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Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil registrou 10.442 focos de incêndio, segundo o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o IMP. Em resposta a esse problema, duas estudantes de biotecnologia da PUC Paraná criaram uma solução voltada ao combate de incêndios florestais. O Biodefencer é um retardante de chamas produzido a partir de um composto natural. E para explicar como essa tecnologia funciona, nós conversamos agora no giro ambiental com Maria Cavalcante, uma das desenvolvedoras dessa inovação. Mariá, muito obrigada por nos atender e seja bem-vinda ao Giro Ambiental. Para começar, eu queria que você explicasse exatamente o que é o Biodefencer, como ele é utilizado para o combate de incêndio. O Biodefencer, ele é um retardante de chamas, então ele cria uma como se fosse uma película sobre a vegetação, que faz com que quando o fogo chegue, essa película impecça que a chama continue e assim diminua a velocidade da propagação do fogo. Ele pode ser aplicado tanto no combate direto às chamas, de maneira com que formando uma barreira, uma faixa de contenção, ou de forma preventiva. Os testes que a gente já tá realizando em ambiente controlado por enquanto já mostram que ele tem um índice de eficiência considerado alto e que ele consegue atuar de longa duração, ou seja, sendo aplicado antes mesmo do incêndio começar. E quando que vocês tiveram a ideia de desenvolver essa tecnologia? Ah, eu acho que essa ideia começou a surgir assim lá em 2024. Eu cresci com incêndios florestais. A minha família tem uma empresa de monitoramento de incêndios florestais e sempre me incomodou muito o fato de não ter nada que possa conter os incêndios de uma maneira segura e que não prejudicasse o meio ambiente. Atualmente são utilizados muitos retardantes sintéticos, principalmente nos Estados Unidos, que causam diversos problemas ambientais. Eles contaminam lençol freático, já mataram diversas espécies de peixe. É assim uma bomba química, realmente. Então lá em 2024, quando eu descobri que só tinham retardantes químicos, eu falei: "Ai, eu preciso fazer alguma coisa". E de fato conseguimos fazer alguma coisa, uma solução 100% biodegradável, segura tanto para animais, microorganismos, ambiente aquático, solo e humanos também. Bom, e depois da ideia, né, em 2024, como que foi o processo de desenvolvimento do produto dentro da universidade? Foi um processo bem longo, assim, a gente ainda não concluiu, né, o produto ainda não tá disponível paraa comercialização. A gente ainda tá finalizando alguns pequenos ajustes por se tratar de uma inovação. Então, a gente iniciou um projeto de pesquisa dentro da própria universidade e através desse projeto de pesquisa que a gente poôde começar a fundamentar. A gente também participou de algumas competições justamente para arrecadar um pouco de dinheiro pra gente conseguir desenvolver o protótipo. A gente consegui o primeiro lugar na no PIBEP, que é uma competição em parceria com a PUC e o Sebrai. A gente também conquistou o primeiro lugar nas regionais do Rud Price e nas nacionais do Rood Price e nos tornamos a única empresa representante brasileira na maior competição universitária de empreendedorismo do mundo. ficamos entre as 84 melhores mundiais de 18.000 startups. Então foi bem legal. A gente agora tá em parceria com um dos maiores especialistas de retardante de chama ajudando a gente no desenvolvimento. Então tá sendo bem legal e uma honra poder ajudar o meio ambiente. Assim, bacana. E nesse processo de desenvolvimento que vocês ainda estão passando, eh, qual tem sido o maior desafio? Qual foi o maior desafio? Eu acho que o maior desafio são os recursos. Eh, consegui dinheiro para tirar uma ideia que até então parecia meio maluca. Meus amigos até brincaram, me chamaram de cientista maluca. Esse é meu apelido entre minha roda. Então, consegui tirar uma ideia do papel, envolve muito custo e eu acho que essa é a parte mais difícil. Entendi. E a tecnologia, ela é produzida a partir de um composto natural. Você pode contar pra gente qual é esse composto? Infelizmente eu ainda não posso. A gente vai depositar patente. A gente já está no processo de depósito de patente e por questões de sigilo industrial eu não posso abrir ainda, mas quando a gente puder, eu tenho certeza que todo mundo vai adorar bastante. Então, ao mesmo tempo em que vocês desenvolvem uma tecnologia, né, para combater os incêndios, eh, também dá um destino a um resíduo que poderia eh se tornar um problema pro meio ambiente. É isso. Exatamente. você contou que ele cria uma película como se fosse uma barreira térmica. Que que essa barreira também pode ajudar na propagação