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Olá, está no ar o ponto de vista. Hoje nós vamos discutir como as pessoas negras são retratadas na mídia cultural e novelas, filmes, séries. É para refletir, né, sobre o que é representatividade e o que ainda cai no estereótipo. Comigo o ator Daniel Almeida, que até assim eu vou fazer um adendo, você pode pensar: "Ainda estou aqui em Tremembé". Já é uma dica para você se familiarizar. Ele é curador também do festival de cinema negro, o sin negro, realizado aqui em Campinas e é um dos nomes que tem se destacado aí e deve propor um certo protagonismo negro nas celas, não é isso, Dani? Olá, né? Primeiro queria agradecer o convite aqui. É, eu acho que essa nossa tentativa e mais do que tentativa eh resistência e resiliência, né, de contar nossas histórias, né? Uhum. Então eu acho que é é esse o lugar e para mim é é um prazer estar aqui nessa casa, porque eu gosto muito dessa de estar aonde é a casa do povo, né? Então estar na casa do povo é conversar com o povo também. Então o meu trabalho é esse, né? E e para mim a as telas não se diferencia disso. É essa conversa com o povo. O que que que vamos dialogar? Parece que eu penso que não é apenas entretenimento. O trabalhador precisa de entretenimento. Lógico precisa. Porque no entretenimento você tem a pausa para reflexão também, mas esse entretenimento tem uma conversa enquanto sociedade, enquanto pensar o nosso país, enquanto pensar o nosso planeta em si, né? Então, eh, para mim é muito rico estar falando sobre isso aqui hoje com vocês. E como você disse, né, por estarmos aqui na casa do povo, os nossos vereadores sempre comentam isso. No programa anterior, eu recebi o Vittor Oliveira da Alma Preta e ele trouxe um dado muito relevante. Ele falou: "Carla, nós somos 56%. Então assim, é a maioria que precisa ser ouvida. Sim, sim. É uma voz que precisa ser ouvida. E quando é retratado assim no filme, na novela, é importante você falar sobre o seu lugar, né? Nós estávamos aqui conversando sobre quando os filmes eh vão pras telas e é retratado muitas vezes por alguém que não vive na periferia, que não vive na comunidade. É completamente diferente do que você viver. Você está ali enraizado, né, Daniel? Sim, sim. É, é, é a mesma coisa. Não que eu não possa, por exemplo, eu como homem, eh, fazer um filme sobre a alma feminina feminina, mas nunca vai ser como a a uma mulher, o olhar dela, entende? Então, eu acho assim, examente, eh, veja, não é uma questão assim, ah, um diretor branco, uma diretora branca não vai mais poder contar histórias da pretitude, não é isso? é a questão que a gente precisa contar nossas histórias também para que a gente tenha eh para que você tenha opção e escolha, inclusive falar: "Opa, pera aí, estou ouvindo de quem realmente vive aquilo, aonde está aquilo". Eh, e eu penso que até que esse dado de 56%, eu acho que até maior porque a gente tem um senso, mas a gente tem uns incões desse país e muitas vezes a gente não enumera isso. Então, eh, a nossa história é pautada nisso, né? Se você contar dos paus originários ao povo preto, tudo, você vai ter muito mais essa população em si, né? E quando você tem essa essa oportunidade eh do própria pessoa que vive naquela comunidade, da própria pessoa que vive aquela história, poder contar isso da forma poética, que eu sempre falo para meus alunos, né, que eu sou educador social do aula de cinema, eh, a câmera ela só um equipamento, ela tá ali, ela não tem vida, ela vai ter vida a partir do seu olhar. Aonde você virar, ela vai te dizer uma coisa, entende? E aí muitas vezes esse pacto que a branquitude tem, ele já vem eh ele já vem buído já dessa história do povo brasileiro, entende? E muitas vezes é uma coisa que não é racional, mas já tá já tá embuído até na própria colonização mental das pessoas. Dentro do povo preto acontece isso. Você está tão colonizado que você fala: "Nossa, mas eh, mas eu batalhei, eu consegui". Uma pessoa preta falava: "Qualquer um?" Não, não é bem assim, mas isso já é um pensamento colonizador, né? que a gente tem que afastar disso. Como é que é a a como é que funciona isso? Através a arte. Eu acho muito importante todas elas, a gente tá falando do cinema aqui, mas todas elas, quando uma criança vai ao teatro, uma criança preta senta e começa a se ver representado de uma outra forma que não seja a babá, a bruxa, a empregada em geral ali ou o bandido, ela vai vendo as possibilidades pro futuro dela e a criança branca que tá do lado dela vai vendo, opa, a pessoa preta não precisa ser só minha babar, entende como é que é uma cadeia disso? E o cinema é essa representação também. Então, quando você conta a sua história, quando você tem esse poder, que para mim a câmera é uma arma poderosa para onde você aponta, ela pode dizer várias coisas. Se você tem um plano fechado, você diz uma coisa, tem um plano aberto, é outro, entende? Então, essas escolhas também tá dizendo sobre aquela pessoa que tá contando isso. Muitas vezes eu posso ir numa comunidade, eh, eu lembro muito de um de um trabalho que eu fiz em Varsia Paulista e um que eu fiz aqui no Satélite Iris, né, em Campinas com a Criançada. E aí o nosso filme foi para alguns festivais e falaram muito do som e alguém comentou: "Nossa, mas tinha que ter uma tinha muito barulho". Eu falei: "Aí eu falei: "Não, desculpa, não é barulho, é o som daquela comunidade e ele é um personagem." Porque assim, só quem vive ali sabe que aquele carro do ovo que passa ali é diferente do carro do ovo da outra comunidade. E isso é a identidade, entendeu, do lugar. Então, só quem está nesse lugar que sabe e essas delicadezas, o quanto é importante. Então, eh, aí mais uma vez o que eu defendo muito, que a gente fala muito dentro do da semana que tá tendo o cin negro, mas diretamente quando eu converso com meus alunos, tô sempre debatendo, eh, pensar esse lugar do cinema também, porque ainda ainda a o cinema é uma ferramenta elitista. É, eh, porque ainda o