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Ponto de Vista | Letramento racial: como combater o racismo no Brasil
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Ponto de Vista | Letramento racial: como combater o racismo no Brasil

123 views Publicado 22/11/2025 HD · 38:01

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No episódio de hoje do Ponto de Vista, discutimos um dos temas mais urgentes e necessários do debate público brasileiro: o letramento racial. Mais do que um conceito acadêmico, o letramento racial é um conjunto de práticas educativas que capacita cada pessoa a identificar, compreender, analisar e enfrentar o racismo presente nas estruturas sociais, nas instituições e nas relações cotidianas. Para aprofundar essa conversa, recebemos a advogada Paola Fernanda Mineiro, pesquisadora, consultora em raça e gênero, mestre em Direito e integrante do Conselho da Comunidade Negra. Com sua experiência e atuação voltadas às relações étnico-raciais, Paola explica por que esse processo é fundamental para construir uma sociedade mais justa, crítica e efetivamente democrática. A Academia Brasileira de Letras define o letramento racial como práticas pedagógicas que conscientizam sobre a estrutura do racismo e preparam o indivíduo para reconhecer e combater ações discriminatórias. Esse entendimento dialoga com estudos de pesquisadoras como Lia Vainer Schucman, que reforça que o racismo está arraigado na formação social brasileira e se reproduz diariamente — muitas vezes, de forma naturalizada. Durante o programa, exploramos elementos centrais do tema, como: 🔎 O que é letramento racial 🔎 Por que ele é tão importante para brancos e negros 🔎 Como acontecem as desigualdades raciais no Brasil 🔎 Racismo estrutural, institucional e religioso 🔎 O papel da branquitude e o reconhecimento de privilégios 🔎 A importância do vocabulário racial e da desconstrução de expressões racistas 🔎 A necessidade de políticas públicas, representatividade e educação antirracista Também abordamos o impacto da legislação, especialmente após a Lei nº 14.532/23, que equipara a injúria racial ao crime de racismo, e discutimos como decisões judiciais emblemáticas — como o caso João Alberto, no Carrefour — ampliaram o debate sobre responsabilidade social e reparação. A conversa evidencia que letramento racial não é uma pauta apenas de pessoas negras. É um convite para que toda a sociedade compreenda que o racismo é estrutural, histórico e atual. É também um chamado para reconhecer suas múltiplas formas — explícitas ou sutis — e agir conscientemente para transformá-las. Este episódio é um conteúdo essencial para quem deseja: ✨ se educar sobre raça e antirracismo ✨ compreender os mecanismos que produzem desigualdades ✨ aprender a identificar comportamentos e discursos racistas ✨ fortalecer debates dentro de escolas, empresas e instituições públicas ✨ apoiar uma sociedade mais plural, segura e equitativa 📺 ASSISTA AO PROGRAMA COMPLETO e venha participar desta reflexão fundamental para o Brasil que queremos construir — um país onde todas as pessoas sejam reconhecidas em sua dignidade e tenham seus direitos garantidos. 🗓️ Exibição: Ponto de Vista – TV Câmara Campinas 📍 Data: [inserir data da transmissão] ⏰ Horário: [inserir horário de exibição] 🎙️ Apresentação: [nome da apresentadora] Deixe seu comentário, compartilhe este conteúdo e participe do debate! Seu engajamento fortalece a construção de uma sociedade mais consciente e antirracista. 🌐 Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas 🎵 TikTok: https://www.tiktok.com/@tvcamaracampinas 📘 Facebook: https://www.facebook.com/tvcamaracampinas 🎙️ Spotify: https://creators.spotify.com/pod/show/tvcamaracampinas

