Transcrição automática gerada por IA. Pode conter pequenas imprecisões e ainda não
passou por revisão humana. Use Ctrl+F para buscar termos dentro do texto.
[música] [música] [música] Kátia Fonseca é jornalista, atriz e nasceu com nanismo. Ela mostra no Histórias de Vida de hoje que tamanho não é documento e mostra mais que a arte pode salvar vidas. [música] que foi de uma maneira muito natural e eu acho, eu dou crédito à arte porque a minha mãe era professora de piano [música] e ela tinha uma escola de música. Nessa escola de música, além de música, [música] tinha aulas de mímica que a gente chamava, que é expressão corporal. Eu desde que eu me entendo por gênia essas aulas pequenininha assim, quatro pequenininha eu sempre [música] sou, mas noveinha com qu 5 anos já tava nessas aulas de mímica, já estudar o piano e eu aprendi a tocar piano antes de me alfabetizar. Eu acho que a arte me abriu muito horizonte, sabe? E a arte, que é o que eu sempre digo, põe a arte na sua vida, porque a arte dá a autoestima que a gente precisa. Porque quando você consegue tocar uma música no piano, quando você consegue interpretar ou pintar um quadro, você, a sua autoestima vai lá em cima, todo mundo, ai que lindo, que lindo, você mesmo achar lindo. Então isso daí dá uma autoestima muito grande. Depois eu percebi que eu não ia crescer. A questão [música] da deficiência de braços e pernas, eu foi muito pouco tempo, assim, com 30 anos, 20, mas que eu não ia crescer. O problema é que eu não ia crescer, né? Que aí os meus amiguinhos todos cresciam e eu não. E aí eu brinco, tem no [música] livro, tem isso também, que tinha uma mesa na copa de casa. E aí eu comecei a me medir pela mesa e aí eu percebi que passava ano, saía ano e eu não crescia. Mas olha, não teve [música] trauma sobre isso, de verdade. Acho que o trauma não teve trauma. Eu sei, não sei se é arte, eu acho que é arte, a cabeça aberta. Teve um episódio porque criança é muito cruel, né? Criança faz bullying, tira sarro. Eu tinha uma amizade, eu morava numa vila, tinha um monte de crianças [música] e na frente da vila tinha um favelão assim, uns barracos de madeira. [música] E um dia eu tava brincando, saí na rua e a molecada da favela tirou sarro de mim da lejadinha, lejadinha andando atrás de mim. Nesse dia eu chorei, aí fui para casa, minha mãe tava em casa, aí ela me pegou no colo, me levou na janela e falou: "Olha a casa que eles moram, olha, tá todo mundo descalço, vem que eles não tm roupa, eles não tm o que comer. Quem que é mais feliz? Quem que tem problemas? Ele que tem problemas muito maiores do que o seu. Você tem uma casa, você tem mãe, você tem pai, você estuda [música] e eu te levo no cinema, te levo no parque. Você pode ser muito feliz. E ele coitadinho, ele não tem nada. Ainda me fez ficar com pé no dos cara do [ __ ] que me xingaram. [risadas] E aí eu fui parando de chorar, fui entendendo. Não sei que idade eu tinha, mas talvez uns sete, oito, não era tão nova. E aí eu fui entendendo que realmente a felicidade não estava na no formato do meu corpo, mas estava na felicidade, no bem-estar, no afeto, que era uma coisa que aquelas crianças não tinham. Foi aí que que surgiu então eh essa vontade de desbravar o mundo. Sim. Mesmo assim enfrentar o nanismo e enfrentar o mundo. Numa época, nem que nem se falava isso. Exatamente. [música] Uma época em que os pais escondiam crianças, né? Então também eu devo muito a minha mãe, a luz que minha mãe teve. E acho que essa luz que a minha mãe teve também é por causa da arte. Arte [música] abre a mente porque ela também nunca tinha convivido com ninguém com deficiência. Ela foi tudo [música] intuitivo dela. Essa coisa de me botar para tocar piano antes de me alfabetizar foi totalmente intuitivo. Eu acho que foi importantíssimo. E isso é uma é isso é uma coisa que minha mãe sempre [música] reforçou. Me levou a vir festas infantis, me pôs numa escola regular, não escola para crianças com deficiência. [música] Me bom, só o fato de eu est na no curso de mímica que todo ano fazia uma apresentação pública no final do ano e eu me apresentava e tinha o que a gente chamava de bandinha, que ela odiava falar bandinha, era orqué, minha orquéctra. E eu tocava na bandinha e a gente se apresentava no público. Então eu me apresento pro público desde desde muito nova. Então essa coisa do contato com o público, do aparecer, do deixar ser vista, isso sempre nunca nunca ninguém me perguntou se eu queria ou não queria. [música] Vai lá e toca e faz. E eu ia, tocava e fazia. A gente costuma dizer que o preconceito vem do olhar do outro, né? Porque se eu tenho alguém que me olha de maneira normal e brinca comigo e fala comigo, por que que eu vou ter vergonha ou vou ficar triste porque eu tenho um corpo diferente se você me trata [música] igual? Agora, se você vem, começa a me regular, me olhar, a porque tem várias reações, né? Tem gente que tem medo, tem gente que tem pena, tem gente que dá risada. Então, a humanidade é diversa e não quero ser drástica, [música] mas é podre, né? As pessoas são cruéis, não tem jeito. Mas eu acredito, apesar de de ter consciência dessa podridão da humanidade que mata, que rouba, que tira sarro, para mim tá tudo no mesmo. É falta de caráter, falta de humanidade. Eu acho que se essas [música] pessoas tiverem informações corretas, conviverem com pessoas e conhecerem as deficiências, acaba sendo uma coisa natural, entendeu? Foi aí que veio o desejo então de escrever o na medida do impossível. Isso foi justamente para contar a minha história e contar que eu sou exatamente igual a você, que eu sou exatamente igual a 90% da população. [música] Vamos deixar os 10% para quem é certo, né? 90% eu fiz de tudo. Eu tive [música] uma adolescência, uma juventude totalmente transviada. Então eu eu [música] entrei nessa onda e saí lesa, porque trabalhei, tenho minha vida, tenho casa própria, tudo a minha, as minhas custas, [música] minha mãe não me deixou nada, minha mãe não tinha casa, não tinha carro, não tinha nada. Quando ela morreu, eu fiquei sem nada e eu mesma me erguer. [música] Então, por isso que eu conto dessa minha fase poralô, que é que eu conto no livro para mostrar que é igualzinho a todo mundo, entendeu? também foi uma jovem revoltada, mas não por causa da do corpo, revoltada com a guerra do Vietnã, revoltada com a criança que passa fome, com o índio que não é respeitado, entendeu? É revoltada [música] de não poder falar palavrão, de sair pela rua como qualquer adolescente, [música] qualquer jovem. Outro ponto importante na vida de Ktia foram as amizades. Eu dou muito crédito às pessoas que eu encontrei. Eu tenho amigas, eu tenho amigas que eu conheci no quarto ano primário, que hoje em dia ninguém sabe o que é primário, mas seria o primeiro grau. E que são amigas até hoje. Eu tô com 69 anos, são 50 anos de amizade que é assim como irmã. Claro que não é grudado o tempo todo. [música] Teve anos que a gente se afastou, então a gente se encontrou, se afastou. Eu tenho pelo menos três amigas de 50 anos atrás. E aí quando elas me admiram, gostam muito de mim, quando elas me elogiam, eu digo: "Eu só sou assim por causa de vocês, porque eu encontrei amigas como vocês que não tiveram preconceito, que me ajudava, porque eu sempre precisei de ajuda para ir no banheiro, ajuda para tomar banho e elas sempre me ajudaram em tudo." Então eu falei: "Eu não seria [música] a pessoa que eu sou se eu não tivesse encontrado pessoas como você. E é uma mão dupla, sabe? Porque elas voltam para mim e dizem: [música] "Eu não faria isso por qualquer um. Eu só faço isso porque você é muito legal". Então é isso, eu acho que tudo resume [música] na transparência, na honestidade, na