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[música] [música] [música] Bem-vindas e bem-vindos ao Vozes Negras de Campinas, um espaço criado para dar voz, força e visibilidade às trajetórias negras que moldam o serviço público municipal. Eu sou o Daniel Estevão, mediador desse nosso programa de estreia e hoje estamos aqui por embora a maioria da população brasileira se declare preta ou parda, cerca de 56%, vemos uma disparidade gritante nos quadros de liderança pública. Dados recentes do Ministério da Inovação e Gestão do governo federal mostram que pessoas negras ocupam apenas 39% dos cargos de liderança no serviço público federal. Esse cenário precisa mudar e é urgente. Este episódio estreia conta com o compromisso de escutar, inspirar e fortalecer quem já está na jornada e abrir caminhos para quem está chegando. Este programa é uma produção conjunta do Programa de Desenvolvimento de Lideranças Negras na Gestão da Secretaria Municipal de Desenvolvimento de Pessoas de Campinas e da Câmara Municipal a Casa do Povo. Nossos convidados de hoje são Elisâela Nunes Oliveira, chefe de setor do Centro de Referência de Combate ao Racismo e Discriminação Religiosa de Campinas. Seja bem-vinda, Elisângela. Obrigada, Daniel. E também Cosmos José Alves, coordenador de relações do trabalho e acompanhamento social do servidor do Departamento de Promoção à Saúde do Servidor, o nosso DPSS Campinas. Bem-vindo, Cosmo. Muito obrigado, Daniel. Visângela. Você é uma menina que cresceu no Jardim São Fernando, na periferia de Campinas, estudou na nossa querida EMF Ciro Excel Magro e se tornou a fez curso técnico, se formou advogada na condição de de bolsista do Pro. Hoje você comanda o principal serviço de combate ao racismo e à discriminação religiosa do município de Campinas, uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Como é que começou essa sua trajetória no serviço público? Conta para nós. A minha trajetória no serviço público não começa na na prefeitura, né? Eu já rodei um pouquinho. Meu primeiro emprego foi na IMA, então já já trabalhei na IMA, já trabalhei na COAB, já trabalhei na SANASA. E aí em 2016, enfim, eh, fui convocada no para assumir o cargo na prefeitura de Campinas, trabalhava na SANASA e lá na convocação nem sabia se eu ia ou não. Eu fui lá ver a vaga, mas quando me foi apresentada era uma vaga para trabalhar no centro de referência. Então, é que era um serviço recém inaugurado, tinha meses da inauguração e eu só venho pra prefeitura porque eu fiquei encantada com aquilo que me foi apresentado naquela reunião de vagas. E como eu era a primeira a escolher, eu pude, eu eu poderia escolher essa vaca e fiquei vai, não vai, fui e pel até hoje. E lembrando, né, Elisângela, que eh o acesso a essa vaga que a Elisângela tá comentando aqui foi via concurso público, né? via concurso público, porque pros nossos ouvintes, eh, aqueles que não sabem, para você atuar como um servidor da Prefeitura Municipal de Campinas, né, em geral é por meio de concursos públicos, de provas e títulos. É isso. Elisângela, ainda com você nesse processo, eh, que que você citaria como o principal desafio que você, eh, enfrenta, enfrentou ou enfrenta sendo uma mulher negra, lidando com racismo e discriminação religiosa? É, vamos lá. São muitos desafios, né? Mas acredito que o principal é colocar muitas vezes a dor de lado, né? né? E para tecnicamente poder dar um melhor encaminhamento para as pessoas que a gente atende no centro de referência. Então, é entender que a o meu pertencimento étnico racial é muito importante, né? Eu ser uma mulher negra é assim fundamental. Isso gera assim identificação nas pessoas que chegam até nós, né? de saber que estão falando com alguém que tá eh entendendo aquele sofrimento que tá sendo descrito, mas a gente precisa colocar isso assim, tudo aquilo que nas histórias que a gente recebe, nos relatos que a gente acolhe, a gente vai muitas vezes identificando a nossa história, mas não é naquela hora, né? Então, e a dor não é ali que a gente elabora. Então, acho que esse é o principal, é, essa é a principal dificuldade de trabalhar com um tema tão sensível e principalmente com a discriminação e eh na assim na prática, né? Perfeito, Elisâela, depois você vai ter oportunidade de falar um pouco mais a respeito, né, do seu dia a dia lá no centro de referência. Legal. Agora queria conversar pouquinho, né, ou iniciar aqui, trazer o Cosmo para essa nossa conversa. Cosmo, você é um migrante das Alagoas, passou por Pernambuco, Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e finalmente fincou raízes na famosa Piracicaba. filho, 16º filho dentre 19 irmãos, pai de cinco filhos, sendo que destes três adotivos, egresso da escola pública, formado em logística, futuro psicanalista, pós-graduando em inovação de gestão de pessoas. E hoje você está à frente da Coordenadoria de Relações do Trabalho e acompanhamento social de nós servidores do município de Campinas. conta para nós como é que começa a trajetória do Cosmo no serviço público. Bem, minha trajetória na Prefeitura de Campinas começa eh na verdade em 2012, né, quando eu passo num processo seletivo através de concurso público, obviamente, né, e iniciou as atividades eh em 3 de janeiro de 2013 como técnico em enfermagem, porque este é o meu cargo, né, eh que eu ocupo na Prefeitura de Campinas. E e é engraçado porque eu não conhecia nada em Campinas. Eu, na verdade faço a escolha pro pelo departamento de promoção do servidor porque eu ouvi outros candidatos a falarem que era um local centralizado, que para as vagas oferecidas era o melhor local. Eu vindo de Piracicaba, não conhecendo nada, também sendo o primeiro a escolher naquele chamamento, falei: "É aí que eu vou, né?" e não conhecia, na verdade, porque eu venho da prefeitura de Piracicaba antes de trabalhar aqui. Trabalhei por 10 anos lá, mas na assistência direta. E foi uma grata surpresa, porque pro meu histórico de vida, para paraa identificação, né, paraas minhas eh eh paraa minha história de vida, trabalhar hoje eh no setor de relações do trabalho e acompanhamento social e poder ouvir essas histórias dos servidores, né, e poder conhecer o sofrimento, principalmente da população negra, porque nós temos, mesmo que no número muito pouco. Temos muitos servidores negros com essa dificuldade de acesso, né? É, muito sem rede de apoio e poder ofertar para eles eh eh muito que considerando que é pouco, né? Porque o