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[Música] E no giro ambiental de hoje, vamos falar de uma modalidade construtiva capaz de impactar muito e positivamente um dos setores que mais empregam no Brasil. A construção civil ultrapassou a marca de 3 milhões de trabalhadores formais em maio deste ano. Pensando nisso, arquitetos resgataram e aprimoraram formas ancestrais de construção para que esse impacto seja menor, inclusive a longo prazo. E para responder as nossas perguntas e saber mais a respeito, convidamos o arquiteto bioclimático e construtor natural Caio Martins para estar aqui com a gente. Muito obrigado, Caio, pela sua presença aqui no Giro Ambiental. Eu que agradeço, Alexandra. Obrigada aí pelo convite. Caio. Fala pra gente, a construção civil é uma é uma um setor faraônico, né, no Brasil, que emprega muito. Eh, claro que tem níveis, tem obras que são de infraestrutura, tem obras que são para habitação. E a gente queria saber então o conceito de bioconstrução que você abrisse, começasse abrindo os nossos horizontes, certo? Na verdade, assim, bioconstrução é um termo eh, modesto assim, recente, para falar sobre algo que sempre existiu. Aí a gente tá falando de construções muito antigas, né, técnicas ancestrais e que ao mesmo tempo foram renovadas de acordo com o avanço da tecnologia e da indústria da construção civil, né? Então, dentro da bioconstrução, existem técnicas que que são remontadas desde muitos séculos atrás, mas existem outras que são mais recentes e reinventadas de acordo com os materiais que a gente tem hoje. Mas assim, a bioconstrução é voltada para materiais, uso de materiais de baixo impacto e estratégias que favorecem o bem-estar do ser humano e que prevalece a vida, né? Então assim, eu acho que se a gente for pensar no ciclo da cadeia produtiva de um material, eh, pensando desde a extração, o transporte, a produção e o descarte, a gente pode entender bioconstrução como algo que depois que termina a sua vida útil, né, o uso do espaço, ela pode voltar com o menor impacto assim para o ciclo natural daqueles materiais que foram usados. E se a gente for pensar na indústria da construção civil, que hoje é responsável aí por 1/3 de toda a geração de resíduos sólidos que a gente produz, é muito importante pensar nisso também. É, é muita coisa, 1/3, né? E pra gente continuar eh entendendo esse caminho, né? Eh, se você pensar em bioconstrução hoje, já dá para imaginar grandes obras ou seriam mais pequenas obras, uma habitação, uma unidade habitacional? Maravilha. Na verdade, eh, não existe essa limitação, né? Recentemente, um prédio foi erguido na Espanha com blocos de terra compactada. A gente tem aí hospitais, a gente tem grandes construções feitas com terra, né? arquitetos renomados como Renzo Piano, Francisquer que ganhou o Pritsker, que é o maior prêmio de arquitetura que existe, o próprio eh Frank Lod Wright já projetou também com terra, então existem grandes constituições com terra, como também é possível paraas pessoas que que querem autoconstruir, que querem buscar essa autonomia, construir habitações para si, né, unifamiliares, assim que também é possível. O Tajmha pode ser considerado uma um exemplo de bioconstrução. Olha, eu acho que um um bom exemplo que a gente pode viver é a Mesquita de Mali, que é uma das maiores do mundo, que todo ano, antes das chuvas provinciais que acontecem por lá, toda a comunidade se envolve para poder eh refazer, não refazer, mas trazer uma camada extra de revestimento pra mesquita para receber essas chuvas, né, para ela aguentar. E é uma mesquita que assim, não sei exatamente a idade que ela tem, mas quem sabe é tão antiga quanto o Tajmaral. Tajal, não tô tão certo de te dizer, mas eu acho que essa mesquita pode tomar como referência. E Caio, eh uma das características, eu acho, da bioconstrução, seria que as habitações elas são eh quase que vivas porque são feitas de terra, como você disse. A gente