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[música] [música] [música] [música] Bem-vindas e bem-vindos a mais um episódio do Vozes Negras de Campinas, o podcast que amplifica as trajetórias e reflexões das lideranças negras que constrói todos os dias uma gestão pública mais humana, justa e diversa. Embora pessoas negras representem mais da metade da população brasileira, segundo o IBGEs, 56%, ainda somos minoria nos espaços de decisão. Transformar esse cenário é mais que necessário, é urgente. No episódio de hoje, vamos falar sobre memória, palavra e poder. Porque contar nossa história também é um ato político. Nossas convidadas são duas mulheres poderosas que fazem da cultura e da memória ferramentas de transformação. Valéria Olímpio, gestora do Observatório, me pide memória e identidade, promoção da igualdade na diversidade étnico-racial. [música] Bem-vinda, Valéria. Obrigada. Tudo bem? e Dandelara Pereira, coordenadora das bibliotecas públicas de Campinas, que tem promovido ações de leitura, inclusão e valorização da literatura nas bibliotecas da cidade. Bem-vinda, Danda. Obrigada. Duas trajetórias inspiradoras que nos mostram como a gestão pública pode ser um espaço de resistência e reconstrução das narrativas. É isso, meninas. Bom, eh, a gente gosta de começar o Vozes Negras perguntando de onde vem a força. Valéria, você nasceu na cidade de São Paulo, no bairro do Ipiranga. Viveu na favela Dona Chará, em São Paulo, até os 5 anos. Dos 5 aos 11, viveu e estudou em um orfanato lá no Jabaquara, chamado Creche Baronesa de Limeira. Com 11 anos você foi adotada e foi morar em Santo André, na favela Sítio das Vianas. Estudou na escola pública, na Escola Estadual Paulo Emílio Sales Gomes. Conta para nós como que essa sua história pessoal se conecta à construção do Observatório Mipid. Nossa, eh, eu desde muito pequena, né, que eu eh não tinha uma família, né, então vivi nesse orfanato, porque as minhas lembranças de vida, elas vêm depois dos 5 anos. Eu consigo lembrar da minha vida desde do momento que eu tô nesse orfanato, né? Eu lembro que sempre o que eu queria muito era ter uma família, né? Ter uma família, não, né? dos 5 aos 11, não percebi muita questão do racismo, mas eu percebia que, por exemplo, eh, eu somos cinco irmãs e nós cinco ficávamos nesse orfanato, né? E percebia que as crianças iam indo embora, as crianças brancas e nós íamos ficando ali naquele lugar, né? Então eu pensava que alguma coisa tinha a ver com essa pele preta, né? Então acho que isso me constitui. Quando eu, eu sou adotada e eu, né, na nossa na minha cabeça, as crianças eram adotadas famílias ricas, né? Então eu ia para uma família rica e quando eu chego lá no Sítio dos Viana, aquela favela enorme que eu entro naquela casa que eram dois cômodos sem reboco, minha mãe era empregada doméstica, meu pai era pedreiro, eu falei assim: "Eu vou ter que estudar". E eu lembro que eu falei: "Você é assistente social". Era o que eu queria ser, porque eu tinha uma relação com uma assistente social negra lá no orfanato, que era pessoa que conversava comigo, que me via. Então, acho que é isso que me fez querer chegar nesse lugar que eu estou chegando ainda. Isso te conecta a esse trabalho que você vem desenvolvendo no Observatório MIPID, que tem muito a ver com essas questões raciais, né? Aliás, tudo a ver, né, com essas questões raciais. Tudo rais. Eh, e o que que significa liderar o Observatório MIPID, né, que trabalha com memória, identidade em um contexto tão desigual. Olha, eu a palavra literária também eu gosto, mas eu gosto de mediário. Eu acho que no mei a gente vai mediando as relações, sabe? Nas escolas, nos espaços. Eh, eu sempre penso no observatório, um lugar em que a gente faça as pessoas entender que o racismo é uma violência. E eu tento muito ir por esse lugar do afeto, daquilo que toca as pessoas, porque eu acho que é é um movimento que quando as pessoas são afetadas, né, pelas histórias, pelos dados, talvez a gente consegue mudar alguma coisinha. Então, liderar um pedid acho que é afetar as pessoas, né? Esse movimento que eu tento fazer. Muito bom. Pra gente seguir a nossa prosa e trazer a Danda aqui para ela, né? Quero falar um pouquinho de você. Eh, Danda, você é nascido em Campinas, passou a infância no Jardim Centenário, viveu parte da juventude em Barão Geraldo e desde 1992 resige no distrito de Nova Aparecida, na Vila Francisca, bairro fundado a partir da luta por moradia liderada por sua mãe, dona Luzia Pereira, uma das suas grandes inspirações. A minha grande inspiração, cria da escola pública, atua atualmente como coordenadora das bibliotecas municipais de Campinas, integrando políticas de democratização do acesso à leitura e valorização da cultura afoo-brasileira. Você também é conselheira do Conselho da Comunidade Negra de Campinas e do Conselho Municipal de Cultura. também é coordenadora de projetos da Casa de Cultura Fazenda Rozeira, espaço de referência na preservação das tradições afro-brasileiras e jongueira da comunidade Jongo dito Pereira ou melhor dito Ribeiro com turbandista ou turbantista é idealizadora do projeto Minha Coroa é um torço. Dedica-se à valorização da estética e da ancestralidade africana. Danda, você coordena um dos espaços mais simbólicos da cidade, que são as bibliotecas públicas. Como é que foi chegar até esse cargo, né? Que caminhos te trouxeram aqui? Olha, eh, a biblioteca na minha vida começou como castigo. É, os professores era uma aluna que, vamos dizer, acho que era hiperativa, entendeu? terminava as atividades, questionava muito e professor me colocava de castigo na biblioteca, né? E aí o que eles acharam que era castigo para mim era uma arma, porque aí eu ia lá e lia mais, entendeu? E aí eu questionava muito mais. Então a biblioteca entrou desta forma e também pela minha mãe. Minha mãe sempre foi uma grande leitora, então minha mãe sempre lia muito, tanto que ela era assinante do círculo do livro. né? Então, minha mãe todo mês comprava livro. Então, eu com 13 anos, eh, tem gente que fala assim: "Ah, eu vou trabalhar para ir pra balada". Eu queria trabalhar para comprar livro, eu queria ler. Tanto que um do primeiro livro que eu comprei foi Cristiane F, Drongada e prostituída, né? Porque a gente queria ter livros e assim em casa tinha muito, então era muito natural para mim. Então, a biblioteca entrou dessa forma, mas eu não percebi, né? Então eu comecei a estudar, tava estudando na escola