Transcrição automática gerada por IA. Pode conter pequenas imprecisões e ainda não
passou por revisão humana. Use Ctrl+F para buscar termos dentro do texto.
[Música] Olá, minha gente. Começa agora mais um ponto de vista. No programa de hoje, nós vamos falar sobre fake news e pós-verdade. Fake news foi eleita a expressão do ano em 2017. de pós-verdade é um conceito que descreve um cenário em que fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos a emoção e crenças pessoais. Ao meu lado está o professor de jornalismo Marcel Sheida, professor de jornalismo na PUC, pouco tempo professor lá, né? Acho que quase ninguém te conhece. 40 anos lá no jornalismo. Muito bem, professor. Bom, como nós citamos, né, em 2017, fake news foi a palavra do ano, né, a expressão mais citada. Por que que isso aconteceu? Já que assim, fake news nós entendemos como notícias falsas, né? E por que que houve essa essa mudança, né, na nomenclatura da expressão? Bom, a a o conceito de pós-verdade, eh, do qual posteriormente, né, a a configuração das fake news, eh, decorre de grandes mudanças que a sociedade, principalmente ocidental, passa, eh, em razão da oferta incomensurável de informação. E há uma obra já na década de 80 que discute, chama ansiedade da informação, que discute como essa oferta eh extraordinária de de informação no dia a dia das pessoas, né, principalmente pela presença da mídia. Se você pensar até o século XIX, começo do século XX, as pessoas não tinham tanto contato com as mídias, né? E ao longo do século XX, as mídias passaram a ser protagonistas do dia a dia de todos nós. E as mídias é que canalizam, né, todo o conjunto de informações que eh são produzidas e que também chegam a todos nós. E há um componente psicológico aí que é que hoje se estuda muito, que quando você tá diante de muitas informações, eh, de uma maneira simples, a gente fica o seguinte: por onde eu começo? E aí começa a ansiedade, né? Porque você não tem parâmetro para começar. Então, esse fator tem um condicionante, né, comportamental muito sério, porque à medida em que as pessoas se deparam com e essa magnífica oferta de informação, eh você vai ter um um freio a capacidade das pessoas de buscar entender os fatos. Por quê? Porque investigar os fatos é custoso, é difícil, exige interpretação, exige mais esforço mental. Enquanto que quando você tá diante de uma oferta incomensurável de informação, é muito mais fácil o estímulo a imaginário. Então, eh, você eh imagina a partir daquela oferta e você, de certo modo, fica e eh embotado, você fica, eh, eh, vamos dizer assim, constrangido por essa oferta e é mais fácil imaginar. Bem, esse é um dado comportamental, um fator comportamental. Aí nós temos a internet que, de certo modo, tornou exponencial a oferta de informação e a existência de uma variedade de mídias, né? Eh, o que acuou muito mais, tanto que se fala hoje que a gente vive as novas gerações na ansiedade, né? é, acentuou essa oferta de mídias. Você tem inúmeras mídias. Você tem as redes sociais, você tem YouTube, que é um canal de audiovisual, você tem a a as mídias tradicionais, eh você tem os os inúmeros sites e plataformas e blogs, né? E isso cria, de certo modo, um processo dispersivo que é, vamos dizer assim, eh, que ajuda a entender que é mais fácil imaginar a partir de uma informação que eu recebo pela internet do que ir atrás dos fatos e conhecer os fatos, que também encontra outra dificuldade, principalmente se a gente pensar no campo do jornalismo, né, como o jornalismo concorre com esse universo, é que para investigar os fatos, para buscar o que na modernidade se chama, né, a verdade factual, verdade dos fatos, que é fundamental, né? Eh, isso dá trabalho, mesmo naquela barafunda, naquele a enorme oferta de de informação, por onde eu começo? parece que é buscar uma agulha em palheiro. Sim, para eu buscar a informação eh exata, né, procedente. E isso, de certo modo, eh não deixa de caracterizar esse mundo que está aí, que amplificou exponencialmente um processo de alienação. Eh, ou seja, quem controla hoje, quem que tem poder hoje são as bigtechs, principalmente, né, nesse universo. e elas, de certo modo, expressam uma forma de controle social por meio desse sistema. Aí as fake news surgem nesse universo. O que que são as fake news? São produzidas por grupos, geralmente são grupos eh especializados, são vinculados a correntes políticas que jogam esses conteúdos, né, que são improcedentes, são