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Olá, está começando mais um Giro Ambiental. Hoje vamos falar de uma decisão inédita que aconteceu na América do Sul. As abelhas amazônicas passaram a ter direitos legais reconhecidos por lei no Peru. A medida foi aprovada na província de Satipo e protege mais de 170 espécies de abelhas sem ferrão, que são responsáveis por grande parte da polinização da floresta amazônica. Mas o que significa dar direitos legais a um inseto e porque essas abelhas são tão importantes para a natureza? Para explicar melhor esse assunto, nós conversamos hoje com o ecólogo William Bercet. William, seja muito bem-vindo ao Giro Ambiental. Muito obrigado, Camila, pelo convite. Para começar, essa notícia chamou atenção, né, porque fala em direitos legais para abelhas. Mas o que significa exatamente isso na prática? Eh, na prática, essa legislação, ela considera as abelhas como sujeito de direito, né? e vai permitir que, por exemplo, as comunidades indígenas ali presentes ou os ambientalistas ali da região, eles possam entrar com recursos legais, né, com processos legais diretos, né, em proteção às abelhas, né, essa legislação, ela contempla a parte de proteção da dos dos ambientes, né, dos habitates dessas abelhas, também das colmeias, né, e a questão também do uso de agrotóxico, que são aí as principais ameaças, né, para as abelhas, né, na casa, o desmatamento e o o uso de agrotóxicos. Aí vem ameaçando severamente as espécies de abelhas nativas. E essa é uma legislação, é um passo importante, né? Eh, e quando falamos que elas têm direitos, quais são esses tipos de direitos exatamente? O que elas o que protegem elas as abelhas? Essa lei, ela vem no sentido, né, de assegurar direitos com a garantia de um hábitat saudável para elas e nível de poluição e riscos contaminantes, o direito de manter populações saudáveis, condições climáticas ecologicamente estáveis, né, e o direito de regenerar esses ciclos naturais. Basicamente quando a gente protege uma um grupo, né, de animais, né, ou no caso, porque aí são várias espécies, né, então quando a gente tá protegendo aí o grupo das abelhas sem ferrão, né, os meliponídios também sua área de ocorrência, a gente preserva não somente essas espécies, mas também todo o processo ecológico que elas desenvolvem, né, que no caso das abelhas, a centralidade aí essa relação ecológica da polinização. Então essas espécies elas acabam atuando como um guarda-chuva, né? A gente protege elas, mas também protege tudo que tá relacionado a elas ali naquele sistema, certo? Aí você já falou um pouco sobre a polinização. Eh, por que essas abelhas são tão importantes pro meio ambiente, por que precisamos preservá-las? Bom, se tiver que falar de uma maneira simples pra gente seguir se alimentando todos os dias, né? Mas passando mais profundamente, em florestas tropicais, 90% de todas as árvores dependem de polinização biótica, né, que é o que a gente chama de polinização feita por animais. E as abelhas elas correspondem a quase 80% dos polinizadores, porque elas vivem a vida dela nas flores, né? Coletando seu alimento nas flores, né? Nesse sentido, elas visitam as flores para coletar o néctar e o pó como uma fonte de alimento. E ao visitar as flores e sujarem de pó, se sujarem de pólen, elas transferem pólen entre flores diferentes, realizando a fecundação, formando os frutos e sementes. Então, dessa maneira, ela garante a sucessão florestal, a regeneração florestal, ou seja, o mantenimento desse ciclo de sucessão dentro das florestas, né, a reprodução das árvores. E quando a gente traz isso paraa realidade agrícola, não é diferente, né? No Brasil, quase 80% de todas as culturas agrícolas dependem de polinização, né, biótica. E 1/3 é estritamente dependente, quer dizer, sem polinização não produz. Então, manter e preservar as nossas abelhas é manter e preservar essa função e de base que é a polinização e que garante floresta e alimento, né, comida nas nossas mesas. Certo? E mesmo sendo tão importantes, muitas espécies estão ameaçadas, né? Por isso da lei. Mas também eh quais são os principais riscos que essas abelhas enfrentam hoje em dia? É, as principais ameaças a gente tem no mundo inteiro um cenário global, assim de declínio de polinizadores, né? as principais eh ameaças, né, para as abelhas são o desmatamento, as monoculturas e uso de agrotóxicos, né? As queimadas também são os principais eh impactos, assim, mas a gente também tem eh problemas assim como o próprio desconhecimento, né? Uma escala menor dentro das cidades, a gente tem problemas com isso, né? Muita gente desconhece as abelhas, né? Pensa que a abelha é só aquele bicho amarelo e preto que ferroa, mas a gente tem no mundo mais de 20.000 espécies de abelhas, né? A maioria delas é solitária, não forma colmeia. Das que formam colmeia, né? Que a gente chama de abelhas sociais, eh a maioria é sem ferrão. Então esse também é um mecanismo importante, né? Tanto a parte da legislação quanto essa conscientização mesmo, né? Essa educação ambiental, ela é importante porque a gente conhece, a gente preserva, a gente tende a preservar mais aquilo que a gente conhece, né? Então essa legislação ela ajuda também nesse sentido. Virou uma notícia em muitos lugares, né? Inclusive a gente tá aqui hoje falando disso. Mas um aspecto legal é esse, é chamar a atenção para que as pessoas estudem, conheçam e compreendam mais tanto sobre as abelhas quanto toda a ecologia dos sistemas. E essa lei, ela protege as abelhas sem ferrão, como você citou. E qual é a diferença dessas abelhas sem ferrão para quem a gente tá acostumado a ver no dia a dia? É, as abelhas a gente pode dividir em alguns grupos, né? Essa abelha mais