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Ponto de Vista | Maternidade compulsória: até que ponto ser mãe é uma escolha?
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Ponto de Vista | Maternidade compulsória: até que ponto ser mãe é uma escolha?

82 views Publicado 11/10/2025 HD · 48:19

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O Ponto de Vista desta semana propõe uma reflexão profunda sobre um tema que atravessa gerações e ainda provoca debates intensos: a maternidade compulsória — o nome dado à pressão social e cultural que leva mulheres a se tornarem mães, mesmo quando isso não representa uma escolha pessoal e consciente. A convidada do programa é a psicóloga Yara Lourenço, que analisa os aspectos emocionais, sociais e culturais dessa cobrança imposta às mulheres, além dos impactos que ela gera na autoestima, na liberdade de escolha e na saúde mental feminina. De forma acessível e direta, Yara aborda questões como: Por que a sociedade ainda associa a felicidade feminina à maternidade? Como a cultura, a religião e a mídia alimentam o ideal da “mulher completa” apenas quando ela é mãe? Quais são as consequências emocionais da culpa e do julgamento enfrentados por mulheres que optam por não ter filhos? E como desconstruir os padrões que ainda definem o que é ser “mulher de verdade”? 👩‍⚕️ A especialista também explica que a maternidade compulsória não é sobre ser contra a maternidade, mas sobre garantir que ela seja uma escolha — não uma obrigação. Desde a infância, meninas são socializadas para cuidar, acolher e maternar, enquanto meninos são ensinados a não exercer esse papel. Essa diferença molda identidades, expectativas e desigualdades. 💬 “A sociedade valoriza a mãe, mas pune a mulher. O problema é quando o amor materno deixa de ser uma vivência e passa a ser uma imposição”, reflete Yara durante a entrevista. O programa também apresenta dados recentes do IBGE, que mostram a queda de 3,5% nas taxas de natalidade no Brasil entre 2021 e 2022 — o menor índice em mais de uma década. Entre os motivos, estão o aumento da escolaridade feminina, o adiamento da maternidade e o crescimento do número de mulheres que optam por não ter filhos para investir em suas carreiras, estudos e projetos de vida. 👩‍💼 A psicóloga comenta ainda os desafios enfrentados pelas mães no mercado de trabalho, que ainda demite cerca de 50% das mulheres após a licença-maternidade, segundo levantamentos recentes. Apesar dos avanços legais, como o Marco Legal da Primeira Infância (2016), a falta de políticas corporativas e culturais que acolham a parentalidade ainda é um obstáculo. O Ponto de Vista propõe uma conversa empática e necessária sobre o direito de escolha, os estigmas sociais e a pluralidade de vivências femininas — porque ser mãe deve ser um ato de amor, não de obrigação. 🗓️ Assista na TV Câmara Campinas 📺 Sábado, às 20h, com reprise domingo, às 10h e terça-feira, às 22h, no canal da TV Câmara Campinas e também no YouTube oficial. ✨ Não perca essa discussão essencial sobre liberdade, autonomia e o verdadeiro significado de ser mulher. Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas 🎵 TikTok: https://www.tiktok.com/@tvcamaracampinas 📘 Facebook: https://www.facebook.com/tvcamaracampinas 🎙️ Spotify: https://creators.spotify.com/pod/show/tvcamaracampinas

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[Música] Olá, minha gente. Neste ponto de vista, nós vamos falar sobre a maternidade compulsória. Comigo está a psicóloga Iara Lourenço. Seja bem-vinda, Iara. Muito obrigada, Carla. É um prazer estar aqui com vocês. Agradeço sua participação. Era, nosso tema ele é bastante relevante, é atual também, porém ainda existem alguns tabus, a gente pode falar assim, né? Porque a maternidade ainda é algo cobrado para as mulheres, né? Sem sombra de dúvida. A gente tem, eu diria que é um é um tema novo atual, mas é um tema muito antigo, né? Afinal de contas, a gente vem desse papel social, eh, desde que o mundo é mundo. E eu costumo falar com as pessoas quando eu converso sobre maternidade compositória, pra gente imaginar a sociedade lá quando a gente era tribal, quando a gente estava começando a se separar. Então, houve em algum momento, por algum motivo que a gente nunca vai saber, uma ordem das coisas onde separaram as mulheres e as mulheres ficavam nas ocas, nas tribos, nas casas, cuidando dos filhos, fazendo alimentação, fazendo trabalhos domésticos e os homens iam caçar. Uhum. Então, naturalmente foi se criando uma sociedade com uma distinção. A partir do momento que há uma organização social, começa haver uma distinção. E aí a gente tá, se a gente for puxar, sei lá, de quantos mil anos atrás, 10.000 anos atrás para agora, a gente vai ver o impacto disso hoje. A gente consegue ver na nossa sociedade atual o impacto dessa organização social que começou lá milhares de anos atrás. a gente ainda carrega muito esse essa questão da maternidade por conta da sociedade, por ser uma uma sociedade assim bastante tradicionalista, que tem aquele ideal da família Doriana, o pai, a mãe, os filhinhos, né? É, é muito uma uma família de propaganda, né? Sim. Dúv que a gente sabe que é muito difícil isso acontecer no dia a dia, né? Sim. Na verdade, a gente tem esse ideal, essa questão eh formatada nos dias de hoje. Não tem como a gente tirar o recorte cultural de nenhum momento da nossa instituição, humanidade. Então, sim, a gente tem uma influência bastante acentuada e muitas vezes não percebida dessa construção social que eu