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Olá, [música] sejam muito bem-vindos ao quadro Saúde Agora. Hoje vamos falar sobre a Superbactéria KC, um assunto que ganhou repercussão após a identificação de pacientes internados na UTI adulto do Hospital Mario Gat bactéria multiirresistente. Convidamos o Dr. Carlos Magno Castelo Branco, Fortaleza, médico infectologista, professor titular da UNESP e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia. Seja muito bem-vindo, Dr. Carlos. Bom dia. Bom dia a todos. Bom, Dr. Carlos, diante desses casos, né, aqui em Campinas, no Hospital Dr. Mário Gate e também no Hospital Municipal de Americana, né, que foram registrados casos aí nos pacientes internados. Então, pra gente esclarecer o que de fato eh significa, né, essa sigla KPC é uma bactéria, é uma enzima. Queria que o senhor explicasse pra gente, por favor. Então, a a essa sigla ela representa um ela quer dizer clebsiela, produtora de carpapenemas. O que que significa? É um tipo de bactéria que originalmente existe no nosso intestino, mas ela se modificou geneticamente e ganhou a possibilidade de produzir uma enzima que destrói vários antibióticos, inclusive desses novos antibióticos mais eh sofisticados usados em hospital. Então, por essa razão, sobram muito poucas opções para tratar as infecções por essas bactérias. quando elas se disseminam no hospital, a chance de que as pessoas venham a ter desfechos ruins de infecção hospitalar aumenta. E eh no caso, então, o uso excessivo de antibióticos pode eh ser maior risco, assim, ter maior gravidade para essa infecção. Na verdade, o uso excessivo de antibióticos, ele age no nosso corpo destruindo bactérias boas. Por exemplo, a clebsiela, essa bactéria que é a letra K. né, que determina a letra K da sigla. Ela é uma bactéria que já existe no nosso intestino. Ela faz parte do que a gente chama a flora boa intestinal quando ela está eh em sua situação normal. Ocorre que essa bactéria, à medida que a gente vai usando antibióticos ao longo da vida, nós vamos eliminando as bactérias que são sensíveis a antibióticos, vão sobrando aquelas que são resistentes. Elas ficam ali morando o nosso intestino, mas a partir de lá elas podem, por exemplo, causar uma infecção urinária. Uma pessoa que faz uma cirurgia, uma infecção cirúrgica. E pior, quando uma pessoa no hospital tem uma infecção por essa bactéria, ela pode se transmitir de uma pessoa a outra pessoa através das mãos dos profissionais de saúde que estão fazendo o cuidado. Então, no caso, a gente vai falar sobre essa questão da transmissão mesmo, Dr. Carlos. ela acomete principalmente pacientes que estão internados, né, no caso, porque ela surge principalmente nas unidades hospitalares. Então, como que se deve a essa prevenção dentro do hospitais, né, no caso aqui do Hospital Dr. Mário Gate, a área precisou ser isolada, né, precisou eh fechar por tempo eh por eh temporariamente, né, no caso, esse setor da UTI. Então é delicada essa situação, né? Sim. Eh, primeiro lugar, eu tenho que te declarar que eu conheço bem essa o hospital Mario Gade. Eu fui nos começos dos anos 2000 o responsável pelo controle de infecção hospitalar no hospital Mario Gate, né? Então, é um hospital que de atendimento de urgência e emergência. Então, nós temos uma série de pacientes muito graves nesse hospital. Então, não só o uso de antibiótico, mas a gravidade faz com que eles tenham facilidade de adquirir bactérias hospitalares. Eles são o que nós chamamos de pacientes invadidos. Eles têm procedimentos cirúrgicos, muitos deles estão respirando por aparelhos. Eles estão com sondas para poder coletar urina, com catéteres para dar medicação dentro de veias, né, calibrosas. Então, essas todas são portas de entrada para essas bactérias. Então, uma vez que você tem uma bactéria, ela vive ali no intestino, mas ela passa a contaminar, por exemplo, a pele do paciente, passa a contaminar o leito do paciente, as superfícies, não é? Você tem o cuidado por profissionais de saúde que inadvertidamente levam essa bactéria em suas mãos para outras pessoas, pro profissional de saúde que é saudável, isso não é problema nenhum. Depois ele volta a ter bactérias eh comuns, né, que substituem essa bactéria resistente. Mas para aquela pessoa tá internada com muitos procedimentos invasivos, que tá com uma doença grave, não é, e que tá usando antibióticos que matam as bactérias mais eh suscetíveis, digamos, mais mansinhas e fazem que essas bactérias aumentem. Então isso é é uma combinação muito ruim, é uma combinação letal de fato. Dr. Carlos, como que é feita então essa avaliação nesse diagnóstico? O paciente ele apresenta alguns sinais, alguns sintomas diferentes, né? Já que ele está acamado, está já com a imunidade baixa. Como que é feita essa avaliação para detectar, ter o diagnóstico, né? Então, a doença, não é? Que a gente chama infecção, por exemplo, cirúrgica ou a pneumonia. ou a infecção urinária, que são as principais, né, ou o que a gente chama de infecção de corrente sanguínea, quando a bactéria cai direto no sangue a partir, né, de um catéter numa veia calibrosa. Isso eh ele não, esse tipo de quadro não é diferente clinicamente com as bactérias que causam. Pode ser uma bactéria mais fácil de tratar, uma bactéria mais difícil de tratar. A gente identifica a KPC através de culturas, né, meios de cultura. Ou seja, você manda o material que pode ser a urina, o sangue, o puso de uma ferida, uma secreção respiratória para o laboratório. E no laboratório essa bactéria, ela vai crescer no meio de cultura e ela vai ser testada para ver se ela responde ou não aos antibióticos, né? Esse teste de