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De Olho na Educação | Antologia Poética
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De Olho na Educação | Antologia Poética

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Quase 200 poemas de 13 livros compõem “Os enigmas singulares”, antologia de José Tolentino de Mendonça organizada por Márcio Capelli, professor da PUC-Campinas. Em entrevista ao De Olho na Educação, o pesquisador explica o trabalho de seleção, que durou cerca de um ano, e os critérios para reunir quatro décadas de produção poética. A organização cronológica permite acompanhar temas e imagens recorrentes. Capelli também relata seu contato com o autor durante o doutorado em Portugal e lê o poema “A infância de Herberto Helder”.

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Bom, é o quadro de Olha na Educação. A gente vai falar sobre um assunto bem legal, porque a poesia do prefeito do de Castério para cultura e educação da Cúria Romana, o cardeal José Tolentino de Mendonço, dos nomes de destaque, pois é, da literatura portuguesa contemporânea, ganha a sua primeira grande mostra publicada no Brasil. com o lançamento Os enigmas singulares, antologia poética de José Tolentino Mendonço. A obra foi organizada pelo poeta e pesquisador Márcio Capelli, conosco aqui no quadro de Olho na Educação. É professor da Faculdade de Filosofia do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Religião da PUC Campinas. Tudo bem? Tudo bem. Boa tarde. E é exatamente onde nós estamos aqui na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Cara, que responsabilidade essa sua, hein? Publicar no Brasil. Como é que foi isso? conta pra gente. Bom, José Tolentino Mendonça, hoje atual prefeito do de Castelo para Cultura e Educação do Vaticano, eh um poeta reconhecido, prêmios literários e não tinha ganhado até esse ano uma publicação da sua poesia no Brasil. E de fato uma grande uma grande responsabilidade primeiro ler, reler, selecionar os poemas que agora tão nessa antologia e escrever o postfácil para fornecer algumas pistas pros leitores, né, entrarem em contato eh inicialmente com essa obra também. Quanto tempo durou esse processo, Márcio? Olha, a minha convivência com a poesia do José Tolentino Mendonça já tem alguns anos, mas o trabalho efetivo de releitura, de seleção, de estabelecimento dos critérios durou em torno de um ano. um ano e você separou aí mais ou menos uns 200 200 poemas eh que compõem eh essa antologia eh [limpando a garganta] que são poemas dos 13 livros eh de poemas do José Tolentino Mendonça. Pois é, eu tô dando justamente uma olhadinha sobre isso, porque eh você conheceu mais profundamente a produção poética do escritor português quando, em que situação? Bom, eh, eu fiz uma parte do meu doutorado em Portugal, porque o meu objeto de pesquisa época foi o escritor português José Saramago, sob orientação do José Tolentino Mendonça, que era professor da Faculdade de Teologia e vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa. Eh, e nesse momento ali, por volta de 2016, 2017, foi quando eu tive o primeiro contato com a sua com a sua poesia. E os textos aparecem em ordem cronológica, né, e permitem acompanhar diferentes momentos aí da carreira do escritor. Exatamente. Eh, então o nós optamos por fazer essa seleção e exposição em ordem cronológica para dar uma noção geral aos leitores, né, dos temas, imagens, recorrências, eh, dessa dessa poesia. Mas eu diria que o critério não foi puramente cronológico, né? Depois de fazer a leitura completa da obra, eu fui em cada livro tentando selecionar aqueles poemas que mostravam imagens, eh, elementos que se que se repetiam. Boa, boa. Imagino que não deva ter sido fácil assim escolher esses 200. Inclusive, você separou alguns. Vamos começar a comer separei. Separei. Acho que acho que vale a pena ler o o poema que, segundo o próprio José Tolentino