falei nos dias de hoje. Você falou da família Doriana, né? Então eu vou aproveitar, já que você usou esse exemplo, eh a família do comercial de Margarina, a família dos comerciais de banco, né, no final do ano, aquela família geralmente muito tradicional, muitas vezes branca, né? Hoje em dia que a gente vê uma diversidade maior, a gente tá vendo uma influência direta na nossa sociedade de um produto de mídia. Então, a gente tá aqui hoje conversando sobre isso, porque é um, vocês têm um produto de mídia que a gente pode sentar e conversar sobre isso. Então, a influência do da mídia, da cultura, da literatura, dos filmes, né, também na nossa construção social é bastante significativa. Então, a gente tem sim uma influência muito forte, muitas vezes menos asperezada, que a gente acha que não tem tanta influência assim, mas é porque ela tá tão institucionalizada que ela não é mais perceptível. Se a gente pensar eh pelo corpo humano, né, eh pela ciência biologicamente, a mulher de fato tem esse preparo para ser mãe. Uhum. Mas essa isso não torna a mulher obrigada a se tornar mãe. Ela tem o aparelho reprodutivo. Uhum. O que não significa que é uma obrigação, que a mulher tem que vir ao mundo para ser mãe. Esse não é o propósito de todas as mulheres. Não, não existe propósito associado à biologia. É, como você disse, é um aparelho que vem dentro das mulheres. A gente se separa biologicamente dos homens através dos nossos órgãos genitais reprodutores. E é só isso, né? Não existe instinto materno, existe um instinto de reprodução, o que é totalmente diferente do maternário, que a gente tava comentando aqui em off, né? Eh, eu como mulher que não quis ter filhos, que escolheu não ter filhos, posso garantir que não falta propósito na minha vida, né? Eu como psicóloga tenho o propósito de ajudar outras pessoas em questões emocionais. Cada pessoa desenvolve seu próprio propósito. Eu acho até bastante controverso você colocar o propósito da sua vida numa outra pessoa, né? Ai o filho é o propósito da minha vida. falou: "Tá, mas e e você enquanto ser humano único, indivisível?" Eh, tá, essa é a sua contribuição. Então, como ser humano, você não tem mais nada para contribuir, a não ser colocar outra pessoa no mundo. E não que não seja digno. Eu acho que é uma coisa maravilhosa e eu diria que talvez, na minha opinião, a coisa mais difícil que uma mulher pode escolher fazer é ter um filho, porque é uma demanda pra vida inteira. Sim. Então, e as pessoas não pensam. Eu falo que a maternidade é compulsória e refletida, porque a gente nunca, eu diria que dos 20, de uns 20 anos para cá, diria que na verdade a partir de Simone de Bovoá, das pensadoras feministas que a gente começou a questionar um pouco mais esse papel, mas espaço mesmo pra gente falar de uma maneira que sofre ainda preconceitos. Nós mulheres que não escolhemos não ter filhos, sofremos preconceitos ainda, mas a gente já tem um espaço um pouco mais seguro para falar disso. Eu diria que de uns 20, 15 anos eh para cá a gente conseguiu ter mais esse lugar de voz e de espaço e que a maternidade está sendo mais refletida e menos romantizada. E por que em pleno 2025 ainda acontece esse tipo de maternidade, né? a maternidade compulsória. Eu acho, Carla, que a gente tá falando de uma questão tão densa, tão difícil, que tem tantas camadas que eu vou dar uma pincelada em algumas coisas que eu penso, mas que com certeza vai faltar muita coisa, né? Eu diria que você pode fazer um ano de programa que não vai esgotar esse assunto ainda, mas a começar pela nossa nosso modelo socioeconômico, né? O capitalismo para a base do capitalismo para existir é o acúmulo de lucro. Sim. Para que alguém acumule lucro, outra pessoa precisa ser explorada. Para que a gente consiga ter pessoas suficientes para explorar, a gente precisa de muitas pessoas. Tanto que a gente tá vendo crises de eh nascimentos em países europeus, na China, na no Japão. E esses países começam a ficar muito preocupados de não ter mão de obra. Uhum. Então, quando a gente tá falando sobre nascimento na nossa sociedade, precisa ter o recorte socioeconômico. Capitalismo precisa de mais gente, porque quanto mais gente tiver, mais gente vai produzir. Algumas pessoas, 0,1% vai acumular muito dinheiro e o resto das pessoas em diferentes proporções, vai acabar sendo explorado por esse sistema. Então, temos isso, temos junto eh a questão do sexo, né, da mulher e do homem. Para que essa sociedade se organize, ela foi dividida. Aham. Né? Ninguém questiona que existem diferenças biológicas entre mulheres e homens. Não existe nenhum questionamento quanto a isso. Costumamos falar: "Ah, as mulheres querem igualdade". Nós não queremos igualdade, porque não tem como a gente carregar três sacos de cimento de 25 kg. Aham. A gente quer equidade, que é condições iguais para todos, não apenas pros homens. Hoje a gente tem uma sociedade onde as mulheres ainda ganham menos, onde as mulheres sofrem muito mais violência eh sexual, física. Se vocês querem um grande exemplo, abram aí qualquer grande portal de mídia e procurem quantos homens foram assassinados pelas companheiras nos últimos 60 dias. Agora, procurem quantas mulheres apanharam ou foram assassinadas por seus companheiros nos últimos 60 dias. É uma diferença absolutamente eh gritante. Uhum. Então, a gente tá numa sociedade que ainda é muito hostil com a mulher. Tem um psicanalista genial que é o contado Carligares, que faleceu há alguns anos atrás e ele tem uma entrevista, acho que ele tava no Roda