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Gabriel, agora eu estou de volta comemorando hoje o giro ambiental de número 200. E para isso a gente vai falar sobre um estudo bem importante, olha só. O estudo constatou impactos em bacias hidrográficas em consequência de mudança de cobertura florestal original no sul do estado de Minas. Equipes da Embrapa Meio Ambiente, do Instituto de Terras do Estado do Pará e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo avaliaram os fluxos hídricos e a presença de carbono e nutrientes nas águas fluviais dessas microbacias cujas mudanças no uso da terra apresentam diferentes dinâmicas e características. De acordo com o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, Ricardo Figueiredo, a avaliação constatou impactos nas águas fluviais decorrentes da mudança da cobertura florestal original na bacia do rio Jaguari. E é com ele que nós vamos conversar agora no Giro Ambiental, ele que já participou conosco do programa Meu Ambiente, falando justamente desse impacto do uso da terra na questão hídrica. Seja bem-vindo agora no Giro Ambiental, Ricardo, e fala um pouquinho para nós exatamente sobre essa pesquisa, mas antes, me gerou aqui uma curiosidade, antes de você falar do estudo em si. Eu recebi a informação de que vocês usaram um conhecimento chamado ciência hidrobiogelquímica. O que é exatamente isso e de que forma ela foi utilizada nessa pesquisa? Tá bom, boa tarde, bom dia, boa noite a todos. Não sei que horas estão me assistindo, mas nesse momento eu saludo a todos, a você também, Iana. E a questão é que o estudo ambiental de bacias hidrográficas, além de contemplar a questão da quantidade da água que está na bacia, que flui pelos rios, também o estudo ambiental pode levar em consideração o caminho em que os nutrientes presentes nos solos, na vegetação, E toda a ocupação que se faz do ambiente, em termos tanto de agricultura como urbanização das cidades, etc., alteram esse fluxo de nutrientes que ocorre naturalmente. E a biogeoquímica estuda o movimento desses nutrientes, que são os elementos químicos que naturalmente ocorrem nos solos, nas águas, entendeu? E na própria água de chuva, de certa maneira. Então, a hidrobiogéoquímica procura abordar como ocorrem os processos em que esses nutrientes, incluindo o carbono, tão em voga por conta das mudanças climáticas, como é que eles circulam no ambiente naturalmente e quando há alguma alteração decorrente do uso que nós, como sociedade humana, fazemos dos nossos recursos naturais. E ele é hidro porque ele leva em questão o ciclo da água junto, como a água se movimenta nos solos, enfim, e nos rios, enfim, na bacia hidrográfica. Então, a hidrobiogioquímica nada mais é do que um ramo da ciência que estuda o ciclo desses materiais, nutrientes, carbono e água. E no que diz respeito a esse estudo, que fala justamente da questão do uso sustentável dos recursos hídricos em áreas de cabeceira da bacia do Rio Jaguari? É, nós estudamos várias situações no Brasil, em várias bacias, e desse estudo específico, nós focamos em três bacias de cabeceira do Rio Jaguari, que a gente já vinha estudando a sua bacia como um todo. E, no sul de Minas, nós temos a maioria das nascentes e, então, as microbacias de cabeceira que vão contribuir para formar o rio Jaguari em sua vazão, que vai, inclusive, contribuir para o sistema cantareira. Então, nós estivemos estudando algumas dessas microbacias, pensando em entender um pouco como é que seriam os efeitos ou impactos negativos em relação à retirada da cobertura vegetal original, que são a floresta, a mata atlântica, presente nessas áreas. São as áreas de relevo íngreme, que historicamente vêm sendo desmatadas, inclusive para a implantação de pastagens. Então, procuramos focar o nosso estudo numa área mais preservada, onde a gente tem mais florestas, uma área em que já não tem mais tantas florestas e vem sendo ocupada principalmente por pastos para o gado, mas que vem também sofrendo um processo positivo de recuperação ambiental. Então, a gente poderia até avaliar o quanto que essa revegetação que vem sendo feita ali pode estar ajudando na mitigação dos impactos. E também pegamos uma terceira bacia, que já tem uma ocupação mais importante de agricultura, mais voltada para o cultivo de hortaliças. Então, basicamente, o estudo trabalhou com essas três situações, nessas três bacias, para comparar o uso da terra entre elas e o consequente impacto sobre as águas, de forma a gente também orientar ao uso da terra, de forma que a gente tenha menos impactos na água e possa prosseguir para uma agricultura sustentável e, assim, termos também preservado os nossos recursos hídricos para o abastecimento das populações. Ricardo, exatamente, você falou das hortaliças, mas quais tipos de cultura que vocês constataram nessas cabeceiras? Tem também a silvicultura, o que mais que a gente pode elencar? É, hortaliças de uma maneira geral, é um pequeno produtor, onde