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Olá, [música] [música] [música] bem-vindas e bem-vindos a mais um episódio da primeira temporada do Vozes Negras de Campinas. Este projeto se insere no contexto do programa de desenvolvimento de lideranças negras, iniciativa da Secretaria de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas da Prefeitura Municipal de Campinas, em parceria com a Câmara Municipal, a Casa do Povo, criada para fortalecer a representatividade negra na administração pública e promover equidade racial por meio de formação, visibilidade e ascensão profissional. Antes de prosseguirmos, farei a minha audiodescrição. Eu sou um homem de pele preta, uso o cabelo bem curto, raspado. Hoje eu estou usando uma camisa social azul clara e uma calça jeans azul escura. Bom, hoje nós temos aqui conosco a Dra. Eliane Joseline Pereira, secretária municipal de Gestão e Desenvolvimento de Pessoas. servidora pública desde 1998, uma das mais importantes lideranças negras na gestão pública campineira. Secretária, seja muito bem-vinda. Obrigada, Daniel. Prazer enorme táar aqui. Muito obrigada pelo convite. Tô honrada de participar aqui dessa edição do Vozes Negra de Campinas. agradecendo a você pelo convite, à Câmara, né, dos vereadores, que está nos proporcionando aí essa possibilidade de projetar tantas vozes importantes aqui. E aí aproveito também, né, para fazer a minha audescrição. Então, sou uma mulher preta. Eh, hoje eu tô aqui com o cabelo meio solto, meio preso aqui. Meus cabelos são cacheados. É, eu tô com uma uma blusa salmão, não é? Acho que o salmão aqui acho que cabe bem, né? sobreposta por uma camisa social branca com alguns acessórios aqui prata para dar uma um glow up aqui na pele. Bom demais. Bom demais. Secretária Eliane, para começar quero conhecer um pouquinho das suas origens, né? um pouquinho das suas origens, de onde vem Eliane Joseline e como é que você se inspirou para se tornar uma servidora pública. Bom, Daniel, eh acho que essa é a parte fundamental de toda a minha história e trajetória, né? Eu sou nascida e criada aqui em Campinas, adoro a nossa cidade, né? Eh, tenho muitas pessoas na minha família aqui, muito embora meus familiares sejam de lins, a gente fala que é local incerto e não sabido. [risadas] Brincadeira. É uma cidade aqui, né, do interior de São Paulo, muito gostosa também. Mas todos migraram lá na década de 70, 80 e 90 para o município de Campinas. Eu fui criada a princípio no bairro da Boa Vista até mais ou menos uns 5 anos de idade, até o momento que os meus pais conquistaram a primeira casa. ainda na década de 80 e nós nos mudamos paraa região do Ouro Verde, pro Dick 4, local onde eu fiquei até muito recentemente, né, entre idas e vindas eh eh morando com os meus pais, né? Eh, e aí assim, da onde vem a paixão, né, pelo serviço público? Minha mãe era servidora pública de carreira da Unicamp. Eh, minhas tias, por parte de mãe e também por parte de pai, eram servidoras públicas também na Unicamp, em locais distintos. Tenho tios também, servidores públicos municipais. Então, tá no sangue da família essa conexão com o serviço público. Eu acho que isso me inspirou muito, porque desde criança eu já via esse era um locus de muita importância, né? tanto social para nós, pessoas pretas ali, que era uma oportunidade de ascensão, né? Eh, e também como uma referência mesmo, porque eu os ouvia dizer o quanto que esse espaço ele era importante, né, paraa promoção de tantas coisas do serviço público. Então, isso me inspirou a quando eu fiz 18 aninhos, escolher também o serviço público, que eu amo, que eu adoro. Eu assim adoro ser servidora pública. Que maravilha. Essa seria a minha próxima pergunta, né? as suas referências e você traz, né, os membros da sua família como sendo suas referências, como sendo suas inspirações e eh você é uma militante do serviço público, né, e uma militante da igualdade racial. Então, essas pessoas também te influenciaram nesses aspectos da sua trajetória. É, eu a citei, eu acho que agora dá para dizer um pouco mais porque eu a citei, principalmente a minha mãe, né? Porque assim, eu falei aqui de migração, acho que muitos de nós, né, eh, pessoas que pertencem a a as classes sociais mais pobres e também pertencem à população negra, vivemos situações semelhantes nas nossas famílias, né, muitos vindo de zonas rurais, de interior ou de outros estados do país. É, mas com uma referência de muita dificuldade de acesso, né, à educação, com muita dificuldade de acesso às aos benefícios sociais, né, ainda hoje, mas principalmente naquela época. E para mim aquilo foi uma inspiração, meus pais e minha mãe é uma inspiração. Primeiro pela crença que ela sempre teve na educação, né? A minha mãe é um dos destaques da família, né? Foi a que mais chegou longe nos estudos, é a que mais conquistou dentro do serviço público, inclusive. Eh, e o que ela conseguiu fazer para mim, pra família e pra comunidade que a gente vivia, para mim essa foi uma verdadeira inspiração, né, que quando a gente não é só a gente conseguir conquistar algum espaço, né, mas a gente poder replicar aquela nossa eh aquele benefício que a gente recebeu em algo positivo. Então, os estudos, né, foram uma diretriz muito importante para mim, que a minha mãe me deu. sempre falo isso, eu gosto sempre de destacar porque é o é o maior o maior legado que ela me deixou é o incentivo paraa educação, mas principalmente a forma como ela vivia o serviço público. Minha mãe era muito diferenciada, assim, eu sei que existem muitos servidores assim. Não é só porque minha mãe não, porque eu tenho outras pessoas que com certeza dirão a mesma coisa, mas a forma como ela vivenciava o servir desde quando eu me entendo por gente, eu acho que é cravou essa sementinha que me fez aí atuar de uma forma tão ativa hoje no serviço público. Maravilha. eh a atuação da sua mãe, né, e dos seus materializam aquele mantra, né, que os nossos passos vêm de longe. Exatamente. Acho que é bem isso. Bom, mas nós estamos falando da sua influência pessoal, né, dos seus familiares e das pessoas que te inspiraram. Agora, em relação à sua formação, você é formado em direito e se especializou em liderança executiva. Essa formação acadêmica, como é que ela te influencia nesse seu caminho aí na gestão pública? Muito embora, Daniel, eu tenha um grande relacionamento com arte [risadas] e o meu relacionamento com a arte é bem profundo, intenso. Uhum. Eh, mas na época da adolescência eu achava que eu já tava de bom tamanho, que eu sabia com relação à arte, mas eu queria alguma profissão que de fato viabilizasse alguma chance de eu contribuir para mudanças que eu visse que que eu via que eram necessárias. E para mim o direito ele ele era completo nesse sentido, né? Primeiro porque promovia, né, a justiça, a tão falada e necessária justiça. Segundo porque ele era um ele é um canal, né, acho que político institucional importante também pro conhecimento, né, e segundo porque ele me dava essa conexão com os direitos humanos. [risadas] Então eu escolhi fazer direito, né, escolhi me formar em direito. Depois eu fui buscar especializações para direitos humanos. Então, fui me aproximando do que hoje, né, seria a minha atuação maior. E dentro disso, com conectando com a minha vida pessoal também e a minha própria vivência relacionada ao direitos das crianças e adolescente na minha vida pessoal, eu também fui estudar as questões relacionadas aos direitos de criança, adolescentes, jovens e especialmente primeira infância. E aí também veio a oportunidade, somando com as questões de liderança, somando com as questões de gestão pública, cursar aí, né, uma liderança executiva fora do país. Perfeito. Perfeito. Você acha que esse seu lado eh aflorado pra arte influencia na forma como você faz a gestão na pasta que você comanda? Porque na pasta, né, da Secretaria de Gestão, um destaque é o cuidado do servidor, né? Será que esse olhar artístico tem, influencia nesse seu caminho? Eu não tenho dúvida, Daniel, porque eu falo que assim, eh, na gestão, eu falo, a minha gestão e a minha proposta de gestão, ela não começa no cargo que eu assumo, começa no meu cotidiano, no meu cotidiano periférico, no meu cotidiano de experiências familiares, na minha ancestralidade, na minha relação com as artes e na minha relação com o direito. Acho que esse essa esse cômpo, essa soma eh que faz essa proposta de gestão que eu tenho hoje. Mas a arte ela tem um lugar especial. Por que para mim ela tem um lugar especial? Primeiro porque a arte ela impede que o nosso coração endureça. Uhum. Né? Frente às adversidades, frente aos desafios, eh frente às dificuldades muitas vezes de promover é o que a gente precisa promover, né? A arte ela o tempo todo nos lembra de conservar a nossa sensibilidade. A arte o tempo todo ela nos lembra das possibilidades de inovar, de criar, de recriar em solos muitas vezes inférteis, né? Então, e ela nasce inclusive da dureza, ela nasce inclusive da tristeza e ela nasce inclusive muitas vezes da dor. Então, acho que a arte ela tem esse papel de emular, né, transformação, de trazer transformação. E ela é muito provocativa no meu dia a dia, porque eu consigo através dela projetar possibilidades, projetar novos projetos onde às vezes as pessoas não conseguem enxergar a mesma coisa que eu. Então, acho que se não fosse a arte, eu acho que eu não conseguiria fazer gestão, eu não conseguiria estar nesse lugar. É, você fala da da dor, né, que a dor também é um um um condutor, né, das nossas ações. Você trabalhou num período eh com violência doméstica contra crianças e adolescentes, né? Eh, e o o seu conhecimento nessa área, você entende também? Acredito que você vai responder que sim, mas queria que você falasse um pouquinho mais. Você entende que o seu conhecimento nessa área impactou a sua visão de gestão e de políticas sociais? Tremendamente, né? É, primeiro porque você, eu acho que tudo, tudo que nos gera incômodo, né? Tudo que nos gera desconforto, eh, serve também para ser provocativo de atitudes, de ações que possam nos levar a ser mais propositivo para as coisas que a gente faz. Então, a dureza de um cotidiano da violência com as crianças e com os adolescentes, eu me envolvi muito num num certo período, ainda mais com a questão da da adoção de crianças, né, com os abrigos e com as instituições de acolhimento, que muitas vezes vem de histórias muito dolorosas do abandono, mas também da violência. Eu acho que eh vivenciar essas histórias, estudar sobre isso também fez com que eu conseguisse projetar o direito e projetar as políticas públicas, não do lugar do técnico, né? Apenas você precisa do técnico, mas o técnico sem empatia, o técnico eh sem você imaginar e estar naquele lugar, ele não vai nos levar muito longe. Eles não não nos leva muito longe, né? Então, com certeza, acho que ter vivenciado essas experiências, ter visto de perto, eh, influenciou tremendamente a minha gestão pública, influencia a minha noção de cuidado. Claro que ele não, novamente não nasce neste momento, né, mas reaviva o entendimento profundo de que a noção de cuidado, por ser cuidada pela minha mãe, por ser cuidada pelos meus, por ser cuidada por um coletivo negro que importante, que reforçava a minha identidade, tudo isso somado me leva a entender essa noção do cuidado como uma noção fundamental dentro do serviço público para fazer gestão, né? fundamental pra gente compreender o valor do ser humano e como a gente pode despertar o engajamento desse ser humano, dessa pessoa naquilo que ela precisa realizar com, né, e descobrindo o seu propósito, né? Então eu acho que é um pouco indissociável, né, essa visão paraa construção da minha noção de cuidado no serviço público. Fica evidente que esse a sua trajetória moldou o seu estilo de liderança, porque estilos de liderança há muitos, né? Agora, essa liderança com este olhar humanizado, acho que ele só, ela só é realmente eh eh construída com trajetórias como a sua. É, eu acho que assim, existe, nós somos seres singulares, né? Muito embora sejamos parecidos em algumas coisas, vinhamos de trajetórias parecidas ou similares enquanto seres humanos ou grupos identitários, enfim. Eh, mas a gente tem a nossa singularidade, né? E eu acho que eu consegui transformar a minha singularidade em vantagem para exercer o meu cargo, as minhas responsabilidades de conhecer muito bem as minhas singularidades para transformá-las em ativo, né? Porque não não é o nosso cargo que é o ativo, é o que a gente é, né? são as nossas singularidades. Então, quando você as reconhece, né, você consegue perceber o que te torna único e transformar, né, esse lado único em uma vantagem, eu acho que isso traça o seu estilo de liderança, traça o seu estilo