Mendonça, foi o primeiro poema que ele escreveu na sua adolescência, pelo menos o primeiro poema que ele se deu conta de que era um poema, que chama-se A infância de Herberto Hélder, que também é um poeta da Ilha da Madeira, muito importante no contexto da literatura contemporânea de língua portuguesa, assim como José Tonetino Mendoça também é da Ilha da Madeira, né? Então, o poema diz o seguinte: "No princípio era a ilha, embora se diga, o espírito de Deus abraçava as águas. Nesse tempo estendia-me na terra para olhar as estrelas e não pensava que esses corpos de fogo pudessem ser perigosos". Nesse tempo, marcava a latitude das estrelas, ordenando berlindes sobre a erva. Não sabia que todo o poema é um tumulto que pode abalar a ordem do universo. Agora acredito. Eu era quase um anjo e escrevia relatórios precisos acerca do silêncio. Nesse tempo, ainda era possível encontrar Deus pelos baldios. Isso foi antes de aprender a álgebra. Caraca, que profundo, hein, meu? É, esse poema eh me parece ser muito significativo. Primeiro porque de cara aparece aqui uma relação com o texto bíblico. É, fala o espírito de Deus e tudo mais, mas não é bem isso, né? Hum. Embora haja uma relação com o universo da religião, eu diria que a poesia do José Tolentino Mendonça não poderia ser reduzida a uma poesia meramente religiosa ou confessional. Ela retira força desse universo simbólico das religiões, né, sobretudo do cristianismo, de extração católica, mas eh ela não é uma poesia, como eu poderia dizer, como mensagem isso, qual mensagem que você acha que quer passar? Olha, eu acho que quando a gente fala de poesia é difícil falar de uma mensagem eh eh proposital assim, mas eu diria que é uma uma poesia que tá o tempo todo provocando o leitor a perceber essa realidade com com outros olhos. Um um ponto chave é uma provocação, uma provocação. Um ponto chave na poesia do José Tolentino Mendonça é a atenção, né? Todo mundo que sai dessa poesia e diz assim: "Olha, eu preciso prestar um pouco mais atenção ao meu cotidiano, aquilo que me cerca". Porque há elementos muito simples que às vezes acabam sendo retomados em chave poética e que, né, aparecem com outro sentido. Bom, e você conversou com muitas pessoas, pensou bastante, refletiu, como surgiu assim esse desejo de trazer ao público brasileiro, ao leitor brasileiro tudo isso? Bom, primeiro porque o José Tolentino Mendonça é um autor eh que fez parte e faz parte até hoje da minha formação. Olha só que legal, gente. Eh, não só como professor, mas também como escritor. E depois de conversar com ele, com pessoas que gostam de poesia, né, a gente chegou à conclusão que era hora de, enfim, publicar essa essa obra no Brasil, aproximar o leitor brasileiro desses poemas também. Bom, vamos lá, Márcio, vamos para mais uma. Vamos, com certeza. Muito legal, cara. É muito bem. Então, eh, um outro poema, eh, pega um bem bacana aí, um pouco mais curto, mas também muito significativo, eh, chama-se Epitáfio para Heiner Maria Hilk, que é também um poeta no Ocidente extremamente eh importante, né, conhecido, conhecido. E ele diz assim: "Quando as palavras buscarem amparo em teu secreto canto, serás ainda o único pastor do meu silêncio, né?" Por que que eu escolhi esse poema? Porque a poesia do José Tolentino Mendonça é uma poesia que provoca no leitor um exercício do silêncio, que é uma poesia cheia de suspensões, de espaços em branco e que atira a nossa atenção pro silêncio. Você desde menino gosta de poesia ou foi se interessando ao longo do tempo? fui me interessando ao longo do tempo, mas a minha formação literária na infância foi muito mediada pela Bíblia. É mesmo. Então, as primeiras histórias com as quais eu entrei em contato foram as histórias bíblicas. Os primeiros poemas que eu conheci foram os poemas bíblicos, sobretudo os salmos, né? eh as canções, eh porque a minha origem é também uma origem religiosa, não católica, né? Eh, a