na no Messias, né, que fica no distrito de Nova Aparecida, a escola Messias Gonçalves Teixeira e a professora de português falou: "Nós vamos montar uma biblioteca". Eu falei: "Então deixa que eu monto". E aí depois das aulas eu ia lá e organizava. E aí eu comecei a organizar e eu comecei a perceber as semelhanças. Eu não sabia as regras biblioteconômicas, mas eu comecei a perceber como elas funcionavam. Então 028.5 eu percebi que era literatura infantil, então tudo que era 028.5 eu agrupava, né? Literatura brasileira, cara, é nata. Eu iapando e aí eu fui montando e aí com isso, né, eu fui entrando na biblioteca economia, mas aí eu fui fazer direito, eu fui fazer pedagogia, entendeu? Eu já tinha feito magistério, né? Então na educação também sempre teve muito ligada, mas eu não terminava, né? Não terminei direito, eu não terminei pedagogia. E aí eu falei assim, gente, eu vou fazer administração hospitalar alguma coisa. Exatamente. Aí a Estela, que era diretora no Messias na época, ela falou: "Ó, você já tem a profissão, vai lá e busca esse diploma". Ela falou: "Vai fazer biblioteca economia". E aí, nesse período, eu fui trabalhar no CPTI, que é uma ONG, na região da de Nova Aparecida, que é o Centro Promocional Tadeid. E eu fui trabalhar lá porque eles, a gente foi fazer uma visita e tinha uma quadra de areia. Dona Silvia Living, que era presidente, falou: "Nós vamos montar uma biblioteca". Eu falei: "Quando for montar a biblioteca me chama". E ela me chamou. E eu montei essa biblioteca lá, né? Que é uma biblioteca, um que é o espaço cultural também. Aí quando eu montei a biblioteca, eles chamaram bibliotecário da PUC para poder fazer as coisas dentro das normas e do padrão. Ela falou: "Ó, já tá tudo montada". Aí isso foi em 2005, 2006 eu entrei na faculdade de biblioteca, né? Aí porque aí falei, "Deixei lá então pegar esse certificado que já é meu, né?" E assim eu entrei na biblioteca economia e para chegar na prefeitura como coordenadora, eu já fazia atividades. Eu fui funcionária pública da educação mais de 10 anos, né, concursada. E eu conhecia já o diretor de cultura, o Gabriel. A gente até por fazer ser fazedora de cultura, participar do Jong e da Casa de Cultura Fazenda Rosezeira, a gente já tinha uma uma relação de amizade. E aí ele disse que tava olhando no liquidin, né? E aí ele ligou para mim e falou assim: "Danda, é sério, você é bibliotecário?" Eu falei: "Sou". Ele falou: "Nossa, então precisamos conversar". E aí a gente começou a conversar e aí foi aonde aconteceu o convite para que eu pudesse vir paraa coordenadoria de bibliotecas. E aí nessa conversa, né, a gente brinca que foi durante um ano, então foi um namoro, um noivado e agora a gente tá num relacionamento sério. Estável estável. Ô, Danda, mas nessa questão da da literatura e do acesso à leitura, como que esses instrumentos, como que isso pode ser instrumento de emancipação e de afirmação da da identidade negra? Olha, a literatura ela ela é uma ela é uma como deixa eu achar uma palavra que realmente ela abrange, ela é uma linguagem que ela não é discriminatória, né? Você pega um livro, ela é inclusiva, você pega um livro e não importa para onde você quer ir, paraonde você quer chegar, onde você está. O livro ele ele é transformador nesse ponto, porque você pode estar num local, ler aquele livro e dali você viajar e nesse nessa sua viagem você transforma sua vida. Então eu acho que dentro, principalmente dentro da cultura afro, ela faz essa diferença. E hoje há 10 anos, vamos dizer assim, e a gente poder conhecer autores negros, porque até então a gente tinha muitos autores brancos falando de literatura negra, né? E aí falando de literatura negra, como o do pastoreiro, né? E e outras, né? que sempre trazia a situação da criança na o negro na favela, a criança o negro maltratado, abandonado, né? E acho que um dos livros que faz, que é o da Ana Maria Machado, que é o menina bonita do laço de fita, é que traz uma referência mais suave sobre o cabelo da menina, mesmo que tenha algumas nuances, mas é o que ainda nos aproxima do da afetividade. E aí quando a gente começa a buscar e aí os autores negros também começam a ousar, a ocupar os espaços, né, que até então era mínimo, né, e aí começa a ocupar. E aí a gente tem com a ajuda também da tecnologia e principalmente da internet, né, essa divulgação maior, a gente começa a ter uma visibilidade, entender que a gente tem autores negros como Carolina Maria de Jesus, que estava há anos escrevendo, né? A gente tem Conceição Evaristo que ela não chegou agora, né? Ela não chegou agora. O Júlio Braz só estavam invisibilizados, estavam invisibilizados, né? Então eles começam a chegar com mais força nesses espaços. E aí a gente começa a entender que as nossas histórias elas não são somente orais, não que as orais não tenham validade, entendeu? Mas que acima de tudo nós temos um contexto enorme de histórias que são parecidas com a nossa e que nós não estamos sozinhos. E eu acho que a literatura ela traz isso e aí ela nos fortalece e aí elas faz com que a gente queira alcançar outros espaços, né, de direito, né, porque até então a gente ficava, será que eu posso? Hoje a gente lê, fala: "Não, eu vou, a gente não tem, será que eu posso? Eu vou, eu posso". Isso é a afirmação da identidade dele. Muito potente isso. Muito potente. Exatamente. Bom, vocês duas trabalham com palavra e memória, certo? De que maneira vocês acreditam que essas dimensões que são tão simbólicas, mas tão concretas ao mesmo tempo, podem transformar as instituições? Que que você diz, Valéria? É, eu acho que a as memórias elas nos acolhem, né? Eu acho que quando a gente volta, né, nesse nesse passado, né, paraa gente poder pensar um presente, fazer um futuro melhor, é um resgate da memória, né? Então a gente sempre lembrar de quem veio antes, de quem sedimentou o espaço pra gente estar agora, né? Tá falando com a Danda ali antes que a gente nunca chega para inaugurar nada, a gente chega para conseguir para prosseguir, né? A partir daqui eu faço desse jeito, a gente contribui muito, mas a gente nem inaugura. Então acho que tem essa memória, né, da da da das coisas boas e também das coisas que não são tão boas, acho que nos constituem, né? Tá ouvindo a dona falar de livros? Eu lembro, por exemplo, uma o primeiro livro que eu consegui ler foi Cusa, que era um li um trem de indo de Santo André para Francisco Morato. Eu achei um livro na casa da minha tia e