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Conexão Cultural | O que te assombra: lendas, túneis e histórias esquecidas de Campinas
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Conexão Cultural | O que te assombra: lendas, túneis e histórias esquecidas de Campinas

190 views Publicado 14/07/2025 HD · 38:06

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🕯️ Você tem coragem de conhecer o lado oculto — e histórico — de Campinas? No Conexão Cultural de hoje, embarcamos em um passeio recheado de memórias, lendas urbanas, mitos e fatos reais que marcaram profundamente a cidade de Campinas. Nosso convidado é Thiago Souza, roteirista, pesquisador e um dos criadores do projeto “O Que Te Assombra”, que transforma espaços esquecidos em verdadeiros palcos de história viva. ⚰️ Túneis subterrâneos centenários, igrejas construídas por mãos escravizadas, teatros erguidos sobre antigos cemitérios, operários mortos em movimentos trabalhistas, milagreiros enterrados no cemitério mais antigo da cidade... Tudo isso está à sua espera neste episódio que mistura patrimônio, memória, arte, espiritualidade e resistência. 🌙 O passeio “O Que Te Assombra” não é sobre dar susto — é sobre desenterrar histórias que a cidade insiste em esconder, revelando personagens que ajudaram a construir Campinas com suor, fé, sangue e sonhos. 🗺️ Neste episódio, você vai: Conhecer os bastidores da criação do roteiro do passeio histórico-cultural mais inusitado da cidade; Descobrir como o cemitério da Saudade, a Igreja São Benedito, o Teatro Castro Mendes e outros marcos urbanos guardam histórias que vão muito além do que os olhos veem; Entender como mitos, crenças populares e registros históricos se entrelaçam na construção da identidade campineira; Se emocionar com as narrativas de vida que ainda ecoam nos becos, ruas e túneis de Campinas. 🎭 O projeto “O Que Te Assombra” tem conquistado cada vez mais público por sua abordagem criativa, educativa e profundamente humana. E neste bate-papo, Thiago revela como tudo começou, os desafios da pesquisa histórica, e por que lembrar é também um ato político e cultural. 👻 Se você é fã de história urbana, turismo cultural, mistérios, lendas e memórias invisíveis, esse episódio é imperdível! 📲 Siga o projeto no Instagram: @oqueteassombra Continue assistindo conteúdos incríveis em nossas playlists: 📺 YouTube: https://www.youtube.com/@tvcamaracampinas 🌎 Conecte-se com a gente nas redes sociais: 📸 Instagram: https://www.instagram.com/tvcamaracampinas 🎵 TikTok: https://www.tiktok.com/@tvcamaracampinas 📘 Facebook: https://www.facebook.com/tvcamaracampinas 🎙️ Spotify: https://creators.spotify.com/pod/show/tvcamaracampinas

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[Música] Não precisa temer, porque a gente está em boas mãos, em segurança, junto com quem? com quem guarda a memória da história da cidade de Campinas, aqui do centro da cidade, do cemitério. A gente tá com o que te assombra, Thiago Souza, veio aqui representando essa esse time, né, Thaago? Que legal. E a gente começa aqui no túnel, que é uma das paradas do passeio, né? E eu queria que você começasse contando pra gente, apresentando o grupo e contando de onde surgiu essa ideia maravilhosa, sensacional para fazer emergir as histórias que estão ocultas aí. embaixo da terra, no imaginário de algumas pessoas e tornar isso comum para todos nós, né? Legal. Poxa, primeiro um prazer estar aqui com vocês e da TV Câmara. E a gente começou em 2021, mais ou menos em agosto. Inicialmente contaríamos só as histórias que estavam meio perdidas eh nessa dimensão sobrenatural da cidade e levaríamos essas histórias paraa internet, mas não tinha graça nenhuma fazer esse caminho e então a gente decidiu levar as pessoas para os lugares onde eram, na verdade os verdadeiros palcos desses acontecimentos relatados ao longo de décadas. E foi muito gostoso. É um exercício super interessante, porque por mais que as histórias acabem eh dialogando com percepções, com experiências pessoais e, claro, com o que cada pessoa acredita, até mesmo em dimensões religiosas ou espirituais, eh essas histórias têm uma capacidade muito grande de trazer a reboque também a história regular da cidade. Então esse é um exercício muito gostoso e ele transcendeu e muito esse tema do sobrenatural. Eu, graças ao que te assombra e a experiência de Campinas, me tornei também pesquisador de cemitério. Então, hoje faço parte também da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais. Acho