serviço não me permite fazer mais. A gente tem um limite, tem um recorte ali, né? Mas eh o pouco que se oferta através dos programas que tem dentro do departamento, quando você vê alguém sorrindo porque, puxa vida, consegui, tenho meu atestado, eh eh eh eh foi aceito o meu atestado, tinha uma dificuldade, você me ajudou, a sua equipe me ajudou e você identificar que outrora você tinha dificuldades parecidas, isso é muito gratificante. Que bom, ô Cosmo. Eh, assim como eu perguntei para Elisâela, vou perguntar para você desse processo para chegar no serviço público, né? Lembrando que você também acessou esse espaço via concurso público, que que você identifica como tendo sido a principal dificuldade para você chegar no serviço público? Olha, para se chegar no serviço público, para mim, né, mais uma vez considerando a minha história, o fato de de eh só ter estudado em escolas públicas eh e muitas vezes em condições precárias até mesmo, talvez eu acho que a a dificuldade foi ter que que ir um pouco além, né, ir um pouco além, eh, comparando-se a porque a gente sabe que o o concurso público ele é muito concorrido. Ele é muito concorrido e isso é uma coisa que cada vez mais eh eh piora, né? Porque assim, as pessoas buscam muito o serviço público hoje e e muitas vezes até pela garantia da estabilidade. Então, quando você entra numa concorrência, num histórico de vida, como o meu, né, considerando a minha história mais uma vez, talvez a a a essa luta, né, de que se alguém tinha que fazer 10, eu teria que fazer 100, né, para para poder eh eh eh garantir a minha vaga no serviço público. Perfeito. E a gente tem sempre que lembrar, né, que eh nós, pessoas negras, pretas e pardas, a gente tem uma uma dificuldade em especial, né, não só no acesso, vamos dizer assim, mas a gente tem também o pós, né, a permanência, porque Campinas, para quem não sabe, é um município que recebe pessoas do Brasil inteiro, né, que prestam seus concursos. De fato, é um concurso, são concursos muito concorridos. Então, a gente recebe pessoas do Brasil todo e é muito comum a gente se deparar com servidores sem, como você mencionou, a rede de apoio, né? Então depois progredir na carreira também é um elemento à parte, né? Você traz um elemento dificultador à parte. Bom, agora vamos lá. Voltando para você, Elisângela. Elisângela, o que que você faz exatamente? conta para nós o que que exatamente se faz no centro de referência e qual é o seu trabalho. Lembrando que a Elisângela chefia aquele setor, chefia aquele departamento e é uma tarefa gigantesca, porque nós estamos falando de um serviço, não é, Elisângela, que tá aí para atender uma população de 1 milhão de habitantes, de mais de 1 milhão de habitantes, né? Então, quando a gente pensa, é, até dá um medinho, né? até dar um medinho porque é um desafio gigante. Conta para nós. Vamos lá. Para quem não conhece o Centro de Referência, onde eu estou gestora recentemente, né, a gente teve aí legal destacar, né, porque é também foi é uma referência para mim, a Jaqueline, que foi gestora desse espaço por muitos anos, né, agora amiga Jaqueline da é agora ela tá numa nova trajetória. Hum. E eu, como remanescente estou dando seguimento a esse trabalho que foi construído. É um serviço que foi criado por demanda da sociedade civil, né? A sociedade civil lutou para que tivesse um serviço onde as vítimas de racismo e discriminação religiosa fossem acolhidas, orientadas e tivessem encaminhamentos eh relacionados a essas discriminações, ofensas que eles sofrem. Então, é um serviço que trabalha eh fazendo o acolhimento eh dessas denúncias dessas pessoas, o encaminhamento, o referenciamento, eh orientação para as medidas. E o meu trabalho como eh especialista em relações sociais, né, eh advogado formado em direito, eh sempre foi muito mais centrado no aspecto jurídico dessas orientações. Mas como a gente tá falando de um serviço que nunca teve uma equipe completa, é um lugar onde todo mundo faz tudo, né? Não tem. Então, a parte eh faço orientações, faço, mas durante esse período todo dessa trajetória já fiz após aprender, né, após eh seguir muito a Jaqueline, eh passei a fazer formações também antiracistas. eh os procedimentos de heteroidenticação acabaram, né, eh ficando essa gestão administrativa a cargo do Centro de Referência. Então, toda preparação de documentos, organização das bancas, acompanhamento do trabalhos, né, a gente fez durante muito tempo e ainda estamos fazendo, né? Eh, acredito que no próximo período talvez essa demanda seja encaminhada. Eh, e o serviço também tem um trabalho muito grande relacionado a ao pilar educativo. Então, estar em diferentes locais e fazendo formações antiracista, antirracistas, interagindo com a comunidade. Hoje mesmo estive presente numa reunião intersetorial lá da região norte, a intersetorial Sol, que a gente tem que est próximo de quem trabalha na base, porque eles sabem onde os casos de racismo estão acontecendo. Então, a gente precisa construir essa relação com esses trabalhadores que não são só da rede municipal, mas também são, para que eles nos ajudem nessa missão que é meio que uma tarefa impossível, que uma equipe de agora ainda bem, né, estamos conseguindo recompor. Temos três pessoas trabalhando lá no centro indiferência comigo e mas a gente não vai dar conta de uma cidade com 1.200.000 habitantes. Então, a gente tem que se aproximar da rede que a gente tem, colaborar com essas pessoas, orientar para que elas colaborem com o nosso trabalho. Perfeito. Você trouxe aí um elemento na sua fala eh relacionado às políticas afirmativas do município, né? Eh, para aqueles que, né, estão em casa e não conhecem, eh, as bancas deidentificação, a, a as quais a nossa convidada faz referência, é o momento em que as pessoas que se inscrevem, né, pelas cotas, né, do serviço público, eh, que nós chamamos de PPP, né, essas pessoas precisam comprovar que efetivamente fazem parte, né, deste segmento da população, de pessoas pretas e pardas e que, né, concorreram, estão concorrendo no concurso público eh eh por esse mecanismo, né? Essas são as bancas de de heteroidentificação. Eu tenho também o prazer de participar desse movimento já há bastante tempo. Então é algo muito importante, porque nós estamos falando de uma política afirmativa que garante o acesso daqueles que historicamente, né, tiveram negado em sua maioria esse acesso, né, Cosmo, agora com você, como é que é o seu trabalho lá no