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Olá, minha gente. Começamos mais um ponto de vista e o ponto de vista hoje traz um tema no mínimo curioso. Eu vou conversar com o professor, psicólogo e pesquisador André Torres. Professor, acho que esse tema é bastante curioso, né? Com certeza. É um tema bastante curioso e polêmico, né, porque ele impacta diretamente as nossas relações humanas. Parece um tema muito atual, mas ele já vem sendo pesquisado há algumas décadas e hoje nós temos uma série de conceitos a respeito disso. Falando nesses conceitos, cerca de 53% dos brasileiros já viveram um relacionamento não monogâmico. E se você não acreditar, eu vou apontar para você que assim, as estatísticas têm mostrado que, curiosamente elas são lideradas pelas mulheres. É um ponto também curioso, né? Porque quando a gente fala de relacionamento não monogâmico, a gente tá falando de pessoas que têm mais de um parceiro e curiosamente isso tem sido liderado pelas mulheres. É isso mesmo? Pois é, eu acho isso muito interessante. Eh, e percebo também que a maioria das pessoas que pesquisam, que escrevem, que fazem podcasts, hoje nós temos esses canais todos, a grande maioria são mulheres, são poucos homens que participam desses dessa produção, né? E eu vejo que isso é uma demanda do próprio avanço das mulheres sobre a sociedade. Porque até então os relacionamentos monogâmicos, né, a gente pensar que a não monogamia é uma negação da monogamia, não tem uma fórmula para ela. Ela só tá se opondo a uma fórmula que vem funcionando há séculos, né, e que não está confortável para as mulheres do jeito como ela sempre funcionou. Então, as mulheres têm identificado isso e buscado mudanças efetivas para os homens. Até então está tudo bem, não precisa mudar nada. É muito comum que a gente lembre do homem como aquele que está casado, mas geralmente, né, tem as suas escapadas, tem a sua amante. Então, pro homem está geralmente tudo bem. Mas agora as mulheres querem trazer isso à tona e discutir isso na mesa, né, sem precisar trair ou esconder de ninguém. E a gente pode definir a a monogamia desta forma, que são relacionamentos, né? Um relacionamento não monogâmico. É aquele em que o casal, ambos concordam em ter ali uma relação entre eles, porém estão abertos a outra relação. Aliás, até vem uma outra pergunta, né? Seria um relacionamento aberto? Essa é uma questão que saem farpas para todos os lados, né? Porque muita gente não gosta do termo eh relacionamento aberto e nem de colocar o casal como a referência para os relacionamentos. O que é que se diz, né? A não monogamia tem vários conceitos. Você tem a não monogamia ética, não monogamia política, você tem o poliamor, né? você tem outras outros acordos de relacionamento, como o relacionamento aberto. Então, eles se diferem de alguma maneira. Eu vou tentar falar de uma forma geral pra gente se situar, né? Então assim, a não monogamia ela seria essa mudança de funcionamento das relações. Se a gente pensar mais nas pessoas do que num casal, a gente vai entender justamente que a forma como a pessoa entende os relacionamentos. Qual é a busca mais ampla possível da não monogamia? é que a gente entenda a afetividade, os sentimentos, a atração antes de considerar a formalidade dos relacionamentos. Então, quando a gente fala em casal, nós já estamos entendendo que há um roteiro, que há um protocolo, uma forma de se comportar, né? Então, quando a gente pela primeira vez gosta de alguém, se apaixona por alguém, sei lá, na adolescência, né, no comecinho, eh, ou até quando jovem, ninguém nos pergunta, ninguém nos diz, né, eh, como é que você quer se relacionar, você quer, eh, gostar de uma pessoa? Não, a gente já tem isso subentendido que você vai ter eh eu até falo que é uma carreira, né? Você tem o o crush, o ficante, o ficante premium, o namorado, o noivo, o marido e aí em muitos casos, o pai e o ex-marido também, né? É, quer dizer, é como se isso já fosse natural e a gente não precisa entrar necessariamente neste protocolo. Se a gente for pelo afeto, né, em primeiro lugar, eu posso gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Tudo isso para não monogamia precisa ser feito de uma forma ética. Como eu falei, né, para quem está contente com o atual sistema, não precisa mudar nada, né? Ou seja, se eu tenho minha parceira e continuo traindo