no afeto, na relação de [música] afeto. Então tudo é possível quando você tem esse trânsito livre de afeto e de falar as coisas que tem não ficar com subentendidos, com outras, né? Porque amizade assim, você não fala tudo, só fala um pouco. Então acho que essa transparência, essa abertura, eh, ela propõe, proporciona grandes amizades e eu não seria nada sem meus amigos. Formada em jornalismo, Ktia pode vivenciar as mesmas labutas que qualquer outro foca. Você fez carreira em um importante jornal aqui de Campinas, né, no Correio. Você ficou 30 anos lá. Então esse é um ponto também, porque muitas vezes a pessoa com deficiência ela não consegue, bom, não consegue, né? Muitas vezes ela nem consegue a primeira oportunidade, é verdade, né? E você conseguiu e ainda fez carreira. Então, [música] eh, esse tudo que eu falo também se refere, por exemplo, à parte de artes, que foi muito bem passada para você ali, né, na fase maternal, autoestima. Então isso tudo você soube encarar de uma forma muito leve, né? É. E eu não sei, eu vou até fazer uma brincadeira com você. Você soube encarar tudo isso de uma forma muito grandiosa. Obrigada. É, e tudo tem raiz nas relações humanas. Esse emprego do jornal do Correio Popular [música] que eu arrumei aqui em Campinas, quem me trouxe, quem me deu essa vaga foi um colega de classe de jornalismo. Era meu colega, [música] conheci no primeiro ano e a gente ficou grudado. Ele me adorou, eu adorei ele. Eu fui [música] apaixonado por ele muito tempo, mas aí não deu certo, né? Ficou meio no patônico. Mas nós fizemos uma amizade de que virou família. comecei a frequentar a casa dele, a família dele, Natal e Ano Novo passava com a família dele e ele me adotou totalmente. [música] Eu adotei ele e ele foi, eu arrumei um emprego [música] aqui logo depois que a minha mãe morreu. Então, a minha mãe morreu, uma outra amiga me arrumou um emprego em registro no Vale do Ribeira, no jornal Vale, foi o primeiro emprego de jornalista que eu tive. Eu já tinha feito algumas materinhas [música] frilas, mas emprego, emprego fui para registro. E aí eu em registro e o João super preocupado comigo [música] porque eu não me dava bem com meus irmãos, eu tava praticamente com os amigos, só os amigos me apoiaram. E aí ele ele surgiu uma vaga aqui no caderno C e eu já era atriz e ele convenceu o a chefia do caderno [música] C. Ele, eu lembro, ele falou para mim que o pessoal, os chefes perguntaram se ele se responsabilizaria pela minha competência, porque claro, todo mundo quer ser isso, [música] será? Mas só quer o emprego e vai ficar de boa e a gente vai ficar com pena e não vai poder fazer nada com ela? Será que ela vai ser uma boa funcionária? Aí o João disse que se responsabilizava por mim. Aí ele me trouxe depois de [música] primeira matéria que eu fiz, eles me mandaram pra rua lá pro para umas que tava o Zé Mineiro e Marciano. Zé Mineiro e Marciano. Nome acho que é João Mineiro e Marciano. João Mineiro que eu nunca tinha visto falar na vida que não gosto de sertanejo, não gosto de música [música] raiz. Aí eu fui para lá, falei: "Cacete e a chefia eu querendo mostrar serviço, né? Falei, [música] não posso nem perguntar quem é Jen e foi uma hora, estão aí tem que ir lá vai lá e faz entrevista e eu desse tamaninho com meu bloquinho que não sei nem gravador cheio de gente. Aí eu fiquei assim olhando, olhando. Aí eu falei [ __ ] quem é o João Mineiro? Quem é o [risadas] Aí eu fui, fui me escorando, fiquei pertinho. Aí eu comecei a escutar as entrevistas e aí eu descobri quem era um, quem era outro. Aí eu entrei, fiz entrevista e assim tenho casos muito engraçados, eu não tô conto tanto nesse livro, talvez até escreva [música] outro com histórias muito engraçadas de jornalismo que eu não ficava na redação, eu ia pra rua, eu fiz matéria sobre watches gays aqui em Campinas, os