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[música] [música] [música] Olá, minha gente. Começando mais um Histórias de Vida e desta vez a gente vai ouvir e aprender um pouco com a história do professor Natanael dos Santos. Ele é professor, historiador, [música] pesquisador e por aí vai, né? Que o currículo é extenso, não é isso, professor? É, é um prazer estar aqui com vocês, recebê-los aqui na minha casa. Muito honrado. E vamos contar um pouco da minha história na medida do possível. Tem coisa que [música] não se conta. Essa história é muito interessante assim e curioso até, né? Porque o senhor tem essa luta constante, eu imagino que diária [música] em relação a tantos preconceitos que a gente ainda vive, né? Mas o senhor começou lá atrás, aos 18 anos de idade, né? Como é que o senhor iniciou [música] essa essa sua luta? Eu comecei falar de negro, aprender eh o que é ser negro no Brasil em 1974 com o grupo de teatro Evolução. Eh, os mestres Lumumba, [música] que já cufou, mestre TC, são os mestres assim que eh colocaram em mim eh o que é ser negro. com espetáculo chamado Sinfonia Negra. Esse espetáculo rodou o Brasil muito, Rio de Janeiro, todo o estado de São Paulo. É um trabalho que mostrava o negro na sua essência. E aí assim é importante a gente, o senhor usou uma fala muito interessante, né? Eu comecei [música] eh a é quando a pessoa se identifica, né? Então começou a falar de negro. Mas aos 18 anos, talvez para [música] quem não tenha casos próximo ou não tenha vivenciado, pense assim: "Mas por demorou 18 anos para ele entender [música] que precisava falar sobre isso? A gente ainda precisa bater nessa tecla que é difícil ser negro no Brasil, né? Extremamente difícil ser negro no Brasil. Nós somos um país racista. Falamos que não somos, mas somos. E eu sou de origem evangélica, eu sou evangélico, filho de um pastor. E foi muito difícil eu compreender que eu era preto ou negro, porque eu achava que eu era filho do pastor. E quando a gente descobre o que quer ser negro, a possibilidade de compreender quem somos [música] nós, é algo gratificante. É tão gratificante na minha vida que eu estou fazendo isso até hoje. Eu comecei em 1974. [música] Essa história de falar do negro é porque nós negros nós [música] não nos conhecemos. Por que a gente não conhece? Pós abolição, não teve escola [música] para negro. Pós abolição não teve terra para os negros. Pós abolição, nós também não tivemos emprego de verdade. Então, eu não sei quem eu sou. Eh, a maioria do tempo a gente fala: [música] "Você veio da onde? Do continente africano. Você veio da onde? do continente africano. Mas não, lá tem Benim, lá tem Angola, Moçambique, Cabo Verde, 54 países. E a gente não sabe de qual país eu sou. Então, eu não [música] sei quem eu sou, não sei do meu cabelo, do meu nariz, da minha boca, da minha pele. Eu não sei nada disso. Em 1974, [música] eu nem imaginava a qualidade do meu cabelo, minha formação nasal. a minha boca e minha pele. Costumo dizer sempre, gente, tenho 70 anos e onde estão minhas rugas? Eu não aprendi isso com 18 anos até [música] 18 anos. De 18 anos para cá que eu comecei a aprender. E a maioria da população hoje nacional não sabe quem eu sou. Assim como eu olho para você, vejo o seu cabelo liso, escorrido, por quê? O meu cabelo carapinha crespo, eu também ninguém sabe. Então, essa essa essa crescência na minha vida de estar na avidez por aprender sobre negros e também falar sobre negros. E foi aí que durante [música] essa luta, esse aprendizado, que o senhor percebeu que poderia [música] se tornar um professor e espalhar essa informação para mais pessoas, orientar mais pessoas sobre a sua raça, a sua pele, a característica [música] do negro como um todo? Então, veja bem, eh, nós, todos nós, temos algumas dificuldades de compreender, [música] porque a história do negro é oral. Se você for descendente de italiano, você sabe quando o o navio chegou, a data, o nome do navio e a origem da onde você veio ou dos seus ancestrais. [música] você sabe tudo. Logicamente que é muito fácil você se entender. Eu não sei nada disso, então tenho dificuldade de entender. Por isso que eu faço de tudo para falar do negro e [música] a sua contribuição para a sociedade brasileira. Em alguns momentos eu saio do Brasil e vou para o mundo. Porque quando você descobre o que o negro contribui para o nosso