DPSS? Eh, lembrando também que nós estamos falando aqui, tanto no caso da nossa da nossa convidada, quanto agora do nosso convidado Cosmo, nós estamos falando de trabalhos que abarcam uma quantidade gigantesca de pessoas, né? O o DPSS, que é o serviço médico, né, de Campinas, ele tem a responsabilidade de acompanhar 16.000 servidores. E você, Cosmo, é uma das pessoas que está na liderança desse processo. Que que você faz lá no seu trabalho? como é que é o seu cotidiano? conta pra gente. Bom, eh, enquanto coordenador de relações do trabalho e acompanhamento social do servidor, eh, o, o meu papel ali é é estar à frente de dentro dessa coordenadoria, que ela é subdividida em dois setores. Então temos o setor de saúde ocupacional, né, que cuida da parte das avaliações clínicas, né, que vai desde o o exame admissional até o exame demissional, passando pelo exame periódico, exame de retorno ao trabalho. Então, eh eh é a vida, né, eh a saúde do servidor, é um acompanhamento de saúde e avaliações do potencial laboral dos servidores. é verificar a capacidade de desempenho de trabalho dele. Verificar isso, verificar a capacidade de desempenho do servidor. E o outro setor é o setor de de relações do trabalho, é onde hoje nós temos uma equipe multidisciplinar composta por eh terapeuta ocupacional, assistente social, psicólogos, eh administrativo e que tem, né, sobre a responsabilidade dessa equipe, alguns programas importantíssimos para este acompanhamento de saúde, né? E essa importância se dá, porque nós temos uma história aí da saúde que outrora se eh eh se valorizava muito a questão do médico centrado, né? E nós sabemos que o servidor e as pessoas não devem ser tratadas somente com o número, né? Então assim, para qualificar, melhorar esse atendimento, acho importantíssimo, primordial o o trabalho do médico. Mas quando nós vamos para para um processo de trabalho onde o médico está clinicamente avaliando um servidor ou um paciente, você tem ali a pauta que se resume ao que a pessoa traz ali no consultório, né? E nós sabemos que o contexto de vida da pessoa também é um fator que influencia na sua saúde física ou mental. Então, poder dividir essa avaliação entre médico com a parte clínica, fazendo ali a anamnese, fazendo ali o exame clínico e uma equipe multidisciplinar, onde o assistente social, terapeuta ocupacional, psicólogo pode avançar um pouco mais no contexto de vida. Então, traz, né, qualifica, traz uma qualidade, traz eh informações eh que servem como subsídios para trazer clareza a real situação do servidor. Por quê? Por causa desse impacto que ele tem na sua vida social, né? Eh, eh, o ele e nós frequentamos igrejas, pares, clubes, eh a nossa história de vida, a nossa cultura. E muitas vezes isso não chega porque o o servidor ou o paciente, ele no consultório, ele só vai falar da sua dor, do que que ele está sentindo. Mas o que vem atrás dessa dor? Este é o papel da equipe multi, né, que através de atendimentos, eh, como o programa, eh, de atendimento à saúde psicossocial, tem uma avaliação um pouco mais extensa que vai além somente da questão da dor, né? Mas o que provoca essa dor, qual que é esta causa? As e muitas vezes não é um acometimento físico, é uma questão de um problema familiar, né? é um pai desempregado, um marido desempregado, um filho desenganado. Então, eh, e o o o meu objetivo ali, né, eh, trazendo considerações a à minha vivência também, é de, eh, humanizar, não estou dizendo que nunca foi humanizado, mas olhar para o servidor, né, eh, como uma pessoa completa e complexa. Perfeito, né? Porque se nós nos depararmos somente com normativas e regras, têm que ser cumpridas, mas os fatores, né, essas tempestades do contexto de vida que tá está trazendo interferência, quando você humaniza essa coisa, quando você dá voz, poder de fala pro servidor, né, e ele poder trazer informações que vai clarear, né, o parecer médico ou entendimento da equipe multidisciplinar. Isto é humanizar. Então o o objetivo é este, trazer humanização nos atendimentos. Que coisa bonita, hein, CMO? Muito, muito bom. Nós estamos falando de uma política de cuidado, né? Quando você traz essa questão da humanização, isso uma política de cuidado, né? E lembrando sempre que eh essas pessoas das quais nós estamos falando, né? são as pessoas que atendem você que tá nos ouvindo, que atende você que que está nos assistindo, que estão lá nos postos de saúde, que estão nas escolas, que estão no trânsito, que estão em todos os lugares. O serviço público se faz presente em todos os lugares, de ponta a ponta. Então, quando a gente cuida da saúde, incluindo a saúde mental dessas pessoas, a gente tá qualificando o trabalho, não é, Cosmo? a gente tá qualificando, a gente tá dando condições para que esse servidor atenda bem a população, né? Da mesma forma que uma pessoa quando é um servidor ou qualquer outro, né, munícipe, mas em especial o servidor é acolhido no centro de referência, né, por uma situação de racismo, né, e ele consegue sair dali minimamente, né, amparado, isso vai impactar enormemente naquilo que ele vai fazer lá na ponta, que é o serviço dele. Bom, gente, mas assim, existem coisas que e nós, que somos pessoas negras, sabemos com muita propriedade, né? E as outras pessoas também, mesmo os não negros também sabem, é que o racismo se manifesta de formas múltiplas, né? Cruéis, cruéis e cruéis, né? E a gente tem, já que nós estamos falando de trajetória profissional, estamos falando aqui de trabalho, a gente precisa falar sobre o racismo institucional, né? O racismo institucional é aquele que se dá, né, no nosso contexto de trabalho. Vocês sentem, vocês percebem, vocês eh eh eh enxergam que na trajetória profissional de vocês, em algum momento, vocês foram impactados pelo racismo institucional. Que que você acha, Lisângela? Eu acredito que sim. Eh, assim, vamos pegar aí um exemplo eh da minha vida, talvez. Eh, eu acredito que entre as pessoas que eu trabalho, a minha competência é absolutamente reconhecida. Assim, eu tenho certeza que eu sou vista como uma pessoa extremamente competente, mas quando eu olho no panorama do serviço público, eu não vejo mulheres negras em posições de de poder e eu não vejo como eu possa me referenciar. por exemplo, eh, a minha aceção para um cargo de chefia se deu a partir de uma nova oportunidade paraa minha gestora anterior, que era uma pessoa negra, mas eh eu se fosse essa mudança, essa nova oportunidade para ela, eu