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Você já parou para pensar como o nosso consumo impacta os recursos naturais do planeta? Todos os anos, a Terra entra em déficit ecológico, quando a humanidade consume mais do que a natureza é capaz de regenerar. Esse momento é marcado pelo dia da sobrecarga da terra, uma data mundial que neste ano foi registrada no dia 30 de julho. Embora a data tenha ocorrido alguns dias mais tarde do que no ano passado, especialistas alertam que o resultado é o pior já registrado. E para entender o que esse cenário revela e quais são os impactos para o futuro do planeta, conversamos agora com a engenheira agrônoma e pesquisadora do Nepan, Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp, Simone Vieira. Simone, seja muito bem-vinda ao Giro Ambiental. Obrigada. Uma boa tarde. Para começar, Simone, eh, o que representa o dia da sobrecarga da Terra e como que esse cálculo é feito para definir essa data? Então, o dia da sobrecarga da Terra eh é uma iniciativa para tentar avaliar quanto de recurso natural nós estamos consumindo, eh, em termos do quanto que o planeta consegue suportar desse consumo. Então, seria mais ou menos como na nossa casa, a gente faz uma compra pro mês, né, para que ela dure o mês todo. É, dependendo do consumo que a gente tem, da, de quantas pessoas vão na nossa casa ou de quanto que a gente come mais do que aquilo é que a gente planejou, aquela compra pode durar o mês inteiro ou pode durar menos, né? Eh, então é mais ou menos isso que significa o dia da sobrecarga. É, a gente deveria ter o consumo por um ano. Se a gente consome mais, a gente cada vez tá tá chegando nesse dia mais cedo, né? Então, em vez de chegar eh no final de dezembro, a gente tá chegando agora no meio do ano, já tendo consumido tudo aquilo que eh é a capacidade que o planeta tem de repor aquele recurso, certo? E a organização, né, que é responsável por esse estudo, afirma que utilizamos recursos naturais 73% mais rápido do que a Terra consegue repor. Quais atividades humanas eh mais contribuem pra gente chegar até esse cenário? na verdade é um conjunto, né, de atividades. Eh, a gente sabe, isso é é bastante conhecido, né, que a gente tem queimado o combustível fóssil eh numa taxa bastante elevada e isso tem feito com que eh o planeta tenha uma concentração cada vez maior de CO2, fazendo com que a gente tenha esses eventos climáticos que estão ficando cada vez mais comuns de eh extremos de seca, extremos de precipitação, eh extremos de dias muito quentes, como aconteceram agora eh na Europa, por exemplo, né? Eh, ou essas tempestades que estão acontecendo com ventos muito fortes aqui no estado eh de São Paulo ou até no Rio de Janeiro, enfim, no Brasil inteiro isso tem acontecido. Eh, isso é decorrência desse aumento no consumo do da de tudo, né? Mas eh relacionados ao clima, principalmente à queima de combustível fóssil. a gente tem consumido também muito mais água do que aquilo que a o planeta consegue eh ciclar de água doce. Então, eh a gente tá usando mais do que aquilo que seria eh possível para que a gente possa manter um um consumo eh sustentável do planeta, tá? Eh, o cálculo para que para que pra gente chegar nesse nesse número, ele inclui um monte de coisa, né? Ele inclui qual é a pegada ecológica de cada de cada pessoa, de cada país, de cada região do planeta. Sim. Eh, e você fez uma comparação no início, eh, interessante com a a casa das pessoas, né? A compra do mês para aquela casa. E existem e nesse cenário, existem países que consomem mais do que os outros. E também como que essa diferença impacta? Tem países que consomem muito mais do que os outros, né? Então, eh, a gente tem principalmente os países do norte global, que são os países mais ricos, que eles consomem muito mais eh alimento, muito mais energia, combustível fóssil para calefação, por exemplo, do que os países que tão no sul global, que são eh menos desenvolvidos, digamos assim, né? Eh, para esse cálculo, ele envolve uma série de coisas, por exemplo, eh, o tipo de moradia que a que tem naquele naquele país ou naquela região, eh, o quanto de eh alimentos ultra processados, porque uma coisa é eu consumi, por exemplo, eh uma laranja e uma outra coisa é eu consumir o suco de laranja, que envolveu um gasto de energia para transformar aquilo lá, para transportar, enfim. Eh, isso é um exemplo