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[Música] Olá, minha gente. Começa agora mais um ponto de vista e neste programa nós vamos falar sobre o esporte, mas como transformação social. A nossa convidada de hoje é a Tatiane Zamai, gerente de desenvolvimento social da Fundação FEAC. Tati, conta pra gente um pouquinho aí da sua experiência à frente da FEIAC, porque vocês também têm uma participação com o esporte, né? Bom, é um prazer estar aqui com vocês hoje falando um pouquinho da nossa experiência enquanto Fundação FEA que atuação que a gente tem aqui no município de Campinas. Então, eu sou gerente de desenvolvimento social. Dentro da área de desenvolvimento social, a gente executa vários projetos no município junto com as organizações sociais. Então, a Fundação FIAC, ela é uma investidora social-privada, ela também atua no assessoramento dentro da política de assistência social e nós temos vários projetos no município de Campinas, especialmente nas áreas de vulnerabilidade, ou nas regiões periféricas ou com públicos específicos, como pessoas com deficiência, pessoas em situação de acolhimento. Então, nós temos vários projetos nesse sentido. E aí, no que diz respeito à questão do esporte, nós entendemos que o esporte é um meio, ele é meio que promove o brincar, ele é um meio que promove o lazer e ele é um meio que também promove a convivência comunitária, né? A sensação de pertencimento naquele lugar que você mora. Então, nós temos vários projetos que utiliza o esporte como uma mola propulsora para viabilizar essas questões nos territórios, principalmente nos territórios mais afastados nas periferias. Eh, muitas vezes é escasso as possibilidades de esporte e lazer. Então, alguns projetos eles focam exatamente nessas regiões e nesses públicos. Legal, Tati. E assim, pra gente entender quais são as principais habilidades que esse esporte pode trazer pra sociedade, pensando muito nessa questão de de transformar mesmo a sociedade, porque o esporte além de ser, né, como você disse, tem ali aquele momento de de brincar, mas ele tem também se mostrado como uma linha que transforma, né? é um momento, é um exercício que vem também para transformar muito a sociedade, né? Isso tem acontecido e ele tá muito ligado a questão do desenvolvimento do próprio ser humano, né? Então, se a gente pensar desde a infância, eh, nós aprendemos a falar, aprendemos a andar, tem toda essa questão do desenvolvimento eh infantil, a primeira infância, todo esse processo que acontece até a vida adulta, até o envelhecimento. E quando a gente pensa o esporte, ele não é só a questão da competição, é exatamente essa parte do desenvolvimento, do desenvolvimento cognitivo, desenvolvimento motor, das habilidades da pessoa. Então, o quanto o esporte ele favorece que tudo isso aconteça e também ele favorece essa convivência, porque por natureza as pessoas elas já são mais individualistas, né? a gente eh até pela rotina do dia a dia, o trabalho, as questões, os afazeres, quando a gente propõe uma prática esportiva no território, ocupando um espaço que é público, que é um espaço que tá lá, que é um espaço de lazer, é um espaço para promover as práticas esportivas, pra saúde, paraa interação, então olha para para todo esse cenário quando a gente impulsiona e contribui para que isso aconteça, né? É um momento também que faz, principalmente quando se começa muito cedo, né, pensando nas crianças, por exemplo, ele acaba ensinando as crianças a ganhar e a perder, né? Porque a vida é muito isso, né? Nem todos os dias vamos ganhar, nem todos os dias vamos perder e é preciso ter equilíbrio, né? Exatamente. Ensina muito sobre as diferenças também. Eh, existe, ele ensina exatamente isso. Nem sempre a gente ganha, principalmente os esportes que são coletivos, né? Então, não é só sobre mim, eu preciso pensar no outro, eu preciso pensar no meu time. Então, na medida que eu faço algo, eu preciso olhar pro outro e ver o que o outro vai fazer também para que aquela brincadeira, para que aquele esporte dê certo. E ele ensina também sobre inclusão, a lidar com o diferente, não só na questão da deficiência física, mas entender que as pessoas são diferentes. Então, a questão eh racial, a questão da idade, não só a deficiência, mas aun eh ajuda a lidar com o que é diferente da gente, né? E aí quando a gente fala nessa questão de inclusão, eu acho que o esporte também, se a gente pensar, por exemplo, no Brasil, é claro que o esporte mais comum e mais falado é o futebol. Embora seja um esporte muito comum na periferia, é um esporte que pessoas da classe média