está essa bacia, uma bacia de área muito pequena, muito diminuta, Em todas essas áreas, você tem hoje a substituição de pastos ou mesmo de florestas por a silvicultura de eucalipto, principalmente. Então, em todas essas três bacias, você tinha a plantação de eucaliptos, mas não numa área tão representativa quanto as áreas-focus, que foi o nosso estudo de comparar floresta, pastagem e agricultura de hortaliças. Nesse sentido, o que a gente pode falar? Essa pesquisa, ela traz um alento ou ela traz um alerta no que diz respeito à preservação das bacias hidrográficas? Olha, as duas coisas. Ela traz um alerta porque nós observamos que tanto o pasto quanto as hortaliças vêm mudando o que eu chamo de ciclagem de nutrientes e carbono que originalmente ocorrem nessas áreas. E quando isso ocorre, você tem uma queda na qualidade da água que vai fluir para os rios e daí ser utilizada mais a jusante da bacia pelo nosso sistema de captação de água. Agora, o que traz um alento, eu poderia indicar que a bacia que vem sendo alvo de uma recuperação ambiental através do reflorestamento das nascentes, da proteção da mata ciliar e cercamento, inclusive, dessas matas, já vem trazendo algum benefício, ainda que um benefício bastante tímido em relação à qualidade da água, mas que já vem sendo medido, inclusive, por outros estudos, um aumento do volume de água que os rios, então, são beneficiados a partir dessas microbacias de cabeceira. Ricardo, você faz parte da Embrapa Meio Ambiente, que estuda justamente essa questão do uso da terra. A gente sabe que não é o seu estudo exatamente, mas é impossível a gente falar do Rio Jaguari, sem lembrar que aqui, bem pertinho da gente, a gente tem aí a construção de um novo reservatório que justamente envolve o Rio Jaguari. É possível pensar em estudos futuros no que diz respeito a toda essa mudança, o desvio do leito do rio e as suas consequências? É, o principal alvo de um estudo nesse sentido será justamente ver qual seria a capacidade de vazão desse rio Jaguari até o ponto em que se pretende represá-lo e construir essa, enfim... Esse reservatório. Reservatório, justamente, reservatório. Então, os estudos precisam focar nisso, considerando, inclusive, as variações interanuais. Entre anos e anos, você tem um ano mais chuvoso, como todos sabem, um ano mais seco. Então, é preciso garantir que, num ano mais seco, você terá esse volume hídrico necessário para o reservatório. Eu acredito que seja muito importante que se avalie com cálculos hidrológicos bastante detalhados para se saber se realmente nós vamos ter esse volume desejado. Eu não acompanho esse estudo, eu não desenvolvo esse estudo, mas é algo que precisa se estar atento. E justamente você trabalhar com as áreas de cabeceira, que são as áreas principais de captação de água, para você manter um estoque, um estoque hídrico, que venha a manter no subterrâneo das bacias. Quer dizer, você precisa garantir que o estoque hídrico subterrâneo das bacias esteja bem abastecido, de forma que, nos períodos de estiagem ou nos anos menos chuvosos, você continue a manter o rio na vazão mínima necessária para um tipo de reservatório desse. Então, é muito importante saber como gerenciar, como manejar essas áreas de produção rural, essas áreas rurais, por quê? São as áreas mais importantes para você ter esse tipo de estoque garantido no subterrâneo dos solos. Pois, enfim, a agricultura precisa também ser tratada de uma maneira que incentive para que os nossos produtores estejam conduzindo o manejo do seu solo de forma tal que evite a erosão, que permita a infiltração das águas nos solos e que assim a gente tome proveito desse sistema que temos na natureza, que nos ajuda a manter a água do rio fluindo, mesmo quando não tem chuva. Porque muitas vezes o leigo olha para o rio e vê que já faz tempo que não chove, mas a água continua correndo. De onde vem essa água? Essa água vem do subsolo. Essa água vem da chuva, que durante o tempo de chuva recebeu, recebeu não, pode infiltrar-se nos solos por conta de que esses solos favoreciam. Um reservatório natural, não é? Um reservatório natural. Quando você tem manejos agrícolas que não privilegiam essa infiltração do solo, você tem um escoamento maior das enxurradas que vão se perder dos solos até os rios e vão embora na vazão do rio. Então você não tem durante um tempo essa absorção, essa infiltração da água que vai garantir a vazão do rio para esses momentos de estiagem. Ricardo, infelizmente o nosso tempo acabou, agradeço a sua participação e a Embrapa Meio Ambiente sempre é bem-vinda aqui que sempre traz importantes estudos importantes números para que a gente possa pensar numa agricultura mais sustentável, no uso da terra também de forma mais sustentável Ok, obrigado agradeço a todos também pela atenção E o Giro Ambiental fica por aqui, a gente espera que venham mais 200 os programas para você em casa curtir e saber tudo sobre o meio ambiente e a sustentabilidade.