consegui ler esse livro até terminar a viagem. Falei: "Nossa, é muito legal esse negócio de livro, né?" E Carolia de Jesus que eu achei na biblioteca da escola. Entrei um dia para procurar e eu não tive a mesma sorte da danda de ter uma família leitora. Então eu era uma menina que eu saía de casa mais cedo para usar a biblioteca da escola, porque na minha casa não tinha livros, né? Então achei esse livro e e ficou na minha memória bastante tempo. Então quando eu vou para para trabalhar como professora, foi uma das primeiras personalidades que eu trabalhei com as minhas crianças, a Carolina Maria de Jesus. Olha só. É acho que as memórias são importantes por isso elas nos resgatam, né? Nos resgatam. Exatamente. E você, Danda, o que que você diz a respeito, né, da potência de se transformar as instituições públicas a partir da palavra e da memória? Olha, é importantíssimo porque a, por exemplo, tá trabalhando na sendo coordenadora a biblioteca pública de Campinas, a professora Manuel e Enesto Manuel Zink, ela tem mais de 60 anos. Então você vê as pessoas chegarem. Eu também já fui uma que eu vinha fazer trabalho na escola, da escola na biblioteca, e as pessoas chegaram e falaram assim: "Nossa, eu vim aqui, eu enfrentava fila, eu vinha escrever, eu vinha fazer trabalho." Isso também é é um resgate da memória. A gente tem uma sala de leitura na Estação Cultura e as pessoas passam, falam assim: "Olha, eu desci aqui em 1970, quando eu cheguei em Campinas, eu desci aqui, veio eu, minha mãe, meu irmão." Então, a biblioteca ela passa a ser realmente um espaço de memória, mas uma memória viva, né? Porque e positiva. E positiva, porque você vai lá, você busca, né? Pessoal tem na Zinc tem um livro lá enorme. Aí as pessoas perguntam, eu falo: "Tô trabalhando na Zinc, nossa, ainda tem aquele livrão, né?" Então traz uma referência. Nossa, a gente ia lá, passava o dia. Isso quando você vinha de bairros periféricos, então você pegava ônibus. Aí era aquela emancipação de você pegar o ônibus sozinho com a sua turma. Então, quer dizer, você traz um resgate de memória da sua vida, da afetividade, da amizade, né, do quanto você lutou para chegar aonde você chegou, porque tem muita gente ainda que usa a biblioteca para estudar para concursos, né? e entender que aquele e se apropriar realmente disso é um espaço que tem um material bibliográfico gratuito, porque às vezes a gente não tem condições de pagar para estudar para um concurso ou para qualquer outro tipo de curso. E o material está lá à disposição esperando essas pessoas. E e o incrível é que eh é assim, o número de usuário caiu bastante, pós pandemia também caiu, porque a gente entende que a gente pode buscar tudo na internet, pode, mas você ter a qualidade de chegar numa biblioteca onde tem um profissional que é o bibliotecário que tá ali, te acolhe e te dá informações precisas, né, e te ajuda estuda no seu estudo, numa orientação, é outro diferencial. Isso também é uma memória de como você conseguiu chegar no seu objetivo através do estudo, mas de um estudo que você teve um material disponível, porque às vezes a gente fala assim: "Ah, mas como que eu vou estudar se eu não tenho?" A biblioteca ela tá lá com as memórias, né? com o material disponível gratuitamente para que todos. E a biblioteca é um espaço onde a acessibilidade e a igualdade de usabilidade é para todo mundo. É o ô Danda, você me fez lembrar, né, quando você fala, né, desse espaço que é usado pros estudos, né, de concurso e tudo mais. Eu eu sou prova viva disso, né? eh eh ao longo do meu mestrado e doutorado que eu que eu cursei há alguns anos atrás, as bibliotecas eram o meu espaço de de estudo, mesmo porque eh eh aqueles, em especial aqueles que são mais jovens, entendem que você tem tudo disponível na internet, como você disse, não tem. É, há títulos que você só consegue na internet se você comprá-los, se você adquiri-los e lá na biblioteca pública, você tem isso de forma gratuita. Exato. E isso nos remete à importância de valorizar, assim como nós valorizamos a escola pública, não é, Valéria? De nós valorizarmos as bibliotecas públicas, né? E que haja investimento nelas, algo que nem sempre acontece, né? Como instituições poderosas de transformação, porque é disso que nós estamos falando. Exatamente. Valéria, eh vamos falar um pouquinho do MIPID. Importante, né? Você está à frente, né, do MIPID. Eu quero que você explique pro pros nossos ouvides, né, o que é o o o MIPID. Você está à frente eh eh eh do Observatório MIPID, que é uma evolução, né, daquilo que o MIPID iniciou. E eu gostaria que você, além de explicar o que é o MIPID, né, um pouco mais detalhadamente, como que o MIPID tem atuado na preservação da memória negra em Campinas e na construção de políticas públicas a partir dessas histórias. Eh, o Mipid, eh, estamos à frente, eu e a Maria Fernanda, né, somos gestoras do Observatório e como você falou, me ped passou por uma reestruturação, né? Então, nós temos hoje o Proerer, que é um programa de educação das relações ético-raciais, que ele fica na CSF pensando formação, curadoria de livros, de materiais e materialidades. E temos o Observatório MIPID, que pensa as relações intersetoriais, as relações com os entes da federação, com os coletivos, com a universidade. Então, é um lugar, vou dizer assim, mais político, né? porque a gente eh tenta descolar essa imagem do do povo negro como um tema e tentar pensar nele também, né, como um sujeito de detentor de de direitos. Então, me pedid vem para para isso, para pensar políticas públicas, né? Eh, nós estamos aí há pouco tempo, né? OP, acho que tem uns uns três meses, se tiver três meses, né? Então, tá tá caminhando. Eh, pensando nas memórias, nós nos deparamos que a gente não tem muitas memórias registradas, né, do do da da comunidade negra dentro da educação, né, tem na CSF alguns documentos, no Centro de Memória não tem. Estamos fazendo esse resgate. O evento que teve com a professora Cida Bento foi nesse sentido de resgatar quem veio antes para contar a história pra gente do MIPID, né, como que ele se fundou, porque ele é antes de 2004, né? O MPID oficialmente, ele surge em 2004, mas em 2002 teve o primeiro GT do Certida Bento, que foi para pensar o MIPID, foi um curso do CERT, né? Valéria, antes de você continuar, acho que é importante destacar, né, pros nossos ouvintes e as pessoas que estão nos assistindo, que o MIPID ele é uma um órgão, vamos dizer assim, que está