ou média alta também gostam, né? Então assim, quando se fala em futebol, todo mundo se junta, né? Aliás, campanha de Copa do Mundo mostra muito isso, né? Toda vez que vai chegando a Copa do Mundo mostra isso, que tem todo mundo ali de todas as raças, de todas as cores, todos os bairros. É um esporte popular, né? E aí o que a gente tem problematizado muitas vezes, principalmente nessas áreas públicas, é que muitas vezes eh exatamente por conta do futebol seu mais popular e do que mais atrai as crianças e adolescentes, e muitas vezes as meninas ficam de fora porque os meninos ocupam esse espaço. Então também esses projetos que a gente executa tem tido resultados muito interessantes com muitas meninas participando também. Então também a democratização, não só, né, no na questão de que todo mundo gosta, mas também na questão de gênero e também de respeitando as diferenças, como adaptar inclusive esses esportes para que pessoas com deficiência também possam eh estar brincando, estar junto e estar praticando esses esportes de maneiras adaptadas, mas não adaptado sozinho, é junto, pessoas com e sem deficiência. Então isso também tem sido muito interessante. Tem um ponto bastante relevante também que é a saúde física, claro, mas também a saúde mental, né? Então como que a prática esportiva pode ajudar na saúde mental, visando que isso também faz parte da inclusão, né? Sim. Eh, nós temos visto hoje o movimento da sociedade é muito tela, né? Principalmente crianças, não só crianças, né? adultos, todo mundo é muito tela, seja por questões de trabalho, mas também às vezes você tá em casa para relaxar, você faz o quê de novo? Uma tela, seja a televisão, seja o computador, seja o celular. Então também o esporte ele é um lugar de despressorização, de de combate ao estress e fora das telas, as crianças elas ficam às vezes muito restritas a esse espaço, né? às vezes já fica o dia inteiro eh na escola e quando chega em casa, dentro de casa, no quadrado do seu quarto, conversando ali por WhatsApp, enfim. E o esporte ele proporciona isso, o ir para fora, o contato também com a natureza, o contato com a rua. Muitas vezes a gente fala que a rua é um lugar perigoso e aí os pais hoje em dia ficam muito preocupados com isso também, né, do estar na rua. Não só pais, nós adultos também temos essa preocupação do estar na rua, mas quando a gente eh incentiva o uso de um espaço público, inclusive em rede, porque aí são parcerias com a escola, tem parceria com o Cras que fica no território para que seja usado esses espaços públicos no contraturno escolar de uma forma protegida, de uma forma que a criança ou que a pessoa possa conseguir socializar também, né? Eu saio, é isso, né? um espaço restrito para um espaço coletivo. E quando eu tô num espaço aberto, em contato com a natureza, quando eu tô praticando um esporte, quando eu tô cuidando da minha saúde, né, não é só saúde física, é saúde também, é o bem-estar emocional, eh toda essa parte mental também, ela vem junto no pacote, né, a saúde de maneira integral, né, o desenvolvimento da pessoa de forma integral, né? Tanto é que quando você comenta sobre terapias, né, o psicólogo sempre orienta, não é só a terapia no consultório, é preciso também a prática de alguma atividade física, né? Porque esse esporte ele também vai ajudar a pessoa tanto no contato social, que pode ser bom, né, para ela diminuir ali aquela carga de ansiedade, de depressão, mas também para ela relaxar, né, ter esse momento com ela mesmo, ao ar livre, né? Eh, a prática do esporte, ela é recomendada em 100% dos casos pela medicina, não só num processo de terapia, mas praticamente hoje em dia qualquer médico que você vai e para além das vezes da receita médica, uma das principais indicações é a prática do esporte, pelos benefícios que essa prática traz. E aí quando a gente olha também as oportunidades do fazer esporte, seja os mais populares, que é futebol, vôlei, mas a gente tem outras práticas esportivas eh que tão dentro mais daquele universo olímpico, que exigem outras outras instrumentos e ferramentas, as pessoas que vivem nas periferias têm menos acesso à possibilidade de vários tipos de esporte, né, quando a gente olha pro pro cenário e a desigualdade social mesmo. Então, esses projetos eles também viabilizam que muitas vezes essas crianças, esses jovens e adolescentes que talvez não tivessem acesso de outra forma consigam acessar esses espaços e ter contato com esses esportes. Então também a gente promove um pouco mais de de igualdade, de acesso mesmo a essa política que é tão tão importante, né, que é é a