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Ponto de Vista | Comunicação antirracista e imprensa negra no Brasil
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Ponto de Vista | Comunicação antirracista e imprensa negra no Brasil

88 views Publicado 08/11/2025 HD · 34:13

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O Ponto de Vista desta semana recebe o jornalista Victor Oliveira, da Alma Preta Jornalismo, para uma conversa profunda sobre o papel da imprensa na construção de uma comunicação antirracista e na desconstrução de estereótipos sobre pessoas negras no Brasil. A imprensa é uma ferramenta poderosa de transformação social — e também um campo de disputa simbólica. Ao destacar histórias positivas de pessoas negras, suas contribuições na ciência, na cultura, no esporte e no mercado de trabalho, o jornalismo pode contribuir para mudar narrativas históricas e combater percepções equivocadas sobre a população negra. Mas como fazer isso na prática? É possível exercer um jornalismo verdadeiramente antirracista em um país ainda marcado por desigualdades raciais profundas? 🎙️ Convidado: Victor Oliveira – jornalista, autor do Manual de Redação da Alma Preta, documento que estabelece diretrizes editoriais baseadas em comunicação antirracista, representatividade e posicionamento institucional. Ele representa a Alma Preta em agendas internacionais, como na ONU (Nova York), Congresso do Megáfono (Medellín) e Conferência de Bonn (Alemanha), além de participar de eventos como o Festival de Cannes e o Festival Clube de Criação. 📰 Sobre a Alma Preta Jornalismo: Criada em 2015, a Alma Preta é uma agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial. Produz conteúdo jornalístico em múltiplos formatos sobre direitos humanos, política, cultura, comportamento, economia e cotidiano — sempre a partir do olhar e da vivência de jornalistas negros. A agência acredita que não existe jornalismo neutro, mas que é possível ser ético, responsável e comprometido com a verdade e com a transformação social. Por isso, suas pautas são guiadas por um posicionamento consciente e pela busca de uma cobertura equilibrada que reflita a complexidade do Brasil. 🖤 Principais temas deste episódio: O que é comunicação antirracista e como aplicá-la no jornalismo, na publicidade e nas instituições públicas; O papel da imprensa negra no enfrentamento ao racismo e na formação de uma opinião pública crítica; Como a mídia tradicional ainda reforça estereótipos e invisibiliza a população negra; A importância da representatividade e do olhar afrocentrado na produção de conteúdo; O impacto da Alma Preta Jornalismo e de outros veículos independentes na democratização da informação; A imprensa como instrumento de resistência e de reeducação social; Como jornalistas e comunicadores podem se tornar agentes de transformação antirracista no seu cotidiano profissional. 📚 O programa também revisita o conceito de antirracismo, entendido como um conjunto de práticas, ações e discursos voltados para o combate ao racismo estrutural e institucional. Victor Oliveira destaca como o movimento antirracista se manifesta não apenas em protestos e militâncias, mas também nas ações do Estado, nas leis, nas empresas e na produção de conteúdo. Exemplos históricos — como o Movimento pelos Direitos Civis nos EUA, o Movimento Negro Unificado no Brasil e as lutas das mulheres negras latino-americanas — mostram que o antirracismo é uma prática coletiva e contínua, que exige vigilância e autorreflexão. No campo da comunicação, isso significa rever a linguagem, as imagens e os enquadramentos que moldam o modo como a sociedade enxerga as pessoas negras. 🗣️ Victor explica que ser antirracista é um exercício constante: “O racismo se atualiza todos os dias. Por isso, o antirracismo também precisa ser cotidiano. A comunicação é uma das ferramentas mais potentes para esse enfrentamento, porque é por meio dela que as pessoas aprendem, questionam e formam suas percepções sobre o mundo.” 