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Cada pessoa carrega uma história única, mas existem trajetórias que vão além da superação individual, que transformam realidades e inspiram mudanças sociais. No Histórias de Vida de Hoje, vamos conhecer a advogada, gestora pública e referência em políticas de inclusão, de acessibilidade. Você escolheu o direito como profissão, né, que também na faculdade é um curso bem desafiador. Eu queria que você falasse se você sofreu algum desafio nesse período de formação, não só na faculdade, mas durante toda a sua formação, desde a infância até o ensino superior. Eu comecei a minha formação aqui em Campinas para ser alfabetizada, né? Então, no contraturno que a gente chamava e já comecei na escolinha com dois aninhos, na escolinha, eh, normal, não é normal, regular, sim, que a gente tem aqui, né? Eh, eu me lembro da dificuldade só de material. Era muito difícil conseguir material em Brail. E aí aqui, por exemplo, a gente tinha institutos em Campinas que batiam de forma voluntária todo o material em Brail. Então, é fantástico assim o trabalho que se tinha aqui. E então na escola até o ensino médio, a minha maior dificuldade real foi eh material. Uhum. Na faculdade, a minha maior dificuldade foi preconceito. Então, assim, você tem uma mudança muito grande. Então, por exemplo, eu tive aula de português jurídico e eu lembro que na primeira prova a professora disse assim: "Nossa, eu você não teve erro ortográfico, né?" Pelas suas condições, eu achava que você ia ter bastante. Meu Deus. É. Aí no meu quarto ano de faculdade, um professor foi dar o exemplo de isonomia, de igualdade, princípio da isonomia, que a gente tem que tratar os iguais de forma igual e os diferentes de forma diferente em linguagem bem simples. E aí ele disse assim, por exemplo, a Emanuele, ela tá aqui com a gente, eh, estudando tudo, mas ela nunca vai poder ser advogada. Esse foi o exemplo de isonomia na sala de aula que eu recebi no quarto ano de direito. E falando um pouco mais pra frente na história já, eh, você assumiu a Secretaria de Pessoas com Deficiência em Campinas. Eu queria que você falasse um pouco sobre esse momento, como foi essa experiência de ter esse cargo tão importante? Ah, eu tenho tem uma coisa que eu tenho orgulho é de ter implantado a secretaria eh da pessoa com deficiência com com aqui em Campinas e ter ficado à frente dela no nos 4 anos de existência real dela aqui na cidade, né? Então eu tenho muito orgulho porque coisas que a gente fez eh perduram até hoje. Fez, eu vejo aqui que fez transformação de vida até hoje, eh, pra cidade que eu amo e pras pessoas também, que é o que mais importava, né? Foi um desafio muito grande. Eu vinha de uma grande empresa, eh, e eu tive que aprender a a ser humana. A secretaria transformou a minha vida também, porque eu era advogada de empresa de infraestrutura pública, então eu era mais dura. Eu lembro que um querido responsável pela comunicação falou comigo: "Você precisaria mudar inclusive seu vestuário, porque eu trabalhava de terninho assim, sabe? E aí eu falei: "Ah, não, imagina isso, não importa". Mas o que mudou a minha vida foi quando eu atendi duas mães, foi uma das primeiras reuniões. Elas elas eram mães de crianças com síndrome de Dal. Uhum. Elas entraram na minha sala com as crianças que eu já achei, sabe aquela coisa morrendo de medo assim? Aí eu já falei: "Meu Deus, que como que criança entra em reunião, né, pensando assim e com aquela cara de de paisagem que você aprende. E aí elas começaram a brincar, a gente começou a falar e eu peguei, abri o notebook que até então eu eu respondia projeto de estruturação, sei lá, de aeroporto, de rodovias, eu coloquei Galinha Pintadinha. Ai, até emociona hoje assim. Aí eu tive esse insight de colocar a galinha pintadinha para elas e quando eu fiz isso Uhum. Eu falei: "Mas o meu público são elas?" Sim. É para essas crianças até arrepi assim que eu vou trabalhar e daí pra frente, com erros e acertos e eu fui outra pessoa. Você atuou para mudanças em Campinas? E Campinas também fez mudanças dentro de você, né? O que foi recebeu título de cidadã campineira para você? O que isso significou para você? Significou muita honra, muito reconhecimento, muita felicidade. Lembro que quando eu mudei para cá em 92, a gente sempre teve muita dificuldade financeira. Eh, criança com deficiência traz muito mais gasto pra família. Eh, às vezes impede que a mãe trabalhe, que um dos dos genitores trabalhem. Então assim, sempre são geralmente eh a deficiência de um filho, ele traz um revés econômico e a gente sempre lutou com isso. E eu lembro que eu