questão do esporte, né, e lazer. E aí a gente pode considerar também que existe junto com essa oportunidade oportunidade profissional, né? Além desse desse jovem ele se envolver com o esporte, aquilo pode dar a ele uma ideia de profissão, né? Porque ele pode, através daquele momento que era um brincar inicialmente, ele desenvolver um talento e querer se tornar um profissional daquele esporte, né? Exato. A princípio, o foco principal nunca é esse, mas muitas vezes isso acontece como consequência, porque muitas vezes não é que a criança ou jovem não tem habilidade, ele nunca experimentou, ele nunca teve acesso ao esporte, então sequer ele sabe se ele tem habilidade, aptidão, se ele gosta. À medida que ele toma contato e pode experimentar, às vezes pode aparecer um uma grande aposta no universo do esporte. Um dos nossos projetos, ele é em parceria com a Associação Paraolímpica de Campinas. Então é muito interessante porque a a proposta é inclusão, porque esse projeto ele olha para crianças com e sem deficiência. Então ele garante que crianças com e sem deficiência façam a a prática do esporte juntos. E aí para criança, adolescente com deficiência, a adaptação, mas são os dois ali juntos praticando esporte. Então, o quanto isso é interessante e promove tanto eh essa convivência eh social, convivência comunitária, como também, como você disse, acaba descobrindo talentos no mundo esportivo. A própria Associação Paralímpica, ela já nos trouxe vários casos de várias crianças e adolescentes que passaram a competir e tem isso como a sua profissão, né, digamos assim. Exatamente. É, tem muitos casos, né, nadadores, por exemplo, de falar: "Ah, eu usava ali como treino." Natação é muito indicado para quem tem problemas respiratórios, né? Então, aí o médico indicava, falava: "Ah, tá bom, eu vou fazer ali algumas aulas de natação". E a pessoa descobria ali que ela tinha um talento, que ela tinha o dom e foi fazendo até se tornar um profissional, um atleta, enfim, medalhista, né? Tem tantos casos assim. Isso, essas possibilidades de acesso, porque se você não experimentar, se você não tiver o primeiro acesso, às vezes você nunca vai descobrir. É um talento que você nunca vai explorar. Então, quanto isso é potente e a gente vê as crianças tendo essas possibilidades de explorar e aí isso contribui para saúde, pra saúde física, emocional e pode se tornar a atividade principal da vida dessa pessoa, incentivando outras crianças, outros adolescentes, movimentando o território, movimentando a rede de serviços, as próprias políticas públicas, né? Porque alguns dos projetos eles são provocadores, no bom sentido, de avançarmos em algumas políticas públicas no sentido do esporte nos bairros, né, para que isso seja vivo dentro das comunidades, né? Muitas vezes a gente tem alguns centros esportivos ou algumas coisas que ficam distantes ou algumas possibilidades de esporte a alto custo e o quanto é interessante enquanto política pública mesmo, que esses esportes sejam acessíveis para todos e todas, né, nos bairros, eh, para que os pais possam levar e buscar. para que possa ser no contraturno. E aí as possibilidades depois disso são infinitas, né? Táti, você fez um comentário sobre a Associação Paralítica daqui de Campinas, que vocês unem, né, tanto as crianças que t algum problema de deficiência e as que não têm. Uhum. Você acha que esse modelo é um modelo que incentiva ainda mais a criança e e ao mesmo tempo essa criança que tem ali algum alguma deficiência, ela se sente mais incluída nesse espaço justamente por ela estar disputando com alguém que não tem o mesmo problema que ela? Com certeza. Por muitos anos na nossa sociedade a gente viveu um processo de segregação da pessoa com deficiência, né? Então, as próprias organizações sociais, a gente num modelo muito de atender só a pessoa com deficiência ou mesmo a escola, as crianças não iam nas escolas regulares, elas iam nas escolas para crianças com deficiência, depender da deficiência que ela tinha. E hoje a gente vive um momento diferente na sociedade, né, onde a gente olha pra inclusão, para que essas crianças e pessoas com deficiência estejam incluídas na sociedade. O que que significa tá incluído? é fazer junto, é estar junto nos mesmos espaços, é os espaços e as pessoas e os ambientes que precisam se adaptar para que todas as pessoas, independente das suas diferenças, limitações e potencialidades, possam conviver juntas. Então, o esporte ele é uma mola propulsora para que isso aconteça. Então, a criança ela já cresce entendendo que a outra criança que às vezes não tem a mobilidade