Viva e ele fala que a nossa sociedade foi construída sob eh o mito da mulher ser aquela que traz o pecado e a devastação. Veja, Eva, né? Ele traz isso, essa reflexão. E eu nunca tinha pensado nisso antes dele trazer. E eu falei: "Cara, é muito verdade, né? Porque a Eva é que tem o primeiro contato com o demônio. Uhum. Então, as mulheres já são colocadas aí num lugar de num papel trazerem para dentro da sociedade judaico cristã o demônio. E a partir disso a gente tem um recorte religioso, social, de construção econômica também, porque a gente tá falando de mulheres ganhando menos que homens, mesmo tendo a mesma capacidade, que permeia tudo isso. Ah, Taiara, você tá fazendo maior volta para falar da maternidade. Sim, porque tudo isso permeia a maternidade, porque hoje ainda nós somos vistas como ameaça, porque uma mulher é capaz de ter um filho, cuidar de uma casa, ter um trabalho. Nós somos as pessoas que t maior escolaridade. Se você pegar os índices do, acho que do IBGE, que foi uma pesquisa que saiu há pouco tempo, as mulheres se formam mais em universidade do que os homens. Uhum. Mas elas ganham razo, acho que cerca de 30% a menos do que os homens com a mesma qualificação. Sim. Então assim, existem muitas camadas nesse lugar de colocar a mulher para maternar, né? É um pouco tirar esse poder da mulher de se equiparar do salário, essa construção de que a mulher traz coisas difíceis. A gente tá vendo bastante isso nas redes sociais com os redels, né, da mulher ser eh subjulgada. Eu não diria que nem submissa, né, a força do homem. Então, a gente tá vendo um movimento de violência novamente contra as mulheres, porque a gente vai consegue ganhar alguns direitos. Tem uma lei Maria da Penha hoje que nos protege, que é uma lei que foi importantíssima, só que sempre aparecem esses movimentos que são mais de cunho conservador para tentar tirar de novo os nossos direitos. Exatamente. Quando você fala até sobre as relações, eu meio que comparo, deixo ali no mesmo no mesmo quadrado, não só a questão da maternidade. Uhum. Mas assim, a questão da mulher dona de casa, que ela tem que cuidar do marido, ela tem que cuidar da casa, ela tem que cuidar da roupa, do cachorro e se vir a criança, ela vai ter que cuidar da criança também. Isso entra no mesmo no mesmo saco de farinha, né? Porque assim, essa cobrança ainda é muito presente na vida da mulher, tanto por ser a mulher dona de casa quanto por procriar. Sim, sem dúvida. E eu acho que uma coisa que você traz é que aparece muito no consultório, que é essa carga mental, né? A carga ambiental de mulheres que não t filhos já é grande e quando elas têm filhos aumenta mais ainda. Porque eh e até tem algumas coisas nas redes sociais, algum uma entrevista, eu lembro de ter visto algumas entrevistas nos Estados Unidos que os pais são tem uma família e o repórter vai perguntar pro pai qual o nome da professora do seu filho e o pai fica olhando assim e não sabe qual é o aniversário da sua primogênita e o pai não sabe. E aí é a mãe é perguntada em seguida. e a mãe sabe todos os dados. Então isso mostra que a gente precisa pensar no no na paternidade também como não como um ai que meu marido precisa me ajudar. A responsabilidade por colocar aquele ser no mundo é equivalente. Sim, é do homem e da mulher. É lógico que a configuração pessoal de cada família, ah, então se só o marido trabalha e a mulher cuida da criança porque ela não tem emprego, porque ela quis ser do lar, tem combinados e isso tem que ser respeitado. Mas de fato o que a gente vê hoje ainda é o começo de homens que estão começando a se movimentar para entender o seu lugar como cuidadores também dos filhos. Tem um psicanalista da década de 50, o Enicot, queia muito para esse lado, porque ele tava no espírito daquele tempo, que era muito da mulher do lar, de cuidar da família. E ele fala da mãe boa, né? Ele coloca no papel materno como o destaque da vida da criança. E não que não seja, porque a mãe é fundamental pro desenvolvimento do bebê, mas e se essa mãe morre no parto? Aquela criança não tem mais saída? Então assim, a gente conhece vários casos de pessoas que não têm a mãe ou que a mãe faleceu ao longo da infância da criança e que se tornaram bons cidadãos, que cumprem as suas responsabilidades. Então, o que justifica esse papel materno ser tão pesado? Se a gente tem exemplos que onde a mãe é ausente e tem pessoas que conseguem dar conta da vida. Uhum. Né? Então, mãe, pai, avós, quando estão interagindo ali, tios, babás, todas essas pessoas tem um papel importante no cuidado da criança. Sim. diria que mãe e pai equivalentes. Se o avô e a avó for entrar, tem que ser muito bem conversado, porque eles também entram como papéis de cuidadores principais, principalmente se a gente for pensar que a nossa jornada de trabalho é de 8 horas semanais, né, por dia. Então assim, 8 horas por dia que uma criança fique em contato com o avô e com uma avó, essas pessoas vão se tornar cuidadores também principais dessa criança, vai ter influência em como ela vai se desenvolver. Então tudo precisa estar muito bem alinhado e dividido. E esse cuidado que os avós têm ou uma babá, né, de repente um vizinho, também é um ato de maternar. Sim, sem dúvida. E eu acho que as babás ainda, eu queria muito ressaltar isso porque aparece muito na clínica, eh, porque as mulheres precisam voltar ao trabalho. Sim. É um momento, inclusive para as mães, muito difícil, porque tem essa dualidade de eu quero cuidar do meu filho, eu quero estar com ele, mas eu também