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No Histórias de Vida de hoje, vamos conhecer uma trajetória que evidencia a importância da doação de órgãos. Um gesto que pode mudar destinos como o da Bruna Damaceno, que passou por quatro transplantes de órgãos. Bruna, muito obrigada por nos receber e seja bem-vinda ao Histórias de Vida. Muito obrigada. É um prazer estar aqui junto com vocês nesse programa tão lindo. Prazer é nosso. E eu queria começar e perguntando um pouco sobre a sua infância. O diagnóstico chegou bem cedo na sua vida, né? Foi aos 3 anos de idade que você descobriu uma doença rara. Isso mesmo. E eu nasci com oxalose primária, mas só foi descoberto na Unicamp quando eu tinha três aninhos de idade. Então nós descobrimos que essa doença atinge uma pessoa a cada 100.000 1000 habitantes faltava uma enzima no meu fígado. Então tudo que eu comia aqui tinha oxalato formava pedra nos rins. E o que que formava oxalato? Verduras escuras, frutas vermelhas, chocolate. Como falar isso para uma criança, né, que não poderia comer chocolate. Então eu fui fazendo a dieta, né? Uhum. Ao longo da minha vida, tentando segurar, né, o que a gente já sabia que poderia danificar os rins, que é a questão das pedras, né, que é bem complicado. Sim. que você já falou um pouco sobre as dificuldades, como foi crescer com essa doença, né? Eh, você poderia falar que sua infância foi diferente por conta dessas privações? Teve alguns momentos que eu fiquei um tanto reclusa, né? Quando eu tinha três aninhos de idade, eu fiz a minha cirurgia por corte, que foi mais agressiva, assim, por assim dizer. E quando eu tinha 10 anos, foi um marco assim, porque eu precisei fazer mais uma cirurgia por corte para tirar pedras e eu tive que foi afastada dos meus amigos. Então isso fica bem marcado assim na minha história que eu tive que ficar enquanto as as crianças estavam na assim brincando, né, na hora do recreio ficava na biblioteca lendo livros. Sim. E você comentou que precisou fazer hemodiálise, né? E um dos impactos foi perceber que naquele ambiente as pessoas eram muito mais velhas que você. Como que foi eh precisar também passar por esse processo? Também foi bem difícil você chegar ali, não ver ninguém da sua faixa etária. Na época tinha 19 anos, né? Aí eu cheguei e fiquei refletindo sobre tudo aquilo. Chorei sim, teve alguns momentos de tristeza até eu começar a fazer amizade, conhecer todo mundo, sabe? E vi que também em outras cidades tinham pessoas com com a mesma idade que eu, com outros problemas raros, né? E Bruna, você ficou um tempo também na fila de espera para fazer os transplantes que você precisou fazer, né? Para quem tá em casa, eh, e não tem conhecimento, como que funciona esse processo de espera? É um pouco angustiante porque, por exemplo, eu fazia hemodiálise todos os dias, então eu não sabia que dia, qual hora, a data que iria chegar o órgão para mim. Eu só estava lá esperando, pedindo a Deus, né, rezando, pedindo muito para que minha hora chegasse. Porque que acontece? Quando você faz hemodiálise, a máquina faz a função do rim, então tira tudo que é ruim do nosso organismo, mas também tira o que é bom. Então eu ficava exausta, né? Chegava assim, quando eu fazia modiáries, aquele era um um dia perdido, eu só conseguia fazer alguma coisa à noite, porque eu chegava e tinha que descansar, né? Então é bem difícil você não ter uma vida normal, mesmo querendo trabalhar, você fica extremamente exausto, cansado, com anemia. Então você acaba tendo que ficar igual eu trabalhava, né? eu tive que me afastar para me dedicar 100% ao tratamento e lutar pela sobrevivência. Então, o transplante dá uma qualidade de vida que a hemodiálise não tanto não dá. Algumas pessoas até conseguem fazer exercício, trabalhar, mas é um esforço. Quem faz emodiáries todos os dias, eu digo que é muito difícil. Agora, quem faz três vezes por semana até consegue ter tentar uma rotina, sabe? Minimamente ali uma qualidade de vida, né? Sim. Sim. E você passou por eh quatro transplantes. Quando você fez o primeiro? O primeiro eu fiz em abril, né, de 2010, já fazem 15 anos, graças a Deus, né? Só que esse transplante não deu certo. No dia abril de 2010 