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Existem trajetórias que não cabem em medalhas e não se medem em pódios, mas sim em superação e coragem. No Histórias de Vida de hoje, nós vamos contar uma dessas trajetórias, uma vida marcada dentro dos pódios, mas moldada também profundamente pelas vivências fora dele. Nosso convidado de hoje é o José Palermo, conhecido também como Mestre Tilico. Mestre, obrigada por nos receber e seja bem-vindo. Obrigada. Eu queria que o senhor começasse falando sobre sua trajetória de jovem. Começou com 15 anos, mas não foi no taikundô, foi no kung fu, né? É, na verdade tem um pouquinho, uma história um pouquinho antes, né? Na verdade, eu comecei o karatê, né, com 13 anos coma, só que o meu primo ia lá, né, eu era muito pequenininho, meu pai não deixava ir, era na cidade, no centro, na campo então eu comecei no karatê, mas aí meu primo logo refugou, parou e eu parei, né? Aí logo em seguida, eh, eu me ingressei no Banco do Brasil, né? Porque aquela época meu pai queria que eu trabalhasse e eu comecei a fazer trabalhar no Banco do Brasil, estava na escola normal e descobri o kungfu que meus amigos falaram que era no centro. Então, como o Banco do Brasil era próximo da escola normal e a academia Benu também era perto do Mercadão, eu passava o dia inteiro no centro, né? Eu saía daqui da academia, onde eu morava aqui mesmo, ia para lá, né? E vivia esse esse mundo meu, né? Desde desde novinho, certo? E no meio desse caminho, quando o senhor é do kung fuem condô, é, teve um percalço que foi um acidente em 87. Queria que você falasse um pouco sobre esse acidente. E o que mais o senhor teve medo naquele momento? foi perder a visão ou medo de não continuar no esporte. É, aí eu eu parei com o Kung Fu e aí eu, como você disse, eu ingressei no taikundo, né? E no mesmo ano que eu peguei a faixa preta, que foi no inverno de 87, julho, eu perdi a visão no final do ano, né? Eu tive um acidente automobilístico, aquela época não usava cinto de segurança, capacete não era exigido também para andar de moto no centro da cidade, só em pista, né? Então aconteceu isso, né? Bom, eh, em primeiro momento eu não entendi o que tinha acontecido, né? Porque o pessoal foi me acolheu, achei que não tinha ficado cego, achei que não tinha perdido a vista, né? Mas depois de uma semana minha mãe, com um jeito meio psicológico assim, foi explicando, né? E todo mundo já me recomendando para mudar de profissão, tudo. E aquilo não cabia na minha cabeça, né? Não cabia. Cada pessoa que falava: "Olha isso". Inclusive até o pai da minha ex-noiva, ele, né, queria, ele tinha uma tecelagem em São Paulo e ele falou: "Olha, daqui pra frente eu tô querendo parar, você já pode se tornar gerente, né?" Então, abriu um mundo, né? Minha mãe trabalhava no NPS, ela queria que me aposentasse também, mas a princípio eu neguei tudo disso, até até o médico, né? Recomendou e o era uma coisa muito da alma, né? E aí eu fiquei treinando sozinho, tava com medo, né, de lutar, de me expor, que eu só tinha uma vista. Então, fiquei uns uns seis meses meio encruado, treinando sozinho. Até que um dia recebi uma proposta para fazer uma demonstração lá onde eu estudava, na PUC, Educação Física. Uhum. E eu voltei a treinar na academia, né? Voltei a me reingressar, vamos dizer assim, né? Essa fase. Sim. E depois que o senhor voltou pro esporte, o senhor também é mudou para treinador. É, exatamente, né? Eu, tipo, eu ressignifiquei. Eu não comecei o taondo muito novo, porque o taondo chegou aqui em Campinas na década de 80. Então eu já tinha aproximadamente uns 20 anos, né? Então quando aconteceu o acidente, eu já tava naquela naquela idade de decidir, né? Eh, o que vai fazer, se firmando na faculdade, educação física, lutando, mas