falsos, são distorcidos. exatamente para manter uma relação de controle social com aqueles segmentos que são estimulados nessa percepção, né, por meio do imaginário, a aderir aqueles tipos de informações e afirmações que não são verdades. Uhum. Né? Não tem nada a ver com a verdade factual. Então o que você tem aí é um sistema de controle social, portanto de controle político. Por isso envolve então, né, essa questão política, porque se a gente pensar nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, em 2016, esse termo já ficou popularizado lá, né? Sim. Sim, em 2017 no Brasil, mas 2016 nos Estados Unidos, justamente envolvendo todo o cenário político. Então, eh, você vê que quem tem um instrumento das bigtecs e quem domina o sistema de produção de algoritmo que v que que vai estimular a adesão de boa parcela da população, né, a a aceitar esse tipo de informação como verdadeiro e que não são, nãoé? Eh, esses detém o poder hoje. Um exemplo disso foi também o Brexit, né, que foi aquela campanha que a extrema direita com controlando o sistema de internet estimulou a saída da Inglaterra do Mercado Comum europeu. E a o inglês se arrependeu disso porque viu que não tinha mais como no sistema capitalista ficar isolado, coisa que o Trump, o Trump hoje quer fazer também nos Estados Unidos, né? E eh esse controle tem interesses atrás, é claro, né? Não é, a internet não tá aí porque é uma coisa espontânea da criação humana, não. Ela é uma ferramenta de poder, de controle de de de comportamentos, de controle da sociedade. E as fake news vem a ser um tipo de eh conteúdo, né, desvinculado da factualidade, mas vinculado a imaginário. E o que acontece? Eh, o a maioria das pessoas, se você considerar mesmo nos Estados Unidos, aquele cidadão médio, aquele cidadão que tá preocupado com o dia a dia da da sua sobrevivência, que não acompanha quase política, né, de repente tem um celular na mão, né? Conseguiu adquirir um celular, porque isso aí também é um sinal de status. As pessoas hoje usam o celular não só como status, mas também como afirmação no meio social. Ou seja, eu tenho um celular, posso ter qualquer um, você tem, então há uma certa identidade aí. E o celular passa a ser eh eh tem um teórico, né, canadense, o Macurra, acho que você chegou a estudar, que ele tem, ele faz um estudo extraordinário e ele vai construir a tese de que o meio é a mensagem. Ou seja, você pode ver um monte de conteúdo, mas o que condiciona o seu comportamento não são os conteúdos propriamente, mas sim a mídia que você tem em mãos. E ele dizia também que eh eh os meios que nós ou todos esses apetrechos que se relacionam com o nosso corpo, ele eles são extensões do corpo humano. Então, se você pensar por os óculos, os óculos são a extensão do olhar, né? A roupa, a extensão da pele, né? Eh, o sapato, a extensão dos pés, o carro é a extensão da própria capacidade de mobilidade do do corpo humano. Só que a internet e os computadores criaram um novo sistema de extensão do corpo, que é do cérebro. Uhum. O que você, quando você tem aí um um um aparato computacional, o que se tem ali um modelo de referência para construir aquele aparato é o cérebro humano, né? E então o celular passou uma extensão do ser uma extensão do cérebro, né? Só que o cérebro tem o pensamento. O pensamento é comportamento. O que que acontece hoje? As pessoas não conseguem ficar sem o celular do mesmo jeito que não consegue ficar sem esse aparato mental para tentar entender o mundo. Uhum. O o o o aparelho celular ou computador que seja, né, como extensão do cérebro, cria também a dependência emocional. É. principalmente emocional. E e eu convivo com as novas gerações e é muito clara a dependência emocional que se tem do celular. Então, o celular não só é um um bem de status, é um bem de autoafirmação, mesmo que a pessoa se isole com o celular daquele mundo físico, social, né? Mas também é um tipo de apoio, de suporte emocional. E isso pode interferir, por exemplo, nós tivemos aí a fase, né, da campanha eleitoral de 2017. Depois nós tivemos também aquele momento eh bastante importante que foi a questão da pandemia, em que muitas pessoas se viam na necessidade de não acreditar que aquilo seria de fato uma pandemia. Então, será que eh a fake news ela vem para isso também? Para alguns ela serve como um certo consolo de dizer assim: "Olha, calma, não é tudo isso". E ao mesmo tempo, é claro que tinha um outro grupo que já dizia: "Não, precisamos