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Olá, o ponto de vista de hoje vai falar sobre letramento racial, que traz entre vários estudiosos da luta antiracista o conceito de práticas educativas que capacitam indivíduos a compreender, analisar e questionar o racismo em seus conceitos sociais. históricos e institucionais. E pra gente entender melhor esse conceito, como cada um de nós pode no nosso dia a dia eh ser mais um soldado, soldada nessa luta antirracista, nós temos aqui hoje no estúdio a advogada Paola Fernanda Mineiro, que é pesquisadora, consultora em raça e gênero, mestre em direito e também faz parte do Conselho da Comunidade Negra aqui de Campinas. Paola, seja bem-vinda. Muito obrigada e agradeço o convite. Paola, eu vou, antes de nós começarmos, ler aqui algumas algumas coisas. Olha, a psicóloga e pesquisadora Lia Schuman diz que o letramento racial está relacionado principalmente com a necessidade de desconstruir formas de pensar e agir de formas naturalizadas. Já o artigo, né, também eh já não é em consonância a essa proposta, a essa ideia no artigo letramento racial, um desafio para todos nós, da socióloga Neid de Almeida. Ela coloca como letramento o e que ele é político e construtor de sentidos e que para se combater o racismo é preciso que os sistemas de ensino e de formação sejam inseridos dentro de currículos de práticas antiracistas. E ainda nós temos também a antropóloga afro-americana Franc Twin, que formulou esse conceito partindo até dos da pesquisa da Lia, dizendo que o letramento racial é uma forma de responder individualmente às tensões raciais ao lado de respostas coletivas na forma de cotas, de políticas públicas. Ele busca reeducar o indivíduo em uma perspectiva antirracista. Com tudo isso, eu queria que você também colocasse o seu ponto de vista a respeito de quando a gente pensa nessa essas duas palavras. Bom, eh, primeiramente é importante a gente considerar que o letramento racial vai entender raça no seu ponto de vista social e não biológico. A partir deste ponto de partida do entendimento de que raça é uma construção social, aí sim pode ser entendido que essas práticas de adoção de eh aspectos educativos, sociais, políticos vão fazer parte de uma análise de contexto histórico social desse entendimento de relação entre raça e poder no Brasil. Então, a partir das hierarquias raciais, como a gente entende o lugar dos indivíduos, o lugar dos grupos raciais dentro da sociedade? Sim. E a partir disso, então, quando a gente começa a ter esse entendimento histórico, como a gente começa então a trabalhar a importância desse letramento racial, até porque para eh para quem tá em casa, muitas vezes eh nós mesmos da comunidade negra, às vezes usamos coisas que até então eram consideradas normais e que é preciso não só para os brancos, mas para que toda a sociedade entenda esses esse contexto e esses muitos, inclusive termos que estão em desuso, que trazem, na verdade, um forte conteúdo racista. Bom, a importância do letramento racial é fundamental em qualquer parte da sociedade, seja em qualquer faixa etária, em qualquer classe social. Por quê? é o entendimento de porque as coisas estão como estão. É o entendimento da realidade e a abertura, a possibilidade de, a partir de uma análise honesta de experiências coletivas, de contexto histórico e de manutenção de hierarquias raciais, como a gente pode mudar esse cenário no Brasil? A partir da identificação, aí sim é possível combater o racismo. Sim. E quando a gente pensa isso na prática, como que cada um de nós, isso é formação, eu falei até da questão da educação. Uhum. Mas nós adultos, né, nem sempre temos acesso, nem sempre as pessoas estão indo mais às escolas, a não ser que continuem estudando, fazendo ensino superior e outra coisa. Mas o que não se aprendeu na escola, dá para aprender na sociedade, no dia a dia, e mudar atitudes, mudar práticas até que há muito tempo eram aceitáveis e que hoje são inaceitáveis. E quais são elas? Com certeza sempre é tempo de mudar. A sociedade é um órgão vivo, então nós sempre podemos melhorar. E o avanço da sociedade vem, como eu disse, a partir da identificação de questões discriminatórias e passar para o combate da antidiscriminação. Nesse caso, quando a gente fala de racismo no Brasil, existe eh mais determinada questão de racismo antinegro e racismo anti-indígena. A partir dessa perspectiva que estamos trazendo hoje de racismo antinegro, identificamos como aspectos importantes de racismo direcionados à comunidade negra. por exemplo, reforço de estereótipos a partir de racismo recreativo que vai utilizar do humor para reforçar questões eh de estereótipos racistas voltados para eh reforço de que pessoas negras não são inteligentes, não são capazes e assim por diante. uma série de questões também podemos passar no letramento racial a partir de conceitos importantíssimos de racismo estrutural, como