🌍 Por que a imprensa negra importa: A imprensa negra brasileira tem quase dois séculos de história — desde os primeiros pasquins criados no século XIX até as mídias digitais contemporâneas. Mesmo com poucos recursos, esses veículos sempre desempenharam papel fundamental na denúncia ao racismo, na valorização da identidade negra e na promoção de uma narrativa própria, longe dos filtros da grande mídia. Hoje, essa tradição continua com veículos como a Alma Preta Jornalismo, que atua como um espaço de visibilidade, formação e diálogo com a sociedade. A proposta é simples e urgente: um jornalismo feito por pessoas negras, para todos, com compromisso social e consciência racial. Assista ao episódio completo e entenda como o jornalismo pode — e deve — ser uma ferramenta de justiça social, memória e transformação. ✊🏾 Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas 🎵 TikTok: https://www.tiktok.com/@tvcamaracampinas 📘 Facebook: https://www.facebook.com/tvcamaracampinas 🎙️ Spotify: https://creators.spotify.com/pod/show/tvcamaracampinas

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Olá, minha gente. Está no ar mais um ponto de vista. Hoje nós vamos falar sobre o papel da imprensa no combate ao racismo, como o jornalismo pode contribuir para desconstruir e ampliar as vozes, construir uma comunicação, desculpa, uma comunicação antirracista. Quem está comigo é o Víctor Oliveira, ele é da Alma Preta, Jornalismo. Victor, para algumas pessoas pode ser até uma curiosidade, né, falar sobre esse tema. envolver esse tema no jornalismo, mas é sim uma tarefa nossa também, né, estar diante desse combate. Como é que você lida com essa situação? Como é que você chegou nesse jornalismo? Eh, bom, olá, tudo bem? Eh, sou Víor, sou jornalista da Alma Preta. Eh, bom, minha trajetória, né, ela inicia dentro do do jornalismo antiracista no mercado profissional. Eh, a minha primeira experiência foi como redator do manual de redação da uma preta jornalismo, eh, que foi um processo de trabalho para conhecer como esse jornalismo funciona. Eh, a gente fala que o jornalismo antiracista ele cumpre a lógica do do interesse público, como qualquer outro tipo de jornalismo. E a gente entende que quando a gente faz esse jornalismo, a gente tá falando para 56% da população brasileira. é difícil lidar com a maioria das notícias eh do jornalismo antiracista, que geralmente são notícias difíceis paraa nossa comunidade, mas eh eu brinco também que é um orgulho poder fazer esse jornalismo diferente, um jornalismo que tem um impacto social muito relevante paraa nossa sociedade, tá? E como que é esse jornalismo na prática? para quem tá em casa e às vezes não consegue enxergar esse esse papel do jornalista nesse trabalho, né, do jornalismo anti eh antiracismo, como é que você pode explicar o papel da imprensa, o que vem a ser esse jornalismo, como as pessoas podem identificar esse jornalismo, por exemplo, em um portal de notícias? muito massa. Eh, eu acho que a construção do jornalismo antiracista, ela começa na pauta, ou seja, os jornalistas que compõem a alma preta, por exemplo, eles têm como orientação seguir uma hierarquia de informação pautada pelo antiracismo. Ou seja, desde as da busca de fontes, das seleções de pauta, ele busca eh pautas que combinam com a comunidade negra ou que são relevantes pra comunidade negra do Brasil e também buscam fontes, pessoas para serem entrevistadas que nem em sua maioria são pessoas negras, né? Nessa construção, a gente começa a entender os primeiros pontos para se construir um jornalist, um jornalismo antiracista. Então, eh, o jornalismo antiracista, ele tá pra audiência, mas ele começa já na base, quando ele começa a ser feito. Então, como quando uma pessoa acessa o portal da Alma Preta, Jornalismo, ela vai ver que tem notícias de diversos temas. Vai ter notícias sobre política, notícias sobre esportes, notícias sobre cultura, mas notícias que sobretudo atendem o interesse público da comunidade negra do Brasil. Vítor, você me parece ser mais jovem do que eu, mas eu me lembro de uma época em que na TV, por exemplo, era mais comum ver pessoas de pele branca, inclusive nas bancadas de jornal. Isso foi tomando espaço ao longo dos anos, talvez até timidamente, né? Mas hoje a gente tem um espaço maior. Vocês conquistaram esse espaço um pouco maior. A gente tem jornalistas negros