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[música] [música] [música] Hoje o Histórias de vida começa com um dado triste, mas que precisa ser dito. No Brasil, cerca de quatro mulheres são assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres, segundo o mapa nacional da violência de gênero. Em muitos casos, os agressores são pessoas próximas ou alguém que dizia amar a vítima. No Histórias de Vida de Hoje, vamos ouvir uma dessas histórias, [música] mas ela não se resume apenas à violência. Ela fala também de amor, de memória e de um pai que transformou a dor de perder uma filha em luta por justiça. Seu Delfino José Ribeiro é pai da jovem Thaís Fernanda Ribeiro, que teve a vida interrompida por um feminicídio em [música] 2019. E desde então ele tem lutado para que outras mulheres não se tornem apenas números nas estatísticas. Queria que o senhor começasse falando para mim um pouco sobre quem era a Thaís, como o senhor, como pai gosta de se lembrar [música] dela. A Thaí era uma menina na flor da idade, né? Com 21 anos, começando a pensar no futuro, estudar, tava trabalhando uma menina bonita, sabe? Não por ser pai, [música] mas quem vê a foto da Thaí vê uma menina bonita, uma menina corajosa, uma menina criada para enfrentar o mundo de hoje. Jamais esperava que acontecesse tudo isso, mas sempre criei [música] a minha filha para que enfrentasse um mundo violento que a gente vive, um mundo de mulheres fortes. E e a Thaí era uma mulher forte, uma mulher corajosa, uma mulher que queria vencer. Mas no meio do caminho encontrou o empecílio, né? Ela era um pouco fechada, ela sorria pouco, poucos amigos e mas vivia uma vida como todo jovem, trabalhava, estudava eh e caseira, muito caseira. Eh, o que eu mais lembro da Thaíse era que ela gostava de esconder chocolate. Ela adorava doces e chocolate. No quarto dela, cada canto tinha um. E e o cabelo da Thaíse, que eu usava como peruca, aos domingos à tarde no sofá da sala, vendo eh o final do programa do Faustão, as pegadinhas lá, né? Gente, ria. Eu ria muito e ela não ria. Ela chamava eu de bobo e fala: "Rapaz, não tem graça, que que o senhor tá rindo?" Aí eu ria para ela rir e era difícil tirar um riso [música] da Thaís. Mas a Thaís era feliz. Ah, tá. Eí, na verdade nós éramos uma família feliz, muito feliz, porque nós tínhamos tudo que uma família de periveria tinha tudo. Nós tínhamos pais e coragem de vencer e vontade para tá sempre melhor, né? Mas hoje estamos aí na lembrança da Thaíse, das coisas boas que ela fazia pra gente. Cuidava muito bem da mãe. Nas folgas dela, ela fazia a unha da mãe, cuidava do cabelo da mãe. Ela comprava algumas golosemas e trazia pra mãe, o pai e queria estar sempre do nosso lado, né? Ela amava ficar com a gente. Eh, hoje eu penso, será que ela sabia que um dia ela ia partir tão cedo? Mas são consequências da vida, né? A gente acredita que e hoje a gente sabe que Deus nos presenteou a Thaí por 21 anos para que a gente pudesse no futuro salvar outras mulheres, né? E é o que eu faço hoje. E agradeço a Deus por ter presenteado minha filha por 21 anos comigo e mostrar para mim que a Thaí veio não para viver nesse mundo [música] sim, mas para salvar vidas, para abrir o olho da sociedade campineira, abrir o olho da de todo o mundo, né, que tem que lutar, tem que fazer [música] alguma coisa. que nós vivemos num mundo machista, onde os homens são donos. Eh, a mulher não é um carro que você vai numa numa empresa e compra e é seu. A mulher é um ser humano. A mulher tem direito de querer, de saber, de ir, de buscar, fazer. E hoje as mulheres estão empoderadas. E seu Delfino, a gente tá aqui na [música] praça, quem tá assistindo pode até estar ouvindo algum barulho de carros passando, que a gente tá aqui na praça onde o seu Delfino transformou e leva o nome da Thaí. Como o senhor, de onde o senhor tirou forças para transformar a sua dor em luta social? Olha, eu falo que a força é divina. Eh, não adianta você