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A água sempre foi tratada como um recurso renovável, mas um novo estudo da Universidade das Nações Unidas acende um alerta importante. Em diversas regiões do mundo, o consumo já ultrapassa a capacidade da natureza de repor essas reservas. E o resultado é o que os pesquisadores chamam de falência hídrica. Mas o que esse conceito significa e como ele também pode impactar o nosso futuro? É sobre esse assunto que vamos conversar agora com o biólogo Edson Grandesoli. Seja muito bem-vindo, Edson, ao Giro Ambiental. E também muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Olá, Camila. Eu que agradeço muito o convite, viu? Para começar, eh, eu queria falar um pouco mais sobre esse termo, falência hídrica. Ele chama muita atenção. Eh, eu queria que você falasse o que ele significa, eh, na prática e também porque os pesquisadores escolheram essa expressão específica. Uhum. É, falência hídrica, como você falou muito bem anteriormente, eh tem a ver justamente com a diminuição, eh, do acesso à água de qualidade por pessoas em diferentes partes do mundo. Então, por motivos naturais, mas especialmente por motivos antrópicos, pela urbanização, eh pelo desperdício da própria água. Em algumas regiões, os reservatórios, os mananciais começam a passar por um processo de dificuldade eh para voltar a ter água como tinha no ano anterior. É o que a gente tá vendo com muitos reservatórios, por exemplo, que abastecem a região metropolitana de São Paulo. De ano após ano, esses reservatórios têm a dificuldade de voltar a níveis de volume anteriores a e de anos anteriores. Então, à medida que isso vai acontecendo, as pessoas vão tendo menos acesso à água e a gente pode chegar, é o que a gente não quer, né, Camila, em nenhum momento, chegar nesse ponto de falência hídrica, da gente não ter realmente aquele mínimo de água necessário paraas nossas necessidades básicas e também paraas necessidades das nossas atividades econômicas, certo? Então isso significa que alguns sistemas naturais eh já chegaram ou podem chegar a um ponto que eles não vão conseguir mais se recuperar. Exatamente. A gente tem visto isso, infelizmente, com uma certa regularidade, eh, por exemplo, com o sistema Cantareira, né, que é composto por cinco reservatórios. E você olhando a série histórica desses reservatórios, né, que formam o sistema, que são parte do sistema integrado, a gente vê que eles não têm conseguido se recuperar da mesma forma que eles se recuperaram eh no passado. Então, é muito importante as pessoas entenderem que, apesar da água eh ser tratada como um recurso renovável, né, e apesar de nós estamos também num país que detém uma grande quantidade de água doce do ponto de vista de de disponibilidade, essa água ela está mal distribuída. A gente tem muita água para lugares onde tem poucas pessoas de forma geral, menor densidade demográfica e menos água em locais onde a gente tem uma uma densidade demográfica maior. Eh, visto isso, é muito importante que não só as pessoas eh criem no seu dia a dia uma nova cultura relacionada à água, mas que também os governos criem mecanismos para que as pessoas continuem tendo água de qualidade todos os dias. Sim. E a gente tá acostumado a ouvir o termo crise hídrica, já faz parte do nosso dia a dia. Eh, queria que você falasse um pouquinho mais sobre a diferença entre crise hídrica e falência hídrica. É, a crise hídrica é quando a gente já mergulhou num processo onde a disponibilidade de água baixou de forma considerável. Foi o que a gente viveu, infelizmente, eh, nos anos de 2014, 2015. E agora, justamente a gente tá aí dentro do sistema de alerta, principalmente do sistema cantareira, que tá abaixo de 40% do seu volume útil. Então, a partir de um certo nível dos reservatórios, a gente entra num processo de crise hídrica, onde essa água vai ficando cada vez menos disponível. E é importante destacar eh que normalmente quem sofre mais nesses primeiros momentos da crise hídrica, como nesse momento que a gente tá vivendo agora, são as populações mais periféricas e mais vulneráveis. Então essa questão da crise hídrica tem a ver com o momento que os reservatórios estão estão passando ou podem passar, que podem levar, caso não haja uma recuperação ao longo do tempo, a falência hídrica é um processo. Edson, você me falou algo agora que me chamou atenção, é que a crise hídrica atinge especificamente eh de forma mais forte, mais evidente populações periféricas. Por que que isso acontece? Olha, eh, eu acho que um primeiro motivo é