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[Música] [Música] Oi, gente. No Histórias de Vida de Hoje você vai acompanhar a história da Keila Ferrari. é uma educadora que trabalha com artes inclusiva. Keila, muito obrigada por você participar aqui com a gente desse quadro e eu gostaria que você contasse um pouquinho mais sobre a sua história de vida, né? Você trabalha com artes e de uma forma muito inclusiva, né? O que despertou em você esse interesse? Bom, primeiramente eu que agradeço a participação e a oportunidade de estar aqui. Eh, eu despertei esse interesse bem jovem, com 6 anos de idade, assistindo uma novela com a minha mãe. Eu vi a a Libras, a língua brasileira de sinais, sendo encenada pelos atores nessa novela. Olha quanto tempo faz. A gente nem tinha lei de Libras. E eu já me interessei por isso. Eh, eu também sempre quis ser bailarina, então eu tinha aquele sonho de juntar a dança e ser professora de surdos também, né? E aí eu comecei a dançar mais ou menos com 10, 11 anos de idade, né? E quando eu tinha 16 anos, eu comecei a dar aula de expressão corporal e apareceu um aluno surdo na minha sala. E aí voltou aquela imagem da da criança vendo a Libras se apaixonando, né? A Libras é muita expressão corporal, facial. E aí eu pensei, por que não fazer arte e inclusão? A arte ela tem um poder tanto de comunicar como de unir as pessoas. E quando eu digo, além de ser muito terapêutica também, né? Mas quando eu digo a arte, eu digo essa arte de comunicação, de interação. Ah, o nosso trabalho, ele não tá preocupado só em mostrar um espetáculo estético com pessoas que que possuem uma condição de eficiência, mas em fazer com que essas pessoas se autodescubram, se interagem, uma, interajam uma com as outras, eh que elas criem também, improvisem, né, que elas despertem o potencial criativo, os aspectos psic comores, tudo isso. Então, esse aluno veio, depois ele trouxe a irmã, que tinha uma condição de deficiência visual. A, o meu trabalho começou e depois aqui em Campinas eu comecei a trabalhar com pessoas com síndrome de Down, com o espectro, com transtorno do espectro do autismo, eh pessoas em cadeira de rodas e aí a surdez e a surdo cegueira também. Keila, você em um determinado momento da sua vida, você teve que lidar com essas neurodivergências um pouco mais de perto, né? Você descobriu, né? O seu filho mais novo foi diagnosticado com Tod. Como é que foi essa essa experiência? Porque assim, quando as mães atípicas comentam, né, elas falam que é sempre um processo muito longo até ter o diagnóstico definitivo. E você já lidava com esse público, você já tinha acesso a esse público, você passou por esse longo processo ou você conseguiu identificar rapidamente que ele tinha uma condição? Olha, eu falo que casa de ferreiro é espeto de pau como professora. Eh, é um é de um jeito e como mãe você se envolve emocionalmente é de outro jeito. Então, o que que aconteceu? Eu trabalhava com com crianças, com jovens eh severos, né, de suporte três. Então, o meu filho, caçula, quando ele nasceu, eh, fazia contato visual, se comunicava muito bem, não tinha nenhuma estereotipia, então não tinha problema nenhum, né? Ah, e ele também não tinha hiperatividade. Então, quando ele começou a manifestar as o que a gente chama de birras excessivas, né, o comportamento desafiador, que é o que é o a principal característica do TOD, né, do transtorno opositor desafiador. A princípio, mesmo eu estando na área, eu nunca tinha trabalhado com tod, né? E aí eu comecei a achar que era a minha culpa. Eu que tava trabalhando demais, porque as mães tendem a se culpar também, né? Então eu que tava trabalhando demais o que que tava acontecendo. Depois eu tive o câncer, então ah, é porque eu tive o câncer e isso afetou. Eh, depois o meu filho mais velho foi morar no Canadá. Então a gente tava sempre achando que era alguma questão de dinâmica familiar, né? Até que a coisa começou a se tornar muito grave, a ponto dele não conseguir se relacionar bem com as crianças, nem do condomínio, nem da escola. As escolas nada preparadas para lidar com TOD também. Então, as professoras, em vez de ajudar e ter as estratégias pedagógicas corretas, elas pioravam a condição. Então, sofria a família, sofria meu filho, sofria o professor, sofria todo mundo. Aí eu levei ele para uma avaliação neuro e psicológica, uma avaliação de vários dias, né? Eh, não é uma avaliação barata, não é fácil de conseguir, mas tem que ser feita com profissional adequado, né, com profissional bom. E aí veio o diagnóstico. E por incrível que pareça, o diagnóstico de Todda porque ele não tinha hiperatividade. Então essa era uma coisa que ele era tinha só a desatenção, né? E essa impulsividade do Tod, né? O comportamento desafiante a todas as figuras de autoridade, as mudanças bruscas de humor, o comportamento mais vingativo que algumas crianças e jovens têm, né? Aí, eh, o diagnóstico foi libertador, porque daí nós encontramos a escola certa, já mostramos o diagnóstico, né? Já