gays me adoram, né? Era super bem recebida. fiz, foi fez [música] matéria sobre prostituição. Eu fui lá no Fazidinha e passei uma noite lá no Fazendinha para ver os caras que pegava as meninas, para onde que ia, para onde que não ia. [música] Então eu fui pra rua. Eu ia pra rua e então foi uma coisa assim que é porque o João se responsabilizou por mim, entendeu? Porque é muito difícil [música] bater na porta. Oi, me dá um emprego. Eles vão olhar para mim em cima, baixo, fazer você, mas você tem alguém? E aí foi assim [música] que aí uma coisa puxa outra, né? O João me deu emprego, eu comecei a ficar conhecida em Campinas. Fiz matérias [música] modestas parte ótimas, matérias de capa. Entre pautas e cultura, Ktia também poôde se deliciar com as artes cênicas. [música] Eu fiz teste para trabalhar com Antunes Filho em São Paulo. O Antunes, um dos melhores diretores [música] do Brasil, que fez uma cuna na daquela de 80, foi [música] um stor, um cara genial. E aí em 1983 formada em jornalismo, eu [música] queria sair de Santos e aí abri o teste para trabalhar com túnel em teatro. Eu fui lá e eu passei no teste. Aí minha mãe alugou um apartamento em São Paulo e eu fui morar em São Paulo sozinha. Ela ia três vezes por semana para deixar comida e tal. [música] Foi bárbaro. Adorei morar sozinha. Aí fiz amigos a rua inteira minha amiga, né? E aí eu trabalhei com Antônio 9 meses. Aprendi muito, muito, muito. Foi uma baita escola de teatro. Era o dia inteiro, era uma imersão. A gente [música] começava 7 da manhã e saía às 6 da tarde, almoçava lá, ficava lá, tinha aulas de equilíbrio, exercício físico, história da arte, eh, música, foi uma escola. Aí ele acabou mandando embora, que essa era a fama do, né? Ele mandava todo mundo embora. Ele ficava com muita gente e depois ia filtrando. E aí no final das contas eu fui embora. Mas o que eu aprendi valeu pra vida toda. E aí [música] eu aí eu me senti artista. Aí eu vim para Campinas. Aí eu trabalhei no teatro com Adolfo Mazarini, que era programador de programação do Sesc, diretor de programação do Sesc. E ele fez com ele, eu fiz três peças atuando e fiz uma peça com o Kaká Carvalho, que foi maravilhoso também. O CES que [música] promoveu oficina com Kaká, uma oficina de 15 dias e no final da oficina teve uma apresentação pública que foi também uma experiência maravilhosa que eu aprendi muito e aí me apresentei, fui muito elogiada e a gente fundou uma ONG aqui em Campinas em 1997 chamada CVI Campinas, Centro de Vida Independente, onde a gente deu palestras, nós demos [música] palestras pros seguranças seguranças do shopping Dom Pedro quando ele tava construindo. E aí eles nos chamaram para a a adaptar, para capacitar os seguranças, como tratar as pessoas com deficiência, como ajudar as pessoas com deficiência, cegos, paraplégicos, autistas. E então a gente fazia essa capacitação [música] e também fazia um trabalho junto das pessoas com deficiência que chamava troque de pares, aconselhamento entre pares, que era para conversar, porque eu pego uma pessoa que tá numa fase, a gente nem dizia que era uma pessoa deprimida, ela está numa fase deprimida. Aí ela tem uma deficiência parecida com a minha. Aí eu vou lá conversar com ela para ela me ver que eu tô bem, que eu tô feliz, que eu consegui um monte de coisa. Aí o meu exemplo pode trazê-la acreditar na vida. [música] Então era muito bonito esse trabalho. Essa ONG foi de 97 até 2000 2012. Depois cada um toma um rumo. Falta de engenheiro, sem problema de problema. Elis Regina dizia em [música] uma música que ela falava assim: "Viver é melhor que sonhar". Aham. É verdade. Você, apesar [música] de saber que viver é melhor que sonhar, você fez as duas coisas, né? É. É. E tem aquela outra que agora eu lembrei, os sonhos não envelhecem, né? Sim. Eu continuo sonando. [música] [música] [música] [música]