deu trombose, ou seja, não passava sangue adequadamente, né? Porque a minha veia era muito fininha e a do doador foi muito calibrosa. Então, nesse momento ali, é, não aceitou. o meu corpo não aceitou o órgão, aí eu tive que fazer mais uma vez, né? E continuei na fila de espera nesse período. Sim. E no caso, esse transplante primeiro foi o de fígado. Primeiro de fígado. Se você passou por três transplantes de fígado e por último um de rim, como que foi esse processo? Exatamente. Também depois que fiz esse primeiro que não deu certo, fiquei confiante, confiando em Deus, né? com muita fé, voltei para minha casa e continuei na fila de espera. Depois de três meses, surgiu uma nova oportunidade, fui fazer o transplante, mas aí deu rejeição. Aí nesse momento eu estava na UTI, né, desfalecendo mesmo. Não tinha mais eh esperança para mim. Mas como Deus é muito bom e eu acredito em milagres, sim, porque a minha vida é um milagre. Eu posso dizer isso. Chegou de helicóptero naquela noite, consegui fazer o transplante e deu certo. Então foi depois da da rejeição, o terceiro transplante deu certo. Isso foi em setembro de 2010 e já fazem 15 anos que eu estou com o meu fígado aqui, graças a Deus. E graças às famílias que permitem que a doação aconteça, porque se não fosse uma família falar sim pra doação de órgãos, eu não estaria aqui. Sim. Destaca a importância desse gesto, né? E no caso, nesse período que o órgão chegou para você no helicóptero, você tava ali achando que poderia não sobreviver, que que passava na sua cabeça? Eu só pedi a Deus, eu tinha muita confiança e entreguei minha vida nas mãos dele e falei: "Seja feita a sua vontade, né? Eu tenho muito o que fazer ainda, muitos sonhos para realizar, mas a vontade de Deus que prevalece." Então eu entreguei minha vida nas mãos dele mesmo e daí foi feita a vontade dele que eu permanecesse viva, né, e que realizasse muitos sonhos. Depois disso ainda teve um desafio, porque eu ainda estava fazendo emodiálise esperando por um rim. Então eu continuei na fila de espera até chegar o meu sim para o rim. Fiz em outubro de 2011, só que não foi fácil. Eu falo que nada é muito fácil na minha vida, né? Mas eu até já me acostumei com isso, então consegui. Só que o rim não funcionava, ele demorou 40 dias para funcionar e tive que fazer biópsias toda semana para ver se realmente ele poderia voltar. E com isso eu tive que fazer até uma sessão de hemodiálise para ajudar ele a funcionar. E deu certo, graças a Deus. Tá com rim tudo certinho. Tudo certinho também. Já vou também completar 15 anos esse ano. Uhum. E depois desse processo todo, a vida voltou ao normal para você, né? Você conseguiu, você contou que no hospital você tinha um caderninho dos sonhos que anotava os sonhos que vocês, queria realizar após esse processo. Eh, queria que você contasse o que você conseguiu conquistar até agora. Sim. Então, isso foi fundamental para mim, essa mentalidade positiva de tudo que eu ainda iria fazer, né? Então, eu queria muito viajar de avião, que eu ainda não tinha viajado de avião. Depois que eu saí, depois de um ano, que eu já estava mais estável e com autorização médica, eu consegui viajar. Aí eu tenho até foto aqui para mostrar para vocês. Minha primeira viagem de avião que eu fui para Balneário e Cambú e a alegria de ir pra praia, né? Porque quando a gente faz o tratamento, eu tinha um catéter no tórax e não poderia entrar na água, né? porque corria risco muito de infecção. Então eu eh comemorei muito essa oportunidade, né, depois que eu fiz o transplante. Também fiz a minha tão sonhada graduação, né? Uhum. Não só uma, como duas, né? Duas graduações. Eu prestei o vestibular, que eu sempre fui muito estudiosa na minha vida e consegui sair, né? Eu prestei o vestibular e passei. Aí eu fiz gestão empresarial e análise e desenvolvimento de de sistemas na FATEC, né? E tenho aqui a foto a minha alegria, né, de ter conquistado a graduação. E hoje eu trabalho numa multinacional como analista de planejamento, cuido aí de 17 projetos. Então, graças a essa abertura que eu tive, né, essa oportunidade de vir aí realizando meus sonhos, né? Sim. Você tá aproveitando essa oportunidade, né? Um dos sonhos também