com as pessoas que me atraem, tá tudo bem para mim. Mas e a situação dela? Como fica? Que enquanto eu tô saindo com outra, ela tá lá lavando louça, cuidando do filho, né? Então, eh, nós precisamos trazer isso a um acordo, né? Ao reconhecimento de que ninguém controla sentimentos, ninguém controla sentir algo por alguém, né? a gente decide o que vai fazer com esse sentimento. Uhum. Né? Mas a demanda dessas mulheres têm sido justamente vamos levar a sério esse sentimento, porque a gente só aprendeu a sufocar, a gente só aprendeu a esconder, a não falar, a só conversar com alguma amiga muito escondido, né? Ou os homens na rodinha ali do bar, né? Contar vantagens, né? Eh, então a gente tirar isso dos redutos, né? eh, do segredo, né, dos do que é proibido, né, e trazer isso como uma discussão da relação, né, seja qual for a etapa, né, seja casado ou não, seja namorado ou não, mas a gente pensa como um afeto, ou seja, uma pessoa de quem eu gosto, né? Você é uma pessoa de quem eu gosto e ela é uma pessoa de quem eu gosto e uma coisa não anula a outra, né? Nós não temos apenas uma vaga paraa afetividade, né? Tem uma uma autora de podcast que eu gosto muito, que ela fala assim: "O amor é um recurso infinito". Sim, né? Eu acho que assim, a gente pode tratar como formas de amar, né? Eh, eu até inclusive vi um podcast em que a pessoa comentou, ela falou: "Olha, eu comecei a perceber que dentro da minha relação monogâmica faltava espaço para eu amar de outras formas. E aí que a pessoa se descobriu ou foi tentar de repente uma relação não monogâmica". Então, quer dizer, isso é algo que pode acontecer mesmo você estando em uma relação. Exatamente. Porque se a gente for pensar o padrão de ter uma relação exclusiva, a grande questão da não monogamia é a exclusividade, sim, né? Não só sexual, mas a exclusividade dos afetos, né? De gostar de outras pessoas, de querer estar com outras pessoas, né? E se a gente coloca isso tudo em uma única pessoa, se você parar para pensar, é uma carga muito grande, né? Então não existe nenhuma pessoa no mundo que atenda todas as necessidades de outra pessoa, né? Então sempre vai haver uma insatisfação num relacionamento exclusivo. Isso tem sido trazido em relatos, em pesquisas, né? Então eh se eu cobrar dessa pessoa, eu passo para essa relação para um nível abusível. Uhum. Desculpa. para um nível abusivo, né, que é exigir algo que de repente não é característica dela, não é o jeito dela. Cada pessoa pode oferecer o seu melhor. Não adianta eu querer o que ela não tem para oferecer. E não tem problema isso. Não é que a pessoa é inferior, não é que a pessoa é deficitária, mas é que ninguém é capaz de atender todas as necessidades de um relacionamento. E tem esse ponto também, né? A gente eh muito pela sociedade que nós vivemos, nós crescemos aprendendo que um relacionamento tem que ser único, né? Se ama uma vez só, aquele romantismo de novela das ve, né? Só que as coisas mudaram muito, as pessoas mudaram muito e as mulheres, como o senhor disse no início, mudaram também. E algumas eu acho que estão até exausta de ter que passar por situações de bom, eu fico em casa lavando, passando enquanto o meu marido dá as escapadas, não. Então vamos melhorar a condição desse relacionamento. Eu acho que são acordos que t acontecido entre as relações. Exatamente. Que é levar a sério, né, essa situação. Como eu falei antes, você e naturaliza essas conversinhas, né, com com amigos, com amigas, essas escapadas, mas agora nós estamos tendo esse convite que eu acho que é uma coisa muito impactante inclusive na vida das pessoas, né? Acho que aí a psicologia precisa ajudar bastante, que é como é que nós vamos lidar com isso, que é ser honesto, ser sincero, jogar limpo, né? Dizer: "Olha, eu conheci uma pessoa de quem eu gostei muito, né?" e dizer isso paraa sua parceria, né? Eh, não esconder, porque o que acontece muito, eh, esse casal, todo mundo que que convive junto, em algum momento tem algum desentendimento, né? Sendo casado ou não, sendo amigos, né? Então, eh, em algum momento, eh, vai haver algum desentendimento e esta pessoa vai então procurar outra, né? porque ela tá insatisfeita nesse momento com a relação. E aí que muitas vezes acontecem as escapadas, né, seja o homem, seja a mulher, etc. Então, o convite é, vamos falar então da nossa relação, né, eh, tanto na