que são referência inclusive. Você acha que esse passo já foi dado e ainda precisa ser um pouco mais explorado? Eh, sim, eu eu eh tendo a crer que esse é o movimento que ele começou agora, ele é bem recente. É fundamental que a gente tenha pessoas negras em todos os veículos de comunicação do Brasil, porque a gente sabe que quando uma pessoa negra ocupa aquele espaço, ela não ocupa só a identidade dela, ela ocupa uma história, ela ocupa a representatividade pra comunidade negra do Brasil. E quando aquela pessoa tá lá, ela vai trazer pautas diferentes do que era trazido há esses anos atrás que você comentou. Então, ela vai trazer pautas que t a ver com a cultura negra, ela vai ter um olhar diferente, ela vai eh possivelmente trazer elementos que minimizam situações que geralmente podem ser via ser racistas em alguns algumas reportagens ou alguns alguns materiais. Então a gente vê com muito orgulho quando vê outros colegas de profissão em outros em outros veículos de comunicação que além da uma preta, né? Então, a gente vê isso como um movimento muito bom que tá acontecendo agora, principalmente em quando a gente fala de eh telejornalismo, né, que é onde onde onde tinham mais pessoas brancas e hoje a gente já tem essa representatividade muito interessante e a gente vê que é um um movimento muito muito progressista e que a gente espera que tenha vido para ficar. Vittor, historicamente, qual foi o impacto da chamada imprensa tradicional na formação do mito da democracia racial? Olha, a democracia racial ela é muito viva hoje. Ainda hoje ela é muito viva na comunidade. A gente na alma preta, a gente tem que tomar um cuidado para não viver numa bolha onde conversa apenas com pessoas que tm uma visão progressista, né, que entende, compreende os elementos do racismo estrutural. Eh, então a gente sempre procura conversar com pessoas que pensam diferente também da gente, pra gente entender quais mecanismos a gente tem hoje que fortalecem o racismo dentro do Brasil. E mecanismos esses que na época quando foi criou-se o mito da democracia racial eram muito vivos. Então a gente vê hoje em algumas falas de pessoas que a gente conhece que tá vivo esse elemento do mito da democracia racial. E eu acho que o papel da alma preta é desmistificar isso através de reportagens, por meio de produtos audiovisuais, mostrar como a história criou esse esse modelo de de pensar a sociedade brasileira e como através de dados, pesquisas públicas, o racismo ele ainda é muito vivo e como ele impacta a sensação social de pessoas negras, a ampliação de oportunidades e outros elementos que impedem o desenvolvimento de de pessoas negras que poderiam ser grandes grandes jornalistas, grande grandes políticos e grandes representações paraa nossa sociedade. Você tem algum exemplo que você pode possa compartilhar com a gente em relação à mídia brasileira, pensando assim, algo que era muito comum antes, mas hoje foi reestruturado de uma forma que possa sim ser um combate ao racismo? Olha, eu acho que o que o exemplo principal do que era feito antes e é feito agora, eu acho que é você ter pessoas negras em bancadas de grandes telejornais brasileiros, né? Eu acho quando você abre a TV e você não vê alguém que que se parece com você, né? E aí quando você olha pro Brasil são 56% da de pessoas negras, né? Sim, é um número muito grande. Quando você vê essa transformação na sua casa, você vê que você tem um uma admiração muito grande por aquelas pessoas e até um reconhecimento, porque o jornalista ele tem o potencial de de transformar, de de poder de poder ter uma relação com a audiência dele. Então, acho que essa transformação foi muito importante. Você sabe que tem um uma situação muito curiosa e e muito gratificante também que uma colega compartilhou, Camila Borges. Ela é uma jornalista preta, trabalha aqui em Campinas em uma emissora colega nossa. E ela comentou que quando ela tinha esse sonho de trabalhar na TV quando era criança, isso já faz um bom tempo que ela comentou, a família dela tinha um certo receio. Acho que possivelmente porque pensava assim: "Olha, não é, e chegaram a comentar isso, né? Mas não é um lugar tão fácil, de tão fácil acesso