aquele que tem por sua base as estruturas sociais, como por exemplo política, seja seja ela partidária ou não. É, podemos fazer um retrato, por exemplo, do Congresso Nacional para identificar a ausência de representatividade da população negra e como isso repercute em ausência de políticas e públicas efetivas e de garantias de direitos para esse público. Ainda sobre racismo estrutural, identificamos o contexto jurídico, olhando, por exemplo, para o judiciário brasileiro, que traz as mesmas perspectivas do Congresso Nacional. E por último também essa relação de economia e população negra, por exemplo, identificando porque a população pobre no Brasil é majoritariamente população negra. enfim, a partir do estudo de alguns conceitos e também entender porque alguns termos não são mais utilizados, porque abandonar aspectos que antes poderiam ser entendidos como pura diversão, pura brincadeira, mas que hoje a gente tem um entendimento de que reforça o imaginário social de submissão da população negra. Então, a partir do entendimento de conceitos, mudança de termos, adoção de novas práticas antiracistas, podemos mudar a sociedade. Bom, para ficar bem claro para quem tá lá em casa, Paola, eu vou começar, a gente vai fazer meio que um beabá aqui, tá bem? Por exemplo, quando uma pessoa antigamente chegava e dizia: "Nossa, ela é uma molata linda". Uhum. Aí outro dia até uma pessoa perguntou: "Ué, mas que que tem falando o que, linda?" Hum. E aí tem que discorrer. Sim. Então vamos discorrer para quem tá em casa e que porventura tem ouvido ou ainda diz esse tipo de de termo achando que na verdade é um adjetivo, um elogio e não é. Gente, vamos dar isso como exemplo. Por exemplo, eh a desumanização de corpos negros é uma prática racista. A partir desta prática, utilizando esse termo de mulata, identifiquem que a mula, por exemplo, é um animal. Então, a aproximação entre mulata e mula também traz um histórico de animalização de corpos negros. Por isso, este termo não é adequado. Ele não pode mais ser reproduzido com naturalidade. A humanização da população negra, a humanização de corpos negros faz parte de práticas antidiscriminatórias. Outro termo que, infelizmente, a gente ainda ouve, denegrir. Denegrir, certo? Esse é um outro termo muito comum. As pessoas não sabem a raiz das palavras e por isso a reproduzem muitas vezes. Denegri significa especificamente tornar negro. E se você utiliza um termo com fundo pejorativo direcionado que tornar algo negro é tornar algo pejorativo ou tornar uma imagem prejudicial, aí você está utilizando eh o tornar negro em uma perspectiva negativa. Por isso também é um termo a ser em entrado, né, em desuso. Sim. E nesse contexto, quando as pessoas, eu inclusive esses dias, a gente participou hoje de vários grupos de WhatsApp e uma pessoa tava anunciando eh um jogo de cama com um criado mudo. Hum. É outro termo, gente, que para quem não conhece acha que tá tudo bem, mas tem uma origem nessa nessa palavra, esse conjunto de palavras aí que é importante também a gente mostrar. Claro. Bom, no período escravocrata no Brasil, eh pessoas negras não eram consideradas humanas, conforme a gente já tinha discutido anteriormente, eram consideradas peças ou objetos. E qual é a função de um aspas criado mudo no período escravocrata brasileiro? Suportar objetos. Então, imagine uma pessoa no canto de uma cama ao longo da noite, madrugada, horas e horas segurando o objeto. Isso não humaniza nenhum tipo de pessoa. Então, o a função de segurar algo era a função voltada a pessoas escravizadas também naquele contexto. Então, em beira de cama e outros espaços da casa. Portanto, criado mudo faz alusão a pessoas negras, escravizadas, que tinham como única função social segurar objetos. Sim. Agora, uma outra questão que, infelizmente, eu acho que a gente ouve um pouco menos hoje, mas ainda é horrível. Uhum. Ah, eu não sou racista, eu tenho um amigo negro. Sim. É horrível. É horrível. É horrível. Isso faz parte de uma prática também racista muito grave, que é a tokenização. O que é isso? Significa que você vai se apoderar de alguma relação ou algum objeto ou algo que você tenha ou desfrute para justificar ou para afastar qualquer tipo de alegação de prática racista. Então, por exemplo, ah, eu tenho um amigo negro, então eu não sou racista. Você