que a gente conseguiu importantes mudanças, não apenas eh no cemitério da saudade, mas sobretudo no reconhecimento desse tipo de patrimônio que é muito pouco reconhecido como um patrimônio, tanto do ponto de vista material como imaterial. Então hoje eu acho que a gente sem querer aprendemos juntos a acessar, como você já bem disse, essas histórias que estavam enterradas aí pela poeira do tempo. Mais do que simplesmente um cemitério ou um centro da cidade, cada lugar conta uma história, né? Contam várias. E é isso que é muito gostoso. A gente aproveita. Boa tarde, tudo bem? a gente aproveita esses espaços que mesmo sem as pessoas encontrarem regularmente suas histórias, elas já mobilizaram um pouco o imaginário popular. Então, pra gente tá aqui no túnel da Vila Industrial, aqui pertinho tinha um cemitério, nosso primeiro cemitério. A gente teve aqui pertinho também um massacre de operários na primeira greve geral do Brasil. Quer dizer, isso tudo a gente tá contando antes de contar qual que é a história de assombração, né? É uma é um é um túnel de pedestres que foi uma demanda da comunidade da vila industrial. E aí a gente pode, depois de contar tudo isso, falar um pouquinho desse outro universo, que é o universo das percepções pessoais, que no final eu sempre digo que história de assombração, ela é uma experiência de alguém. E exatamente por isso, ela precisa ser protegida. A gente não tá aqui para provar se existe ou se não existe, até porque a gente resolveria a questão existencial mais presente na humanidade, desde que o ser humano reconheceu sua consciência, né? O que acontece depois da morte? Será que existe alguma coisa? A gente jamais se atreveria a tentar responder essa pergunta. A única coisa que a gente propõe é tentar vencer um tipo de resultado da morte, que é o esquecimento. Então, acessando a memória, a gente vence ela e torce para outras pessoas também fazerem isso conosco, porque um dia também chegará a nossa hora e alguém vai precisar contar as nossas histórias por aí. Então, essa é essa é a grande brincadeira da dinâmica do que a gente faz. Muito legal. E a partir do que você já compartilhou, eu acho que também uma coisa que assombra muito são as histórias que a gente não conhece, né? Então não conhecer, por exemplo, essa história da greve, que eu particularmente não conheci, já tô curiosa, é uma coisa que assombra, porque fica aquela história existe, ela precisa ser revelada, né? Então é uma grande oportunidade que vocês estão fazendo de compartilhar isso e fazer com que as pessoas que moram aqui, passam por aqui ou nasceram aqui, resgatem isso para si, né? É porque a gente imagina que o só nos pertence aquilo que é virtuoso. E na verdade a gente tem uma série de outras questões que também nos pertence, não necessariamente nos orgulha, mas são eh as histórias, são acontecimentos que desafiam a gente a refletirmos sobre soluções para muitos problemas que até hoje nos afligem, nos assombram. Então, eh, eu falei da greve, mas a gente podia falar da escravidão, a gente podia falar de violências contra a mulher, a gente podia falar de temas que a gente até hoje vive, racismo, enfim, um monte de coisa que eh nos eh acomete na forma de assombrações. Muitas das assombrações que a gente tem são conectadas a traumas, a feridas abertas das da nossa comunidade. Então, esse exercício de reencontrar as nossas histórias, claro, aproveitando o magnetismo da experiência sobrenatural, que é muito gostoso, nos dá essa possibilidade também. Aqui, por exemplo, a gente tem muitos tipos de fantasmas. tem eh alguns espectros que a gente chama de polergist, então luz que acende, apaga, aqueles frios repentinos, mas a gente tem pelo menos dois fantasmas que eu gosto de dizer com CPF, na verdade três, que é o velho do guarda-chuva, que segundo a lenda, é um senhor que morreu aqui afogado no na tentativa de atravessar o túnel em uma enchente que acabou inundando o túnel. Até hoje a gente não tem nenhum relato histórico desse acontecimento, mas é o que o povo diz, o que o povo diz, eu gosto de ouvir bastante. E o que é interessante do velho do guarda-chuva é que ele aparece em uma extremidade do túnel e quando ele se manifesta, ele aparece com uma outra fantasma que é a Velia da Bengala. E a velinha da bengala dizem que aparece também quando o velho do guarda-chuva se manifesta e eles se encontram no meio do túnel e desaparecem. E a outra história muito famosa, né, de fantasma com CPF aqui, que são aqueles fantasmas que