e ela conseguiu." Então, assim, eu acho que isso tem um significado muito grande para vocês, né? Porque é justamente esse ponto assim, é você ligar a TV e se sentir representado. Exatamente. Eh, quando essas pessoas alcançam esses lugares, como eu tô aqui conversando com você, eh, a gente sente que a gente tá trazendo muitas pessoas que vieram antes de nós, né? É, é uma, é um, uma busca pela ancestralidade que as pessoas negras valorizam muito. Uhum. E para além dos nossos familiares, eu tenho certeza que outras crianças negras vão querer fazer jornalismo porque elas vem outras pessoas negras ocupando esse espaço. É a questão de ver que é possível, né? Então, ter referências dentro do jornalismo é é muito importante para que a pessoa se identifique. Eh, e eu acho que a Camila passou por esse processo também. Possivelmente ela tá impactando diversas meninas e meninas que vão ser jornalistas futuramente. E um outro ponto também que eu vi alguns comentários na internet, né, procurando sobre esse tema para fazer esse programa, eu vi um comentário que eu acho que também é muito importante a gente trazer aqui pro público. Não é só eh ter um profissional da pele preta, não é só pela cor, não é só como algumas empresas tm a questão das cotas, não. É de fato dar uma oportunidade pelo profissional que a pessoa é, sim, né? é dar voz a ele, porque não é só para você eh lá no na Alma Preta falar sobre temas que envolva só a questão do racismo. Não, você pode, você tem voz e pode falar sobre outros temas, política, esporte, tem tanta coisa pra gente conversar, por que não dar essa voz para todos, né? Exatamente. A gente na Alma Preta a gente cobria muitos temas de segurança pública, que são temas que acabam expondo um pouco a violência, né, que a gente tem no nosso país hoje em dia. Eh, e sempre teve, mas a gente busca, a gente começou a a transformar um pouco a nossa linha editorial, continuamos cobrindo isso, jornalismo investigativo de dados, mas a gente procurou trazer outros temas que façam sentido também para pro interesse público da nossa audiência. Então, a gente começou a cobrir festivais. Eh, a gente foi a primeira mídia negra, a credenciada do CO e do COB, a cobrir uma olimpíada eh em 2024. Eh, a gente fala agora sobre esporte, sobre música e sobre eventos também que causam interesse, porque eh quando a gente traz isso paraa nossa audiência, a gente quer mostrar que aquilo tem muito a ver com a gente, porque os artistas que estão nesses festivais são pessoas negras. Os atletas que estão nas Olimpíadas ou possivelmente até numa Copa do Mundo são pessoas negras. Sim. Então, quando a gente traz isso pra nossa audiência, a gente fala, eh, isso também é o lugar que a mídia está ocupando, essas pessoas estão ocupando e a nossa audiência, ela pode se interessar porque é de interesse público. E quando a gente traz um jornalista negro trazendo essa narrativa, a mensagem sai diferente. Você acha que é similar a, por exemplo, a dramaturgia, que tem também feito esse papel de dar espaço às pessoas pretas como protagonista ou contar a história de de famílias pretas, né? Inclusive teve uma novela falando sobre isso. Isso também é uma forma de combate? Eu acho que é uma forma de combate ao ao racismo. Eu acho que eh fica como memória histórica, né? As novelas. Hoje você tem um streaming que você consegue colocar novelas de 40, 70 anos atrás, né? E você olha para essas novelas de muitos anos atrás e você vê que não tem protagonista negro, não tem uma pessoa que tem um cargo de relevância dentro de um papel que seja uma pessoa negra. Uhum. Eh, eu acompanho muita novela, curiosamente, e vejo que ainda alguns papéis centrais podem ser ocupados por pessoas negras. a gente tá evoluindo nesse processo, mas é bacana ver que tem um um movimento de transformação, tem um movimento que busca eh trazer esses papéis pro para papéis de pessoas negras para pro centro da trama e principalmente ocupando lugares de donos de empresa, eh lugares de pessoas com destaque dentro da da narrativa. Legal, Vittor, como que o público pode perceber o racismo quando ele está presente nas pautas? nas imagens ou até mesmo na escolha das fontes