preciso voltar paraa minha carreira. Então, existe uma reconstrução de identidade feminina muito forte na maternidade, o que não é tanto com o pai, porque o corpo do pai ficou o mesmo, ele não precisou amamentar, geralmente quem vai dar os cuidados primários é a mãe. Então tem toda uma diferenciação fisiológica e de divisão de trabalho mesmo, porque é um trabalho maternário, é um trabalho que fique claro que vai impactar nessa mulher. Então ela volta pro trabalho e coloca os cuidados de uma babá. A babá geralmente deixou o filho dela em casa, exatamente, para cuidar do filho dos outros. Então ela tá maternando sim e ao mesmo tempo ela também está ficando ausente para aquele filho que ficou em casa ou ficou na escolinha ou ficou com a mãe dela. Então, a gente tem que olhar que é são tantas camadas nessa conversa que esse assunto não vai se esgotar, porque a gente faz, e eu acho que é o que você tá dando espaço pra gente fazer e eu acho ótimo eh conversar, debater, refletir para que se possa aprimorar, que no final das contas o que a gente quer é que todo mundo tenha mais ou menos a mesma responsabilidade e que todo mundo consiga ter uma vida mais ou menos adequada. tranquila e que tenham boas crianças e que a gente consiga dar contas da criação desses filhos, que eles sejam pessoas dignas, eh, felizes, porém preparadas para lidar com o mundo, que vai frustrar, que vai trazer desafios, etc. Agora, será que a gente pensa nisso quando é criança, né? Porque de de que forma a aprovação social ela se manifesta em mulheres? Porque se a gente pensar assim, quando nós éramos crianças, que que nós ganhávamos de presente, de aniversário? O jogo de panelinha. Uhum. A boneca para fingir que era nossa filha. Sim. E os meninos? Os meninos ganhavam o carrinho, a bola. Uhum. Isso será que também é uma influência? também acaba sendo uma pressão na vida das mulheres, já quando criança mostrar para elas que o caminho da mulher é esse, é ser mãe, é ser dona de casa. Vou entrar num assunto polêmico, tá? Fique à vontade. Mas vamos falar sobre a construção da identidade de gênero aí, porque a gente tá falando assim, biologicamente existe a mulher e o homem, né, a fêmea e o macho, lógico, existe uma diferença de genitais, hormonais, uma série de questões. Aí quando você, vamos supor, ficou sabendo que vai ter uma menina, aí você vai lá na loja de roupa, você compra que cor de roupa? Rosa, rosa. Enche de coisa rosa ou roxinha. Variações, né? Ai, que eu vou comprar. Tem algumas agora que estão indo para um caminho mais neutro, mas no geral quando vai fazer o chá, revelação. Rosa e azul. Rosa e azul, violeta e verde. Então é sempre essa divisão. A gente já tá vendo a construção da identidade social da mulher ou do homem, né? Acontece nos dois casos. Então é muito importante ressaltar isso, que a gente não está falando só sobre mulheres, a gente tá falando da construção da identidade social de qualquer ser humano. Então a gente vai construindo esse repertório das crianças baseados naquilo que a sociedade diz que é bom para elas. Uhum. Hoje, diria que dia 12 de setembro de 2025, nós já evoluímos muito nesse aspecto. Então, tem menina que tá fazendo aulinha de futebol, que tem eh que livros que não distinguem gênero, roupas, etc. Então, que que fazem tudo para qualquer criança, né? Não para o menino e para a menina. Mas há de fato uma separação de gênero nas brincadeiras. Na minha época tinha muito de a menina fica com a boneca, boneca fica com a casinha, fica com as panelinhas, o menino fica com o carro, fica com negócio de laboratório, fica. Então, e eu era da Pavirada, tá Carla? Porque eu queria ler os livros, eu queria o negócio de de brincar de médico, de injeção. Então, eu sempre fui dar pavirada, mas eu acho que existe esse recorte. Hoje a gente tá caminhando para ele ser menos eh significativo. Então eu vejo uma evolução muito grande nisso, até porque os homens estão entendendo que masculinidade não tem a ver com reprimir emoções e com força bruta. Então é importante fazer essa pontuação aqui. E as mulheres estão entendendo que feminilidade não tem a ver com você usar um salto, se vestir de rosa e ser super delicadinho. E aí quando você fala de emoções, existe um ponto também, porque assim, quando a mulher decide não ter filhos, as pessoas questionam de uma forma assim: "Nossa, mas tem alguma coisa de errado com ela? Uhum. Por que que ela não quer ter filho? Será que ela não pode? Uhum. Será que ela tentou e teve alguma decepção? Isso é uma questão emocional também que às vezes não é nem da mulher, né? Ela simplesmente decidiu não ter filhos ou talvez nem tentou, mas a sociedade vem com essa carga, né? Por que que isso ainda acontece? E dessa forma, né? Tão às vezes chega até ser opressor. Eu vi a aquela atriz Paolo Oliveira. Sim. Uhum. Eu fiquei boba assim. Ela atuou 10 anos para uma marca e ela fazia ali durante esses 10 anos dia das mães. Uhum. Eh, fazia o dia da mulher, não sei o quê. E num determinado momento começaram a questionar que ela não deveria fazer a propaganda de Dia das Mães porque ela não é mãe. Uhum. Porque ela não tinha interesse em ser mãe. Então é difícil também pra mulher ter que lidar, né? Ter que enfrentar essa sociedade. Uhum. Carla, eu acho que você compartilhou comigo também que você não deseja ter filhos, né, e que passou por situações. Eu passei por situações pessoalmente muito desagradáveis, com familiares, com outras pessoas que não familiares. E eu sempre falo pros meus pacientes que opinião e conselho bom é