reduzida, por exemplo, por conta de alguma coisa, de alguma questão ou de nascer ou acidente, que ela vai ter um uma necessidade de adaptação, mas que ela tem o mesmo potencial e os mesmos direitos do que qualquer outra pessoa, inclusive o direito ao esporte. Então esse processo de inclusão é importante porque antes a gente tinha eh muito um olhar pra pessoa com deficiência como coitadinho, como menor, ai coitado, ai não consegue, não dá, não consegue. Ah, não, vamos deixar quietinho dentro de casa porque fora, né, aquele olhar, aquele estranhamento e a gente vive um movimento ao contrário. E quanto mais a gente provocar, desde pequenininho, que a criança entenda que isso é natural. Uhum. Ser diferente é normal. Quanto mais cedo a gente começa com isso, mais arraigado fica, mais natural fica pra sociedade nesse tipo de convivência com os diferentes, né? Tem um outro ponto também interessante, é que trabalha bastante o cognitivo, né, dessas crianças. E aí eu gostaria que você citasse pra gente alguns benefícios desse processo cognitivo, né, dessas melhoras que o esporte traz na vida dessas crianças. Há um tempo atrás eu li sobre um estudo que inclusive no sentido do a criança ali aprendendo no processo de leitura de alfabetização, o esporte ele pode auxiliar inclusive também nisso, porque o esporte ele mexe com a parte cognitiva, né? Você tem que raciocinar, você tem que pensar como você vai fazer, por você vai fazer, o espaço em que você tá. Então você pensa o equilíbrio, a questão da da lateral, né? Como eu preciso me locomover, eh como eu preciso olhar pro outro, como eu preciso entender todo esse processo. Então isso ele não é quando a gente fala do brincar, a criança ela aprende brincando. Não é um brincar, ai vamos brincar, a gente cresce e a gente perde essa essência do brincar, né? algo bobo, algo menor. Vamos brincar, né? Adulto perde essa essência. Mas o brincar no processo de desenvolvimento, ele é extremamente importante, porque a criança ela aprende brincando, muito mais do que sentada na cadeira falando, ela aprende fazendo, ela aprende explorando, ela aprende subindo e descendo, ela aprende brincando com a bola, tentando colocar a bola no cesto. Ela aprende dando cabalhota. Então isso ela não tá só brincando, ela está se desenvolvendo, ela tá crescendo, ela tá ampliando suas possibilidades cognitivas, as suas possibilidades de socialização, a sua capacidade de memória. Então tudo isso é explorado dentro do esporte, né? Por isso a importância do esporte. Então não é assim, ah, se der tempo, a gente faz esporte. Ah, se não é algo menor, é tão importante quanto outras coisas pro desenvolvimento integral de uma pessoa. Falta ainda esse olhar mais atencioso pro esporte, né? A gente vai para um rápido intervalo, volta daqui a pouquinho com mais assuntos sobre o esporte. [Música] Voltamos aqui com mais uma parte do nosso ponto de vista. Nós estamos conversando sobre esporte, mas entender melhor como o esporte pode transformar a vida das pessoas, né? Ele tem sido uma transformação social. Ao meu lado está a Tatiane Zamai. Tati, eu acho que assim, a gente tava comentando, né, antes desse intervalo, o esporte ele também ajuda a lidar com aquele momento de frustração, de decepção, porque o que acontece? Em algum momento no esporte alguém vai perder, né? E isso é um reflexo do nosso cotidiano. Na vida a gente perde muitas vezes, outras vezes a gente ganha, mas o esporte ele tem essa capacidade, né, de mostrar isso. Acho que de uma forma mais leve a gente pode pensar dessa forma. É mais leve, é muito mais do que você falar, é você interagir, né? É você tá experimentando essas possibilidades, tanto do ganhar quanto do perder, estar com o outro, saber se relacionar. Eh, saber abrir mão de algo, saber que essa agora não é a minha vez, é a vez do outro, ele vai primeiro, depois eu vou. Ou saber que eu vou agora, eu preciso ajudar o meu colega aí também, porque às vezes ele tem alguma questão que eu preciso apoiar. Ou a gente tem muitos os esportes de competição, né, que é isso, né? Um ganha, um time ganha, o outro perde. Um ganha, o outro perde. Mas também nós temos os esportes de cooperação, né? Nós temos essa outra perspectiva também de o quanto é importante para além do ganhar e perder é o cooperar, é o aprender, é o estar junto, é o conviver, é o pertencer a esse espaço, é o pertencimento do território, é a valorização do estar junto. Eu acho que experimentar as coisas, elas ensinam muitas vezes mais do que às vezes um educador falando: "Olha, pode isso, não pode aquilo. Ah, perder é normal. você