jornalísticas. Olha, eu acho que um um jornal um uma reportagem, ela tem que trazer elementos que cumpram a ética, sobretudo e uma técnica jornalística bem apurada, né? Esse é o mantra da uma preta jornalismo. A gente sempre preza por isso. Então a gente tem esse essa essa consciência de que a ética do da alma preta é a ética dos direitos humanos. Uhum. Então quando a gente vai escolher uma foto ou uma imagem, a gente sempre procura buscar a legislação do eh que cobre os jornalistas, sempre procura trazer um cuidado com a fonte, né? Não expor a fonte. eh ter um cuidado para que ela se sinta segura, né? principalmente se for uma uma reportagem que envolva um tema delicado. E na e na reportagem em si, a gente precisa a gente procura trazer uma diversidade de fontes, ou seja, pessoas negras que sejam médicas, pessoas negras que estejam em cargos eh de decisão. Então, quando a gente faz esse jornalismo que traz esses ponto de vistas de uma pessoa negra, você percebe a diferença. E você tem sentido que a imprensa agora, né, que você está aí há 5 anos já no na alma preta, você tem sentido a mudança mais próxima assim quando você olha, porque a gente sempre olha pro concorrente, tá? a gente sempre espia um pouquinho ali a casa do vizinho. Você tem percebido que isso tem mudado, que as emissoras, os jornais têm tomado esse cuidado, tê refletido um pouco mais sobre isso? Sim. Eh, eu acho que os os veículos eles têm se preocupado mais com isso, né? Eh, a gente mesmo vem recebendo convites para fazer algumas colaborações com grandes ou grandes veículos, pequenos veículos, veículos de diversas partes do Brasil. Então, a gente sente ao receber esses convites que a que a há uma mudança eh se convergindo, né? E e eu acho que aí tem esse essa parte institucional, mas também há uma um movimento também de trazer fontes e temas dentro de quadros de reportagem, quadros de programa de TV que trazem pessoas negras para ser serem entrevistadas, para serem âncoras de programa, eh, e principalmente para ser repórter de rua, que é muito legal também. Então eu acho que tem um movimento nesse sentido, eh, que que tá que dá para ver uma transformação para para você que assiste TV no dia, à noite ou almoçando ou jantando, você percebe que tem mais pessoas negras, que a pauta racial ela tá mais presente na rotina das pessoas. Você sabe que você tocou num ponto muito interessante, né? Quando a gente fala da reportagem de rua, é completamente diferente desse universo aqui, né? Nós estamos em um quadrado cheio de luz. Só nós aqui é uma realidade, mas quando a gente vai paraa rua, a gente primeiro que a gente tem um contato maior com o público e aí a gente vai sentir a pauta de forma muito mais presente, né? Se eu, por exemplo, se eu vou em uma matéria na periferia, eu vou poder ver de perto o que é a realidade daquela periferia, enquanto aqui nem sempre a gente consegue perceber o que de fato acontece lá. Então, acho que nada melhor até para quem está lá na rua poder perceber, falar: "Olha aqui, essa pessoa está vivenciando o que eu vivo". Acho que isso é importante também, né? Exato. A gente incentiva muito que os jornalistas da Alma Preta façam reportagens de rua. Eh, hoje com digital eh, e ferramentas eh digitais, as pessoas têm essa possibilidade de escreverem eh coletando informações na internet ou fazendo reuniões eh por meeting com fontes, mas a gente entende que nem todo mundo no Brasil tem acesso à internet. É, e isso é um tema muito complicado. Então, quando a gente observa que tem uma camada, uma outra população que não tem acesso a essa internet, a gente exclui essas pessoas do debate. É, por isso é fundamental que a gente tenha essa essa esse costume de buscar fontes que não que que a gente conheça, que a gente sente com a pessoa para conversar, que a gente olhe olho no olho para conversar com essa pessoa. É porque às vezes a gente consegue trazer um ponto de vista diferente do local que a gente do local que a gente encontrou essa pessoa e a gente tem uma uma possibilidade de que essa pessoa conte mais coisas pra gente em relação à história dela, em relação às perguntas da entrevista. Você sente que quando você pergunta uma coisa