recorrentemente eram avistados, é do fantasma do Lofote, que nos anos 90 eh assustava as pessoas aqui dentro. Era um período em que o túnel não tinha nem iluminação ainda. Hoje ele tá todo iluminadinho, ainda bem pintadinho, mas ele tinha já esse cheiroso, que é um privilégio. E esse fantasma nos anos 90, ele assustava as pessoas que atravessavam aqui durante a noite. Ele aparecia em uma, quando a pessoa já alcançava um bom caminho aqui pelo túnel, que tem quase 170 m, ele aparecia muito rápido. no lugar do rosto tinha um tipo de holofote e ele passava pelas pessoas e em alguns instantes aquele contraste da escuridão completa com a luz potentíssima que ele trazia no rosto acabava deixando as pessoas até algum tempo sem conseguir enxergar aqui dentro. Esse assunto foi reportado amplamente pela imprensa, gerou alguns boletins de ocorrência na polícia, chegou a ser investigado, mas até hoje não pegaram o fantasma dolofote. Caramba, são os famosos aqui do túnel. super famosos daqui. E aproveitando aqui nessa localização, tem mais alguma coisa que você acharia assim importante para dar o gostinho para quem tá assistindo? Eu acho que essa região aqui, não exatamente aqui em cima, mas ali pertinho do Castro Mentes, que também tem outras histórias ótimas de de assombração, tem tinha o nosso primeiro cemitério municipal de 1860, então ele também tá aqui, mesmo que esteja soterrado pelo tempo e pela cidade, pelo progresso, ele tá por aqui e isso também mobiliza muito o nosso imaginário. É, ele tem muitas histórias ali, né? Bastante. Fazendo arte, a gente não sabe, né? Não, eu se quiser eu conto uma do Teatro Castro Mendes. A gente não sabe se h alguma assombração dessa época, mas numa ocasião um segurança do do teatro escutou um barulho e foi ver o que era e o barulho vinha do palco. Então ele foi até o palco e ele tava tomando um café e ele escutou um outro barulho quando ele tava no palco, se distraiu, caiu o café no chão e ele foi buscar um pano. Falou: "Não é nada, é uma coisa antiga, né? piso de madeira. Quando ele volta do da cozinha da copa para com pano para enxugar aquele café que ele havia derrubado, ele percebe pegadas no caminho inverso que ele tinha pego, molhadas, mais ou menos como a nossa, molhadas dos pés, como se alguém tivesse pisado o café que ele havia derrubado e ele tava sozinho no teatro. Então essa é uma das histórias e tem várias por ali também. Foi uma forma de pedir o café dele, né? Pois é, queria tomar o café. Era só isso. Que maravilhoso. Então, agora a gente vai pro cemitério, que também é um lugar ali lotado. Ali é uma própria o próprio livro da história da cidade, né? É tanto com as histórias que são contadas quanto as que não são, né? Exatamente. Eu acho que o cemitério ele nos dá essa indicação, né? Eh, eu fui pro cemitério procurando histórias de assombração. Tem algumas, mas a gente encontra um tesouro muito particular no cemitério, que são as biografias de todo mundo que foi sepultado em Campinas. E não só o cemitério da saudade, a gente vai lá, mas todos os cemitérios da cidade são importantíssimos exatamente por isso. Nenhum patrimônio é mais importante do que gente. Então quando a gente vai no cemitério, a gente reencontra essas histórias que são os nossos tesouros, né? Sim. São os nossos passados e os nossos futuros também, né? Então bora lá. Exatamente. Vamos lá. Vamos lá. [Música] aqui no cemitério da Saudade, nesse dia lindo, não dá nem para falar de assombração com tanta obra de arte aqui, não é verdade? Pois é. Eh, eu foi o que me atraiu inicialmente para cá, mas quando eu comecei a conhecer um pouco mais todos os ativos que existiam no cemitério da saudade, que na verdade virou um cemitério modelo para pra gente conseguir levar esse formato para vários outros cemitérios pro Brasil, eh ele mostrou pra gente que essa é uma das dos atrativos do cemitério, né? a gente não ignora o fato de aqui existirem sim histórias em dimensões sobrenaturais. Afinal de contas, as pessoas vivem aqui essas experiências, principalmente diante da do da da ausência de respostas eh consolidadas sobre os acontecimentos que se sucedem depois que a gente vai embora, né? Mas essa é uma só da parte que a gente tem, é uma parte até pequena, perto dos outros atrativos, como você já falou, artísticos, arquitetônicos, patrimoniais. A gente tá dentro de um dos cemitérios que compõe o cemitério da saudade, que é composto por cinco cemitérios. Esse aqui que é o do Santíssimo Sacramento, a gente ainda tem São Miguel e Almas, que