no desentendimento, tanto quando a gente tem raiva um do outro, como quando a gente sente coisas por outras pessoas, né? Então, é um convite a um aprofundamento do relacionamento. Parece o contrário, né? Exato. Se eu tenho a possibilidade de sair com outras pessoas, então vai diminuir a minha relação? Não, ela vai aumentar, né? Porque eu vou me abrir mais, eu vou ser mais honesto, eu vou me entregar mais, eu vou baixar minhas defesas, assim como eu espero do outro lado a mesma coisa. Isso fortalece as relações, né? E aí, eh, nós temos essa possibilidade de ter, como a, como se diz no meio, uma rede de afetos, né? Sim. Não, não. A tendência, como diz uma outra pesquisadora, Regina Navarro Lins, a tendência é que no futuro as próximas gerações busquem mais relações desse tipo do que relações exclusivas, únicas e fechadas, né? Então nós vamos precisar de muito mais diálogo, de muito mais abertura, muito mais compreensão entre as pessoas. para quem é mais tradicional, olha para essa para essa nova forma de relacionamento, esse novo jeito de amar, muitas vezes até como algo ousado, né? Então as pessoas se questionam como é que a gente pode normalizar isso, trazer isso pro pros dias atuais sem ferir aquelas pessoas que são mais tradicionais, certo? Mas eu acho que aí tem uma questão assim do mundo atual, né? O mundo está mudando e as pessoas também estão mudando, né? Com certeza. Como eu falei, as novas gerações é que vão mudando os costumes, né? Eh, a própria Regina diz o seguinte: 50 anos atrás você falar em divórcio era um absurdo, né? Era uma coisa impensável. E hoje se fala de uma forma mais natural, né? Embora claro, não seja uma situação fácil, ninguém quer, né? passar pelas situações, mas a cultura vai mudando. E essa cultura que vem mudando sobre os relacionamentos, ela é uma mudança histórica muito grande. Ninguém é obrigado a aderir a outra forma de relacionamento, né? Se as pessoas estão contentes com a forma tradicional, com o casamento exclusivo, não tem problema nenhum, né? continue sua vida, desde que a sua parceria também eh esteja concordante. O grande problema que nós temos é isso. Nós temos, e aí eu falo do ponto de vista da psicologia, nós temos eh papéis sociais em que a gente entra, como eu falei, né? O ficante, o namorado, noivo, marido. Quer dizer, é um papel social. Todo mundo sabe, sem saber porquê, como deve agir um namorado ou uma namorada, como deve agir um marido ou uma esposa, mas ninguém nunca ensinou nada. Isso é cultura. Sim, né? Então, a essa essa mudança que tá acontecendo, ela não é obviamente obrigatória. Ninguém vai acabar com o casamento, ninguém vai acabar com os direitos de escolha que a gente tem, mas é esperado que esses papéis sociais sejam relativizados. Você eh conseguir definir um papel com a sua cara e não um papel subentendido que você tem que se encaixar. O que é uma violência psicológica, uma autoviolência psicológica? Eu não me encaixo bem nesse papel, mas eu tenho que caber porque é o que esperam de mim. E nisso as pessoas têm muitos conflitos, muitas crises existenciais e acabam até terminando relacionamentos que poderiam ser muito ricos, muito bonitos, porque ela não se encaixa. Agora, um outro ponto que as pessoas questionam muito e na internet às vezes fazem até piada em relação a isso, né? Bom, então o relacionamento não monogâmico não tem traição. Aí o que vem a ser traição, né? Porque é um ponto a se a ser discutido, né? Toda a relação humana tá sujeita a traições, né? Então a gente, quando a gente fala em traição, a gente costuma falar sobre a traição afetivo sexual, ou seja, a pessoa teve um relacionamento afetivo ou sexual ou os dois com uma pessoa externa, a relação, sem contar, né? Uhum. Então, eh, desse, desse ponto de vista, na monogamia, a ideia é que não haja essa traição, porque há um diálogo constante, sincero e honesto entre as pessoas que estão nessa relação, né? Agora, você tem outras possibilidades de traição, né? Até entre amigos a gente tem traição, né? De eh uma traição financeira, né? usar o dinheiro da outra pessoa sem perguntar ou gastar um dinheiro que tava combinado para determinado projeto e usar em outra coisa sem comunicar. eh uma traição eh de ir para uma festa sem convidar, né, sem deixar ciente. Então, eh dependendo dos acordos que nós temos na relação, você tem várias possibilidades