ter uma relação afetiva com uma pessoa negra não significa que dentro desta relação não ocorram práticas de poder baseadas em racismo. Então, ter uma relação com uma pessoa negra não significa que você deixou de ser racista com outras pessoas. E é importante também a gente entender que quando dizemos sobre racismo, a gente não tá trazendo o racismo enquanto algo no campo moral. Não é ah, é feio ser racista, hoje em dia não é legal ser racista. Não, isso é crime. A gente tá falando sobre garantia de direitos. Não é moralizar algo, é entender que constitucionalmente as pessoas devem ser tratadas com igualdade e que, por isso, em um avanço da sociedade a gente vai ter que mudar práticas, mudar termos e tudo mais. A sociedade é um órgão vivo, como eu disse, então estamos em constante mudança. Se antes era comum a palmatória nas escolas e depois com advento, por exemplo, da do ECA e de outro outras normas, né, de proteção e garantia de direitos a crianças e adolescentes, mudamos um paradigma de violência. Se antes era normal que mulheres não tivessem direito, não fossem consideradas capazes para tomar decisões sozinhas, sem pais ou maridos, mudamos também esse entendimento. Com a população negra não vai ser diferente. A gente vai ter que mudar perspectivas, entendendo que a desumanização que ocorria antes e que ainda hoje reverbera não é mais normal, não pode ser aceita e por isso vamos mudar legislação, práticas, comportamentos e etc. Para voltar um pouquinho, Paola, muito se fala, inclusive você mencionou também nessa questão o que a gente precisa entender o racismo estrutural. Para quem tá lá em casa, vamos lembrar o que é o racismo estrutural. Bom, o racismo estrutural ele tá relacionado com discriminação sistemática. Isso significa que entre a estrutura, por exemplo, de governo, de eh respaldo jurídico, hã, questões econômicas e políticas partidárias ou não partidárias, a ausência de pessoas negras ou a subrepresentação de pessoas negras faz com que as pessoas que estão nesses espaços, que são espaços de poder na sociedade, espaços de assinar a caneta, espaço de mando e de desmando que tenham uma única perspectiva de uma única ala da sociedade. Sim. com essa única perspectiva que geralmente é de pessoas brancas e ricas, essa esse entendimento do que é ser, estar, bem viver, desfrutar e das garantias de direito, ocupar espaços, fica relacionado, óbvio, a este único grupo dominante. Isso faz com que perspectivas de povos negros, povos indígenas, mulheres e outras alas da sociedade que constituem a nossa sociedade não sejam absorvidas. Então, experiências da população negra, por exemplo, que poderiam nos auxiliar paraa resolução de conflitos em muitas áreas do Brasil não são consideradas e são considerados apenas pensamentos e reflexões que fazem a manutenção de exploração socioeconômica, de população pobre, eh discriminação, manutenção de discriminação racial, manutenção de discriminação de gênero e outras questões também. Isso. A gente vê no dia a dia, quando até vou fazer aqui uma meia culpa da imprensa. A gente vê nas manchetes de jornal, quando tem um uma notícia sobre um crime cometido por um branco, a manchete é escrita de uma forma e geralmente quando é cometido por um negro é de uma outra maneira. Exato. Isso é responsabilidade, né, de todos nós enquanto sociedade. Lembrando que racismo não é uma questão moral de culpa ou ausência de culpa. É uma questão de responsabilização por garantia ou violação de direitos. Nesse sentido, eh, olhando pro judiciário, a gente vê uma população masculina, branca e muitas vezes rica, olhando para o Congresso Nacional essa mesma perspectiva, olhando para quem é a população rica no Brasil, temos os mesmos corpos. Isso cria um imaginário social de até qual lugar pessoas negras podem ir. Tanto que a gente teve recentemente esse movimento para que fosse eh nominado aí um uma ministra mulher e negra do STF. Foi uma grande mobilização. Mobilização justamente com essa visão, porque a gente não tem nenhuma representação nesse sentido. A exato. E esse entendimento é importante não para uma representatividade vazia de colocar corpos negros em espaços de poder simplesmente por colocar. Essas pessoas têm que ocupar esses espaços com igual poder de decisão e também porque tem igual conhecimento, capacidade