ficar em casa, precisamos tomar cuidado, porque vem aí realmente uma pandemia". Então, acho que ela ela transita entre os dois lados. Então, a a só que as as fake news como ocorreram, eh, note que você tem certas lideranças políticas que deram início à propagação das fake news. Quando, por exemplo, um ex-presidente afirmava que era uma gripinha, né? Eh, o que que ele tava fazendo? Ah, que se tomar vacina virar jacaré. Aparentemente você pode filtrar isso aí criticamente e falar: "O cara tá falando bobagem", né? Mas esse segmento da população que não acompanha a factualidade, né, que tá no seu dia a dia, aceita isso aí de uma forma muito fácil. Sim, a grande massa e é condicionado por esse tipo. Agora, o que é importante, as fake news, como eu disse aqui, elas são produzidas por grupos especializados que sabe dominar o sistema de algoritmos e sabe fazer uma leitura do universo da internet, porque os algoritmos também leem os desejos das pessoas. Uhum. De certo modo, se você o próprio um dos fundadores da meta, que ajudou fundar a meta lá, o Facebook com o Zuckberg, ele tem um depoimento interessante, isso já de alguns anos, que ele afirma que a a o projeto do Facebook era para criar dependência psicológica. Sim. E a dependência psicológica ingressa no campo narcísico. Quer dizer, a pessoa quer se ver ali e ao se ver ali, ela abandona o mundo real. Ela abandona o mundo das relações sociais e passa a ficar condicionado por aquilo que ela recebe com mensagem, os memes, né, a as várias informações. Então, a a as fake news são produzidas embaladas para gerar efeitos psicológicos. e não efeitos reflexivos. E ao Agora, isso também, Carla, tem a ver com uma técnica que é milenar da política, que é o uso da propaganda. Sim. Então, o que eh você, se você pegar a ao longo da história, como que o poder, né, utilizou a propaganda, se você pegar as sensão do nazifascismo, o rádio foi a mídia principal e também a propaganda impressa para estimular a crença no nazioofascismo. Então, na crença que os judeus eram uma raça inferior que trazia um prejuízo enorme a a Alemanha, eh contra os negros, contra os ciganos. Então, a propaganda que se produz ali, utilizando-se de uma mídia, que no caso na década de 30 foi o rádio, conseguiu esses efeitos paraa eleição, para pra ascensão política, né, dessas lideranças aí. Hoje, eh, eh, o sistema midiátrico é mais complexo, mas ele atinge um número muito maior de pessoas. Sim, né? E também e por há um um uma questão aí populacional, né? Se, se você considerar o Brasil, eu costumo lembrar desse exemplo, o Brasil em 1970, que foi a quando o Brasil ficou tricampeão, tinha 90 milhões de habitantes. De 70 até agora, 55 anos, nós estamos com 215 milhões de habitantes. Quer dizer, o Brasil levou de eh 1500 que seja, né, tomando como referência aí da chegada eh dos portugueses 1500 até 1970, ou seja, 470 anos para chegar a 90 milhões de habitantes. Agora, de 55 anos, nós mais do que quase triplicamos. Triplicamos não, mais do que dobramos. Me desculpe. Agora, como você atinge essa quantidade de pessoas? Então a internet vem atender isso gradualmente o rádio, depois a televisão e ultimamente a internet para atingir um número maior de pessoas. Sim. E ao atingir o número maior de pessoas, você precisa de uma produção intensa do que são as mensagens. E essa produção intensa, porque qual é a característica de você hoje trabalhar com eh eh rede social, por exemplo, né? sites, você tem que tá atualizando a todo momento. Todo momento, exatamente. Então você tem que buscar informação, não necessariamente conteúdo. Então, produzir informação com base no imaginário, com base no que seria a o falseamento, né? É muito mais fácil do que, por exemplo, você trabalhar num jornal. Por isso o jornal custa caro. Você buscar a informação factual que tem relevância de verdade factual é caro, é trabalhoso, precisa de gente, demora. Sabe que eu ouvi um comentário que eu achei curioso? A pessoa falou o seguinte, ela falou: "Olha, na minha época eu não tinha condições de, na minha época de juventude, eu não tinha condições de comprar revista, jornal, porque era caro isso. Hoje todo mundo tem acesso à internet. Isso. Então é muito mais fácil, todo mundo tem acesso à internet e também tem essa coisa, né, da rapidez da informação. Então a pessoa olha ali no Facebook ou no Instagram e ela vê a manchete, ela acredita naquilo que está escrito, porque na maioria das vezes, se ela for clicar naquele