no escopo da Secretaria de Educação. Isso, exatamente. E eh essas instituições que a Valéria cita, né, são instituições que pertencem, como a CFS, por exemplo, né, que é a Coordenadoria Setorial de Formação, que também é um órgão, né, que é voltado paraa formação dos servidores da educação, né, e o MIPID agora amplificado, ele vem, né, na condição de de observatório para observar e propor políticas públicas inclusive, né, amplificando as ações do MIPID, que são ações, né, essencialmente formativas na sua Constituição inicial. E aí você eh falou a respeito dessa questão da memória, a gente tem que lembrar que tem um documentário sendo produzido pelo sobre o Lip. Fala um pouquinho sobre isso. Tem documentário que ele tá aí, né, quase saindo, né, tá no forneio quase saindo. Eh, esse documentário ele foi um pedido da professora Cida Bento, né, por conta dessa relação que ela tem com PID no o ano passado, no evento que nós fomos. Cidament Bento. Ela perguntou quem é do MIPID? E aí nós levantamos a mão, ela falou: "Mid é ancestral". E aí nós fomos entender depois conversando com ela essa ligação que ela tinha com que até entrar num programa, né? Com o programa Miip, né? E aí ela faz esse pedido, ela falou: "Olha, poderia gravar, né, fazer um documentário sobre a história do NipID". E aí eu eu tô eu tô no programa desde 2024, né? Então, e em Campinas desde 2021, então tô conhecendo as pessoas, as personalidades ainda desse do movimento negro. E nesse processo de pensar as pessoas, a gente foi trazendo quem fez parte do MIPID. Então, tem várias pessoas bem eh pessoas mais velhas, tem pessoas que são mais novas também que fizeram parte do desse dessa dessa caminhada, desse movimento do NipID, né? Então nós somos ouvindo essas pessoas para poder resgatar essa história, como começou, as dificuldades, as facilidades, né? Se caminhou muito, se não caminhou, né? Que é um programa que tem 21 anos, né? Então é bastante tempo, teve bastante gente envolvida, né? E é um programa que ele é muito feito por mulheres. As articuladoras centralizadas do MIPID foram todas mulheres, né? Então acho que esse é o lugar pra gente demarcar que é muito importante também, né? Pensando nessa nessa educação de racista. Perfeito. E falando em educação antiracista, né, para que o nosso público entenda bem, é importante destacar a relação que o MIPID tem em especial com as escolas públicas, né? Por quê? Eh, como eu disse, a gente tem o braço principal do MIPID, que são as formações relacionadas à educação antirracista, né? Educação antirracista é essa que a a Secretaria da Educação em Especial vem investindo pesadamente, não é, Valéria? existe um esforço eh gigantesco para que a educação antiracista esteja presente nas unidades escolares para que as pessoas tenham acesso e consigam se letrar racialmente. Então esse é um é um movimento muito interessante e eh essa essas questões relativas à educação antiracista em relativa a esse movimento étnico isso é presente na sua trajetória, não é, Valéia? Hum. A gente conversou, você me mandou algumas informações, né, anteriores à nossa gravação e você participa de vários movimentos, né, vários movimentos que eh dizem dizem respeito a isso. Então isso tá muito entrelaçado com a sua trajetória. Você comentou que chegou em Campinas em 2000 2021. Você veio via concurso público. Isso concurso público. Exatamente. É, nesse momento nós já tínhamos em Campinas não tínhamos ainda as cotas, né? Não, mas eu sou do primeiro concurso de educação de coacotas sociais, que é o concurso de APEM 2023. Ah, é corte importante. Exatamente. Eu sou uma, eu falo que eu sou uma P que, né, que tive acesso pela política pública de cotas e penso que isso fez muita diferença eh nesse lugar que eu ocupo, né, por saber. Eu tenho muito orgulho de dizer que eu faço que eu faço parte da política de cotas eh raciais, né? Eu acho que é um lugar muito importante para dizer: "Olha, a gente tá conseguindo talvez uma reparação, né?" e tem pensado muito nisso, porque quando a gente em 2023 eh o primeiro concurso para OPS, que a gente tem um um aumento de OPs da educação infantil, que é o lugar que eu que eu que eu que eu ocupo, que eu estou, eh a gente percebe que a gente também além de chegar, né, chegarem ali os corpos negros, a gente começa ou inaugurar ou intensificar o o assunto da questão da educação antiracista. Então acho que é esse lugar, esse esse poço de OP que a Valéria cita aqui, sem cheia de letrinhos, né? Cheio de de repletos de sigas, né? Ela está se referindo aos orientadores pedagógicos, né? Os orientadores pedagógicos são os profissionais que atuam, né? Que estão à frente, né, dos processos pedagógicos dentro das nossas escolas municipais. é o cargo que eu também tenho orgulho desde 2016 de exercer aqui na prefeitura municipal de Campinas. Eh, e e essa questão diz muito e eh sobre aquilo que nós estamos discutindo aqui, que são as possibilidades de ascensão de de profissionais negros, né? Porque você, a Danda mencionou, né, que ela teve toda uma trajetória inicial básica no universo da da biblioteconomia, foi reconhecida, né, e asu um posto importante que coordena, né, aquelas que são, né, das instituições mais importantes do município. Você chega no serviço público como orientadora pedagógica via concurso cotista, isso é muito potente, né? as cotasciais que são são parte de políticas afirmativas que o município também desenvolve, né? Você chega, você passa a exercer o seu trabalho ali dentro, a desempenhar suas funções, mas você é notada dentro daquilo que você faz e você consegue acender a um posto importante, não é isso? É, acho que quando você pergunta, você perguntou para mim se a educação tinha muito a ver com a minha vida, né? Eu quando eu vou morar na favela do Sítio dos Vianas e que eu já tô tô com 11 anos, depois com 12, eu começo a perceber que a maioria dos corpos ali eram corpos pretos, um lugar muito precarizado. Eu já tinha entendido e que meus pais não iriam conseguir me dar muita coisa financeiramente porque eles não tinham condições. Eu tinha entendido que eu teria que o estudo seria minha saída, né? Então desde muito tempo eu tive essa sacada assim, tanto que eu era muito estudiosa, era, eu entendia que eu tinha, gostava de ler e fazia muito sentido para mim, né? Então eu eu sempre nunca pensei em chegar em algum lugar, tipo, ser uma gestora de algum lugar, não, mas eu sempre quis estar no lugar que eu pudesse contribuir. Tanto