suscetibilidade aos antibióticos que vai determinar que se trata de um KPC. Outra possibilidade é fazer um teste molecular, identificar na bactéria, na genética da bactéria, no DNA da bactéria, se tem os genes que fazem a produção dessa enzima que vai destruir a maior parte dos antibióticos usados na prática clínica. E no caso do tratamento, então, já que, né, não existe um tratamento assim específico, como que é feito então essa eliminação desse dessa bactéria, dessa enzima no paciente? Dr. Carlos, não, de fato, existe um tratamento específico, né, que os antibióticos eles são ou muito caros, né, ou são antibióticos que tm o que nós chamamos de uma baixa potência, ou seja, eles matam muito devagar a bactéria. Então, nós temos um antibióticos antigos de uma classe chamada polimiixinas. O problema das polimiixinas é que elas matam a bactéria muito devagar. Então, é uma corrida entre o antibiótico matar a bactéria e a bactéria causar a morte do paciente, além de serem esses antibióticos muito tóxicos. Nós temos um antibiótico novo chamado seas deima avibactan. É um antibiótico de altíssimo custo, não é? Mas ele tem é um antibiótico e chamado seftidina, que não é um antibiótico tão novo, mas ele é vem junto essa outra substância chamada avctã que inibe a enzima. Então, inibida a enzima, a bactéria não consegue destruir o antibiótico. Então, nós temos felizmente essa opção, mas essa opção pros hospitais públicos brasileiros tem sido muito restrita devido ao alto custo do antimicrobiano. É uma situação, é um cenário preocupante então essa essa questão dessa, eh, dessa transmissão nos hospitais, né, principalmente para esses pacientes que já estão, né, com essa imunidade baixa, quais são os riscos, né, se não tratada adequadamente? Veja, a as KPCs, né, e outras bactérias parentes dela multiresistentes, elas são também bastante virulentas, ou seja, elas causam doença grave e morte. Mas o que eu queria chamar atenção é que você mostrou eh que não é no único hospital, não é só no Hospital Mario Gático, nós temos essa, não é essa essa esse surto, digamos, essa epidemia, não é, da KPC, mas em hospitais próximos. E esse é um grande problema, porque a KPC ela acaba substituindo no intestino da pessoa acometida aquela bactéria parente dela, a clebsiela, que era, digamos assim, boazinha, fácil de tratar. E ela vai muitas vezes pro resto da vida ali no intestino daquela pessoa. A partir das reinternações ou da transferência de um hospital pro outro, você começa a ter surtos em hospitais próximos. Isso é bastante demonstrado. Começa a deixar de ser um problema de um hospital e passa a ser um problema regional. Daqui a pouco você tem no hospital das clínicas da Unicamp, daqui a pouco você tem, né, no no nos diversos hospitais daí da região de Campinas. E como que então eh estão sendo realizados esses protocolos, né? Quais são as medidas adotadas para essa prevenção? Justamente para não ter essa disseminação, né, de um hospital para outro em clínicas também? Dr. Carlos, eh, pelo que eu li e acompanhei, né, nos jornais, o Hospital Mário Gat fechou a UTI para novas internações. Essa é uma medida extrema, não é, que se faz para que você consiga evitar que novos pacientes entrem na UTI e novos pacientes se infectem com a KPC. Então, esse é o primeiro, uma primeira razão. Segundo, ampliar as medidas de controle, controle com a partir de higiene das mãos, que tem que ser eh mais intensificada, não é? para que as mãos do profissional não sejam vetores de transmissão, né? Não funcionem como assim por assim dizer o eds egipt da KC, né? E assim, eh, outras medidas são medidas, por exemplo, de controle ambiental. Ela, as cabeceiras elas têm reservatórias, mas quando falamos de entes não estão falando de parede, de teto, de solo, estamos falando daquelas chamadas superfícies de alto toque, a cama do paciente, a ali onde aquele eh suporte onde fica o soro, aquele criado mudo que fica ao lado da cama do do leito do paciente, né? e também as medidas gerais de prevenção de infecção talada. Então existe uma série de medidas para evitar pneumonias, evitar infecções cirúrgicas, evitar infecções urinárias. Com essas medidas em conjunto nós conseguimos, em geral fazer com que esse surto ele chegue ao seu fim, tá certo? Então, Dr. Carlos, muito obrigada pela sua participação. Então, não há motivos assim para tanta preocupação. Existe a prevenção e já está controlado, digamos assim. Veja, eh, essa é uma bactéria que ela tem muita dificuldade de se expandir para fora do hospital, né? para que ela cause eh eh todos esses quadros, eles precisam de um paciente debilitado, do uso de antibióticos que normalmente você não tem fora do hospital, né, de uma condição de transmissão, pessoa está no leito, sendo tocado por um profissional que vai tocar em vários pacientes, é uma condição que é muito específica de hospitais e principalmente de unidades de terapia intensiva. Então não é uma situação paraa população em geral, né, entrar em pânico. E eu conheço a estrutura do Hospital Mario Gate e as equipes são bastante eh experientes. Eu estou certo de que as medidas estão todas eh já sendo bastante aplicadas e que é uma questão de tempo que esse surto seja controlado, tá certo? Então, Dr. Carlos, muito obrigada por participar aqui do quadro saúde agora, compartilhar todo o seu conhecimento, né, e trazer informações aí científicas sobre essa enzima, essa bactéria superresistente KC, que tem acendido aí esse alerta entre as autoridades. Muito obrigada. Por nada. Bom dia. Bom, quadro saúde agora fica por aqui. Você continua acompanhando a programação da TV Câmara Campinas. Até a próxima edição. Tchau.