é justamente a a falta de infraestrutura, né, eh, nesses locais mais periféricos, fora dos centros, principalmente das grandes cidades, né, falta de saneamento. O Brasil ainda tem ainda eh passa por um momento muito crônico do ponto de vista de falta de saneamento básico. E e outro ponto que quando vai chegando a crise hídrica e uma das formas de reservar um pouco mais de água é justamente diminuir a pressão de distribuição da água. E as pessoas que moram mais distantes dos pontos de distribuição, né, eh essa com a pressão mais baixa, a água tem mais dificuldade de chegar até as torneiras. Então, populações mais periféricas e também aquelas que moram em pontos mais altos da periferia, normalmente são as primeiras que ficam sem água. Isso acontece muitas vezes inclusive fora de períodos de crise hídrica. Então, é um problema muito sério, muito grave, eh que afeta milhares de pessoas todos os dias, especialmente especialmente nos grandes centros urbanos. E como que a comunidade chegou nesse cenário de falência hídrica? Quais foram as principais escolhas e atividades que contribuíram pra gente chegar a esse ponto? Olha, eu acho que são algumas, né? Eu acho que tudo tem a ver com a forma como nós nos relacionamos com a água. Então, do ponto de vista estrutural, a gente tem ainda uma enorme quantidade de perda de água nos canos de distribuição. Se estima que de 35 a 40% da água tratada se perca na se perca na rede de distribuição por vazamentos. Então, esse é um motivo que leva à perda de água e consequentemente vai levando a gente para uma crise hídrica e depois em outro passo, para uma falência hídrica. Outro outro ponto é o uso abusivo da água, né? O desperdício, não só o desperdício de quem está em casa, está no seu apartamento, no seu condomínio, mas o desperdício também que se faz nas atividades industriais, nas atividades agropecuárias. E essas duas últimas são as atividades que mais utilizam água no Brasil e na maior parte do mundo. Então é um problema que não é concentrado na mão de poucos atores. É um problema sistêmico que tem que ser tratado pelo governo, pelos empresários e pela população em parceria. E o estudo eh da Universidade das Nações Unidas, que eu citei inicialmente mostra que não apenas a quantidade de água é algo que preocupa, mas também a qualidade dessa água. a poluição das águas também há uma preocupação, com certeza, né? A falta de coleta e tratamento de esgoto é um problema muito sério. A a própria a a o próprio resíduo descartado eh nas cidades, na rua, de forma irregular, de forma incorreta, também pode chegar a diferentes corpos de água, rios e também depois, em última instância no oceano. E toda vez que a gente eh despeja esgoto diretamente em corpos de água, a gente não se preocupa com a coleta seletiva, com o a destinação correta dos resíduos, tudo isso com o tempo vai tornando mais caro inclusive o próprio tratamento da nossa água. Então é um ciclo aí que a gente entra de poluição, de descarte, eh de material orgânico chegando às águas que depois reverte para nós num custo aumentado para de novo ter água de qualidade para as pessoas. E você citou que os empresários também precisam rever essa forma de lidar com a água. A agricultura, né, principalmente no Brasil, é grande responsável por eh o consumo dessa água doce que a gente tem. É possível produzir alimento sem comprometer essa disponibilidade de recurso? Com certeza. Já existem muitas tecnologias no mundo, em outros países, que visam a otimização do uso do do uso desse recurso que tá se tornando cada vez mais escasso, que é a água. Então, de novo, a responsabilidade não é só de quem produz. A responsabilidade não é só do governo local ou do governo estadual ou do governo federal, é de toda a sociedade que tem que rever os seus processos na direção de uma nova cultura da água. E Edson, qual o papel das mudanças climáticas nesse processo? Elas aceleram essa falência hídrica? A gente tá falando muito atualmente de superelninho, eh ondas de calor também. Isso afeta? Ah, com certeza, Camila. A gente tem falado realmente cada vez maisanças climáticas, né? Especialmente agora com toda a divulgação que tá sendo feita a respeito do super Elon Ninho, né? eh, que leva justamente à tendência de chuvas mais fortes no sul e períodos prolongados e severos de seca na região norte, na região nordeste. Então, as mudanças eh climáticas elas vem elas vêm aí como mais um fator eh para agravar a crise hídrica ou a falência hídrica em diferentes locais do Brasil. É importante destacar que as mudanças