falar, eu vejo hoje, com todo respeito, as pessoas, né, que às vezes fala: "Ah, mas ele é ele, eu sou". Não. Eh, muitas vezes a gente cai numa decadência por falta de tudo e principalmente numa violência. Você perder uma filha assassinada, tudo que você tem hoje, você luta é por uma família, é por um filho. Eu sempre falo, eh, a família é essência da vida. Tudo hoje é família. E você perdeu uma filha assassinada do modo que foi a Thaís, você se vê no fundo do poço, num buraco profundo, sem fim. Mas chegou um dia que tocou no meu ouvido. Eu falo que é o Espírito Santo falou que eu não podia ficar calado, que eu tinha que gritar e eu não sabia como gritar, porque não é um grito de sair fazendo barulho na rua. E conversando com uma pessoa nas minhas insônias, apareceu, ela me deu uma luz, vamos plantar flores. E eu nunca fui de gostar de flores. Eu nunca tinha algumas flores em casa, mas como toda a casa tem. Aí surgiu de pedir pros amigos da da Soceasa que do algumas flores pra gente na floricultura de Seasa. E eles doaram. e começamos plantar algumas. Eu jamais imaginava que depois de 6 anos era uma imensidão de plantas e flores no espaço público e era abandonado antes, que você olha de um lado, olha de outro, só tem mato. E eu fui devagarinho plantando uma aqui, uma ali e transformou em tudo isso. E é um modo de luta. Eh, esse jardim não foi construído para Taís, como o pessoal disse. Esse esse jardim foi um meio de sobrevivência, onde eu me encontrei. Plantei uma, plantei duas, quando fui ver já tinha plantado 1000. Fora que tem outros jardins por aí que eu levo plantas e flores [música] para as pessoas e ajudo cuidar, eles cuidam por mim e transformou em tudo isso, que é um meio de luta, onde eu me vi perdido no meio de uma causa que eu jamais posso recuar. Eu tenho que sempre seguir. E onde eu me curei da depressão, busquei força para sobreviver. e onde eu [música] conheci pessoas que podia se somar a mim com a mesma dor e buscar ajuda para que outras pessoas pudessem sobreviver, entendeu? E que outras pessoas possam ter vidas. Pensa que não é um simples jardim ou é isso aqui é movimentado na hora do almoço é pessoas para lá e para cá, pessoas sentam, [música] almoçam, pessoas vêm visitar, crianças vem no balanço. É, tem um caminho ali, depois se [música] vocês puderem mostrar, tá meio fechado porque tem um tempinho que eu não venho, mas as pessoas transitam por ali. Eh, e muitas vezes eu pergunto para eles o que eles estão fazendo, indo e voltando. Eles não estão só admirando, mas sim buscando [música] força para realizar algo que ele precisa dentro dele. E aqui é um espaço de reflexão, um espaço de luta, um espaço onde você recarrega suas energias pro seu dia a dia. Eh, senhor já falou um pouco sobre a semana do combate ao feminicídio em Campinas, que foi uma conquista da a partir da sua luta. É claro que uma semana, como o senhor citou, [música] não é o suficiente, mas eu queria que o senhor falasse um pouco sobre essa conquista. Olha, é difícil [música] você conquistar algo numa cidade do tamanho de Campinas, né? Mas essa conquista da semana de combate ao feminicídio surgiu no 18 de maio, no mesmo ano 2019, dias após a Thaí ter sido assassinada, que ela foi assassinada dia 10. E no 19 de maio é um dia de que a gente tem uma caminhada aqui na nossa região de contra violência da dos criantes e adolescentes junto às ONGs da nossa região, [música] que hoje são parceiras do meu trabalho, parceira da nossa luta. E tudo isso eu vendo minha família chorando, minha esposa, minha filha, pessoas, amigos, uma multidão caminhando e chorando e refletindo, estavam o vereador, o padre, algumas outras pessoas, autoridades, pessoas influentes na nossa região, né, que até então eu tinha pouco conhecimento com eles. Eu pedi para que se não tinha como fazer algo, uma lei, alguma [música] coisa para lutar, para que as mulheres não morressem mais, que não pode matar mulheres, é uma coisa de