teatro, você na sua casa, você pega um pano, faz pra tua família, vai no meio da rua. O cinema para primeiro lugar para você filmar mesmo você sozinho, você precisa de uma câmera. É. Aí depois você precisa de um iluminador, você precisa de Então é uma coisa cara, não é barato isso, né? E aí começa a ser acessado por um por uma burguesia e durante muito tempo eh a burguesia que digita o que é cultura e não é, entendeu? Assim, e isso é é a longo prazo, é complexo isso, a mudança. E se a gente começa a ter esses recursos próximos, aí a importância das políticas públicas para isso acontecer. editais, fomentos. Eu sou uma pessoa que sou desse lugar, né? Vim de cursos livres, né? Eh, batalhando. Eu sempre falei assim, né? Eh, eu sempre tive vontade de estar na Unicamp, mas eu sempre fui réplica lá de outros colegas para para entrar para fazer artes cênicas, porque eu tinha que sobreviver, a chapa quente, o dinheiro tinha que entrar e não tinha como ficar o dia inteiro estudando ali em si. Então, eh, e o cinema para mim ele tá muito nesse lugar. Eu sempre, eu, eu tenho uma analogia que eu faço, a tela branca, ela não tem cor, ela é branca. Eu falei, a nossa cor precisa iluminar esse lugar. Uhum. Entende? E aí, como é que eu ilumino isso? E veja só, e eu não tô aqui fazendo eh não vou dizer as comunidades é mil, não é? Tem violência, lógico que tem. Claro, tem tem questões complexas, muito complexa, mas a gente tem que pensar da onde vem essa violência, da onde se gera essa violência, né? O Racionais teve uma questão na vida deles que eles pensam foram isso, um boom sempre naquela coisa de mostrar a violência e e bater contra o sistema mesmo. Mas aquilo começou a entrar uma energia nas pessoas. Eu lembro muito quando eu assisti o documentário maravilhoso e o Manobral falou: "Aí eu opa, pera aí. Quando de repente num show alguém morre e joga no meio corpo". Aí ele fala: "Pera aí, eu tenho que repensar a minha comunidade". Sim, eu vou mostrar tudo isso. Mas lá também dentro dessa violência tem muitos trabalhadores pensando a vida, tem tem muitos empreendedores fazendo os seus trabalhos, entende? Assim, então eu tenho que ver esse lado, né? Porque senão eu fico eu fico valorizando um fetiche que já vem de anos na nossa história. Eu acho que também tem o porquê, né, assim, por que que é desse jeito? Por que que tem essa violência? Sim, sim, sim. Total a nossa história, né? A nossa história, a construção da nossa história enquanto povo é violenta. O pessoal sempre fala, né, que ô Brasil é uma de festa, tudo p não é. Se você pega nossa história, a gente tem muitas guerras aqui já construída nesse nesse país assim, né? Já desde a invasão, né? Que eu não falo do descobrimento da invasão, já foi isso, né? Essa violência. E aí os povos pretos que chegaram aqui já foi de uma maneira violenta, né? Se você for pegar os dois maiores estados do Brasil, é preto, que é Bahia e Rio. Uhum. E aí são estados violentos contra o preto. Tem esse medo, né? Tanto que na época que o Rio era para ser a capital federal mesmo, né? Eh, estavam sendo construídos todos os parlamentos, né, que mas mandaram derrubar aquilo com medo, né, dessa revolta desse preto, o medo desse preto. Então, cada vez mais os curtiços que ficavam na cidade também eram derrubados para as pessoas irem sempre para as periferias, porque esse medo dessa revolta desse negro e isso fica no imaginário das pessoas. Meu Deus, se esse povo é uma parcela gigante, imagina se ele se revoltar contra a gente, sabe essa coisa. E não é, eu acho que o povo preto ele quer esse lugar que todo mundo quer, poder final o trabalhador chegar a fazer o seu churrasquinho com a sua família, poder assistir o filme onde ele vê. Uhum. Olha, a minha filha pode ser uma advogada assim, que legal. Tá na novela da Globo, tá sendo, não tá sendo retratado como um uma pessoa, sabe assim, eh, de uma vida leve, né, que não precisa estar nesse nesse nessa chapa quente direto. Chapa quente tá vivendo ali sempre, né? Então, a importância para mim que eu acho do do cinema é esse lugar, né? É, é muito potente, não é só entretenimento, sabe? Você tem uma relação filosófica reflexiva quando você vê a imagem de um negro ali com arma na mão e a imagem de um negro com um livro na mão, entendeu? Sabe? Exatamente. Daniel, quando a gente fala assim em representatividade negra na mídia, o que exatamente nós estamos falando ou o que nós devemos expressar pro público de casa? Uhum. Eh, representatividade, né? Outro dia eu tava exibindo um filme miss, era até o filme do do Lázaro Ramos, né? E aí teve um rapaz que falou: "Nossa, mas eu acho que mudou bastante, né? Agora p os negros tá bastante publicidade, tá bastante os gases e tudo." Eu falei: "Olha, tem, eu não vou dizer se a gente pegar a construção histórica do nosso país, a construção histórica dessa cidade, né? Uhum. Porque Campinas foi eh é construída e foi construída pelo povo preto e que ela tem umas histórias muito pesadas no seu calaboço histórico, né, nessa questão. Tanto que a gente tá no mês que eh eh se comemora essa questão do 20 de novembro e é importante, né, eh o povo preto ir pras ruas mesmo, tocar os seus tambores, porque o tambor ele tá ele tá num lugar não de instrumento musical, mas de ancestralidade, aquilo há um respeito com aquilo, né? E e a música, eu acho que para quem é músico sabe isso, né? Um instrumento, ele evoca outros lugares do ser humano ali. E o tambor tem isso pra comunidade preta. Então assim, existe um avanço, sim, isso é é negável. Tem esse avanço de a gente estar nos lugares. Eh, roteiristas e roteiristas, homens e mulheres pretas começam a chegar em lugares que a gente não via. Então você já começa a ver uma curvinha diferente, porque opa, tem alguém que está naquele lugar que começa a escrever essa história, não é mais o outro. Uhum. Eu estou escrevendo a minha história. Mas ainda assim é um lugar dominado pelo mercado. Por exemplo, a propaganda. Quando você pensa um negro na propaganda, ainda