não vejo que eu teria horizonte dentro da assim da municipalidade, né, do serviço público, de ter a minha competência reconhecida para para eventualmente asender em outro local. Eu então eu acredito que essa questão do não olhar pras pessoas negras, principalmente acredito que pras mulheres negras em num maior impacto, né? Porque conforme a gente a gente sabe que as mulheres são a maior parte dos servidores públicos, mas quando a gente vai subindo, conforme sobe, as mulheres estão cada vez menos ocupando posições de gestão. E pros homens negros, acredito que isso impacta, mas pras mulheres negras de uma forma eh muito gritante. Sim, né? E uma coisa que a gente deve considerar também, eh, quando você tem, quando você traz essa questão, né, do racismo institucional envolvendo os negros, né, as mulheres são mais impactadas. Isso sem dúvida, né? E quando você pega, né, ali eh eh exclusivamente o segmento das mulheres que estão nessas posições, a maioria delas não são negras, né? A maioria delas são brancas, né? A mulher, de uma maneira em geral, seja a mulher negra ou a mulher branca, já tem dificuldade de ascender a esses postos de liderança, de comando, de decisão. E dentro desse universo, as mulheres negras têm mais dificuldades ainda. Você entende assim também? Você enxerga isso que de fato e eh a a a há diferenças no tratamento, nas expectativas e no reconhecimento das servidoras mulheres? Com certeza, né? Porque até por pelo estereótipo, né? A mulher negra é raivosa porque reclama e eh não é, né? É colocada como se fosse. E essa esse olhar que é voltado pra gente, eu acredito que é diferente, sim. E o teste do pescoço, né? Olhar em volta faz a a gente perceber. é que eu trabalho numa área especificamente negra, porque até porque não teria muito como área de promoção da igualdade racial, mas se a gente sai disso, as assim, cada vez cada patamar, cada degrauzinho que a gente sobe no âmbito da administração, a gente vai percebendo, né, que as mulheres negras não estão ali. Olha a foto do secretariado, né? Sim, temos somente uma mulher negra, secretária a primeira, né? Uhum. a primeira mulher negra, secretária, né, do município, no município de Campinas, se eu não me engano. Então é visual, é visual, essa é visual, a gente consegue perceber visualmente, como eu disse na introdução, né, aqui da nossa da nossa conversa, eh eh olhar para essas questões é urgente, é necessário e urgente, né? Eh, por mais que o município tenha políticas afirmativas e a gente esteja avançando nesse sentido, ainda há muito que se fazer. Há muito que se fazer, pensando que eh eh para você fazer política pública para um segmento determinado, você precisa ter pessoas daquele segmento, porque são aquelas pessoas que sabem da sua realidade, que sabem das suas necessidades, né? E como nós, né, dizemos nos nossos movimentos, nada sobre nós sem nós, certo? Nada sobre nós, sem nós. Nada sobre nós, sem nós. É simples assim, Cosmo, você que é um um profissional da saúde, né, e também a gente já conversou bastante, né, anteriormente sobre isso. Eu sei que você também faz essa leitura, né, da dificuldade do reconhecimento, por mais que se faça, né, da dificuldade do reconhecimento de quem está no entorno, né, como é que isso impacta a motivação, a saúde mental e as possibilidades de ascensão das pessoas. Eh, antes de mais nada, Elisâela, Daniel, eu acho que é importante eh ressaltar que a população negra, o negro, e ele já traz consigo, né, pelo menos eu vejo muito isso, né, até por situações que eu passei de que parece que é preciso que a gente grite mais alto, de que a gente se imponha para eh para para ser ouvido, né? Ei, estou aqui, eu existo, eu sou uma pessoa, né? Porque é triste, como eu te disse na conversa de ontem, né? É muito triste eh ter a percepção que antes de uma pessoa se chega o tom da pele, se chega a cor da pele. E se a gente considerar que é histórico que o negro eh tem essa falta de acesso a a uma boa educação, porque isso é história, né? Então isso contribui para esse racismo estrutural. Eu já ouvi no meu no meu ambiente de trabalho lá no início eh eh da minha vida profissional enquanto gestor, que talvez pessoas que ocupam cargo de ensino superior teriam dificuldades a responder para mim. Eu já ouvi que pessoas eh eh que são que tem escolaridade de ensino médio abaixo disso, que não tem capacidade de pensar, de resolver problemas e assim que bom, né, que a secretária traz essa essa luta que é dela e que nos alcança, né, enquanto população negra, porque, infelizmente, estamos no ano de 2025 cinco e ainda nós enfrentamos eh eh falas como esta, né? Ou seja, a a minha capacidade, ela é medida pela minha cor, pelo meu tro de pele, mas sim, tem nós temos enfrentamentos diários, né, que como a Elisângela também reconheço como ela reconhece que eh eh hoje no serviço que eu estou, né, e eu sei que há um reconhecimento, que há uma valorização do meu serviço, mas isso conquistado a a uma postura às vezes eh enxergada como de ignorante, de que a pessoa que briga, que é a pessoa que que tem que falar mais alto. Mas eu tinha não falar mais alto no gritar, mas eu tinha muitas vezes em que ter uma postura para que eu fosse notado, para que eu estava ali, né? Reconhecido enquanto chefia. Reconhecido enquanto chefia. Eu eu consegui vencer uma barreira até pouco tempo de me apresentar como técnico em enfermagem, né? E isso tá ligado. Ah, mas é, a gente tá falando aqui da questão do do do racismo, mas essa falta de acesso ao a a ao ensino, né, de qualidade é história também. Então, tá ligado, tá entrelaçado ali, né? Então, porque é a mulher, é o negro, é o nordestino, é o ensino médio e por aí vai. Então, quando eu digo gritar, é o gritar de posturas eh eh às vezes necessárias para ser notado. Sim. Eh, todos nós desenvolvemos estratégias, né? nós desenvolvemos estratégias por eh a ascensão profissional e nós estamos falando, né, na estrutura do serviço público, nós acendemos via concurso público nos nossos cargos e a partir dali o nosso trabalho vai mostrando quem nós somos, né? E se as oportunidades chegam, como chegou para vocês dois, né, de ocuparem postos de decisão, postos de liderança, é porque a vocês mostraram competência, né? Isso não não há dúvida. No entanto, é é importante que se destaque isso que os nossos convidados trazem, né? Para muitas pessoas é difícil reconhecer isso, né? É difícil admitir, né? E isso tá, né? Ali, nossa, é muito