no meeting ou num canal digital para alguém, a pessoa vai responder aquilo que você perguntou. Quando você vai pra rua, você vai pro para pro local que aquela pessoa tá, ela se sente mais à vontade. Você enquanto jornalista consegue sentir como a pessoa tá e você lida com ela. Você sabe muito bem disso. Exatamente. Oma Preta surge em 2015 com uma proposta muito clara, falar sobre o Brasil a partir do olhar de jornalistas negros. O que motivou esse projeto? Como é que começou? Conta um pouquinho pra gente da alma preta. Bom, a uma preta, ela surgiu na Unesp, né, na Universidade Estadual de São Paulo em Bauru, no campus de Bauru. Ela nasceu de cinco jovens negros que cursavam curso de jornalismo e design. E eles tiveram interesse de fundar esse esse veículo, porque na época a gente não tinha muitos veículos falando sobre a questão racial no Brasil. Então eles quiseram mudar essa história, eles quiseram trazer para para pro universo da universidade e pro universo nacional, né? Um veículo que trouxesse a nossa gente, pessoas negras que contassem aquelas histórias, que tirassem fotos, pessoas negras que fizessem eh design. Então assim, pessoas negras que construíssem eh um portal de notícias para pessoas negras. É claro que hoje se você for na al uma preta jornalismo, se você não for uma pessoa negra, você vai ter uma informação e vai ser super útil para você, porque a gente também produz sobretudo notícias de interesse público. E essa motivação naquela época foi preponderante, porque você tinha você teve um boom de jornais de jornais independentes no Brasil inteiro, teve grandes veículos nascendo junto, agência pública da Intercept e acho que a Uma Preta nasceu nesse cenário, né? eh, nasceu nesse cenário num num ótimo momento, né? Às vezes tudo é time e ela conseguiu durante aí nos seus últimos 10 anos construir uma carreira eh que hoje a gente tá alcançando um cenário nacional, internacional, que tá sendo bem bacana pro desenvolvimento da da marca e também do das pessoas que trabalham lá. Nesse período de criação do alma preta, houve alguma situação assim que um desses cinco pensaram assim: "Poxa, eu tenho muita coisa para falar, para informar, mas eu não consigo um espaço nos outros veículos. Então eu vou montar o meu para poder falar do meu jeito, mostrar o meu olhar." Teve isso também ou não? Provavelmente sim. É porque quando a gente, eu eu cursei a na Unesp de Bauru também e eu lembro que na época a gente não tinha veículos, muitos veículos independentes. Uhum. na na cidade, né? Então, o jornalista que que tava lá e o estudante, né, que tava fazendo jornalismo lá, ele não tinha muitas opções de tentar encaixar uma pauta, uma matéria que trouxesse a pauta racial como centro do debate. Então, eu acho que a alma preta ela foi ela foi muito importante nesse sentido de desenvolver esses estudantes e de trazer uma esperança para pr para essas para esses estudantes que na época não tinham esse espaço. Eu vi uma pergunta na internet e me despertou também uma essa curiosidade. Alma preta, vocês contratam apenas negros ou não? É sim. Hoje a gente tem no corpo de de profissionais 95% de pessoas negras, né? A gente tem pessoas negras em todas as áreas. Então a gente hoje tem sete áreas dentro da uma preta, que vai de audiovisual, design, administrativo, projetos, comercial, eh editorial, jornalismo de dados, investigativo. Então é uma se tornou uma agência muito grande, né? Sim, sim. Eh, é muito bom ver eh essa diversidade e também diversidade regional. Hoje a gente tem pessoas trabalhando em Belém, em Brasília, em no Rio de Janeiro e em São Paulo. Que legal. E aí, assim, como é que vocês trabalham o conceito da comunicação antiracista? Como é que no dia a dia, eu imagino que em algum momento tem ali reuniões de pauta, né, as famosas reuniões de pauta. E isso tem que ser trabalhado, né? Tem que ser programado, monta-se uma estratégia. Como é que vocês lidam com isso? Sim, hoje a uma preta, ela tem diversas áreas dela, produzem conteúdo, né? Mas esse especificamente a parte de redação, ela tem uma rotina muito muito precisa. Então, semanalmente, os jornalistas se encontrem para se encontram para discutir as