a propaganda, a publicidade ela pensa um negro muito norte-americanizado, entendeu? nem tão brasileirada. É aquela cara daquele negro norte-americanizado que você vê naqueles filmes, né? Porque o negro brasileiro você tem uma diversidade gigante, você pega daqui a norte, nordeste, tudo é diferente mesmo, né? Então assim, o mercado ele te oferece, fala: "Olha, eu estou aqui, eu estou colocando a minha parcela aqui, né, gente? Eu tô do lado de vocês". Mas não é, eu sempre falo, é, somos nós enquanto é é sociedade, é que consome isso. Então, somos nós que tem que ditar o que eu quero ver e o que eu não quero ver ali, entendeu? Eu sempre falo, a câmera é um objeto parado. Uhum. Né? Alguém vai estar manipulando aquilo e no manipular eu posso fazer o que eu quero. E aí quando eu penso em representatividade assim, eu acho que para além de chegar até a TV e o cinema, que é o que a gente tá falando aqui, tem que começar na educação, escola, né? Saber, realmente, eu sempre falo, é o papo reto, sabe? É saber assim, se eu vou numa escola que eu sou educador e aí eu vou numa biblioteca, eu quero ver a quantidade de livros que tem ali e livros que se falam de representatividade, não aqueles livros de histórias que a gente fala: "Não, gente, a gente já acabou, essa historinha não dá mais, né? Entendeu? Não que fale só sobre a escravidão, né?" É, exatamente. E se falar e se falar que seja o papo reto. É isso que eu falo. Não vem com uma coisa eh sabe com fleumas e tudo não. Isso não dá mais. E pra criança a mesma coisa. Eh, ela precisa chegar ali, tem a Branca de Neve, mas ela precisa ter as histórias representadas dela ali. Não tô falando, ó, não vai ter a Branca de Neve, tem, mas ela precisa, opa, tem uma rainha negra aqui também. Sabe, isso é representatividade, porque desde o pequeno ali da primeira educação, ela já começa a falar: "Não, olha, eu sou capaz de estar em vários lugares nessa sociedade. Essa cidade é minha, esse país é meu." Então já começa daí. E aí de exibição de filmes também pretos, de filmes infantis, tudo isso já é a educação que vai te levando. A formação é importantíssima para quando você chega enquanto jovem ou adolescente, que eu falo que o adolescente ele é, eu trabalho muito com adolescente, ele é uma uma interrogação, porque ele não é nem criança e nem adulto, ele fica no meio, num limbo. Por isso que ele quer se entormar sempre, achar o lugar dele. E é para mim uma das idades mais forte quando vem essa influência da representação. Uhum. né? Aonde ele tá procurando se se conhecer enquanto pessoa na sociedade e na imitação do outro. E quando ele só vê a imagem que não é ele, ele quer mudar. Então é o cabelo superalizado, entendeu? Que esse fenotipo, ele não quer ter, que é o nariz de batata, como falava, toda essa coisa. Ele quer ter aquele estilo. Isso não é só Brasil. Se você pega América Latina, tem muito isso. As meninas, você pega Colômbia, Bolívia, quero ficar tudo com cara de Beyoncé, que é um padrão negro norte-americano. Exatamente. Por isso que ela é bem aceita, porque você for ver outras artistas negras mesmo, não tem todo esse esse é é dela. Então você vê como é que é uma linha complexa, que para mim tá sempre nesse lugar de educação, até chegar, né, nessa fase adulta. E tudo isso você vai passando por um histórico, né? E aí quando a pessoa tá lá, no momento que ela trabalhou o dia inteiro, chega em casa, liga a televisão e aí ela vê o negro, a negra só num lugar de subalterno ou de violento, nossa, que estrago isso faz na vida, né, da pessoa. Daniel, você me fez lembrar de um momento que eu vivi quando eu estava no canal Futura e fui fazer uma matéria em uma escola. Tinha uma criança preta com uma bonequinha, acho que era uma Barbie. As duas estavam vestidas de princesa. Aham. Era, era uma bonequinha preta também. E aí eu falei para ela, falei: "Nossa, que linda, uma princesa como você ali interagindo com a criança". Ela falou assim: "É tia". Só que ela não tem o cabelo crespo Uhum. Sei. Cara, aquilo assim foi muito assim, ela tava incomodada, tipo, a criança percebe também. Então, acho que ali naquele momento ela quis dizer assim: "É, não tá me representando tanto, né?" É, sim, sim. E e eu acho que a maior preocupação nossa e por isso o meu trabalho como educador, eu falo, eu posso estar em qualquer lugar, eh, do Oscar ao Eu falo isso, falo por causa de um filme que eu fiz recente, que inclusive vai est no no festival cinegro, né, que eu sou um vendedor de ovo de uma cidade. Aham. Eh, mas eu quero estar sempre ligado a essa coisa da educação, que para mim me bate muito forte, né? Eh, porque é poderoso isso, né? Quando você fala que você tem o seu cabelo para menino, para menino, isso aqui é uma coroa, não é? É esse lugar. Então, a palavra tem poder. Uhum. Sabe, durante muito tempo a eh esse racismo recreativo euava demais. Não, mas que é isso, gente? Eu falo aquele ali, mas é porque é carinhoso, né? Sabe, sempre essa piada, as pi, tudo isso vai vai induzindo. Pô, a pessoa tem nome, fala pelo nome da pessoa, né? chama pelo nome em si ali. E isso marca na criança mais ainda, porque o adulto tem uma distância que ele acha que o conhecimento maior é o que ele tem, não é? O conhecimento ele vem de várias gerações. A criança tem um conhecimento, o adolescente outro e o adulto outro. E aí a gente vai se formando enquanto sociedade. Eu tenho que respeitar. Se você for pensar eh dentro da cosmovisão, né, africana, né, e urubá, ué, eu, se uma criança tá falando comigo, eu tenho que parar e ouvi-la e respeitar. sendo sabe, ela tem um conhecimento, ela traz o conhecimento dela ali em si, do jeito dela, mas traz, né? E a partir do momento que eu tô ouvindo essa criança, eu tô pensando o futuro, porque é assim, é a mesma coisa, né? A gente pode plantar uma árvore, mas não é pra gente que a gente vai ter a sombra, é para quem vem depois. Uhum. Então eu penso muito nisso, né, que é uma filosofia sancofa mesmo, né? Se eu tô aqui hoje conversando