de traição. A ideia da não monogamia é vamos sempre tentar jogar aberto para que não haja traição ou que pelo menos elas diminuam. Caso haja alguma traição nesse sentido, vamos conversar sobre isso. O que é que aconteceu, né? Por que você agiu desta maneira? Agora, colocando na no setor da psicologia, será que a gente não deveria ter esse comportamento sem precisar mudar o nome de relação monogâmica ou não monogâmica, relacionamento aberto? Enfim, são infinitos os nomes. Mas e o comportamento? E a consideração, né, com aquela pessoa que você divide a casa, a cama? Isso não deveria ser uma prática? Eh, sim. Eu acho que o principal é a prática, né? O principal é o o concretizar eh essa esse modo de viver, esse modo de pensar, esse modo de sentir, né? Mas é muito difícil você lidar com o mundo acadêmico, né? Eu, estando na academia, sei muito bem disso. Quando você trata de um conceito, existe uma série de exigências ali rigorosas, né? Então, o que é a não monogamia? É só um um uma questão relacional, muitas vezes ela está aliada a questões políticas, a questões sociológicas, né? Questões psicológicas. Então, há várias discussões nesse sentido, mas será que existem pessoas que são monogâmicas e pessoas que são não monogâmicas? Será que tudo é uma questão cultural? Será que tudo é uma herança política, né, milenar? Então, eh, a gente precisa passar por esses questionamentos até a gente se encontrar no meio desse mar, né, desse oceano de possibilidades conceituais. Mas você trouxe essas questões mais do dia a dia, né? Uhum. Essa é a meta, né? A gente conseguir trazer paraa nossa vida pessoal esses conceitos todos, mas a gente precisa entender como que a gente de fato se sente, né? Isso parece uma coisa boba, mas na psicologia a gente trabalha muito isso. Às vezes eu acho que eu tô sentindo uma coisa, digo, mas quando eu vou parar para para prestar atenção mesmo, é outra coisa que eu sinto, né? Então esse deslocamento é muito comum, né? Então, às vezes eu tô descontando na relação uma coisa que é pessoal ou eu tô me condenando por uma coisa que é relacional, que vem do outro, né? Então, quando você diz, por exemplo, essas mudanças eh na divisão do quarto, da cama, etc., tem pessoas que mudam inclusive isso, né? Por exemplo, não precisamos dormir juntos, né, por estarmos juntos. Acho que um exemplo clássico e que para mim é muito rico, porque é um dos autores que eu estudo, é o caso de Jean Paul Sartre e Simone de Bovoá, que foram parceiros a vida toda, os dois filósofos de renome, né, muito reconhecidos no mundo todo historicamente na filosofia e que tinham uma relação o tempo todo, mas que declaradamente decidiram não se casar e não morar juntos, né? Então eles tinham cada um no seu apartamento, eles viviam, se encontravam e cada um tinha os seus outros afetos livremente, né? Claro, tinham muita discussão, muita conversa, muitos debates, mas é isso que é necessário para uma boa relação humana, conversar. Perfeito. Bom, a gente vai tomar uma água e volta daqui a pouquinho com o assunto não monogamia. Até já. Voltamos com mais um bloco do ponto de vista. Hoje eu estou acompanhada do psicólogo, professor e pesquisador André Torres. Nós estamos falando sobre relacionamentos não monogâmicos, que, aliás, tem crescido muito, né, nos últimos anos. Aí é culpa da mulher isso. Olha, eh, eu vejo que essa busca ela é uma demanda eh majoritariamente feminina, né? justamente porque, como eu disse, há muitos séculos os relacionamentos vêm funcionando numa determinada forma que sempre foi muito vantajosa para o homem, até porque a mulher era vista como um objeto, como uma posse, né? Eh, no meu doutorado agora, eu tava, eu tô pesquisando sobre pertencimento, né? e me chamou atenção, eh, eu vou buscar a etimologia da palavra e sobre pertence significa coisas que são minhas, bens, né? E aí me veio a palavra patrimônio, né? Patrimônio que é o conjunto de bens de um homem, patri, páter, pai, né? Agora, e aí me veio pelo oposto, então, se patrimônio são os bens de um homem, matrimônio são os bens de uma mulher? Não. Matrimônio é um pai que entrega a sua filha para fazer parte do patrimônio de outro homem. Então, olha que coisa cruel, né? A forma como as relações eram tratadas eh na antiguidade, na Idade Média, né? Uhum. Então, a mulher, ela nunca teve voz, ela nunca foi ouvida, ela nunca