minha origem religiosa é uma origem protestante na igreja batista. E eu diria que, de fato, a Bíblia foi um texto, o primeiro texto literário com o qual eu eu tive mais contato, assim, mas não só, obviamente, né? Olha só que interessante, como você disse, né? Embora os poemas eh tenham sido organizados de forma cronológica, o trabalho do Capell, do Márcio aqui não se limitou a acompanhar essa situação, né? É, a ideia foi perceber quais eram as linhas de força dessa poesia, ou seja, aquilo que aparece mais, né? Porque se tratava de uma primeira antologia. Ah, perfeito, perfeito. Para dar a ver quais são esses esses marcadores, né? eh, importante na poesia do José Tolentino Mendonça, para que o leitor brasileiro se familiarizasse com essa obra. Boa, bora para mais um. Vamos poema. Muito bem, então vamos para o terceiro. O Márcio vai falar cinco pra gente [risadas] aqui. Vamos nessa. Então são 200, gente, que tem aí. Muito bem. Mas o Márcio aqui pra gente aqui no quadro de olho na educação separou cinco poemas. Já foram dois, né, Márcio? Isso. Muito bem. O, esse poema chama-se A casa, onde às vezes regresso. Opa. A casa também é um elemento que aparece diversas vezes na poesia do José Tolentino Menança, assim como a ilha. Por tem uma explicação para isso ou não? a a casa é um tema eh muito importante na poesia em geral, mas eu diria que eh ao falar da casa, ele fala também da casa, não só a casa que a gente habita, mas a casa que muitas vezes a gente precisa deixar para habitar outros lugares, não é? Ou seja, essa é uma poesia também que sugere movimento. Aliás, a poesia é uma espécie de saída de si, de êxodo, não é? De habitação de lugares outros. E e esse poema é muito é muito significativo para entender isso que eu tô dizendo aqui. Então, a casa onde às vezes regresso, a casa onde às vezes regresso é tão distante de que deixei pela manhã no mundo. A água tomou o lugar de tudo. Reúno baldes, estes vasos guardados, mas chove sem parar há muitos anos. Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai. Uma viagem se deu entre as mãos e o furor. Uma viagem se deu. A noite abate-se fechada sobre o corpo. Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração, né? Então aqui aparece a figura do pai, aqui aparece o regresso a uma casa, mas o regresso à casa eh é o regresso a uma casa diferente, né? E eu gosto muito de uma imagem que um outro poeta importante que também foi lido pelo José Tolentino Mendonça, que é um poeta mexicano chamado Otávio Pais usa, né? Ele diz que a poesia é uma passagem a outra margem, né? É uma espécie de travessia onde a gente eh encontra outras possibilidades de vida, inclusive, né? Boa. Qual que é a imagem que o pessoal de Portugal tem aqui da das poesias brasileiras? Ah, eu diria que eh há uma há uma boa relação da da poesia portuguesa com com a brasileira, né? Eh, hoje há inclusive muitos autores que retomam significativamente no seu trabalho poetas eh brasileiros. Para você ter uma ideia, o José Tolentino Mendonça é leitor de poetas como Murilo Mendes, Jorge de Lima. Há um poema que inclusive compõe a antologia que tem o título de O nome de uma poeta brasileira que ele admira muito, que é Adélia Prado, inclusive que acabou de ganhar o prêmio da biblioteca nacional. Isso aí. Eh, enfim, então, eh, eu diria que a, e claro, do ponto de vista do Brasil com a poesia portuguesa, essa é uma relação inevitável. É, não tem como, né? Vamos pro quarto poema. Então, Márcio, bem, esse poema é um poema muito interessante porque eh é o que a gente chama de metapoema. Que que é um metapoema? É um poema que fala sobre o que é fazer poesia. No final das contas, ele chama-se Os versos. E diz assim: "Os versos assemelham-se a um corpo quando cai ao tentar de escuridão a escuridão a sua sorte. Nenhum poder ordena em papel de prata essa dança inquieta." Caraca. Então, e e esse esses dois primeiros versos, né, que dizem o