é o mais antigo de todos, eh, Curadars, São José e o último é o Venerável Ordem Terceira, tá? Então, a gente tem esses três eh esses cinco cemitérios aqui dentro do que compõe, do que é composta a estrutura do cemitério. Eu ainda acho, preciso estudar um pouco mais, mas ainda acho que tem um braço de um cemitério protestante aqui, porque ali pro meio existem algumas sepulturas de pastores luteranos e presbiterianos, americanos e alemães. Então, é super interessante. Pela data a gente acha que veio de um outro cemitério, mas é demanda mais estudo. Uhum. Então, eh, esse essa é a conformação do nosso cemitério da saudade. E esse aqui para mim é um dos lugares mais bonitos e mais particulares do cemitério, porque mesmo São Miguel e Almas e que é um cemitério um pouquinho mais antigo, eh, que esse, inclusive, esse aqui acabou sendo muito preservado. Então, a gente pode ver a estética dele muito conectada à segunda metade do século XIX. Vários túmulos que a gente encontra aqui com esses obeliscos, com essas estruturações. Eh, perceberemos datas do século XIX. Então, ali a gente tá vendo 1898, uma pessoa que nasceu, Joaquim Celestino de Oliveira Soares, que nasceu em 1842 e ele morreu em 1898. a gente vai ver eh ainda outras construções com datas nos epitáfios de pessoas que morreram em 1868. Quer dizer, são muito antigos esses são muito são pessoas que morreram há muito tempo. E isso denota aquela outra informação que eu já dei. Esse cemitério aqui do Santíssimo Sacramento é um cemitério que veio do cemitério da Vila Industrial. nosso primeiro cemitério que funcionou de 1860 até 1881 oficialmente, que é a data do da fundação do cemitério da Saudade. Ele recebeu a bênção em 1880, que começa oficialmente a funcionar no dia 7 de fevereiro de 1881. Inclusive a gente tem uma efeméride, a primeira do Brasil, tem uma participação muito determinante do presidente da Câmara, Rossini, o presidente da Câmara, vereador Rossini, que foi o proponente dessa lei, que é a primeira do Brasil, que reconhece a importância do patrimônio funerário cultural aqui da cidade de Campinas. E isso tem muito do que do que é que te assombra, não tem não? Esse turismo cemerial. É, tem a a nossa estratégia, na verdade, se eu falar que a gente planejou para caramba, nossa, é mentira. Mas eh nós percebemos ao longo do tempo que a melhor forma de convencer, porque isso é um estágio de convencimento, né? A lei, na verdade, ela resulta do interesse da população em vir primeiro passear no cemitério. E aí a gente tem um pouco aquele exercício do conhecer para preservar, né, derrubando uma série de estigmas. Então, desde os estigmas mais supersticiosos que acham que isso aqui é um lugar que fica um trânsito de alma penada. É verdade. As pessoas imaginam isso, né? É um rush de de almas penadas. Rush de alma penada. Tá. Aí depois tem um monte de gente que acha que fica brotando bactéria, que come ou barata. Barata tem. Barata tem aí o aviso para quem quer passeio porque eu vou a noite tem barata, então a gente avisa. Inclusive quem tem pavor de barata a gente encontra baratas. É uma chance também para vencer isso. Também tem. A gente trabalha com várias superação de vários traumas. Mas então quando as pessoas vêm para cá e elas saem daqui com uma sensação diferente de quando elas entraram, especialmente por isso, porque ela não vê alma penada, porque ela não vê eh um cemitério completamente degradado. E a gente percebeu que o cemitério com essa iniciativa eh de trazer as pessoas, ele começou a melhorar, porque inevitavelmente a gente também a a população também começa a cobrar coisas que não estão tão legais. Pô, o mato tá alto, precisa cortar, reclama. Então, tudo é vira uma vira um ciclo virtuoso. A gente sai do ciclo, desse ciclo vicioso, do abandono, da tristeza. E claro, o cemitério nunca vai deixar de ser um lugar de despedida, de luto, de tristeza, de interesse sanitário, porque é um aparelho sanitário. Sim. Eh, mas o que a gente quer é oferecer uma outra possibilidade para ser acrescentada a esse repertório, que é o dele ser um lugar de memória, que quase nunca é percebido. Então, muita gente acha que aqui é um lugar de despedida e é que é um lugar de interesse sanitário. É, só que essa outra essa outra reencontro, esse outro aspecto do reencontro com a nossa história, com as nossas biografias, com os nossos afetos, com os nossos rancores, com as nossas tristezas, com crimes que foram terríveis pra cidade, com pessoas que tiveram descobertas virtuosas. A