aquele que a gente pede. Se a pessoa tá chegando para você, ah, você não vai ter filho, mas você não fala assim, olha, eu não tenho te dar satisfação na minha vida e pronto, porque é uma escolha individual e do casal. No meu caso, eh, eu tô casada há 11 anos e eu conversei com o meu marido quando a gente tinha três meses de namoro. Eu fui um pouco precoce, mas eu falei para ele: "Olha, o que que você pensa de ter filhos?" Porque eu não gostaria de ter. Ele olhou para mim e falou assim: "Tá bom, por mim também. Eu não não gostaria de ter." Então, foi muito bem resolvido. Conheço amigas que tiveram filhos por pressão dos maridos e a sobrecarga e a reformulação de carreira e todo o processo ficou para elas, porque o marido continuou tendo a carreira, construiu, subiu e a mulher ficou ali estagnada, mudou de carreira, teve que fazer toda uma repaginação por conta dos filhos. Os filhos trazem muitas coisas boas, assim, eu não tenho dúvidas disso, mas você tem que saber escolher que você vai doar a sua vida para outra pessoa. Uhum. Você tem que tá minimamente, eu acho que você nunca vai estar pronto. Tem certas coisas na vida que a gente não vai ficar pronto, né? a gente não vai ficar pronto pra morte, a gente não vai ficar pronto para ser pai, para ser mãe. Mas quando você toma uma decisão de ter um filho, você tem que saber que a prioridade deixa de ser você e você tem que ser maduro o suficiente para conseguir dar conta disso. Não é todo mundo, diria que uma quantidade razoável de pessoas que de pais que eu conheço e que pais e mães, né, no geral que eu conheço, não estavam prontas para assumir essa responsabilidade de abrir mão de si, porque as viagens muda, a sala da casa muda, a casa muda. Muitas vezes você tem que ir para uma casa maior, o carro muda, eh tudo no seu mundo vai mudar. Então, se você não tá disposto a ter uma mudança tão profunda de vida, você precisa pensar, fala, tem outras maneiras de eu contribuir com esse mundo, com esse planeta, sem ser deixando um filho aqui. Então, eu acho que tem, como eu falei, muitas camadas, eh muita construção social por trás de todos esses papéis e agora um pouquinho mais de consciência sobre o que ser mãe e o que ser pai significa de fato. Quando a gente fala, né, sobre sobre esses pontos, né, até você comentou, né, o que significa de fato ser mãe, ser pai. Eu, por exemplo, eu penso que assim, eu consigo maternar de várias formas com a minha sobrinha. Uhum. com meus pais, porque eles já estão com uma certa idade. Então, a gente tá entrando numa fase em que eu começo a me tornar responsáveis por eles. Então, a gente brinca, né, que a gente troca de papel com eles e tá tudo bem para mim. Eu acho ótimo isso. Para mim é prazeroso eu poder devolver esse momento para eles. Uhum. Só que para algumas pessoas essa ainda não é a melhor forma de viver, né, de da mulher viver a vida. Tem que trazer um filho, tem que maternar. Eu tô batendo nessa tecla porque assim, eh, ainda existe muita pressão, inclusive até por uma questão religiosa, né? Tem muitas religiões que cobram isso da mulher. Então, independente se a mulher tem uma carreira ou não, se ela se casou com uma pessoa que tem condição ou não, porque isso é muito importante, as pessoas esquecem, um filho, ele vai trazer ali alguns gastos, muito prazer, muito amor, mas é preciso, né, investir naquela criança. Sim, sem dúv. E muitas vezes isso é esquecido. A religião, por exemplo, nem sempre pondera isso, né? Uhum. Sim. Eu acho que um aspecto extremamente importante e relevante a falar sobre isso. Lembrando que ninguém aqui é contra religiões, né, Carla? Mas que a gente precisa pensar esse recorte, né? Eh, quando você fala que vai trazer alguns gastos, eu diria que você tá sendo modesta. É porque os filhos trarão muitos gastos, né? E a gente tá falando de uma sociedade que é baseada no dinheiro. Sim. Então assim, muitas vezes os pais falam: "Ah, onde come três, come quatro". Fala: "Gente, não é bem assim que funciona, né?" E a gente tá vendo essa aqui no Brasil eu falo que a gente tem muito uma construção de eh de ter uma dependência financeira dos bancos e dos financiamentos. Ah, então eu vou conseguir ter um filho porque eu posso parcelar tudo que eu tenho, né? Ah, eu preciso comprar o berço ou parcelo, eu preciso comprar leite ou parcelo. E a gente acaba ficando escravo de um sistema de econômico, digamos assim, eh, que vai levar um pouco de prejuízo, um pouco não, né? Vai levar prejuízo para as pessoas. Então, a grande questão que eu vejo aqui é, primeira coisa, refletir sobre maternidade e paternidade. E refletir inclui todos os custos que você tem com filho. Na Alemanha, os pais juntam primeiro o dinheiro para depois ter o filho. Então, eles têm que pagar até a faculdade do filho para depois eles terem esse filho. É uma questão cultural. Eles formularam isso culturalmente lá. Aqui no Brasil não. Por a nossa influência judaico-cristã é muito forte. E pra Bíblia, e eu digo judaico-cristã, porque isso engloba a Igreja Católica, Sim. E engloba também as religiões que são protestantes. E essas religiões, eh, a gente não pode deixar de falar isso, eu tô só descrevendo um fato, elas são contra métodos contraceptivos, a maior parte delas. Uhum. justificativa bíblica. Quando a gente faz o recorte pro ano de 2025, isso traz um problema, porque na época que a Bíblia foi escrita, há 2000 anos atrás, a sociedade, o mundo era muito diferente, era absolutamente diferente. Então, se você traz isso para 2025, eu não acho que faria sentido, por