e tudo mais. Não é só cumprir cota, não é isso. Exatamente. Exatamente. Trazer experiência, por exemplo, de uma mulher negra para o STF, que é o último recurso no Brasil de decisão, é um um uma questão muito importante. Então essa mobilização e outras que eventualmente ocorram, seja para o STF ou para outros espaços de poder de decisão do Brasil, são fundamentais para que a gente consiga mudar não só o imaginário social, mas como as coisas são decididas no Brasil, quem ganha, quem perde, como seguiremos enquanto sociedade. Dentro desse escopo do letramento racial, também creio que seja importante a gente entender o que é injúria, se há alguma diferença, até porque hoje a gente tem essas questões, eu acho que ainda engatinhamos, mas engatinhamos, digamos assim, sim. Sim. Do que é injúria racial, se ela já é o que é discriminação, se é a mesma coisa. Vamos explicar certinho para quem tá lá em casa. Bom, primeiro eu vou fazer uma retomada trazendo um pouquinho a questão de crime de racismo e injúria racial. Em 2023, a legislação mudou a lei KAO, que é a lei que disciplina crimes de racismo, injúria racial e outras questões. Isso significa que se até 2022, por exemplo, injuriar alguém em razão de raça, cor, procedência nacional, por exemplo, ofender a eh honra de uma pessoa negra, fundado em um uma discriminação por ela ser uma pessoa negra, eh se antes isso não era possível eh ser preso, porque era possível inclusive pagar fiança e sair no mesmo dia e aguardar o julgamento em liberdade, se antes injuriar alguém tinha prescrição, ou seja, tinha um prazo específico e se a pessoa negra não fosse atrás dos seus direitos, perdia aquela oportunidade, certo? Para que a outra pessoa agressora fosse julgada. Depois, em 2023, com a equiparação do crime de racismo e de injúria racial, os dois crimes praticamente não tm diferença agora, a pena é a mesma. Em relação aos dois crimes, a pessoa agressora não vai poder pagar fiança. A pessoa agressora não tem prazo de prescrição. Ou seja, significa que a pessoa ofendida em qualquer momento, passado 1 2 3, 5, 10, 20 anos, pode buscar os seus direitos porque não vai mais prescrever. E aí tem uma questão que é puramente uma questão teórica, não tem mais eh diferença prática, mas é importante identificar. A injúria racial, ela está relacionada à ofensa, honra da pessoa, de uma pessoa, do indivíduo. E o racismo está relacionado a ofensa, à agressão racial, da coletividade, daquele grupo racial. Mas de novo, para afincar, mesmo que a pessoa tenha ofendido uma pessoa, mas ela usou um termo coletivo. É isso ou não? hã, ela foi voltada para o coletivo. Então, por exemplo, hã, se uma pessoa ofende um grupo de pessoas negras dizendo eh ofensas em relação à aquela coletividade, é uma coisa. se ofende uma pessoa negra identificando um estereótipo racista voltado para aquela pessoa negra, aquele indivíduo? Aí é uma outra questão. Isso tá relacionado à injúria, ao indivíduo e ao crime de racismo, à coletividade. Sim. Agora, na prática, né, o que que a gente já tem visto, apesar a lei ela é praticamente bem novinha, né, como dis está engatinhando, mas a gente já tem algum, isso já tá gerando algum resultado, a gente vai ter que esperar um pouco mais. Isso já tem gerado muitos resultados. A ausência de possibilidade de criminosos saírem sob fiança enquanto estão aguardando julgamento já é uma prática. Isso já ocorre porque a lei aspas já pegou, a lei já tá sendo aplicada. Então, sobre esse ponto, perfeito, é um ótimo avanço, fruto de organização, mobilização de alas da sociedade, de movimentos sociais. Mas é óbvio, se a sociedade ainda não entendeu o que é o crime de racismo, o que é o crime de injúria racial, como denunciar, quais são as informações importantes, por exemplo, para um boletim de ocorrência, é muito difícil que todas as pessoas sejam beneficiadas por buscar os seus direitos se elas não conhecem exatamente quais são os seus direitos. Por isso é tão importante um programa como esse, por exemplo. Agora, quando a gente fala em racismo institucional, exatamente o quê? Racismo institucional está relacionado a práticas discriminatórias da instituição. O que você está chamando por instituição, Paola? Existem diversas. Existe instituição enquanto a empresa que uma pessoa trabalha, instituição enquanto um banco que