de gestão. Eu acho que é isso. Eu moldei o meu estilo a partir da minha própria vivência, de quem eu sou. Muito bom. Bom, mas eh nós sabemos, secretária, que paraa população negra os desafios são sempre maiores, né? Basta acessarmos aí qualquer estudo que fale sobre isso, que nós temos essa conclusão. Eh, gostaria de saber da senhora eh nessa sua trajetória, obstáculos específicos que você eh teve ao longo dessa sua carreira. Você poderia trazer alguns elementos para nós? Sim, eu acho que bom. Primeiro obstáculo, né? Eu falei aqui da educação, falei do incentivo a educação, mas foi muito difícil o acesso à educação, apesar de tudo isso, né? Apesar de todo o incentivo, apesar de todo, é, de toda a luta da minha família, dos meus pais, da minha mãe para prover isso, o acesso naquela época, década de 80, década de 90, não era tão tão simples de acontecer, né? Então, acho que essa é uma barreira que até hoje as políticas públicas tentam quebrar, né, de você poder acessar bons colégios, boas estruturas de formação educacional que te permitam, né, também eh ter um uma trajetória educacional mais suave, sem tantos trancos e barrancos, porque pra gente, pessoas negras, se já é difícil, né, no quesito estrutural, estruturante das escolas, né, e já era difícil, era muito mais dio ainda quando a gente tinha um ambiente que de fato não era para você, né? Hoje a gente tem feito esforços, não é? Não é o ideal ainda, mas hoje a gente já tem professores negros, né? Em suas maiorias, a gente já tem uma estrutura eh com o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, mas naquela época a primeira barreira era essa, né? Um um um uma instituição que dizia o tempo todo para você que ali não é teu lugar, né? que tenta te expulsar da da do acesso à escola. Eu acho que é a barreira fundamental para minha trajetória foi o mais desafiante para conseguir suplantar, mas suplantei com todo esse apoio, com um esforço imenso da minha família, que ainda posso dizer que sou privilegiada, apesar de ser uma pessoa negra, porque tenho um pai, tive, né, uma uma presença constante de um pai, de uma mãe, que não é a realidade às vezes de muitas famílias, infelizmente, né? Então isso conta positivamente para suavizar um pouco dentro do que se pode dizer isso, né? A minha trajetória quando eu entro para o para o aspecto profissional mesmo, paraa carreira profissional já dentro do serviço público, né? A gente tá falando de de barreira também de acesso no serviço público, mas isso não foi um problema para mim na entrada naquela época, mas você ser visto dentro da instituição foi não, né? Eu entrei em 98, você citou aqui, ser visto na instituição que e e ter uma uma legitimidade da sua voz dentro da instituição para mim foi muito difícil no começo, né? Apesar de nós termos lá e eu ter referências de pessoas no serviço público, essas referências eram subalternas, né? Eram na era na subalternidade, né? Era menos às vezes do que em alguns eh cargos intermediários, né? Então, a insistência das pessoas verem que você só podia estar em certos lugares ali era uma coisa que me inconformava muito, porque eu sabia que eu tinha possibilidades de dizer, de falar, de contribuir, mas não era simplesmente vista, né? Não era simplesmente eh, enfim, né? Não tinha esse acesso a esses lugares. Além de tudo, as atitudes mesmo, né? as atitudes racistas que a gente enfrenta no cotidiano. Não arrefeceu tanto hoje, mas é lógico que a posição bloqueia um pouco mais, né? E quando você se torna mais conhecido ainda mais, né? Mas naquela ocasião eh as atitudes, as atitudes racistas eu já levei, eh, já tive ofensa injúria racial no meu local de trabalho, né, de pessoas contribuintes. Eu eu me lembro que eu eu entrei no guichê três da prefeitura, era guichê 3, hoje é porta aberta. Eu comecei a trabalhar ali no atendimento e assim era xingada constantemente assim, né, com ofensas racistas o tempo todo, né, e assim, comentários de colegas também, né, ofensivos, principalmente relacionados a gênero da mulher negra, porque é uma sexualização intensa do corpo negro, né, no nos espaços às vezes de trabalho também. Então isso projeta não apenas uma uma negação, né, da sua presença ali, como te inferioriza, te sexualiza, o que faz com que reforce que as pessoas não te vejam como um ser humano potente para crescer dentro de uma instituição. Depois, crescendo na minha carreira, você vai vendo as não oportunidades de ocupação dos cargos, né? você vai vendo as a o não olhar para você, apesar de você ser formado, apesar de você ter graduação, apesar de você ter pós-graduação, muitas vezes também você é eh excluído das oportunidades de acesso a esses espaços. Aconteceu comigo e eu falo, foram entre a minha entrada e o meu primeiro cargo foram 15 anos. Eu conheço colegas meus, né? Conheço, convivi com colegas que no segundo ano, no primeiro ano de prefeitura, já estavam ocupando cargos, já estavam na gestão com menor ou igual conhecimento que o meu, né? Então assim, essas são atitudes, né, de um racismo institucional que a gente que sofre a gente consegue ver, mas quem tá ao redor, né, quem tá na na estrutura ou comandando nas estruturas não consegue e naturaliza e acha que é normal, né? Fora as outras situações, já quando secretária, né, que eh o elevador social, que que você recebe a indicação de que ah, esse o elevador aqui para você é o elevador social, ser barrado em eventos, pedir ser pedido para levantar da cadeira, porque aquele a cadeira era para autoridade, ou seja, eu não era uma autoridade, ninguém nem se dignou a me perguntar se eu poderia ou não ser uma autoridade, né? Então são vários aspectos na trajetória que a gente tem, que uma posição melhor econômica não te livra dos aspectos do racismo, né? Ele vai sempre te assombrar eh em vários momentos do percurso da trajetória profissional. Mas novamente, né, a gente não pode se deixar abater por isso. A gente não pode se deixar esquecer que essa trajetória a gente não faz sozinho, a gente faz de forma coletiva, né? Aí a gente finca o pé e insiste em dizer pra instituição que aquele lugar é nosso, que a gente tem legitimidade para est ali, né? E que a gente vai buscar isso pra gente e pros nossos. Perfeito. Secretária, vamos falar de estratégias. você traz aí uma série de de elementos na sua trajetória, né, de elementos dificultadores, de barreiras que nos são