ouvir, isso soa de um jeito, você vivenciar isso, isso soa de outra forma, né? Então é uma grande oportunidade de experimentar, experimentar o contato com o outro, experimentar estar perto do outro, experimentar o respeito ao outro na prática, não discurso, mas na prática ao vivenciar isso e às vezes fora daquele do meu núcleo familiar também, eu expando, né? Quando eu tô praticando um esporte, eu não tô só com a minha família, com o meu núcleo familiar, eu estou com outras pessoas que, a princípio, eu sequer conheço. E aí eu também tenho que aprender a interagir, eu tenho que aprender a eh a olhar pro outro, a conviver com o outro. Então, tudo isso eh o esporte ele é um meio, uma ferramenta muito importante de transformação social. Então, em vários dos nossos projetos, a gente usa o esporte como meio, tanto para fortalecer as organizações sociais, porque muitas vezes a gente tem as organizações sociais que estão nos territórios e lá elas oferecem serviços e e atividades para as crianças. Então, o esporte é muito forte dentro do que a gente chama das ONGs que ficam nos territórios. Então, é uma prática muito comum. Então, quando a gente, por exemplo, traz associação parolímpica, também tem essa possibilidade de qualificar esse serviço que é oferecido por essas ONGs para que mais crianças tenham acesso, crianças adolescentes, muitas vezes adultos, pessoas idosas, tenham acesso a essas práticas de maneira qualificada. Otá, isso me fez lembrar também que quando a gente fala de esporte, mesmo aqueles que têm ali aquela atividade individual, se a gente pensar, por exemplo, nas meninas da ginástica nas olimpíadas, tem a fase que elas disputam ali em conjunto, né, grupo contra grupo, e tem aquele momento que é cada uma por si só. Sim. E mesmo nesse momento a gente via, por exemplo, a Babia, a Flavinha torcendo pela Rebeca e viceversa, quando sabia que uma tava machucada, ficava ali apreensiva, né, para não acontecer nada. Então isso também é legal, né, você saber que você torcer para o seu colega não tá te desmerecendo, né? Não é mais sobre mim, também é sobre o outro. E o outro estar bem e o outro se dar bem. É também é motivo para mim a felicidade. Isso é sociedade, né? Isso é pertencimento de verdade. Isso é estar em sociedade, né? Não é sobre mim, né? Eu estou bem, então tá tudo bem. Não, eu torço pelo outro. Eu torço para que o outro também ganhe, para que o outro fique bem. Então, e essas o esporte ele também é um meio e que pulsiona isso, né? É por isso que vale a gente sempre ressaltar que assim, quando a gente vê rivalidades no esporte, né, de um time contra o outro, cara, é tão pequeno e tão desnecessário, porque a gente sabe que eles mesmo ali em campo estão sim disputando, mas ali eles também sabem da obrigação que eles têm como indivíduo, né, como ser humano, né, de entender que o outro vai ganhar em algum momento ou eu às vezes ganho, né, esse respeito, né, múto que tem que ter. é como projeto de sociedade, né? O que que a gente quer, o que que isso significa, né? O que que o esporte significa? O que que o acesso ao esporte significa? É a disputa pela disputa, é o lazer, é a parte que é positiva, que é a vibração, como você disse, é o vibrar, é o torcer, é o se alegrar, é o ficar triste também quando não dá certo, quando dá tudo errado. Todos esses sentimentos eles são legítimos, né? Então, tudo isso é importante vivenciar desde o início, o se frustrar, o ficar feliz, o tentar e não conseguir, o ir evoluindo aos poucos. Tudo isso faz parte do processo, né? E isso quando a gente fala que isso acontece no esporte, mas isso acontece na vida como um todo. A gente vai ter que lidar com essas situações a todo momento, seja no trabalho, seja na família, seja na escola, seja nas relações humanas. a gente precisa lidar com esses sentimentos, com essas questões o tempo todo. E aí quando a gente pensa os projetos muitas vezes que eles estão espalhados, eles são viabilizadores e eles contribuem para que não só a criança, o adolescente, as pessoas possam ter esse esse processo de desenvolvimento e de forma natural, de forma leve, de forma prazerosa, mas também que ela possa conseguir de fato experimentar tudo isso, ter acesso a tudo isso de forma qualificada. Eh, quando a gente trabalha, por exemplo, a gente pensa num projeto, seja com a Associação Parolímpica ou com as organizações, as ONGs, organizações sociais aqui de Campinas, o que a gente quer é movimentar toda essa rede. Quando a gente fala de criança, a gente fala do sistema de garantia de direitos. Quando a gente fala de pessoas mais velhas, tem outros