dia a dia, é incrível. Por exemplo, nós estamos com ar condicionado aqui nessa sala. Quem inventou um ar condicionado? Você chega na sua casa, na rua, um calor, você abre a geladeira para tomar uma água gelada, mas quem foi que inventou a geladeira? O negro também. Agora imagine você se eu com 18 anos já soubesse disso. Não, eu não. O Brasil parte do mundo, só que a gente não sabe. Então a gente fica sem saber e sobre a nossa identidade [música] e orgulho de ser renegro, porque é muito fácil falar que eu fui escravo, fui escravo, não, fui escravizado pelos nossos conhecimentos [música] dos nossos ancestrais. Além disso, nós somos colonizador [música] intelectuais do Brasil. Gente, não é colonizador dono de terra e nem dono de escravizados. É intelectual, porque as pessoas se confundem, falam: "Nossa, não, nós não tivemos terra, [música] nós tivemos de quê?" Ajudamos a construir o país de uma maneira fantástica. Que que eu faço? Então ensino isso. O que que eu trago? o meu material didático paradidático, falando disso. Então, quando eu faço uma palestra, quando eu faço uma formação, [música] tem professor que começa a chorar porque as notícias nossas são impactantes. Você tá vendo o violino aqui, ó? Violino é nosso. Como assim é nosso? Então eu gosto de falar isso. O violino, a origem dele é o chifre da África. Aonde está o chifre da África? Etiópia. Ponto. Então, quando eu conto isso, muda tudo. E aí, o senhor sendo professor, o senhor hoje, qual é a sua opinião? Porque assim, são tantas histórias importantes e muito mais relevante do que histórias dramáticas quando envolvem negros, histórias tristes de que envolve mesmo preconceito. O senhor acredita que faltou nas escolas ou ainda falta, por exemplo, na educação do Brasil ensinar essas coisas que o senhor falou? Porque parece ser simples para mim, mas pro senhor eu imagino que não foi descobrir que quem inventou o ar condicionado foi uma pessoa de pele preta, assim como quem inventou a geladeira. Então até me arrepio em falar porque eu imagino que para o senhor isso tem um significado muito [música] grande. Deixa eu te contar, eu faço muitas palestras. Antes de ontem, eu acho, eu fiz em Ponta Grossa. Ontem eu fiz em Curitiba e domingo eu viajo para Espírito Santo. Sai do Espírito Santo, vou para Betim e toda vez eu fico emocionado, toda vez, porque é muito grande essa história para nós. Para mim é um, é um mundo, é minha vida. E agora quando você nós fizemos a conta aqui, faz 51 anos que eu falo de preto. Não é 5 dias, nem 5 anos, [música] nem 5 meses, 51. E ainda assim a gente tem dificuldade de transitar de uma maneira tranquila. E ainda assim você não é reconhecido por esse trabalho que eu faço. Eu tenho, eu tenho não sei quantos títulos de livros, não sei quantos. Eh, a coleção nossa atende o 4 anos de idade ao ensino médio. Eu tenho livros infantis para 4 anos até o ensino médio [música] e o material didático. Então, olhe bem, eu, Natanael, assim, eu fico eu fico extremamente emocionado, principalmente hoje que eu tô sendo reconhecido em vida. Isso é muito importante. E o que te motivou, professor, a deixar [música] para trás esse menino que limpava a caixa de gordura, que fazia trabalhos [música] mais braçais para se tornar um professor da importância que o senhor tem hoje, dado os os prêmios que o senhor [música] tem recebido e vai receber. E o senhor também é cofundador do grupo de estudos afro-brasileiro da Universidade de Campinas. Sim. Como é que o senhor entendeu que o senhor poderia ser alguém [música] mais do que aquilo que a sociedade imaginava pro senhor? Professor Dr. José Amaral Lapa, ele me viu e falou comigo que eu poderia ser grande, porque foi ele que me convidou. para eh ser um dos fundadores do grupo de estudo afro-brasileiro [música] da Unicamp. E ele mostrou para mim que eu poderia ser gigante. E depois também eh eu fui convidado a implantar um programa no MEC e lá eu falei: "Eu sou gigante". E quando esse projeto DOMEC acaba, eu sou convidado a escrever um livro. Eu escrevi meu primeiro livro e eu não gostei dele porque eu não sabia escrever, eu não era escritor. Aí eu [música] escrevi mais dois livros. Então fiz uma coleção com três livros sobre africanidade. Foi muito rico. E eu comecei [música] a sentir esse sabor. Então, esse desejo de falar, [música] e eu falo da contribuição do negro, eu sei que tem