aquela época a gente pagava, pagava para lutar, né? Hoje não, hoje tem salário, né? Então eu comecei a colocar na minha cabeça que eu tinha que começar a dar aula para eu não afastar do taô, continuar treinando. E aí eu pensei, eu não posso ser campeão, mas eu posso fazer campeões, né? Eu tive essa ideia e foi aí mais ou menos que começou a se desenhar essa minha profissão que apareceu, vamos dizer assim, na minha frente, que eu queria ser lutador, não queria ser professor. Entendi. E fez muitos campeões, né, que tem muitas medalhas aqui, troféus também. E eu queria que o senhor contasse um pouco sobre a trajetória eh de começar a ser treinador e ingressar logo nas Olimpíadas. Como que aconteceu esse convite? Como que o senhor eh conseguiu essa conquista? Bom, eu como também não tinha uma idade muito avançada, tinha alguns atletas que tinham vai, vamos ter uma diferença de 8, 10 anos de mim, então eu conseguia treinar com eles. Então era um treinador um pouco mais eclético, vamos dizer assim, né? Eu participava do treino, dava o treino, lutava, explicava, porque eu não tinha limite. A uma visão só não me atrapalhou na minha parte física, né? Então eu era praticamente um treinador lutador, né? Então isso daí ajudava muito, então eu conseguia extrair mais da pessoa, né? Eu chamava como se fosse futebol, chamava, batia o pênalti, mostrava como é que era, era praticamente um lutador treinador, entendeu? Então acho que isso daí contagiava um pouco, porque além de eu explicar, eu ia lá e mostrava e e fazia, entendeu? Então acho que isso foi um grande segredo que eu não percebi naquela hora. Entendi. Eh, queria que o senhor contasse pra gente como foi a ida pras Olimpíadas em Atenas. Bom, eh, isso aí eu tenho que contar um pouquinho da história que Campinas ajudou muito, né, a prefeitura, a Ponte Preta, muitos parceiros que eu posso até esquecer aqui agora de agradecer, né, pessoas que ajudaram e nem falaram Patropia, muita gente, muita gente me ajudou. Então, a gente tinha uma estrutura e tinha uma a equipe, equipe de Taondor de Campinas e a equipe Ponte Preta Campinas, entendeu? E então o o técnico da seleção brasileira já tava vendo o meu trabalho. Ele vê que meus atletas eram eles eram mais ecléticos, eles tinham assim um eles não tinham estilo próprio porque eu gostava de mudar muito treinamento, participava, né? Então meu trabalho já tava sendo observado. Em 95 eu estava em São Paulo, na Federação Paulista, tocou o telefone, a secretária ocupada, eu atendi o telefone e era o mestre Carlos Negrão, o atual técnico da seleção brasileira. Aí ele falou: "Quem é?" Eu falei, eu te ligo falei aí. Ele falou: "Ô, te ligo que você tá fazendo aí". Falei: "Ô, mestre, tô ajudando aqui a secretário, tô ocupado". Ele falou: "Você não quer ir no mundial não trabalhar de técnico?" Eu falei: "Pera aí, eu pera aí, eu não caiu a ficha, né?" E falei: "Quem era eu, né? Que nunca tive grandes títulos, nada. Tinha bons atletas, já tinha um caminho trilhado, mas tava bem no começo, meu segundo, terceiro ano de como técnico." Aí eu sei ter a proposta, né? E aí já fui paraa Filipinas, campeonato mundial em Manila, né? Já tive sorte de ficar com alguns atletas que eram de ponta, Luciurelli e tal. Então a coisa já começou a acontecer muito rápido, vamos dizer assim, entendeu? Sim. E no caso está nas Olimpíadas pro senhor, você falou que nem esperava esse convite, mas foi um sonho realizado. Olha, é uma coisa também legal que você perguntou. Um dia minha prima chegou e falou, acho que uns 10 anos atrás, ela falou: "Ah, te digo, você realizou seus sonhos, né?" Eu falei: "Como assim?" Ele falou: "Você não lembra não?" "Há muito tempo atrás, você nem tava no taikond". Ela falou, você falou, você falou duas coisas