impostas no no cotidiano. É, um dos objetivos do Vozes Negras é exatamente inspirar aquele servidor que aquele servidor, aquela servidora, né, que tá em casa ouvindo a gente ou assistindo a gente, é inspirar essas pessoas de que é possível alçar e eh eh postos mais altos na carreira, que é possível progredir na carreira. Eh, certamente a senhora desenvolveu estratégias objetivas para lidar com essas situações. Poderia citar algumas pra gente além das que você já citou, né, do apoio familiar, né, de se colocar, né, e dizer: "Não, aqui é meu lugar e não vou daqui ninguém me tira". Que mais a gente poderia eh ouvir da senhora de estratégias? Eu penso assim, Daniel, eu acho que é assim, tem muitas pessoas que às vezes vão pensar ou talvez tenham até essas atitudes ou estratégias um pouco pé na porta às vezes, né, de você, ah, eu vou entrar porque é o meu lugar, eu vou fazer e eu vou acontecer. Na minha experiência pessoal, né, dentro desse processo, dessa trajetória, eu vi que o pé na porta ele não ia funcionar, ele ia bloquear as minhas oportunidades. Tal, talvez eu até tivesse êxito, mas talvez o êxito não fosse tão rápido como foi, embora não tão rápido tenha sido, mas eu não não acredito que a gente tenha que assim fazer esses enfrentamentos ostensivos quando a gente tá dentro de uma instituição e quando a gente almeja determinadas posições dentro de uma instituição. É uma algumas das estratégias, né, que eu utilizei. Primeiro é que para assim nunca nunca foi almejado por mim chegar ao cargo de secretário. Acho que é isso importante isso dizer. Primeiro porque eu nem imaginava que isso pudesse acontecer, né? A gente não, eu não tinha referências, né, de mulheres, mulheres negras. A gente não tem referências de pessoas, mulheres negras. Acho que tinha tido um secretário negro, mas não tinham mulheres negras. Então, para mim nem passava pela minha cabeça, né? Porque é isso que o racismo faz também. né? Ele faz com que a gente não acredite, nem passe pela nossa cabeça que determinados espaços são possíveis. Então, não passava pela minha cabeça, mas passava sim pela minha cabeça poder causar transformação, não necessariamente em altas hierarquias, mas contribuir com essa instituição que eu escolhi. Então eu sabia novamente que o único caminho para mim e a maior estratégia é o conhecimento. A primeira e fundamental estratégia, o conhecimento pro serviço público. E aí assim, que tipo de conhecimento? Eh, se você trabalha em certa área, o conhecimento da sua área, a princípio, fundamental, seja o mais eh tem a maior noção possível da sua área, se atualize constantemente na sua área. Não é porque você entrou no serviço público que tá bom, né? Eu já sei, já passei no meu cargo, já passei no meu concurso, tá tudo certo. Não, atualização constante. Essa foi a minha estratégia o tempo todo, eh, me atualizando e me atualizando de áreas diferentes, né? Então, assim, quais eram os quais eram as minhas referências de trabalho que eu sabia ali que dentro do meu cargo, da minha atuação, da minha função, eu poderia ser contributiva e fui buscar conhecimentos diversos que se linkcassem a minha área de trabalho. Então, eu fui, eu tava estudando direito, né, mas eu não fui estudar um direito fora do meu, do meu cotidiano, que é o direito administrativo, né, e fazendo conexões com os direitos humanos. Fui estudar orçamento, fui estudar legislação, fui estudar coisas para conhecer profundamente o serviço público, para quem quer se alçar a esses espaços de gestão, para quem quer eh se alçar a a uma carreira, né, uma projeção de uma carreira dentro do serviço público. Esse tripé para mim é fundamental. Conhecimento orçamentário e financeiro, conhecimento legislativo e o conhecimento em noções de gestão de pessoas. Hoje, ainda mais, como eu sou secretária, mas lá atrás eu já sabia que essa era uma questão importante. A outra coisa, Daniel, para mim que é fundamental, eu tô até escrevendo um livro, acho que eu comentei com você aqui na algumas vezes, eh não saiu ainda porque eu volto no texto, eu falo ainda acho que cabe alguma coisa, então eu mesma tô tô protelando, mas vai sair. E eu falo um pouco disso, né, sobre estratégias para lideranças negras. E uma das estratégias além dessa, do conhecimento que eu falei aqui, é a gente conhecer a instituição que a gente está. Uhum. Né? Assim, a gente precisa entender administrativamente como ela funciona, mas a gente precisa entender como ela ela funciona politicamente. E o politicamente não é só o partidário, né? É importante, né? você fazer leituras do cenário partidário numa instituição pública é importante porque a política partidária transversa e trespassa, né, a o serviço público. Então, se você quer ser alguém que consiga eh projetar ações, transformações efetivas, você tem que conhecer esse cenário. Não significa que você tem que se engajar partidariamente. Eu não sou engajada partidariamente, não tenho filiação partidária, mas tenho uma curiosidade para conhecer, porque a gente precisa, né, desenvolver esse conhecimento. Além de tudo, é conhecer como a instituição de fato funciona, quais são os grupos que são os grupos mais dominantes, quem são os grupos que se conectam, que estratégias esses grupos legitimam, que ações esses grupos legitimam ou não, o que esses grupos gostam de escutar ou não. Entendeu? Existe uma série de códigos institucionais que a gente precisa descobrir, porque não adianta você ter só a ah cheguei, tenho conhecimento, cheguei naquele cargo, OK? Só que a os desafios vão continuar, o racismo vai continuar, a os nos vão continuar. E como você sai disso? Porque não é mágico sentar nessas cadeiras. Não te transforma num suprassumo da magia que te dá um poder de fazer transformação das coisas. né? Eh, na maioria das vezes você não tem nenhuma magia, então você precisa usar de estratégias e e as estratégias precisam partir do conhecimento profundo ou pelo menos de uma perspicácia da instituição. Vou parar por aqui porque senão eu vou contar, vou dar muito spoiler [risadas] do meu livro. Teremos eh muitas estratégias aí divulgadas no seu livro, né? você já comentou um pouquinho sobre ele. Eh, certamente será um um sucesso. Bom, mas eh você acessa o serviço público, então na como via concurso público, né? Ingressa, né, no no no seu cargo, eh desenvolve, né, a sua a sua carreira e você é convidada para compor o