mais difícil. uma pessoa, eu vejo, com muito menos tempo de serviço público do que eu, uma pessoa branca, dependendo da situação, teve possibilidade de acender muito mais rápido. No meu caso, demorou 9 anos. Sim. Eu com a com a mesma competência e outra eh cuts, né? outro outro fenótipo, ou talvez se falasse de outro assunto que não incômoda o racismo, também tem isso sim teria tido possibilidades muito anteriores. Muito anteriores. Nós estamos falando do racismo estrutural, né? A gente tá falando daquilo que está aí, né? Eh, eh, incrustrado na na sociedade, né? Isso é muito sério e a gente precisa falar sobre isso. E uma coisa que é muito importante também que, né, os nossos ouvintes, aqueles que nos assistem tenham em mente que eh eh nós temos uma necessidade muito grande de investir no nosso letramento racial, né? Porque se nós trazemos esses elementos que estamos trazendo aqui, é porque a gente consegue enxergar, detectar, porque nem sempre as pessoas consegue enxergar, né, que as suas dificuldades de ascensão estão relacionadas à cor da pele, né? Mas a gente sabe que sim. Bom, mas eh vamos voltar a falar um pouquinho, Elisângela, de políticas afirmativas, né? você mencionou a questão das bancas deoidentificação. Eu comentei também sobre as cotas nos concursos públicos, eh, que vem passando por mudanças, por evoluções e tal. Eh, você entende ou você já consegue enxergar o impacto que essas políticas afirmativas, que o sistema de cotas, né, que que permite que pessoas negras acessem o serviço público por por vias diferenciadas, né, você já consegue enxergar um impacto disso no serviço público? Com certeza. Eh, assim, acho que bem ilustrativo também disso é a educação, a parte de gestores que nos últimos anos, a partir dos últimos concursos públicos com a Sobé da Lei de Cotas, a o perfil de coordenadores, de diretores, de vice-diretores na educação, teve um incremento de pessoas negras imenso, né? Eu na assistência, que é a secretaria à qual eu sou vinculada, não percebo eh tanto isso ainda. Recentemente a gente eh o a conversa foi sobre psicólogos negros e enquanto essa é uma profissão elitizada e quanto não temos eh psicólogos negros eh na administração, né, em geral, que é um eh os profissionais negros são assim pontualíssimos. a dificuldade que a gente teve de identificar uma psicóloga negra para poder compor a equipe do centro de referência. Agora conseguimos, tá? Lá chegou recentemente. Então eu acredito que eh a gente já tem reflexos principalmente nos cargos agente de educação infantil, eh no professorado, assim, tem um tem uma grande mudança já. Eh, em algumas profissões a gente não conseguiu ainda mudar, tanto porque não teve concurso quanto médico. É muito difícil. Aí a gente identifica que por as cotas eh nos concursos não são suficientes, né? Porque a gente ainda tem uma etapa anterior para para conquistar, que é a formação, né? Que é primeiro precisam se formar médicos negros, né? Termos que talvez seja o caso dos psicólogos também, né? ter eh uma massa de médicos negros que possam prestar o concurso e possam vir a participar. Então acho que em em menor a partir do dessa experiência junto às comissões deenticação e depois vendo o ingresso, acompanhando as convocações de cotistas, né, a gente vai a gente vai vendo. É fundamental a população, a surpresa de entrar no consultório e encontrar alguém com quem eh a gente vai se identificar numa comissão de teridentificação, conversando com um candidato que tava sendo avaliado. Aí ele, eu moro na Vila Formosa, que é uma região periférica aqui de Campinas. Falei, poxa, um médico que mora na Vila Formosa, que é conhece a realidade, a vivência daquelas pessoas. Faz toda a diferença, né, Elisâ? diferença. Eu acredito que num assim que já tem eh resultados muito significativos, mas em 10 anos a gente vai ter uma administração eh completamente transformada. Que eu tenho esperança de que temos esperançaros lá. Esperança. Ô Cosmo, no teu caso, eh eh todos os servidores, né, que chegam no município passam lá pelo seu departamento, né? E você já percebe esse processo de eh aumento, né, de servidores negros no município por conta das políticas afirmativas? Percebo. E o que é mais legal eh eh dentro das políticas afirmativas, este processo de heteroidentificação, é que paraa vaga da cota da pessoa preta ou parda, a ocupação será para uma pessoa preta. O parda, porque é um processo real, né, de identificar e consequentemente a o o o aumento dessas classes, né, dessas minorias. Aí quando um médico negro que mora lá na periferia e e tá ali no consultório, tá atendendo eh o seja o servidor público ou seja a população, com certeza por ter a vivência, por saber das dificuldades, isso qualifica muito, né, na questão do atendimento humanizado, do entendimento do contexto de vida daquela pessoa que ele está atendendo. Então assim, a gente vê que e este processo, o processo da heteroidentificação, ele expande. Não é só a questão de de dar a vaga para a pessoa para a pessoa preta ou parda, mas também de qualificar, né, o o tipo de atendimento, de trazer um atendimento humanizado, um atendimento com clareza daquilo que o o munícipe traz quando ele fala da sua dor, quando ele fala da dificuldade de acesso. Então, a gente tem vários ganhos em processos como estes. Que bom, que bom. e nós termos pessoas negras, né, nestes postos, né, de que exigem uma escolaridade, uma formação maior, né, por exemplo, eh servem de criação de identidade, né, criação de mecanismos de identidade, de reconhecimento, né, entãoentatividade, representatividade, né, você falou da da questão da educação, né, vamos falar dos dos diretores de escola, né? Quando você tem numa equipe gestora um diretor de escola negro, ele por si só, além do trabalho que ele desenvolve, ele serve de reconhecimento, né, de uma forma das pessoas, das crianças, dos jovens olharem e dizer: "Olha, existe possibilidade, né, de eu ocupar uma posição importante, né?" Então você cria referências, né? Nas escolas nós fazemos um trabalho muito importante nesse sentido, né, de mostrar as referências. Por quê? As referências que sempre foram mostradas para as pessoas negras não são referências completas, não são referências referências gerais. A gente muitas vezes as referências dos bem-sucedidos, né, do nosso povo é o jogador de futebol, é o é o é o sambista, é o funqueiro, né? Não que isso não seja legal, muito bacana, mas a gente a gente pode