link, ela tem que pagar para ver a mensagem inteira, para ver a o o conteúdo completo. Então ela acredita no que tá na manchete, pronto, ah, é o título, tá bom? E aí ali ela entende, né, ou subentende o que é bom para ela, né? E aí que acaba se transformando acho que em fake news, né? porque ela não leu o conteúdo inteiro, ela não sabe o que tá escrito. Mas mas os sites e portais jornalísticos ainda tem a preocupação com a factualidade. Sim, coisa que as mensagens por redes sociais, por Instagram, por WhatsApp, eh que forma aqueles grupos com WhatsApp, por exemplo, né? São grupos fechados, são grupos de bolha, né? não tem preocupação em buscar informação factual. O que se dissemina ali é a informação imaginária. É. E o que que o as fake news de certo modo tem por característica, ela é embalada como notícia jornalística. Então, hoje, por exemplo, você recebe via WhatsApp, né, eh, um vídeo eh que tem alguns eh tipos de GCs, letterings, né, o sujeito ali de frente, como se fosse um apresentador de algum tipo de conteúdo. Uhum. Dando a a embalagem de jornalismo naquilo, mas o que ele tá dizendo ali não tem procedência nenhuma, né? É apenas para condicionar um tipo de crença, né? eh, imaginária sobre alguma ideia, mas não sobre os fatos, né? Exatamente. A gente vai para intervalo rapidinho, daqui a pouco a gente volta com mais notícias sobre fake news e pós-verdade. Até mais. [Música] [Música] Voltamos com mais informações sobre fake news e pós-verdade. Ao meu lado, o professor de jornalismo, Marcel Sheida. Professor, eu acho que a gente precisa trazer um pouco mais de informação sobre pós-verdade. Ela vem a ser eh um complemento da fake news? Eh, o que como é que a gente pode entender esse termo? Então, a a pós-verdade é exatamente a ideia de que é é essa verdade é a verdade dos fatos, porque o conceito de verdade que eh é tratado, né, pela pós-verdade é aquela que é construída ao longo da modernidade, que é com base na ciência e na razão. E esse modelo de verdade é a qualidade do texto ou da narrativa no campo científico, né, em relação aos fatos. Então, o que que é dizer a verdade a a longo do século eh XVI, século XIX, chegando até o século XX, é que o termo verdade qualificava o texto que se relacionava ao fato. E aí, por quê? Porque a construção da modernidade foi um afastamento do discurso místico religioso que tentava explicar o mundo. Então, a modernidade, os pensadores da modernidade eh vão a a advogar e vão pensar: "Não, o que importa para nós é conhecermos o mundo. o mundo como ele é o mundo no campo da física, da química, da biologia, no o mundo social, sociedade, as ciências políticas, porque é aí que tá a existência humana. O a existência humana não está nos céus, ele tá aqui no dia a dia, no dia a dia concreto. Então a modernidade dá um salto muito importante, né, para tentar entender o mundo tal como nós os o construímos. Quando vem a ideia de pós-verdade, qual é o sentido dela? De que as pessoas não estão mais preocupadas com os fatos do mundo e não com o mundo. Elas estão preocupadas apenas com o sentimento que elas têm em relação às coisas e a percepção individual egoísta em relação às coisas. Então, o que passa a valer para ela são as impressões pessoais. Não importa se essa impressão pessoal tá vinculado a um fato. Vou dar um exemplo muito simples, que é a a aí o que ainda tá muito presente é a ideia da Terra plana, né? Então, por mais eh evidências de que a Terra não é plana, as pessoas não acreditam. Elas passam a acreditar e elas alimentam a crença de que a Terra é plana. Por ali a medida em que ela vai alimentando isso é mais fácil. É mais fácil trabalhar o imaginário. É difícil você sair para entender que o planeta, né, é uma é uma bola, vamos dizer assim, né? Uma bola rochosa, né? A a o conhecimento científico é trabalhoso, é de muito sacrifício. Então esse esforço mental, né, nesse universo de internet, por exemplo, é algo que vai sendo inibido. Então é mais fácil eu me fechar no meu mundo, que também é um mundo narcísico, né? Eu olho a minha própria imagem e alimento a minha crença e não uma evidenciação dos fatos, porque aí é mais trabalhoso, né? Então, a pósverdade tem essa característica. O que vale ao sentimento da pessoa e o que a gente chama de crença, porque acreditar é um sentimento, não é? Não é uma evidenciação de raciocínio, não é uma evidenciação factual. e a pessoa passa a admitir aquilo como verdade, como e e cria um problema aí