serviços, né, do adolescente, jovens, o Estatuto da Criança, do Adolescente, Estatuto da Juventude, a própria Constituição Federal, ela tem o esporte como um direito. Em todos esses documentos que são normativos no Brasil, ele tem o esporte como um direito e e como condição de bem-estar, né, de bem-estar social, de qualidade de vida. Então, como eu disse, né, anteriormente, muitas vezes, eh, esses acessos eles não são viabilizados para todos. E aí com essa prática e atuando em rede, isso pode acontecer de maneira cada vez mais ampliada, né, Tátia? É isso tudo que faz o esporte ser reconhecido como uma ferramenta de inclusão social? Tudo isso acho que são fatores que são fundamentais, né? Tem algumas coisas, alguns processos que a gente diz, algumas atividades, a cultura, eh, quando a gente fala da música, do teatro, eh, o próprio esporte, eles são meios para alcançar outras coisas. Então, o quanto é importante o fomento a tudo isso, o quanto o esporte ele tem um papel importante na sociedade, importante pro desenvolvimento social, individual e social, o quanto é importante que cada vez mais isso seja democratizado, que as pessoas possam ter acesso ao esporte, porque de fato isso transforma. Às vezes a gente ouve eh em algumas falas as pessoas falam assim: "Ah, o esporte também é importante porque tira a criança da rua". Eh, e de fato, mas não nesse sentido da rua como um espaço ruim. Pelo contrário, quando a gente leva o esporte para uma praça, quando a gente leva o esporte para um espaço público, a gente tá transformando a rua no que a gente acredita que pode ser perigoso e pode ser ruim, às vezes, de fato, pode num lugar coletivo de pertencimento, num lugar que eu quero estar, num lugar que é importante para mim, que eu reconheço como algo bom. Então, o quanto é importante que esses espaços da rua, do território se transformem, que as pessoas possam lá, eu vou praticar o esporte lá naquela, sabe aquela quadra que fica lá no bairro tal, lá a gente tem aula disso, daquilo, a gente usa para isso, para aquilo. E isso é reconhecido por esse território como algo que é bom, que esses espaços públicos sejam espaços de esporte, de lazer, de cultura, de teatro, de pertencimento, que as pessoas possam circular nesses espaços com liberdade. Isso é transformação e desenvolvimento social e não só nos espaços formais ou dentro dos clubes ou dentro de alguns espaços específicos, mas que isso possa ser algo que é da sociedade, que é para todos e todas, que é pro centro de Campinas, mas também é pra periferia lá longe, que isso possa ser acessível para todos, né? É, não à toa a as principais eh cidades, se não todas, eu acredito que tem feito, por exemplo, as praças com aqueles equipamentos, com quadra, algumas, né, tem até o parcão, né, fazem também ali um espaço para caminhada. Então, é justamente para dar esse esse espaço maior ao esporte e ali assim de uma forma aberta, né? Quem quiser pode vir, né? Não tem mais aquela parte que, ah, só quem tem condições de frequentar um clube, de ser associado a um clube que vai poder participar, não é? A política pública trouxe isso, né? essa questão da rua que você me falou, eu acho que assim, eh, não é que a criança sai da rua, né? A criança que está participando de de alguma prática esportiva, na verdade essa criança ela não se ela deixa de ser muito vulnerável a coisas que talvez na rua, em uma rua mais deserta, sem um espaço para o esporte, poderia prejudicar a infância, a adolescência dessa criança, né? Então assim, a gente vê muitas histórias de pessoas, inclusive que estavam em periferias, né, moram em periferias e estavam ali num momento difícil, um momento arriscado, por conta ali de toda a situação ao redor. E a prática esportiva fez ela entender que não, aquele caminho não é para mim, né? Então assim, ela muda o olhar do que ela precisa seguir, do que ela pode e deve, né, ter ali como um objetivo de vida. Você acaba ampliando as possibilidades de escolhas, né? É isso que a gente fala, né? do acesso, da garantia de direitos, da garantia desse espaço público que permite que as pessoas façam isso, como você disse, livremente, de maneira a poder explorar o seu território e poder, ah, agora eu quero jogar futebol, agora eu quero fazer isso, agora eu tenho esses espaços que oportunizam que eu faça isso. E de fato, muitas pessoas elas têm a vida transformada a partir desse desse momento. Tem às vezes quando você consegue acessar algo, tem o antes e o depois. O que eu pensava antes, depois, o que eu conseguia ver antes, tem sempre o antes e o depois, né? Porque de fato isso