teve a oportunidade de participar ativamente eh no funcionamento social, né? Então, hoje nós temos essa participação muito maior das mulheres, nós temos políticas voltadas para as mulheres, nós temos a ação das mulheres crescendo na sociedade como um todo, que são inclusive a maioria da população, né? Então, nada mais justo do que ouvir as demandas femininas. E a demanda feminina é: Eu não quero ser um objeto, eu quero ser uma pessoa, quero ser tratada como uma pessoa que, ainda que seja mãe, ainda que seja mulher, ainda que seja esposa, continua tendo sentimentos e necessidades como qualquer ser humano, né? E as mulheres sempre foram mais comunicativas com essa eh realidade da intimidade, enquanto os homens sempre fugiram das DRs, né? Exatamente. As mulheres são aquelas que querem discutir a relação, né? E o convite é esse, né? As pessoas falam: "Não, monogamia, você vai ter várias parcerias". Isso significa que muitas vezes você vai ter várias DRs também, sem dúvida. Então não é só vantagem, né? Alguns até brincam, né? Falam: "Nossa, mas é difícil cuidar de um relacionamento". Imagine mais de um, né? Dois, três. Mas acho que é importante a gente trazer luz também nesse tema em relação a alguns preconceitos que a sociedade tem em relação a essas pessoas, a esses tipos de relacionamento. Tem vários nomes, né? a gente já vai entrar neles. Mas assim, por que que algumas pessoas ainda enxergam esse tipo de relacionamento? Como aquela bagunça é uma pessoa que ela não quer um relacionamento sério, ela quer ficar com todo mundo, não é bem assim, né? Ela está sim interessada em se apaixonar, em amar, em ter uma relação séria, mas não com uma pessoa só ou de uma forma mais aberta no sentido de clareza mesmo entre os dois, entre a relação. É isso que você traz é muito importante, porque a gente precisa ter as diferentes dimensões de tudo que tá envolvido nisso. Eu falei de processos históricos, né, eh, sociológicos, mas ao mesmo tempo nossa vida é mais curta do que um processo histórico, né? Então, na nossa vida, nós vamos ter um processo existencial, um processo psicológico que vai acontecer no tempo histórico que nós vivemos, né? Então, eh, as pessoas dentro de um papel social, eh, elas precisam precisam caber nesse papel social, né? No meu mestrado, eu estudei o sentimento de inadequação, que muitas vezes é: "Puxa, eu tenho que ser da forma como eu acho que esperam que eu seja, mas eu não consigo". E aí eu me sinto mal, né? sem entender que eu tenho características próprias, pessoais, e que eu devo desenvolver a partir dessas características, né? Então, algumas pessoas têm uma demanda maior de afetos sexual, eh, libidinal, né, como como se fala popularmente. Eh, e outras não, outras são mais quietas, mais na dela. Então, eh, esse processo psicológico que a gente vai, eh, desenvolvendo na vida, algumas pessoas enxergam como sendo mais fácil quando se tem papéis definidos e outras pessoas não conseguem caber nesses papéis, né? É, então, quando fala que é uma bagunça, quer dizer, saiu da organização que a gente conhece, mas não quer dizer que isso esteja sendo eh ruim para as pessoas que vivem essa situação, porque de repente quem não cabia nessa ordem pode criar uma nova forma de viver. E tudo bem que tem mais a ver com ela. Eu prezo muito pela autenticidade das pessoas. A gente se descobrir como é, estabelecer nossas relações como a gente é, encontrar alguém que aceite estar conosco como a gente é e vice-versa, né? a gente também aceite essa pessoa. Então, tem algumas linhas da não monogamia que colocam que o papel da não monogamia é justamente questionar essa ordem, que ela não tem sido vantajosa para algumas pessoas, como a gente falou, principalmente pelas mulheres, né? Então, a gente precisa de alguma bagunça, entre aspas, né? Ou seja, a gente precisa sair dessa ordem para entender, porque essa ordem é a ordem do papel, do cartório, do estado civil, que nem sempre bate com os nossos sentimentos. As mulheres muitas vezes chegam a uma certa idade e entram em desespero porque ainda não estão namorando há tanto tempo, não vão casar e não vão ter filho sem nunca se perguntar, mas eu quero namorar, eu quero casar, eu quero ter filho? a gente tem essa noção de que existe uma data e uma época para isso na nossa vida e não tem discussão, senão você não vai ser mulher suficiente