas ruins da vida, né, que acaba acontecendo. Uma oportunidade pode mudar realidades e através do esporte, principalmente? Com certeza. Com certeza. Transforma vidas e eu sou um exemplo disso e procuro transformar a vida de outros, de outras pessoas. Mestra, muito obrigada pela participação aqui na História de Vida. Algo mais que você queira acrescentar? Eu gostaria de agradecer, agradecer a todos vocês, agradecer esse momento. Gratidão. Muito obrigada. Espero que essa história e inspire e também eh possa propagar um pouco mais sobre o esporte, que a capoeira é tão importante. Obrigada. Espero que você tenha gostado do programa e até o próximo História de Vida.