amplia também a sua visão de mundo. Uhum. Né? A partir do momento que você tá em contato com outras pessoas, experimentando coisas novas, explorando outros espaços que você não ia antes, isso também amplia sua visão de mundo. Às vezes você consegue enxergar esse pedacinho aqui. Quando você amplia tudo isso, nesse caso, a partir do esporte, sua mente também abre junto com tudo isso e você começa a explorar e sua vida pode ser de fato transformada a partir desse momento, né? Tati, quais são os principais impactos da participação em atividade esportiva pensando no comportamento social dos jovens? A gente explorou um pouco na questão da agressividade, a ansiedade. Então, a gente vive num um mundo muito ansioso, eh uma sociedade de consumo, eh, e que é um pouco ligado, quando eu digo consumo, até um pouco ligado à compensação, né? no sentido de, ah, eu não tô me sentindo bem, eu tô triste e eu consumo. Isso é uma válvula de escape, né? Eu acabo usando eh outras coisas como válvula de escape. Quando a gente pensa juventude, então tá muito ligada a experimentar coisas novas, né? A juventude tem essa questão da necessidade da adrenalina, do se sentir pertencente, eh do estar em grupo, né? Na juventude, quando você entra adolescente e juventude, tem esse distanciamento um pouco da família para você entender quem você é e você começa a se aproximar de grupos, grupos específicos. Isso é muito bom, mas também pode te colocar numa situação às vezes de risco, porque a depender do grupo que você se aproxima, te te favorece ou aquilo pode te trazer alguma situação arriscada. Então também o esporte ele é um lugar, um grupo, um espaço, um lugar de pertencimento, um lugar no território, um lugar na periferia, um lugar em qualquer espaço eh seguro, saudável, que te impulsiona inclusive a sonhar, a pensar coisas que antes você não pensava. Então, para juventudes, isso é muito importante, ter projeto de vida. Então, eh, não é o esporte pelo esporte, às vezes como você disse, né? A gente tá praticando às vezes o esporte e você vai descobrir que você tem habilidade para aquilo e vai usar aquilo pra vida. Outras vezes não. Ele foi um meio pra juventude, para um jovem, por exemplo, para despressurizar. Uhum. Para conseguir lidar com ansiedade, com estress, com medo, com a insegurança, com a questão da autoestima. A juventude e adolescência tem muito isso do da questão do corpo, né? Sim. da questão agora as redes sociais com toda essa exposição. Então eu tenho que estar perfeita, eu tenho que ser perfeita, eu tenho que ter o cabelo perfeito, a roupa perfeita. E o esporte ele desmistifica isso um pouco. Você tá ali, você é um igual, você tá pensando só no esporte, você não tá pensando se o seu cabelo tá impecável ou se bagunçou porque você tá praticando esporte. Então isso também é uma forma de lidar, especialmente com as emoções. Um ponto interessante também, quando a gente fala de jovens, não tem como atualmente a gente falar de jovens sem falar de rede social, sem falar das telas, né? E eu acho que o esporte ele tira um pouco dessa desse momento só tela, né? que que em algumas situações, em algumas famílias, isso tem se tornado um problema, porque o adolescente, o jovem, ele só quer ficar na tela e o esporte mostra a vida real, né, a vida além das telas, né, que é importante também, né? E estar em outros espaços para além das telas é fundamental. Quando a gente eh nos projetos que a gente executa, a gente tem muitos jovens que a tela é especialmente redes sociais, porque a gente pode explorar a tela para várias coisas, para fazer pesquisa, para, enfim, tem várias possibilidades, mas pro jovem especificamente é muito a rede social. Pro jovem, os jovens da periferia, das periferias, muitas vezes eles também não têm os mesmas oportunidades de acesso que outros jovens têm para acessar outros espaços. Então isso fica mais limitado ainda, porque às vezes eu não tenho condição de lazer, de mobilidade na cidade, então eu me fixo naquilo que eu tenho, que é possível para mim. Então isso vai ficando cada vez mais forte, a sensação de isolamento é cada vez maior também. Então o quanto é importante a gente olhar para essa questão, né, até do amadurecimento cognitivo. Então tem várias coisas que estão envolvidas nisso, né? E como é que a sociedade pode ajudar nessa transformação, né, eh, oferecendo cada vez mais práticas esportivas, pensando nas políticas públicas, quais são os ideais? Na verdade, o que a Fundação FIAC fomenta, né, o que a gente vem problematizando enquanto equipe, enquanto profissionais, enquanto rede, é que eh toda essa