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[música] Bom, é isso aí, pessoal. Quadro de Olho na Educação. E olha só, hoje um assunto super importante, porque nós vamos falar sobre o projeto Africanidades. Bateu um papo aqui com o professor Wilson Queiroz, vai contar pra gente como surgiu esse projeto que é realizado aqui na escola Oziel Alves Pereira, escola municipal. Antes de mais nada, muito obrigado por nos atender. Tudo bem, Wilson? Tudo bem, que agradeço. Espero que a gente possa ter uma conversa importante para fortalecimento de projeto. Bom, bora para então como surgiu a ideia do projeto que já faz 15 anos. É isso? 15 anos. Na verdade, Campinas é pioneira nessa temática. 98 você tinha uma lei que determinar ensino de história e cultura africana. quando foi 2002, eh, foi oferecido pros professores da rede municipal um curso chamado Educado de Igualdade Racial em parceria com o CEC, Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdade. Eu atuei num programa que depois foi instituído a partir desse curso, que é o programa MIPID, que existe até hoje, memória e identidade, promoção da igualdade na diversidade. E desde 2000, 2004, 2007, eu participei de um programa, tive uma experiência de conhecer toda a rede e a partir de 2007 eu me desliguei do do programa e comecei a ter um trabalho mais cotidiano na escola. Cheguei aqui no Oel em 2012 e eu acho que o 2010, na verdade. E o fato que eu acho que me marca aqui eh era a preocupação e a similaridade entre o que se diz sobre o continente africano e sobre os bairros, as favelas e as comunidades, né, que é esse lugar da página policial prioritariamente. Então o projeto surge talvez desse dessa demanda e da vinculação e consciência entre africanidades, racismo e essa desumanização das classes populares. Como funciona eh o projeto na prática? São realizadas ações? Conta pro pessoal que tá em casa, por favor. Eh, o projeto ele se dispõe a ser cotidiano e como cotidiano ele vai construindo no dia a dia formas e abordagens. Eu costumo dizer que existe uma didática e uma pedagogia em construção a partir do repertório que eu tomo como área de conhecimento, que são as africanidades. Então, eh, as africanidades é um conhecimento enciclopédico, né? Ele parte da desconstrução de que o velho continente é mais velho do que o meço da humanidade. E pra gente prioriza a pesquisa, o ensino e a construção didática desse repertório. O projeto ele começa eh em 2010. Eu me afasto 2011 da escola por questão burocrática de jornada e volto 2012. E uma quantidade assim significativa de ações, né? A gente pode pensar até que já se tem pelo menos 365 dias de aula possível com a temática, que era uma das demandas que eu me obriguei a fazer. Eu tô terminando o meu doutorado sobre a temática e nesse processo eu tenho pensado ano por ano, aula por aula, o que que dá para se fazer, desde uma simples mudança do visual, um painel que não precisa ser preparado pelos alunos, mas eu acho que a temática exige dos professores uma intencionalidade, que que se tem para oferecer e que já se sabe que vai valorizar e que vai reconhecer a humanidade dessas crianças. Então, eh, na loer eu escrevo o título da disciplina como matemáfrica. A matemáfrica passou a ser cotidianamente. Então, eles sabem dessa referência. Eles têm em mim e eu acho que na escola como um todo, um lugar, eles têm abertura para conversar sobre isso. E aí eu posso pensar para você em dizer fatos que acontecem anualmente, que são marcantes e que envolvem toda a escola, né? Para gente tem a semana de estudos. A cada trimestre a gente tem um grupo de professores todos envolvidos para que todas as salas abordem o tema. o primeiro trimestre foi feito isso. Para além disso, pensando na perenização da temática, a gente tem a publicação do informe africativo. O primeiro informe aplicativo, ele acontece em 2012, 12 2012, quando um aluno me procura e diz que ele tá sendo vítima de racismo na numa madeirira no no bairro São Bernardo. E aí eu peguei esse esse material, ele já sabia do processo que a gente construía na escola, mas ainda não tinha uma publicação. 2012. Esse em maio, eh, agosto, eu fiz a o lançamento da primeira edição. Com o lançamento da primeira edição e pensando nessa ideia do cotidiano, porque eu venho justamente desse lugar produzido pelo curso educar paraa igualdade racial, acrescido da experiência do MIPID. Então, a ideia era pensar como que dia a dia pode ser trabalhado esse conhecimento. O o jornal, então, ele vai ver desse lugar que é uma forma aplicativa. Então, o primeiro aconteceu e a partir daí a gente tem uma serenidade de publicações. Esse ano em particular a escolha é por 12 edições. Nós estamos na sétima edição e vamos fechar esse ano com 12 edições, eh, com pensando que é uma folha de sulfite, mas é uma folha de sulfite personalizada comprometida com três eixos, talvez que sejam primordiais. a produção escrita dos alunos, a produção dos professores e teoria sobre a temática que eu chamo de africanidades. Bom, tô dando uma olhadinha aqui na pauta. Eh, sessões de vídeos educativos sobre