com você, eu devo a muita gente, né, que me permitiu estar aqui. E aí eu estou aqui falando isso para que outros estejam ouvindo, para pensar o nosso futuro, principalmente, né? Porque senão a gente vai repetindo coisas, né? E e eu penso que hoje a a violência ela tá um pouco institucionalizada a partir do momento que o estado se afasta de lugares, né? Eu falo que comunidade é tão importante para mim o cinema tem que ser uma comunidade porque a comunidade é permanência. Se você tem praças e você, a sociedade não permanece a praça, um outro poder vai tomar conta dessa praça. Então, permanência é importante. Então, se eu me vejo nas telas sempre permanentemente, eu tô mudando isso também, entendeu? Então, permanência, isso tem que permanecer. Então, por mais uma vez política pública é isso, para que isso continue, continue, continue, continue e o que eu recebi os outros também recebam, né? E aí nesse começo da criança, quando ela liga a TV e aí ela vê aquela princesa poderosa negra, evoca outras coisas, né, ali nela. E são coisas que vão reverberar muitas vezes lá na frente. Uhum. Né? Então assim, essa é a importância. E aí quando você tem uma roteirista e para lá de roteirista, quando a gente começa a a tomar conta das cadeiras da universidade também você começa a ter um outro pensamento acadêmico, porque é construída ali também a base, né, dessa questão da da educação. Então precisa equalizar isso porque você começa a ter pesquisadores, entendeu? Essa é a importância. Porque se você pega também a nossa história e aí até cinematográfica e eu vou citar Campinas, eu sempre tenho uma interrogação, cadê o cinema preto de Campinas? Não tô nem falando Brasil, né? Se é uma cidade construída pelo nosso povo, cadê esse cinema? Cadê as políticas para trabalhar isso? Ah, Daniel, mas pô, você tá você tá querendo uma cota. Quem sabe que seja uma cota. E para mim as cotas raciais pra universidade para mim foi um grande avanço. É um grande avanço, sim, né? Porque o negro quando ele teve a pseudoliberdade, né, era aquilo, né, dava direito a uma pseudoeducação também ali o Zébio Queiroz, né, ali. Até então largou. E agora o que eu faço? Não tenho a terra, não tenho conhecimento e aí eu começo a fazer o quê? Eu tenho que viver na rua, pedindo naquilo outro. Começou os pequenos furtos e aí eu tenho que viver aonde? Afastado, que é nas periferias, nos morros. E aí começa essa construção da nossa história e da onde que tá o poder, né? onde que tá o poder maior. E e tem uma coisa assim hoje com o advento do celular que eu quando eu dou aula eu falo para pros adolescentes, né? vocês têm uma ferramenta muito poderosa. Você não precisa ter uma câmera super cara para fazer um filme ou para contar a história de alguém. Porque pensa assim, no Brasil o maior centro de memória, de imagem e e de áudio que a gente tem é da Globo. A gente tem aqui o centro de memória da Unicamp, mas ele é pequeno comparado ao da Globo. Sim. E aí eu sempre faço a provocação para meus alunos. A Globo vai contar a história da sua avó, sabe? Da sua comunidade, não vai. Quem que vai ter que contar essa história e registrar e manter? Uhum. É você. Seja de uma forma descrita, seja uma forma gravada ali áudio ou no visual. Então o poder que vocês têm é muito grande de usar esse celular, né? E aí eu vejo que a gente tem um outro zigast atual hoje na sociedade que o celular vira uma coisa tão de fetiche também que aí tudo vai virando meio violento. A criança que briga na escola já tá na internet, esse pai que recentemente foi lá bater num num professor vai ali e aí o que aconteceu recente no Rio de Janeiro, né? Filma, tá ali, parece que se transforma em ficção, no outro dia já esquece. A gente tem que tomar cuidado com isso. Uhum. O que que é ficção que tá na tela? É. E o que que eu começo a virar ficção ali. Então, e é onde que acontece mais essas violências dentro das comunidades. E aí mais uma vez a gente começa a voltar essa bola de neve assim falando, ó, olha esse, olha como é que tá esse povo sem essa permanência do estado ali. Quando eu falo permanência do estado é isso, é é políticas públicas com educação, com a questão da cultura, com o cinema. A gente tem exemplo gigantesco. Nós no morro, mesmo no Rio, aqui em Campinas, menos vários, sabe? Quando você está no lugar, você transforma. Uhum. E aí você tem que ter permanência. Permanência é isso. Todo ano, todo dia você tem que estar ali. Não posso eu vir um projeto, estou ali e depois acabou. Não tem mais não. Uma frase que eu ouvi muito no decorrer desse especial que nós fizemos aqui no ponto de vista nesse mês de novembro é que assim, não adianta falar sobre representatividade apenas no mês de novembro. É, não tem que falar todos os dias, né? Sempre. É um ponto também que é, eu faço várias críticas qu isso, né? Que as pessoas vezes, ah, já começa os convites, né? Eu falei, "No, vamos conversar sobre o quê?" "Ah, a escravização, ah, você conhece um grupo de capoeira e tudo". Eu falei: "Acho lindo tudo isso". Eu falei: "Mas por que só?" Eu falei: "Me convida uma vez por mês no ano que eu vou na sua escola. Maior prazer para trocar ideia". Porque eu quero sempre estar com esse aluno para trocar ideia, porque quando ele tá me ouvindo naquele dia, ele tá de um jeito, no outro mês ele pode estar de outro, uma outra transformação. E aí, se você não tem, é, mais uma vez falando da permanência, se você não tem isso, como é que a gente dialoga mesmo, né, sobre isso, né? Não é, ah, ok, no mês a gente fez, tá bonitinho, OK, é que nem Natal, vamos ajudar todo mundo e depois o resto do ano, deixa para lá. Não, não é isso. Ah, fiz a minha parte, tô bem com Deus. Não, não é isso não. Você tem que dar bem o dia a dia. Um exemplo que a gente tem em relação a isso é que os médicos, por exemplo, eles falam muito mulheres e homens não é olhar para você, paraa sua saúde só em outubro, só em novembro. Sim. Sim. Porque pode ser tarde. Uhum. Né? Então assim, se a gente tem oportunidade