todas as diferenças, [música] mas isso todo mundo fala, mas das minas de ouro poucos falam. E por falar em Minas de Ouro, o senhor ganhou em 2019 Leão de Ouro em Canes. Como é que aconteceu [música] essa premiação tão importante? Eh, na época eu era coordenador de um grupo de estudo da Universidade Zumbi de Palmaras, Palmares. [música] Eu era coordenador dos direitos humanos. E olha o que acontece. Nós somos chamados por uma reunião na JW Thompson, uma agência de propaganda, uma das maiores do mundo. E quando eu chego lá, tinham muitos jovens, [música] muitos e eh querendo me ouvir. E eles iam perguntando e eu ia falando, perguntando e eu ia falando. Aí eles perguntaram: [música] "Você tem esse material tudo?" Falei, eu tenho todas as pesquisas [música] que eu estou falando com vocês. E aí, vamos escrever um livro? Vamos, é lógico que vamos escrever o livro. Escrevemos o Blackbox, é o caixa preta. E ele vem numa caixa preta, ele é fantástico. E aí a JW Tom que escreveu lá em CES o livro, a pesquisa e e nós ganhamos duas categoria eh tecnologia, porque o livro tem duas páginas e ganhamos como pesquisa, né? Então foi assim um negócio surreal. Eu eu só tenho uma tristeza nisso mesmo. Gente, eu volto falar de novo. Eu sou de Campinas, gente. Eu ganhei um prêmio. É um leão de ouro em canes. É considerado ócar da literatura. Eu não fiz uma matéria sobre isso. E eu falei com muitos veículos de comunicações, [música] que eu era campineiro, tinha ganhado esse livro. O livro é impactante. Eu não fiz uma matéria sobre isso. E não parou por aí, né? Porque esse ano o senhor também ganhou [música] eh recebeu a comenda dias do Nascimento neste ano de 2025. Então assim, de 2000 eh de 1974, o senhor não parou, né? Não, não parei. E esse [música] essa comenda eh eu não é não é para o Natanael. Essa comenda é [música] para o Brasil, porque agora eu sou um comendador falando de africanidade e eu tenho muito respaldo, né? Eu eu [música] sou a única editora do Brasil fora da Unicamp, que tem um livro com selo da Unicamp, um livro de acessibilidade. Então eu não parei mesmo. E não vou parar de quem começou em 74 e resistiu fazendo, falando de negro, mas da contribuição do negro para a sociedade brasileira e mundial. Agora, a gente não pode deixar de citar uma brincadeira brasileira, porque brasileiro adora fazer piada, [música] né? E o senhor comentou de quando o senhor começou até hoje, são 51 anos, ou [música] seja, é uma boa ideia. [risadas] Agora, todas essas excelentes ideias que o senhor teve de levar a marca, a boa marca, a representatividade do negro, a [música] importância do negro para o país? Como é que fica agora de 2026 [música] pra frente? tem projetos, tem algumas boas ideias por vir? Tem, tem porque junto com a minha trajetória, em 1983, [música] eu monto um grupo de teatro [música] chamado Liberdade Canto e Dança, um sonho, uma vida. E e ele existe até hoje, estatutado, agora já é uma associação, já é uma ONG. E a gente continua firme, firme, firme junto, juntos. E agora nós vamos fazer um outro trabalho que é trabalhar com os jovens, porque o professor [música] receber o que a gente faz, OK, mas a gente quer levar para os jovens. Então, a Associação Liberdade Cant e [música] Associação Assistencial Liberdade Cantança, hoje ela tá trabalhando. Nós temos escritório aqui em Campinas, já estamos e com escritório lá em Brasília e tem o próprio escritório da Griô que fica em Cotia. E nós vamos fazer um trabalho raiz, ou seja, vou voltar às origens [música] também fazendo palestra para alunos. Eu faço isso 51 anos, ainda é incompreensível. Ontem mesmo [música] lá em Curitiba, no Paraná, gente, que que é aquilo? Você sendo aplaudir de pé, sabe? Tá nos vídeos para todo mundo ver. Então é isso que me [música] move vendo aqui eh ouvindo o senhor falar com tanta motivação, acho que já é uma inspiração para quem está assistindo e para pros alunos que com certeza vão acompanhar [música] aí esse novo projeto que o senhor tem pela frente. Exatamente. Muito obrigada. Eu que agradeço. Agradeço a vocês que estão nos ouvindo. Venha comigo, venha compartilhar desse sabor de falar de negro que eu falo com muita paixão. Obrigado. Obrigada. Obrigada a você também que nos acompanhou pelas telas. Está aí a dica para você acompanhar e se reconhecer nas histórias do professor Natanael. Até o próximo. Tchau. Tchau. Ciao.