a pessoa eh pode ou não ser mal atendida. E aqui eu vou trazer dois exemplos, um em relação a direito do consumidor e um em relação a direito do trabalho, tá? em relação a um empregado, uma empregada de uma empresa que tenha uma dificuldade de alcançar um outro estágio no seu cargo. Então, tem uma dificuldade muito específica em ser promovida, mas eh tem todos os requisitos, tem antiguidade na empresa, tem eh ensino superior, por exemplo, se isso for um requisito para alcançar uma promoção de um cargo, mas nunca consegue essa promoção. Isso pode ser uma prática de racismo institucional. Se pessoas tem uma nova funcionária com menos conhecimento, ultrapassa aquele cargo, mas aquela pessoa continua lá. Isso pode ser um alerta para uma possível prática de racismo institucional. Se tem, por exemplo, uma divisão de pessoas que podem ficar na recepção como primeiro contato ao cliente e pessoas que vão para os fundos em outro espaço de trabalho que não são vistas, não podem ser vistas. Então o corpo negro nesse sentido, não vai ser um um corpo que vai representar aquela empresa, vai ser escondido. Isso também pode ser um indício de prática de racismo institucional. Outras questões estão ligadas, por exemplo, a pessoas de mesmo cargo, mas que recebem eh salários diferentes. Isso também pode ser um indício de racismo institucional dentro do direito do trabalho. Em relação, por exemplo, a direito do consumidor, podemos identificar eh práticas de perseguição da população negra em ambientes como mercados ou atendimento discriminatório em bancos. Estas e outras questões também, por exemplo, quando a gente pede uma linha de crédito e paraa população branca brasileira recebe, por exemplo, R$ 100.000 com facilidade, entregando os mesmos documentos básicos, tendo a mesma experiência, mais para a população negra, recebe uma linha de crédito de até R$ 50.000 de empréstimo. Por que essa diferença? Mas é difícil identificar nesse caso, hein? É muito difícil. Por isso é importante também a pesquisa no Brasil. Tem muitas organizações que se ocupam justamente de pesquisar qual é a forma, qual é o tratamento, qual é o espaço que pessoas negras têm em determinados eh locais. Sim. Agora você inclusive mencionou a questão do supermercado. Infelizmente isso acontece muitas vezes que a gente percebe quando entra uma pessoa negra, o guarda, né, o vigilante daquele supermercado, ele começa de certa forma andar mais naqueles corredores em que a pessoa negra está. E se uma pessoa branca faz o mesmo caminho, isso dificilmente acontece. Como que dá para a pessoa identificar que aquilo é uma atitude de, por exemplo, de racismo institucional? Porque, por exemplo, se ela perguntar, ela pode dizer: "Não, eu só tô só tô acompanhando, eu tô fazendo o meu trabalho". Como que é isso? Eu digo porque já aconteceu comigo. Sim. E eu questionei porque essa pessoa estava onde eu andava e aí a pessoa falou: "Não, tô fazendo o meu trabalho". Sim. Bom, existem algumas questões sobre isso. Primeiro, o nosso primeiro contato de embate vai ser com aquele segurança privado daquele espaço. Essa pessoa muito dificilmente tem o poder da decisão de ir ou não eh fazer este trabalho, porque essa pessoa foi treinada para isso. E aqui eu não estou afastando a responsabilidade porque é uma situação de racismo. Sim, e essa pessoa deve ser responsabilizada, mas também a empresa de treinamento deve ser responsabilizada sobre esse ponto de vista, porque a identificação de um corpo negro como um corpo que oferece risco foi a partir deste treinamento, certo? E quem é negro, quem é negra vai sentir, vai saber, vai identificar, por mais que isso seja comum, seja normalizado, a gente sabe, a gente sente. E o nosso, eh, papel vai ser um, segurança psicológica num primeiro momento, porque isso adoece. Dois, se houver um embate de, olha, eu percebi que você está me perseguindo porque identificou um corpo negro como um corpo que oferece risco, ou o imaginário social de que é um corpo que rouba, que furta e assim por diante, a partir daí também é necessário interpelar, chamar paraa responsabilidade essa pessoa que está perseguindo, mas também entrar em contato com essa empresa, com esse espaço de consumo, para que esses essas pessoas, esse CNPJ J também eventualmente seja eh responsabilizado. Isso acontece como