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[Música] A vida nos mostra que no outono as folhas caem e na primavera as flores renascem. No História de Vida de hoje, nós vamos descobrir como a Silvia semeou a sua plantação. Setembro é um mês que eu sempre amei muito porque eu faço aniversário em setembro. Então, e eu gosto de fazer aniversário, eu gosto de comemoração. E no mês de setembro teve a perda do meu filho, né? Eu fiz aniversário no dia 16 e ele faleceu no dia 25. E a minha mãe também faleceu em setembro, no dia 4 de setembro. Ela faleceu de Covid e ele de acidente. Então, quando nós estávamos na missa, estávamos na missa de um mês da minha mãe, era a missa de uma semana do meu filho. Então, em setembro foram duas perdas do da minha mãe, passado 21 dias do meu filho. Mas é engraçado, eu não fiquei triste com esse mês. É o mês que você falou, né, de florescer. Então, com a perda, você tem que se reinventar e de alguma forma a gente se recria novamente. Então, é um outro ser que brota da gente, diferente, é mais resiliente. E setembro ainda, apesar de eu ter essas perdas muito grandes, a mãe e o filho, tem o meu aniversário, né? Então, dia 25 fez 5 anos que ele faleceu e dia 4 minha mãe 5 anos. E é assim, a vida ela traz esses desafios, né? Você conseguiu uma forma de enfrentar esse desafio, de lidar com esse momento da sua vida de uma forma bastante curiosa, né? Você usou os ornamentos, né, os bordados para para ressignificar esse momento de dor. Como é que o bordado entrou nesse momento? No começo, nos primeiros dias, é uma dor assim surreal. Não, não tem como dizer. É algo assim muito muito forte. E passaram-se os dias, a dor parece que aumenta, né? Porque é mais um dia sem a pessoa. É horrível, horrível, horrível, horrível. Eu mal tava fazendo o luto da minha mãe quando eu perdi meu filho. Então era algo assim, não dá para descrever o que a gente sente. E teve um dia que eu peguei um pano que que eu tinha começado a fazer um bordado e eu comecei a bordar e eu vi que esse o ato de escolher as cores, de ver que ponto que eu ia usar, o que que eu ia fazer com aquele com aquele tecido, eu passava horas distraída ali no meio das linhas, das cores, enfim. E isso foi me acalmando. Então foi algo intuitivo. Não tive a intenção de bordar para esquecer, para passar por essa fase. Mas o bordado me trouxe paz, me trouxe essa tranquilidade, horas de que diminui a minha dor por conta de est ali envolvida com com o ato de bordar. Mas eu acredito que não é só o bordado. Todas as artes elas têm esse poder de fazer com que você saia do do presente, né? Às vezes numa situação que não tá legal e ela tira você daquele momento ruim e ali você consegue ter algumas horas de agradáveis, né? eh desligar de tudo e você se foca naqu naquilo que você tá fazendo. Então, para mim o bordado foi algo que depois que eu percebi que eu tava bem, que eu passava horas bem, então eu comecei a bordar com intenção. Então aí eu fiz vários bordados, eu terminei um, fiz um outro e aí foi assim que o bordado chegou na minha fase de luto. E a fase de luto pra pr todo mundo é difícil, mas a gente costuma dizer que para uma mãe a dor é muito maior, né? Quais são as fases do luto? Bom, eh, a, o luto ele tem cinco fases. As fases do luto, tá aqui no livro, elas são cinco, que é a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. A última fase é a aceitação, mas a aceitação ela vem com o tempo. Infelizmente, eu não sei. Eu acho que tem pessoas que demoram muito para entrar na fase da aceitação. A negação é quando você fala: "Nossa, eu não acredito que aconteceu", né? Tinha dias de eu falar assim: "Gente, não é real isso que eu tô passando". Depois tinha raiva. Você fica com raiva. Nossa, eh, você fica às vezes até com raiva de você mesma. Será que eu não poderia ter feito alguma coisa? Eh, será que eh eu ou você assim, será que eu deixei de fazer alguma coisa ou deveria ter feito ou não poderia ter feito? Então, é muito confusa essa essa fase da raiva. Depois tem a barganha. A barganha é quando você tenta se convencer que aquilo é real. Eh, então você fica procurando eh questionamentos, né, que você se faz de que aquilo tinha que acontecer. Isso quando você tá fazendo essa barganha, querendo ou não, é algo que acalma, né? Que no caso do meu filho aqui no livro eu trato de um capítulo que chama evidências. No dia do falecimento dele tiveram evidências. que depois que ele faleceu, que você vai passando os dias e você lembra de tudo, você fala: "Não adianta, era para ser aquele dia". Então isso é conforta um pouco, né? Depois