bem simples, né? Mas a gente tem eh vários produtos que nós consumimos que necessitam de muita energia para ser produzido, né? E quanto maior a quantidade desses alimentos que a gente consome, maior foi o gasto de energia para aquilo, né? Eh, se a gente consome, por exemplo, eh, coisas que são produzidas em locais muito distantes, então, se eu tô consumindo bacalhau que vem da Noruega, eh, para além do do gasto energético para paraa pesca desse desse pescado, ele teve um gasto pro transporte daquele pescado, que é muito diferente do custo de eu consumir um peixe que foi e pescado próximo da minha região, por exemplo. exemplo, né? Então, tudo isso entra nesse cálculo eh da sobrecarga. Sim. Pensando nisso também, você falou sobre eh o consumo de água doce, né? Hoje em dia, eh isso também é refletido muito na indústria têxtil, que hoje em dia as pessoas consomem muito mais roupa e e são indústrias que consomem água também. consomem água, eh, consomem, eh, algodão, né, que precisa de algodão e precisa de outros, eh, tecidos que poliésters, por exemplo, que são produzidos eh à base de recursos de petróleo, enfim. Então, a gente tem uma série de de de indústrias que consomem muita água e que a gente tem usado de maneira desproporcional nos últimos anos, né, como você mencionou, a a indústria eh têxtil, né, que a gente tem eh eh virou um um fast food, digamos assim, de de vestuário, né? E como eu citei no início, né, este ano, o dia da sobrecarga, ele aconteceu alguns dias mais tarde do que em 2025, exatamente seis dias mais tarde. Isso significa que houve uma melhora ou esse resultado ele precisa ser analisado com um pouco mais de cautela? Eu acho que ele pode ter sido eh um pouco mais tarde, porque a gente teve a gente tá tendo uma guerra eh que tá dificultando o transporte de combustível fóssil. Então a gente teve um uma queda no consumo de combustível fóssil decorrente dessa guerra, uma queda pequena, mas isso pode ter impactado sim. Eh, esse dia tá chegando um pouquinho mais tarde, esse ano. E o relatório também afirma, né, que vivemos eh um déficit ecológico desde a década de 70, mas naquela época esse o dia da sobrecarga eh acontecia mais pro fim do ano. Eh, o que aconteceu nas últimas décadas pra gente chegar a esse nível de consumo cada vez mais cedo? Eu acho que tem vários fatores, né? Um deles é o aumento da população. Quando a gente tem uma uma população maior, eh, vai consumir mais, né? Eh, o que é muito óbvio. Mas a gente também teve uma mudança muito grande eh nos padrões de consumo da população humana no planeta todo, né? Então, eh, por exemplo, na década de 70, eu vou falar da da minha família, né? Eh, a gente tinha uma família em que morava os avós, os tios, os primos, todo mundo às vezes no mesmo terreno, na mesma casa muitas vezes, né? Hoje em dia, a maior parte das pessoas eh vivem em núcleos muito menores, né? Então, ninguém vai ficar morando com o pai, com a avó, enfim, né? cada um prefere ter própria casa e isso aumenta o consumo, né? Aumenta o consumo eh por conta da construção civil, aumenta o consumo eh individual, aumenta o consumo por transporte. Eh, a gente teve a precarização do transporte público em muitos lugares do planeta que fazem com que a gente aumente eh o transporte individual que consome muito mais energia do que os transportes públicos, por exemplo. Sim. E também essa sobrecarga, ela não afeta só o meio ambiente, como a gente já comentou aqui amplamente, também trazem outros impactos eh no setor econômico, produção de alimentos, eh disponibilidade da água também até paraa saúde da população traz impactos. com certeza traz, eh, porque eh nenhuma nenhuma atividade qualquer que seja, ela eh acontece sem ter o feedback, né? O que que seria o feedback? Seria uma o que a gente chama de retroalimentação. Então, você tem uma ação que provoca uma reação, né? Eh, então, só pra gente ter uma uma ideia, eh, o desmatamento na Amazônia, por exemplo, tem diminuído a quantidade de chuva no Centro-Oeste e São Paulo, Argentina, porque a chuva nessas regiões depende muito da umidade que é produzida pela floresta amazônica, né? Então, eh, a esse é um exemplo, né? Então, a gente tem esse desmatamento afetando eh a chuva em outras regiões. Ao afetar a chuva, a diminuição da precipitação, eu tô afetando a agricultura de modo muito direto, né? Porque a agricultura depende de