boletim de ocorrência, pesquisa e busca de ajuda jurídica. Agora, uma questão também que deve ser enfrentada é o racismo religioso. Queria que você falasse um pouquinho desse contexto. Bom, o contexto de racismo religioso e por a gente utiliza racismo religioso e não intolerância religiosa é muito importante. Primeiro, a intolerância religiosa seria uma intolerância e um discurso de ódio sobre crenças, sobre fé, sobre práticas religiosas, voltado para qualquer religião. Mas no Brasil a gente sabe quem sofre esse tipo de mal e no geral é a população negra ou então população branca que também professe fé de religiões de matriz africana. Isso está relacionado com o discurso de ódio, com eh o utilização de termos pejorativos sobre crenças, fé de religiõ matriz africana, por exemplo, Umbanda, candomblé, jurema e outras questões. O racismo religioso, ele vai atacar quem? Quem professivas manifestações religiosas? Por exemplo, no Brasil, no dia 2 de fevereiro, é muito comum que se comemore, né, se celebre e emanjar. Então, também, infelizmente, é comum que agressores se dirijam até manifestações religiosas nas praias do Brasil e que insultem, ofendam, eh, causem situações de pânico também em momentos de manifestação religiosa de matriz africana. E então consiste basicamente nisso o racismo religioso. Agora, quando há o letramento racial, tanto de brancos quanto de negros, qual qual que é a importância disso nesse contexto da sociedade atual? Bom, eh, primeiro ponto, eu vou retomar uma coisinha antes que eu acredito que seja interessante, que é falar sobre quem é branco no Brasil e os brancos pobres. E já chego na sua na sua pergunta novamente. Por quê? Muitas pessoas falam: "Olha, não é só a população negra que sofre no Brasil. Tem muita gente branca e muita gente pobre que sofre. E é verdade. E sofrem em razão da exploração econômica, não em razão da raça. Esse é um ponto importante. É possível que pessoas brancas tenham eh questões muito sérias para tratar, sejam desrespeitadas em espaços públicos ou privados. Sim, é possível e isso deve também ser afastado, mas elas vão sofrer em razão de outros contextos sociais, não em razão de racismo, certo? Então também muitas pessoas brancas pobres sofrem com discriminação por serem pobres, mas não por serem negras. Esse ponto é importante, Paola. Mas entendendo também que essas pessoas sofrem, como a gente vai entender a importância de focar em letramento racial e não somente de afastar a exploração econômica ou questões ligadas à discriminação em razão de classe social. Primeiro a gente tem que identificar o que cada discriminação está ofendendo, qual tipo de prática discriminatória está tendo como resultado. afastar igualdade, afastar liberdade, afastar ocupação de espaços para aí sim a gente conseguir eh discutir como mudar esse cenário. A partir do letramento racial, pessoas, sendo elas brancas, negras ou qualquer outra raça, de novo, no seu sentido social e não biológico, elas têm o dever, a responsabilidade, inclusive constitucional de assegurarem garantia de direitos, bem viver para a sociedade de forma completa. Quando a gente fala de população negra, o letramento racial vai ser uma ferramenta eh possível, porque vai identificar como funciona a hierarquia racial no Brasil, porque as pessoas negras estão onde estão, é possível mudar a sociedade ou não é possível, qual é o histórico de leis racistas no Brasil ou por é importante cotas, enfim, um um conjunto de fatores para que a gente consiga impulsionar essa população negra para um novo espaço na sociedade. E quando a gente fala sobre outras alas da sociedade, por exemplo, a exploração socioeconômica, porque as pessoas pobres no Brasil são pessoas que também sofrem discriminação e outras questões, aí a gente pode discutir, por exemplo, um letramento mais voltado para a classe social. Sim. Agora, para fechar o nosso programa, vou sair um pouquinho fora. A gente tá nessa discussão por uma reparação, inclusive com proposta e tudo mais. queria que você falasse o seu ponto de vista sobre essa questão da reparação. Bom, a reparação é fundamental, por quê? Não significa que, de novo, outras alas da população não tenham que ser reparadas por outros males que sofreram. Mas falando especificamente da população negra, nós tivemos um conjunto de leis, um