popularmente conhecida, né? É a abelha, ela possui ferrão, ferroa, né? É a APS Melífera, é a abelha europeia africanizada. Essa abelha, ela foi, ela não é nativa aqui no Brasil. Ela foi introduzida na América no século XVI pelos jesuítas para produção de cera e mel. E mais tarde, na década de 60, teve a introdução das genéticas africanas para aumento de resistência e produtividade. E aí elas se espalharam, né? Hoje elas estão do norte da Argentina até os Estados Unidos, mas ela não é nativa aqui do Brasil, ela foi introduzida, né? é a principal abelha criada paraa produção de mel no mundo inteiro. Mas antes de encostar qualquer embarcação aqui no Brasil, antes de chamar Brasil, a gente já tinha aqui as nossas abelhas originárias, as nossas abelhas nativas, até conhecidas como abelhas indígenas sem ferrão, que são as espécies que pertencem ao grupo dos meliponídeos, né? E aí a gente tem, o Brasil tem a maior diversidade do mundo, né? São mais de 300 espécies reconhecidas desse grupo e que são as nossas abelhas nativas sem ferrão. Elas não possuem ferrão, né? Tem um ferrão atrofiado, ele é vestigial, são sociais, né? Produzem mel e por aí vai. E a gente tem abelhas solitárias também que não formam coméia, tem ferrão e não produzem mel, tá? Eh, e também falando aqui do Brasil, você falou que tem mais de 300 espécies de abelhas aqui no Brasil e aqui também tem espécies ameaçadas. Qual o cenário aqui no nosso país? A gente tem 300 de abelhas sem ferrão, né? Se a gente for contar com abelhas solitárias e tal, eh, esse número ultrapassa, chega aí perto de 3.000 espécies. E a gente tem sim esse problema de ameaças no Brasil, né? A gente tem várias espécies que estão ameaçadas. Eh, de maneira geral, todos os polinizadores estão ameaçados por conta desse cenário que eu mencionei, né, do desmatamento e uso de agrotóxico. Isso afeta toda a comunidade de de invertebrados dentro de uma floresta ou áreas adjacentes a culturas agrícolas e dentro das lavouras também, né? Então é um problema bem maior, né, do que a gente imagina. Mas as abelhas sofrem muito com isso por conta disso. Elas dependem das flores para visitar ali a as flores, né, e coletar seus seu alimento, né, o néctar, que elas vão elaborar o mel e o pólen, que é o alimento proteico delas. Então, quando a gente tem a o desmatamento de uma área, a gente afeta primeiro toda a comunidade ali de abelhas presentes, a disponibilidade de locais para elas nidificarem, né, que boa parte delas nidificam dentro do oco das árvores e a disponibilidade de alimento para essas abelhas, né? E aí você insere uma monocultura e aí começa a usar o veneno, você acaba extinguindo o restante ali que tava presente. As abelhas às vezes vão na flor coletar porque elas prestam esse serviço ecossistêmico da polinização e acabam se contaminando, né, em algumas culturas. Então é um risco grande assim. Além disso, a gente tem um problema sério que é a questão, tem muitas espécies de abelha que a gente nem conhece ainda e que não foram descritas, né, pela ciência e principalmente na região amazônica, né, que que tem muitas áreas assim sem estudo ainda e não tem espécies descritas e a gente corre risco de perder essa espécie antes mesmo de de conhecer ela, né, antes de descrever, não só na Amazônia, como também na Mata Atlântica, alguns lugares que a a gente passa e vê que tem espécies novas ainda sendo descobertas. É, e William, agora trazendo também pro nosso dia a dia, né, o que cada pessoa pode fazer para ajudar na preservação das abelhas individualmente? Eh, essa é uma boa questão, né? Porque geralmente a gente pensa nisso como uma coisa distante, né? Mas dentro do nosso cotidiano, né, onde estamos inseridos, pequenas atitudes fazem a diferença, né? Então, por exemplo, se eu sei que o desmatamento e a e o agrotóxico ele é nocivo para as abelhas, no meu ciclo de consumo, se eu der preferência alimentos de origem sustentável, da agricultura familiar, de preferência, se possível, né, orgânicos, eu vou estar contribuindo para fortalecer essas atividades e essas atividades elas fortalecem as abelhas, né? Então, é tudo tudo tá correlacionado, né? a gente se relaciona com as pessoas e com o ambiente de diferentes formas. E dentro do sistema capitalista que a gente tá inserido, a nossa escolha de compra, ela é um grande e importante mecanismo de relação. Então, aquilo que eu compro e que eu consumo, eu fortaleço, né? Então, por exemplo, também consumir mel, consumir os produtos das abelhas, isso fortalece, incentiva a cadeia de produtores, né, e de criadores de abelha, que são guardiões, né, que vão trabalhar conservando e multiplicando as colmeias de abelhas, né, especialmente os meliconicultores, né, que são os criadores de abelhas nativas sem ferrão. Perfeito, William, muito obrigada pelas suas explicações e por participar aqui com a gente do Giro Ambiental. Eu agradeço, fico feliz e podem contar comigo aí. Eu fico por aqui, mas o giro ambiental continua com as informações do meio ambiente. Até o próximo programa. Um macaco bugil vermelho foi registrado em uma área residencial em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, o que gerou otimismo entre especialistas locais. O animal foi filmado por moradores e a presença dele é vista como um marco simbólico para a biodiversidade da região. A espécie havia praticamente desaparecido da região em 2020 durante o surto de febre amarela que dezimou populações inteiras de primatas. Segundo o biólogo Gilberto Ademar da Fujama, o novo registro é um sinal concreto de recuperação. Antes da crise sanitária, os bugius eram comuns em matas e estradas rurais. O reaparecimento confirma que aos poucos a fauna local começa a se regenerar. เฮ