cabelos, documentários, oficinas de transa e terilê, também leituras teóricas sobre a importância da estética negra e do amor próprio. Como é isso? Conta pra gente, por favor. Então, eu tenho uma uma uma percepção que o que falta para as crianças negras é autoconhecimento, não é problema de autoestima. Do ponto de vista da desumanização, ela não tem acesso a esses detalhes e essas especificidades. Elas não aprendem na escola como lidar com o próprio corpo, com própria estética, com o conhecimento advivindo do continente africano. Então, eh, nessa nessa empreitada, a escola ao longo do tempo foi assumindo a importância de que todos os professores atuem nessa temática. Então, a gente tem os momentos onde esses, vamos dizer assim, os eventos acontecem e um dos eventos é amostra de africanidades, onde a gente cria uma série de oficinas para que os alunos tenham acesso ao próprio corpo de uma maneira cuidadosa, respeitosa. Então, oficina de tererê, contação de história, acesso à literatura, as esculturas que a gente pede para ser confeccionado pela escola painel, essa tanga que faz parte do painel agora ela é recém-chegada. Eh, a gente recebeu da equipe gestora para poder ir fazendo com que os materiais circulem, tenham se tenham fiquem disponíveis para os estudantes. Uns alunos aqui da escola eh reagiram, não é, todas essas ações, não é, todo esse projeto que é legal. os alunos, que eu me refiro, os alunos eh como um toro. Sim, isso. Eu acho que o primeiro marco é justamente essa essa essa dimensão de um aluno me procurar para denunciar uma situação de extrema violência que ele vivencia, né? E na época que esse aluno era pai de dois filhos, né? E aí esse diálogo, ele precisa entender que se ele não toma um posicionamento, os filhos deles podem ser os próximos a passar por isso. Eh, eu tava conversando com uma aluna e ela me disse que a filha, a mãe dela usa trança e que o patrão dela falou coisas, né, a respeito da da trança que ela depois me relatou. Então, eu acho que existe uma relação de confiança e de entendimento que o que nos humaniza são as histórias que a gente conta sobre nós. Então, dentro desse processo e ainda retomando, nós temos a marcha das africanidades que a gente faz aqui pelo bargo e que todos os alunos participam, principalmente do sexto nono, panfletando e divulgando o trabalho que a escola desenvolve. Conjuntamente com isso, nós também participamos da marcha zumbidos palmares que acontece organizada pelo movimento negro de Campinas, que tem na no grupo 20 de novembro a estrutura para se pensar e mobilizar os grupos raciais e grupos de cultura da cidade para fazer essa caminhada que acontece da Estação Cultura até o Largo do Rosário no na semana do 20 de novembro. Então, nesse espaço, a gente tem essas duas experiências no mês de novembro, que é a caminhada das africanidades e a marcha zumbidmark. E a gente faz amostra de trabalhos e aí a gente chama pessoas, abre pra comunidade para conhecer o trabalho. Recentemente nós tivemos aqui a presença do TC, né, da Casa de Cultura Tainá. E eu acho que nós somos uma das poucas escolas que tem um baubá plantado, né, com todo o rito que ele acredita que seja importante. A gente tem parcerias com o grupo Força da Raça, com o grupo eh diversos grupos a Fazenda Rozeiras que vem o que a gente participa, né, de mostra de trabalhos, como eh também tivemos recentemente, já deve ser a sexta edição, dos alunos participarem do Falot Trucola em parceria com Unicamp. Arrisco dizer que de todas as participações, esse ano eles assim a gente vai ficando boa naquilo que a gente faz e benta mais a gente faz. Nós montamos uma mesa chamada Afrota escola, onde tinha uma professora universitária, uma professora do ensino médio, eles, eu, um professor de educação física, o Bruno e mais cinco alunas que inclusive fantas. Então, todas essas ações desencadeiam a gente pensar a nossa humanidade saindo daquele lugar do evento. E o cabelo, aí eu tenho uma poesia que ela é muito barata, mas eu acho muito profunda e densa, que diz assim: "Cabelo vem de dentro e por isso não se esqueça, por mais que você o alise, a consciência é crista". Esse talvez seja um pouco do meu mantra para que entender que essas crianças, né, eu, como professor eh do gênero masculino, possa ser que as crianças meninas não consigam ter uma certa abertura para que eu possa estabelecer esse contato. Então isso ao longo do tempo eu preciso criar com uma relação de credibilidade, porque eu sei que a questão de gênero aí importa, né, para que as famílias, para que as professoras possam fazer parceria, ainda que sabendo que eu não seja uma mulher, para poder lidar com as especificidades. Eu costumo sempre fazer uma comparação com a questão da gravidez. Nós vamos podemos ser solidários, mas não sentiremos o que o processo da gravidez. Eu acho que do ponto de vista racial, eu entendo que o meu lugar de homem não me autoriza a tudo, mas buscar na confiança das alunas um repertório para que elas possam se dizer. Valeu, muito obrigado. Agradeço. Bom, pessoal, é isso aí. Tô sempre, ó, de olho na educação. Tchau. [música]