que eu entrei no movimento negro em Leme muito cedo. Eu eu morei em Leme, né, depois que eu que eu fui para lá, morei lá em Leme com 16 anos, tava lá e eu fiz parte do movimento negro com 16 anos de idade. Conheci da Bank Lem com 16 anos de idade, né? Tem um livrinho assinado por ela, né? é um privilégio. Então, e eu sempre entendi que eu tinha que educação antirracista e e olhar pr as minhas crianças, porque eu também fui professora lá em L, bem novinha, né? E eu sempre falo assim, ninguém precisou me falar que eu tinha que fazer educação antiracista. Eu não sabia que tinha esse nome, mas entendia que aqueles corpos que estavam na minha na minha escola que era de periferia, precisava de um olhar diferente da professora, que já era educação antiracista, né? Então, acho que eu sempre percebi esse lugar e e me fui super professora de educação também, né? também trabalhava na secretaria. Eu sempre, acho que pelo pelo meu olhar, eu conseguia chegar nesses lugares de ser percebida, né? E é muito raro, reconhecida, reconhecida. É reconhecida. Eh, o que é muito raro, né? Raro, né? Com uma mulher, com uma mulher negra você ser reconhecida. E pra gente é muito importante isso, não pelo status, mas por aquilo falei para Danda, né? É por aquilo que você pode fazer para melhorar a sociedade. Acho que esse é o lugar importante, né? É. E pela desconstrução também, sim. Do lugar que você ocupa desse paradigma. que eh eh lugares de poder só podem ser ocupados por brancos, né? São lugares que nos foram eh eh renegados durante muito tempo, né? Muito muito importante. Eu gosto de dizer assim que a sociedade, desculpa, a sociedade sempre nos coloca numa caixinha assim, né? Mas é importante a gente perceber que a gente pode sempre se esparramar. Eu gosto muito de dizer isso, você vai se esparramando. Esparramar às vezes não é rápido, né? Mas você vai se esparramando e você vai chegando. Acho que isso é importante. Movimento de resistência. Ah, é isso mesmo, Dana. É, eu queria colocar que quando coloco o me pide, a uma das dos fortalecimento realmente de uma educação antirracista para nós da comunidade João Gudito Ribeiro, fazenda Rosezeira, começou com atividades através do MIPID. A oficina, minha coroa é um torço, ela ganhou fortalecimento e ela ganhou uma outra roupagem quando a gente começa a fazer essas atividades nas escolas através do MIPID, né? Porque assim, sempre gostei de fazer o turbante e o turbante é uma coisa ancestral e é natural paraa gente. E aí quando a gente começa a fazer e aí há o questionamento e a gente vai levar paraa escola, aí eu começo a estudar, eu começo a buscar. Então, por exemplo, a oficina de turbante, ela traz um recorte histórico, né? Então, quando não é simples, uma simples amarração, a gente traz um contexto histórico do turbante. E aí dentro desse contexto a gente traz as nossas histórias, a nossa luta da nossa ancestralidade e o porquê do uso do turbante. Então isso também foi um fortalecimento através do MIPID, que nós fizemos várias oficinas, né? Tinha ano que assim a gente chegou a fazer 40, 50 oficinas. Olha só, né? Então, foi através do MIPID que a gente também conseguiu dar esse fortalecimento e essa visibilidade para para aquilo que as pessoas acham que é um adereço e que não é só um adereço, é a história da nossa ancestralidade. Muito, muito, muito potente isso. E para nós vermos isso que você traz, Danda, mostra a importância, né, das ações intersetoriais, né, porque você vê o MIPID é um organismo que está dentro da Secretaria de Educação, a Danda, né, eh, como bibliotecária, como coordenadora das bibliotecas, né, ela está dentro da Secretaria de Cultura e nós temos a sociedade civil, né, porque o o o Jongo, né, o a a fazenda Roseira, ela está é um organismo da da sociedade civil. Então a gente vê essa intersecção e o poder que ela provoca, né? E o poder que ela ela traza, né? E a gente trazer essa essa cultura popular campineira, brasileira através disso, né? Porque quando a gente une a cultura e a educação, a gente só tende a crescer. Por quê? A gente faz um resgate cultural, a gente faz um resgate das nossas memórias e com isso a gente conseguiu chegar onde a gente está produzindo materiais maravilhosos, né? Porque até então a o que era só oralidade passou a ter materialidade. Perfeito, perfeito. Ô Danda, e e falando sobre o o as bibliotecas, né, a gente pode afirmar que elas são guardiãs da memória. Sim. Certo. Assim como me pide, né? Olha a intercepção aí, né? Por isso que as duas estão juntas. É proposal. Proposcional. Eh, quais são as estratégias que o município tem adotado para valorizar eh autores e autoras negras e aproximar esse conteúdo da das comunidades? Olha, a Campinas hoje tem oito unidades, né? São oito bibliotecas públicas, tem. E dentro dessas bibliotecas públicas, além do acervo, né, nós temos a feira afroliterária, que já faz qu vai pro quarto ano, né, a feira afroliterária Laudelina de Cantos Melo, né, que recebe inclusive o nome de Laudelina em homenagem realmente essa mulher que fez a diferença para as mulheres na cidade de Campinas, as mulheres negras, né, principalmente. Pesquisem quem foi Laudelina, né? Campos Melo, isso com dois, né? E aí dentro disso a gente traz eh faz esse recorte com a feira afroliterária, aonde a gente dá eh tem a exclusividade de autores negros da cidade, principalmente, né? Então a gente começou a fazer busca e aí trouxe autores que já tem anos de caminhada, como autores jovens, né? Na primeira-feira que nós realizamos eh tem o Lucas, que é um autor negro, jovem, né? E louco que assim, a gente organizando a feira, a Suzi, que é bibliotecária da Zinc, ela pegou um Uber. E aí nesse Uber, ela vai conversando com o motorista do Uber, ele fala assim: "Ah, eu sou um autor". E era um jovem autor, né? Aí ela fala: "Nossa, que legal, nós vamos realizar a ferafro literária, vou te apresentar uma pessoa". Aí ela nos apresenta e Lucas começa a fazer parte dessa organização e ele esteve presente na feira, tudo, né? Com um livro que ele escreveu sobre a vida dele, que ele custeou, porque também temos que lembrar isso, que a maioria dos autores custeia, né, o seu material. E aí ele foi pra feira. E o incrível é que quando ele sai no último dia de feira, foram três dias, ele falou assim: "Olha, eu entrei um motorista de Uber e eu saí um escritor." Olha que coisa bonita, né? Então eu acho que é impactante de ver os jovens insistirem, né? Então ele ele