exemplo, o Papa chegar e falar: "Não, agora tá liberado o método contraceptivo". Hum. Né? Porque a função do papa, da religião é manter uma diretriz. Uhum. Mas eu acho que vai do fiel e de cada pessoa, então, fazer um recorte para sua realidade, ver o que é possível diante dessa realidade, porque às vezes, tudo bem, seria desejar, ah, mas se Deus me mandar, se você for saudável, seu esposo for saudável, você vai ter filhos, né? Isso não é um recorte, não é uma coisa que a gente não é impossível de acontecer se for duas pessoas saudáveis. Então, até que ponto isso é sustentável e até que ponto isso já começa a ferir a estrutura social daquela família. Uhum. Então, vou ter um, vou ter dois, vou ter três. Aí essas crianças vão morar em lugares piores. Hoje em dia a gente tem muito custo com educação, a gente tem muito, né, criança de 5 anos tá com celular na mão. Então, tem toda uma construção social que vai ser afetada por conta da quantidade de criança. Sim. Então, a gente precisa refletir sobre a religiosidade para nos conectar com Deus. Mas eu acho que a questão de como eu vou interpretar isso para trazer para minha vida eh não é muito refletida. Eu acho que é muito falha. Então, a gente pensa muito no que o pastor ou o padre está falando ou um mentor ou qualquer e aí estendendo para outras religiões, para qualquer religião, mas a gente tem que entender como é que aquilo funciona dentro da nossa própria história e da nossa própria vida. Uhum. E aí, se a gente coloca eh na questão econômica, né, se a gente colocar na ponta do lápis, eu acredito que para cidades, pro país, é relevante que as mulheres ou os casais pensem muito bem antes de ter filhos. Uhum. Principalmente no momento que nós vivemos. Uhum. Porque não é só colocar no mundo. Sim. e depois correr atrás de inúmeras eh campanhas e trabalho social que o governo faz. Não é isso. A gente precisa pensar no futuro dessa criança. Sim. E até essa criança alcançar uma idade de independência, é importante também que os pais tenham condições de prover para essa criança o mínimo de conforto. E isso muitas vezes não é pensado, né? É ao mesmo tempo que as pessoas falam assim: "Não, a mãe tem que, a mulher tem que ter filho, tal, não sei o quê, tá?" Mas e pra sociedade é relevante? Será que o país não precisa acalmar um pouco aí na geração de de pessoas para poder aliviar? A gente tem que pensar na fila do SUS. Uhum. Na fila do desemprego, sim. Das escolas que nem sempre tem vagas. Sim. Acho que são pontos que é preciso também ser discutido. Sem dúvida. Você tá falando de planejamento familiar, controles de natalidade, né? Aqui no Brasil não existe, como, por exemplo, na China, o controle de natalidade de você só pode ter um filho, né? Não, não, não estamos numa sociedade que impõe uma regra, mas eu acho que esse controle de natalidade deveria ser um uma reflexão individual, sim, né? De entender que olha, tudo bem, como é que eu vou manter esse filho? Como é que eu eu tenho estrutura? Ah, não, mas eu trabalho e eu conquisto. É lógico. Que bom que tem pessoas que vão conquistando as coisas ao longo da vida. Mas eu acho que precisa haver o mínimo de reflexão para que o maternar dessas crianças seja um maternar e e eu diria até a parentalidade seja exercida de maneira saudável. Então assim, e saudável em todos os aspectos, financeiro, social, de lazer. Então, que engloba tudo da vida de uma criança. Quando a gente fala do Brasil, especificamente, hoje a gente tá em decréscimo já nas taxas de natalidade. A nossa pirâmide de etária, ela tá se invertendo, o que gera uma série de consequências pra gente. Algumas muito boas, outras muito ruins. Por exemplo, se a gente for pensar no nosso sistema de previdência, as gerações mais novas sustentam as gerações mais velhas. Hoje a gente tem os mais velhos vivendo cada vez mais e cada vez menos pessoas nascendo. Então, em algum momento isso vai colapsar, porque essa estrutura foi pensada há muitos anos atrás, tá sendo adaptada para tentar dar conta disso, mas eu acredito que vai ter um momento que vai precisar ser reformulada. De que forma? A gente não sabe, mas é um fato que está nascendo menos crianças hoje no Brasil do que nascia, sei lá, em 1980. Então, a gente já tá tendo essa essa inversão. Qual que é a grande questão? Essa inversão tá acontecendo porque as camadas mais privilegiadas da população é que tá tendo esse poder de escolha. Esse debate que a gente tá fazendo aqui, muitas vezes não atinge quem mais precisa, que são as camadas mais pobres. Uhum. E nós temos legislação, nós temos métodos contraceptivos gratuitos entregues nos postinhos de saúde via SUS, mas a gente não tem a educação. É, e a educação é o que vai salvar todo mundo. A educação pode salvar todo toda a nação de muitas coisas. Eu sou uma pessoa que venho de uma família muito humilde e que através da educação, hoje tô aqui psicóloga conversando com você e com um monte de outras coisas que eu conquistei por conta da educação. Então a gente tá falando de educação sexual, de educação básica, de educação financeira. A gente tá falando de uma série de questões educacionais que no Brasil, infelizmente hoje são muito carentes. A gente tem toda a estrutura do SUS. O SUS é um modelo que é admirado no mundo inteiro. O a grande questão do SUS é ele chega até onde precisa pelas estruturas das UBS que estão nos bairros e tudo mais, mas muitas vezes essa estrutura sozinha não vai educar as pessoas sobre a educação sexual que precisa ter para planejamento familiar. Sim. E