vai destrinchar um pouco mais os materiais que se utiliza, mas não é uma coisa estanque, né? Ele interage, ele transmite umidade, temperatura. Queria que você falasse disso também, das vantagens da habitação natural. Legal. A Terra, enquanto material vivo que tá ali eh constantemente interagindo com o meio, ela tem essas propriedades sim, né, de de manter a umidade relativa do ar em torno dos 50%. Não é tão seco, né, para ressecar nossas mucosas, nem tão úmido para de repente causar dores reumáticas. e também regular a temperatura, porque ela tem essa capacidade que é chamada de higroscopia, onde ela transporta, digamos, partículas de água em seu interior para poder manter tudo isso eh equilibrado de acordo com as diferenças de temperatura. Então, por exemplo, as casas que são que estão em casas de terra que estão em lugares muito quentes, né, recebendo toda essa energia durante o dia e armazenando como se fossem baterias nas paredes durante a noite, pela diferença de pressão, elas vão liberando esse calor pra parte interna da edificação e esse calor vai aquecendo e ao mesmo tempo sendo liberado pelas eh aberturas, né, pelas janelas. Então tem essa capacidade de regular e consequentemente a gente reduz o uso de recursos paraa refrigeração ou aquecimento de uma casa. Maravilhoso, né? Uma inteligência nata, né? Assim como a questão da ventilação também, que são técnicas assim simples de cruzamento, né? de aberturas, você faz uma abertura contrária a outra, isso cria um fluxo de ventilação. Eu queria que você falasse que materiais que a gente pode utilizar para quem tá assistindo eh começar a perceber também. Acho que um dos conceitos é utilizar muito do material que já existe no próprio terreno. Tô correta? Com certeza. Que assim, deixa eu ver se eu trago alguns dados assim pra gente poder se se localizar. Eh, grande parte dos impactos na produção dos materiais de construção convencionais vem da extração, né? Cerca de 11% dos impactos da construção civil vem dos materiais de construção. E se a gente for pegar esses 11% e esmiçar ele, uns 65% vem da extração dos materiais, sem contar o transporte e a produção. Então, se a gente usar uma terra, né, um material, na verdade, seja ele qual for, que tá presente num local onde a gente pode extrair usando uma retroescavadeira, usando um caminhão, processar ali mesmo e no canteiro de obras levantar as paredes, a gente já tem muito desses impactos reduzidos, né? e consequentemente usar outras estratégias, como você falou, arquiteto bioclimático, achei curioso no início, usar estratégias da arquitetura bioclimática para poder complementar o material terra com as estratégias da arquitetura. Então, de acordo com o bioma, né, com a zona bioclimática que você está, a zona bioclimática você pode conferir numa numa normativa chamada, na verdade, enumerada 15.220. E aí você usar essas estratégias, né, seja uma ventilação cruzada, uma ventilação induzida, quando você abre aberturas na parte inferior de uma edificação, onde o ar frio, que é mais denso, vem empurrando o ar quente que é mais leve, sair para pelas aberturas que estão mais altas, né? Então pode trabalhar com isso, pode trabalhar com a inércia térmica, que é justamente isso que eu comentei sobre paredes funcionarem como baterias, pode trabalhar com iluminação natural, sombreamento, refrigeração eh passiva. Tudo isso são estratégias que são complementadas e o uso da terra e os materiais locais, naturais principalmente que já interagem com o meio ambiente funcionam, né, como uma soma assim, uma sintropia. Acho que acredito que uma coisa fortalece a outra. É porque apesar de ser ancestral, a gente foi progredindo e acho que a comunicação hoje ela tá muito facilitada, então vai trocando esses saberes e aprimorando também esse saber ancestral, né? E a gente consegue reduzir a pegada ecológica, né? Que a gente chama menos água, menos CO2 liberado em transporte, toda esse impacto que a