falou: "Eu tava desistindo". Mas aí a partir daquela feira e de ver as crianças poderem ter contato com autores negros e falar assim: "É possível, eu também posso, eu quero", né? Então isso faz a diferença e a feira afroliterária, ela vem com isso. E esse ano nós temos um recorte que a feira afroliterária, ela também faz uma parceria com o hip hop, né? Porque a essa feira já foi ou ela vai acontecer? Ela vai acontecer agora em novembro. Fiquem atentos aí. O nosso público em casa. Novembro. Novembro. Então, tem a casa do hip hop, que também está dentro da Secretaria de Cultura, então a casa a casa do hip hop, mas a coordenadoria de bibliotecas vão estão realizando essa feira literária e dentro das linguagens que a gente já tem dentro da literatura, nós vamos enfatizar maior essa linguagem do hip hop, né, que são cinco elementos. Uhum. E aí a gente vai tá realmente trazendo, porque aí é essa juventude, né, traz o Islã e tudo mais para dentro dessa feira. E com isso Campinas traz a a o que busca muito é que seja uma cidade de leitores e o importante, leitores antiracistas. Ô Danda, o que você traz para nós é de um é de uma potência gigantesca. Muitas vezes a gente não observa, né, como que as coisas se entrelaçam e como que elas se esparramam. aqui a nossa matéria. seja, eh, a partir do trabalho de das bibliotecas, que a princípio, né, tem o objetivo de disseminar a literatura, de incentivar a leitura e tudo mais, eh, eh, aliado a isso, você tem um trabalho de combate ao racismo, um trabalho de educação antiracista muito grande, né, quando você traz essa questão da feira, quando você traz essa questão, né, da da das pessoas eh entenderem que podem sim ser autores, mesmo aquelas que estão lá na periferia, né, isso Isso é uma ferramenta de combate ao racismo muito poderosa, né? Isso, isso realmente é muito importante e isso mostra, né, que eh essas políticas culturais que nem sempre, né, são eh valorizadas, que nem sempre há um investimento nela, né, a importância que isso tem, né, e nós sabemos, Campinas investe muito, o município investe muito nessas questões, mas isso não é uma regra geral. Isso não é regra geral. Há pessoas que, né, há movimentos em que quando você tem que cortar gasto em algum lugar, de onde corta? Da da cultura. Não percebe a potência que que é isso. Bom, eh, mas vamos falar um pouquinho sobre ser liderança, né? Vocês são lideranças importantes e por isso que vocês estão aqui, que vocês foram convidadas, né? Por quando a gente fala de criação de referências, né? A gente tá falando de inspiração. Vocês, como mulheres negras, em postos de liderança, vocês são referência, né, para que outras pessoas eh vejam vocês, enxerguem, falam: "Olha, é possível, né, que uma pessoa negra atinja postos de de liderança". Aí eu pergunto para vocês, eh, ocupar esses espaços de liderança sendo mulheres negras? A gente tem duas questões aqui, ser mulher e ser mulher negra. na administração municipal. Isso é complexo, muito complexo, né, Danda? Bastante. Conta para nós você, Valéria, primeiro, depois passamos pra Danda. É muito complexo, né? Eh, chegar nesse lugar é o lugar que as pessoas não esperam que a gente chegue e não querem que a gente chegue, né? A C Bento, no livro dela, o Pacto da Branquit, ela fala isso. A mulher negra, ela é o alvo de todo racista, é o maior alvo, porque na escala do racismo, a gente poder fazer uma escala do racismo, a mulher negra tá lá embaixo. Então ela nem sempre foi vítima como foi vista como a o outro do outro, né? É de repente esse outro do outro chega no espaço de liderança, no espaço chamado de poder. Então é difícil porque as pessoas que não estão acostumada a ver esse corpo preto e feminino nesse lugar, elas têm que se desconstruir muito, né? E aí elas se deparam com os seus racismos e elas têm que pensar nos seus privilégios, né? Que não são só elas que podem alcançar esse lugar. Então é difícil por conta do racismo e desse lugar que a sociedade diz que a mulher negra não cabe, né? Então quando você chega a ter esse movimento, né? Como é que aí eu falei com a Danda, tem as perguntas, né? Como é que você conseguiu chegar até aqui? A mulher branca não ouve isso. Eu já ouvi, Danda já ouviu, né? Como se a gente tivesse feito alguma coisa de errado, tivesse pego algum atalho para chegar, não é paraa nossa competência, paraa nossa formação. Então é é essa complexidade, mas ao mesmo tempo eu acho que é como você disse para as outras pessoas, outras meninas negras e as outras mulheres negras é sempre a possibilidade de que todo mundo pode chegar, né? Apesar de, porque a gente não vai desconsiderar o racismo, nem tudo que nos atravessa, é difícil, mas que dá para chegar também, chegar e fazer bom trabalho que você vai ouvir muitas coisas ruins, né? Mas você consegue chegar e fazer um bom trabalho, mas é muito complexo, mesmo em espaços em que teoricamente isso não deveria acontecer, né? Que são espaços educativos, que são espaços poris e tudo mais que você não espera, né? É, mas a educação, a gente tem que pensar que a educação ela não tá, a gente acha que sim, que a educação ela tá como o racismo, a educação tá aqui, o racismo tá fora, mas tá dentro, né? Então acontece, infelizmente é, né? É estrutural. É estrutural. Danda, como é que são essas barreiras, né, para uma mulher negra, né, uma mulher, uma mulher negra que está aí no serviço público e que, né, não evista a princípio como sendo merecedora de ocupar aquele espaço. Fala sobre isso. É, é complexo porque começa um pouco na nossa criação, né? Porque quando a gente a gente começa a crescer, que a gente começa a buscar uma profissionalização dentro da nossa família também, porque passaram por muitas dores, nem sempre a gente tem o apoio, a gente também tem a dúvida. E com isso a gente vai levando essa dúvida, será que eu sou capaz? Será que eu tenho competência para isso? E aí quando surge a proposta, a gente também entra numa eulição de questionamento, será que eu tô pronta? Será que eu posso? Eu vou ousar. E aí quando a gente ousa, né, e a gente aceita, a gente também encontra dos nossos, porque tem o questionamento, como você chegou, como a Valéria falou, como você chegou, o que você fez para chegar nisso, né? E aí você começa a a se tentar se estruturar, porque é isso, você sai do de uma estrutura que você vai para uma outra que não te enxergam, né? Eu passei por situações de de pessoas chegarem por ser mulher negra e estar como