educação sexual, que fique bem claro, Carla, não é educar para o sexo, é educação sobre o seu corpo, sobre eh como é que você se defende se alguém tiver te abusando. Então, para você entender o corpo e não como fazer sexo, né? Existe uma distinção absoluta nisso. Eh, qualquer pesquisador minimamente sério vai concordar com o que eu tô falando. E é uma educação que ajuda a garantir exatamente isso que a gente tá falando. Uma natalidade controlada não pela opressão, mas sim pela consciência. Iara, você fez eu recordar de um momento em que eu estava, acho que na sexta série e nós tivemos uma aula Uhum. Se eu não me engano, foi a própria prefeitura que promoveu isso, uma aula falando sobre os preservativos. Uhum. Porque adolescentes, foi uma época em que praticamente todas as salas tinha pelo menos uma jovem grávida. Uhum. E a escola, a cidade entendeu que era preciso falar sobre isso. Uhum. Eu achei aquilo excelente. Só que pouco tempo depois nós soubemos que inclusive mães, né, de colegas acharam absurdo, porque foi falado sobre preservativo feminino, preservativo masculino, sobre pílulas, né, opções para não engravidar, porque ainda não era o momento, porque éramos muito jovens, enfim, falando sobre várias situações que acarretam a gravidez e que a gravidez poderia talvez tal vez atrapalhar um pouco a vida daquela mãe. Só que algumas famílias acharam aquilo um absurdo. Uhum. E será que é realmente um absurdo? Será que não falta isso nas escolas? É exatamente sobre o que a gente está falando, né? Tirando a gravidez e o preservativo tanto masculino quanto feminino, ajuda na prevenção das ISTS, né? Que são as infecções sexualmente transmissíveis. A aides não sumiu, a sífiles não desapareceu, a gente tem contaminação, tem pessoas que estão ainda se contaminando por falta de uso de preservativo. Uhum. Então eu acho que é um é uma conversa muito delicada porque tem um viés moralista sexual muito forte nisso, que vem do fundo religioso conservador que muitas vezes tá, como eu falei, é tão institucionalizado que a gente só consegue ver ele mais evidente quando acontece alguma coisa que mexe de fato com isso. É. E aí a gente falar sobre prevenção vai direto no lugar de as religiões não aceitam métodos contraceptivos, né? Então a gente tá falando de um planejamento familiar, a gente tá falando de algo que muitas vezes vai contra o ideal religioso que vigora, impera ainda no nosso país, que é a judaico-cristã. Então a gente, por isso que eu falo que o recorte precisa ser muito individual, mas para que o recorte seja individual, a gente precisa educar essas pessoas para que elas consigam fazer esse recorte. Porque assim, você teve aula na sexta série, né? Eu lembro de que a minha aula foi na sétima série, eu devia ter uns 13 anos. Eu fiquei chocada quando a professora falou: "Eu não sabia, eu simplesmente não conhecia eh o órgão genital masculino e feminino." Eu lembro que fiquei muito constrangida. E pensando nisso, olha só, é uma criança que não conhece. É. E ela fica constrangida. Lembra que a gente falou que as emoções têm uma função? Então, fiquei com vergonha. Que que é essa vergonha? De onde veio essa vergonha? Que que ela tava falando para mim? Que eu tava fazendo alguma coisa errada. E de onde vem o conceito de que sexo é sujo, sexo é errado? No geral das religiões que falam do sexo com caráter reprodutivo, mas não do sexo com caráter de prazer, de troca, de vinculação. Uhum. Então, a gente tá fazendo um recorte que é muito importante e que enfrenta muita resistência hoje no Brasil, porque a gente tá falando de um viés que vai direto contra o espírito do nosso tempo. Sim. o espírito religioso do nosso tempo. Então, por isso que eu falo, a educação forma o senso crítico. O senso crítico é a capacidade do indivíduo de olhar pra sociedade e entender como ela funciona de uma maneira que ele consiga fazer recortes que sejam adequados paraa própria vida. E Ara, quando a gente fala desses recortes emocionais, a gente precisa lembrar que algumas mulheres, mesmo não querendo ser mães, elas acabam cedendo, né? Uhum. E aí vem algumas frustrações, porque tem ali uma expectativa, mas a realidade acaba sendo de outra forma. Quais problemas psíquicos elas podem desenvolver a partir dessa situação? Eu não quero, mas eu sedi pelo bem da família. Existem uma série de condições psicológicas que podem estar associadas ao estress, principalmente ao estress pós-parto, porque a gente tá falando de uma mulher que tá em privação de sono, de uma mulher que tá com os hormônios podem demorar até um ano para voltarem ao normal, o corpo da mulher voltar voltar ao normal. Eh, a gente tá falando de uma pessoa que provavelmente teve a vida modificada, a rotina, então aquele mundo que ela conhecia, que ela tava segura, não existe mais. Agora tem uma criança chorando e pedindo por ela, né? Então, a gente vê condições de ansiedade, transtorno de estress pós-traumático, depressão, várias condições, bipolaridade. Existem mulheres que abrem quadros eh bipolares, que tem a depressão e tem a euforia, né, que é o quadro oposto pós parto, por exemplo, não pela pressão que elas cederam, mas pela mudança fisiológica. Então, a gente tem questões que são fisiológicas e tem questões que são a e a emoção é fisiológica. Quando a gente se emociona, qualquer emoção que a gente engatilha em nós, ela é basicamente uma fisiologia. Então, alguma coisa acontece no nosso corpo, a gente sente raiva. Alguma coisa acontece no nosso corpo, a gente sente alegria. Então, existem muitas