psicológico também que é sério, porque eh esse perfil eh da da das pessoas alimenta uma crença, na verdade, que é inatacável. Se você questioná-la, ela se sente injuriada, ela não, ela não consegue raciocinar o questionamento. O senso crítico é embotado. Então tem um componente psicológico sério. Porque o que acontece hoje com o pessoal fala polarização, né? O pessoal mais a extrema direita, né? Tem a extrema esquerda também, claro. Mas hoje o que tá predominando essa extrema direita. Qual a grande característica dela? É o não diálogo. Sim. Quer dizer, é a ausência do diálogo. Ela afirma-se como uma verdade que é inatacável e não aceita o diálogo. E o diálogo é essencial na política, então na vida, né, das pessoas. Na vida das pessoas. Porque como é que você eh conduz uma conversa? Como é que você até entende o posicionamento do outro se você não pode questionar? Exatamente. Exatamente. É o que aconteceu no nazismo, né? Eh, ali ninguém podia questionar, né? as ordens que vinham, né, do Hitler, aquilo era aceito com, vamos dizer assim, com uma crença, né, eh, mística em torno das ordens dele. E é o que acontece também com essas esse extremismo que tá muito mais evidenciado hoje pela direita, né? A gente pode considerar que a pósverdade é também uma forma de disseminar fake news ou notícias falsas. Claro, mas claro, porque o que eh sustenta essa essa essas fake news é exatamente o imaginário e a a pós verdade eh eh descreve esse comportamento que a pessoa, né, enfatiza e e faz pruminar a crença pessoal. E a crença pessoal decorre também do imaginário. Nós somos seres do da imaginação. A imaginação sempre teve presente, né? Então, alimenta muito mais e aí a pessoa se embota e freia qualquer possibilidade intelectual de conhecer a evidência dos fatos. Então, ela não vai atrás de conhecer os fatos. Um exemplo muito simples, o Brasil eh eh eh tem uma tradição da não leitura. O consumo de livro no Brasil é muito baixo. Sim, né? Em 1920 foi divulgada uma pesquisa feita em, acho que em 60 países, se não me engano, eh, de um instituto de pesquisas da da França que detectou os dois países, cujo povos, né, que foram pesquisados, que mais acredita em fake news, foram os brasileiros e os egípcios. Olha só. E aí nós temos um componente muito sério. O Brasil tem uma educação frágil, né? a a vamos dizer assim, a universalização da educação no Brasil é muito recente. É coisa aí do final do século XX para agora, a universalização, o Brasil sempre teve um um analfabetismo gritante, né, e também um baixíssimo consumo de livros. E o que acontece? Eh, o Brasil vem, eh, se você comparar com a Europa, né, o mesmo Estados Unidos, mas Europa, né, e países com maior letramento, com maior índice de consumo de livros. Eh, a o consumo de livros da Europa é desde o final do século XV. Então, você tem aí quase cinco séculos da população europeia consumindo livros. Então, é claro que a Europa tem um nível de construção de conhecimento muito superior, como também foram a a a foi a formação norte-americana baseada em livros, no texto, né? A independência norte-americana se baseia nas grandes ideias dos pensadores franceses que estavam nos livros. Sim. E o o que acontece com o Brasil, no entanto, nós não temos esse tipo de fenômeno aqui de consumo maciço, né, ou massificado do livro. e de repente vem a televisão e logo em seguida a internet. É, quer dizer, não houve tempo para a pra leitura para pro consumo da leitura gráfica impressa, né, amadurecer como tradição na cultura brasileira e na educação brasileira. Hoje você encontra os jovens aí é raro um jovem, né, que tenha afinidade com o livro. Ele tem afinidade com o celular. Uhum. E isso eu acho muito sério, Carla, porque mostra, de certo modo, uma indigência dos poderes públicos, do Estado brasileiro, dos governantes brasileiros em ter ideia de como enfrentar esse problema, porque você tá criando um tipo de de eh de cultura inculta, vamos dizer assim, né? em que você vai conversar com pessoas que têm esse perfil, né, da pós-verdade e que recebe fake news. Primeiro que ela não vai conversar com você, ela aceita aquilo como verdade absoluta. Então você não constrói o conhecimento. E o conhecimento é antes de tudo construído socialmente. Ninguém detém individualmente o conhecimento. Então, se a pessoa não se abrir para ter as relações sociais e a troca e aprender a conversação, nós vamos criar aí uma população inculta. É a cultura inculta, a pessoa que não