seguinte: "Os versos assemelham-se a um corpo quando cai. são muito significativos, porque eles sugerem que a poesia não é algo que a gente consegue controlar. É, é, eh, eu diria que é quase impossível a gente controlar uma poesia, né? É, é. E não só eh é impossível controlar do ponto de vista de quem escreve, como é impossível controlar do ponto de vista de quem lê. Quem lê exatamente isso. Ô, ô, Márcio, vamos paraas suas considerações finais, mas eh logo depois eu quero o quinto poema, o último poema. Muito bem. Então, eu diria que ler qualquer livro de [limpando a garganta] poesia é uma grande aventura, né? A gente não sabe muito bem. É um universo fantástico, né? O que vai encontrar e é uma incógnita sempre uma incógnita. E veja, a poesia faz parte da nossa vida sem a gente perceber, né? Eh, por que, Mário? Porque eu diria, especialmente no caso do Brasil, que nós temos grandes poetas que estão na boca do povo. A música popular brasileira é uma poesia. É poesia. é poesia. Então, nós convivemos com a poesia e eu diria que mais uma poesia como essa do José Tolentino Mendonça ensina a gente a ver poesia eh nos caminhos do cotidiano, no dia a dia. No dia a dia. Eu acho que esse é o esse é o grande o grande o grande trunfo de uma de uma de uma obra poética. Aproveitar o seu tempo aqui. Só mais uma pergunta, ô ô, Márcio, que o nosso tempo já tá também se esgotando, mas o papo tá bom. [risadas] Como você acha que a poesia pode contribuir pra formação cidadã da pessoa, dos brasileiros? Vai, bom, eh, eu acredito que hoje, se você me perguntasse qual é qual seria qual é a principal função da poesia, eu diria que é nos devolver a atenção. Puxa vida, que beleza, hein, cara? É, né? Eu sou professor na pós-graduação e na graduação. E o que eu vejo hoje não é necessariamente um problema moral de alunos que não querem prestar atenção, mas são alunos que lutam para prestar atenção e que sofrem com dificuldades porque o nosso regime de atenção devido ao contato com as telas, a imersão nas redes sociais mudou drasticamente. Compromete demais. E eu diria que a leitura de poesia é numa palavra atenção. É preciso parar, concentrar, foco, ter, né? Eh, ter vagar, ter você dá uma desligada, né, cara? Porque se você for ler uma uma poesia naquele ritmo do dia a dia, né? Sim, sim, sim. você não vai entender. E o que é mais curioso é que quanto mais você presta atenção nos detalhes da poesia, mais a sua atenção vai ficando treinada para prestar atenção também num texto de prosa, mais a sua atenção vai ficando eh treinada para ver a poesia no seu no seu cotidiano. Eu não tô reduzindo a poesia a essa função, longe de mim, mas se eu pudesse apontar uma relação eh com a com o campo da ética, do comportamento do mundo contemporâneo, da poesia, eu eu apontaria a a atenção. Vamos lá, professor Márcio Capelli, o quinto e último poema aqui no quadro De Olho na Educação. Quando você vai abrindo aí o celular, né? Mas você tá rápido, viu? Porque eu falo, você [risadas] já vai no automático aqui. Muito bem. Muito bem. Então, esse poema chama-se Da verdade do amor. Da verdade do amor se meditam relatos de viagens, confissões e sempre cede à vida esse segredo que tanto desdém guarda de ser dito. Pouco importa em quantas derrotas te lançou, as dores, os naufrágios escondidos. Com eles aprendeste a navegação dos oceanos gelados. Não se deve explicar demasiado cedo atrás das coisas. O seu brilho cresce sem rumor. Que beleza, hein? [risadas] Valeu, muito obrigado pela sua participação conosco aqui. Parabéns aí pelo trabalho. Quem quiser encontrar o livro, o livro tá disponível no site da editora eh Fósforo, círculo de poemas, eh, e também em outras em outras livrarias e e plataformas. Valeu, muito obrigado. Eu que agradeço. Muito obrigado. Bom, pessoal, eu sou André Aranha e você já sabe, né? Tô sempre, ó, de olho na educação. Ciao
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