condições. Eu não sei te apontar aqui agora quais são as predominantes, mas se eu fosse dar um chute com embasamento, como eu costumo falar, eu diria que depressão pós-parto talvez seja a mais relevante, porque existe uma alteração hormonal muito significativa e aí isso pode gerar assim qu hormônio, todo mundo sabe, TPM. Uhum. gera flutuação de humor, a gente fica mais irritada, né? Tem até as brincadeiras na internet de dar chocolate pra mulher, por a gente come chocolatinho, libera uma dopamina ali, uma serotonina, então alivia o humor. Então, imagina isso elevado a um nível absurdo, que é o que acontece com o corpo pós-parto e isso pode perdurar. Tem uma coisa que eu acho muito importante a gente falar, Carla, que não, e aí a prova cabal de que não existe instinto materno. É, existem mães que amam seus filhos e odeiam a maternidade. Sim. É mais comum do que as pessoas podem imaginar. E não tem o maternar é sobre a função da maternidade. Isso não tem a ver sobre a emoção, a conexão que se tem com o filho. Porque tem mães que não gostam de ficar sobrecarregada, carga mental, ter que cuidar de tudo do filho. A gente tem no nosso país uma grande parte de mães que são mãe solo. Sim. E aí a mãe solo, ela tem que dar conta de tudo, dela, do filho, do dinheiro, da casa. E aí, como é que a gente olha para essa mulher e fala assim: "Nossa, seja feliz, você ama a maternidade". A maternidade gera uma sobrecarga. Isso é um fato. Eu acho que se você pegar, se a gente pegar aqui um pessoal aqui na frente, na calçada, elas vão falar sobre maternidade, colocar aqui, não vai ter nenhuma mãe que vai falar para você que tá tudo tranquilo, que ela tá conseguindo dormir, descansar, etc. Super bem. Maternidade gera sobrecarga. A questão é que a gente precisa olhar para essas mulheres, né, e para essas mães e respeitar isso, respeitar a dificuldade que é ter um filho, muitas vezes dois, muitas vezes três. Então a gente, eu acho que dentro da nossa sociedade, a gente precisa muito olhar pra maternidade com muito mais respeito, reconhecendo que é um trabalho que muitas vezes é invisível e não remunerado, bem como trabalho doméstico e acolher e dar suporte para essas mulheres. E qual a dica para essas mulheres que ainda estão em dúvida, né? Porque também tem pessoas que falam assim: "Mas você é mulher? Se você não tiver um filho, quando você ficar mais velha? Você vai ficar sozinha. Uhum. Né? Tem tem gente que acha que assim, você tem que ter um filho para cuidar de você na velice, que também não é garantia. A gente vê muitos idosos aí sendo abandonados. Uhum. Então, qual qual a dica você passa para essas mulheres que ainda t dúvida, que ainda não tem eh não conseguiram entender que de fato elas não querem ser mãe, não querem ceder? Uhum. Ou querem, né? Então, tem as duas possibilidades, né? Eh, então para essas mulheres, eu diria o seguinte, nós estamos falando muito aqui sobre conhecimento, né? E eu diria que o autoconhecimento é fundamental para você tomar uma decisão dessa. É você saber como é que tá sua condição financeira, emocional, quais são os traumas que te acompanham ao longo da sua vida, se eles existem. é você saber quais são seus pontos fortes, seus pontos fracos e entender, né, carreira, como é que tá sua carreira, sua carreira tá estabilizada, você tem uma carreira, você quer uma carreira. No meu caso, por exemplo, eu mudei de carreira aos 33 anos. Se eu resolvesse ter filhos, provavelmente eu não estaria aqui conversando com você como psicóloga. Então, é preciso entender que a gente pode pensar sobre isso sem peso e sem culpa, porque você acabou de falar uma coisa que é muito verdade. Antes os filhos, é, a gente tinha filhos em excesso no geral para garantir uma subsistência, uma sobrevivência na velice. Hoje isso não é garantia, filho. Não é garantia de que você vai ter assistência. A responsabilidade de ter um filho e de criá-lo é tamanha, que você tem que pensar muito bem se isso cabe na sua vida nesse momento. No futuro, você pode guardar dinheiro, você vai morar numa vila com amigas ou você vai morar com seu companheiro, com a sua companheira, você pode ter outras saídas. Eu confesso que isso nunca me atormentou, porque eu falei, se eu tiver um filho pensando em quem vai cuidar de mim quando eu for velha, eu vou est sendo uma extrema egoísta. Exatamente. Eu também penso dessa forma. Então assim, eu acho que a melhor coisa pra gente tomar uma decisão e como eu disse, a gente nunca vai ter certeza. Acho impossível ter, tenho certeza. Cravei que eu quero ter um filho. Conheça a você mesma. Converse com você, saiba quais são as suas dificuldades, se tem alguma coisa para ser resolvida. A melhor coisa que a gente pode fazer pelos nossos filhos é se cuidar. Porque antes pra gente dar, eu costumo falar que é cheque especial, né? A gente não dá uma coisa que a gente não tem. Se a gente vai lá na conta tem R$ 0, tem um cheque especial e você precisa pagar alguma conta, você acessa o cheque especial, tem juros, a vida cobra esses juros. Então, antes de você decidir, conheça-se. Iara, muito obrigada por você vir aqui compartilhar o seu ponto de vista sobre maternidade compulsória. Eu que agradeço, Carla. É um prazer est aqui falando com você num tema que é tão importante para nós mulheres e pra sociedade em geral, né? Perfeito. Muito obrigada. você também que nos acompanhou pelas telas e continue acompanhando a programação da TV Câmara Campinas. Ciao [Música] [Música] [Música]
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