pautas, para trazer temas que são relevantes e de interesse público paraa nossa audiência. E esse processo ele é muito natural, né? No começo ele é difícil, mas agora ele já é natural. Então, meio que a gente já sabe os lugares onde a gente vai buscar uma informação. A gente já tem uma confiança da comunidade, né, da espalhada pelo Brasil inteiro, que manda diversas pautas pra gente do que tá acontecendo na região, o que é importante a gente apurar, investigar, mas também tem um trabalho jornalístico mesmo, que é o trabalho de apuração. Esse é o esse é o que a gente chama de o o mais difícil, né, que é você trazer uma pauta importante, que é você ter esse olhar jornalístico, que é o que é o factual, o que vai ser interessante, o que você vai conseguir trazer pra audiência, ela vai achar relevante, que vai trazer impacto, que vai causar uma mudança. O Victor, você é o autor, né, do manual de redação da Alma Preta e eu quero saber um pouco mais sobre esse manual, como é que foi para você estruturar esse manual, o que que ele tem de inovador, certo? Eu sou co-autor desse manual de redação. Ele foi uma construção com jovens estudantes, foi eu e mais cinco colegas, né, jornalistas e historiadores. A gente construiu esse manual de redação com a orientação do editor chefe e fundador da Preta, o Pedro Borges, o professor Joarez Xavier da Unesp e a professora Ana Flávia Margalhães Pinto da UnB. Então, a gente começou esse processo em 2020, eh, logo no início da pandemia e a gente perdurou por esse manual por três anos, né? Foi um trabalho muito, muito profundo, porque a gente ficou um ano inteiro eh estudando a história da imprensa negra. Então, a gente fez um mergulho de eh a partir de jornais de todo o lugar do Brasil, eh que contava um pouco da história e da cultura da comunidade negra na época. A gente depois fez uma consulta com vários outros jornalistas de várias outras áreas, ou seja, consultamos jornalistas de meio ambiente, de saúde, de educação, de cidade, de segurança pública para construir esse manual. Então, hoje esse livro ele tem quatro partes. A primeira parte fala sobre a história da imprensa negra, a segunda parte fala sobre como a alma preta cobre os diversos temas. Então, por exemplo, como a alma preta cobre educação e esses outros temas que eu citei. E isso fez parte desse processo de consulta. A terceira parte a gente fala sobre técnica, que é como a uma preta entrevista uma fonte, como ama preta faz um título, como a mão preta faz um uma linha fina, como a gente distribui o nosso material. E a última parte é a parte de ética, né, que aí a gente traz como a Alma Preta lida com os diversos assuntos que está ancorada no Código de Ética dos jornalistas. E é a minha próxima pergunta, como uma preta lida, porque assim, vocês já não falam mais só sobre a questão do racismo, vocês trabalham com todos os assuntos e assunto é o que mais tem, né, na nossa área. Então, para quem gosta de esporte, cultura, economia, política, vocês falam sobre tudo. Como é que é isso? Olha, eh, o assunto que a gente mais falou esse ano foi meio ambiente, né? a gente sabe que vai ter uma cópia agora no final do ano, então a gente tá muito debruçado nesse assunto. A gente tem jornalistas que t mais afinidade com cada tipo de de tema. Eh, a gente busca tá bem aberto a receber todas as as coisas que estão acontecendo também no momento. Eh, a gente acaba falando muito de meio ambiente, eh, porque a gente sempre falou, a gente já cobriu sete cops, mas também porque a nossa audiência pede. Uhum. Quando tá acontecendo muita coisa relevante pro esporte, a nossa audiência perde. A gente busca muito escutar, ter essa escuta, esse entendimento do que tá sendo mais e mais falado no no dia a dia, tá sendo mais falado entre a nossa audiência e a gente vai buscando trabalhar com essas pautas. Eh, mas a diversidade de temas ela é super presente. Eh, a gente tem uma uma pessoa que cuida de jornalismo político, uma pessoa que cuida de jornalismo esportivo, uma pessoa que cuida de jornalismo ambiental. Então, a gente, essa divisão ajuda a gente manter o termômetro e não ficar muito desequilibrado durante o ano nas coberturas. Ô Vítor, quando