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[música] [música] O ano era 2021. O mundo enfrentava [música] uma de suas piores pandemias, mas dentro de si cada um enfrentava algo muito maior do que uma pandemia. Assim como João, Ivana, Ricardo, Maria, Gabriel decidiu escolher um outro fim. [música] Nós vamos conhecer no História de Vida de hoje o que fez surgir a ON Gabriel. A ONG Gabriel, ela surgiu a partir de um momento difícil, um momento delicado, [música] mas que você entendeu que também era um momento que você [música] precisava olhar para o próximo. Foi esse o sentimento? Sim, foi esse [música] o sentimento. Talvez você eh eu dê essa pausa porque a ONG ela não é cristã, mas eu sou uma mulher cristã. [música] E com 10 dias que o Gabriel faleceu, eh, o Senhor disse para mim, para mim construir a ONG. E eu disse: "Senhor, quer uma ONG?" Porque eu já vinha de um trabalho missionário, mas na com a dependência química, eh, com os moradores de rua, até então eu não sabia exatamente o que era a saúde mental e como trabalhar, [música] né, sobre a saúde mental. Então, por isso que eu dei essa pausa, não te responder, porque foi assim, mas não foi diretamente a Nadia, ser humano. Eu acredito muito no Somos três, corpo alma e espírito. Então, a minha alma desejou que outras [música] almas não tivessem mais essas dores ou não passasse por essa dor. Quando nós estávamos chegando, você, eu comentei com você que eu [música] passei por uma situação recente, né, com uma amiga, que também fez [música] uma escolha, assim como o Gabriel. A psiquiatria [música] e a psicologia entende que essas pessoas eles não querem eh tirar [música] a vida, eles querem acabar com uma dor que acontece lá [música] dentro. E aí você me disse assim: "Eu sinto muito". E você já na sequência comentou que um dos trabalhos da ONG é exatamente [música] esse, né? Eh, embora seja educado dizer eu sinto muito é um momento [música] que a gente não quer vivenciar, né? É, é isso mesmo. Eh, é educado. E a única coisa que nós conseguimos dizer para alguém [música] que perde um ente querido é isso. Meus sentimentos eu sinto muito. Mas o quanto você sente [música] muito mesmo? Porque eu sinto muito, você está dizendo, eu tô tendo empatia com essa dor. Então, as frases às vezes elas são multiplicadas, elas são ditas, [música] mas sem realmente entender do eu sinto muito. Porque perder alguém pro suicídio é eu sinto muito, mas eu sinto muito. Tem que ter uma propriedade e tem que ter [música] ações para que venha validar essa frase. Sinto muito. Eu sinto muito. Só te dar um abraço e virar as costas é muito pouco para quem perde alguém pro suicídio. E quais [música] ações a ONG Gabriel por por meio [música] da sua atitude, né, do da sua dor e ao mesmo tempo do seu amor tem feito junto com outros [música] parceiros, né, apoiadores, voluntários, tem feito, porque a gente sabe que a saúde mental parece que agora ela começou [música] a ganhar um espaço, mas até então as pessoas olhavam para alguém que falava Estou deprimido, estou estressado ou com burnout. As pessoas olhavam e diziam: [música] "O quê? É frescura." Sim, né? É isso quando olhava, né? Porque muitas vezes a gente nem olhava. [música] É. Eh, eu tenho aprendido na ONG o sentido do realmente da empatia. A empatia não é só se colocar no seu lugar. [música] e e virar as costas. Quando eu sou empática com você, eu tenho uma ação de resolver ou tentar resolver aquilo. E [música] eu acredito assim, tem ganhado espaço [música] porque algumas pessoas realmente decidiram a vestir a camisa. né? Quando a gente começa a estudar um pouco da psicologia e da psiquiatria, [música] não como um profissional, eu sou terapeuta comportamental, mas não sou uma psicóloga nem uma psiquiatra, mas a gente começa a estudar [música] um pouco sobre a saúde mental, já vem muito tempo que muitos, [música] muita gente vem lutando, né? buscando acolher, né, o que todos dizem que é