começamos a fazer terapia. Então, já começou a fazer terapia com a psicóloga com comportamental, cognitiva comportamental. E aí eu fui começando a estudar mais esse transtorno, até por conta do que eu vivi, né? E aí eu falei: "Não, eu vou escrever um livro infantil paradidático que faça com que as próprias crianças reconheça o amiguinho com Tod e e traga algumas estratégias para lidar, né, para ela não ver o amigo como mau, né, e também para que as professoras e os pais percebam o transtorno, porque se eu que sou educadora na ocasião, na época, hoje ele tá tá com 17 anos, né? Mas na época ele era pequenininho, né? Eh, foi difícil, imagina para quem não tem nenhum conhecimento, né? A sorte é que hoje a gente tem muito material na internet, muitas pessoas discutindo Tod, falando sobre o Tod, mas na época que eu passei por isso se falava quase nada. Keila. E dentro da sua história de vida, você passou por momentos assim desafiadores, né? Porque você estava ali na no caminho, né? Na busca de tentar entender o que o que acontecia com o seu filho, né? E ao mesmo tempo você se cuidando, né? Porque você teve um câncer e você já vinha, né, de um histórico familiar. como é que você fez para lidar com tudo isso? Porque assim, eh, para quem está de fora, a gente vê o quão desafiador é. Não é fácil, né, a gente enxergar em nós uma doença, principalmente a gente sendo mulher, né, tem toda essa questão do feminino. Ao mesmo tempo, você como mãe percebendo que o seu filho precisava de você e você precisava buscar junto com ele o que estava acontecendo ali na vidinha dele. E mesmo assim você fez tudo isso sorrindo e dançando. É, eu acho que a dança ela ela traz uma leveza, né? a dança, o canto, a pintura, o teatro, acho que qualquer forma de arte, né? Ela traz para nós uma leveza, um poder se expressar. Eh, quando eu descobri o câncer a primeira vez, foi muito traumático, porque eu já tinha a experiência da minha mãe, ã, que teve o câncer quando eu tinha 6 anos de idade. Então, eu vivi isso, né? E naquela época, então, foi uma cirurgia enorme, né? Eh, modificou o corpo dela, né? Então, a gente teve que conviver com isso. Eu já tinha tido a experiência com a minha irmã, né, que estava morando na Alemanha. Hoje ela veio a falecer faz 3 meses, mas viveu bastante, lutou, lutou bastante, teve uma, uma certa qualidade de vida, né? E então quando eu soube foi um trauma assim muito grande, porque o caçula acha que com ele não acontece nada, então eu achava que eu não ia ter tão cedo, né? Então foi muito difícil, mas eu não sei. Acho que a gente tira uma força, né, de dentro de Deus. A gente não sabe como que eu botei a minha peruquinha, continuei trabalhando e ia nas reuniões do meu filho, inclusive para ouvir um monte de besteira, né? Então foi, eu me lembro que eu tava em recuperação de quimioterapia, tava ainda com os efeitos colaterais. A coordenadora de uma escola particular, religiosa, que meu filho estudou, me chamou e falou assim: "Olha, aqui não tem espaço pro seu filho, não é escola para ele. Nós estamos em três professores e nós não podemos com o seu filho, né? E aí você tá assim, né? tava meio zonza da químio ainda ouvi isso. Então foi muito difícil a falta de empatia dela, né, como a mãe que entrata tratamento. Mas por outro lado eu também sinto que eles realmente não sabiam o que fazer, porque não é fácil. Imagina você ter uma criança que queria dar cadeirada em todas as outras. Não é fácil. Mas para ele querer dar a cadeirada, ele chegou nesse ponto. E por que que ele chegou nesse ponto? Porque a escola não sabia lidar, porque a escola não via os sinais, porque a professora não tinha as estratégias corretas. É possível você minimizar ou ou prevenir alguns comportamentos se você tiver conhecimento, estratégia e principalmente empatia. Mas a professora já tava com raiva dele, a coordenadora já tava com raiva. Ela ela pegou ranço e isso que não pode acontecer, né? Mas assim, graças a Deus, eu tive uma estrutura familiar muito boa. Minha irmã mais velha veio para Campinas nessa época, então ela tava me ajudando nos cuidados com meu filho. Então assim, ele teve muito amor. Mas eu fico pensando e as famílias que não entendem e que compram a ideia da escola, né, que também não entende que o seu filho é mau, que ele vai ser um futuro psicopata, né? Eh, como que fica isso? como que fica a vida dessa criança. Então, a gente precisa cuidar dos nossos neurodivergentes, a gente precisa informar a sociedade, né? E eu sempre bato na tecla cuidar do professor também. E acho que amor cura tudo. Eh, eu acredito que uma sociedade sem amor, por que que a gente tá aqui? A gente tá aqui para evoluir, para aprender a amar. E não é só amar os seus. Eu acho que é amar o próximo, né? Porque nós todos viemos da mesma fonte, pelo menos eu acredito nisso, né? Eh, nós não somos diferentes de ninguém. A gente tá aqui eh numa identidade de papéis, né? o papel da professora, o papel da mãe, mas de verdade eu acho que a gente precisa de amor. [Música]