mais, a gente tem que criar outras referências. Então vocês estão dizendo, né, que eh eh nós temos uma política pública que traz um efeito que provoca um efeito importante, que já está impactando, né, que trazem resultados no atendimento ao público, a políticas setoriais, a cultura institucional, né? É disso que nós estávamos falando. Bom, eh, quando a gente olha, né, se a gente for fazer um um um panorama, né, daqui 10 anos, você mencionou isso agora a pouco, né, como é que vocês gostariam que a a administração municipal de Campinas em termos de representatividade, em cargos de lideranças estivesse? Que que você gostaria, Elisângela? Que que que você vislumbra? [risadas] O que eu gostaria é que tivesse prefeito negro, né? Eu gostaria que tivesse pelo menos eh aí Camp, vamos falar na expectativa de Campinas e não Brasil. Campinas tem por volta de 40% de população autodeclarada negra, né? Um pouco melhor, um pouco menor do que o quadro nacional. Então, se a gente tivesse 40% de chefias negras, 40% de vereadores negros, eu acho que ver a população negra adequadamente representada nos quadros públicos em geral, mas sobretudo nos cargos de de gestão, né? Porque quem decide, quem tem a caneta é quem eh orienta os rumos, né? E esses rumos orientados a partir de uma perspectiva eh afrorreferenciada que contemple diversidade é diferente. Então eu o meu sonho é esse, que a gente esteja eh representado adequadamente nessas posições. Nós estamos falando de proporcionalidade. Isso. E estamos falando de oportunidades, né? Simples assim, diferente do do modo como foi feito com a gente, né? Sim. Eh, ou seja, o discurso eh, assim, a nossa a nossa defesa não é de poder eh para as pessoas negras, acima de tudo, é de divisão de desse poder equitativamente eh entre os grupos eh representativos da nossa população, né? E nós temos a a a considerar também eh o seguinte aspecto. Eh eh eu faço sempre uma analogia para que as pessoas entendam bem do que que nós estamos falando, né? Eh, seria o mesmo que você, por exemplo, eh montar uma equipe para tratar de assuntos ligados à saúde da mulher só com profissionais homens? Como que você trata da saúde da mulher ou como que você desenvolve uma política pública para as mulheres sem mulheres? Como é que você desenvolve uma política pública para pessoas negras sem pessoas negras? Por quê? Quando você tem, né, eh, eh, eh, as lideranças do município, as lideranças de qualquer lugar que não tem sua composição pessoas negras, que não têm sua composição pessoas mulheres, por exemplo, né, essa política não é efetiva, né, ela não cumpre o seu papel, né, porque ela tá sendo feita por pessoas que não têm o olhar daquele segmento, né? Então, eh eh eh as políticas afirmativas que vem se desenvolvendo, que vem passando por mudanças, né? Como, por exemplo, agora a a legislação federal trouxe uma alteração, né, Elisângela, na na lei de cotas, ampliando de 20 para 30% a porcentagem, né, de vagas reservadas nos concursos públicos, né, isso não é sem uma razão muito séria, muito importante, né? a gente precisa garantir que mais pessoas negras cheguem no serviço público, cheguem nas universidades para que efetivamente haja representatividade, que é o que nós não temos hoje, né? Eu convido os nossos ouvintes, aqueles que nos assistem, a fazerem uma pesquisa simples na internet para entender esses números, para entender essas discrepâncias, né? Porque além daquilo que nós estamos falando aqui, é muito simples de se fazer essa eh de se ter esse entendimento, tá bom? Eh, Cosmo, acredito que você pense, né? O que que você vislumbra para que para daqui 10 anos? Do mesmo modo que a Elisângela falou, que haja um aumento significativo, né? Porque eh nada dele, nada de nós sem nós nada de nós sem nós. É isso que é o que você também traz nas suas palavras. Eh eh eh falar da saúde do do negro, da problemática da saúde do do negro, sem discutir isso com o negro, né, perde a a talvez a eficiência, né? você vai talvez constituir processos e programas [limpando a garganta] que não tenham de verdade a cara, né, a característica necessária para ter. Por quê? Precisa se ouvir para se falar do racismo, né? É preciso ouvir quem já experimentou essa amarga, né, situação, né? Porque daí você tem alguém que vai falar com muita propriedade. É diferente de só expressar, porque eu também percebo que tem muito a onda do que hoje é legal se dizer, não. Hoje é legal, né, se propagar o antiracismo. Mas falas de pessoas que nunca viveram e que às vezes quando tem a oportunidade de combater o racismo, não combatem. Então, é preciso que se aumente esse número de gestores negros para que isso não morra, né? Para que todo este trabalho que vem sendo desenvolvido não não pereça no meio do caminho. Então, sim, prefeito negro, vereadores negros e o maior números, coordenadores, chefes de setor, né? Negros e negras. Negros negras e negras. Exato. Porque tem ali uma população grande, né, que precisa dessa referência, precisa dessa representatividade, tá certo? Bom, vocês foram convidados para para esse encontro, para esse podcast, para esse bate-papo, porque vocês são servidores públicos que em sua trajetória alçaram cargos importantes, posições importantes no serviço público, posições de liderança, né? Sendo assim, vocês são inspiração, né? Esse é o nosso objetivo aqui, né? Fazer mostrar que nós temos lideranças negras, né? e que basta nos dar oportunidade. E aí eu pergunto para você, Elisângela, eh eh ao longo, né, tendo em vista a sua trajetória, que conselhos você daria para esses servidores negros que estão chegando, né, na nossa prefeitura, que tão que estão acessando o serviço público via eh concursos públicos? Que conselho que você daria para essas pessoas que desejam crescer na carreira? Acho que o principal é qualificação, né? Não parar de estudar, não se acomodar, né? Porque a gente tem muito essa esse essa construção de que servidor público é acomodado, né? Que chega e depois não quer mais fazer nada, conquista estabilidade e e não é assim, né? Não tem que ser assim por nós, né? porque somos seres humanos e precisamos evoluir e só o conhecimento é capaz de de construir muitas eh muitas evoluções para pra nossa vida. Então, acho que eu acho não deixar de estudar é o principal e ao mesmo tempo também eh se articular, né? Principalmente no nosso caso, eh, estar junto de pessoas negras, né? dos de quem é o aclombamento, né? Unir forças, né? Unir