climáticas não são o principal fator, mas ela se soma a outros fatores que já acontecem eh historicamente, como a gente já falou, né? o desperdício, eh, o uso abusivo da água. Então, tudo isso tem que ser olhado de uma forma sistêmica, de uma forma complexa, na direção de busca de soluções e também de políticas públicas efetivas, certo? E quando esses reservatórios naturais eles são degradados, comprometidos, quais são as consequências também pro cotidiano das pessoas? Já falou um pouco como atinge população periférica, mas no dia a dia das pessoas, como que isso atinge elas? Bom, diretamente, né, a falta de água é um problema muito sério, né? Então, a gente tem todas as nossas atividades comprometidas de alguma forma. Preparo de alimento, banho, higiene, eh, especialmente quem tem especialmente ou talvez em especial pessoas que têm crianças pequenas em casa, né? Então, eh, essa, esse cenário é um cenário que pode agravar quadros de doenças, de epidemias que já estão aí, que fazem parte do nosso dia a dia. Eh, e as pessoas têm que procurar caminhos também, eh, quando possível, de forma individualizada para reservar a água, ter mais água disponível em casa para não depender. Eu sei que isso não é simples, né? não é todo mundo que pode ter ter no seu condomínio eh cisternas com água de reuso, mas existem caminhos também individuais que as pessoas podem eh se apoiar para ter aí uma garantia de um pouco mais de água de qualidade a partir de um momento que a gente tem uma crise hídrica mais severa. E um dos temas também abordados nesse estudo que me chamou atenção é o aumento dos fluxos migratórios e imigratórios. Eh, da forma que essa escassez de água também intensifica isso. Com certeza. E isso em muitos em muitos locais do mundo tem a ver justamente com as mudanças climáticas, né? Muitos locais estão tendo, estão passando por ondas de calor, por um número de dias secos ao longo do ano, cada vez maior, e isso vai aumentando a pressão sobre a disponibilidade hídrica daquelas regiões até o ponto que a gente falou logo no começo, né, Camila, de falência hídrica. A partir do momento que você não tem uma disponibilidade de água em diferentes regiões, eh, qual é a solução que a gente tem? parte da população, ela pode migrar para outros locais, que são os deslocados climáticos, né, que migram na maioria das vezes dentro do próprio país. Mas existe uma parcela da população também que pouca gente fala que são as populações que nem essas têm a capacidade de migrar para outras regiões dentro do mesmo país, que em inglês no relatório do IPCC são chamadas de populações que é trapedid populations, né? populações que est que caíram numa armadilha, que elas estão num local muito castigado pela seca, mas não tem, já não tem condições de migrar, de se deslocar. E essas populações precisam de muita ajuda, né? Então nós estamos falando aqui não só numa crise ambiental, mas numa crise majoritariamente humanitária. E essa é uma realidade é distante do Brasil ou já é presente também e aqui no nosso país? você citou um pouco o sistema Cantareira, então isso também é presente no nosso país? Olha, eh há poucos anos eh saiu um estudo de que está surgindo no Brasil ou já surgiu no Brasil uma das primeiras regiões de características áridas, né? a gente tem o semiári do brasileiro, que é a maior parte ou uma boa parte da região nordeste. E ali no norte da Bahia, se eu não me engano, Pernambuco, eh já há características de uma região de clima árido. Então, certamente o número de dias consecutivos secos está aumentando cada vez mais nessas regiões e isso se já não está levando, vai levar ao deslocamento de populações que não vão vão ter mais acesso à água de qualidade. Então isso já está acontecendo em muitos lugares do mundo. E se já não está acontecendo no Brasil, tem um potencial de acontecer eh num breve período de tempo. E o relatório, ele também fala em gestão da falência. Na prática, o que muda na forma como os governos devem administrar essa água? Olha, de muitas maneiras. Aqui no Brasil, infelizmente, também como em outros lugares do mundo, a gente a gente atua de forma muito reativa, né? A gente não se previne pra crise hídrica ou para qualquer outro tipo de crise que pode acontecer. Então, essa cultura da prevenção, ela é ainda muito incipiente no Brasil e é fundamental a gente entender que essas que muitas regiões do Brasil vão ter problemas de acesso à agro e os governos locais em parceria com o estado, em parceria eh com com a federação, precisam criar mecanismos de adaptação, criar mecanismos