construção gera, né? Eu queria saber qual é o desafio. A gente tem mão de obra qualificada hoje para expandir esse modo construtivo? Eh, esse é um dos grandes desafios, assim, a mão de obra para muita gente, até paraa construção convencional, é algo bem delicado assim de se encontrar, porque funciona como relações, como eh um rigor técnico na construção que todo mundo precisa disso. Então, a construção com terra, por mais que exista há muito tempo, muita gente foi deixando de lado para poder se envolver no mercado que é o o mercado mais necessário hoje em dia, que é o da construção civil convencional. Então, assim, a gente tem eh pessoas, tem mão de obra, mas eu acho que ainda funciona muito no boca a boca. Não existe um lugar onde você possa encontrar tão facilmente. Quem opta por construir com materiais naturais e comece a pesquisar, se aprofundar nesse universo, vai ver que existe muita gente já trabalhando com isso e que ao mesmo tempo existem técnicas que são semelhantes à construção convencional, como por exemplo o Adobe, que é o tijolo de terra crua, que é uma das técnicas mais antigas da humanidade. E pelo sistema construtivo se assemelhar muito ao bloco cerâmico convencional por assentamento, né, por amarração, é mais simples de encontrar pessoas que façam isso. Mais difícil talvez encontrar Adobe para ser vendido já pronto, né? Por isso que a gente tem que produzir em loco, o que já também otimiza todo o processo aí da cadeia produtiva. Então, existem técnicas que são possíveis de de treinar uma equipe rapidamente ali cerca de 10 dias, né? porque a gente vai ensinar algo que vai ser reproduzido igualmente durante a obra e vai fazendo o acompanhamento depois. Então, existem formas, né, de de eh treinar isso. E hoje a gente já tem aí cerca de três a quatro normativas, eh, que é a normativa da TAPA de Pilão, que é a NBR17014. A gente tem a normativa 16814, que é do Adobe. Dá para sair agora a normativa do Pau PIC, que é a Taipa de mão, a casa de Taipa, que é famosa pelas rachaduras, pelo barbeiro, né, mas que não é bem assim, que é a normativa 17249. E tem algumas algumas NBRs também para o solo cimento, que é o chamado tijolo ecolólice. Então tudo isso facilita aí é uma IA atual que é a inteligência ancestral que vai ajudando aí as pessoas a a construírem. Maravilhoso. Adorei. E a E aqui Caio em Campinas a gente tem a nossa catedral que é construída com taip de pilão também. Então é um bom exemplo da durabilidade e da importância dessa construção, né? Eu ficaria aqui horas conversando sobre isso. Acho muito interessante. Agradeço demais você ter participado aqui com a gente. Queria que você disponibilizasse os seus canais para quem tiver interesse. Certo? Bom, Alexandra, primeiro agradeço também aí pelo convite, viu? abrir esse espaço assim pra gente tratar, trazer esse debate de um tema tão importante e necessário. Eu hoje eh faço parte, a gente tem um escritório chamado Casamescla, você pode encontrar no Instagram, @acasamescla e também @bioconstrução, onde eu trago um pouco sobre educação, né, sobre treinamento, sobre técnicas, inovações, novidades, tudo sobre o tema da arquitetura bioclimática e da construção de baixo impacto. Muito obrigada aí. E para você que assistiu esse programa, continue com a gente que agora é a hora daquelas curiosidades ambientais, um giro pelo Brasil e pelo mundo. Nos últimos 20 anos, a paisagem do deserto de Tar, na Índia, também conhecido como grande deserto indiano, passou por uma significativa transformação, tornando-se progressivamente mais verde. O estudo publicado em 3 de abril na revista Cell Report Sustainability, baseada em análises de dados de satélite, estima que a cobertura vegetal da região aumentou em 38% entre 2001 e 2023. A pesquisa sugere que esse aumento da vegetação está ligado à expansão das atividades urbanas e agrícolas no deserto, além do aumento das precipitações provocado pelas mudanças climáticas. เฮ [Música]