coordenadora de conversar com a bibliotecária que estava do meu lado e eu me apresentar. Eu sou a coordenadora e a pessoa continuar conversando com a outra e ignorar totalmente, entendeu? Aí da da bibliotecária fala assim: "Não, mas quem resolve é ela, a coordenadora é ela". Entende? Então a gente todos os dias nós temos que provar, parece até clichê, né? Mas nós temos que provar 10 vezes mais que a gente tem competência. Primeiro a gente tem que provar pra gente, né? A gente tem que fazer essa reconstrução por dentro, porque nem sempre a gente foi construído, nem sempre a gente foi forjado para você é competente, você vai lá que você consegue. Todo mundo começa com um será, tenta, vai que rola, né? Vai que dá. Então, quando você chega, eh, é importante os outros também olharem e você tá pronto também para aqueles que ficaram de olhar para eles falar assim: "Vem, vocês conseguem". E e é importantíssimo. Eu vejo isso na biblioteca quando teve uma visita de umas meninas do Rio Grande do Sul que vieram para um seminário na Unicamp e elas vieram visitar a biblioteca e meninas negras, olha, Rio Grande do Sul, meninas negras do NEAB de lá vieram visit fazer um um trabalho e vieram visitar a biblioteca. Quando elas perguntou quem é a coordenadora aqui? Eu falei: "Sou eu a coordenadora". Elas abriram um sorriso, falam assim: "É isso, né? Importância da referência, referência, né? De você criar referência. Eu acho que é isso. A gente tá aqui e não é que a gente é liderança, não. Nós tivemos referências, nós, como Valéria falou, nós estamos dando continuidade para que as nossas crianças olhem pra gente como referência, fala assim: "Não, elas conseguiram, nós também conseguiremos", né? ser referência para que realmente eu acredito que não acabe, mas que seja, sabe, menos visível, menos violento essa forma com que olham pra pra mulher negra, para pro homem negro, pra pessoa negra, no cargo de gestão, né? Perfeito, Danda. Ô, Valéria, eh, o que que muda, né, numa política pública quando uma pessoa quando as pessoas negras passam a decidir e não apenas executar? Complementa. A Danda traz um pouco disso já, mas eu queria que você complementasse. Ah, muda muita coisa, né? Eu acho que tem muito aquela de você aprender com e aprender através. A pessoa negra, ela aprende com, né? Aí a gente vai muito questionar essa questão dos privilégios, porque a pessoa branca, ela estando num espaço de poder, ela continua sendo uma pessoa branca, ela não vai pensar nos seus privilégios porque ela é muito naturalizado. Quando a gente chega, o corpo preto chega, a gente começa a desnaturalizar esse olhar. Eu acho que é isso que é importante, porque coisas que até então os gestores, inclusive a administração mesmo, não consegue perceber, porque também pessoa branca gestada no mundo racista e também tá com o olhar naturalizado, a gente consegue desconstruir algumas visões. acho que é muito importante e de começar alguns diálogos, né? Então, quando tem um uma escola que ela nunca teve uma gestão negra, aí chega lá um OP negro, um diretor negro, um vice negro, os tempos pedagógicos, eles o tom vai mudar, vamos começar a falar sobre outras coisas, né? Então, acho que isso é muito importante. A gente começa, a gente ou eu falo, a gente inaugura ou a gente intensifica alguns debates são importantes, alguns olhares também, né? Acho que nós podemos, né? Eu eu eu comentei sobre isso no programa anterior, né, a de uma analogia que a gente pode fazer. Eh, você não faz políticas públicas para mulheres sem mulheres. Exatamente. Se você formar um grupo para discutir uma política pública para mulher composta só por homens, não tem nenhum sentido. Da mesma forma que você não faz políticas públicas para a a a o segmento LGBTQ a mais sem a presença dessas pessoas. Então, eh, quando não há pessoas negras, né, nesses espaços de decisão, as políticas públicas são mancas, porque elas são pensadas por pessoas que não vivem aquilo que nós vivemos. Então eu acho que os nossos gestores que estão vendo e que sim, nós temos muitas políticas públicas em Campinas voltadas para isso, mas os nossos gestores têm que ter esse olhar exigir no sentido de abrir oportunidades, né, de olhar paraas suas equipes e verificar, olha, eu não tenho pessoas negras aqui, né, a gente não tem uma situação, né, equitativa. Vamos olhar para isso. Então acho que isso é porque questionamento, né? Geralmente quando surge uma questão fala: "Ah, mas é porque até ontem nós não passávamos por isso, né? Quando tem um servidor, chega um servidor negro ou que passa por uma situação de racismo, qualquer seja, né? Aí fala: "Ai, mas é que nós não tínhamos". Sempre busca uma justificativa. Então eu acho que é importante a partir desse da dessa gestão, né? de realmente das lideranças negras, de trazer esse olhar, porque é jogar luz, né? A gente tem pessoas negras competentíssimas dentro da gestão, né? é olhar, falar assim: "Olha, temos ali eh o eh como fala lideranças negras, juntar essas pessoas para realmente olhar e fazer uma política pública realmente voltada, né, democrática para que seja para todos. Realmente, com certeza. Bom, o Vozes Negras Campinas é também um espaço de esperança, né, sobre o que vem depois, né? Porque cada conquista que a gente tem hoje abre caminhos. Sim. novos caminhos, né? A gente costuma dizer, né, no nosso meio que os nossos passos vêm de longe. Você bem trouxe isso, né? Os nossos passos vêm de longe. E os passos que nós estamos trilando nesse momento, você Danda, você Valéria, eu, Daniel, eles serão constitutivos na formação das próximas gerações. Sem dúvida, né? Sim. Então, pensando nisso, tendo isso em mente, agora eu vou para você, Danda, a última pergunta, Valéria. O que que te motiva a seguir acreditando, né, na possibilidade de uma transformação institucional, mesmo diante desses desafios que a gente tá comentando aqui? Qual é a sua motivação? Olha, eu acho que a motivação maior é olhar pros pros meus, né? Porque hoje eu sou avó, então eu tô vendo uma continuidade do que é meu, né? Então isso é tão importante e olhar pro pros meus netos que são pados, não são negros retintos, não passarão talvez pela mesma a situação que que eu passei, mas que eles vão ter um caminho muito mais tranquilo, né? E políticas públicas voltadas realmente para pra nossa população, porque até então não tinha. Eu acho que o fato de tá trilhando esse caminho, né, da minha mãe que veio fazendo isso, meus avós vieram