gente tá aqui no cemitério onde tá enterrado o Hércules Florense, que foi o primeiro ser humano que falou a palavra fotografia. Talvez, talvez o homem que descreveu o processo fotográfico pela primeira vez. Olha o que a gente tá fazendo. A gente tá na TV, a gente tá num diante de uma câmera, a gente tira foto no celular hoje porque esse cara pensou nisso. Claro, tinha mais gente, tá? Mas foi ele, ele tá aqui do nosso lado, alcance da gente ir lá e ver e trazer as crianças para ver que vale a pena estudar, inovação, ser curioso. Não tô, a gente não vem ver o morto aqui, a gente vem ver uma ou várias histórias. Sim. É muita vida junto, né? Totalmente. É isso. E é um lugar que precisa ser que precisa ser cuidado, claro, pela memória dos que já foram, mas sobretudo para garantir o acesso, acesso digno de quem vem aqui para estudar, de quem vem aqui visitar os seus, para quem vem exercitar esse reencontro da saudade, viver seu luto, vez outra, viver suas experiências religiosas. Tem gente que vem aqui no no Cruzeiro, tem gente que vem aqui no santuário de Tranca Ruas, tem gente que vem aqui numa capela, tem gente que vem aqui visitar o reverendo que trouxe a igreja pro para Campinas. Quer dizer, tá todo mundo tá aqui. Aqui tá todo mundo representado de alguma forma, né? E não é aqui no cemitério da saudade, né? Nessa estrutura cemerial da cidade, pro campo dos Amaris, cemitério dos Amaris. Cemitério dos Amaris, tá? A dona Laudelina de Campos Melo, que já já vai vir uma surpresa aí. que eu prefiro não dar o spoiler. Já já veio uma surpresa da da da Câmara dos Vereadores também ligada a dona Laudelina. Quer dizer, a gente, na verdade, quando visita os cemitérios, a gente visita a nossa história. E eu gosto de de fazer uma reflexão sobre uma máxima que muita gente usa, que cemitério é um museu a aberto. Ele de fato tem esse convite, né, ao apreço de obras de arte, de esculturas, mas eu gosto de dizer que todo cemitério é um museu a céu aberto ou então todo o cemitério é uma sala de aula. que a gente for no cemitério dos Amaris, a gente vai visitar a história da dona Adelina, de tantas outras pessoas da cidade. A gente tem a memória, lá é nossa quadra geral, lá a gente tem a memória das vítimas do COVID, que a gente pouco lembra que há 3 anos atrás a gente enterrava aqui em Campinas, sei lá, 2000 pessoas por dia, 1000 e poucas pessoas por dia. E se não fosse os cemitérios, se não fossem os cemitérios, se não fossem os funcionários que trabalharam horas e horas e horas, tanto quanto os funcionários da eh da saúde, né, pública, eh trabalharam muito para que a gente não tivesse um colapso também nesse sistema funerário, porque como eu falei, é um aparelho sanitário. Então essas pessoas são muito pouco lembradas. Então, eh, tanto as vítimas do COVID como os próprios trabalhadores de cemitério, visitar esses espaços é também homenagear o trabalho de todo mundo e essas memórias que se perderam. Antes da gente eh transcender essa dimensão, a gente tem que experimentar ela em todos os níveis, né? Essa que a gente vive, né? Claro. E outra coisa, tem uma coisa meio de interesse pessoal, porque a gente quer também ser lembrado quando chegar a nossa hora, né? Então, deixar o lugar sadio, a gente convidar as pessoas a visitarem, a cuidarem desse espaço também dá chance de mais gente visitar a gente quando chegar a nossa hora, porque eu não sei se o pessoal sabe onde dia a gente vai morrer, né? A gente não gosta muito de pensar nisso, o segredo, né? Não pode contar para ninguém, mas um dia a gente vai morrer também. É a única certeza, né? Pois é. E e a gente se distancia tanto da morte, né? É, a morte, na verdade, ela é um agente de transformação da vida em existência, em etapas. Exatamente. Conforme a gente vai se aproximando dela, a gente vai tendo outras percepções, interesses, né? É, exatamente. Eu gosto de dizer que a vida acaba, mas a existência não precisa acabar. Depende da gente. É, com certeza. E tem muita gente que se mantém vivo aqui pelas histórias, né? Tem algumas que você gostaria de compartilhar com a gente? Eu sei que são muitas, né? Ah, eu acho que tem alguns rits aqui, né? Eu falei já um do Hércules Florense, Hércules Florense, Hércules Romoldo Florence é um dos das grandes estrelas aqui. A gente tem a Maria a Maria Jandira também muito acessada, que se tornou uma milagreira de cemitério. Talvez túmulo mais visitado aqui seja do Antônio Africano, do Toninho, não só pelo fato dele ter se tornado um milagreiro, mas pelo