rede que atua, né, dentro do município possa olhar para essas questões, pro ela oferece com cuidado, paraas atividades que ela oferece com cuidado, para que ela que essa rede, essas políticas públicas que existem possam ser fortalecidas, por exemplo, para que as organizações possam acessar cada vez mais fundos eh de do esporte para que elas possam ter recursos que viabilizem que isso aconteça. Então, muitas vezes nós começamos um projeto, eh, startamos algo ali para que esse algo possa amadurecer e para que ele possa ser absorvido por uma política pública ou para que ele possa ser feito em parceria com o Conselho Municipal da Criança do Adolescente, para que possam vir recursos públicos para isso depois, porque isso vai fortalecendo a sociedade. Não é algo só, ah, é, esse ano tem prática de esporte e ano que vem não tem mais. tem que ser algo contínuo, tem que ser algo que fique um bem pra sociedade, tem que ser um projeto de sociedade. Ter espaços que viabilizem isso tem que ser um projeto, uma política pública de fato. Então, muitas vezes a gente experimenta, faz um piloto ali, eh, mostra que aquilo é bom, que aquilo dá certo, que se trabalhar junto, várias, inclusive várias secretarias juntos, se várias pessoas, se vários órgãos, as ONGs, eh, secretarias, eh a própria sociedade, as empresas, que tudo isso junto tem um potencial transformador imenso e é possível impactar e promover bem-estar social a partir da união desses esforços para que isso seja seja contínuo, perene, que seja um projeto de sociedade, não algo pontual. Então, quando a gente desenvolve um projeto, a expectativa é sempre essa, que possa ter um espertar para aquilo, né? Que não seja algo que acontece hoje, amanhã acabou, mas que aquilo de fato possa promover transformação, possa promover evolução. E às vezes a gente faz, investe em algo hoje e quizá que daqui um tempo isso já esteja, esse problema nem exista mais, já seja algo, né, tranquilo que acontece naturalmente para que a gente possa investir em outras coisas. Mas a proposta é essa, mobilizar a sociedade como um todo, cada um com seu papel, cada um com a sua responsabilidade para promover esse bem-estar social equitativo, né, dentro do município. Eu acredito que um outro ponto também que que o esporte desperta nos jovens é a questão alimentar. Como a gente percebe que as pessoas que se preocupam, aliás, que tem uma prática esportiva, elas têm uma preocupação diferente com alimentação. Não é só uma questão de vaidade, mas uma questão de nutrição. Não é assim, ah, eu não vou comer o hambúrguer porque eu vou engordar, não. Eu vou comer uma coisa que me nutre para eu oferecer o melhor no esporte que eu pratico. Então, isso também é muito interessante, né? Muito. Como isso é gatilho, né? A partir do momento que eu estou me desenvolvendo, fazendo um esporte, eu começo a prestar atenção até mais em como eu me alimento, eh, na minha saúde de forma integral. Isso tanto pro indivíduo, tanto pra criança, para adolescente, pros pais, né? Porque às vezes a própria criança que tá lá e fala: "Ah, meu professor falou que isso é legal, que isso não é". Então tem esse movimento, tem as crianças entre elas e também tem, como eu disse, das próprias organizações da escola, da ONG, que oferece o serviço, porque aí quando ele começa a ser provocado para olhar para isso, muitas vezes tem uma qualificação do próprio lanche. Então, do lanche ali naquele espaço, ah, no lanche antes era salgadinho e suco de pozinho. Então, tem uma problematização. Será que isso é legal paraa saúde? Vamos pensar em saúde integral. Então também começa a evoluir em vários outros aspectos a partir de algo, né? Maravilha. Tati, considerações finais da sua participação aqui, o seu ponto de vista sobre o esporte como transformação social? Bom, agradeço a participação. A questão do esporte é algo fundamental, é um dos pilares da sociedade, como disse, ele tá preconizado em várias, vários documentos, né, em várias leis, o quanto isso é importante pra sociedade. Então, para nós é um prazer tá aqui, é um prazer dizer que nós temos eh condições e nós queremos contribuir com essa com a transformação social, seja por meio da prática esportiva, por meio de outras questões. Então, o quanto é importante a gente estar discutindo sobre tudo isso e sempre deixar esses temas que promovem o bem-estar social, a equidade aquecidos na sociedade. Então, muito obrigada pela participação. Eu que agradeço sua participação. Agradeço a participação de você aí que nos acompanhou pela tela e até o próximo ponto de vista. Ciao [Música] [Música] [Música]