para mim que eu ia conhecer os Estados Unidos e um dia eu ia conhecer, ia uma Olimpíada. Uhum. E aí ela falou que eu falei, né? Então a gente tem que tomar cuidado. Até brincus alunos. Falei: "Toma cuidado com o que você pede, porque às vezes Deus Deus escuta e também acaba realizando, né? Mas eu acredito, Camila, que tudo isso aconteceu porque o meu sonho era o sonho das outras pessoas. Então era um sonho não individual, era um sonho coletivo. Então acho que as coisas ficavam mais fácis de acontecer. Uhum. É, e o senhor citou também que aqui os seus alunos eles têm um diferencial, eles vêm aqui não só para aprender a luta, mas também para eh a mente deles, né? Melhorar a mente. É, eu paralelamente com o Taikondora, eu me interesso por algumas coisas também que não são muito assim do ramo, né? Astrologia, meditação, respiração, é autocontrole. Eu fui fazer alguns cursos fora. Então isso me ajudou muito a colocar na arte marcial, porque a arte marcial é uma ferramenta, né? Eu percebi quando um adolescente, um jovem, ele começa a praticar, ele começa a se entender. Ele sabe que tem braço, perna, dente. A gente não percebe, mas a gente tem que administrar o nosso corpo. É que nem você, quando você acorda, você não vai lá dar um trato no cabelo, a mulher ela se maqueia, entendeu? Então você já começa a se cuidar. Então aqui eu começo a mostrar isso, que isso é importante para ele. Uhum. Porque se ele fizer igualmente a todo mundo o que ele faz, ele vai ser mais um. Então eu sempre falo: "Olha, vai fazer um curso de inglês que fazer uma faculdade, presta mais atenção na aula, se concentra mais em você, né? Hoje o pessoal fala muito em seguidor, eu falo: "Olha, segue você em vez de seguir alguém, né? Que aquela época não tinha celular, nada, né? Então eu vejo hoje que as pessoas estão muito fora. Então aqui na luta, no punc, no catar, tudo isso remete a uma automeditação. Então você começa a se descobrir e começa a focar mais em você e não no que está fora, entende? Eu acho que é mais ou menos por aí. Perfeito. E no caso também, eh, pro senhor, o senhor falou que aqui é sua missão de vida, o senhor não consegue sair desse local. É, olha, vou é um pouquinho antes da gente começar essa matéria, a gente conversou um pouco. Sabe o que eu sinto hoje, Camila, que eu posso falar para vocês é que foi uma missão que foi no mei dada. É tipo um dom, sabe? Um velhinho que benze ou uma senhora que tem o dom de de fazer casamento, sabe? Ou aquele velhinho que faz aquela aquele salgadinho na esquina. Eu acho que eu fui uma pessoa que foi enviada para fazer essa missão para as pessoas se direcionarem, se encontrarem com elas mesmo e encontrarem a missão, porque muita gente já saiu daqui falando: "Agora eu já sei o que eu vou fazer na vida". Eles usou até quando para isso. Uhum. Então, quando o senhor entra aqui nessa academia hoje em dia e lembra de como começou lá atrás, que que o senhor sente no coração? Sente que tá com a missão cumprida? Mas tem muito para fazer ainda, né? Claro. Olha, eu vejo que foi uma coisa que me foi dada. Eu não me sinto esse timico que vocês falam, eu não me sinto essa pessoa, né? Eu acho que alguma coisa que foi me dada, uma missão, né? Que eu incorporo com absurar, como se fosse um cantor, sabe? Uma pessoa que nunca treinou e vai lá e canta, né? Sim. Então eu acho que é isso, é mais uma missão mesmo. Acredito muito em Deus, né? Em religião, tudo isso eu acredito em muito. Acredito em muitas coisas, morte após a vida. Então eu tenho muita certeza disso, porque tem muita gente muito bem capacitada, que o B está no meu lugar, até melhor, mas aí eu vejo que hoje eu tenho total consciência que é uma missão de eu orientar e direcionar os jovens. Sim. Em que momento o senhor acredita que