forças, eh, trocar, mas não só com pessoas negras, não. Eh, tentar formar redes no serviço público, não ficar restrito à sua área onde você atua. Eh, eu acho que isso é muito importante, conhecer como a administração funciona de forma geral, ter contatos, ter amizades, ter referências em outros locais para falar: "Olha, preciso de tal coisa". Quem não sei, quem sabe ter alguém que a gente conheça para para perguntar, né? Então, ter interesse por aquilo que a Prefeitura de Campinas faz de forma geral, né? não não se alienar ali na no nosso cantinho, no nosso mundinho. Eu acho que é isso. E dizer também, né, Elisângela, que assim eh eh a as oportunidades estão aí, elas demoraram para chegar, eh não chegaram ainda na medida que nós entendemos que são necessárias, mas existem algumas oportunidades, né, e é importante que a gente esteja atento a isso, né? você bem mencionou, a formação de redes, né, redes de apoio, estar inserido, né, no meio daquilo para que, né, de repente as oportunidades que surgirem, que não são muitas, a gente possa acessar. E aí você me faz lembrar eh eh eu gostaria de comentar, né, do do programa de desenvolvimento de lideranças negras, né, que nós temos na nossa prefeitura municipal de Campinas, mais especificamente na Secretaria Municipal de Gestão de Pessoas, que é um programa que foi estabelecido em decreto, né, em em 2023 e que tem exatamente o propósito de eh capacitar, de oferecer oportunidade para que servidores do município possam alcançar postos de liderança, postos de decisão para fazer a diferença na constituição das políticas públicas, né? Então, há uma série de ações que estão sendo formatadas, que já são desenvolvidas e que estão sendo formatadas para isso. E como você disse, é importante que as pessoas estejam atentas a essa movimentação, né, para que as oportunidades que surgirem elas eh poderem alcançar. Cosmo, e o seu conselho, você tem uma trajetória de vida muito muito muito eh importante, como a gente já conversou, então você tem uma bagagem muito grande, né, para, né, dizer, para colocar para essa para esse pessoal novo que tá chegando aí no serviço público, qual que é o conselho que você dá? Sim, o sem até vocês falaram, né? Os dois trazem muita coisa que é o que estava passando pela minha cabeça, mas assim, considerando a trajetória e tal, eh, e sem querer romantizar, né? Eh, dizer que que é preciso persistência, né? Porque essa luta ela vai continuar. Eu acho que ainda existe muita coisa para ser construída, muita barreira para ser derrubada, né? Quando se fala de racismo, né? Quando se fala das minorias, mas também é importante frisar esses trabalhos, esses projetos que já estão em andamento, né? Não quero romantizar, dizer: "Olha, acontecerá para todo mundo." Não é isso também, mas é preciso dizer e afirmar que é possível, né? É possível, não é impossível, né? Munido de de todos de tudo isso que vocês trazem, né? como é procurar estudar, ter articulações, aproveitar as oportunidades que tem, mas não eh eh também não desfalecer diante das dificuldades, né? Porque as circunstâncias elas continuarão, porque é difícil mudar é muito difícil mudar uma situação é uma construção demorada. Então eu eu digo para o o os amigos, minhas amigas, os companheiros e os servidores e servidoras negras e negros que também ter persistência, se posicionar, né, mostrar a a que você veio, que você tem um valor, que você tem conhecimento, né, e que você pode, que você é capaz tanto quanto qualquer outra pessoa. Muito bom, Elisângela. Eh, eh, a gente tava, a gente comentou aqui, né, ou vocês estão dando conselhos aqui pros novos servidores, né, e a e a bagagem de vocês permite isso, né? Agora, o que que a gente poderia dizer, né, para aqueles servidores públicos que hoje ocupam, né, os cargos de alto escalão no município, né, como, por exemplo, o nosso prefeito, o nosso secretariado. O que que a gente poderia dizer para esses servidores, porque eles também são servidores públicos, né, que eles poderiam fazer para acelerar essa mudança? que políticas públicas ainda precisam eh chegar ou serem melhoradas para que essa mudança eh da da qual nós estamos falando eh efetivamente aconteça? Bom, eu obviamente, né, pensando de onde eu venho, vou ter que falar sobre as cotas nos pros cardos de gestão, né, que é que é algo que a gente discute ainda muito preliminarmente, né, que é uma é algo muito ousado, tem desafios inclusive de natureza legal para eh tentar propor, mas que os autogestores tenham atenção para isso, mas que mesmo diante da da falta de instituição regular, de uma política efetiva de cotas, que esses gestores eh se se letrem racialmente, que eu acho que é muito importante, já que não temos pessoas negras eh ocupando essas posições ainda, que a gente pretende também, mas que os brancos sejam parceiros. Os brancos parceiros são muito importantes, os não negros eh são muito importantes na luta antirracista, né? Então, que os gestores se preocupem com o próprio letramento e o letramento de suas equipes, que quando forem eh dar uma oportunidade de ascensão para alguém que tenham esse critério em mente. Olha, não existe uma política de cotas para cargo de gestão, mas vamos fazer o teste aqui, o panorama da minha equipe. Quantos gestores negros subordinados a mim eu tenho? Será que eu não posso olhar aqui então e dar essa oportunidade dessa vez para uma mulher negra, para um para um homem negro, para algum funcionário que eu tenho aqui capacitado? Será também que eu não posso ir pensando, olha, não vejo assim ninguém aqui, mas será que eu não posso eleger alguém que eu vejo potencial, mas que não tem ainda preparo e mentorar e orientar e incentivar para que quando eu tenha essa possibilidade que essa pessoa negra possa estar preparada para ocupar essas posições, eu acredito que, né, eu acho que letramento e de olhar sensível. Eu vejo esses esses dois elementos como fundamentais. Fundamentais. É. E que a cota não se limite ao ingresso, né? Somente ao ingresso. Isso. Mas as oportunidades depois da da vida deste servidor, né, durante o trajeto dele da prefeitura de Campinas, porque senão a gente perde a motivação, né? Aí o que vai acontecer? ou vai ficar aquele servidor da do estereótipo, né, desmotivado, ou a gente vai perder gente boa indo embora, como acontece muitos, né? E a gente não quer, a prefeitura de Campinas quer reter talentos, né? E para reter os talentos, as pessoas têm que vislumbrar oportunidades. E