de chamas, impedindo que aquela chama ali eh se espalhe por mais ambientes, mais espaços? Sim. É, ela cria, não é uma película muito bem visível, é algo, é um pouco complexo de explicar, mas é realmente como se fosse uma barreira em cima e é uma barreira térmica, então ela consegue isolar muito a temperatura do material que tá embaixo dela. Então, por exemplo, em testes laboratoriais de pequena escala que a gente fez, a gente conseguia medir ainda com termômetro a temperatura. Nesses nesse teste que a gente tá fazendo agora, que é uma escala um pouquinho maior, a gente já não consegue medir a temperatura por se tratar de um fogo de maior intensidade. Mas quando a gente tava na escala pequena, por exemplo, a chama tava em mais ou menos 600º e a área onde a gente aplicou, por conta dessa barreira térmica, não passou de 65º. Então ele conseguiu isolar super bem a temperatura e conseguiu conter o avanço do fogo. Então a chama visível, que é aquela parte alta que a gente vê, assim que ela entra em contato com o produto, ela apaga. Aí o fogo diminui a velocidade da propagação, a chama não retorna, mas por sair o material combustível e por startar a gente testa ele com uma certa espessura, acaba avançando um pouco por baixo. E é por isso que estamos ainda realizando testes para fazer com que ele realmente atue além como um retardante e um agente supressor de incêndios. Então ele seja capaz de extinguir completamente o fogo. Entendi. Então no caso, a expectativa de vocês, o objetivo é fazer com que essa barreira evite também o surgimento de novos focos de incêndio ali naquele local. Com certeza. A gente também vai realizar uma batelada de testes, estão previstos para no comecinho do ano que vem para testar o potencial supressor do retardante, que significa que a gente vai ter um fogo muito intenso e a gente vai jogar em cima do fogo para que ele consiga apagar o fogo e evitar a reignição. Porque hoje em dia nos incêndios um dos problemas maiores que tem é o caso da reignição, que às vezes você acha que o fogo tá controlado, o fogo tá apagado, você não tá vendo uma chama, você pisca, do nada ele volta tudo de novo. Isso é um problema muito sério, pode prejudicar diversas pessoas, principalmente os bombeiros. Então a gente quer que o nosso produto consiga apagar de uma vez por todas essa chama. E qual a principal diferença entre o Biodefencer e os retardantes de chamas tradicionais que já são utilizados no mercado atualmente? O nosso produto, ele é 100% biodegradável e atóxico. Eu mesma tô no desenvolvimento da formulação e a gente se preocupou muito em cada composto que foi adicionado. Então não tem nada que possa causar problemas para humanos, animais, ambientes aquáticos, porque muitos desses produtos eles falam que são seguros, mas quando você vai ver realmente os testes de toxicidade, ele é tóxico pro ambiente aquático. que pode a acontecer de de causar bioacumulação, que é quando um organismo se alimenta daquele composto e aí um organismo que se alimentar desse organismo também vai pegar para ele esses materiais que estão dentro desse composto. Isso é muito perigoso, principalmente quando se tratamos o meio agro. Imagina você comer um milho que tem lá um bromo, um composto que pode te causar câncer, por exemplo. Já teve diversos estudos que retardantes foram acusados de ter acúmulos de metais pesados. Isso é muito prejudicial. Então, no Biodefencer, a gente tomou todo o cuidado possível para que não tenha nenhum composto que possa causar nenhum problema ambiental. Saiu um estudo, acho que no ano passado, que grávidas não poderiam manusear a embalagem fechada do retardante pela intensidade dos problemas que eles podem causar. Já o nosso, eu mesmo já passei na pele sem querer e nunca atacou nada. é 100% seguro, 100% tranquilo. Bom, e a gente sabe que muitas vezes em combate às chamas, né, se usa muita água. Eh, o produto também pode contribuir pra economia de água nesse sentido? Claro, ele, a intenção que a gente consiga é chegar num aditivo à água, né? Então ele é uma solução que ele não é pronto uso, é algo diluído, então ele faz com que a água renda mais. Então, ao invés de você utilizar três, quatro aviões, você passa a utilizar dois aviões com produto. Obviamente esse número é estimado. A gente ainda não fez testes com aviões. Pretendemos fazer, estamos em busca de parceiros para conduzir esses testes, mas é justamente para evitar o consumo de água e para conseguir apagar o incêndio de uma maneira mais eficiente e mais segura ambientalmente também. E você comentou no início que o projeto ganhou algumas competições, né? queria aprofundar um pouquinho mais nesse assunto para saber de você também qual que é a importância