frescura, o que todos dizem que é falta do do que ter o que fazer, que na verdade todo mundo tem o que fazer [música] o tempo todo. Talvez uns com maiores demandas e outras com menos, mas todo mundo faz alguma coisa. Todo mundo limpa sua casa ou todo mundo cuida do seu filho para ir pra escola ou cuida de uma avó. Então, quando as pessoas dizem que é frescura, é porque as pessoas ou não tiveram a experiência, a vivência, que é o que a O Gabriel deseja que isso não aconteça, [música] ou a pessoa não é da área da saúde mental, porque quando alguém eh porque simplesmente se apaixonou por essa área e se torna um profissional da área da saúde mental, ele realmente ele faz essa escuta. E quando alguém passa por isso, ele também faz essa escuta. E uma [música] das coisas que eu mais falo, Carla, não tente enganar quem está com depressão. [música] Aí você pode me perguntar, como assim enganar, Naddia? Quem está com depressão, ele percebe [música] no seu olhar, no seu sentar, no seu gesticular, que você realmente está ali escutando ele ou que realmente ou que você está ali simplesmente por educação [música] de novo. Estou aqui, oi, tudo bem? Não, eu fui lá, fiz uma visita. Ele sabe se ele pode ou não contar com você. E é por isso que as demandas têm crescido tanto, [música] tanto nas OBSs quanto na ONG Gabriel ou espaços que tem, né? acolhimento, a saúde mental. [música] Porque quando uma semente chega aqui, a gente para tudo. A gente para até a gravação. Se chegar uma semente agora, [música] a prioridade não vai ser mais a gravação. A prioridade vai ser essa semente. Estamos de férias, mas ela é a prioridade. A gente quer escutar porque é um minuto, é um segundo e aquele segundo não volta mais, né? Não dá para esperar [música] a pausa comercial. É agora quem tá sofrendo de depressão, [música] quem tem a mente suicida, é agora. Não existe o daqui a pouco os 10 minutos. E um outro ponto que as pessoas falam também que assim [música] eh, que as pessoas quando elas têm realmente interesse em se suicidar, elas não avisam, né? Elas vão e fazem. Mas assim, eh, [música] essas pessoas, esse, essa atitude não vem de uma forma estratégica na mente [música] dela. Ela tá passando por um momento muito delicado. Muitas vezes, eu imagino até assim ouvir histórias que você possa [música] nos contar. A pessoa que está passando pela depressão ou pelo burnout, [música] pelo uma síndrome do pânico, às vezes nem ela entende o que ela tá sentindo, né? Ela tem uma voz dentro dela, [música] ela tem uma dor dentro dela que ela não consegue entender. Então, por isso às vezes é até difícil pedir ajuda. É, [música] na verdade, você falou, na maioria das vezes eles não sabem porque já vem levando aquele peso do é frescura, [música] né? É uma palavra muito perigosa quando você diz assim: "Ai, você quer se matar?" Então se mata. Isso é muito perigoso. Eh, eh, se o, se o depressivo ou suicida, ele dá leves sinais. Ele dá leves sinais. Se ele era uma pessoa muito alegre, ele começa [música] a ficar muito quietinho. Ou às vezes ele é muito quietinho e ele começa se eh está em todos os espaços, está com muitas pessoas, ele muda totalmente quem ele é, que é um pedido de socorro, né? E [música] alguns dá sinais maiores, alguns eles já vão falando: "Olha, desse ano eu não passo, desse mês eu não passo, [música] eu estou cansada, não vou aguentar mais". Teve um caso que aconteceu [música] aqui na ONG, foi muito interessante, talvez ele vá até ver, eh, um profissional também, [música] eles vieram fazer uma entrevista com a ONG. E quando acabou a entrevista, um dos profissionais que estava ou repórter cameraman [música] ou camaram, enfim, ele me chama e a gente vai lá pro outro lado da rua e ele me mostra uma carta de despedida. Eu acho que vai ser um dos maiores momentos de Ainda bem que a O [música] Gabriel tá aqui. Quando eu comecei a ler aquela carta, aquilo me doia muito porque tinha mãe, tinha filhos. Não vou falar