que garantam qualidade de vida para essas pessoas que moram nesse local. Muitas vezes a gente fala muito nas obras, né? Aqui em São Paulo, eh, se fizeram obras de grande porte para se trazer água de regiões cada vez mais distantes, por exemplo, pro sistema Cantareira. Mas de novo, há caminhos muito importantes. É fundamental proteger os nossos mananciais, proteger as nossas florestas, que são os nossos berços de água, respeitar, controlar o uso da água subterrânea, que também é um grande problema, e, de novo, criar uma cultura de respeito com relação ao uso da água. Eh, você falou agora algumas ações, né, que podem ser feitas. É possível reverter esse cenário? Com certeza é possível reverter. A gente não está num ponto de falência hídrica, né, naquele que as pessoas estão usando mais do que a do que a natureza tá tendo capacidade de renovar. Eu tô falando especialmente aqui da região metropolitana de São Paulo, né, que é eh onde tá se falando mais de de crise hídrica por conta justamente do volume útil atual do Cantareira. Mas de novo, esse ponto é muito importante, né? é possível reverter. E para além de reverter, a gente precisa criar essa cultura de prevenção, conservar as nossas florestas, conservar os nossos mananciais, usar a água de forma racional, reduzir as perdas do sistema de transporte e nós no dia a dia economizar, né, que não é tão difícil assim. E sem querer ser catastrófica, mas se a gente não mudar o jeito como a gente lida com a água, ela pode acabar a água potável no planeta? Ela pode chegar ao fim? Olha, ninguém ninguém quer colocar um um cenário como esse tão catastrófico como você colocou, né? Eh, mas obviamente a gente já tá vendo eh outros padrões, né, de de agressão à natureza, de superuso de recursos, que a gente vê que muitas vezes que os ecossistemas chegam no chamado ponto de não retorno. Eles não conseguem voltar a uma configuração parecida com o que tinha antes. Então, a destruição de florestas, a destruição, a poluição dos nossos mananciais, tudo isso pode levar a um quadro de novo. Ninguém quer isso, né? mas pode sim levar a um quadro até mais crítico daquele que a gente viveu em 201425 na região metropolitana de São Paulo com relação à disponibilidade de água. E pra gente encerrar, eh, qual a principal mensagem que esse estudo também deixa para todos nós? Eh, o que cada pessoa pode fazer de forma individual em casa? A gente sempre ouve falar e em reduzir o tempo de banho, desligar as torneiras. Isso realmente é uma solução? Resolve? Com certeza. Eh, mas a gente não pode responsabilizar somente o consumidor doméstico de forma individual. As ações coletivas, as ações governamentais, todas elas em conjunto com ações individuais. É aquilo que a gente aprende na escola desde cedo, né, Camila, na por meio da educação ambiental, né? Não escove a torneira, não escove o dente com a torneira aberta, tome banhos mais curtos, não empurre folhinha na calçada com a mangueira de água, né? São todos processos que a gente aprende desde muito cedo, né? De novo, essas eh essas ações individuais são muito importantes, mas o consumidor doméstico não pode ser responsabilizado. Há toda uma cadeia que tem que trabalhar de forma preventiva para que a água não falte para ninguém. E um caminho muito importante é justamente justamente nesse ano que nós estamos, é procurar candidatos que efetivamente ten um programa de governo e uma pauta socioambiental muito sólida. Então votar em políticos que estão aí em ano de eleição, procurar aqueles que estão efetivamente realmente preocupados com as questões socioambientais é um ponto fundamental da nossa cidadania. Edson Grandesoli, muito obrigada pela participação aqui no Giro Ambiental e também pelos esclarecimentos. Muito bom. Obrigado, Camila, foi um prazer. Agradeço também a sua audiência. Eu fico por aqui, mas você continua para conferir as curiosidades do meu ambiente. Até mais. Uma pesquisa publicada na revista Animal Behavior revelou que diferentes espécies de animais se comunicam entre si para cooperar e aumentar as chances de sobrevivência na natureza. O estudo foi desenvolvido a partir de um encontro interdisciplinar realizado em Cambridge e reuniu especialistas das áreas de biologia, antropologia e linguística. Os pesquisadores concluíram que a troca de sinais entre espécies distintas ajuda na busca por alimento, na identificação de ameaças e na realização de atividades que beneficiam todos os envolvidos. A descoberta amplia a compreensão sobre a complexidade das relações ecológicas e da comunicação animal. เฮ