interesse das pessoas para entenderem porque ele está sepultado ao lado do Barão Geraldo de Rezende, que era o seu senhor. Então ele era o o o homem escravizado ao lado do Senhor. Existem várias teorias sobre essa história, as razões. Será que foi o Barão que queria? Será que era a baronesa? Quem que queria o Antônio ali? Por que ele tinha? Tem gente que fala que ele era amigo, tem gente que fala que ele não era amigo do do Antônio. Enfim, fato é que o Antônio Africano, além de ter se tornado o milagreiro mais procurado aqui do cemitério, também é um dos protagonistas de uma das lendas mais famosas de Campinas, que é a lenda do boifalô. Afinal de contas, é o Antônio Africano. E aí também, a depender da versão, ele é colocado ou como homem que acompanhou um homem escravizado e ouviu o boi falar pela segunda vez, ou foi ele nas duas diligências para trazer os bois do capão do boi pr pra sede, para próximo da sede da fazenda Santa Genebra, quando o boi numa sexta-feira santa fala que hoje não é dia de trabalho, hoje é dia de nosso Senhor. Enfim, eh, a gente vai vai aqui, vai embora, vai, vai dá pra gente falar do Moisés Lucarelli, que tá sepultado aqui, que é o idealizador do Campo da Ponte Preta, que batiza o campo da Ponte Preta. Dá pra gente falar do Miguel Grego, um dos fundadores do Guarani Futebol Clube, que morreu de maneira muito traumática. Ele levou um tiro na barriga, indo para um treino depois de uma brincadeira e meio desavença com colega de clube e enfim, também tá, quer dizer, tem tanta história aqui em todas as direções. O irmão do o irmão do Carlos Gomes tá aqui. Se a gente der uma olhada depois na capela dos Ferreira Penteado, que também uma família quatro centonas de Campinas, eh Carlos Gomes ficou hospedado ali depois que morreu um tempinho, até que ficasse pronto seu monumento túmulo ali no centro da cidade. Enfim, tem muit Toninho da Costa Santos, o prefeito saudoso prefeito Toninho e o outro outro saudoso prefeito Orozimbo Maia, que foi quem construiu o mercado municipal, Vieira Bueno, que foi um médico importante de Campinas, enfrentamento da febre amarela, né, da do pico da febre amarela, que foi em 1889. E ele se tornou um milagreiro de cemitério. Ele já, ele foi prefeito da cidade também, mas tornou milagreiro de cemitério. E o que é interessante, ele sempre teve uma atuação muito voltada para questões de saúde, por ele ser médico, mas ultimamente ele tem ajudado as pessoas a passarem provas de concurso. Ah, que legal. Então você tem existe outro. Então é isso, tá nichado também. Super, não. Dr. Vieira Bueno é especialista agora além de questões de saúde, ele ajuda pessoas a as pessoas a passarem, seus devotos a passarem nos concursos públicos. Hum. O Antônio Africano, ele é um clínico geral, ele atende qualquer tipo de pedido. A Maria Jandira, embora também atenda muitos tipos de pedido, ela é notabilizada como uma milagreira de cemitério que atende pedidos ligados a questões afetivas, relacionais. Então tá com problema afetivo, vai lá pedir pra Maria Jandira. Lá no final do cemitério a gente tem outra desconhecida que também tem uma atuação parecida com a Maria Jandira. Tem os trê os três anjinhos que na verdade são quatro que até hoje eu não entendo porque que são três, mas são um debate maior que eh ajuda em questões infantis. Tem, a gente tem aqui de milagreiro de cemitério que eu encontrei 24 24 fraquita e e alguns milagreiros muito interessantes. Dr. Tofol, por exemplo, foi o fundador do círculo italiano, que é a casa de saúde. Então, é muito interessante a relação que as pessoas se estabeleciam com aquilo que eu falei. É uma história que vive na mística do imaginário popular. Claro, as pessoas precisam acreditar para queim isso tem algum efeito na vida delas, mas o que é interessante é que essa história traz a reboca a história regular da cidade. Então é muito gostoso isso e a gente não perde o magnetismo desse dessa sensação mística, né, em alguma medida sobrenatural para trazer o resto, porque essa é a parte gostosa. Essa rua, por exemplo, que a gente tá, esse arroamento, hã, foi gravado Memórias Póstumas de Brascubas com Reginaldo Faria e com a Sônia Braga. Então, tudo, cada pedacinho desse cemitério tem muita história, é muito interessante, merece ser estudado, conhecido e apropriado, né? As pessoas precisam se apropriar dessa história, não se apropriar das coisas. Ninguém vai roubar nada aqui. Tem que ter câmera em todo lugar, tem que filmar tudo para ninguém fazer, para ninguém cometer