alto escalão do município, da prefeitura municipal. Como é que se dá o convite para você ser secretário? Eu sei que a a Secretaria de Gestão não é a primeira secretaria que que você conduz. Eh, houve outros momentos, né? Como é que se dá esse convite, né, do prefeito para que você componha eh a equipe dele? Bom, primeiro, Daniel, é assim, a gente tem que eh também valorizar muito e falar muito de uma palavra chamada gratidão, né? A gente constrói um um uma trajetória, mas a gente constrói a partir de muitas pessoas, de muitas oportunidades e de muitos aliados. Tive a a minha ancestralidade espiritual e terrena junto comigo, amigos, incentivadores, apoiadores, mas também tive aliados brancos, né? Porque a gente precisa ter os aliados brancos, são eles que estão hoje dominando esses espaços e dificilmente a gente consegue chegar nesses espaços também não tiver, né, o apoio desses aliados. Então eu sou muito grata a todos os gestores que conseguiram reconhecer que eu tinha potencial, que eu tinha eh que eu tinha capacidade para fazer os trabalhos que sequencialmente eu fui fazendo. E dois gestores que eu sou muito grata e eu tenho que reconhecer. O primeiro gestor foi o prefeito Jonas na época, né, Jonas Donizete, que reconhece que não me conhecia de cenários políticos, mas que por inserções de conversa técnicas vê o meu trabalho, se interessa pelo meu trabalho e assim, de uma forma que foi uma surpresa para mim, porque novamente a gente nunca espera, né? eh me chama um dia após a eleição dele e me pergunta se eu quero ser secretária de assistência serral. Eu fiquei um pouco paralisada porque assim para mim não sabia naquele momento o que isso significava, né? Porque era tão irreal, né? Tudo tão irreal, distante daquela coisa e ao mesmo tempo, como eu já era assessora da pasta, eu sabia da dimensão daquilo e eu falou: "Meu Deus, né?" Mas, né? Não vou falar não, vou me preparei, né, para tanta coisa na vida. Não me preparei para isso, mas me preparei para muita coisa na vida. Então estudei, então era aquele momento de dizer sim. Então o convite surge nesse, né, né, com isso, né, com com esse olhar que o Jonas teve do meu lado técnico e estritamente técnico, claro, corroborado pela gentileza da Jane Valente, que era minha gestora na época, que era secretária de assistência, de confiar no meu trabalho e me deixar, né, eh eh exercer a secretaria em exercício todas as vezes que ela saía, precisava, que me deu a chance de aparecer, né? Eu falei no início das dificuldades que a gente tem de ser visto, de aparecer. Eh, uma das dificuldades é que as pessoas não deixam a gente aparecer, né? Então, eh, contar com isso, dificilidade quase zero. Exato. Então, quando a gente também conta com quem está, né, num aspecto de maior eh possibilidade de poder, precisa também ter essa consciência racial, antiracista, deixar com que as pessoas negras possam ser visíveis, né, que possam ser vistas. Então eu tive essa visibilidade a partir também dessa atitude antracista generosa, né, que a Jane teve, que possibilitou que o Jonas visse, me visse e confiasse no meu trabalho a ponto de me chamar em 2016, finalzinho de 2016, para assumir a Secretaria de Pessoa com Deficiência, né, e Cidadania que virou em 2017. E novamente renovo aí também a minha gratidão ao prefeito Dário, né, que acompanha a minha trajetória então na secretaria de assistência que foi crescendo, né, crescendo, o que é simbólico, porque ela ela cresceu no nome, cresceu na importância, cresceu no conteúdo e cresce a minha responsabilidade, o que também significa que a as nossas possibilidades para assumir maiores responsabilidades é grande, né? E aí com essa com isso o Dário eh me convida, então quando ele ganha a eleição em 2020 para assumir esse novo desafio que era gestão de pessoas. Eu falo, eu sempre brinco que eu aceitei rapidinho porque eu já tinha ideia do que poderia ser feito nessa pasta. E aí a gente tá, né, estamos aqui hoje, né? Então, minha gratidão aí a esses prefeitos, né, que abriram essas portas, mas renovando, né, fruto também de muita, muito trabalho, de muito compromisso, tá certo? Eh, quando você acessa a pasta, né, passa a liderar a pasta de gestão, é sabido que você rompe paradigmas nesse nesse cenário. E certamente para eh eh efetuar as mudanças, as alterações, aquilo que você acreditava que seria importante nessa pasta, também teve que desenvolver estratégias, né, porque é difícil romper com o velho e trazer o novo. Então, eu gostaria que você comentasse um pouquinho a respeito dessas mudanças, né? O que você destacaria como sendo a principal mudança que você implementou na pasta, né? E se isso foi muito difícil, se você teve que usar estratégias específicas para isso. Tive, tenho. [risadas] E elas vão se renovando, né, de acordo com essa dinamismo também da instituição. Por isso que eu falo, o tempo todo a gente tem que estar ligado na instituição, na dinâmica da instituição, porque às vezes uma estratégia pode funcionar para um certo momento e logo em seguida ela não vai funcionar mais, porque há um, né, há uma fluidez, né, dessa noção de poder dentro das instituições. Então essa fluidez também desloca, né, os grupos, desloca, né, as situações. a gente todo, o tempo todo a gente tem que fazer leituras críticas da instituição e leituras propositivas da instituição. Se a gente é lido, a gente também precisa ler, né? o preto é lido e ele é o tempo todo lido na instar a essa leitura que nem sempre é positiva, né, da nossa da nossa presença dentro dessas instituições. Então, tenho sim na gestão também estratégias que eu sempre uso, mas eu acho, Daniel, assim, só para reforçar e começar assim que falo que e essa questão que a gente tá dialogando aqui com lideranças negras e futuras lideranças negras, eh, eu já falei para você e eu falo assim, eu não tenho compromisso com lideranças ou potenciais e lideranças que não tenham o interesse num potencial transformador do serviço público, porque a gente não acende sozinho, né? qualquer um que for fazer um movimento de tentativa de ascensão solitária para si mesmo, tá fazendo um caminho que não é um desejável, nem para si, porque isso não é sustentável, né, a longo prazo, e muito menos pra instituição, porque a gente precisa de pessoas que pensem com coletivo, que queiram as transformação, que sejam lideranças transformacionais. E aí, sabendo