água. Então, eh, isso tudo vai desencadeando uma série de de problemas. Eh, e algum deles eh que acontecem eh com a saúde humana, né? Então, por exemplo, aumento de eh procura por unidades de saúde de crianças com problemas respiratórios, quando eu tenho queimada, por exemplo. Mas isso é só uma das coisas, né? A gente tem inúmeros eh eh inúmeras consequências das atividades humanas, principalmente eh de que acontece de forma não sustentável, né? E se esse ritmo de consumo continuar dessa mesma forma que está, eh, o que as próximas gerações podem encontrar eh mais para frente em relação à disponibilidade de recursos materiais, até mesmo a qualidade de vida, que como você já falou, atualmente já está ruim, mas se continuar eh desse jeito futuramente pode ficar ainda pior? Pode, pode ficar muito pior. A gente tá vivendo uma uma emergência climática, né? Eh, aqui no Brasil, eh, saiu um um estudo ano passado mostrando que, assim, de uma maneira bem grosseira, né, porque tem particularidades para cada região, mas a gente já diminuiu a quantidade de precipitação no país inteiro e já aumentou mais ou menos 1º na temperatura do planeta da década de 70 até agora, né? Isso tem um monte de consequência. Eh, a gente tá vendo essas, a gente já tá vivenciando essas consequências, né? E se a gente pensar, a gente eh durante o planeta sempre teve um clima que foi que variou, mas a essas mudanças elas eram muito lentas para acontecer, o que permitia que as espécies conseguiam se adaptar a essa nova situação. O que tá acontecendo agora é que a gente tá tendo uma mudança muito rápida que não permite que a gente tenha eh adaptação àquela nova situação. Então, a gente tá observando mudanças, por exemplo, paraa produção de alimentos. Tem a gente tem eh áreas que já não a gente já não consegue produzir certas culturas por conta de tá mais quente ou de ter período seco muito eh muito maior do que era, né? a estação seca tá tá mais prolongada ou porque tá chovendo muito, como tem acontecido no Rio Grande do Sul, né? Isso tudo vai impactar não só a o o ambiente natural, mas a a própria a própria a própria situação humana, né? Porque se a gente não consegue produzir alimento na mesma quantidade que a gente produzia nos mesmos lugares, isso vai ter impacto eh pro consumo humano também. E o relatório sobre o dia da sobrecarga, ele mostra que muitos governos ainda não incorporam os limites ambientais no planejamento econômico das cidades, municípios. Eh, por que ainda existe essa dificuldade em integrar a economia com sustentabilidade? Eh, eu acho, é porque assim, tem um custo, né? Então, eh, nenhuma mudança ela é ela, ela vem sem custo, né? Então, eh, pra gente mudar, por exemplo, do de um de um modal de transporte para um outro modal de transporte que é consome menos energia, vai ter um custo alto. Eh, só que os resultados eles são colhidos muito a longo mais a longo prazo, o que significa que aquela gestão não vai colher os frutos daquilo. Então, é esse pensamento de curto prazo que acaba fazendo com que essas mudanças não sejam incorporadas na agenda eh dos governos locais, estaduais, enfim. Simone, muito obrigada pela sua participação aqui no Giro Ambiental, por trazer esses esclarecimentos pra gente. Algo mais que você queira acrescentar também? Não era só isso. Eu queria agradecer pela oportunidade. Espero ter conseguido clarificar alguma coisa para vocês. Perfeito. Eu agradeço também a sua audiência por terem nos acompanhado até aqui no Giro Ambiental. Continue conosco para conferir agora as curiosidades e informações do meio ambiente. Até mais. As ondas de calor, cada vez mais frequentes e intensas, estão causando impactos significativos sobre a fauna em diferentes regiões do planeta. Aves, mamíferos, peixes e invertebrados enfrentam dificuldades para se alimentar, se reproduzir e sobreviver em ambientes submetidos a temperaturas extremas. Embora os efeitos das mudanças climáticas sobre os seres humanos recebam maior atenção, os cientistas alertam que os danos aos animais também são preocupantes. Um estudo publicado na revista Natural Ecology and Evolution mostrou que 75% das espécies analisadas sofreram impactos negativos durante a intensa onda de calor registrada na América do Norte em 2021. O resultado reforça a necessidade de medidas urgentes para reduzir os efeitos da crise climática sobre a diversidade.