nenhum tipo deipendia. Tudo todo mundo, né? Que as pessoas precisam se apropriar é dessas histórias e desse espaço. Claro, respeitando o direito das famílias enlutadas. Eu falo que eu gosto de fazer as visitas aqui, eh, não tenho nenhuma obsessão com a noite. Eu gosto de vir a noite aqui porque o cemitério está fechado para outras atividades. Então, não tem ninguém sendo nenhuma família eh no processo de sepultamento. Eh, a gente não tem as pessoas que vem aqui por finalidade religiosa nos seus rituais. A gente não atrapalha ninguém quando o cemitério tá fechado. Então eu gosto de vir aqui quando ele fecha. Muita gente pergunta: "Pom, por que que vocês não vão de dia?" Porque de dia eu acho que a gente atrapalha. Olha só, desmistificou, né? A gente ficou achando aqui que era uma obsessão pela assombração e no fim não é nada disso, né? Mas tem historinha também de assombração. Claro que tem. Lógico que tem, mas tem de tudo. É isso que é legal. Legal. A gente, quando a gente fala de assombração, a gente desvaloriza esse acontecimento. A assombração, primeiro que a gente resolve a questão existencial mais presente na nossa na na história da humanidade desde que ela percebeu sua consciência, né? O que acontece depois da morte? Essa é a pergunta que acompanha a gente desde tem um milhão de respostas e 1 milhão de incertezas junto com as respostas, né? Não tem ninguém que, como diria, como dizia Vinícius de Morais que voltou com com carimbo, né, com a assinatura a firma a firma reconhecida em cartório falando: "Olha, é assim, como a gente não sabe, a gente respeita o que todo mundo pensa." Mas essa é uma dimensão interessante porque ela é sempre afastada desse contexto, dos patrimônios que estão aqui. E na verdade a própria UNESCO diz que as histórias que o povo conta, as experiências, as lendas também são patrimônios das comunidades. Então é muito errado retirar do contexto religioso, patrimonial, arquitetônico, biográfico, histórico da cidade e as histórias de assombração. Então tem várias histórias aqui. Uma que eu gosto muito é que o maior contador de história de assombração tá enterrado aqui, chama Manuel Simões. Ele era o motorneiro de um bonde que saía do centro da cidade, tinha como ponto final o cemitério. Maravilhoso, né? Já por si já seria uma história ótima, só que ele era médium. Então a vida desse homem era parecida com a daquele menininho do filme Sexto sentido, que via gente morta o tempo inteiro. E numa ocasião saindo daqui, indo em sentido centro, ele tá indo no bonde. Ele imaginava que tava sozinho no bonde. Já era já uma hora bem adiantada. E ele percebe três freirinhas sentadinhas atrás na última filiheira do banco. Falei: "Não vi elas entrarem". Mas beleza, vamos aí. Foram indo, foi indo e nada delas pedindo para descer. E a hora que tá chegando já perto da garagem na Barão de Jaguara, o ele decide cobrá-las, né? Afinal de contas pagar, né? E quando ele vai cobrar elas desaparecem. Quer dizer, além de fantasma, caloteiras freira. Essa é a história, uma das histórias daqui, mas a gente tem Maria Jandira, uma aparição da Maria Jandira aqui. A gente tem uma história de uma mulher, infelizmente, assassinada e que apareceu para uma família de trabalhadores do cemitério. Essa história, mais uma vez, é uma história de assombração que traz junto um uma uma oportunidade de reflexão sobre violências contra as mulheres. própria história da Maria Jandira, que era uma moça que se prostituía e que decidiu tirar a vida e fez isso de forma muito traumática no lugar que ela vivia e que depois o povo, ao invés de julgá, ela vem aqui rezar por sua alma e depois de um tempo pede ajuda e ela ajuda. É que tá as pessoas tá cheio de placa lá de agradecimento porque ela ajuda. Então, o cemitério ele tem um tema que eu acho muito importante, que confere a todos nós essa possibilidade de nos apropriarmos de suas histórias, de sua própria história, né? entender o que que ele quer contar pra gente a partir de todas as histórias que ele conta e as próprias relações individuais das pessoas que são muito particulares. Tem gente que não adianta, tem gente que não tem uma boa relação com esse espaço, traz memórias ruins, tá tudo bem, tá tudo bem, tá tudo bem. A gente não quer trazer todo mundo aqui porque se não tiver bem aqui, você não precisa vir. É melhor não vir. Melhor não vir. Mas ele tem que estar protegido. Por dia que você decidir vir aqui superar isso, conhecer, ter uma outra relação, ele tem que tá arrumado, tem que tá