sabe. E, por exemplo, o Brasil tem uma dificuldade hoje em formação de engenheiros, né? Nós temos já uma certa tradição de ah, não gosto de matemática. É, o que é um preconceito e as escolas muitas vezes não sabem trabalhar como superar esse preconceito. Exatamente, né? Porque a a matemática, como a língua portuguesa, a matemática é uma linguagem. Uhum. É uma questão de aprender essa linguagem aí, né? E ela é importante. Então, nós temos uma deficiência nesse aspecto aí que é gravíssima. E eu eh vejo que o Estado brasileiro, os governantes, né, os os agentes políticos que deveriam ter uma responsabilidade maior nesse aspecto, eles fazem vistas grossas, porque investir em educação é caro, a construção do conhecimento é caro, não é não é barato. Não adianta você dizer: "É, mas a a educação tá consumindo muito dinheiro do orçamento". Quem afirma isso aí demonstra também um desprezo pelo conhecimento e é o conhecimento que vai fazer com que as pessoas melhorem de vida. Exatamente. Não é não é simplesmente dar uma, é claro que o governo aí é importante ter nesses programas sociais, né? Mas tem que estimular a educação, né? Até em relação à saúde, né, professor? A gente escuta muita gente falar sobre isso, né? Quem tem conhecimento cuida melhor da saúde, então porque ela vai ter um filtro crítico mais eficiente para consumir as informações e saber separar o que é fake news. Exatamente. Se as pessoas não têm esse filtro crítico que depende de construção de repertório, ela vai cair na armadilha das fake news, vai ser enganada, porque quem crê em fake news é enganado. E aí assim nós estamos em um momento em que a fake news continua acontecendo, continua existindo, após verdade também, mas é um momento em que as pessoas precisam se atentar a tudo que recebe, seja no celular, seja no e-mail, nas redes sociais, enfim, é preciso se atentar. Agora, como entender, como avaliar o que é fake news, o que é pósverdade? Como que eu em casa, quando recebo uma mensagem no meu WhatsApp, o que que eu devo fazer para eu ter certeza que aquilo é uma verdade ou é uma fake news? E como conduzir essas informações? Eu não me lembro. Recentemente teve um, eu li uma uma frase aí de um, agora não tô me lembrando do autor, que ele diz o seguinte: "Whats é a porta do inferno". Olha, É, tem sido então, olha o que você receber de o que acontecia aí quando o WhatsApp começou a se popularizar, as pessoas recebiam uma mensagem de um amigo porque primeiro começou a criar o ciclo, né, familiar e de amigos nos grupos de WhatsApp, né? Então eu recebia, ai meu tio mandou essa mensagem, olha aqui, ó. E ela, a pessoa já compartilhava. Sim. Ela analisava se aquilo tinha procedência, porque é um estímulo psicológico. Então, a pessoa recebeu ali, ah, eu nunca tive um celular, de repente eu tenho, aquilo me dá status social, me dá um certo emponderamento. Então, eu recebi uma mensagem, nossa, isso é uma verdade e repassa, compartilha. E a ilusão da aproximação, né? como se tivesse próximo daquele tio que de repente mora numa outra cidade, num outro estado. Só que essa pessoa geralmente não tem a referência de repertório. E como que eu busco essa referência de repertório? Bom, eu volto a dizer, a construção do repertório de conhecimento, primeiro é um processo. Ninguém e hoje a internet traz a ilusão de que eu posso conhecer o mundo pontualmente de imediato, né? no tempo imediato presente, não. Você conhece ali uma, você tem uma informação pontual, você não não conhece o processo e a construção no conhecimento se dá no processo. Então, começa lá no ensino fundamental e vai até a pessoa alcançar a sua maior idade, entrar na fase mais velha que ela vai construindo o repertório. E esse repertório é que vai ser o grande filtro. Se a pessoa, por exemplo, não lê livros, né, não lê os bons jornais, não que o jornal também não cometa o erro, mas o o jornal tem um compromisso muito diferente de quem anonimamente, geralmente, né, produz conteúdo na forma de fake news. Uhum. O jornal ainda ele tem uma relação pública mesmo. O pessoal aí que diz: "Ah, eu não gosto da Globo", né? Isso é uma bobagem porque é fruto de um condicionamento de um uma doutrinação para falar, olha, não assista a Globo porque a Globo fala mal de mim, como se fosse falar mal fosse coisa de fofoca. É, exatamente. E então a pessoa não assiste. Eu eu me lembro que as pessoas entendem hoje o jornalismo como algo partidário, né? Então tem muita essa coisa. Ah, eu não