tem a depressão. A depressão é quando você afunda, né? Depressão, afunda e você bate o pé lá embaixo e para sair é complicado. Eu, felizmente eu não deprimi porque teve um dia que eu tava assim, foi o pior dia, eu da hora que eu acordei até acho que umas 3, 4 horas da tarde, eu chorei aquele dia todinho. Mas teve um momento de lucidez que eu falei assim: "Doê a tristeza é real. Não tem como eu falar, não vou ficar triste, mas deprimir, eu falei, eu não vou deprimir, então eu fiz mais ou menos um decreto que eu não queria deprimir, porque a depressão eu já tive há uns anos, foi muito ruim para sair da depressão. E no luto eu falei assim: "Olha, eu vou sentir a dor, mas deprimir, eu não vou deprimir e eu não deprimi." Aí passaram-se os anos, né? E depois não sobra muito, né? Que vem a aceitação. Você aceita. Eh, é, é, é assim, é triste falar que você aceita, que parece que que aquela o ente que partiu, ele não é tão importante, né? Então você fica muito confusa, poxa, eu vou aceitar a partida do Mário. Mas você fala, todos nós viermos para cá com a única certeza, né, que todos vamos um dia partir novamente, né? A gente tem o dia da chegada, da partida, a gente não sabe, mas ela é real. Então, a minha aceitação, eu trabalhava essa questão. E aí veio a ideia de transceder a dor através do amor, especialmente através do livro que você escreveu. Sim. Eu gostaria de saber então como é que foi esse processo, né? Porque é claro que quando a gente coloca algumas coisas no papel, alivia por um lado, mas antes de aliviar faz a gente lembrar. Sim, né? Como foi esse processo para você? Bom, o livro foi um processo que eu não tava esperando, não imaginava escrever um livro. E tem uma pessoa, uma amiga que ela tem um grupo de orações e ela, eu liguei para ela e falei, comentei, falei: "Nossa, perdi meu filho, eu tô tão ruim, eu tô tão mal". E ela ainda falou: "Ai, eu vou." Ela me ajudou muito nessa fase. Ela falava assim: "Todo dia às 3 da tarde nós fazemos oração, a gente reza o terço e tudo é online, né? Então entra online, a gente vai rezando. Eh, a eu comecei participar desse grupo de orações e quem é é era a responsável por esse grupo, o nome dela é Teresa. Ela é a idealizadora da bola da felicidade e eu a conheci fazendo a bola da felicidade, que também é um bordado. borda. E como quando eu a conheci, eu também sabia dessa força que ela tem na oração. Eu lembrei dela, né? Então você às vezes vai lembrando de coisa, falei: "E agora eu vou falar com a Teresa". Aí na época ela falou: "Silvia, por que você não escreve um livro? Você pode ajudar muitas pessoas." E eu fiquei assim surpresa com a ideia, né? Aí eu falei assim, ela ainda falou assim: "Olha, tava tão assim passada que ela falou: "Seu livro vai ter nove capítulos". E eu falei: "Ai, tá bom, tá." E eu fui. E é o que você falou, foi muito gostoso escrever o livro porque eu relembrei, né, a passagem do Mário por aqui. Eh, eu homenagei a vida dele, né? E eh eu coloquei o as fases do luto, né, para as pessoas que lerem o livro, essas fases estão lá. E essas fases elas são muito interessantes quando a pessoa tá na fase do luto, porque quando ela tá naquela confusão de sentimentos e ela consegue eh se colocar, nossa, hoje eu tô na negação, na barganha, então ela sabe que tudo aquilo que tá acontecendo com ela é natural. né? São coisas que são naturais. Então, às vezes, no dia você passa por várias fases, menos a aceitação. E eu passava pela raiva, pela barganha, pela tristeza e era aquela confusão, mas eu sabia o que eu tava sentindo era uma coisa inerente ao luto. Então, eu acho que foi assim também algo que ajudou muitas pessoas a se entenderem nessa fase do luto. E foi assim que surgiu a o convite de eu escrever um livro. Então aí eu falava assim: "Meu Deus, e o que título que eu vou pôr? Um anjo que partiu, sabe?" Aí a no processo da de escrever o livro, foi brotando, né? a transcendência, a palavra transcender. E aí ficou o amor transcende a dor. Quando você ama, até mesmo quem partiu, eh, você transcende a dor. Fazer um bordado, você transcende a dor, né? Então, foi assim que surgiu o nome de transcender. E também, né, quando eu tava escrevendo, a gente quando acontece algo muito impactante, a gente tem que ressignificar. O ideal é ressignificar, né? É, o ideal é renascer, o ideal é você fluir novamente na vida, porque tinha dias de olhar assim, sabe? Tudo era branco e preto no início. A vida parece que par era algo parado, não tinha movimento, as cores sumiam, parece que eu não via nada colorido. E aí os dias foram passando, né, e os meses