o senhor eh mudou essa missão é como um propósito, adotou esse como um propósito? Foi logo depois que eu parei de ser técnico, já não estava mais me preenchendo, né? Uhum. Eu fiquei com depressão profunda, né? Fui procurar várias pessoas, psicólogos, psiquiatras, cursos, meditação, tudo. E aí eu comecei a entender, porque eu não conseguia nem mais descer na sala, não tinha mais prazer. E aí eu tinha que me ressignificar. Eu falei: "Nossa, mas como que eu tenho que ficar nesse meio? Eu sou competitivo, tenho ego, gosto de aparecer, né? Que tem gente que gosta mais, né? Então, como eu tinha autoestima baixa, então a gente compensava nessa maneira, né? E aí eu vi que podia ajudar, não só um atleta, mas eu podia ajudar um médico, podia ajudar um pai de família, uma pessoa que que é objetivo. Foi onde eu fui buscar que o taondo ele podia ser um auxílio para pessoas que estão querendo mudar de vida, querendo uma separação, querendo tomar decisões. O taikondo deixa uma pessoa ela mais assim com poder da vida dela mesmo com ela mesma. Eu descobri isso, ressignifiquei faz uns 15 anos. Então hoje eu trabalho pra sociedade dessa maneira, né? uma pessoa que busca um um autocontrole, busca uma mudança, busca um desafio de ter que separar, mudar de um trabalho ou outro. Acho que eles procuram e acham aqui dentro. Perfeito. E mestre, entre tantos títulos e medalhas, queria que o senhor contasse algum momento marcante que o senhor passou durante essa trajetória? Ah, eu acho que é um convite de ir pra Olimpíadas, né? Apesar de assim não ser a coisa mais importante, que eu acho que a coisa mais importante foi o invisível que aconteceu aqui. Uhum. A a vida que marcou muitas pessoas que nunca foram atletas, mas hoje estão inseridas na sociedade, né, como médico, enfermeiro, pai de família, né? Eu acho que foi da Olimpíadas mesmo, porque foi um presente para mim, foi um presente. Eu acho que não não que eu não merecia, mas tinha muitas pessoas capacitadas. Eu fui pensado, fui escolhido. Deus me deu essa esse presente, né? Acho que foi esse momento, certo? E também no caso, para quem enfrenta uma limitação, assim como o senhor, no caso física ou emocional, passou por um momento difícil, eh, qual orientação o senhor passaria para essa pessoa? Ah, eu acho que a gente nunca pode desistir dos sonhos, né? Muitas pessoas quiseram me ajudar a fazendo com que não concretizasse meu sonho, mas eu até falar pr as pessoas, né, que tem quatro verbos no universo: querer, saber, ousar e calar. Então, se você tem um sonho, guarda para você, porque todas as pessoas que entraram aqui achavam que eu não teria essa capacidade, né? E e às vezes isso tá muito intrínseco, tá muito lá dentro, entendeu? Então, até você mesmo não acredita, né? Então, eu acho que acreditar no sonho, buscar e nunca desistir. Nunca desistir, ir atrás que um dia a porta abre. Sim. E o que faz hoje em dia o senhor continuar ensinando? Eu acho que a conexão com o ser humano, eu acho que quando chega um ser humano até você, é uma conexão tão grande. Pode ser uma criança, um velho, uma pessoa, um atleta, uma pessoa que nunca vai ser atleta, mas ela tem tanta coisa para te ensinar e te passar que se você tiver a sabedoria, a humildade, né, que você tem que ter, você aprende tanto com outra pessoa. Então, essas conexões que eu tenho diariamente aqui, que são ricas para mim, né? Eu acho que todo ser humano tem uma sabedoria muito grande. Então, na verdade eu acabo muito mais aprendendo do que ensinando na posição de professor essa conexão com o ser humano, como tá acontecendo agora com você. Sim, foi ótimo. Obrigada pela conversa, mestre Estilico. E mais uma vez muito obrigada por nos receber, tá? E esse foi mais um Histórias de Vida. Até a próxima. Obrigada. เ