que você conta é que queria conhecer Matu Pito, fazer uma viagem internacional. Como que foi também essa viagem? Foi inesquecível. Eu fiz um mochilão, né? Fiz com mais duas colegas e todo mundo pensa: "Ah, ela é transplantada, ela vai passar mal". Mas na verdade eu não passei mal. As minhas amigas tiveram o soroche, que é o mal da altitude, e eu que tive que ajudar elas. Estava super bem. Sim, deu tudo certo. E assim, fiz amizade com os locais, né? Tenho amizade até hoje com eles e também no meu trabalho hoje eu falo com os peruanos e e gosto demais de lá. Muito lindo assim, uma energia maravilhosa que eu recomendo para todo mundo. Sim. E você também fez uma exposição, né, que foi até exposta na Neelquimicarena ali no estádio do Corinthians com outros colegas que também passaram por um transplante. Como que foi esse processo também de conhecer pessoas que passaram pelo mesmo que você? Então eu depois que eu fiz o transplante, eu falei: "Eu quero conhecer pessoas que também passaram pelo mesmo mesma situação que eu". E fui fazendo amizade, né? procurando ali pelo Facebook. Daí eu fui conhecendo a Luana do Rio de Janeiro, Yuri de Minas Gerais. Então assim, a gente tem uma rede de amigos e hoje eu faço trabalho voluntário também para conscientizar as pessoas sobre a doação de órgãos e os meus amigos estão lá transplantados também. E hoje a gente participa da Liga de Atletas Transplantados do Brasil, né, no qual a gente incentiva a doação de órgãos pelo pelo esporte, porque depois o transplante é fundamental praticar esportes para continuar com os índices assim ótimos, né, de de saúde, medicação, pra gente se manter estável ali e preservar o órgão, né, para muitos e muitos anos, né? Sim. E você já falou que é muito grata por tudo que você passou, eh, por ter tido uma outra oportunidade, né, de vida. Eh, queria que você contasse, olhando para trás, assim, o que mais te emociona na sua trajetória? A minha força de vontade, assim, né? Eh, então eu sempre tive essa resiliência de cair, levantar e continuar. Então, eu fico muito emocionada com isso de não desistir, sabe? Eu não desisto. Naquele momento que falaram para mim, você eh não, você po pode vir a família toda te visitar aqui na UTI, porque você já não tem mais tempo, né? Mas eu nunca acreditei nisso. Mesmo o padre indo lá me dar extremção, falei: "Não aceito, por favor, eh, eu sei que eu vou viver". Então, eu essa confiança divina mesmo, assim, sabe? Essa fé em Deus que me mantém assim, certo? E pra gente finalizar, Bruna, é o que você diria, né, para quem tem dúvidas quanto à doação de órgãos. Eh, queria que você enfatizasse a importância desse gesto. Eh, assim, tem mais de 50.000 pessoas na fila de espera, inclusive crianças. Então, esse gesto de amor faz com que você permaneça vivo em outra pessoa, dando oportunidade pra pessoa continuar realizando sonhos do que você já realizou em vida, né? Então eu falo, eu também sou doadora, né? E dos órgãos que eu já recebi, eu não posso ser doadora, mas, por exemplo, de ossos, de pele, eu posso ser. Então, assim, que a gente puder fazer para ajudar o irmão, que é o princípio de várias religiões, né? se doar para ajudar o irmão. Isso é muito lindo. E assim, a vida continua e ao invés de você ficar ali, os bichinhos te eh acabarem, né, com o seu corpo, você pode tá doando uma parte para continuar vivendo em alguém. Sim, né? Verdade. E no caso, você segue escrevendo novos capítulos, né? A gente já falou um pouco dos sonhos que você já realizou e quais são os próximos sonhos da Bruna? Ah, eu gostaria muito de construir uma família um dia. Isso é um grande sonho que eu tenho. E também eh as pessoas que vierem a mim, as crianças que eu puderem ajudar, isso também é uma uma forma de construir uma família e também tá colaborando com a comunidade, né? tá faz dando o meu melhor, seja no trabalho ou nos trabalhos voluntários que eu faço. Então isso também é uma realização de sonho e eu também gostaria de conhecer outros países. Perfeito, Bruna, muito obrigada por contar aqui sua trajetória tão importante de tanta força e luta. Muito obrigada, pessoal. E esse foi História de Vida. Espero que você tenha gostado. Até o próximo programa.