fazendo, eu tô trilhando, eu vou chegar numa altura e eu tenho certeza que eles vão poder caminhar e dar continuidade nesse trabalho com muito mais empoderamento. Perfeito. Você, Valéria, que que te motiva? Olha, eu vou citar o grande mestre Paulo Freire, né? O Paulo Freira, ele fala que nós não somos condicionados, né? Então eu sempre tenho esse esperançar mesmo. Então o que me motiva é que eu acredito que as pessoas podem mudar. E mudar não é num num sentido muito bucólico assim, é de pensar que o meu trabalho, o nosso trabalho enquanto observatório, ele possa eh entender, fazer que as pessoas entendam que a que a educação antiracista ela é um princípio, ela é uma diretriz da política educacional, né? Então o meu desejo, né? Minha motivação é que um dia a gente consiga ter uma educação de racista cotidiana, né? Que ela não venha só em novembro, que não seja só um tema, porque não é um tema, né? Eh, a gente tá falando de pessoas, né? Então, que meu desejo é esse, que a escola entenda que a educação já se desafmear todo currículo e aí talvez, quem sabe no futuro muito longíco, a gente consiga amenizar a questão do racismo. E é nesse sentido esperançar mesmo, tá certo? Bom, eh, nós sabemos que o município tem políticas públicas, né, aquilo que a educação faz, né, de estabelecer como princípio, como eixo norteador a educação antirracista, que é um movimento que já tem 2 anos, né, além daquilo que já vem sendo feito ao longo do tempo. A gente sabe que essa intensificação na educação se deu eh em especial de dois anos para cá. A gente tem as políticas afirmativas que são desenvolvidas pela Secretaria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas, principalmente naquilo que diz respeito às cotas raciais, né, que agora nós temos uma legislação, né, que eh há uma proposta de revisão da legislação para que se aumente a a porcentagem das cotas, né, nos nos concursos públicos. a gente tem todo esse movimento, né, que a as bibliotecas realizam, né, de valorização da cultura afro-brasileira. Isso são políticas públicas. Temos um centro de referência de combate ao racismo. Nós temos um plano, né? Temos um plano, um plano da igualdade racial muito bem lembrado, que é sempre eh essa semana mesmo nós tivemos, né, que todas as secretarias buscam cumprir as metas desse plano que foi elaborado em 2018, né? Uhum. Então, por exemplo, dentro, eu vou falar dentro da onde eu estou, dentro da cultura, a gente busca realmente tá realizando todas as as metas que foram previstas que estão previstas. Perfeito. Eh, pro pessoal que tá em casa, né, já citando isso, eh, pesquisem, né, o plano da igualdade social do município de Campinas para que vocês conheçam aquilo que foi estabelecido como obrigação do município ou obrigações do município em relação à pauta racial. Ou seja, e se a gente for olhar, né, em outros lugares também, outras secretarias, a gente tem ações, mas a gente sabe que muita coisa ainda falta, não? E que precisam ser mudadas. também, né? O plano ele vai foi em 2018 e ele vem para provavelmente o ano que vem terá uma revisão, até porque as políticas públicas mudaram de 2018 para cá. Temos outras coisas também que precisam ser resolvidas, né? Então o plano precisa ser atualizado e o racismo se reivenca, néanda? também. Sim, sim. Quando quando se atinge, você entende que atingiu determinada situação ou reverteu determinada situação, ele se rende, né, e buscar outras estratégias. Mas, eh, Valéria, falando especificamente daquilo que a gente, né, que é o CNE deste programa, né, deste trabalho que a gente tá desenvolvendo, né, que diz respeito às lideranças negras, né, eh, a gente sabe que a presença de pessoas negras em postos de decisão é mínima, só que nós já discutimos inicialmente. Então, em termos de política pública, o que que você entende que ainda falta ou o que que é necessário para que a gente acelere esse processo de ocupação de corpos pretos nesses espaços de poder? Olha, já temos aqui em Campinas a lei de cotas, né, que é muito importante, mas eu penso muito nessa questão do percentual, né, e penso no terceiro lugar da mulher negra também. Na educação nós somos a maioria de mulheres, mas quando vai subindo na escala de hierarquias e de salários, o número de mulheres vai rareando. De mulheres negras a gente nem precisa falar, né, que que quase não tem. Então acho que é pensar nesse lugar, fazer a intersecção, raça e gênero é importante, né? Pensar dados profundos, né? Quem chega, quem chega nesses lugares de liderança, inclusive os lugares de liderança que não são pro concurso, né? Quando tem um cargo que não é vago, mas precisa ocupar alguém, como que é feita essa escolha, né? Porque tem um processo seletivo para esse cargo, mas eu tenho uma escolha também. E se nesses cargos que não são vagos, a gente não tem pessoas negras, uma escolha foi feita e é uma escolha que passa pela questão da raça. Então isso é importante de pensar também, porque mesmo a pessoa um comissionado, uma pessoa que tá num cargo que não é vago, ela tá naquela liderança. E como que a gente escolhe isso? Muito bem lembrado. É, gente, a gente tem muita coisa para discutir, tem muita coisa para falar, tem muita coisa para pensar, refletir e mudar, mas o nosso tempo, infelizmente, acabou. Ah, que perito hoje Vozes Negras de Campinas foi uma verdadeira travessia entre a memória e o futuro. Obrigado, Valério Límpio. Obrigado, Dandelara Pereira por mostrarem que transformar o serviço público é também contar outras histórias. Histórias em que nossas vozes são protagonistas. Agradecemos a toda a equipe técnica, como eu menciono sempre, tem uma galera aqui na nossa frente que está fazendo isso aqui acontecer e todos os demais eh eh profissionais envolvidos na na produção desse nosso programa. Quero agradecer em especial a Secretaria de Gestão de Pessoas, a Secretaria da Educação por ter permitido, autorizado a presença de vocês, a sua presença aqui, Secretaria de Cultura, né? eh, ao departamento que eu atuo, que é a diretoria de apoio à gestão e projetos integrados e, enfim, e lembrar, né, para você que nos ouve, que ocupar, resistir e sonhar também são formas de governar. Vozes negras de Campinas, histórias que ecoam e transformam. E nossos agradecimentos especiais a você que está nos ouvindo, a você que está nos assistindo e desde já convidando você para assistir o próximo programa. Um grande abraço a todos e todas. [música] [música] [música] [música] He.