disso e entendendo o significado da representatividade que este cargo tem, porque é o cargo é uma responsabilidade, ele não é uma posição, né? Ele é uma atitude, né? Então, eh, como eu falei, não é sentar nele que te transforma num ser mágico, pelo contrário, sentar nele te traz muita responsabilidade. E a gente é uma pessoa preta, eu que sou uma mulher negra, assim que eu sentei, apesar de toda a grandiosidade que eu relatei aqui, né, ela não era poeril, né, não não era uma grandiosidade de um pensamento ingênuo de que essa representatividade ela é uma conquista muito legal, mas também é um fardo simbólico, né? Porque representatividade significa o que você faz com aquele espaço, com aquele aquela posição. Então, tendo a minha experiência de gestão anterior, tendo a minha experiência de vida, a minha visão de mundo, eh eu sabia que a gente precisava ter uma atitude, como você falou, eh, paradigmática, né, que disruptiva, não sentido de causar, de criar caos, não de pôr pé na porta, né, ou desmoronar conceitos simplesmente porque eu tenho uma visão diferente, não. É, é porque a gente precisava instituir uma nova cultura da organização. Não é uma cultura da Eliane Joselane, não é uma cultura de visão de gestão da Eliana Jcelani, mas de uma cultura organizacional nova que rompesse com tudo o que significa um serviço público que é colonial, um serviço público que não tem diversidade, um serviço público que não reconhece a inovação, um serviço público que não trabalha com dinamismo, um serviço público que não tá imediatamente buscando proximidade com a população. E aí eu falei que eu aceitei rapidinho porque eu já via essa pasta, né, essa política pública de gestão de pessoas, por si só, ela já era uma estratégia, sim, né? por si só, ela já era estratégica paraa gente conquistar essas mudanças de compreensão do serviço público como um locus transformador, não apenas nos aspectos sociais, mas econômicos, culturais, reais da população. Eh, e estratégico também pra gente reposicionar politicamente a visão do serviço público pra própria população, né? é fazer um advoca pra população com sobre a importância dos servidores públicos na construção de um serviço público. Claro, tendo a intenção de dizer que a gente não trabalha pro servidor público, a gente trabalha pra cidade, mas que a gente acredita que o servidor público ele é uma um uma pessoa importantíssima nesse movimento. E aí a primeira estratégia, então esse reposicionamento político da secretaria, né, da gente entender que é uma política pública, independentemente se está hoje a Heliana Jocelani ou quem estará amanhã ou depois, é uma secretaria que precisa estar par e passo com a Secretaria de Justiça, com a Secretaria de Finanças, com o gabinete do prefeito, porque é uma secretaria que precisa pensar, que precisa ser consultiva, que precisa prestar um trabalho importante para as decisões de planejamento da gestão. Além do mais, trazer a transversalidade das políticas afirmativas é uma estratégia fundamental, não só paraa promoção da igualdade racial, mas para essa transformação que a gente deseja pro serviço público. Então, acho que das mais importantes, não menos, né, das mais importantes, tem outras também, mas acho que essas de saídas foram as estratégias que eu vi aí que eram mais Perfeito. Falemos de políticas afirmativas. você já citou aí um pouquinho, né, de de políticas afirmativas. Eh, no caso do Programa de Desenvolvimento de Lideranças Negras, né, na gestão, eh, sabemos que você esteve à frente do desenvolvimento deste programa. Conta um pouquinho para nós como é que foi a gênese, né, do programa de lideranças negras. Eu acho que nasce um pouco lá em 2019, quando a gente começa a pensar a lei de cotas nos concursos públicos, né? Eu estava secretária de assistência social e direitos humanos e a gente já pensava o acesso, né, o acesso da população negra ao serviço público. Quando eu me torno secretária de gestão, coloco a legislação em prática, né, nos concursos públicos em 2022, essa é uma alegria que eu tenho, pessoal, né, você contribuir com uma legislação de criação de cotas e depois você coloca em prática. É a pessoa que vai ser responsável por colocar isso em prática. me deixa muito alegre, mas também me fez perceber que aquilo era só o começo, né, que a gente precisava ter um ciclo de qualificação no serviço público, né? pensar eh os meandros, os caminhos para que a gente chegasse mesmo numa num numa num percentual que vai subindo aos poucos de pessoas ocupando esses espaços, se desenvolvendo, sendo vistas, né, no serviço público, sendo gestoras e líderes ou líderes sem ser gestoras, né, porque tem diferença, né? Então assim, como que a gente podia promover que nós tivéssemos mais lideranças, que a gente tivesse mais gestores negros, mais lideranças negras, mas também que a gente pensasse, né, eh, uma estrutura que tivesse esse engajamento desses servidores negros nessa mudança dessa construção dessa cultura organizacional. Então, foi lá em 2022 que a gente 2021 2022 que a gente começou a pensar o primeiro esbocinho aí do programa de lideranças negras. Mas a gente tinha ainda que eu eu falo que tem coisas que elas têm tempo para nascer mesmo, né? Eh, a gente precisa esperar o tempo de maturação, às vezes de políticas públicas, né? Eu sei que muita gente tem o tempo da pressa, mas nem sempre a pressa combina com políticas públicas sólidas, nem sempre a pressa combina com políticas públicas efetivas. a gente precisa maturar uma política pública. Então a gente precisa precisava aplicar a lei de cotas, precisavamos ter as pessoas entrando no serviço público, tinha uma algumas coisas que precisávamos fazer, mas a ideia surgiu ali. Depois a gente foi buscar pessoas, referências, grupos, a própria comissão, né, que agora vai mudar de novo, que era nome que era de comissão de identificação. E agora passando, né, a legislação nova vai ser a comissão de confirmação de autodeclaração. também nos trouxe ali, nos deu visibilidade de pessoas importantes, de pessoas negras, servidores negros importantes que pensam, que estudam, que poderiam ser contributivos entre eles, você [risadas] e que foram e que foram nos nos ajudando a dar maior conformação para o que a gente queria que se tornasse o programa de lideranças, até que em 2023 vem o decreto, né? E aí já com essa ideia de um ciclo, então