de falar, de dar espaço pro jovem negro, pra criança negra, pro adulto, por que não fazer isso no decorrer do ano? São 365 dias, né? Dá tempo, né? É, isso citou uma coisa aí também que a gente tá, eu sei que a gente tá falando de cinema, mas colocar um recorte, eh, se eu perguntar pras pessoas, quem tá assistindo também colocar depois e falar assim: "Ah, por quantos eh médicos ou médicas pretas você já foi atendido?" É, na sua história mesmo no SUS, né? É, na sua história, sim, por enquanto. Tava conversando esses dias com o Fred Nicas, que ele veio trocar uma ideia com a gente aqui no no cinegro, que ele é médico, né, do SUS, inclusive. Tem uma história muito muito interessante que uma senhora, né, que conversou com ele, que virou até livro essa história que foi, ela se assustou quando viu ele, né, no Rio, assim, foi a primeira vez na vida dela que ela via um médico negro. Caramba. Então, olha o qu, eu me arrepio olha o quão delicado é esse complexo, né? Isso é representatividade também. Uhum. Se eu vou no lugar para ser atendido, eu falo: "Nossa, tem uma diversidade aqui". Porque às vezes é aquilo, só só de você ver a pele próxima sua, você já se sente mais seguro também nesse lugar, ainda mais nesse lugar do cuidado mesmo, que é a saúde, né? E e falando em saúde, a a nossas telas são saúde também, né? Então, quando eu me vejo de uma forma, mais uma vez tô falando, não tô tirando aqui a questão das violências que existem, mas é isso, pensar como elas são construída, mas que dentro dessas violências que tem nesses lugares, por diversas coisas, né, eh, tem poesia. Uhum. Ali tem música, tem vida acontecendo, tem leveza, tem o dia a dia, tem uma família que chega, que vai jantar junto e que essa história é importante contar. Claro. Entendeu? Tem lá um pai que vai dar um beijo no filho antes de dormir da filha. Essa história é importante contar. São memórias, né? Sim. Sim. Entendeu? E que traz esse lugar que a minha família assim, né? Não é daquele jeito ali apenas que é contado. Minha família assim, todo dia a gente faz essa festa, é o samba no final de semana é tudo junto, é o tilt, sabe? É aquele de falar alto e todo, sabe? E isso vai constituindo enquanto sociedade. Daniel, tem uma questão que assim a gente gostaria de entender quais são as principais diferenças quando eu falo de representatividade e quando eu falo de estereótipo. Ah, tá. Olha, eh, exatamente desse gancho que que eu tinha falado da da publicidade principalmente, né, que eu falo da publicidade porque ela atinge muita gente também, né, em vários em vários canais, em vários locais, né, mas eh ainda hoje eu vejo que ainda há um estereótipo grande, principalmente na TV, porque o cinema ele ainda tá num outro lugar, né? Eh, vou colocar um adendo. Eu trabalhei com Walter Sares, não ainda estou aqui. Mas aí se você for pegar a década de 90 no Brasil ali depois da retomada do cinema, porque o nosso cinema ele tem uma questão assim também política. É, tudo é político, não adianta. Tudo tudo é ele tá sempre sendo retomado. Uhum. Na época da ditadura, acabou-se foi retomado, veio a Era Color, que também acabou com vários recursos. Aí teve que ser, tá sempre retomada. recentemente a gente também teve um governo que começou a também interferir demais, né, e sempre retomando. Então, a gente tá sempre construindo a nossa identidade enquanto cinematográfica. Então, isso é complexo, é, por isso que não é uma indústria, né? Estados Unidos ele é tão forte e tá em todo mundo, exatamente porque eles investiram isso politicamente, estatalmente ali para poder chegar a todo mundo essa marca dessa bandeira para porque ele sabe o quanto a cultura é poderosa, entendeu? E o Brasil tá começando a entender agora o cinema ele movimenta a economia muito mais do que a indústria de carro. É o cinema que movimenta isso direto, indiretamente. Quando eu, por exemplo, a gente tá lutando por uma filme com nessa cidade, quando eu trago uma filme com aqui, não tô falando que ela vai ser o sonho resolver tudo do cinema na cidade, não é isso. Mas é um órgão que vai tá conversando com um especialista entre o poder público, poder privado, pensando essa cidade. Olha, vem filmar aqui, sabe assim, o que que eu ganho com isso? Aonde que eu Olha, Campinas você tem isso, você tem aquilo. Eu tô mostrando essa cidade pro mundo, sabe? Então assim, é importante. E aí quando quando eu penso nessa questão do estereótipo, eh, a TV, que eu acho que é muito poderosa, porque assim, eu lembro que o A Store aqui, ele atingiu, se você hoje um pouco mais porque tá tá tá no no Global Play, mas na época 8 milhões, 9 milhões de pessoas, a TV atinge isso num dia, entende? Assim, ainda ainda é o veículo muito poderoso, muito poderoso. Sim. E sendo poderoso, eu sempre falo pros alunos, eh não é só entretenimento, eles estão pensando, e as pessoas que estão ali construindo estão pensando na sociedade e provocando a sociedade. O que que a sociedade tá pensando? O que que eu vendo? O que que eu não vendo? Né? Tanto que a gente tem os Big Brother da vida aí que, né? Muda a história, as pessoas param para ver, vai ali novelas como aquela Avenida Brasil que parou o Brasil, entende? como envolve assim é poderoso, mas ainda assim a representatividade, e aí a gente tem que ver que dentro dessa palavra existe uma coisa complexa, são várias outras, ainda é pequena. é pequena, porque você ainda vê dentro de um estereótipo. Existe lá o protagonismo pro preto ou paraa preta, mas de uma forma ainda que eu penso assim, eh, ai maniqueísta, sabe assim, não é de de realmente aquele protagonismo é protagonista mesmo, né? O exemplo, a gente teve numa novela recente, isso, né? onde você vê e que é são duas coisas muito loucas. A a personagem central perde o poder, força, que é uma personagem negra, que eu vou falar que é a Taíso Araújo, né, na novela Vale Tudo. E a personagem da Débora Block, maravilhosa, adora a Débora Brock, sobe de uma tal maneira. E aí você tem dois lugares, esse