bonito. Agora ele tem placa de sinalização turística para as pessoas que quiserem vir com essa com esse objetivo turístico, se localizar aqui dentro, de se localizar aqui dentro. Quer dizer, isso é devolver dignidade ao espaço. Tem duas personalidades mais conhecidas, né? Tem. E essa e essa é importante porque isso a gente conseguiu também, né? Eh, foi uma sugestão nossa, mas a gente conseguiu também com o apoio da Câmara, né, na pessoa da da vereadora Guida, que ofereceu uma emenda direto pra Secretaria de Cultura, não foi pra gente como grupo, ofereceu direto para eles e a gente fez uma leva de 25 homenageados. E a ideia, na verdade, é que essa seja uma etapa, porque a gente tem muito mais gente para lembrar, muito mais gente para homenagear. Então, seria legal também outros vereadores, senhoras vereadoras e senhor senhores vereadores também que se interessarem, procurarem a procurarem a Secretaria de Cultura pra gente achar quem eles querem homenagear. É um patrimônio, né? Claro. Faço questão de vir aqui ajudar. A gente fez isso, foi muito legal. que o georferenciamento não foi Google, foi nós. É aqui e vai lá onde tá, pô, mas não é exatamente. E a gente encontrou e ao mesmo tempo que a gente coloca nesse nesse contexto de homenageados figuras como Francisco Glicério, né, um grande republicano que foi vereador, ministro da agricultura, a gente coloca o Mané Falaó, que era uma figura que a minha geração ainda viu. A minha também. Você é mais nova que eu a minha minha geração ainda viu, mas as gerações mais novas não tm a menor ideia de quem eu estou falando. Uma figura lendária da cidade, né? Uma figura que fez muita gente de um centro da cidade ainda muito vivo, né? Ele circulava pedindo pras meninas falarem ó para ele a hora que elas falavam ele ir embora. Uma figura interessantíssima de um tipo de uma cidade muito afetiva ainda, né? né, de uma cidade ainda muito, quer dizer, o o Mané fala, ó, não é só ele, ele é a memória desse tempo afetivo de um centro bonito, pujante. Como a Gilda ainda não encontrei. Ah, tô procurando uma questão de tempo. Olha, tá difícil. Eu não sei onde tá a Gilda, mas eu tô procurando a Gilda também. Á, vamos antenar o pessoal para quem souber, né? Quem souber, quem souber. E pr se desfrutar de toda essa história, para acessar isso, como é que as pessoas fazem? Olha, bom, agora, graças a essa mudança importante, você chegar ali na frente do cemitério com seu celular, acho que maior parte das pessoas hoje tem um celularzinho, abre ali um QRcode, tem um mapa. Então, essas 25 pessoas podem ser visitadas sem auxílio de ninguém. A gente tem alguns guias de turismo da cidade que também oferecem esses serviços. Claro, são profissionais e uma vez por mês, às vezes um pouquinho mais, mas uma vez por mês a gente vem aqui para levar o pessoal para caminhar pelo cemitério. É gratuito, sempre foi gratuito, continuará sendo. E é só doar 1 kg de alimento, é que é muito legal. Quem puder e quiser, a gente pede. Claro, a gente sabe que a situação não tá fácil. quem puder e quiser doar 1 kg de alimentos, esses esses alimentos são destinados ao banco de alimentos da cidade, então ele vai ficar sempre com com a gestão da municipalidade. E é só acompanhar no Instagram. Isso tem lá no Kitassombraitassombra. E a saída é daqui ou não? É sempre aqui a gente começa aqui. Ali na frente, num outro lugar importante, a memória dos soldados constitucionalistas caídos que morreram na revolução de 32. os campineiros que dedicaram a se sacrificaram por essa causa, eh, ali diante do mausoléu deles, que é o segundo maior mausoléu em memória dos revolucionários de 32. O maior é o monumento mausole saudade constitucionalista que fica lá no Ibirapuera, o obelisco de Ibirapuera. E o segundo maior é o nosso aqui de Campinas. É lá que a gente se encontra para começar nosso reconhecer, né, quem teve que cumprir esse papel. Pois é, Thago, foi um prazer. Eu ficaria aqui horas e horas e horas mesmo nesse solzinho gostoso. Tá frio, né? Tá bom, né? E fica o convite então porque de um passeio muito bonito, muito interessante, mas se quiser essa guiança toda, é só seguir no Instagram, né? Isso aí. Obrigada. Imagina que é isso. E para você que gostou desse programa e quiser rever e compartilhar, é só acessar o YouTube da TV Câmara Campinas e buscar por Conexão Cultural, o que te assombra. Muito obrigada pela sua companhia. A gente volta daqui 15 dias. [Música] [Música] [Música] He. [Música]
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