entrada, desenvolvimento, né, eh aperfeiçoamento, acesso, né, e aí efetivamente transformações. E aí agora estamos aí muito prestes a lançar o início, né, do curso mesmo. Que coisa boa. Bom, falando em legislação, será que é possível a gente dar um spoiler? Ah, vamos vamos dar um spoiler do que vem de novo aí em termos de legislação da política de cotas e tudo mais. Vamos, vamos, vamos, vamos, porque é uma coisa que é importantíssima para tudo que a gente tá falando aqui. Uhum. É, é mais uma busca por um avanço, né, em tudo que a gente já diz, né, e agradecer o Daniel, porque o Daniel participou ativamente desse processo, não só nas proposituras, mas também nas articulações necessárias. Então, obrigada, Daniel por todo o trabalho aí, né, junto conosco agora, a nossa equipe de concursos, enfim, um trabalho a muitas mãos e cabeças pensantes eh lá desde 2023 ou 24, já pensando aperfeiçoamento da lei de contas, porque assim que a gente começou a aplicar a lei no município, a gente já começou a analisar, é assim que a gente faz, né? Tem tem o ciclo da política pública também. Tem o ciclo da política pública. Você planeja, pensa, prepara a política pública, né? Você implementa e depois você avalia e faz os aperfeiçoamentos que precisam ser feitos. Então a gente fez o ciclo da política pública com a lei de cotas, aplicamos e verificamos o que que de melhorias nós devíamos fazer. E nesse percurso surgiu várias melhorias, né, e que discutimos, né, nosso prefeito prontamente concordou, nosso vice-prefeito também. E aí surge a oportunidade então desse aperfeiçoamento. Então nessa, né, a gente encaminhou aqui nessa semana, a gente encaminhou para pra Câmara um novo PL que substitui completamente a lei de cotas anterior, né? E essa substituição, ela tem a proposição de ampliar, né, o percentual de cotas para as pessoas pretas eh e pardas nos concursos públicos municipais de Campinas, de 20% para 25%. E a gente amplia também os beneficiários, né, os grupos identitários beneficiários das cotas do município também com os indígenas agora com 3% e os quilombolas com 2%. Além disso, a gente tem uma série de aperfeiçoamento que propicia um maior acesso, né, de quem tá como candidato nos concursos, não vai ter mais exclusão, né, caso não haja uma confirmação da da autodeclaração. Então, a pessoa não fica na reserva de vagas, mas ela continua no concurso, né, ampla concorrência, né? Isso. A gente tem chamadas subsequentes no caso de vacância da reserva de vagas para aqueles candidatos que tinham se autodeclarado, mas alcançam eh notas, né, na na na concorrência ampla. Então, a gente tem a possibilidade hoje de chamar mais pessoas também para essas reservas de vagas, cumprindo efetivamente mais ainda as cotas dos concursos públicos. Eu acho que a grande novidade entre tem muitas outras também, mas eu acho que a grande novidade e que é um reforço nas políticas afirmativas, eh, né, em geral, eh, eu acho que é a questão social também que a gente incorpora num outro projeto de lei que faz alteração pro nossos concursos públicos, que hoje a gente tá querendo, né, eh, com esse projeto de lei, garantir a isenção das inscrições dos concursos públicos. para as pessoas que estiverem inscritas, né, cadastradas no Cadastro Único. Eh, isso é importante, dado que muitas vezes as pessoas, a gente sabe, a gente tem, né, realidade de pessoas que às vezes escolhe eu pago o gás, eu pago a luz ou eu faço a inscrição do concurso, né? Isso é um limitador de acesso, isso é um limitador econômico, isso é um limitador, né, de ascensão social. Então com isso a gente abarca, né, independentemente de raça, classe, gênero, né, aliás, de raça, gênero e raça, eh, as pessoas que vão poder ter acesso aos concursos públicos, à inscrição dos concursos públicos. Mas a gente também sabe que pessoas pretas, pardas, indígenas e quilombolas também estão ali nos maiores percentuais de pessoas em situação de vulnerabilidade. Então, é um reforço às políticas afirmativas. a gente agradece, a gente pede o apoio da Câmara para esse projeto de lei e agradecemos todos, né? Obrigado, Daniel. Com certeza. E estamos certos que a nossa parceira aqui no podcast, a Câmara Municipal, a Casa do Povo, nos apoiará [limpando a garganta] nesse intento. Eh, esses elementos que você traz, a gente tá falando de democratização do acesso ao serviço público, né? Acho que é muito importante a gente observar isso. Eh, você traz um um elemento que me sensibiliza, né? às vezes a pessoa simplesmente não consegue acessar porque não consegue pagar a inscrição de um concurso porque existe um custo, existe uma empresa que é contratada para executar aquele trabalho, aquele serviço, né? Então realmente isso é maravilhoso, né? Além da política afirmativa em si, como você destacou, nós estamos falando do aspecto social, não é isso? Muito bom. Eh, na prática, você entende que já é visível o impacto da política de dessa política afirmativa de reserva de vagas no município de Campinas? Ah, eu entendo sim, Daniel. Assim, se você já olha, né, pelas unidades dos serviços públicos, você já vai ver uma presença muito maior de pessoas negras, né, pessoas pretas e pardas, né, dentro do serviço, prestando serviços aí nos centros de saúde, na, né, na nas escolas, nas engenharias, nas obras, não só como pessoas que estão fazendo as obras, mas como engenheiros, né? Todo dia eu conheci um servidor N que entrou recentemente como engenheiro no da na na na secretaria, acho que é de urbanismo que ele está já tá fazendo um trabalho super bacana, super integrado ali com a gestão. E então assim, a gente já vê a olhos nus, né, a gente já começa a ver, mas assim a gente também vai vendo isso na forma como a gente vai encaminhando e vendo, né, as políticas públicas acontecendo, porque são esses olhares diversos, né, que vão tendo essa preocupação. Então, as melhorias que a cidade vai fazendo, as novas ideias, as inovações que vão acontecendo, já tem, né, esse DNA diverso que vem a partir dessas políticas de diversidade. Tô falando de pessoas pretas e pares, tô falando de pessoas com deficiência, porque a gente também tem conseguido com ações, né, eh, como programa de de atenção ao servidor com deficiência também, né, eh, promover a inclusão dos servidores com deficiência é um olhar de, eh, importante, né, dentro dessa diversidade. questões de gênero, né? As pessoas LGBTs que