ou homem o suficiente, né? E a gente questiona isso do ponto de vista psicológico. Por quê? A sociedade ainda cobra muito. Eu posso dizer isso porque eu sou uma mulher solteira, com 42 anos, sem filho, e as pessoas questionam: "Nossa, mas o que é de errado com ela? Qual é o seu problema, né? decidir por coisas diferentes do comum, né? Mas a sociedade ainda cobra sim e fervorosamente. Agora assim, os nomes são diversos, né? Eh, relacionamento aberto, poliamor, a própria não monogamia, né, que nós falamos. Tem diferença de um relacionamento para o outro pensando nesses nomes? Sim, tem diferença. E às vezes eh há muita discussão, eu participei de vários grupos de debate sobre isso, às vezes há muita discussão e discussões ferrenhas sobre então esta relação é isso ou não é isso ou é aquilo, né? Então, eh, uma das grandes críticas que se faz é, como você tinha perguntado anteriormente, às vezes a gente só muda o nome e mantém o mesmo sistema. Sim, isso não resolve nada, porque continuamos todos oprimidos, né, pela formalidade, sem liberar os afetos, né? Uhum. Eh, então, por exemplo, se a gente olhar o nome não monogamia de uma forma ampla, de uma forma mais geral, eh, que que a gente vê? Como eu falei no começo, é uma negação da monogamia, né? quer dizer, eu vou buscar alguma forma de me relacionar que não compactue com este protocolo social subentendido, né, que as pessoas entendem eh que a gente deve necessariamente se encaixar. Então, eh, por exemplo, eu posso estar com uma pessoa, sentir coisas, né, ter sentimentos por outras pessoas e eh manter uma relação aberta, como a gente falou, né, eh sendo casado ou não, eh namorando ou não, como eu posso ter uma relação fixa e sem abertura com três pessoas, né? né, entre três pessoas, por exemplo, o famoso trisal, né, mas esse tral pode viver uma relação fechada, né, sem considerar que ou que que os os integrantes desse trisal tenham relações com outras pessoas, né? Eh, então tudo vai ter esse acordo. Esse é um caso em que você mantém parte do sistema monogâmico, mas você amplia uma vaga, né? Eh, nós temos a não monogamia ética, né? No caso, acho que uma das autoras que fala bastante disso é Bel Hooks, falecida recentemente, uma feminista negra, eh, bastante ativa, eh, e ela fala sobre essa importância de repensar eh o gênero, as relações, o que é a masculinidade, o que é ser mulher, né? Então ela traz que esse é um conflito muito atual, como você perguntou no começo, né? O conflito de gênero é um conflito da nossa época e isso está pegando fogo e impacta em todos os relacionamentos, né? A gente fala das mulheres, mas os homens têm uma cobrança no sentido de você tem, você não pode dizer não para nenhuma mulher, você tem que pegar várias, né? Você tem que ter um caso, né? Então você tem que tá sempre com ereção. Uhum. Então tem e uma cobrança que os homens também não dão conta, né? Então é opressor para todos. Então a gente conseguir falar sobre isso abertamente é muito importante pros dois lados, né? Eh, falei da não monogamia ética, que é esse diálogo constante. Nós temos a não monogamia política, cuja visão principal é eh mudar o sistema eh relacional, mas envolvido nas questões políticas. Eh, por exemplo, eh o o próprio o próprio casamento em si, né, para eles seria um problema, para esse grupo mais ativista. né? Eh, o patriarcado, o machismo como formas culturais históricas. É isso que é o principal olhar desse grupo, né? Nós temos a anarquia relacional, que é um termo até espantoso, né? Que é derivado das pessoas que são adeptas da anarquia como eh forma política, né? no sentido de questionar a autoridade sobre o indivíduo, né? Então, a ideia principal, acho que de várias dessas formas, é que a gente não tenha hierarquia entre as relações. Isso é muito importante e esse é o ponto básico da anarquia relacional. Então, por exemplo, não é porque eu estou há 20 anos com uma pessoa como parceira que esta relação é mais importante que a de um amigo, né? que eu também tenho um afeto, né? Então, e essa relação também não é mais importante de um parente com quem eu também me identifico. Então, eles querem entender que as relações não devem se sobrepor às outras, tá? É claro que eu vou ter mais responsabilidades com algumas pessoas do que outras, mas eu não devo negar outras relações por causa de uma que supostamente seria