conjunto de práticas políticas que efetivamente trouxeram desvantagens sistemáticas para a população negra no Brasil. Por exemplo, quando a gente fala de acesso à educação formal paraa população negra e que a as cotas raciais em universidades públicas foram e são necessárias, é porque houve em outro momento uma legislação no Brasil que impediu que a população negra estudasse em espaços públicos. Quem estudava estudava escondido, escondido como forma de resistência. Então, entendam, se durante muitos anos existia uma proibição para que a população negra pudesse ter acesso à educação como reparação, é necessário que hoje a população negra tenha o oposto dessa desvantagem histórica. Então, uma vantagem como reparação e não como uma mera eh forma de vantagem sem nenhum tipo de justificativa. É a reparação daquele direito que foi violado e que até hoje tem repercussão. Então, que as cotas raciais em universidades públicas sejam um espaço importante. Outras formas de reparação também são possíveis, seja elas no mercado de trabalho, por exemplo, cotas no serviço público brasileiro. Sim. ou outras áreas também voltadas, por exemplo, para a política, o posicionamento da população negra a partir de eh corpos negros na política, trazendo experiências coletivas e formas de resolver soluções no Brasil a partir de política partidária ou não partidária e outros espaços também. Então, a recuparação ela vem para inverter a desvalorização histórica, a desvalorização sistemática foi baseada em lei, em classe social e em política no Brasil. Quando a gente pensa, inclusive todo mundo, né, quando a gente tinha aquela antiga cartilha na escola, ai 13 de maio, foi a libertação dos escravos e aí ficou tudo bem. E na semana seguinte ou um pouco tempo depois começaram a chegar povos de outros países que, claro, deram a sua contribuição mais mediante de pagamento. Eu acho que isso é um exemplo claro para nós, né? Exato. Que nós somos deixados à rebelia. Com certeza. Com certeza. Se num primeiro momento houve uma política de embranquecimento no Brasil pós eh abolição da escravidão no Brasil, que teve como foco trazer população europeia para que em determinado tempo, por exemplo, em 100 anos, não houvessem mais pessoas negras no Brasil, a gente tem também o entendimento de que, é óbvio, e essas populações tiverem tiveram, né, sua contribuição eh na construção inclusive da cultura nacional, Mas a população negra, que foi deixada a rivelia não recebeu acesso à educação, não recebeu acesso ao mercado de trabalho formal, não recebeu terras inclusive, porque era proibido que pessoas negras libertas ou não tivessem acesso à terra, mas houve distribuição de terra de forma gratuita para a população europeia que veio embranquecer o Brasil a partir da política de embranquecimento, que era essa meta que governadores tinham naquele período, mais ou menos do século XVI a século XIX, de embranquecer o Brasil em, por exemplo, se anos. Mas a partir de muita resistência, seguimos no Brasil, temos também a nossa contribuição e de novo trago que isso não é um apagamento de contribuição de outros povos, mas também a reafirmação da identidade negra no Brasil é um passo importante. Para fechar, Paola, qual é o seu ponto de vista do que é preciso fazer daqui para frente para que a gente continue cada vez mais? que esse letramento racial chegue em todos os cantos. Bom, primeiro, educação. Então, a aplicação de letramento racial na educação básica, na educação fundamental, no ensino superior é um passo extremamente importante. Por quê? são essas pessoas que estão sendo preparadas, por exemplo, para serem inseridas no mercado de trabalho. E se essas pessoas forem preparadas antes de serem inseridas no mercado de trabalho, muitas questões de discriminação no mercado de trabalho podem não ocorrer e já chegar uma nova ala da sociedade com entendimento de que o respeito é direito fundamental, tá certo? Então, muito obrigada e até uma próxima. Até a próxima. Olha, o ponto de vista de hoje conversou com a advogada Paola Mineiro, que é pesquisadora, especialista nesse tema, faz parte inclusive em Campinas, aqui do Conselho da Comunidade Negra, mestre em direito, que trouxe a sua contribuição e o seu ponto de vista. Até um próximo programa.
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