assisto a Globo porque ela defende tal partido. Eu não defendo, não assisto, não leio tal revista porque defende, né, determinado político. Não, você pode ter uma seleção de mídias para você consumir ou jornais para você ler. Uhum. Né? Mas você tem que ter anteparo crítico. E onde você vai buscar anteparo crítico? Nas boas obras. Então, por exemplo, eu tenho que ler livros, não tem jeito. Eu tenho que ler livro da história do Brasil. Sim. Eu tenho que pegar autores diversos e conhecê-los. Eu preciso saber o que que foi 64, o que foi Getúlio Vargas, o que foi a crise do color, as crises mais recentes. Onde eu vou buscar isso? Primeiro nos livros, né? Depois eu posso ler os jornais, assistir bons jornais. Tem jornais bem feitos. Sim, você não pode negar, por exemplo, o pessoal tem uma visão de preconceito contra o contra a Globo, me desculpe, que foi estimulado muito recentemente, já havia, né, mas mais recentemente por uma questão política, porque o o sujeito que saiu candidato aí venceu a eleição sabia que ele não tinha a simpatia do sistema, por exemplo, da Globo, da Bandeirantes. Por quê? Porque é um sistema crítico. É com tod erra, erra. Mas acontece que o jornalismo ainda diz o seguinte: "Olha, erramos". Exatamente. E cor e corrige, né? E também tem omissão. Mas acontece que nenhum jornal cobre todas as coisas do mundo. Então a ideia é você ter escolher alguns jornais que você verifica, avalia, eh eh analisa se eles são jornais bem feitos, né? E outra coisa, olha uma dica, Carla, para pro telespectador. Hoje alguns canais, principalmente aí de YouTube, o mesmo TV fechada, investe muito na opinião, entre aspas, não tem reportagem. O que que vai buscar os fatos no mundo? É a reportagem. É só que fazer reportagem é caro. Então, o que que o sujeito tem? ali cria um canal na TV fechada e bota uma bancada e bota ali três, qu cinco pessoas fazendo comentários o dia todo e não tem jornalismo, só tem opinionismo. Exato. E ali cria-se uma uma máscara sobre os fatos no dia a dia, porque ali tem um condicionamento ideológico doutrinário, evidente. E o o que as pessoas têm que se atentar é onde eu tenho a informação factual e onde eu tenho o opinionismo. Se eu fico num tipo de programa que tem uma bancada e a p as pessoas ali só opinando, né, se afaste disso. Exato. Isso aí não dá certo. Vá procurar os canais que t a que mostram o mundo, mesmo que você use algumas redes sociais, mas você tem que começar a balancear e comparar. E comparar é uma forma de raciocínio. A medida que você vai comparando e vai saindo daquele único canal, eu vejo muitas vezes, olha, eu gosto daquele canal, aquele canal eu me identifico. É uma bobagem, porque o mundo nunca está num único canal. Exatamente. O mundo é muito diverso, é muito plural. Então eu preciso começar a entender essa diversidade do mundo, mesmo que seja na minha cidade. E formas de olhar, né, professor? Eu acho que as situações elas tem tem dois lados, mas também a gente precisa saber, tá? Eu olho por esse prisma aqui, eu entendo dessa forma, mas e se meu, se eu me colocar no lugar do outro, de que forma eu vou enxergar essa situação? Claro. Mas e há um um elemento aí para se pensar também, Carla, aqui é o seguinte. Nós somos seres do imaginário e nós somos seres comportamentais, né? Nós agimos muito emocionalmente, né? E combinadamente com o imaginário fica, como eu disse, sempre fica mais fácil para entender as coisas. Ore que a a deve haver um esforço, as pessoas devem fazer um esforço para sair desse estado puramente emocional e imaginário para conhecer o mundo à sua volta. Por exemplo, conversar pessoalmente com as pessoas, né? eh, sair às ruas, observar as coisas na rua, porque hoje as pessoas saem à rua com o celular na mão, elas não conseguem enxergar o que tá à volta. Exato. E ali que tá o mundo real e não no celular. E eh nessa diversidade de olhar e também conhecer essa diversidade de mídia, seleciona algumas mídias, faz uma leitura diária dessas mídias, porque tem mesmo no mundo digital tem bons jornais, tem bons canais que você pode, tem pessoas que se empenham em discutir os fatos e a mostrar os fatos. Então, fazer esse esforço, a questão é, as pessoas estão dispostas a fazer esse esforço? Porque isso exige, né? Exige tempo, né? Exige energia, né? você dedicar ali o seu tempo. CL ler um livro, por exemplo, hoje a pessoa vai, ah, esse livro aí eu posso lê-lo em 3 horas, mas o condicionamento do celular da da das redes sociais