mais importante. É muito comum o relato de que as pessoas começam a namorar e desaparecem, né? Sim. Para de sair com os amigos, com as amigas. Por quê? Porque está entendendo que há uma hierarquia. O namoro é mais importante que a amizade, né? Então isso é muito viciado já na nossa sociedade e triste, né? E triste porque são relações muito ricas, né? Tanto é que assim, isso já me lembrou de alguns casamentos que ali na hora da festa tem até aquela plaquinha, né, que o noivo segura escrito game over, tipo assim, agora eu não faço mais nada, agora eu serei apenas marido, pai, né? Exatamente. E acho que estamos caminhando finalmente para o conhecimento de nós mesmo, o autoconhecimento, a gente se identificar como indivíduo, como ser humano, entender que sim, a gente pode se relacionar respeitando, amando, sem deixar o nosso eu falar o que precisa ser falado, que a gente tem, né, nossas opiniões, precisa dos nossos momentos a sós e muito Muitas vezes uma relação impede isso, como por exemplo impede uma amizade, né? Impede um relacionamento com a família. Então acho que a gente tá finalmente amadurecendo esse lado. Eu acho que essa é a intenção de todo esse movimento, né? Que a gente consiga ser autêntico com as nossas próprias necessidades, né? Eu estudo também comunicação não violenta e ela vai dizer sobre isso. Eu preciso olhar paraos meus pensamentos, sentimentos e entender as necessidades, que é de onde vem tudo isso. Porque a gente acha que está atendendo nossas necessidades ao cumprir os papéis sociais, mas não está, né? a gente tá deixando de lado. Você disse uma coisa que eu acho muito importante. Eh, a gente fala em não monogamia e já pensa numa pessoa com várias parcerias, mas pode ser justamente o contrário. Eu quero poder ficar sozinho, né? A gente sente falta disso num sábado à noite, eu não sou obrigado a sair, posso ficar em casa lendo alguma coisa e tomar um vinho e tudo bem, né? Eh, sem precisar prestar contas. Eu não quero ir num evento de família, não vá. né? Então assim, é claro que vez ou outra nós vamos ceder por até por consideração as outras pessoas, mas se a gente deixar eh as demandas sociais tomarem conta da nossa vida, a gente não tem nem tempo de olhar pra gente mesmo, né? A inversão que eu falo da formalidade é essa, né? Então, que a gente consiga eh olhar paraas nossas necessidades para entender como está sendo a nossa relação. Se eu não cuido de mim mesmo, eu prejudico a relação. Sem dúvida, né? E assim, a gente vai muito no automático, né? Vai só aceitando, dizendo sim pro outro, mas chega um momento que a gente fala: "Mas esa aí, e a minha vontade aonde fica, né? E o meu querer?" Isso é importante de de colocar na relação, né? Olha, isso aqui também é importante discutir, essa questão de saídas, né? Às vezes um quer sair, o outro não quer. Exato. E exatamente, esse é um grande exemplo, eh, em que o casal, se esse é um campo de estudo comum, né, nessa área, que é o casal ao se formar se fecha numa unidade e as pessoas deixam de existir individualmente, né? É sempre o nós. Uhum. Né? Então assim, nós vamos, nós vamos ficar em casa, nós vamos sair, nós não vamos. Então, por que que não vai quem quer sair e fica em casa quem quer ficar? Então, dissolver essa ideia de casal e não significa destruir relações. Pelo contrário, isso fortalece a relação, aumenta a confiança, né? Eh, e, eh, leva em consideração o que cada um quer. Você só me perdoe, Carla, aquela hora que nós estávamos falando sobre as relações, eu esqueci de mencionar o Poliamor, que talvez seja o um bastante conhecido, bastante falado e foi está entre os primeiros conceitos que depois veio ser chamado de não monogamia, que é a compreensão de que as pessoas podem amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, né? Então, o grande argumento do poliamor é o seguinte: se eu posso amar vários membros da minha família, se eu posso amar vários amigos que eu tenho na vida, por que na relação mais profunda, mais íntima, afetiva e sexual, eu só posso amar uma pessoa por vez? E se eu amar outra, eu tenho que romper com essa. Uhum. Né? Então, a ideia é que não é que nós podemos ser poliafetivos, né? Há muito mais vigilância, inclusive sobre a afetividade do que sobre a sexualidade. As pessoas entendem uma relação sexual fora da relação como, ah, eu não tava bem, eu bebi demais e tudo