protagonismo da da personagem da Thaí que perde força, esse da Débora que sobe lá e não tô falando de qualidade de interpretação das atrizes, não é isso, não é isso. E um outro lugar desse fetichismo pela violência, porque como que eu começo a amar a Odet Rochan, que é um ser ruim, ruim que nem o cão ali. Aí a gente também tem que pensar a sociedade, né? Eu lembro nas aulas, né? Os alunos levavam os trechos daquele filme Coringa, né? Uhum. O último. E aí eles e aí eles falam: "Não, é legal". Falei assim: "Vocês acham que é certo isso? Matar alguém? Não, né, professor? Por que que a gente tá falando que o Coringa fez é certo? Admira, né?" É, eu falei, "Então, o cinema ele tá nesse lugar também para provocar a sociedade. Que heróis que eu tô transformando em heróis mesmo, né, em si. E eu não tô falando que a gente não tem que fazer filme sobre X, pessoas ou Y e tudo, mas quando a gente tem a representatividade real, a gente tem várias histórias, aí o público escolhe. Uhum. Entendeu? É a mesma coisa de falar sobre eh a educação grega, que a gente é formado pela educação grega, mas se eu não ensinar meus alunos sobre a educação eubá sobre a educação do continente africano, eles sempre vão ter essa régua. Uhum. Eu não tô falando que essa régua é errada, mas eles têm que ter essa para ter escolha. Sim. A gente sabe onde onde conhecimento também veio, onde é inclusive a educação grega foi beber. Isso aqui não sou eu que tô falando, tá na história e tá comprovado. Então é a mesma coisa do cinema. Daniel, quando a gente fala, voltando um pouquinho nessa questão da novela, porque assim, isso foi muito comentado na internet, ainda tá ainda está, né? E opiniões diversas, né? Porque assim, quando foi anunciado, foi até curioso, porque assim, eu me lembro que algumas pessoas falavam assim: "Poxa, mas a Débora como Odet, não por ser a Débora, porque ela é uma excelente atriz, mas as pessoas acho que não tinham percebido um lado mais maquiavélico na Débora até então, né?" Uhum. e outra eh outro público falando justamente sobre, pô, que legal, a Thaísa Araújo vai representar e toda essa história e de repente as coisas foram mudando. O que pode ter acontecido nesse cenário? Porque a gente sabe que assim, a novela, diferente do cinema, que eu imagino que o cinema você recebe ali o que você vai ser começo, meio e fim, a novela tem essa possibilidade de ser construída e reconstruída no decorrer do tempo, né? Até porque o o ator, o autor, ele fica pensado na população, bom, tá agradando ou não está? E aí ele vai mudando, né? vira meio que um quebra-cabeça. O que que você acha que pode ter acontecido nesse cenário? É o poder da canetada, né? Fala autor, né? Escreve poder da canetada, porque a realmente a novela é uma obra aberta, diferente do cinema que e você no cinema você tem até uma preparação maior para personagem, pesquisa e tudo. Às vezes pra novela o ator, tô falando no lugar do ator da atriz, não tem nemse tempo tanto, né? Porque às vezes você tá terminando de gravar um capítulo, já tem que ir para casa decorar dois que vai e vai a produção assim e vai acontecendo realmente isso. Já tem personagens históricos em várias novelas que ou cresceu porque agradou a um público em geral ou desapareceu, foi morto aquilo outro porque não tava agradando. Então a novela vai nesse lugar aí. E aí eu falo da canetada. É isso, porque mais uma vez aquela coisa da colonização mental, né? a gente acaba de de eh eh repetindo padrões, né, estético. E aí a estética é uma coisa muito forte. Uhum. Tanto se você fazer pesquisa até pouco tempo atrás, eh o Ó, olha o dado, um beijo de um casal branco na novela demorava muito mais do que um beijo de um casal negro. Car, aí já é um dado, entendeu? Eh, esses corpos, né? Você vê hoje, você vê um pouco mais os corpos pretos se amando, né, nas cenas, se beijando, tendo afeto. É. pouco tempo também. A gente sempre vê esse outro lado e isso interfere. Isso interfere que você fala assim: "Ah, será que é?" "Ah, então a comunidade negra não é afetuosa?" E tá, tá vendo o perigo, os detalhes assim? E de repente da onde vem a caneta, de que mão e que cor essa caneta tem? ela vai fazer aquilo a partir das experiências história dela, assim como eu lembro do do Chavoso na época do do A estou aqui as críticas que ele que ele fez e críticas legal, positiva e eh falando, pô, mas tem várias histórias de negros que sof Sim, muito negros sofreram durante a ditadura. Tem história de muitas mulheres pretas, tão quanto importante quanto da Eunice, mas eu falei, mas o Walter, ele fez um recorte a partir da vida dele, porque o Walter ele era uma daquelas crianças que visitava aquela casa, conhecia a família paiva ali. Sim. E ele vai fazer a partir das experiências dele. Ele é um cara burguês. E ainda assim eu penso, e esse cara burguês que para além o o Walter Sares, ele é o terceiro diretor, terceiro ou quarto diretor mais rico, entendeu? Exatamente. Só tá atrás de Sp, entre outros, né? Então assim, tanto é que o filme foi, né, bem valorizado finance recurso nenhum e eh eh do governo, foi tudo independente, né? Mas ainda assim é um cara que pensa o seu país. Eu faço esse record, você pega o central do Brasil, ele quer mostrar todo o sertão brasileiro. É, você pega a estou aqui e foi um marco na carreira dele, né? Sim. Total. Você pega o central do Brasil, é isso. Você pega, eu ainda estou aqui, você tem a história de uma mulher que sim, necessário ser contado, né? E aí desse recorte a ditadura importante, ainda é um cara que pensa as histórias do seu país. Uhum. Em si, mas sempre vai ser um recorte a partir dessa branquitude. Sempre vai ser. E aí que não estou fazendo uma crítica direta a Manuela Dias, né? que a até a Amora Mtin, que é uma outra autora, veio em defesa da da Manuela falando brincadeira, falou assim: "Não, mas a a as protagonistas sofrem mesmo caso, mas não é esse sofrimento da protagonista, que a gente sabe como é que a novela o novelão funciona, é chora, é