foram passando e eu fui voltando a enxergar um dia mais colorido, a ver um parece que existia mais movimento, a vida parece que tava voltando. Então não deixa de ser uma transcendência, né? Eu acredito que Deus é o maior artista que nós temos, porque quando a gente olha pela janela, a gente vê cores assim que só ele mesmo seria capaz de propor pra gente. Exatamente. Através da natureza, né? através do mundo. E você, me parece aqui desse lado que você uniu a fé e a arte para ressignificar, para transceder essa dor. É, sem fé, eu acho que a gente é um saco de batata, porque a fé é que te dá sustentação na vida, né, para mim. Então, a fé eh foi eh sempre foi algo que a espiritualidade que eu sempre fui muito voltada à espiritualidade. Nos primeiros dias do luto, a espiritualidade sumiu. É o que eu falo, né? A vida para e fica tudo parado. Aí foi passando o tempo. Eu felizmente nunca tive raiva assim de Deus, né? Eu ainda pensava, gente, todo mundo nasce, cresce, morre. O Mário foi antes, mas eu não tinha assim, Deus, por você fez isso? Revolta, isso nunca eu tive. Eu sentia no meu coração que aquele que o Mário foi no dia que ele tinha que ir. Então eu isso eu aceitei a partir da dessa forma. E então a a fé para mim, né, a minha espiritualidade, ela foi o meu alimento da alma, né, para mim conseguir acordar todos os dias, eu já acordava orando por ele para que ele estivesse num bom lugar, para que ele estivesse bem. Então, já acordava fazendo as minhas orações e, como eu falei, eu não tive a revolta. E o que que a a arte ela traz? Você exerce a criatividade. Eu tive que me recriar, né, assim, eh, recriar meus pensamentos, porque não é fácil você ter uma perda. Então, eu tinha que conversar comigo mesma, Silvia. Eh, aí eu conversava, eu dava às vezes algumas eh ordens para mim, né? Então é é o quê? Eu com criatividade eu fui também trocando a minha dor pelo amor, a minha dor pelo entendimento, né? Você, então a criatividade na vida da gente é algo que a gente não sabe o valor que ela tem. E se a gente começar a prestar atenção, a gente tá criando o nosso dia a todo momento. Você pode criar coisas legais para você, assim como você pode criar coisas que não são legais, aí fica ao seu critério. Mas a gente tá criando, né? Porque a gente não fala que eh a gente eh colhe o que a gente plantou, isso é criação, né? você então você vai ter que escol perceber a semente que você tá pondo hoje, porque você vai colher lá, não deixa de ser o quê? Uma criação. Então eu tinha eh eu tinha algumas coisas na minha cabeça que eu acho que me ajudaram ao a entendimento, né? Então era assim, eu às vezes eu conversava comigo e a arte, o bordado é criatividade, eu criava. Então, se vocês depois olharem os quadros que eu fiz, eh, nenhum deles tinha, tem tristeza, né? Porque eu tinha aceitado assim a ida do Mário em termos de da espiritualidade. Eu pensava assim: Deus não faz nada errado. Então, se ele foi, era o dia dele. Quem sou eu para ir contra? Então, eh, no momento lá de eu fazer os meus bordados, você não vai ver aquela aquele peso, aquela tristeza nas cores. Ao contrário, eu me sentia bem. Eu sempre tava orando, rezando para que ele estivesse bem, para que eu também tivesse força pr, porque eu tinha dois filhos, né? O mar é o meu filho do meio. Eu tinha a filha mais velha, Paula, que tinha na época uma filhinha, depois era o Mário e o Caio. Então um dia minha filha falou: "Mãe, e nós que ficamos?" Eu falei: "É verdade. E vocês que ficaram?" Então tudo isso foi me fazendo recobrar, né, um a minha estabilidade emocional. Mas não é fácil, mas não é impossível. A perda do Mário, como foi muito repentina, ele foi trabalhar, nós íamos trabalhar juntos. Então, a gente tava no mesmo carro de manhã, ele descia primeiro e depois eu que ia pro meu trabalho. Então, eu vi o Mário de manhã, na sexta-feira e no sábado eu tava no enterro. Aí é aquela coisa, você fala: "Gente, a vida é um sopro. A vida, você tá aqui, amanhã você não tá mais. Então, na sexta-feira nós fomos trabalhar juntos e no sábado eu tava enterrando um filho, né? E é o filho que eu ia trabalhar todo dia. Então, a eh a perda dele fez ass me fez eu valorizar os outros as outras pessoas, né? eh, falar que você ama, demonstrar mais amor, eh, saber que que você agora tá aqui, mas daqui a pouco você pode não estar, né? Então, e esse luto, né, ele trouxe essa esse aprendizado. Vamos valorizar o aqui agora. Vamos amar mais. Vamos ter mais paciência um com o outro. Vamos dar o nosso melhor pro outro. Porque foi essa grande lição que me deixou o luto. [Música] [Música]