estão aí também contribuem. Então, acho que a gente tem conseguido trazer essa diversidade eh de uma forma concreta nas políticas públicas, dialogando e conversando com a nossa população. Muito bom, maravilhoso. Bom, eh, como daqui a pouquinho o nosso tempo tá se esgotando, eu queria falar de legado. você pudesse eh dizer qual é o legado que você quer deixar eh na sua atuação enquanto servidora pública à frente da Secretaria de Gestão ou qualquer outra eh eh ou qualquer outro espaço que eventualmente você venha a ocupar. Eh, qual seria? Eu acho que eu falei bastante bastante vezes essa palavra aqui. Acho que o meu legado que eu quero deixar é de fato oportunidade. Eu quero que as pessoas tenham oportunidade, né? oportunidade de crescer, oportunidade de ser, oportunidade de existir, oportunidade de viver, de amar, né? Eh, isso tudo dialoga com o que a gente tá fazendo, né? Então, se existe alguma coisa que eu quero deixar, né? Eh, e é poder deixar eh fazer com que as pessoas tenham a oportunidade, né, de acessar direitos, de acessar o serviço público, de contribuir com o serviço público e de crescer na sua carreira. Você já nos nos deu muitas lições aqui já. colocou muitas das estratégias que você usou para alçar, né, para ter oportunidade de crescimento na carreira, né, você falou bastante da importância da formação, do investimento na formação continuada, né, como sendo essencial para esse processo, mas pros servidores que que que nos ouvem ou que nos assistem, em especial os que estão chegando, os jovens servidores, os servidores cotistas que estão chegando aí, né, em grande número, como você, você mesma mencionou, eh, além de tudo isso que você falou, que conselho você daria para esses servidores que almejam ou que desejam crescer na carreira? Eu eu eu às vezes eu fico fazendo uma reflexão e que acho que as pessoas esperavam que quando eu entrasse no serviço público, quando eu entrasse, né, nessa posição de gestão que eu fosse a exceção. Mas eu falo que eu não sou a exceção, eu sou a materialização de tantas e tantos que vieram antes de mim e que lutaram por um serviço público para todos e para todas, né? Então, eh, o que eu diria fosse um conselho é que quem tá na liderança, quem tá chegando na liderança, quem tá entrando no serviço público, não seja exceção, né? Seja materialização, né, das nossas ancestralidades, né, de tudo o que já foi feito antes de nós, né? Materialize os seus sonhos, materialize as suas vontades com estratégia, mas busque-se essa materialização, né? Não seja exceção. Muito bom, muito bom. Bom, nosso tempo tá acabando. Eu queria eh antes de agradecer a você, né, pedir que você desse aí uma mensagem final pros nossos servidores que nos ouve, paraas nossas servidoras que nos ouvem, pro público em geral, né? Deixa aí uma mensagem final, por favor. Bom, pro público em geral, assim, apoiam o serviço público, se interessem pelo serviço público, se interessem, né, pela política cidadã, né, aquela que promove direitos, que promove melhorias e que deve eh tá no nosso cotidiano, né, que a gente se importe, né, com o que acontece no nosso país e na nossa cidade. Eh, e apoiam o serviço público, servidores públicos também. Eh, cobrem também, né, porque também a gente sabe que precisa de cobrança pros servidores públicos. a gente precisa sempre est atento para essa concepção do servir, né? Esse locus é um locus muito diferenciado, né? É um lugar que não cabe vaidade, é um lugar que não, né? Não não não cabe individualismo, por mais que seja o local de manutenção da nossa subsistência, mas como ele foi um local escolhido e a gente sabia o que a gente tava escolhendo quando a gente entrou, né? Que a gente tem esse compromisso com servir, né? Eu falo que para todos os servidores das nossas recepções institucionais que a gente eh que a contraprestação vem depois da prestação, né? Então que a gente preste um trabalho de qualidade com muito compromisso, com sempre com ética, né? Pra gente poder dar o melhor paraa nossa população. Mas quem é servidor também deixa um recado, porque não é fácil ser servidor público, né? É muito difícil ser servidor público num contexto atual, né? com tantas complexidades, tantos desafios complexos que demandam muito e colocam também uma carga muito pesada nos nossos ombros, né? é uma responsabilidade muito grande. Então, para esses servidores, eh, eu digo que assim, a gente tem direito também, né, de ser ser humano. A gente tem direito de respirar, a gente tem direito, eh, de chorar, a gente tem direito às vezes, né, de de buscar, né, auxílio. E é para isso que a gente tá tratando de gestão de pessoas, pra gente poder eh acolher, pra gente poder eh cuidar, para que todos vocês, todos eles, possam fazer o melhor pela nossa cidade. Muito bom. Hoje nosso microfone se abriu como um tambor que anuncia o nascer do dia. Neste nosso episódio, celebramos a voz que fez morada nesse espaço nascido do programa de desenvolvimento de lideranças negras, um território de memória, luta e reinvenção. Somos ponte, somos canto, somos movimento. E é nesse compasso que recebemos uma mulher que é farol, que habita o alto da gestão pública como quem finca raízes e ao mesmo tempo abre estradas. Eliane Joseline Pereira chegou hoje como quem traz nas mãos um gesto de futuro e nós a escutamos com respeito que se tem diante de alguém que carrega a força de muitas. Muito obrigado pela sua presença. Ai, obrigada. Que lindo. Não sei se eu tô tudo isso, mas vou me esforçar. Com [risadas] certeza. Eh, aproveito para agradecer a todos os profissionais envolvidos aqui na produção desse nosso projeto, né? Sempre menciono que aqui à minha frente nós temos uma galera, temos uma equipe de muitas pessoas fazendo com que esse trabalho, com que esse projeto aconteça. Então, nossos sinceros agradecimentos. Gostaria também de fazer um agradecimento especial a uma pessoa que eu ainda não citei aqui no nosso podcast, que é o nosso amigo, companheiro de muitas lutas, Fábio Custódio, que atua com a gente, que é um homem branco, mas que está nessa luta pelo pela igualdade, pela equidade há muito e muito tempo. E a você que tá em casa, que está nos assistindo, continue curtindo o nosso programa, continue nos assistindo. Se você gostou, compartilha [música] e nós esperamos vocês em breve. Um abraço a todas e todos. [música] [música] [música] [música] [música]