gera um sentimento de presentção. A pessoa começa a ter um condicionamento comportamental de que ler um livro é perder tempo. E ela começa a ficar ansiosa, eu vou ter que ler tantas páginas, vai demorar tanto. Ela começa a ficar ansiosa porque ela tá condicionado por aquele imediatismo que é planejado psicologicamente. Se você pegar essa essas redes sociais, eh, Instagram, Facebook, eh eh ReS, eh TikTok, ali você tem na no planejamento, você tem psicólogos trabalhando ali para saber como que deve condicionar a pessoa. Eh, e esse, eh, looping que existe, né, é um condicionamento comportamental. A pessoa começa a fazer a rolagem ali das imagens, ela não para e a informação que ela recebe é extremamente breve, ela não para para refletir sobre aquilo ali. Isso vai condicionando eh eh comportamentalmente. Por quê? Porque o nosso cérebro gosta um pouco do hábito e daquilo que não exige esforço. Porque quando o cérebro tem que se esforçar para conhecer algo diferente e crítico, o cérebro tem que investir em energia. Então é preferível nele não investir em energia. É, né? Então o que que a pessoa faz? a pessoa começa a se submeter à aquela facilidade do looping da imagem, porque aquilo traz um prazer para ela e ela não precisa se esforçar intelectualmente para entender o que que é aquela mensagem, os aspectos semânticos, cínnicos que elas que essa mensagem traduz, né? Então ela fica repetindo na a passagem nas redes sociais. Isso é péssimo porque a pessoa vai criar um tipo de comportamento eh para si que é a dispersão e a a a vamos dizer assim a preguiça mental. Então, qualquer problema que surgir no dia a dia, como é o caso de uma pessoa que vem e faz um questionamento a ela, ela vai ficar incomodada. Uhum. Ela vai ficar injuriada, ela vai reagir de forma irada, né? Por isso que é uma característica hoje que que muitos jovens, né? Quando você o o contesta ou questiona, ele fica agressivo. Sim. Né? Mas não é só o jovem, o adulto também que começa a se condicionar por isso aí, tem esse vício, né, com com a internet, né, porque não consegue. Infelizmente a internet acabou deixando esse rastro, né, assim, as pessoas acabam não sabendo dialogar na vida real, no presencial, porque aqui na internet você pode falar tudo, né? Ó, eu eu sugiro para as pessoas fazerem um teste consigo, que é o seguinte: tentem se lembrar dos conteúdos que ela acessou pelo celular nas redes sociais ontem. Ela, na verdade, acessou inúmeros conteúdos, mas talvez ela se lembre de um, dois, não assimilou nada. Agora compare o seguinte. Se ela lê um livro no ambiente de leitura, veja o quanto ela consegue de memorização. O que acontece é que toda tela tem um tipo de elemento dispersivo. Qual é a característica da tela? É você fazer a navegação. Exatamente, né? Então a pessoa vai navegar e navegar é um verbo que designa, né, o ato de ficar na superfície. Sim. Nunca emergir. Uhum. Então, a a o que acontece, eu sugiro para as pessoas tentem fazer um teste consigo, o quanto elas se lembram do que elas viram na internet nos últimos tempos, o que que ali marcou para ela que permitiu que ela emergisse reflexivamente sobre um problema que ela acessou? Professor, considerações finais sobre o seu ponto de vista, né, esse tema aí fake news e pós-verdade, o que o público de casa precisa saber. Bom, primeiro, desconfiem, né, da internet, das redes sociais. Segundo, saibam separar o que são impressões pessoais do que é opinião. Hoje é muito comum as pessoas dizerem: "Não, mas é minha opinião?" Não, não é opinião. A maioria dos casos aí são impressões pessoais, porque a opinião tem que ter uma sustentação de argumento baseado em fatos. E o que as pessoas hoje têm é impressão pessoal e também crença com parte no imaginário. Então, como foi o caso ali, né, a COVID, a Covid é uma gripezinha. Isso alimentou uma crença de que a COVID era uma gripezinha, que na verdade é uma enganação. Então desconfie do que você recebe na internet, procure outras fontes, né, e comece a fazer um uma autoavaliação sobre como você consome as informações nas telas, do computador. Perfeito, professor. Muito obrigada pela sua participação, por ceder o seu tempo e vir aqui acompanhar esse trabalho nosso aqui. Eu que agradeço e parabéns aí pelo trabalho de vocês aqui na TV Câmara. Muito obrigada. Obrigada a você que nos acompanhou até agora. Continue com a nossa programação. Até mais. Esse é um assunto que daria pra gente ficar [Música] [Música] [Música] เ