de levar eh esse conhecimento de vocês desenvolvidos na universidade eh ganhando prêmios, como que é representar não só eh a faculdade, mas também eh o Brasil. Ai foi foi uma honra absurda. Sim, a primeira competição que a gente participou foi o PIBEP, na verdade foi o HPU em 2024, que foi quando a ideia surgiu, que foi quando a gente teve força para participar das outras competições, mas eu considero assim a primeira pbep, foi muito legal, foi algo assim emocionante, até porque eu era muito novinha na época, ainda sou nova, mas foi uma adrenalina muito legal, foi uma honra muito grande. Mas o Hul Price assim foi, eu não tenho palavras para descrever o quão feliz eu me senti de poder representar o Brasil e representar bem. recebemos diversos elogios eh de todas as pessoas e é uma competição muito forte, é uma competição muito grande, é a maior competição eh estudantil do mundo. Então era, a gente tinha mentores de diversas universidades, empreendedores absurdamente incríveis, a gente tinha auxílio de muita gente de alto nível, assim, e isso ajudou muito a gente tanto para desenhar o nosso modelo de negócio, amadurecer a ideia do produto, amadurecer nós mesmos como pessoas. Então, a gente tinha aula todos os dias de manhã e de tarde a gente ainda tinha que correr com as demandas para entregar e tudo isso junto com a faculdade, porque a gente tá no último período de biotecnologia, então a gente ainda tem tinha prova para fazer, trabalho para entregar, TCC para escrever. Então assim, foi muito legal, foi foi um aprendizado que eu recomendo para todo mundo, porque eh você muda a sua perspectiva de vida, a sua cabeça abre para diversas ideias, você começa a pensar em outras possibilidades e você passa a mostrar também pro mundo que atualmente todo mundo pensa que tudo então quando se vê uma umas pessoas estudantes principalmente e mulheres desenvolvendo um produto físico que é ambientalmente seguro, que é uma coisa assim assim mágica encanta todo mundo. Eu acho que essa é a parte mais legal. Bacana. E você contou que tá eh em desenvolvimento ainda o projeto, né, o Biodefencer, mas tem a expectativa de ele chegar até o mercado? Sim, a nossa expectativa é que entre julho e agosto do ano que vem a gente já esteja comercializando, mas para isso a gente tem ainda uma série de etapas que temos que seguir. Então a gente tem que submeter a laudos para garantir a segurança ambiental do produto. A gente não vai apenas comercializar, então a gente vai passar por toda uma burocracia regulamentária para garantir que nosso produto siga todos os padrões estabelecidos. A gente também já tá em contato com órgãos governamentais para perguntar para eles o que que eles sugerem pra gente, o que que eles gostariam que o nosso produto tivesse para de laudo, assim, garantindo a segurança ambiental para que o produto possa ser utilizado tanto em áreas de preservação quanto áreas eh empresas privadas que realmente plantam coisas para vender. Então, a gente tem todo esse processo que acaba demorando um pouquinho, por isso que só vai acabar conseguindo sair ano que vem. Legal. E paraa gente terminar, queria que você deixasse uma uma mensagem eh sobre a importância de se investir eh em ciência, em soluções para problemas ambientais, como você falou, eh investir também em ciência feita por mulheres, que é também tão importante. Eu acredito que a ciência é a base de tudo. Nenhuma nem nenhum mundo consegue ir paraa frente sem ciência. Então, cada vez mais eu sinto que tá mais difícil de pessoas conseguirem apoio para tirar sua ideia do papel. Eu tô numa universidade, então eu consigo ver o quão ideias incríveis existem dentro da cabeça de estudantes e muitas vezes, por falta de investimento, as ideias não vão paraa frente. Então, investir em pesquisa, eu acho que é assim fundamental, sem contar que é desse jeito que a gente consegue mudar o mundo. Exatamente. Mari, muito obrigada pela participação aqui no Giro Ambiental. Agradeço também a sua audiência por ter nos acompanhado até aqui em mais um programa. Continue conosco que agora você acompanha as curiosidades e informações do meu ambiente. Até mais. Um lagarto preguiça foi retirado das chamas por um brigadista durante um incêndio que atingiu o Parque estadual de Terra Ronca em São Domingos, no nordeste de Goiás. Após ser salvo, o animal recebeu água enquanto se recuperava da fuga do fogo. A cena foi registrada em um vídeo e publicada nas redes sociais pelo brigadista civil Rodrigo Vieira. Nas imagens, o réptio abre a boca enquanto recebe água e depois de beber ergue o corpo. Rodrigo contou que encontrou o lagarto no meio das chamas e conseguiu retirá-lo do local antes de entregá-lo aos cuidados de um colega.