forte, de dor, de coisa. E surgiu a semana precisa, né? Não só uma semana, como todos os dias. E por mais que tenha luta na cidade, por mais que tenha trabalhos na cidade e combate à violência, [música] falta muito. Uhum. Muito. É, o senhor também citou que criaram [música] um centro educacional aqui no bairro que leva o nome da sua filha, que é mais uma conquista. Sim, tem o o céu na Vila Esperança, [música] um local que é abandonado, era abandonado, hoje tá mais movimentadinho, mas ainda continua abandonado. Eh, pediram para que se podiam colocar o nome da Thaís no espaço, [música] né, em homenagem a Thaís, à família, em homenagem às mulheres, né? Na verdade, não é só a Thaí o nome, mas é em homenagem às vítimas de feminicídio. Eh, nós relutamos um pouquinho porque é um local abandonado, um local que não tinha vida. Hoje se tem vida, né? Um pouco, melhorou um pouco mais. e aceitamos. Colocou o nome da Thaís. Só falta uma placa de identificação, que até hoje eu peço não tem uma placa de identificação com nome, só tem uma lá dentro, porque foi quando a Secretaria da Educação inaugurou uma sala e tem uma plaquinha [música] pequenininha, precisa uma placa com o nome do céu grande lá em cima para que as pessoas venham visitar e vejam que eles cobram a gente até hoje. E é uma conquista, né? Quer dizer, a Thaí não morreu. Eu falo para todo mundo, a Thaís não morreu enquanto eu tiver vivo, a Thaís não vai morrer nunca. A Thaí está em muitos corações. A Thaí vive em muitas mulheres. A Thaís vive por todos os lados da nossa cidade, por muitos locais. Eh, tem uma história bonita de desde que a Taí foi assassinada até hoje de em vários locais. Em outros países tem jardim da Thaís, que alguém levou planta [música] daqui e tem um jardim lá e tem a plaquinha, sabe? Eu acho que a nossa conquista não é só aqui nesse espaço que era abandonado no meio canteiro, no meio do da avenida, mas assim é uma conquista grande, uma [música] conquista de vida, de luta, de alegria, entendeu? Certo, [música] seu Delfino, pra gente finalizar, eh, com todas essas conquistas que a gente já citou, qual é o próximo passo para essa luta que o senhor batalha todos os dias e também qual o legado que o senhor acredita que o nome da sua filha vai deixar não [música] só em Campinas, mas no Brasil todo com essa luta contra o feminicídio? Olha, a única conquista que eu penso e quero é um espaço para que eu possa trabalhar com crianças, adolescentes, [música] um espaço nosso que seja nosso, que eu tenho alguns espaços que a gente já usa, né, para trabalhar [música] com crianças, mas é espaços cedidos. Eu penso em conquistar um espaço nosso, que seja nosso, para que nós possamos dar o nome lá da Thaí, das vítimas de femminicídio, [música] para que a gente possa lutar aqui hoje. A gente tudo o nosso é feito aqui embaixo dessa árvore grande. [música] Toda a nossa luta, toda a nossa conquista é feito aqui. da Thaí, ela deixou em vida uma história de uma menina simples, humilde, batalhadora, que queria vencer, queria ser, ela queria ser advogada, mas não para bem, para ganhar dinheiro paraa sobrevivência dela, mas sim para cuidar das mulheres que sofria vítima de violência. E ela pretendia isso. E hoje com toda essa luta, nós temos algumas mulheres que tá sempre pronta para nos ajudar, entendeu? De várias profissões, eh, como psicóloga, quando eu preciso para alguma [música] vítima, eu ligo, elas estão sempre prontas para ajudar. advogadas, eu não preciso nem sempre estar na dependência do poder público. A gente vai criando um vínculo, sabe, com as pessoas, um laço onde você através da sua história, através do seu trabalho, as pessoas vão [música] se achegando, vão se agrupando, vão se ajuntando e vão se ajudando, entendeu? Seu Delfino, muito obrigada por nos receber, por contar a sua história da sua filha. Sim, estamos aí na luta, né? sempre pronto para trabalhar em prol do próximo. [música] [música] [música] [música] [música]