sofrimento, cai e volta". Não é isso. É um dado que nem, por exemplo, aquilo que a gente estava comentando antes de começar aqui. É um dado que você pega uma semana da novela sendo exibida, você não vê numa cena da personagem da Thaísa Araújo. É isso vai causando um esquecimento do público também da importância dessa personagem. Aí se uma outra personagem cresce demais, aí é lógico, o público só vê aquela personagem, começa a amar só aquilo, aí vai deixando de lado, vai ficando por menor. Aí a protagonista vai virando, né, na verdade até figurante na história. Entende que eu quero dizer? Essa importância. Esse, eu tô pensando esses capítulos, eh, até até fala desse personagem e a cena que tá vai também pro ator até, né, eh, eh, eh, fazer uma cena que chegue mais ao público também e ser lembrado. E aí tem uma coisa assim que eu acho que a gente precisa pensar isso, o que que é remake mesmo, né, e o que que é fazer uma nova obra em si inspirado naquela. Uhum. Né? Pode fazer homenagem a alguns personagens. Exato. E algumas mudanças que eu acho atuais, sim, né? Você vê assim, tem umas coisas que nem se a gente for fazer uma novela remake, hoje você fala de a na época atrás, né? Não, não falaria, mas ok, isso assim, mas a base porque eu também ter respeito os outros autores que trabalharam fazendo aquela obra, né? Agora esse eh esse contexto Uhum. tem relação ou é propriamente dito o racismo estrutural? Ah, sim. Total, total, total, total. Porque eh esse é é esse é um lugar que no racismo estrutural acho que tem uma coisa que é tá muito velado e esse é o mais perigoso, né? Mais perigoso. Ó gente, para de reclamar, né? Ó o tanto de gente que a gente emprega. A gente tá colocando vocês aqui, pô, vocês já estão reclamando, sabe? É você colocar, beleza, você vai, ó, você vai fazer a protagonista, só que a fulana branca, ela ganha 400.000, você vai ganhar 200. Então é bom ter cinco, seis negros ganhando 200, né? Sabe do salário de 500.000. Vá ver nesse lugar também das questões até de econômica. É esse diferencial. E aí a pessoa, é lógico, ela se sujeita porque ela tá entrando numa cadeia que ela necessita, que os boletos eles não eles não se importam com raça ou cor, eles eles querem que seja pagos e aí você tá naquele lugar. É. É. E muitas vezes dentro do mercado mesmo, às vezes se você dá um não, aí depois não te chama para fazer mais nada. Uhum. Tem isso também. Aí a pessoa se sujeita aquilo. E é difícil é essa história de você estar num lugar e tem uma comunidade que te vê com uma representação e que você começa a perder força. E é por isso a importância de a gente estar junto, né? Defender isso, né? Construir essa história mesmo e e começar a forçar esse lugar e principalmente pensar assim, né? Eh, que outros meios que eu tenho para fazer a minha construção histórica cinematográfica, sabe? Será que eu vou estar sempre nesse lugar? Será que eu não posso construir outros lugares também? Entende? Porque a gente fica numa coisa assim que nem eu acho que o maior problema que a gente tem de cinema, isso, isso até do cinema hegemônico branco, mas preto muito mais ainda, a distribuição. A gente tem uma lacuna muito grande, a gente produz, o Brasil é um dos países que mais produz curtametragem. A gente não tem, não tem janela para exibir. A gente tinha uma lei que aí foi esquecida, Michel Terme veio, caiu com ela, que é essa questão da das telas. Então, sempre quando a pessoa assistia um filme no cinema tinha o curta acontecendo e um curta, né, brasileiro. E aí, se a gente não tem isso aí, só vai nos festivais que é importantes e mostra a população não encontra essas histórias, como é que a gente vai rever a nossa sociedade na na eh na nas telas em si, entende assim? Então, eu acho que é é esse o lugar, esse estereótipo ele ainda é muito forte, viu? Sim, a gente ainda tem muita luta para fazer, mas aí eu penso que hoje eh vendo indígenas, os pretos e pretos na Unicamp, a galera ocupando muitas cadeiras na USP e tudo, eu fico muito feliz. Eu falo: "Caramba, tem mudança aí." Eles fazendo fóruns unificados para poder se decidir as coisas. Eu falei, é isso, essa mudança de pensamento, porque aí você começa a ter mais, aquilo que eu falei, mais roteiristas pensando, você começa a ter mais camada de decisão. Por exemplo, eu dou aula de cinema e muitas vezes assim eu pensando assim, poxa, e aí quando você vai para um set, tem muitas mulheres nas aulas do cinema. Aí quando você vai pro site, você não vê a mulher tanto no em em locais de decisão. Uhum. Eu falei: "Cadê, cadê, né?" né? E aí quando você pensa esse set, eu sempre falo assim, eu queria pensar um set como um, independente da religião, que pensar como um terreiro no sentido assim, eh, de preocupação, né? Porque a gente tá nessa coisa das 12 horas lutando para poder diminuir isso, né, da legislação. Eh, e muitas vezes é uma coisa tão, ai precisa terminar, você fica que às vezes eu não vejo o outro, você tá mal para caramba, eu não paro, sabe? Falo como é que você tá mesmo, né? E aí vai virando essa máquina porque eu preciso entregar porque é o mercado, é tudo aquilo. Eu falo isso é desgastante também, entendeu? A gente não vê um um cenário e aí não tô falando só do povo preto, sabe? E ali em lugares de decisões, trans, indígena, eh eh japonês. A gente tem uma comunidade gigante japonesa, eu não vejo esse protagonismo também, entende? Assim, eh, indígena. A gente tem uma parcela, a gente tem assim, tem plataforma só com filmes indígenas, mas que não tem um acesso geral que a que a população acessar. Aí parece assim: "Ah, os povos origenários nem existem mais país, não existe, mas existe um apagamento." Se você for ver hoje em alguns monumentos da própria da nossa própria cidade, mas não só aqui, tem vários monumentos. Isso falo aos pretos, aos brancos, brancos muito mais, né? Eh, mas estão sendo apagados as próprias placas. Se você for ver, eu tô falando de apagamento e isso é apagamento histórico. Uhum. E aí da nossa história