você olha paraa imprensa de um modo geral, você consegue identificar qual área do jornalismo está mais preparada e atuando mais nesse combate antirracismo. Quando a gente pensa, por exemplo, o jornalismo político, esportivo, cultural, você consegue identificar áreas que estão mais diante assim dessa dessa luta, dessa causa. áreas que ainda não levantaram essa bandeira. Olha, eu tenho eu tendo a acreditar que é o jornalismo de cultura que mais faz, que mais que mais tenta trazer a pauta para dentro. Eh, porque eu vejo que tem ali uma preocupação de trazer o o destaque pro artista negro, tem uma uma preocupação em destacar eh eventos de que criado por por pessoas negras. Eu ainda acho que as outras pautas que você comentou ainda estão um pouco distante de achar esse esse fiocondutor. Por exemplo, no jornalismo político, acho que a gente tem uma dificuldade de encontrar uma cobertura mais intensa que envolve as questões raciais, né? Por exemplo, quando a gente vai entender um projeto de lei, fazer uma reportagem sobre um projeto de lei, a gente ainda tem dificuldade de traduzir paraa nossa população como aquele projeto de lei ele impacta a população negra, seja um impacto ruim ou seja um um pacto positivo. E agora na resposta sem que fazer juízo de valor a a um projeto de lei qualquer. ou por exemplo, no esporte, a gente não discute eh a como uma questão racial, por exemplo, dificulta a ascensão de um jogador de futebol, por exemplo. Então, a gente tem essa a gente não tem essa visão ainda, né? A gente e e os próprios jogadores não se sentem à vontade a falar disso, né? E e em outros esportes. Isso nunca é um pano de fundo, isso nunca é um elemento central. E a gente sabe, nós pessoas negras sabemos que isso é muito relevante paraa nossa construção enquanto pessoa. E no meio ambiente, que é um tema que eu acho que ganhou muita, muitos contornos nesses últimos do tr anos, né? Eu acho que ainda a gente não fala sobre transição justa de uma maneira direta, a gente não fala sobre racismo ambiental e como ele impacta as pessoas que estão nas comunidades urbanas e rurais. Então eu acho que esses outros temas, por exemplo, ainda estão pouco distantes do que eu acompanho. Eu acho que o jornalismo de cultura tá um pouco mais próximo de alcançar esse essa medalha, esse essa conquista. Sim. E você acha que isso tem acontecido por falta de profissionais negros a campo, seja falando de meio ambiente, de política, de esporte? Você acha que pode ser essa uma das questões? é um reflexo, mas eh sobretudo eu acho que faz parte do que a gente construir enquanto imprensa, né, no Brasil. Eh, a gente como como a gente falou no começo da da conversa, tem uma mudança, mas a a gente tem eh 500 anos de imprensa ou muitos anos de imprensa. A imprensa negra tem 100 anos, né? Fez um pouco mais que 100 anos. Sim. Eh, a gente tá muito distante ainda. Então, a narrativa ainda não é sobre pessoas negras, elas não são o foco das reportagens. Eh, eh, há uma mudança, mas ainda a gente tá distante. Você é um jovem negro, jornalista, que já tem aí mostrado muito bem o seu o seu trabalho. Qual é a dica que você dá pro nosso público, pro público de casa, paraas pessoas que estão nos vendo aqui pelas telas? De que forma que a gente pode avançar nessas discussões sobre o antiracismo? Bom, eu acho que vocês, primeiramente, acompanhem o portal da Alma Preta, Jornalismo. Eh, eu acho que sobretudo lá você vai ter informação de qualidade, informação de interesse público, informação relevante, mas sobretudo leiam eh reportagens de jornalistas negros. Deem destaque para esses jornalistas que trazem na sua narrativa, trazem na sua escrita uma caminhada e uma vivência que só eles têm. Maravilhoso, Vittor. Muito obrigada por você compartilhar a sua experiência, a sua história, esse trabalho tão bonito que a Alma Preta faz agora com você também, esse trabalho que você fez para eles, né, do manual de redação, muito importante também. Obrigada, viu? Eu que agradeço. Obrigada a você que nos acompanhou pelas telas. Esse foi mais um ponto de vista. Até o próximo programa. Ciao. [música] [música] [música] M.
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