além disso, outra coisa que não é exatamente relacionada a questão étnicora-racial, mas é a uma atenção paraa qualidade de vida assim nos ambientes de trabalho, né? Como tá assim, o que que instrumentos, que subsídios e esses servidores estão tendo para exercer seus papéis? Como tá o acúmulo de trabalho? Diante desse acúmulo, o servidor, os servidores e servidoras têm possibilidade de qualificação, tem energia para depois que deixam seu local de trabalho, o eh além do cuidado com as suas famílias, terem esse cuidado de de se qualificar, de se dedicar a um curso de repente. Então eu acho que a olhar para como estão os nossos ambientes de trabalho também, esse cuidado, esse eh tentar promover, lógico, né? a gente tem dever o a a legalidade e os princípios todos nos impõem um procedimento muito rígido. Mas o que a gente pode fazer para tornar o labor do servidor do servidor mais leve, né? Mais feliz? O que a gente pode fazer da com aquilo? Lógico, né? O que deixa a gente feliz é dinheiro, mas reconhecimento, valorização profissional e financeira. Mas além disso, o que a gente pode promover de de melhorias nas relações de trabalho e em tantos outros aspectos para facilitar e fazer com que a gente trabalhe mais feliz de forma geral, não só os servidores negros, né? Perfeito. E e lembrando também a sua fala, Elisângela, e a do Cosmo, né? eh nos faz lembrar eh o papel da Secretaria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas nesse processo, né, pros nossos servidores, né, para as pessoas que estão em casa, que não têm conhecimento disso, as políticas públicas, né, ou melhor, as políticas afirmativas que existem do do município estão no escopo da secretaria de de de gestão, né? A gente tem também a secretaria de assistência que cuida, né, dessa parte relacionada às questões raciais. No entanto, a Secretaria de Gestão, ela cuida das políticas públicas que dizem respeito a ao acesso das pessoas ao serviço público, né? E nós temos políticas públicas importantes sendo acontecendo, né, nesse nesse movimento, né? Isso precisa ser reconhecido e valorizado. Nós queremos que isso aumente, que isso se aprimore, mas nós temos, lembrando que eh eh a política de cotas para acesso no serviço público não é universal no país, não é? Por mais que você tenha uma legislação federal, né, que diga, olha, né, o governo federal tem cotas, né, Campinas tem cotas, mas isso não é universalizado no país. A maior parte das cidades não tem não tem cotas para eh negros acessarem o serviço público do dos seus municípios, né? Então isso é algo que os gestores que estão aí à frente, né, as câmaras legislativas aí dos demais municípios precisam olhar para isso, né? Precisam olhar para isso. Bom, eh se você está nos ouvindo e é servidor negro, se inspire nessas trajetórias. Se você é gestor, governante, colega, estimule, apoie, crie espaços de crescimento. Quero agradecer imensamente a presença aqui da gestora do centro de referências, a Elisângela. Elisângela, muito obrigado. Eu que agradeço o convite. Já foi tão rápido. A gente gosta de falar, né? [risadas] Obrigada, Daniel. Pode contar sempre que precisar. E eh uma informaçãozinha importante aqui. Fala o endereço do centro de referência. Ah, lógico. [risadas] Avenida Francisco Glicério. A gente tá ali no centrão. Francisco Glicério, 1269, quarto andar. E além de tudo também quem eh tiver interesse, segue a gente no Instagram, né, @centroferência, porque a gente sempre posta informações úteis, eh eh algum conhecimento eh relevante, cursos, palestras, postamos a a palestra que você vai fazer lá na PUC, inclusive. Então, acompanha a gente, porque a gente sempre compartilha com a população essas notícias também. Perfeito. Agradecer imensamente a você, Cosmo, por ter tirado esse tempo para vir compartilhar sua trajetória inspiradora, né? Muito obrigado, né, pela tua presença, pela tua contribuição. Tenha certeza que você é realmente uma inspiração para muitos de nós, tá? E também, né, vamos dar uma essa essa esse essa informação técnica aí. Qual que é o endereço lá do departamento do do DPSS? Ah, sim. Eh, rua José Paulino, 1399, né? Hoje o DPSS atende em dois andares hoje, né? Ali no edifício Arcadas, no quinto andar, né? Tem o a parte de saúde ocupacional e no sexto andar tem os outros demais setores, né? como a o a Coordenadoria de Qualidade de Vida no trabalho, a Coordenadoria de de Relações do Trabalho, o setor de relações do trabalho e o setor de segurança do trabalho. Mas eu também quero agradecer essa oportunidade de estar com pessoas especiais, né? Agradecer logicamente a, eu sei porque isso é tudo muito fruto do que se iniciou pela nossa secretária Eliane Joseline, né? E é muito bom ter pessoas como você, Daniel, que tem essas iniciativas, né? Porque nós precisamos ter vozes mesmo, vozes negras de Campinas, eu acho que é uma coisa que veio e que tem que ficar, que tem que ser fincar a raiz, porque essa semente que nasce hoje aqui, ela renderá frutos com certeza, porque também isso é o nosso objetivo, né? é falar da nossa luta para que e elas inspirem outras pessoas e que permaneçam ali firme. É difícil, né? Não é fácil a luta, mas precisamos ter nossas vozes aí eh que o mundo nos ouça, expandidas. Exato. Muito bem. É isso. Obrigado. Quero agradecer também a você que tá nos ouvindo ou nos assistindo. Quero agradecer a toda a equipe de produção que tá aqui na nossa frente. Vocês não estão vendo, mas tem uma galera aqui na nossa frente, né, que está junto com a gente produzindo esse programa que tá chegando até você, né? É um trabalho a muitas mãos. Quero agradecer também, né, a Diretoria de Apoio à Gestão e Desenvolvimento de Projetos, que é o espaço no qual eu atuo, né, pelo apoio de todos os servidores que lá eh eh trabalham e propiciaram, contribuíram para que esse momento acontecesse, né, aos profissionais da Secretaria de de Gestão de Pessoas, em especial a nossa secretária Eliane Joseline, que como mulher negra, consciente de todas as necessidades, né, que nós descrevemos aqui, nos cria condições de fazer esse trabalho que nós estamos fazendo aqui, tá? e agradecer também e muito especialmente a Câmara Municipal de Campinas, a Casa do Povo, que é nossa parceira nesse projeto, que é nossa incentivadora, nossa a nossa apoiadora eh eh nesse projeto que está nascendo hoje e que certamente renderá muitos frutos. Um abraço a todos e a todas e até a próxima. [música] [música] [música] [música]