também. Então, quanto mais eu tenho, eu não tenho essa representatividade forte, o apagamento ele vai acontecendo. Então, eu preciso sempre forçar isso. E muitas vezes, infelizmente, tem que ser através de lei mesmo para que isso aconteça e respeitado, né? Eu queria chegar justamente nesse ponto, Daniel. Essa é a parte pior do programa, tá? que é quando o assunto tá muito bom, mas o diretor fica falando, então tem que encerrar. Ah, eu sou professor também, falo bastante, né? É, não, mas já fica o convite para você voltar e a gente retomar esse assunto. Daniel, qual é o seu ponto de vista sobre esse cenário, sobre a representatividade na mídia? O que precisa ser feito, o que ainda falta que ninguém percebeu e precisa ser dado esse espaço? Uhum. Acho que eh fortalecer cada vez mais as leis de incentivos, sabe? Eh, eu acho assim, o poder público sempre trabalhar ali com o poder privado, né? Estabelecer um exemplo aí disso, né? Falando da FM Comission, né? por exemplo, a pessoa que tá na sua vereça, mas o deputado que representa essa cidade, o próprio prefeito ou prefeita que está nessa cidade, olha a importância que, por exemplo, quando vai em suas reuniões fora e tudo e fala assim: "Ó, a gente a gente tem a possibilidade de construir a história de cinema na nossa cidade. Isso isso já é uma mudança de pensamento também, né? E se a gente tem uma filme como já fortalece mais ainda, né? E sempre eu vi a sociedade civil, né? Precisa estar construindo junto ali, né? Eh, vou, eu sei que Campinas tá passando por uma uma ideia que eu espero que aconteça mesmo, que é uma sala pública de cinema, uma sala mesmo. A gente tem o Mo, a gente, mas o M ainda é uma sala adaptada para cinema, né? E a gente tem 70 lugares, né? A gente vai ficar exibindo as nossas costas só para 70 pessoas. Campinas só tem 70 pessoas, não é? Então, a gente precisa de uma sala adequada por aquilo pública e pensar a curadoria para esses filmes, para que os trabalhadores possam se ver ali também, né? Porque se a gente for for ver a Europa, a Europa se você tem muitos filmes de falando sobre trabalhador, porque filhos de trabalhadores fazem cinema, conseguiram fazer cinema, por isso que você tem na tela. Aqui já é diferente, entende? Uhum. Então, se eu tenho isso, é aquilo que eu tava, eu tava comentando, né, falando, falando vários filmes sobre a classe operária. Eu falei: "Mas quando a o trabalhador vai operar a câmera, né?" Falei: "Não, mas nós somos trabalhador". Não, eu entendo. Eu tô falando de uma maneira mais filosófica, né? Quando que ele vai contar a própria história dele ali? Quando esse filho poder acessar essas leis, é poder, eu vou escolher isso, vou escolher um médico, vou escolher ser cineasta, porque acho que a força vem daqui, entende? Então é é muito. E mais do que escrever a história ou filmar a história é poder mostrar essa história, né? Essa história aparecer nas telas. Sim. E e além disso, essa história vai ficar registrada. Essa pessoa vai passar um dia, mas vai ficar memória. E aí ele contou dessa forma. Uhum. Entende? Porque sempre vai ser isso. Eh, quando eu te convido, pneu, eu vim aqui hoje. Uhum. Aí eu falo: "Ah, tem que ser assim. Eu não conheço como é que funciona aqui os meandos dentro dessa casa. Você já conhece mais aqui, você sabe os cantos desse estúdio ou não. Então, como é que eu vou me meter aqui?" É, entende? É isso. Então, quando vem de fora, a intervenção vai sempre olhar de um outro lugar aqui. Você que já tá dentro do estúdio, você conhece cada cantinho. Uhum. Entende? Então, nas histórias sendo contada a mesma coisa, entendeu? Não tô falando que a gente não tem que ter esses recursos que vem de fora, mas esses recursos tem que respeitar aquilo que tá ali e equalizar as histórias. Então eu acho assim, eh, são leis eh mais justas, acho que leis fortes realmente e que possa dialogar com essa sociedade, o que que realmente essa sociedade quer para construir, porque quem constrói a cidade é esse povo trabalhador diariamente, né? E aí perguntar como é que você se vê no nas telas, você se vê nas telas mesmo? Você se representa ali? Sabe? Então eu acho que e a educação, né, é a base. Se você for pensar, a Europa também a criança desde a desde o prezinho, desde a escolinha ali maternal, ele já conhece Shakespeare. É, entendeu? Já tem esse contato. Aqui a gente não não, né? Aqui a gente faz ainda uma uma uma, como diria Paulo Freire, né? Uma educação ainda muito financeira, né? Exatamente. Preparado para o mercado, não preparado para você sonhar, poetizar. Uhum. Entende? Então, a gente precisa repensar isso. Sim. Daniel, muito obrigada por você compartilhar suas ideias, o seu ponto de vista. É um olhar que a gente precisa ter e uma voz que a gente precisa ouvir. Muito obrigada. Eu que agradeço aí. Quero, tô aqui disponível. Eh, quiser falar sobre educação, que adoro conversar. Se quiser falar até sobre cozinha também gosto de fazer meu uns alimentos ali também faço. Olha que legal. Tô aqui à disposição. E assim, recentemente eu recebi dessa casa, né, um eh como cidadão campineiro, esse título e me é muito rico isso, né, porque eu cheguei aqui na década de 90 e Campinas constrói minha história como artista, né? É aqui dentro dessa cidade eu falo que é aquela relação de amor e ódio. Amor, porque eu quero construir junto com aqui o ódio, entre aspas, é que eu quero muito mais ver essa cidade em outro lugar, né? Se essa metróplica ela chega em muito lugar, né? porque é uma cidade complexa, sem dúvida, em si. Então eu fico muito feliz dessa cidade. Eu me reconheço nela e ela me reconhecer também. E aí eu sempre falo, vou para lá, vou para cá, daqui a pouco eu vou paraa Portal gravar uma série, mas sempre volto para cá, pros meus aqui também, né? E para pensar esse futuro sempre. Maravilha, Daniel. Muito obrigada. Obrigada a você que nos acompanhou pelas telas. Conversei aqui com Daniel Almeida sobre representatividade. Obrigada por você ter acompanhado o nosso programa. Tchau.