passava na frente do prédio ali da PUC Central e eu sonhava em fazer direito ali, né? E eu falava: "Nossa, isso foi a minha vida em Campinas". Eu ia pro campo Zoom da PUC, fazer educação física, aprender a dançar, eh, que tinha coisas para deficiências, né? Eu ia pro bosque do Jectibá, que teve um curso maravilhoso que eu podia até passar a mão numa onça dormindo, né? Mas que aqueles animais empalhados eram disponibilizados pra gente conhecer de verdade, porque pessoa cega não conhece, né? Uhum. Então, Campinas me acolheu de uma maneira eh eh que assim foi toda a minha história. Eu fui adolescente, eu realizei sonhos, eu tive frustrações, eu tive primeiros amores, eu tive decepções, eu tive conhecer o meu amor aqui. Eh, então assim, Campinas para mim é isso, é é uma cidade que que é minha, né? E quando Campinas disse para mim que eu também seria dela Uhum. Eh, foi muita emoção mesmo, assim, foi lindo. E falando sobre seus projetos na secretaria, eh, um deles trata sobre autonomia, que foi colocar braile nas contas de água da cidade da SANASA. Eh, eu queria que você falasse um pouco sobre a importância da autonomia para pessoas com deficiência, mobilidade reduzida no dia a dia mesmo. Isso é vital, né, gente? Não tem vida sem autonomia, né? Para mim, a definição de vida é você poder ir e vir e ter acesso às informações que são particulares sua, eh, de forma sozinha, né, autônoma mesmo assim. Então, por exemplo, a conta da SANASA, a gente teve acessibilidade nos postos de saúde, a gente fez o índice municipal de acessibilidade, que era para ver e como que estão as obras em termos de acessibilidade na cidade. A gente tava trabalhando com projetos de calçadas para que as cadeiras de roda pudessem passar e onde passa uma cadeira de roda, passa uma senhora idosa e passa uma mulher grávida e um carrinho de neném para passear, né? Então, não é só promobilidade reduzida. A autonomia ela é não existe vida, não existe ser humano, não existe dignidade humana se não tiver autonomia. E hoje o que eu vejo no país, é bom poder responder essa pergunta, é que hoje a gente tem muita acessibilidade que finge que dá autonomia. Outro dia eu fui numa peça de teatro, não, aqui, e apresentou assim: "Ah, essa peça contou com acessibilidade e para mim que não enxergo a acessibilidade de um teatro é a audiodescrição, é de escrever a cena, né?" Aí ele chegou para mim e falou assim: "Eu tenho programa em Braile no final da peça". Aí eu falei: "Mas e as cenas? Que que me importa o programa? Entende da peça?" Nada. Se eu não posso ver a cena que eu poderia ver com a áudio, descrição, eu fui numa exposição que tinha lá o mapa em braile, né? Mapa tátil assim, mas a exposição toda era visual, gente. Era era audio e vídeo, era de superherói, tudo em tela e não tinha audiodescrição. Então é uma acessibilidade de faz de conta que não me dá autonomia. Acho que isso que a gente, assim, a gente lutou na secretaria para que a autonomia fosse eh do começo ao fim da vida da pessoa, né, de todas as pessoas, porque onde eh uma pessoa com deficiência cabe inteira, eh qualquer pessoa cabe inteira, né, porque onde o o que o déficit visual, físico, auditivo, sensorial, intelectual, onde esse déficit é acolhido e cabe inteiro qualquer outra pessoa. Pode ser uma pessoa, né? Sim. Eh, e Manuele, pra gente finalizar, eh, muitas pessoas com deficiência elas crescem ouvindo desde criança que não vão conseguir ou que aquilo não é para elas. E acho que sua trajetória mostra que isso não é verdade. Eu queria que você passasse uma mensagem para essas pessoas, que elas podem, que elas conseguem também. Olha, a vida vai ser um pouco mais difícil para você do que é para quem não tem eh deficiência. Mas eu acho que eu fui sonhada. Eu fui sonhada como uma pessoa que poderia ocupar qualquer lugar que eu quisesse. Eu acho que a maior mensagem é pra pessoa com deficiência é: sonhe. Sonhe. Não, não ouça os nos. Só em que você pode ocupar o lugar que você quer ocupar, seja ele qual for. Paraas mães com filhos com deficiência, sonhe. Sonhe os seus filhos. Sonhe eles. Não deixa de sonhar. Não acredite nesses nãos. Vai ser mais difícil sim. Às vezes a gente não vai conseguir, sim. Mas ninguém tem a vida que planejou inteirinha, né? Então, se a gente conseguir, se a gente sonhar, se a gente, a gente consegue andar muito mais do que o mundo espera ou às vezes permite que a gente ande, não acredite e lute pra gente ser uma pessoa. Mano mais uma vez obrigada por nos receber e por contar a sua história. Espero que sua mensagem chegue para quem realmente precisa ouvir. E esse foi mais um Histórias de Vida e até a próxima.