bem, passou. Agora, afirmar, eu gosto muito de outra pessoa e queria por vezes sair com ela, né, é mais polêmico do que a relação sexual pontual. É exatamente esse ponto, né? Porque muitas pessoas acreditam que qualquer relação que seja fora da monogamia, então vai ser infiel, vai ter ali questões sexuais envolvendo uma escapada, por exemplo, mas não necessariamente para o não monogâmico, essas relações envolvem sexo. Exatamente, né? Tem tem nos grupos as pessoas falam muito: "Eu quero mais é dormir de conchinha". Eu quero bater um papo, né, profundo. Eu quero jogar videogame, né, assim. E às vezes, como eu falei, nem todo mundo atende todas as necessidades. Você pode ter uma parceria que tem uma profundidade emocional, uma empatia profunda com você, mas não gosta de videogame e a pessoa gosta de jogar videogame, não gosta de ir ao teatro e outra pessoa gosta de ir ao teatro, né? Então, nós podemos eh ter relações diferentes sobre demandas diferentes. Agora, o que que a gente tem que considerar para o o dia a dia, né, pensando nessas relações, porque assim, isso ainda tem sido novo, né, para muitas pessoas. Então, às vezes a gente conversa em um bar, locais de trabalho com algumas pessoas, quando a gente depara fica sempre aquela curiosidade, né? Mas e aí? E o seu marido? E a sua mulher? Isso também já deixou, né? Não tem mais tanto assim, ah, não é marido e mulher, é um companheiro. Exatamente. Né? Já não tem mais essa essas nomenclaturas, né? Exato. A linguagem, né? Você tinha falado dos conceitos antes, a linguagem também vai ter que acompanhar, né? Eh, assim, o o caso de marido e esposa são pessoas que são casadas formalmente, né? Uhum. E tudo bem, né? Eh, é até engraçado porque pela Constituição, pela legislação brasileira, nós não podemos praticar a poligamia. Ninguém pode casar no papel com duas pessoas, embora alguns trisa tenham conseguido isso na justiça, né? Mas eh nós nós vamos usar essa essa nomenclatura, né? Marido e mulher ou esposa, quando há de fato um casamento formal, né? Agora, a maioria das vezes fala companheiro ou companheira, né, que é muito comum. Eu tenho ouvido mais recentemente, eu gosto muito da palavra parceria, né? Quer dizer que a ideia é essa, é alguém para ser parceiro na vida, né? E sem definir o sexo, porque um dos problemas que leva também à busca da não monogamia é o caso das pessoas bissexuais. Porque como é que uma pessoa bissexual vai estar plenamente feliz no relacionamento com uma única pessoa? Não tem como. Não tem como. É verdade. Então, a quando você fala parceria, você não define o sexo. Então, pode ser qualquer pessoa. André, considerações finais para esse tema tão importante e tão curioso, né? Relacionamentos não monogâmicos. Olha, eu acho que uma questão muito importante de toda essa história, né, por mais que a gente esteja falando de relacionamentos de outras pessoas, o mais importante é o quanto a gente se conhece nesse processo, né? Eh, justamente enquanto psicólogo, eu tenho a oportunidade de acompanhar pessoas nesse dilema, né, eh, afetivo, né? Hoje eu não tenho falado mais sobre terapia de casal, mas sobre terapia afetiva, né? Porque aí não importa qual o formato da sua relação. Então eu vejo que é uma jornada para o autoconhecimento, né? pra gente entender quais são as nossas necessidades, quais são as nossas buscas, o que me faz feliz e como eu posso buscar isso. Às vezes parece que é muito polêmico, que é muito difícil, mas eh hoje eu vejo que há a possibilidade das pessoas se aproximarem de uma vida mais realizada e mais feliz relacionalmente. Talvez por isso exista aquela aquela frase, né? fazer mais amor, amar mais do que fazer guerras, né? Exatamente. Esse é um ponto crucial, porque para mim a a relação afetiva não monogâmica, pensando que todo mundo de certa forma pode ser um afeto, mesmo não envolvendo sexualidade, ela é uma oposição à cultura de violência e que leva à guerra, ao domínio, a hierarquia sobre o outro, o poder sobre o outro. né? Então acho que você trouxe uma reflexão perfeita para esse fechamento que é vamos buscar amor nas relações em vez de guerra. Perfeito. Muito obrigada pela sua participação. Obrigada. Obrigada a você que nos acompanhou pela tela e continue nos acompanhando, né? Teremos outros assuntos aí para debater nos próximos pontos de vista. Ciao [Música] [Música] [Música]