o sexo, mas tinha uma [música] parceiros ali no relacionamento e daí a pessoa disse para mim: "Eu precisava vir aqui te ouvir". Teve outro momento que eu fui num espaço, a ONG Gabriel vai em todos os espaços, igual eu falei, eu sou cristã, [música] mas a ONG não. E eu fui num espaço eh onde eh eles [música] têm uma forma diferente de escutar música, de viviciar seu lazer. E quando eu termino a fala e eu vou embora e daí vem uma jovem na porta do carro e ela diz assim para mim: "Eu fui me despedir da minha mãe e esse [música] seria meu último evento e eu saindo daqui eu ia pular a linha do trem. [música] Lidar com [música] esses dramas, com essas dores, é muito difícil. Mas quando se tem um projeto como a ON Gabriel, um projeto que [música] quer fazer o mesmo que o girassol faz pela natureza. [música] dá uma certa motivação, né? Como se as coisas se revivessem, né? [música] Se toma um novo fôlego. É esse o sentimento? É esse o sentimento. É de renovação. É de renovação, [música] porque eh pela aquele dia, né? Eu não digo que todos os dias eu vou estar [música] na vida dessas pessoas que eu falei agora. Mas naquele dia aquela [música] família teve mais uma noite, teve mais [música] um café da manhã, teve mais uma oportunidade [música] de dizer: "Eu te amo". E Carla, eu [música] sou muito feliz porque o meu Gabriel, ele me deu oportunidade de [música] ver isso com ele 4 anos. A família não sabia, só eu sabia. Então a gente procurou junto [música] psiquiatras, psicólogos, ele passava cursos profissionais, [música] ele tomava medicação. Tanto é que eu nunca gostei de planta e eu tenho um monte de jardim hoje porque [música] quando a gente veio morar aqui era muito barro, muito acidentado e daí aqui era o escritório dele [música] e eu comecei a ajudar meu esposo limpando. Eu sou nordestina, eu sou acostumada a lidar com mato, né, com plantação. E ele descia para usar o banheiro ou beber água, que aqui era só o escritório. E ele falava: "Nossa, mãe, que plantinha legal". [música] E eu comecei ter uma conversa com meu filho através das plantas. [música] Ele descia, ele observava uma planta diferente. Então, via planta jogada na rua, já pegava e trazia para casa. E tanto é que tem ali um pé de um pé de amor que quando a gente chegou aqui, ela tava abandonada lá na frente. Aí eu trouxe e plantei aqui no [música] fundo. Aí quando foi para construir eh mais uma parte, aí ele foi lá e plantou o pé de amora lá embaixo para mim e ela tá ali. E e eu sei o poder da natureza. Eu sei o poder de cura. E durante esses 4 anos, se Gabriel, as plantas, esse [música] espaço aqui, ó, é tão simples, mas é tão bom tá aqui, é tão curável. E e daí, [música] Carla, eu tive 4 anos. Nesses 4 anos eu fazia o melhor suco, eu fazia a melhor vitamina. O Gabriel sempre foi um guerreiro. Eu sei o quanto ele lutou [música] esses 4 anos. E eu sempre beijava a cabeça dele. Eu sempre cheirava a cabeça do meu filho, sabendo que poderia ser o último cheiro. E naquela quarta-feira eu subia aqui e já era Covid. [música] E eu disse: "A mãe fez, eu fui entregar um suco para ele. Falei: "Deixa gerar". mãe dar um beijo. Ele abriu meia porta, abaixou a cabeça e eu tirei. A cada a cada dia, a cada a cada momento que eu passo pela onga, é como se eu tivesse trilhando [música] um deserto. Mas eu escolhi colocar água em uma mão e semente [música] na outra. E daí eu vou soltando as sementes [música] e a água. Porque eu tenho muita esperança que se eu não voltar a trilhar esse caminho, mas quem [música] vier venha acolhendo flores, venha colhendo um jardim de [música] girassol. Então, não vou enganar nenhuma das nossas sementes dizendo [música] que a vida é fácil. Não é fácil. Vai ser mais um Natal sem ele, [música] mais uma amanhã sem ele. É ver o sofrimento dos irmãos que eram [música] muito unidos. Mas a gente decidiu viver pelo Gabriel. A gente decidiu viver pelas sementes. [música] [música] [música] [música] [música]